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Lampião Mata Joventino:Crime traçado nas terras de "Água Branca". Por João de Sousa Lima


Água Branca em Alagoas foi uma das cidades que sofreu a fúria do cangaço. em 1922 Lampião realizou o famoso saque a Baronesa de Água Branca, a senhora Joana Vieira,os povoados Tingui e Alto dos Coelhos era reduto de cangaceiros e viu também as ações violentas do cangaço, onde várias pessoas foram mortas. Um dos capítulos de morte nessas terras aconteceu na Fazenda Riacho Seco, de propriedade de Abel Torres, filho da Baronesa de Água Branca.


O crime aconteceu por consequência de uma fofoca. um rapaz chegou em Água Branca procurando emprego como vaqueiro e falaram que pra trabalhar como vaqueiro estava difícil pois os cangaceiros estavam espalhados por toda região, o rapaz respondeu que para Lampião tinha era um "Parabellun" pra atirar nele, falou isso em um movimentado dia de feira, onde coiteiros andavam vasculhando informações. No mesmo dia Lampião ficou sabendo da afronta do jovem Joventino.

Joventino conseguiu trabalho nas terras de Abel Torres e foi morar na fazenda Riacho Seco, próximo a divisa de Água Branca com Olho Dágua do Casado. nessa fazenda tinha duas casas, residindo em uma delas o senhor Antônio Zezé e em outra morava Joaquim Gomes. Joventino ficou na casa que morava Joaquim Gomes. Lampião ficou sabendo do paradeiro de Joventino e foi com "Pitombeira" (Zacarias Bode), Luiz Pedro e mais dois companheiros. os cinco cangaceiros se aproximaram da casa onde estava Joventino.


Lampião já no terreiro gritou:- Joventino cadê o Parabellun que você tem pra atirar neu? Joventino saiu da casa e quando chegou no alpendre os cangaceiros o pegaram e o rapaz negou sofre o recado desaforado que tinha mandado pra Lampião.- Isso é mentira!!!!  Lampião sem contar conversa atirou no rapaz que já caiu morto, com o corpo do rapaz ensanguentado no chão os cangaceiros entraram na casa, o cangaceiro Pitombeira encontrou o senhor Antônio Laurentino (Lorentino).Lorentino era vaqueiro que tinha os pés aleijados. Pitombeira tinha uma antiga rixa com Antônio Lorentino e viu nesse momento a oportunidade de se vingar.

A intriga entre os dois começou por causa de uma cerca que Pitombeira estava fazendo e invadindo um pedaço do terreno do patrão de Lorentino, na fazenda do Talhado, o proprietário Abel Torres empatou de Pitombeira fazer a cerca e ai criou-se uma intriga entre o futuro cangaceiro e o vaqueiro. Pitombeira e outros cangaceiros seguraram Antônio  Lorentino para matar e nesse momento outro vaqueiro, chamado Mané Egídio se atravessou na frente de Pitombeira e falou:- Esse daqui você não mata não!!! Lampião olhando a cena, sentenciou: - Aqui não se mata ninguém, esse daqui fica pra ir a visar ao patrão pra ele vir enterrar o defunto!


Esse valente vaqueiro Mané Egídio que livrou o amigo da morte certa, mais tarde tronou-se o famoso cangaceiro Barra Nova, um dos bravos homens do grupo de Lampião. Em abril de 2019, eu, Aldiro Gomes, Thomaz Deyvid e Raul Sandes, estivemos nessa fazenda e nas duas casas conhecendo esses dois monumentos que viveram a história do cangaço. Uma saga vivida entre a razão e a violência onde homens pagavam com as vidas por uma simples palavra empenhada, muitas vezes simples palavras jogadas ao vento, sem intenção de se transformar em verdade. tempos difíceis e conturbados. hoje escombros cobrem os sangues do passado e marcam os fatos vivenciados nessas terras.....

