O Xaxado no Contexto do Cangaço Por: Alan Alves



Acontece neste próximo dia 22 de abril 
às 14 horas, palestra sobre o 
"Xaxado no Contexto do Cangaço"
 o evento será na Secretaria de Educação do Cabo de Santo Agostinho (PE.). 
O palestrante será o professor Alan Alves 
pós-graduado em Literatura brasileira 
e pesquisador do cangaço. 
Na oportunidade será exibido documentário e haverá um espaço reservado para perguntas e respostas.

Coetesia do envio: ROSA BEZERRA

O retorno de Floro a Juazeiro Por:Renato Casimiro

Voltou-se a falar de Floro Bartholomeu da Costa por ocasião da celebração dos 169 anos de nascimento do Pe. Cícero Romão Baptista. E no meu sentimento, com dois equívocos. Primeiro: No começo dos anos 70 eu visitei seu túmulo no Cemitério São João Batista, na Rua Real Grandeza, em Botafogo, Rio de Janeiro. Seus restos mortais continuam lá, e não em Salvador. Segundo: é um grande erro trazer o que restou deste pobre homem para junto do túmulo do Pe. Cícero. 
Até lembro a reação de Amália Xavier de Oliveira, ao tempo em que, no governo de Orlando Bezerra, se falou nesta hipótese, pela primeira vez. Quando lhe comuniquei que isto estava em gestação, ela prontamente se levantou da rede, fez-se um silêncio constrangedor e, finalmente me disse: 
"É ele entrando por aquela estrada e eu saindo pelo Logradouro."
Realmente, não era para menos, pois a perseguição que sofreu a família Xavier de Oliveira, especialmente o filho Toinho (Dr. Antonio Xavier de Oliveira) foi algo que começou pela publicação do livro Beatos e Cangaceiros e só foi terminar quando o doutor-coronel-deputado morreu no Rio de Janeiro, precocemente. 
Renato Casimiro
FONTE: http://colunaderenato.blogspot.com.br/


E o mascate espertalhão... Por:Renato Casimiro

Na biografia de Benjamim Abrahão Botto, recentemente lançada pelo escritor Frederico Pernambucano de Melo, este secretário do Padre Cícero é apresentado como um espertalhão, por ter se locupletado com a amizade e o cargo de confiança que ocupou na casa do padre. E é uma verdade. No início já havia uma mentira, pois ele dissera na apresentação que nascera na terra de Jesus. Em verdade, Benjamim nasceu no Líbano, na cidade de Zahle. 

 
Mas, julgue o leitor ao conhecer um pouco mais desta figura. Benjamim tinha negócios em Juazeiro, como um jornal e uma loja de tecidos. Também era proprietário de um rancho para romeiros. Veja o que ele diz neste boletim de publicidade que estampamos acima. 

“CASA DOS ROMEIROS DO PADRE CÍCERO, de Benjamim Abrahão. Antiga Casa São Jorge. Aviso a todos os romeiros que a Casa dos Romeiros do Padre Cícero, não trata de negócio, pois foi aberta por ordem do Padre Cícero, exclusivamente para receber os Romeiros pobres e ricos, dar-lhes ranchos asseados e facilitar-lhes a entrada na casa do mesmo Padre, grátis, e sem nenhum interesse, respondendo as suas cartas, com a máxima brevidade. O encarregado desta casa é amigo íntimo do Padre Cícero, residindo ou morando com ele. Portanto, os Romeiros devem procurar a Casa dos Romeiros do Padre Cícero que serão bem servidos. Os Romeiros não devem iludirem-se com certas pessoas suspeitas que fazem pelas estradas propaganda contra esta casa que é a única que não explora ninguém, e é amiga de todos os romeiros. Encarregado geral: Benjamim Abrahão, Escrivão do Padre Cícero, Joazeiro-Ceará.” 

Deu para entender aí, ou querem que eu explique? Interessante que na lateral do boletim está a expressão: Para evitar disgosto, a casa não acceita pessoas com moléstias contagiosas. 

Renato Casimiro
Fonte: http://colunaderenato.blogspot.com.br/

Confirmado: Cariri Cangaço chega as Alagoas e Sergipe !

Piranhas em Alagoas, Patrimônio da Hunanidade

Depois de Lavras da Mangabeira em Maio, Sousa e Nazarezinho em Junho, agora temos a confirmação da terceira e última grande avant premier do Cariri Cangaço neste 2013. Novamente rompendo as barreiras do Ceará, antes de mesmo de setembro chegar, teremos a Semana do Cangaço; 75 anos da morte de Lampião - Mistérios e Mentiras de Angico, no Cariri Cangaço: Piranhas e Canindé do São Francisco.

A programação completa está sendo construida por uma equipe dos dois municípios, tendo a frente o Conselheiro Cariri Cangaço, Jairo Oliveira e o secretario de Cultura de Piranhas, Luiz Carlos Salatiel, que constará de Conferências, Palestras, Debates, Colóquios, Lançamento de Livros, Vídeos Documentários e muita festa com Xaxado e Forró Pé de Serra.

Jairo luiz e Luiz Carlos Salatiel

Para Jairo Oliveira, é uma "grande satisfação promover esta grande integração de nosso nordeste, o Cariri Cangaço, um evento de sucesso que nasceu no Ceará, chega a Alagoas e Sergipe com esta força de uma grande construção coletiva e com certeza será um grande evento". Para o Curador do Cariri Cangaço, Manoel Severo "voltar ao baixo São Francisco, estar em Piranhas, Poço Redondo e Canindé do São Francisco, onde temos tantos amigos e em dos principais cenários da história de nosso cangaço, ainda por cima promovendo um Cariri Cangaço dentro desta Semana Tradicional, é uma grande alegria, sem tamanho. Só temos que agradecer a todos os parceiros, aos Secretários Salatiel, Francisco Edson, Hélcio, aos senhores Prefeitos dos municípios de Piranhas e Canindé e principalmente a esse grande amigo, profissional dos mais talentosos e para nosso urgulho, Conselheiro do Cariri Cangaço, Jairo Luiz Oliveira, parabens e em Julho, todos aqui nesta grande festa."

