A atual Lagoa do Mel Por:Manoel Severo


A região da Lagoa do Mel, hoje totalmente mudada com a agricultura irrigada proporciona uma produção constante e vitoriosa que é toda comercializada pelas feiras da região, seu Antônio mantém o cultivo em consorcio, de várias culturas. O período do preparo da terra, do semeio, da floração, a colheita e a comercialização são cuidadosamente acompanhadas pelo agricultor que confirma a qualidade da terra milagrosa encravada em plena caatinga.

Visão da Serra do Umbuzeiro, a partir da Lagoa do Mel
Senhor Antônio, proprietário do lugar
Valentim Antunes
João de Sousa Lima
Múcio Procópio Conselheiro

Manoel Severo

Uma viagem de muitas alegrias e uma tristeza Por: Aderbal Nogueira

Aderbal Nogueira e sertão da Bahia

A Caravana Cariri Cangaço - GECC foi para mim uma viagem de muitas alegrias e uma tristeza. Alegria em reencontrar grandes amigos, porque não dizer "IRMÃOS" João de Souza, Jairo Luiz, Antônio Vilela, Mestre Alcino, entre outros que sempre estão a nos esperar. Alegria maior em reencontrar meu amigo Candeeiro, seu Né, como é carinhosamente chamado Manoel Dantas Loyola, que me chama de 'Derval'.

Parece que foi ontem que estive com ele e sua generosa família pela primeira vez. Há aproximadamente 18 anos atrás, onde a incerteza de uma boa acolhida me fez parar na entrada da vila e ficar cerca de 15 minutos hesitando em me aproximar de sua pessoa. Mas, para minha surpresa, a receptividade foi supercalorosa e ao longo desse tempo a amizade entre sua família e a minha só aumentou, a ponto de Eliza, sua filha, me chamar de irmão. Para mim não importa mais quem foi seu Manoel Dantas Loyola, pois agora para mim ele é apenas seu Né.

Tenente João Gomes de Lira

Tristeza profunda também ao passar na entrada de Nazaré e não avistar mais aquela cadeira de balanço ali em frente da casa onde sempre encontrava nosso fiel amigo João Gomes de Lira. Quanta saudade. Dezenas de viagens e sempre ele estava ali. Calmo, com uma serenidade que me impressionava, com uma segurança plena que nos dava a idéia de como devia ter sido na juventude. Dessa vez não tive coragem de entrar em sua casa, agora vazia, sem a sua presença. Somente a casa. Com certeza alguém estava lá dentro, alguém de sua família que sempre nos recebeu tão bem. Em outra viagem vou criar coragem e lá vou adentrar e tenho certeza que a receptividade será a mesma.

Ao entrarmos na estradinha de terra para a casa de seu Luiz de Cazuza o meu desejo não iria se realizar. Sabia que meu querido amigo não estaria mais lá para nos recepcionar e prosear horas a fio, rindo e contando histórias de sua vida centenária. Seu Luiz foi, sem dúvida, aquele que mais me fez rir das histórias do Cangaço. Com ele vi que até nas horas tristes se tira momentos interessantes. Sei que para algumas pessoas como Paulo Gastão, Ângelo Osmiro e alguns outros que tiveram a honra de conhecê-lo mais de perto, essa dor da falta ainda vai durar. Lá não pude conter as lágrimas ao abraçar sua filha, e chorei por dentro e por fora.

Para terminar, agradeço a todas essas pessoas que, de uma maneira ou de outra, me contando as suas vidas, sem querer me fizeram uma pessoa melhor.

Aderbal Nogueira
Sócio da SBEC, Diretor do GECC
Conselheiro Cariri Cangaço

Maranduba... e a Caravana Cariri Cangaço Por:Manoel Severo

Aqui descansam os que tombaram em Maranduba

Quem pesquisa e conhece a história do cangaço, notadamente do ciclo de Virgulino Ferreira, confirma os três mais importantes confrontos ocorridos entre as forças volantes e o rei do cangaço: Serra Grande, Serrote Preto e Maranduba. Os três combates se notabilizaram por seus aspectos grandiosos e pela engenhosidade de um líder inconteste. Lampião à frente de seus cangaceiros, sempre em inferioridade numérica viria a alcançar três vitórias fragorosas, imprimindo vergonha às hostes governamentais e as volantes.