João de Sousa Lima,Historiador e Escritor
Alto dos Coelhos, Água Branca. Alagoas.
em 20 de junho de 2019.
joaodesousalima.blogspot.com

Major Thomaz Macier Pinheiro por:João Bosco André

O Major Thomaz Macier Pinheiro, foi Interventor de Missão Velha, nomeado pelo Presidente do Estado Dr. José Moreira da Rocha, no dia 10 de maio de 1926, por ocasião da tomada da Prefeitura pelo Cel. Izaias Arruda, a custa de balas no dia 19 de abril de 1926, desapenado do poder o Cel. Zeca Dantas. o Major Thomaz Maciel Pinheiro, governou Missão Velha de 10 de maio a 30 de novembro de 1926, tendo construído neste pequeno espaço de tempo o Curral da Matança, para o abate do gado e outros animais para o consumo da população, ficando o citado curral, localizado no quadrilátero: das ruas Padre Félix (a época Rua do Prado), Desembargador Juvêncio Santana, Travessa Joaquim Freire (por traz do Cariri Clube) e a atual Praça Cel. Francisco Arrais Maia (antiga Praça Nossa Senhora de Fátima). A eleição que elegeu o Cel. Izaias Arruda de Figueiredo (1º Prefeito Constitucional do Município), realizou-se no dia 15 de novembro tendo o mesmo tomado posse no dia 30 de novembro de 1926.

Bosco André, Missão Velha
Conselheiro Cariri Cangaço

Historiador e Escritor João de Sousa Lima assume a Presidência do IGH - Instituto Geográfico e Histórico de Paulo Afonso

João de Sousa Lima e Antônio Galdino

Em solenidade bastante concorrida aconteceu na noite da sexta-feira, dia 14 de Junho de 2019, na Casa da Cultura de Paulo Afonso, a posse da nova diretoria do IGH/PA – Instituto Geográfico e Histórico de Paulo Afonso para o biênio 2019/2021.Os novos eleitos, na segunda-feira, 10, foram:Presidente – Historiador e escritor João de Sousa Lima, Vice-presidente – Engenheiro, pesquisador Flávio José Ataíde da Motta, Secretária – Geógrafa Marta Tavares, Tesoureiro – Professor Severino Gilson Peixoto de Oliveira.

Além dos membros do IGH, estiveram presentes à solenidade vários membros da Academia de Letras de Paulo Afonso - ALPA e significativa representação da sociedade local. A prefeitura de Paulo Afonso se fez representar pela Sra. Juvandir Tenório (D. Didi), esposa do prefeito Luiz Barbosa de Deus. Pela ALPA, além do seu presidente, Professor e escritor Antônio Galdino da Silva, estavam presentes, João de Sousa Lima, vice-presidente da ALPA e novo presidente do IGH, Socorro Mendonça, Marcos Antônio Lima (que veio de Santa Brígida/Colônia), Roberto Ricardo (fundador do IGH), Edson Barreto e Luiz Rubem.

Na mesa de honra estavam o presidente do IGH, Professor Severino Gilson, D. Juvandir Tenório, o Tenente Coronel Cardoso, da 1ª Cia de Infantaria, o presidente da ALPA, o advogado Isac Oliveira e o Professor, ex-deputado federal e ex-padre Manoel Alcides Modesto Coelho.No auditório da Casa da Cultura, membros do IGH e amigos e familiares dos novos diretores do IGH-PA. Os eleitos prestaram o juramento de posse e, em seus discursos disseram do desejo e continuar o trabalho de resgate e preservação da história de Paulo Afonso.


João de Sousa Lima falou de sua luta incansável na busca de informações preciosas sobre a história do cangaço na região, tema de 8 dos seus livros e outros fatos históricos e agradeceu “pela acolhida que esta cidade me deu e à minha família desde que aqui cheguei, com 10 anos de idade e a Câmara já me fez Cidadão deste município. Hoje é dia de muita emoção, por ter recebido os votos dos colegas do IGH para representá-los nessa importante instituição cultural e por ver aqui, grandes amigos, prestigiando essa minha posse à frente do IGH. Estaremos todos dedicados a continuar essa caminhada, valorizando a cultura e a história de Paulo Afonso”. 

A solenidade de posse da nova diretoria do IGH teve ainda o brilho da poesia criada e apresentada pelo poeta Robson, de Jeremoabo “mas apaixonado por Paulo Afonso”, feita especialmente para este evento, em homenagem a João de Sousa Lima e a boa música Raffael di Oliveira, do Projeto Arte em Cena da Secretaria de Cultura da Prefeitura e a participação de um dos seus melhores alunos, Guilherme Marques. A convite do novo presidente do IGH, a solenidade foi conduzida por Paulo Roberto.

