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Bárbara, tua pena não foi a prisão Por:Heitor Feitosa

Imagem de Bárbara de Alencar
Teus filhos morreram lutando. Padre Carlos, em fuga, enquanto saciava a fome com mel de abelha, foi assassinado na Serra do Beijú por um cabra do cruel Pinto Madeira. Tristão, carregado de ouro e perseguido pelos Cunha Pereira, verteu todo o sangue às margens do Jaguaribe, ficando tempos e tempos sem sepultura. O padre Alencar, por sorte, escapou das balas já chegando ao Rio de São Francisco, no mesmo instante em que teu netinho, menino de 13 anos, tombou alvejado pelos cabras. E a mãe da criança, tua filha, não deve estar em prantos? E teu irmão, Leonel, e o filho dele, Raimundo, pagaram caro por essa aventura, mortos lá em Jardim, obrigando tua cunhada, esposa deste infeliz, a dar a luz no breu da mata da Serra do Araripe, fugindo dos mesmos algozes. 

Não te esqueças do teu pobre cunhado, Ignácio Tavares Benevides, que, depois de ser preso em cordas pelos perversos cabras, foi posto em uma roda de pau, apanhando com bodurnas de jucá, e, ao fim, queimado vivo em enormes chamas, enquanto seus gritos serviam de pasto para as gargalhadas dos assassinos. Preste atenção! Teu avô, Leonel, se vivo fosse, te diria que as brigas no sertão eram por terra e poder, que os índios e as onças eram quase sempre os inimigos mais implacáveis, mas nunca o Rei, perpétuo e absoluto. Teu compadre e protetor, o gigante Filgueiras, já partiu para as cadeias na Corte, e dizem ter morrido em Minas. E teu marido, cadê? Graças a Deus, já sendo ele um homem muito mais velho que você, desencarnou antes mesmo de ocorrer todo esse reboliço! 


Agora te dão um amante, o vigário do Crato, irmão de dois dos teus cunhados, padrinho de crisma de teu filho caçula, além do agravante de ele também ser teu vizinho, teu mentor espiritual e patrocinador das ideias "subversivas" de Tristão e Martiniano. O que diz teu filho mais velho, João, homem pacato que nunca se envolveu nessas brigas? Vive lá no Pau Seco, moendo canas no velho engenho de pau, tentando saldar as contas dos empréstimos tomados ao próprio irmão, a juros compostos. Tua fortuna já não é mais a mesma, tomaram teu Sítio Pontal, de onde o novo dono, o padre Francisco Gonçalves Martins, te difama como teúda e manteúda do padre Miguel. 

Onde estão os teus tesouros? Sei que, hoje, não passam de botijas enterradas no chão do esquecimento! Que dizer de uma mulher branca e rica que passou mais de ano nas prisões da Fortaleza e Bahia? E o orgulho da tua poderosa família? Como vingar mais de 25 parentes mortos em menos de 10 anos? Como limpar tua honra? Abra do olho, porque o coronel Pinto Madeira ainda cavalga pelo Cariri com seu exército de cabras, índios e mestiços, lembrados dos ancestrais Ançus, Calabaças, Xocós, Cariris e outros milhares de "tapuias bárbaros" que viviam refugiados na terra prometida, terra sem males, na Vapabuçú, na Serra do Varipe, no Araripe, no oco do mundo, invadida pelos brancos sesmeiros, teus ascendentes. 


A culpa não é tua, é das imbuanças desses tais filósofos da Europa, os iluministas, que, juntos com os pernambucanos fiotas do Recife e Olinda, encheram tua cabeça e os corações dos teus meninos. Mas tu vai pagar a maior das penas. Vai sair do Crato enxotada por Pinto Madeira, e, com a ajuda do coronel Manuel de Barros Cavalcante, lá de Santana do Cariri, vai palmilhar o sertão seco, até tuas fazendas no Piauí, na divisa com o Ceará. Nesse lugar, já sendo uma mulher velha e doente, encontrará tua mortalha. Por algumas léguas dali, teu corpo será transportado em uma rede e, numa pequena capela, no Poço da Pedra, próximo à Varzea da Vaca, tua face será esquecida e tua história permanecerá mal contada. 

Ao atravessar o século, um dos teus adoradores, tentando reparar tua honra como heroína, colocará uma placa acima do teu jazigo, indicando teu fim, o que sobrou da tua matéria. Porém, tuas dores e tuas alegrias jamais terão uma imagem que retrate o gosto do amor proibido, as lutas ideológicas, a perda dos filhos queridos, a independência política, a emancipação da mulher, o Direito de ser vista por todos como símbolo de resistência. E, assim, essa será a tua mais bárbara pena, Bárbara.

Heitor Feitosa Macêdo
Pesquisador e escritor- Crato, CE
Setembro de 2019, Presidente do ICC

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