O Cariri Cangaço chega as estados de Alagoas e Sergipe através dos municípios de Piranhas e Canindé do São Francisco, entre os dois municípios o majestoso Rio São Francisco; de um lado Sergipe do outro, Alagoas. Encravados no chamado baixo São Francisco, Piranhas ao lado de Canindé do São Francisco e outros municípios próximos, como Poço Redondo e Olha D'agua do Casado, são cenários importantes e vitais dentro da história do cangaço nordestino. Ali, no visinho Poço Redondo se localiza o cenário do último ato de Virgulino Lampião: A Grota do Angico.

Um dos pontos alto da Programação do evento em Piranhas e Canindé será a homenagem prestadas pelos municípios e pelo Cariri Cangaço a um de seus mais ilustres filhos: Alcino Alves da Costa, o Caipira de Poço Redondo, terra que amou e pela qual se dedicou por toda uma vida.



Agenda Cariri Cangaço

Maio, Lavras da Mangabeira
Junho, Sousa e Nazarezinho
Julho, Piranhas e Canindé do São Francisco
e em Setembro...
Cariri Cangaço 2013!
Crato, Juazeiro, Barbalha, Missão Velha, Aurora, Barro e Porteiras
Ceará - Brasil



A Questão de 8 Parte I Por:Jose Cícero

Uma promessa: Ou o milagre de uma reza forte..
 
Meados de 1908. Aurora começava a vivenciar uma das fases mais negras e tenebrosas da sua história. Ano funesto que marcaria profundamente a memória de todos quantos sentiram na própria pele aqueles acontecimentos marcados pelo absurdo, brutalidade e ignorância. Invasão e saque. Apenas isso? Não. Fatos vergonhosos e lamentáveis que como feridas incuráveis até hoje, mesmo depois 103 anos, ainda repercutem aqui acolá como uma enorme cicatriz aberta de uma história ainda não completamente bem contada. O próprio passado como que querendo a todo custo (ainda que tardio) acertar suas contas com o presente.

Ocorrências que, malgrado todo o peso da sua importância até hoje não foram devidamente escritas com a pena lúcida e coerente da verdade. Constituindo desse modo, um grande desafio aos estudiosos e historiadores devidamente comprometidos com a real veracidades dos fatos. Dentre tantos os acontecimentos ainda não efetivamente descritos na história de Aurora, um em especial, me fora narrado pelo senhor Vicente Jerônimo da Silva. Ex-tabelião do não menos antigo e pioneiro cartório Quezado.

Com base neste fidedigno relato, resolvi concatenar tais informações numa pequena narrativa que ora se segue enfeixada no bojo da série: ‘História que ouvi contar’ em cujo mesmo se incluem como desdobramentos: o fogo do Taveira, a discutível demarcação das minas do Coxá, além da célebre invasão por jagunços que ficara conhecida como ‘a questão de oito’. Tudo isso na ânsia de fazer com que estes fragmentos históricos não venham a ser definitivamente esquecidos pelas gerações, do presente e do futuro e, tampouco perdidos nas brumas do tempo como tem sido comum diante de uma história escrita, quase sempre, segundo ótica dos poderosos e dos vencedores. Em última instância, uma iniciativa de puro resgate e preservação da verdadeira história do povo aurorense e, em especial, a dos oprimidos.

José Cícero

1908 - O Começo de tudo...

1908 – Um ano quase cabalar de uma década que poderíamos muito bem chamá-la de perdida. Principalmente para os que a viveram a ferro e fogo. E a duras penas, conseguiram sobreviver a tudo o que ela teve de mais trágico e inusitado. Um tempo que duraria uma verdadeira eternidade por conta dos crimes e outras atrocidades que se abateram como uma praga terrível que se abateu sobre uma gente humilde e ordeiraacostumando demais à lida penosa de uma vida inteira dedicada à agricultura de subsistência, o comércio agropastoril, assim como a produção dos engenhos de rapadura e aguardente. Em especial, a produção de milho, algodão, oiticica, farinha de mandióca e o criatório.

No meio de tudo isso as disputas políticas das mais raivosas, que para não fugir à regra regionalista no mais das vezes, eram decididas na base da bala. Monopolizadas que eram(quase sempre) por duas ou três ramificações familiares que se alternavam no poder conforme a força que conseguiam concentrar(a cada instante) e assim, fortaleciam seu poder de barganha junto às hostes políticas da região e da capital. Eis aqui, em rápidas pinceladas, o cenário objetivo do que era ou do que foi aquela Aurora antiga e provinciana, escondida do mundo num entreposto naturalmente fincado na porta do Cariri a meio caminho do Juazeiro e Crato e do Icó a Fortaleza. Auge da velha estrada dos almocreves margeando o então caudaloso rio Salgado que por quase dois séculos serviu à ligação do interior com o litoral (Fortaleza, Aracati e Mossoró). Fazendo assim de Aurora, como dissera certa feita o velho Serra Azul: “oásis, rancho e tenda” para os tropeiros viajantes nas suas andanças intermináveis. Verdadeiro caminho da própria colonização do Cariri adentro.