Antônio Galdino - Fotos: Negrito Alcântara
Fonte: joaodesousalima.blogspot.com  

O Inesquecível Crepúsculo Matuto no Sertão do Ceara: Cariri Cangaço Quixeramobim

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O Pôr do sol é o momento em que o astro rei se oculta no horizonte na direção oeste; sendo o inicio da noite; sem dúvidas um dos mais fantásticos espetáculos da natureza: Crepúsculo ! Desta vez o sertão central cearense no extraordinário "Salva Vidas" de Quixeramobim, foi responsável por um dos momentos marcantes do Cariri Cangaço 2019. Sob as bençãos de Nossa Senhora das Graças, a capelinha do Salva Vidas testemunhou um dos momentos mais sublimes de toda a programação do Cariri Cangaço cearense.
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Manoel Serafim, Manoel Severo e Louro Teles 
Ingrid Rebouças
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Antes mesmo da programação literária, os participantes tiveram a oportunidade de conhecer um dos cenários mais bonitos do interior do Ceará. Ali no meio da caatinga brava do sertão central se erguem os magníficos monólitos do Salva Vidas, emoldurando e margeando o açude de mesmo nome, região para onde afluem artistas, fotógrafos, poetas e os mais variados apaixonados pela natureza. Ali aconteceu o final de tarde da programação do Cariri Cangaço Quixeramobim em seu segundo dia, 25 de maio.
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 Louro Teles
 Maria Oliveira, Ingrid Rebouças e Rai Arts
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Um monólito ou monolito é uma estrutura geológica, como uma montanha, por exemplo, constituído por uma única e maciça pedra ou rocha, ou um único pedaço de rocha colocado como tal. A palavra deriva do latim monolithus que deriva da palavra grega μονόλιθος (Monólithos), que por sua vez é derivada de μόνος ("um" ou "único") e λίθος ("pedra"), ou seja, significa "pedra única". Os monólitos geológicos são, geralmente, resultado da erosão que normalmente expõe essas formações, que são na maioria das vezes feita de rochas muito duras de origem metamórficas ou ígneas. São geralmente um grande bloco único de rocha exposto no terreno, homogêneo e sem fraturas, de dimensões decamétricas em geral ou maiores e, muitas vezes, associados a campos de matacões(boulders) que são de dimensões métricas.
O Salva Vidas sob o olhar de Ingrid Rebouças

O sol já havia partido quando os convidados do Cariri Cangaço, no "patamar " da capela de Nossa Senhora das Graças, acompanharam o lançamento do livro "O Cinema dos Fósseis" do poeta, escritor,  dramaturgo e compositor cearense Alan Mendonça. Com mediação e debates a cargo dos escritores Bruno Paulino e Renato Pessoa, o momento contou com a apresentação da obra e do trabalho do autor que completa quase 20 anos de produção artística.
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 Capela de Nossa Senhora das Graças e o Crepúsculo sertanejo no Cariri Cangaço.
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"De forma inédita o Cariri Cangaço abre espaço para a mais festejada manifestação da nova poesia cearense, ter em nossa programação a presença dos grandes poetas da nova geração cearense é um privilégio. Alan Mendonça é uma dessas pessoas que se guarda no coração; não só pelos inegáveis, talento e obra, mas acima de tudo pela grande figura humana que é, e a seu lado duas pérolas; nossos queridos amigos e não menos talentosos; Bruno Paulino e Renato Pessoa, sem dúvidas um inesquecível crepúsculo de Cariri Cangaço no sertão do Ceará" afirma o curador do Cariri Cangaço, Manoel Severo.
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Bruno Paulino, Alan Mendonça e Renato Pessoa
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Por cerca de uma hora os poetas Alan Mendonça, Bruno Paulino e Renato Pessoa discorreram sobre a magia da poesia que nasce da alma verdadeiramente sertaneja e da feliz iniciativa do Cariri Cangaço Quixeramobim.
Foto de Tim Oliveira
Alan Mendonça que já está na estrada há vinte anos, comemora seu talento a partir de uma trajetória cheia de muito trabalho, inspiração, poemas, composições e muita arte. Além dos poemas imortalizados em livros, Alan festeja também muitas composições gravadas por grandes nomes da música cearense, como Mona Gadelha, Calé Alencar e Fernando Rosa, numa autentica festa do talento e da arte cearense. O lançamento de “O cinema dos fósseis”, apresenta um "Alan Mendonça de estética minimalista, breve  e em forte diálogo com o imagético por meio de ilustrações de diversos artistas plásticos, entre eles:Descartes Gadelha, Rafael Limaverde e Fernanda Meireles."
Ainda sobre a obra: "O livro – sexto de poesia assinado por Alan e saído pela Editora Radiadora – tem prefácio assinado pelos escritores Carlos Vazconcelos e Kelsen Bravos e adentra o universo da intimidade humana, priorizando, nesse percursos, detalhes de medo, esperança, festa e vazio. O resultado é uma intrigante combinação de gritos e silêncios, na mesma medida." comenta o jornalista do Diário do Nordeste, Diego Barbosa. 