A Caravana Cariri Cangaço-GECC chegou a Maranduba por volta das 16 horas dessa segunda-feira de carnaval; pisar o solo de Maranduba, em território de Poço Redondo, outrora município de Porto da Folha, foi uma grande emoção para todos nós. Da rodovia que liga Canindé a Poço Redondo, percorremos cerca de 17Km de estrada de terra batida, passando por vários lugarejos e fazendas, inclusive pela casa da ex-cangaceira Adília. Vislumbrando ao longe a famosa Serra Negra, de João Maria e Zé Rufino, se chega a incomparável fazenda Maranduba, nosso guia: Alcino Alves Costa.

Os velhos Umbuzeiros, únicas testemunhas ainda presentes em Maranduba

Do cenário da batalha pouco se conservou, a casa da fazenda toda ruiu, a vegetação típica da caatinga da época virou uma grande roça, poucas pedras, as pias secas, apenas os enigmáticos umbuzeiros e a cruz que marca o local do sepultamento dos homens de Nazaré, testemunham contra o tempo, aquela que foi uma das mais significativas vitórias de Virgulino Lampião.

Aderbal Nogueira e as Pias da Maranduba
Múcio Procópio e Pedro Luiz em Maranduba
Da velha casa da fazenda Maranduba só restam as ruínas e os alicerces

Alcino Costa, João de Sousa Lima, Juliana Ischiara, Múcio Procópio; cada um a sua maneira ia palmilhando o local e nos trazendo detalhes importantes e imortais daquela grande e inusitada tática de guerra do maior cangaceiro da história. Conhecendo a Maranduba, vendo sua geografia, sua vegetação de origem, pisando aquele chão, vendo em loco como as tropas da policia se posicionaram e se aproximaram, o recuo estratégico dos cangaceiros; só assim vamos entender o quanto foi surpreendente o desempenho e a resistência dos 32 homens de Virgulino contra os mais de 150 homens das volantes, que tinham entre seus comandantes, o nazareno Manoel Neto e Liberato de Carvalho. 

Manoel Severo

A Cruz dos Nazarenos Por:Manoel Severo

Maranduba em foto de Afrânio Cisne


O ano era 1932 e o Mês era janeiro, aqui na fazenda Maranduba, em Poço Redondo ocorria um dos mais espetaculares combates do cangaço lampiônico. As vitórias registradas em Serra Grande, em 1926, e tempos depois em Serrote Preto, voltaram como pesadelo na mente dos comandantes que vivenciaram essa batalhas homéricas contra o rei do cangaço. Entre esses estavam muitos Nazarenos e um de seus grandes: Manoel Neto.

O Nazareno Manoel Neto

O Tenente Manoel Neto, um dos mais destacados militares de Pernambuco, que dedicou toda sua vida ao combate ao cangaceirismo e a Lampião, bravo homem da força de Nazaré, afirmava "que nunca tinha visto tanta bala como viu ali”. Outro depoimento da época sobre a grandiosidade do combate da Maranduba nos traz que , “uma coisa que foi muito comentada e com curiosidade, foi que no local em que aconteceu o fogo de Maranduba, durante vários anos, das árvores e dos matos rasteiros não ficaram folhas. Tudo era preto, como se tivesse passado um grande fogo. As árvores ficaram completamente descascadas de cima abaixo, de balas”.

Lívio, Afrânio e Múcio, em Maranduba
Senhor Adriano, Manoel Severo e a Cruz dos Nazarenos, em Maranduba

O combate se deu perto do meio dia e se estendeu até o sol se por, os cangaceiros estavam se preparando para comer e as pias iriam fornecer a água necessária para os próximos caminhos. As volantes no encalço se aproximaram pela caatinga da Maranduba, e cometendo os mesmos erros de combates anteriores, acabaram envolvidos por várias linhas de tiros, engenhosamente armada por Lampião e seus cangaceiros. Ao final dentre os muitos que tombaram sem vida, constavam 4 homens de Nazaré: Hercílio de Souza Nogueira e seu irmão Adalgiso de Souza Nogueira (primos dos irmãos Flor), João Cavalcanti de Albuquerque (tio de Neco Gregório) e Antônio Benedito da Silva (irmão por parte de mãe de Lulu Nogueira, filho de Odilon Flor). Momento marcante da visita em Maranduba foi encontrar a Cruz que marca o local onde foram sepultados os Nazarenos e seus companheiros de farda.

Manoel Severo

Maranduba por Ângelo Roque...

Mandacaru "faceiro" sob o por do sol de Maranduba...