Aurora mais do que qualquer outra cidade da região sofreu em demasia diante da pilhagem e da truculência que sofreu, maldades promovidas muitas vezes pelos que tinham justamente o mister e a obrigação de defendê-la. Era uma vila das mais prósperas de toda a região. Pagou-se assim, o mais alto preço naquela guerra de facínoras contra os humildes e miseráveis – os filhos da pobreza. Razão pela qual completara o poeta do riacho do Pau Branco de que a história de Aurora era de fato, “trágica e tremenda”. E quanto à questão de oito não foi lá muito diferente. Neste episódio em particular, alguns ricos da época também tiveram que arcar com seu quinhão de sacrifício. Foram roubados e humilhados. E caso não fugissem teriam decerto, que pagar com a própria vida... O próprio vate salgadiano tivera que forçosamente se abrigar em Quixadá e de lá derivou definitivamente para Fortaleza.

 
Uma saga histórica onde se misturaram bandidos, vassalos, heróis e inocentes. O futuro nunca foi tão inacreditável para um povo, como naquele fatídico ano de 8. Uma gente que mesmo em meio as agruras e o sofrimento, devotou a sua própria vida em nome de uma causa nobre: aúnica que lhe parecia possível - asobrevivência. Momento difícil de injustiças, crimes deploráveis, superação e heroísmo dos que por sorte, conseguiram sobreviver para contar ao futuro o que de fato aconteceu naqueles tempos tenebrosos de infâmia sem tamanho.
Mas vamos ao que me descreveu o velho Jerônimo – um exímio contador de causos, cuja memória é quase uma enciclopédia de tão lúcida, rica e fértil. Suas histórias e estórias são tão bem contadas, ao ponto de nos dar a nítida e fantástica sensação deestarmos dentro delas. Vivenciando-as assim nos seus mínimos detalhes. Verdadeira viagem ao passado. Um longo mergulho no túnel do tempo. O tal contador de causos fantásticos empreende tanta ênfase as suas narrativas que às vezes imaginamos ser ele, o próprio protagonista de cada fato e historieta narradas sob o mais autêntico dos entusiasmos – a emoção. Um grande serviço que, sem sombra de dúvidas, se presta como verdade a nossa própria história. Este seria, por assim dizer, o maior e mais duradouro de todos os seus créditos como memorialista: a verdade.

Aurora no tempo do Império do Bacamarte
 
Como se deu toda a história: Uma viagem...

Uma antemanhã de sábado. De um tempo distante e remoto lá pras bandas de 1908. Começo do mês de dezembro. Aurora ainda era uma vila. Um calmo lugarejo marcado pela tranqüilidade de uma paz bucólica quase cinematográfica e que tinha tudo para ser duradoura. Um povoado esmaecido no âmbar dos dias calmos e morosos com suas horas mortas. Tal como se a própria vida durasse uma eternidade...

Uma época em que a pressa de viver não fazia nenhum sentido prático, notadamente para todos os que experimentavamtranquilamente a lida cotidiana daquele rincão estendido no oco do mundo, quase como um autêntico lenitivo. Uma madrugada diferente. Era muito cedo e fazia frio. O sol ainda não apontara no horizonte por sobre a serra da Várzea Grande. A sensação era do mais completo vazio expresso num quadro imenso do silêncio. Plena escuridão e quietude. O próprio mundo às escuras, parecia no mais completo vazio absoluto.

A barra do nascente ainda estava escura e um frio intenso parecia cobrir os ares daquela Aurora antiga e paroquial. Pouquíssimas casas, na sua maioria esparsa na primitiva geografia daquela vila, um tanto desajeitada, com destaque apenas para o quadro da matriz onde moravam os mais abastados. Os chamados coronéis, ricos e os remediados da época. Do outro lado, pras bandas do mercado as casas de comércio mais destacadas do major Sebastião Alves Pereira e do coronel Paulo Gonçalves Ferreira.

E naquela madrugada preguiçosa, belas lamparinas iluminavam o velho sobrado construído nos idos de 1800 pelo coronel Xavier então residência dos Gonçalves. Era de cara, a mais imponente das poucas residências daquele tempo. E, que por sinal ainda se encontra de pé até hoje. O silêncio das poucas ruas de chão batido aos poucos começava a ser rompido pelo som que vinha de longe – cantos de galos(muitos galos) em verdadeiro couro enchiam a madrugada de sonoridade, assim como o coaxar de sapos, bem como o tradicional barulho de cambiteiros, a iniciar a lida do eito dos engenhos de cana que rodeavam o quadrilátero daquela vilazinha bucólica prostrada à margem do Salgado. O rio buscando com suas águas, também fazer sua viagem infinita sempre nos rumos do Jaguaribe.

O sol parecia naquele princípio de dia não estar com pressa para nascer e iluminar o mundo. Pura preguiça em tudo.As águas límpidas e claras do rio Salgado corriam em disparadas para o Icó em sua absoluta sofreguidão, arrebatando moitas e ribanceiras em todo o seu trajeto. Vinham rompendo tudo a sua frente desde as cabeceiras da nascente situada longe no sopé da serra da Batateira. Mas o espelho d’água, assim como as pessoas, pouco mais de mil almas(na época), não ais que isso também aguardavam os primeiros raios do sol matutino daquela Aurora distante e sonolenta de uma estranha madrugada de sábado.

Na rua grande e no quadro, ambos de chão batido adornados por grandes moitas de capim de burro onde ficavam os casarões dos coronéis, uma comitiva familiar se preparava para uma viagem. Era o clã dos Quezados e dos Gonçalves – duas das mais importantes e influentes cepas familiares de Aurora, assim como de todo o Cariri Oriental, e que naquela madrugada viajaria até o povoado de Joaseiro. Quem sabe, buscando a proteção segura do padre Cícero Romão Batista. Uma tentativa de se evitar aquele projeto de assalto e insídia a pequena urbe, talvez. Um presságio? Quem sabe? Antes do pior deixariam a cidade em favor da própria segurança familiar. 