A Praça da Matriz em festa para o Boemidade e o Cariri Cangaço
Fracine Maria, Manoel Severo, Rodrigo Honorato e Francivaldo Romão
 Bruno Paulino, Manoel Severo e Goreth Pimentel
Ana Lúcia, Elane e Archimedes Marques e Lívio Ferraz
Pedro Igor, Manoel Severo e Louro Teles


O final do segundo dia de Cariri Cangaço Quixeramobim ainda reservava mais surpresas no campo da poesia e da música. Na praça principal de Quixeramobim o Cariri Cangaço foi recepcionado pelo Grupo "Boemidade" composto por compositores, interpretes e músicos locais que perpetuam a alma da musica popular brasileira em praça pública. Composições de monstros sagrados da musica brasileira das décadas de 40, 50 e 60  desfilaram por boa parte da noite quando também testemunhamos o último momento da programação Cariri Cangaço para este dia 25 de Maio, o lançamento do festejado e premiado "A Cidade" do escritor e poeta cearense Maílson Furtado, ganhador do Prêmio Jabuti 2018.


Manoel Severo, Mailson Furtado, Bruno Paulino e Renato Pessoa
Francine Maria e Mailson Furtado
Pedro Lucas, Suely, Nair Lima, Coronel Marcelo Leal e Manoel Severo
Manoel Serafim, Lívio Ferraz, Ângela e Luiz Ruben
Arthur Holanda e Ingrid Rebouças

A mesa teve como mediadores os escritores Bruno Paulino e Renato Pessoa que apresentaram a obra festejada de Mailson Furtado e protagonizaram também a apresentação do autor; uma das mais gratas revelações da poesia cearense, filho da cidade de Varjota, na região norte do estado do Ceará; Maílson Furtado, que oportunizou a todos conhecer suas principais referências literárias, sua inspiração e o sentimento ao ganhar um dos mais cobiçados prêmios literários do Brasil, em 2018.

A obra de poesia "à cidade", de Mailson Furtado Viana, foi escolhida como o livro do ano no 60º Prêmio Jabuti. O prêmio foi entregue pela Câmara Brasileira do Livro - CBL, esta que é a mais tradicional premiação literária do país. O autor, Mailson Furtado,  foi escolhido entre os ganhadores de todas as categorias do Jabuti 2018, em cerimônia no Auditório do Ibirapuera, em São Paulo. As categorias do Jabuti estão divididas em quatro eixos: Literatura, Ensaios, Livro e Inovação. Este último contempla ações de incentivo à leitura. Prêmio Jabuti: Eixo -  Literatura tendo como Livro do ano: "à cidade" (Autor Independente), de Mailson Furtado Viana.

Lili Conceição, Manoel Severo e Luana Lira
 Damata João, Abimael e Mucio Procópio
 Cristina Couto e Fatima Lemos
 Luana Lira, Ingrid Rebouças, Manoela e Pedro Barbosa
Pedro Igor, Manoel Severo e Heldemar Garcia

Segundo Dia de Cariri Cangaço Quixeramobim
Capela de Nossa Senhora das Graças, Salva Vidas
Praça da Matriz - Quixeramobim-Ceara
Tarde e Noite de 25 de Maio de 2019
Fotos de Louro Teles e Ingrid Rebouças

O Cangaço em Brejo dos Santos no Regime Monárquico - Parte I Por:Munganga Cultural

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Sempre foi de notória agitação o clima na região sul cearense. No Cariri, região que de certa forma, lhe corresponde, desde seus primórdios, registraram-se disputas e conflitos, a partir mesmo do período da posse da terra, na época das Sesmarias. Muito mais conturbado, todavia, surgiu o século 19. A seca de 1877, com seu cortejo de miséria, arruinou a província do Ceará. Milhares de retirantes percorriam as estradas em demanda de vilas e cidades onde imploravam a esmola para matar a fome.