“... Nóis cheguêmo na caatinga de MARANDUBA, pru vorta di maio dia, i tratemo di discansá i fazê fogo prôs dicumê, i nóis armoçá. Mas a gente num si descôidava um tico, i nóis sabia qui as volante andava pirigosa. Inquanto nóis discansava, botemo imboscada forte, di déiz cabra pra atacá us macaco qui si proximasse. Nóis cunhicia us terreno daqueles mundão, parmo a parmo. Us macaco num sabia tanto cuma nóis. Todos buraco, pedreguio, levação, pé di pau, pru perto, nóis sabia di ôio-fechado, i pudia tirá di pontaria sem sê vistado..

Nisso, vem cheganou’a das maió macacada qui tivemos di infrentá. I us cumandante todo di dispusiçãoprá daná: MANUÉ NETO, qui us cangacêro tamém chamava MANÉ FUMAÇA, ODILON, EUCRIDE, ARCONSO I AFONSO FRÔ. Tamém um NOGUÊRA. Nesse bucadão di macaco tava u Capitão ou Tenente LIBERATO, du izérto. Dizia us povo qui ele era duro di ruê. I era mesmo. Brigava cuma gente grande, i marvado cumo minino. Mas porém, valente cumo u capêta. 

Ex-cangaceiro Ângelo Roque, o Labareda, presente em Maranduba no fogo de 1932

Di nada sirvia a gente gostá i tratá com côidado um mano qui êle tinha na Serra Nêga. Essa FORÇA toda dus macaco si pegô mais nóis na MARANDUBA. Nóis era trinta e dois cabra bom. U CapitãoVirgulino tinha di junto, nessa brigada, us principá cangacêro: VIRGINO, IZEQUIÉ, ZÉ BAIANO, LUIZ PÊDO i seu criado LABAREDA. Dus maiorá só fartava mesmo CURISCO sempre gostô di trabaiá sozinho, num grupo isculido dicangacêro, mais DADÁ.

Briguemo na MARANDUBA a tarde toda i nóis cum as vantage cumpreta das pusição, apôis us macaco num pudia vê nóis. A volante di NAZARÉ deve tê murrido quaji toda. Caiu, tamém, matado di ua vêis, um dus FRÔ, qui si bem mi alembro, foi u AFONSO. Cumpade Lampião chegô pra di junto do finado i abriu di faca a capanga dêle, i achô um papé qui tinha iscrito um decreto dizeno qu ele já tinha dado vinte i quatro combate cum u cumpade Lampião. Veio morrê nu vinte i cinco. A valia qui tivemo nessa brigada foi us iscundirijo. Morrero, aí, trêiz cangacêro i trêiz ficô baliado. Us istrago qui fizemo nessa brigada foi danado ! Matemo macaco di horrô !”

Depoimento de Ângelo Roque a Estácio de Lima

Alcino Alves Costa e a Caravana Cariri Cangaço Por:Manoel Severo

João de Sousa, Manoel Severo, Lívio Ferraz, Alcino Costa, Archimedes Marques e Antônio Vilela; em Piranhas

Aqueles que acompanham com certa constância as informações sobre o universo da pesquisa e estudo da temática cangaço sabem da grande luta travada pelo escritor Alcino Alves Costa para recuperar sua saúde. Nos últimos  anos Alcino vem cotidianamente se submetendo a um conjunto de exames e tratamentos com a bravura de um forte. Homem de fibra, o Caipira de Poço Redondo possui quatro grandes paixões: A família, o Poço Redondo, o Sertão Alegre e o Cangaço.

Alcino Costa é referencia e exemplo para todos nós...

O contato com as coisas do sertão é como o ar que respira

fazenda Angico; palco de sua mais celebrada obra: Mistérios e Mentiras

Por qualquer uma dessas paixões o velho Decano é capaz de tudo, e foi com a vitalidade de um menino, mesmo enfrentando as limitações de  sua enfermidade, que Alcino veio ao encontro da Caravana Cariri Cangaço-GECC; sempre disposto, alegre, falante e principalmente cheio de amor para viver novamente momentos pelos quais dedicou boa parte de sua vida.

Grande amigo e Mestre, Alcino Alves Costa, Decano Caipira de Poço Redondo, mais uma vez você surpreende a todos e nos mostra o quanto é importante acreditar e fazer as coisas com amor e dedicação. Obrigado por ser exemplo e referência para todos nós.