Continua...
José Cícero - Poeta, pesquisador e escritor
Conselheiro Cariri Cangaço

Festival RIOMAR de Literatura Pernambucana



FESTIVAL   RioMar  
DE LITERATURA PERNAMBUCANA

Promovido pela Rede de Integração das Academias de Letras do Nordeste e União Brasileira de Escritores

Dia  04/06/2013

14:00  horas
REDE INTEGRADA DAS ACADEMIAS DE LETRAS DO NORDESTE
Manuel Neto (Olinda), Carlos  Severiano Cavalcanti, Cláudio Pina, Presidente da SOBRAMES,  Paulo Camelo, Luiz Barreto ( Presidirá o próximo Congresso Nacional da SOBRAMES, em Pernambuco), Melquiades Montenegro, Tereza Magalhães, Lucilo Varejão Neto, João Marques, Giovanni Sá, Fátima Quintas.
(Os Presidentes das Academias de Letras  do Nordeste)

16:00  horas
O CANGAÇO SEMPRE VIVO NO 
IMAGINÁRIO DO NORDESTE
Frederico Pernambucano de Mello - Palestra
Apresentação  -  Carlos Newton Junior
Debatedores
Geraldo Ferraz – Tarcísio Rodrigues

17:30 horas
O FANTÁSTICO NA LITERATURA PERNAMBUCANA
Mesa Redonda     -    Mediação  -  André de Sena
Debatedores. – Roberto Beltrão  - Haroldo Xavier -  Mirella Izidro

19:00  horas
O CONTO EM  PERNAMBUCO
Mediação  -  Francisco Mesquita
Debatedores -  Amaury Medeiros, Jacinto Santos e Felipe Aguiar
Autores estudados
Milton Lins
Everaldo Moreira Véras
Perseu Lemos
Gilvan Lemos

20:30 horas
HISTÓRIA  e   LITERATURA  PERNAMBUCANA
Mediação   -  Antônio  Correa, 
Debatedores  - Waldenio Porto, Alexandre Santos, Jacques Ribemboim
Autores e livros estudados
Waldenio Porto  - Olinda Abrasada
Alexandre Santos – Maldição e Fé
Jacques Ribemboim  -  Olinda Judaica
José Antônio Gonsalves de Mello  -  No Tempo dos Flamengos

Dia  05/06/2013

16:00 
QUARTA ÀS QUATRO
Pocket Show: LepêCorreia e o Kandela Etu
17:30  horas 
POESIA PERFORMÁTICA
Coordenação: Bernadete Bruto e Taciana Valença
Apresentações  de performances poéticas
18h30 - Palestra: O LIVRO DO FUTURO 
Palestrante: Antônio Campos
Apresentação: Alexandre Furtado
19:30   horas
O ROMANCE PERNAMBUCANO
Mesa Redonda -  Coordenador  -  Adilson Jardim
Debatedores  -  Raimundo Carrero –  Zuleide Duarte – Juan Pablo Martin – Valdenides Cabral Dias – Sidney  Rocha, Cícero Belmar

Dia  06/06/2013

16:00  horas
A IMPORTÂNCIA DO CORDEL NA LITERATURA PERNAMBUCANA
Palestrante  -  Meca Moreno 
Debatedores: Maria Alice Amorim, Luiz Berto
Apresentação performática: Allan Sales,

17:30   horas
CULTURA JUDAICO-PERNAMBUCANA
Palestrante  -  Jacques Ribemboim
Debatedores - Tânia  Kauffmann  -  Germano Haiut
19:30  horas

AULA MAGNA    - Marcus  Accioly
Apresentação  -  Neilton  Limeira
20:30  horas
Mesa Redonda

POESIA  PERNAMBUCANA -  Coordenação - Neilton Limeira
Debatedores  -
Dirceu Rabelo -  Wellington de Mello  -  Amaro  Poeta
Autores e livros estudados 
Dirceu Rabelo
Edmir Domingues
Valdemar  Lopes

Festival RioMar de Literatura Pernambucana

A Arte Cultural Popular em Múltiplas Linguagens no Território de Irecê



O município de Irecê sediará, de 22 a 24 de maio, o II Seminário de Cordel da Uneb/Campus XVI, que traz como tema “A Arte Cultural Popular em Múltiplas Linguagens no
 Território de Irecê”. 

Organizado pelos alunos do 6º semestre do curso de Letras, o evento tem a coordenação do acadêmico e professor da rede pública, Sandro Gomes Oliveira, e apoio da diretora do Campus, Helga Porto, e do professor Orlando Freire.

A atividade vai reunir nomes importantes do cenário cultural do País, a exemplo do cantor, compositor e repentista Bule Bule. Também agitarão a programação os professores Antônio Barreto, Helder Pinheiro, Amarino Queiroz, Flanklin Maxado, Ady teles e Luiz Natividade; além dos poetas Carlos Silva, Felipe Júnior (PE), Lucas de Oliveira e Janete Lainha. No dia 24, às 19h, haverá a ‘Noite Cultural do Cordel’com shows de Markinhos Forró Furado e Nelinho e Banda.

Espaço de Formação e Aprendizagens: De acordo com Sandro Oliveira, o Seminário de Cordel tem por objetivo despertar o interesse da comunidade acadêmica e do território pela manifestação cultural do Cordel, bem como fomentar a importância da Literatura de Cordel no Campus XVI como corpus de pesquisas acadêmicas no curso de Letras. “Além disso, queremos oportunizar um momento de significativas aprendizagens na formação dos sujeitos envolvidos, possibilitando uma real aproximação entre universidade/comunidade”, enfatiza o coordenador do evento.