No Cariri, a despeito de ser região privilegiada, a fome fazia devastações. Morriam, diariamente, no Crato, de 12 a 16 pessoas. Os famintos não tinham força para mendigar. Às vezes, antes de recolher a esmola, caiam agonizantes, com as feições convulsas, no transe derradeiro. No meio dessa calamidade, surgiam bandos de cangaceiros que se apoderavam dos bens alheios. Os próprios retirantes invadiam as propriedades em busca de alimento. Furto, roubo, tomada de presos, assassinatos, prostituição e morte por falta de pão, eis as consequências desse flagelo.

Vários grupos de cangaceiros andavam sobre o chão do povoado de Brejo dos Santos. O flagelo começou nos fins de 1874, com o bando de Inocêncio Pereira da Silva, vulgo Inocêncio Vermelho, foragido da vila de Misericórdia (atual Itaporanga), na província da Paraíba, onde assassinara Andrelino Araújo. Perseguidos por Antônio Tomás de Araújo Aquino, irmão da vítima, passavam-se os criminosos para a Comarca confinante de Jardim. Residiam, ora no Salgadinho, do termo de Milagres, ora na povoação de Brejo dos Santos, do termo de Jardim. Gozando da proteção do Juiz Municipal de Jardim, Dr. Antônio Augusto de Araújo Lima, Inocêncio chegou a exercer funções policiais contra criminosos desvalidos, em toda zona banhada pelo riacho dos Porcos.

Logo depois, fugido da cadeia de Crato, juntou-se ao grupo de Inocêncio Vermelho, o criminoso João Calangro, natural de Milagres, onde era conhecido por João Senhorinha. Seu verdadeiro nome, porém, era João de Sousa Calangro. Ele era de estatura baixa, sardento e de cabelos cor de fogo, e não deve ser confundido com o negro João Calangro, perverso cangaceiro de Antônio Quelé, abatido no dia 27 de novembro de 1910 por companheiros seus, nas proximidades de Jati, entre a ladeira do Pacífico e a fazenda Oitis.

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Com isso, os salteadores, transformados em agentes policiais, mantinham a ordem nos povoados e prendiam os criminosos desvalidos. O banditismo político chegava ao ponto de uma autoridade regeneradora encarecer ante o Governo Provincial, os serviços que Inocêncio Vermelho tinha prestado, e pedir, ao mesmo tempo, para o bandido, remuneração por iguais serviços, ou promover a sua livrança.
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A Comarca de Jardim tornava-se um viveiro de criminosos, no qual José Ataíde Siqueira (Zuza Ataíde), Inocêncio Vermelho, João Calangro, Barbosas, Brilhantes, Viriatos, Agostinho Pereira, Pedro Simplício, Carneiro, Manuel Tomás e outros representam o papel de peixe-rei, cuja força estava na razão das façanhas. Em junho de 1876, Inocêncio foi morto na região do Poço, por Sebastião Pelado, que agia a mandado de Antônio Tomás de Araújo Aquino, irmão de Andrelino de Araújo. Morto Inocêncio, João Calangro assumiu a chefia do grupo, ao qual se incorporou Antônio Vermelho, irmão de Inocêncio, a fim de liquidar Sebastião Pelado, que, por sua vez, formava outro grupo. 

A luta entre esses bandos rivais, cuja zona de operações se estendia ao território paraibano, atingiu seu clímax quando Dinamarico e José Pombo Roxo, do grupo de Pelado, eram mortos por João Calangro e Gato Brabo, e Manuel de Barros, do séquito de Calangro, foi morto por Pelado. Naqueles velhos tempos, o Brejo era o lugar preferido pelos bandoleiros que infestavam o Cariri, por motivo de suas condições naturais. No meado de 1876, procedente da vila de Várzea Alegre, ali se encostou o facínora Luís de Góis, acompanhado de Zuza Ataíde.

Dentro da povoação de Porteiras, os dois grupos se defrontavam e travavam forte tiroteio, morrendo na luta José Roberto, que ali se reunira com Pelado. O morto, famoso sicário, vivia sob a proteção do capitão José Mateus Pereira da Silva, morador na comarca de Vila Bela, da província de Pernambuco. O capitão José Mateus exigia de Sebastião Pelado a orelha de João Calangro, ameaçando-o de morte caso não se desincumbisse logo a tarefa. Para agravar ainda mais a situação dos habitantes da região, forças irregulares do capitão José Mateus chegaram ao Brejo, em perseguição ao grupo de Calangro. Num encontro entre os dois grupos, Sebastião Pelado recebia mortal ferimento, enquanto João Calangro, sabendo do estado do capitão José Mateus em Porteiras, ia até a povoação, no dia 02 de agosto de 1877, e lá diria-lhe toda sorte de impropérios e ameaças por espaço de dez horas.