Manoel Severo

Piranhas e a Caravana Cariri Cangaço Por:Manoel Severo

Caravana Cariri Cangaço completa em Piranhas

O terceiro dia da Caravana Cariri Cangaço - GECC, partiu de Paulo Afonso a Piranhas e seus cerca de 70Km;  da Bahia a Alagoas em alguns minutos e a mais bela cidade ribeirinha do Brasil: Piranhas, patrimônio histórico nacional. Neste momento se integraram a Caravana o casal Archimedes Marques e sua esposa Elane.

Aderbal, Elane, Lívio, Archimedes, Severo e João de Sousa
Alcino Alves Costa e Juliana Ischiara

Marcamos com Jairo Luiz, Antonio Vilela e Alcino Costa na Pousada Lampião; neste período de carnaval a organização do evento recomenda que não haja movimentação de carros na parte histórica da cidade. Com a Caravana Cariri Cangaço-GECC ainda mais completa, embarcamos no Catamarã Volante, tendo como comandante o amigo Francisco. Descendo o caudaloso Velho Chico na direção da sua margem direita, destino: município de Poço Redondo e a grota mais famosa do nordeste: Angico.

Francisco, João de Sousa e catamarã Volante

Antônio Vilela
Catamarã rumo a Angico

Durante o trajeto pelas águas do São Francisco as atenções se voltam para os dois principais anfitriões: Jairo e Alcino; com percepções e versões distintas sobre o mais polêmico episódio do Cangaço, Jairo e Alcino acabam nos proporcionando mais e mais oportunidades para o debate sempre salutar e inteligente sobre Angico.

Manoel Severo

Angico e a Caravana Cariri Cangaço Por:Manoel Severo

Lívio Ferraz, Jairo Luiz e Manoel Severo, em Angico

A estrutura montada pela família Rosa, já na fazenda Angico, junto ao Restaurante Angico, ponto de partida para a trilha da grota, cerca de 800 metros caatinga adentro, torna os preparativos para a caminhada extremamente agradáveis. Hoje além do restaurante, loja de artesanato e balneário, terá logo em breve uma pousada para receber a todos os visitantes do baixo São Francisco.


Mais uma vez estávamos percorrendo os caminhos dos homens de João Bezerra, Aniceto e Ferreira de Melo naquele 28 de julho de 1938. Novamente chegávamos à grota e pela primeira vez, pelo menos no meu caso, encontrei o riacho do Tamanduá com água, o que nos fez refletir sobre a localização exata das toldas dos cangaceiros. Ainda na grota pudemos definir o local exato onde seria fixada a placa em homenagem ao soldado Adrião, único membro das forças volantes a tombar sem vida naquela manhã fria de julho; a seu lado, tombaram Lampião, Maria Bonita e mais nove cangaceiros. 

Manoel Severo, Vilela e Jairo Luiz
Trilha do Angico, o riacho ainda revela as recentes chuvas...

Da margem sergipana do Velho Chico, no município de Poço Redondo, até a Grota do Angico são cerca de 800 metros, trajeto exatamente idêntico ao percorrido pela volante do tenente João Bezerra. Na época, julho de 1938 era inverno, chovia, possivelmente os homens da força pública devem ter se deparado com a trilha nas condições em que passamos atualmente.

Lívio Ferraz, Manoel Severo, Vilela, Archimedes e Jairo Luiz, no Angico
Vilela e Adrião: primeiro à esquerda, de quem olha.
Definição do local da homenagem a Adrião Pedro de Sousa

A Placa em homenagem ao único soldado tombado morto em Angico: Adrião Pedro de Sousa; foi uma iniciativa do escritor Antônio Vilela, amigo da família e que contou com o apoio do Cariri Cangaço e do GECC. Vilela está finalizando seu mais novo livro, quando nos trará as "duas faces do cangaço" como ele gosta de afirmar, e dentre os temas abordados pelo autor, a história de Adrião Pedro de Sousa.

Manoel Severo

Águas Belas e a Caravana Cariri Cangaço

Matriz de Águas Belas

Ainda no Agreste Pernambucano tivemos a oportunidade de passar rapidamente em Água Belas terra do poderoso chefe político local, doutor Audálio Tenório de Albuquerque. Potentado pertencente as prestigiadas famílias Albuquerque, Maranhão e Lucena, Audálio por décadas foi um dos principais chefes políticos do agreste pernambucano, ao lado de seus parentes: Gerson Maranhão, de Itaiba e Zezè Abílio de Bom Conselho. Audálio Tenório se notabilizou pelo grande poder político e economico e também por ser um dos mais poderosos coiteiros de Virgulino Ferreira, no estado de Pernambuco.