Para se inscrever e obter maiores informações, a organização do evento disponibiliza o blog http://www.cordeluneb.blogspot.com.br/. Informações também podem ser obtidas através dos números: 74.3641.3503 e 74.9949.9831 (Sandro).

Pascoal Ferreira/Irecê Repórter

XV Fórum do Cangaço em Mossoró

TEMA:
Modos de Cura: 
"A medicina nos Tempos do Cangaço"

Dentro de alguns dias a Programação Completa

SBEC
Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço
20 ANOS

Baile Perfumado Revisita Lampião Parte 2 Por: Veronica Daniel Kobs



Da fama ao caos: o outro lado do mito Como mito, História, documentário e fazer cinematográfico estão interligados pela construção, o convite dos diretores é para que o espectador, observando como os cangaceiros e Abrahão planejam as cenas e posam para fotos, pense no personagem histórico como alvo da construção e da manipulação que orientam a produção de qualquer discurso. O fotógrafo do filme constrói ou forja um Lampião que se opõe aos inúmeros Lampiões dos boatos, das notícias de jornal, etc. Em tom de homenagem e usando a obra de Benjamin Abrahão e as reflexões sobre fazer cinema (especificamente, documentário), Baile perfumado é claro em seu recado: não há um Lampião verdadeiro.

Dessa forma, o caráter fixo do conceito de identidade cede espaço à fluidez e à mobilidade, quando as formas engessadas do passado, depois de resgatadas, tornam-se vivas, no diálogo com o presente. Stuart Hall relaciona esse processo ao desconstrucionismo, que “coloca certos conceitos-chave ‘sob rasura’”. (HALL, 2003, p. 104). Tal atitude, que relativiza e desestabiliza uma ideia já pronta, comprova a natureza metalinguística da recuperação de um símbolo, bem como atesta a duplicidade da representação tomada de empréstimo, que pode ser definida como “uma ideia que não pode ser pensada da forma antiga, mas sem a qual certas questões-chave não podem ser sequer pensadas”. (HALL, 2003, p. 104).

Stuart Hall simplifica a questão da retomada e da associação entre passado, presente e futuro, através de um jogo de palavras: roots e routes, porque, muitas vezes, precisamos voltar às raízes, para (re)definirmos nossas rotas. Os desvios aumentam, quando os símbolos são revisitados e reinterpretados, muito tempo depois. Entretanto, aumentam também as perspectivas de análise. 


A transformação é inerente ao resgate, mas, ao mesmo tempo, fica assegurada a permanência do que é típico, porque “este elemento da tradição subsiste, de forma reelaborada”. (ORTIZ, 1994, p. 140). Enquanto servir para esse fim, o típico garantirá sua sobrevivência. A retomada acaba sendo um teste para a abrangência e a atualidade dos símbolos produzidos no passado e a simples escolha por esse ou aquele já é meio caminho andado, porque a associação de um símbolo “antigo” a um contexto inteiramente novo é prova suficiente da pertinência de seu significado. Assim, autofagicamente, a cultura vai consumindo e modificando os símbolos que ela própria produziu. 

Em parte, essa tendência à retomada parece uma forma de buscar uma verdade oculta, como se ela de fato existisse e pudesse ser achada por trás do mito, mas não é isso. A brincadeira que confronta um rei do cangaço humano com aquele outro, violento e sanguinário, tem o propósito de mostrar a importância da imparcialidade, no julgamento de um mito, porque, como tal, ele não passa de uma construção, ou seja, não é real, e, agora, vem o motivo mais importante: deixar claro que ninguém sabe, nem nunca saberá como era o Lampião de verdade. Uma verdade que seja única e incontestável não existe, ela é construída e, obviamente, serve aos propósitos de quem a produziu, seja na História, na Literatura ou no Cinema. Linda Hutcheon relativiza o status da verdade, comparando História e arte literária, nesta passagem: O que a escrita pós-moderna da história e da literatura nos ensinou é que a ficção e a história são discursos, que ambas constituem sistemas de significação pelos quais damos sentido ao passado (...). 

Portanto, o pós-moderno realiza dois movimentos simultâneos. Ele reinsere os contextos históricos como sendo significantes, e até determinantes, mas, ao fazê-lo, problematiza toda a noção de conhecimento histórico. (HUTCHEON, 1991, p.122) Sendo assim, por mais que pareça óbvio e ululante, a verdade é uma questão de ponto de vista, pois o sentido de um mesmo objeto de análise é construído de modo distinto, pela ação de diferentes sujeitos, acarretando interpretações também variadas. Por isso, o documentário não deve e também não pode retratar o real com nitidez. A extrema artificialidade dos takes e das fotos da obra do personagem Benjamin Abrahão (aqui, a referência não é aosfilmes propriamente ditos, mas às cenas que mostram o ator Duda Mamberti representando Abrahão e dando início às filmagens de Lampião e seu bando) é proposital, para demonstrar, veementemente, que documentário não é sinônimo de “registro natural”: “[…] cinema documentário é discurso (leitura) produzido, e não reprodução de uma ‘realidade’”. (CESAR, 1980, p. 56). 

A representação e a preparação meticulosa da gravação são potencializadas, em Baile perfumado, no momento em que Lampião, perguntando a Abrahão sobre a finalização do filme, recebe a proposta de fazer uma grande encenação. De início, Lampião recusa a ideia, o libanês insiste e, na sequência, a história mostra o ataque do bando à casa de Zé do Zito. O filme de Abrahão é finalizado nesse momento, promovendo uma relação de complementaridade entre o material produzido por ele e Baile perfumado.