O capitão José Mateus seguia com destino ao Pajeú, região baluarte dos Pereiras, e de lá trazia mais de cem homens, encontrando-se entre eles grande número de delinquentes. O 2° suplente de Juiz Municipal de Jardim, capitão Juvenal Simplício Pereira da Silva, sobrinho legítimo de José Mateus, assumia o exercício e autorizava a Força de Mateus a capturar João Calangro. A Força era divida em três grupos. Seguia um para Brejo dos Santos, outro para Missão Velha, e outro, comandado por Mateus e seus genros Galdino Alves de Araújo Maroto e Manuel Pereira da Silva, para Milagres.

Em 15 de agosto de 1877, o grupo comandado por Mateus assassinava a Manuel Valentim e espancava barbaramente a Trajano de tal, pelo simples fato de agasalharem o grupo de Calangro. A Força pernambucana, a pretexto de perseguir Calangro, praticava uma série de delitos. O tenente Alfredo da Costa Weyne, que se achava em Milagres, deliberava por cobrança a tais atrocidades. Aceitava, porém, a sugestão do Dr. Antônio Augusto de Araújo Lima, que julgava mais acertado enviar Balduíno Leão, amigo de Galdino Maroto, a fim de encontrar uma solução honrosa.

Balduíno, amigavelmente, conseguia que dez homens de Mateus se incorporassem à Força de Weyne, o que ocorria no sítio Bela Vista, distante meia légua de Milagres. De volta de sua excursão, os Mateus chegavam a Milagres no dia 23 de agosto, em número de 40, depois de serem cometido as maiores violências contra sertanejos indefesos. A permissão dada ao capitão Mateus, para, com Força irregular, perseguir os Calangros, criava péssimo precedente e aumentava a insegurança individual na região. Os grupos de Mateus preocupavam sobremaneira as autoridades cearenses. Um dos grupos tinha por comandante a José Rodrigues e o outro a Vila Nova, ambos conhecidos assassinos. 
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No dia 29 de agosto, o tenente Weyne recebia requisição dos Juízes de Direito de Barbalha e Crato, cujas cidades estavam ameaçadas de ser assaltadas por mencionados grupos. A exemplo dos bandos de Mateus formavam-se outros grupos que se diziam gente do aludido Capitão, mas que visavam ao roubo e ao furto. O sul cearense vivia dias incertos. Além dos Calangros, operavam os Viriatos na Boa Esperança e os Barbosas no Salgadinho. 

À parte, mas sob os comandos de João Calangro, havia surgido, em Milagres, o grupo dos Quirinos, chefiados por três irmãos, o mais velho dos quais se chamava Quirino. Agiam também, sob a proteção de Calangro, Jesuíno Brilhante (Jesuíno Brilhante de Melo Calado) e Gato Brabo, os dois últimos também no comando de grupos. Por conveniência, esses bandos agiam separadamente. Havia, entre eles, porém, um “tratado de aliança defensiva e ofensiva de sorte que, quando receavam alguma conspiração, reuniam-se imediatamente, tomando João Calangro o comando gera”. João Calangro acabara por expulsar os Mateus do Ceará. As populações caririenses responsabilizaram o capitão Mateus pela quase extinção de gados. E com isso, passavam a confiar em João Calangro.

Essa confiança “subiu ao ponto de desejar-se pelos povoados, sobretudo em dias de feira, a presença de João Calangro para garantia daquilo que cada um trazia ao mercado publico. Ultimamente povoados, senhores de engenhos e fazendeiros disputavam, como ainda disputam, à porfia, a sua presença sempre que sabem que se aproxima algum grupo de malfazejos, ou temem qualquer assalto. Por isso ele foi obrigado a aumentar o número de seus policiais... E desse modo nulificou-se entre nós completamente a autoridade publica que foi substituída por João Calangro, que entende que a ele e tão somente a ele, o Cariri deve não ter sofrido maiores desgraças” (em “Cearense”, edição de 11 de outubro de 1877). 
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Entrada da "Gruta de João Calango"
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Correspondências de Barbalha publicadas em Cearense diziam que a cidade estava "sendo garantida pelo grupo do célebre João Calangro, protegido pelas autoridades". Compunha-se o grupo de 22 homens "que trajava a casimira, notando que quase todos os outros são subordinados, pelo fará 100 homens a qualquer hora". Um dos correspondentes concluía: "Hoje é perigoso ser rico, pois o povo pobre (os bandidos) lhes hão declarado guerra de extermínio" (em Cearense, 24.02 e 17.03.1878). No Cariri, os particulares garantiam o direito de propriedade com armas nas mãos. Em Barbalha, as casas Sampaio, Santiago e outras estavam convertidas em quartéis.  