Casa do doutor Audálio Tenório

Manoel Severo

Candeeiro por Múcio Procópio

Ex-cangaceiro Candeeiro e Múcio Procópio

Para mim o encontro com o ex-cangaceiro Candeeiro, ou seu Né, como todos o chamam na intimidade, foi de uma emoção tremenda. A partir daquela casa simples, num lugarejo também simples, se esconde pedaços das história tantas vezes contadas por tantos. 

Logo que chegamos e antes mesmo de sermos apresentados a Candeeiro, o sertanejo olhou para cada um de nós com um olhar manso, mas como de uma águia e com a firmeza que só as experiências da vida podem proporcionar, foi declinando a característica de cada um; um a um. Aquilo me marcou profundamente. Permanecemos ali com seu Né e sua família por muito tempo, uma conversa boa, amena, cheia de animação que podia ser notada pela risada forte e conhecida de seu Né. Quando nos despedimos, ele veio até a porta, agradecendo a visita e fiquei a me perguntar o tamanha da inteligência desse sertanejo, talhado pela vida, pelo sofrimento e pelo destino. Candeeiro foi para mim o marco da Caravana Cariri Cangaço.

Múcio Procópio
Vice-Presidente da SBEC
Conselheiro Cariri Cangaço

Candeeiro e a Caravana Cariri Cangaço Por:Manoel Severo

Guanumbi, em Buique

Nasce o segundo dia da Caravana Cariri Cangaço. De Triunfo até Flores; outro importante cenário da época em que Virgulino Ferreira iniciava no cangaço; o trajeto de cerca de 20 Km descendo a serra possui uma paisagem exuberante, a neblina persistente da manhã, permanece,  trazendo  imagens  sensacionais. De Flores a Custódia e de Custódia a Arco Verde, 80 km ainda nos separavam de Buique. 

Guanumbi é um pequeno distrito de Buique. Saindo do centro da cidade percorremos 27 Km em estrada carroçável até chegar a casa de Manoel Dantas de Loyola, ou, Seu Né; ou melhor: Candeeiro. Seu Né, como todos acabam chamando o ex-cangaceiro, mora no número 19 da principal rua do lugarejo, bem em frente a pracinha. Dona Linda e dois dos quatros filhos estavam com o nonagenário no momento de nossa visita. Visitar Candeeiro nos remete a uma emoção impressionante, não só pelo personagem ali representado, mas pela força que aquele homem de 98 anos ainda exala. O sorriso franco e fácil, o olhar doce e curioso quando fala, não parecem ser de um homem que esteve nos hostes cangaceiras, ou de um dos cangaceiro s que conseguiu escapar do fatídico Angico.

Múcio Procópio e numero 19 da principal rua de Guanumbi

Aderbal Nogueira é recebido com carinho por toda família. Há 20 anos o documentarista da SBEC fazia as primeiras imagens do velho cangaceiro, na época ainda bastante taciturno, recatado, calado, mas completamente lúcido. Hoje lampejos de lucidez e lembranças, mas nas poucas que pudemos perceber, “bebemos na fonte”, foram mais de duas horas de uma visita inesquecível. A entrada no cangaço, as andanças com Jararaca, o baiano, as histórias com Virgínio, o Capitão, Angico, o tiro que esfacelou seu braço, as entregas, o tempo que era soldado da borracha,  o retorno, enfim. Passo a passo Candeeiro vai juntando pequenos  fragmentos de lembranças de um tempo que parece não sair de sua cabeça... 

Candeeiro e Manoel Severo
Afrânio, Candeeiro, Manoel Severo e Valentim  Antunes

“Certa vez Corisco observando um dos cangaceiros da família dos Ingrácias, um moreno ainda jovem com os cabelos encaracolados, era manhazinha e os cabelos desse cangaceiro estava molhado do sereno da noite, daí nasceu o apelito de Zé Sereno para o marido da Sila”


 Candeeiro, memória viva dos tempos do cangaço
Aderbal Nogueira entre o casal: Candeeiro e dona Linda

Dona Linda, sua esposa, a tudo escuta e acompanha, aqui e acolá um comentário, um reparo, uma outra lembrança. As fotografias selam o final de nossa visita e a certeza que a cada momento que passa, mais nos é caro compartilhar momentos de inegável valor histórico ao lado de personagens como Manoel Dantas de Loiola, ou seu Né, ou Candeeiro. A Caravana Cariri Cangaço agradece a toda família de Manoel Dantas de Loiola; um dos dois últimos cangaceiros vivos; pela acolhida por ocasião de nossa visita.

Manoel Severo