Nessa hora, uma filmagem interfere na outra, recurso que reorganiza o processo de produção de significado e sela a parceria dos cineastas, já que o objetivo era um só: contribuir com mais uma peça, no imenso mosaico de leituras que existe sobre Lampião e sobre o cangaço no Brasil.
É comum que, em um processo de retomada, o discurso-base fique em segundo plano, transformando-se na sombra do discurso que está sendo construído, mas, no filme de Paulo Caldas e Lírio Ferreira, as coisas acontecem de modo diferente, pela simples razão de Baile perfumado privilegiar a metalinguagem. Esse recurso, por exigir total transparência, já que, desde o começo, explicita a função autoral de um personagem (do
protagonista, na maioria das vezes) e a intenção de criar algum tipo de arte, através da reflexão sobre características que lhe são fundamentais, permite que ambos os discursos, o antigo e o novo, apareçam em primeiro plano e, aproveitando-se disso, na produção contemporânea, os diretores, apropriadamente, conjugam os filmes, como se um fosse extensão do outro. 

Tal conjugação volta a ser utilizada, de modo enfático, no final, quando, depois do confronto com a volante, Lampião e seu bando são mostrados, mas através das imagens feitas por Abrahão, na década de 30. Entretanto, a justaposição exacerba-se ainda mais, quando, no momento seguinte, o Lampião ficcional (Luís Carlos Vasconcelos) imita o Lampião real e aparece se perfumando, como em uma das cenas mais famosas dos filmes de Benjamin Abrahão. Nesse ponto, “a identificação criada até aquele momento entre o espectador e o filme se quebra, pedindo um novo ajuste no mecanismo de participação/identificação”. (YAKHNI, 2009, p. 7).


A complementaridade não é, então, um desafio apenas para os diretores, pois ela surpreende o espectador, exigindo que seja assumido um posicionamento diferente diante do filme, porque, se, inicialmente, fica bem clara a separação entre o Lampião real e o ficcional, no instante seguinte exige-se que o espectador tome um pelo outro. A fronteira nítida e bem delineada que geralmente impedia o contato entre realidade e ficção é diluída e evidencia “a rejeição das pretensões de representação ‘autêntica’ e cópia ‘inautêntica’, e o próprio sentido da originalidade artística é contestado com tanto vigor quanto a transparência da referencialidade histórica” (HUTCHEON, 1991, p. 147). 

Essa espécie de continuidade entre os filmes desempenha um papel muito maior, quando se percebe que a intercalação do documentário do Abrahão real, no filme Baile perfumado, legitima o discurso que o incorpora. Na verdade, para alcançar esse efeito, fazer um filme baseado em personagens históricos já constituía o primeiro e grande passo, de modo que a inserção de trechos da obra de Botto apenas acentua a legitimação. Através do paralelismo entre ficção e História, cria-se uma narrativa em espiral. Apesar de as semelhanças serem nítidas, a distância entre uma história e outra é evidente: “As imagens captadas por Abrahão em preto e branco são um documento de uma realidade que existiu e o filme a que se assiste é uma reconstituição desta realidade.” (YAKHNI, 2009, p. 7). E, para completar a metáfora da espiral, em torno da história do passado, registrada nos filmes de Botto, e da história do presente, gravitam inúmeros elementos, que as tornam mais amplas, justamente porque passam a ser associadas a questionamentos que jogam nova luz sobre os fatos, motivando novas leituras. 

Percebe-se, pelas colocações acima, a completa simetria que existe entre o intuito das obras de Abrahão e de Paulo Caldas e Lírio Ferreira, mas há ainda outros exemplos que comprovam essa extrema afinidade. Em Baile perfumado, Lampião também é libertado do peso imposto pelo mito. O rei do cangaço interpretado por Vasconcelos é sorridente, vaidoso, adora promover festas e nunca deixa de ajudar um amigo. O mesmo tom é usado para retratar Benjamin Abrahão. No filme, o fotógrafo não é absolutamente sério e apenas enaltecido pelo imenso acervo histórico que deixou como legado. Abrahão é um homem comum, namorador e com uma forte queda por mulheres casadas. Diante disso, é como se houvesse uma concordância implícita dos diretores de Baile perfumado em relação à concepção que Benjamin Abrahão Botto tinha da arte e do gênero documentário.

Em síntese, pode-se afirmar que Baile perfumado, em vários momentos, utiliza a técnica da duplicação ou do decalque como forma de apologia ao trabalho de Botto e ao Lampião concebido por ele. Sem dúvida, esse processo é possibilitado pela representação de parte da vida de um personagem histórico e, novamente, pela metalinguagem, porque, tanto no filme de Benjamin Abrahão como no filme de Paulo Caldas e Lírio Ferreira, “a realidade é apresentada como resultado da mediação da tecnologia como possibilidade de registro permanente”.

Esse “registro permanente”, por ligar-se fortemente ao documentário e à biografia, leva-nos à constatação de que Baile perfumado não mostra só o fotógrafo filmando o diaa-dia de Lampião e dos outros cangaceiros. O filme é também um registro biográfico de Benjamin Abrahão, observação que potencializa o efeito de duplicidade (ou, nesse caso, triplicidade). A história do fotógrafo é o fio condutor de Baile perfumado, tanto é que “a amarração da narrativa é dada pela sua vivência dos fatos”. (YAKHNI, 2009, p. 1). A voz de Abrahão, em off, está presente já na primeira cena do filme, no velório de padre Cícero. O fotógrafo aparece familiarizado ao religioso responsável por sua ligação com Lampião. Em seguida, é dado destaque ao confronto entre os cangaceiros e a volante. 