Em Constituição, de 17 de fevereiro de 1878, publicava carta de Missão Velha, na qual o correspondente afirmava que os ladrões de gado aumentavam dia a dia, e que a cadeia estava cheia deles. Carta de Barbalha, publicada na mesma edição, comunicava que o gado, a cana e a mandioca não podiam mais produzir, "porque o furto é por demais". E finalizava: "A seca é a causa de tudo".

Aliás, por toda a Província flagelada pela seca, o direito de propriedade recebia tremendos impactos. O gado, retirado para o Piauí, ao voltar para o Ceará, na Serra Grande, não conseguia atravessar a linha de salteadores. No centro da Província, outros bandos de salteadores "acometem a propriedade com a maior ostentação, dir-se-á que se proclamou entre nós o comunismo". Na vila de União, o célebre José Rodrigues, à frente de um bando, assaltava os carros nas estradas, tomava os víveres e os distribuía "como se fosse coisa sua" (em Cearense, de 22 e 27.02 e 01.03.1878).

Continua...

Memórias Sangradas Por: Ricardo Beliel


Bom de prosa, Zé de Olindo nos diz "Zé Sereno e Sila se casaram na Serra Negra e depois se entregaram apoiados por meu pai Antonio Olindo. Corisco quis se entregar para meu tio João Maria, mas preferiu fugir e Zé Rufino, que era da Serra Negra saiu na perseguição. Os cangaceiros aqui não ficaram na cadeia. Foram para a casa de Chico Capitão, que era comerciante de peles, porque tinham medo de vingança, mas viviam nas ruas. Soltos. Era muita curiosidade da gente. Todo mundo queria ver como eles eram. Curiosidade e um pouquinho de medo. Mas Cajazeira e Diferente fugiram. O Cajazeira, que era filho de um coiteiro, o Julião, depois foi candidato a prefeito de Poço Redondo, apoiado por meu tio, mas perdeu e depois roubou as urnas. Para se vingar do prefeito, o Artur, contratou dois pistoleiros, mas quando ele tratou com os dois, o Eron e o Alfredão, eles já estavam entabulados com o outro lado e mataram ele. Cajazeira tinha sobrevivido ao Angico e era casado com Enedina, que morreu no cerco. Depois ele se casou com a irmã dela".

João Capoeira, irmão de Enedina e de Estela, a segunda mulher de Cajazeira, tinha agrado por Zé de Julião, como era conhecido Cajazeira entre os seus, e nos conta em sua pequena casa de dois cômodos em Poço Redondo, amparando seus 106 anos num pau de muleta, que "todo mundo aqui queria que ele fosse prefeito, mas o governo não aceitou não. O Eronides, que foi governador lá na capital, queria outro. Ele pelejou, mas não teve jeito". Julião, um bem sucedido dono de fazendas e pai de seu cunhado, tentou de tudo para tirar da cabeça do filho, Zé, o desejo de se aventurar na companhia dos cangaceiros. "Minha família era pobre e o Zé era fazendeiro. Nós morava na fazenda deles, de nome Jiquiri. O pai dele dava tudo para o filho não entrar nessa vida de bandido, pediu para ele escolher uma das quatro fazendas e até uma casa em Aracaju, em todo canto, mas não teve jeito. Terminou de fazer o casamento com minha irmã e os dois foram pros lados dos cangaceiros. Ela morreu no fogo, mais Lampeão. Lampeão não era conforme o povo dizia. Era um hominho, respeitador de todo mundo". Seu João Capoeira não seguiu os passos e percalços de Enedina, ainda muito jovem preferiu dar ouvidos às palavras de sua irmã mais velha, "não caia nisso não. É só pra nós que já estamos perdidos, pois que cangaceiro é comida de bala".