Com essa apresentação cortada ou justaposta, estabelece-se a conexão entre os personagens principais da história. A narração de Abrahão faz interferências constantes, no filme, mas é interessante notar que os diretores não primam pela mera combinação entre imagem e fala. A participação do fotógrafo como narrador não é ilustrativa. Ao contrário disso, ela amplia e completa a imagem. Em vários momentos, paralelamente à voz em off, o personagem faz anotações em uma caderneta. Esse fato tem grande relevância para a conjugação de Baile perfumado com o documentário. Tanto no cinema documental quanto na ação de tomar nota, o importante é o registro, atitude que se opõe fortemente à fluidez e à transitoriedade das coisas. Benjamin Botto, no filme, considera-se um inquieto e, como tal, queria mudar o mundo.

A princípio, qualquer tipo de registro histórico parece ser relacionado mais à permanência do que à mudança, afinal, depois de fazer parte da História, o fato fica ali, imóvel, até que surja alguém que retome aquele fato histórico e motive novas percepções, novas formas de leitura e compreensão. Benjamin Abrahão Botto conseguiu seu intento. Ele registrou um pedaço da História de Lampião e seu bando, que mudaram o mundo de muitos, e, muitos anos depois, ajudou Paulo Caldas e Lírio Ferreira a mudar o mundo construído em torno do mito do rei do cangaço. Em Baile perfumado, Lampião não deixa de ser mostrado como mito. Ele apenas tem enfatizado seu outro lado. O mesmo jogo de luz e sombra perpassa o personagem do fotógrafo. Comumente, Abrahão é lembrado pelo material iconográfico riquíssimo que produziu, mas pouco se fala sobre sua luta para pôr em prática seu projeto artístico-histórico. Todos comentam o que ele fez, mas, afinal, quem foi ele mesmo?


Baile perfumado sugere uma nova perspectiva, para desinvestir o mito da autoridade que, habitualmente, esse carrega, a fim de possibilitar uma revisão. No entanto, essa mudança só é possível, pela estrutura escolhida para a apresentação da história. Nesse plano mais formal, destaquem-se o modo indireto de reacender a discussão sobre o papel do cangaço, na sociedade brasileira, e a associação entre imagem e som, inclusive com o privilégio da música, detalhe que não pode passar despercebido, já que a trilha sonora inclui a participação dos principais nomes do movimento mangue beat. Na primeira cena de Baile perfumado em que aparecem Lampião e seu bando, o som de Chico Science é indício valioso do que está por vir. 

A “batida” do mangue dialoga com a filosofia do cangaço, no que se refere à luta social, contra a miséria e pela esperança de mudança, e dialoga com o filme de Paulo Caldas e Lírio Ferreira, pela valorização do aspecto regional e da cultura de raiz, para “modernizar o passado”, e pela fusão de estilos e elementos, que, no filme, fica muito bem representada pela alternância constante entre passado e presente. O híbrido e o novo são celebrados, mas sem esquecer o tradicional. Dentre os nomes que compõem a trilha sonora de Baile perfumado, Fred Zero Quatro, com a banda Mundo Livre S/A, e Chico Science, à frente da Nação Zumbi, estabeleceram um novo conceito pop.

A relação entre modernidade e tradição foi explicitada, através do símbolo do movimento: uma antena parabólica enterrada na lama dos manguezais. Lançado em 1992, com o manifesto Caranguejos com cérebro,o mangue beat exigia “a percepção da diversidade cultural existente” e privilegiava “a fusão de ritmos, maracatus, repentes e cantigas de roda com rock, rap e dance music”. (LEAL, 2006, p. 3). Até aqui, há provas suficientes da convergência entre Baile perfumado e o movimento pernambucano dos anos 90, mas a prova irrefutável associa-se mais ao tema que à estrutura: A cena mangue traz também um resgate de manifestações folclóricas de Pernambuco e nordestinas, tomando como referências figuras históricas como Zumbi, Lampião e Antônio Conselheiro, numa clara tentativa de resgate da identidade histórica. (LEAL, 2006, p. 3).

Aí aparece Lampião, e não à toa, pois, se o objetivo dos “caranguejos com cérebro” era fazer revolução, nada melhor do que evocar alguns dos ícones revolucionários importantes de nossa História. Aliás, várias retomadas como essa, ao longo de décadas, acabaram contribuindo para a construção da heroicidade de alguns personagens históricos pelo movimento mangue beat. Ressalte-se que o apelo popular permitiu a reescrita da História, afinal, de “subversivos”, “revoltosos” ou “marginais”, todos os exemplos aqui citados foram conquistando, aos poucos, o reconhecimento oficial. Dessa forma, hoje, os “heróis” do passado interferem no presente e, em troca, o presente lança um novo olhar sobre o passado, o que equivale, respectivamente, a outro movimento de reciprocidade: “da lama ao caos” e “do caos à lama”.

Verônica Daniel Kobs

Doutora em Letras pela Universidade Federal do Paraná (2009); Mestre em Letras pela Universidade Federal do Paraná (2000); Licenciada em Letras Português-Latim pela Universidade Federal do Paraná (1997); Professora do Curso de Mestrado em Teoria Literária do Centro Universitário Campos de Andrade; Coordenadora do Curso de Mestrado em Teoria Literária do Centro Universitário Campos de Andrade; Professora do Curso de Graduação de Letras da FACEL; Consultora e língua portuguesa e linguagens da RPC TV e da Ó TV; Membro de grupos de pesquisa credenciados junto ao CNPq; Autora de diversos artigos sobre Literatura e Estudos Interartes; Autora de livros didáticos de Língua Portuguesa publicados pela editora Iesde Brasil S. A.; Atualmente, está desenvolvendo trabalhos que abrangem as áreas de Literatura, Cinema e Pintura, enfocando as relações entre palavra e imagem e as questões de identidade e alteridade.