"Depoimentos de Zé de Olindo, em Jeremoabo, e João Capoeira, em Poço Redondo, Sergipe" Trecho do livro Memórias Sangradas, a ser lançado, sobre a saga dos cangaceiros nos anos 20 e 30.Foto e texto de Ricardo Beliel.



Comentários do Conselheiro Cariri Cangaço, pesquisador e escritor de Poço Redondo, Sergipe, Rangel Alves da Costa:"Alguns equívocos cometidos por Seu Zé de Olindo. Julião de Nascimento, o pai de Zé de Julião (Cajazeira), não pode ser visto propriamente como coiteiro. Ele era fazendeiro, proprietário de muitas terras, e mais voltado para os seus negócios do que para o cangaço. Aliás, seu filho Zé entrou para o cangaço exatamente pelas extorsões feitas pela volante contra seu pai, bem como todos os tipos de agressões praticadas contra os humildes sertanejos. Como não podia revidar ou vingar as barbaridades da volante, então resolveu se juntar ao bando de Lampião. Outro erro também com relação ao roubo das urnas. Numa eleição fraudulenta, Zé de Julião perdeu a primeira eleição que disputou (também a primeira de Poço Redondo). Mas na segunda, ante as falcatruas eleitoreiras já planejadas em seu desfavor, então roubou as urnas pouco após o início da votação. Daí ser errôneo afirmar que perdeu também essa segunda eleição disputada. O candidato opositor foi proclamado vencedor tempos após e sem que nenhum voto tivesse sido contado. Esse foi o único episódio que levou Zé de Julião à penitenciária. Não foi preso após o fim do cangaço, ainda que tivesse sido duramente perseguido (era protegido pelo Coronel João Maria de Carvalho, da Serra Negra), mas pelo roubo das urnas. Tem-se, assim, meu caro Beliel, que tal registro possui alguns testemunhos que necessitam de outro olhar à realidade histórica. Abraço e obrigado pela lembrança em me marcar. Aguardando o amigo em Poço Redondo, no Memorial Alcino Alves Costa.


Comentário de Ricardo Beliel: "Oi querido Rangel Alves da Costa. Minha admiração por você e seu trabalho aí em Poço Redondo em manter viva essa memória da época do cangaço e da região. Por esse motivo o marquei para que pudesse acrescentar seu conhecimento à esses depoimentos. O senhor Zé de Olindo é sobrinho do coronel João Maria e do Liberato de Carvalho. Como ele diz, a eleição em Poço Redondo tinha interesses da família Carvalho, que apoiaram Zé de Julião. Nesse depoimento ele não menciona se houve uma ou duas eleições, apenas que "foi candidato a prefeito de Poço Redondo, apoiado por meu tio, mas perdeu e depois roubou as urnas". Um fato verídico. Mas é curioso como se refere a esse episódio, principalmente sobre a contratação dos pistoleiros. Você tem como confirmar essa informação? Na época em que foram presos os cangaceiros em Jeremoabo ele já tinha idade para ser um bom testemunho. Principalmente porque os cangaceiros ficaram na cidade em contato com a população. Alguns deles se entregaram na região de Serra Negra onde era a base da família Carvalho. Sobre a entrada de Zé de Julião no cangaço, as palavras são do senhor João Capoeira, você o conhece, que era irmão de Enedina e cunhado do Zé. Ele não dá os motivos sociais dessa decisão, apenas que o pai tentou convence-lo a não entrar no bando de Lampião. Seu João deveria ter a mesma idade de Zé, seu cunhado, e conviveu bem com todos eles. Ao chamar o fazendeiro Julião de "coiteiro" o senhor Zé de Olindo pode estar apenas adjetivando o personagem em vez de afirmar que isso era verdade. Veja que essa declaração está nas aspas da fala dele, não me cabe censurá-lo ou corrigi-lo, pois é assim que ele vê e se expressa sobre esse assunto. Eu apenas evito incluir no texto absurdos e mentiras descaradas dadas em minhas entrevistas. Quanto às interpretações dos personagens, tenho que respeitá-los. No livro há bastante texto com a contextualização histórica e por essas informações eu me responsabilizo, quanto aos depoimentos, há algumas contradições, pequenas, mas que revelam um pouco mais sobre eles próprios que estão falando. A História é sempre contraditória, mas a experiência humana é única e é disso que trato no livro. Aproveito para sugerir que eu possa enviar trechos do texto que se referem à sua região e possamos trocar informações para enriquecê-lo. O que acha?

Fonte:Facebook Ricardo Beliel