Fonte:http://www.todasasmusas.org/03Veronica_Daniel.pdf

Uma visão humana dramática e sensível do famoso cangaceiro... Por:Adalberto Arruda

Carlos Pena Filho

Como parte da bela e  vasta obra poética e literária de Carlos Pena Filho,  com quem, no ano de 1960, tomei chopp geladíssimo no  Bar Savoy,  o Recife,  que foi objeto de um dos suas famosas poesias,  destaco o poema “Virgulino Lampião”, uma visão humana dramática e sensível do famoso cangaceiro  Virgulino Ferreira da Silva . Não pense que se trata de poema laudatório, falando em bandido herói,  justiceiro social ou coisa e tal. Tampouco,  também não se trata de mais uma objurgatória de condenação do perigoso e  temido bandoleiro, fugitivo da lei, e terror da população sertaneja nordestina.  Não.  O conhecido  esto poético de Carlos Pena, marcado pur um sempre amorável lirismo  e  consagrada beleza artística, de sua poesia, continha também indisfarçável sentido de poesia social, ética,e refinada ternura e misericórdia com todos os viventes, entre esses,  seu trágico conterrâneo Virgulino Lampião. 

Inicialmente,  Pena Filho viu em “Lampião” como homem abstrato, com todo seu drama existencial e sua humanidade intrínseca e sua loucura potencial. Sobretudo, o viu  como homem concreto, sujeito  às contradições do seu contexto social específico da catinga, do necessitarismo econômico,  da presença constante da morte, do coronelismo arrogante e violento, do jaguncismo homicida e impune, e, também  como homem isolado, ferido e desmontado de seu mundo interior, enlouquecido e furioso na sua determinação social e psicológica. Mas, sempre o homem.  

Gravura de Aldemir Martins

Sobre ele, talvez um tanto insatisfeito e inseguro, repetiria o que disse o grande líder do realismo socialista, Máximo Gorki: “homem, homem, como essa palavra soa nobremente”.  Homem injustiçado, indignado, ferido,  excluído, e que talvez revoltado com a “festa (moralmente) pobre” de um poder, exercido, freqüentemente, pelo egoísmo,  pela simulação, pela corrupção, pela fraude e pela violência.

Inteligente e extremamente corajoso, ansioso por poder e fama (glória?),  foi líder nato  e estrategista, deslocando-se com seus cangaceiros pelas vastidões do  hinterland  semi-árido de 05  estados do Nordeste,  Ceará, R. G. do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas e Sergipe, onde atuava com sua rapinagem e se afirmava pelo terror. Através da catinga ínvia e agressiva, deslocava-se rapidamente, a pé com sandália de couro ou a cavalo, conseguindo suprimento, ordem e união entre os comandados, e obtendo  informações que o permitiam escapar ou bater-se em pequenos combates com forças policiais oficiais mais numerosas e mais bem armadas. Contudo,  neste contexto difícil e macabro conseguiu lutar  e sobreviver  por cerca de 20 anos de violência, isolamento e terror. 

Apesar disso, dizem seus biógrafos que Lampião, que era alfabetizado e tendo freqüentado escola para  ampliação de seus conhecimentos, cultivava, embora de forma ambígua e incoerente,  certos valores éticos e sociais. Não admitia o crime de estupro que punia severamente, e costumava lamentar o destino, que o tornara bandido ao invés de trabalhador honesto, e que assim o conduzia certeiro  à “morte matada”, embora a tolerasse, como dizia,  caso tivesse a sorte de morrer em combate leal.  Morreu desta forma,  em 1938,  em combate violento na  Fazenda Angicos, em Sergipe, próxima do  Rio S. Francisco.  Segundo o inventário dos seus bens pessoais apresentado pela polícia da Bahia ( ver “Maria Isaura P. de Queiroz”, em  Os Cangaceiros),  na parte anterior do seu chapéu estava engastada em uma medalha  de ouro a inscrição “Deus te Guie”, e portava  aliança de ouro com o nome “Santinha” (Maria Bonita) na parte interna. 


Ainda nos primeiros anos de cangaço, procurou a bênção e a proteção do Padre Cícero Romão, indo a Juazeiro, no Ceará, que além de chefe religioso já famoso no Nordeste era poderoso líder político desta região. Foi com a  interseção do Pe. Cícero, que  recebeu a patente de Capitão da Guarda Nacional, das mãos do mais graduado funcionário federal da cidade, juntamente com um fuzil e farta munição para seus homens. Vejamos como Carlos Pena Filho, com todo esse seu humanismo exuberante, sua responsabilidade social e sua sensibilidade poética, interpretou a complexidade da tragédia humana deste  seu  conterrâneo, Virgulino Ferreira da Silva.

VIRGULINO LAMPIÃO
Sobre o chão de sol manchado, passeavas pelos campos, o teu
cangaço sem rumo, com um olho na morte e o outro, no fel que se
elaborava, em sua vida sem rumo.
Teus olhos apenas viam fogo, sol, lâmina, fumo, e apetrechos de
emboscada. Em vez de chapéu, possuías um céu de couro à cabeça,
com três estrelas fincadas.
Tua missão neste mundo, era governar o escuro,acender uma
fogueira, com mil destroços de fúria.
A solidão que habitava, teu sono e tua ração, e que ia mesmo até
onde, não ia nem boi nem cão, onde não chega nem homem, nem
sua degradação.
Nos  sítios onde campeavas, nordeste avaro e sinistro, de sois
sem fim do sertão, povoavas as campinas  e as vastidões
desoladas,  com tua negra solidão.
Cultivar lavoura estranha, semear em sepulturas e arriscar, o
que é outro risco, na profissão da aventura.
Um dia é apenas um dia, pois os dias, dias são, um dia será o
teu dia,   Virgulino Lampião.  
Carlos Pena Filho – Recife – PE 


Texto de Adalberto Arruda
Enviado por Ismael Gouveia e Rosa Bezerra