Comunicado GECC


Aos sócios e amigos do GECC - Grupo de Estudos do Cangaço do Ceará

 Comunicamos que as próximas reuniões do GECC aconteceram em novo local, no auditório da sede da ABO-CE (Associação Brasileira de Odontologia – Ceará) situada na rua Gonçalves Ledo, 1630, bairro Joaquim Távora, Fortaleza-CE.

Mediante parceria GECC e ABO-CE firmada no dia de ontem. Nossas reuniões continuaram acontecendo toda primeira terça-feira de cada mês, com início às 19h e termino às 21h. Agradecemos a intermediação do sócio do GECC Jornalista Vicente Alencar que esteve conosco junto à diretoria daquela Instituição, nas pessoas do seu Presidente José Sampaio Menezes Junior e da diretora de Divulgação Rochelle Corrêa, aos quais agradecemos a forma cordial que nos receberam naquela instituição. 

Agradecemos ainda a colaboração decisiva na concretização do nosso intento do diretor de Biblioteca da ABO – CE o poeta e escritor Antônio Diogo Fontenele.Aproveitamos a oportunidade para agradecermos a gerencia da Livraria Saraiva - Fortaleza (Iguatemy) pela sessão do Espaço Rachel de Queiros nos últimos anos, que foi decisivo para consolidação do nosso grupo de estudos.

Ângelo Osmiro Barreto
Presidente do GECC

As Batalhas entre Clementino Quelé e Lampião em Santa Cruz da Baixa Verde Parte 1 Por:Rostand Medeiros


Lampião, o Rei do Cangaço
Lampião, o Rei do Cangaço
“HOJE SÓ SE SALVA QUEM AVÔA”
Em um dia de agosto de 2006, uma sexta feira, na cidade pernambucana de Santa Cruz da Baixa Verde, em Pernambuco, na companhia do escritor e pesquisador Sérgio Dantas, tivemos a oportunidade de conhecer um homem, nascido em 1912, que pela sua lucidez e saúde, foi como encontrar um verdadeiro tesouro da história oral do cangaço.
Clementino José Furtado, o Clementino Quelé.
Clementino José Furtado, o Clementino Quelé.

Seu nome era Antônio Ramos Moura, sua residência uma casa ampla no sitio Conceição e o assunto foi os dois ataques perpetrados por Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, e seus cangaceiros, contra a casa do seu antigo parceiro, Clementino José Furtado, o Clementino Quelé, que após estes embates se tornou um dos mais esforçados perseguidores do “Rei do Cangaço”.
Antônio Ramos Moura, então com doze anos, foi testemunha destes episódios e detalhou vários aspectos de sua vida na época e rememorou inúmeros fatos. 
O atual município de Santa Cruz da Baixa Verde está localizado na região do Sertão do Alto Pajeú, na fronteira com a Paraíba. Fica distante 455 quilômetros de Recife, possui um agradável clima serrano e a cidade se caracteriza por concentrar na atualidade a maior quantidade de engenhos de rapadura de Pernambuco. Já as origens do local são oriundas do antigo “sítio Brocotó” e a atual denominação tem origem na ação de um missionário nordestino que possui uma história extraordinária.
Nascido em 5 de agosto de 1806, na Vila de Sobral, Ceará, José Antônio Pereira Ibiapina teve uma origem confortável. Mas devido a participação do seu pai Francisco Miguel Pereira na insurgência conhecida como Confederação do Equador, este foi fuzilado em 1825, e o irmão Alexandre seguiu preso para a ilha de Fernando de Noronha, onde morreu pouco tempo depois. Ibiapina teve que assumir e manter financeiramente a família.
Imagem mais conhecida do Padre Ibiapina - Fonte - http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/index.php?option=com_content&view=article&id=852&Itemid=1
Padre Ibiapina 

Algum tempo depois ingressou no Curso de Direito do Recife, concluindo em 1832. No ano seguinte exerce o cargo de professor substituto de Direito Natural na Faculdade de Olinda. Depois foi eleito Deputado Geral e nomeado, em dezembro, Juiz de Direito da Comarca de Campo Maior, no Ceará. Concluídos os trabalhos legislativos, em 1837, Ibiapina voltou para o Recife e resolve exercer a advocacia. No entanto, ele passa a trabalhar efetivamente na profissão no estado da Paraíba. Em 1840 volta ao Recife e continua sua luta junto aos tribunais.
A partir de 1850 Ibiapina resolve abandonar seus trabalhos forenses e inicia um período dedicado à meditação e exercícios de piedade. Após três anos de meditação e reflexão, Ibiapina decide-se pelo sacerdócio. Nesse sentido, em 12 de julho de 1853, aos 47 anos de idade, ele se torna o Padre Ibiapina. Logo após sua ordenação, o Bispo Dom João da Purificação o nomeia Vigário Geral e Provedor do Bispado, além de professor de Eloquência do Seminário de Olinda.
Mas contrariando seus superiores, opta pela vida missionária. Padre Ibiapina começou então seu trabalho missionário pelo interior do Nordeste. Em diversas vilas construiu casas de caridade, destinadas a moças pobres. Em cada lugar ele pregava, orientava, promovia reconciliações, construía açudes, igrejas, cemitérios, cacimbas e cruzeiros. Um destes cruzeiros foi erguido no sítio Brocotó e ficou conhecido como Santa Cruz, sendo esta a denominação na época do cangaço.
Região serrana de Santa Cruz da Baixa Verde, Pernambuco.
Região serrana de Santa Cruz da Baixa Verde, Pernambuco.

Com o passar do tempo, pelo fato da pequena urbe está no alto da Serra da Baixa Verde, o lugar passou a denominar-se Santa Cruz da Baixa Verde e pertencia administrativamente à bela cidade serrana de Triunfo.
O pai do nosso entrevistado chamava-se Miguel Moura, tinha uma pequena bodega, além de trabalhar como tropeiro, ou almocreve. Tinha uma tropa de animais e fazia a linha entre as cidades de Triunfo, Serra Talhada e Arcoverde, na época denominada Rio Branco, trazendo e levando cereais. Antônio Ramos comentou que seu pai viajava para vários locais, transportando rapaduras. Inclusive o Rio Grande do Norte foi um dos seus destinos, onde esteve em Mossoró para comprar sal e também em Caicó.
O autor e o memorioso Antônio Ramos Moura.
O autor e o memorioso Antônio Ramos Moura.

Para nosso entrevistado Clementino Quelé, era chefe de sua família, tinha como irmãos Pedro, Quintino, Antônio, José e Manuel (nezinho), todos considerados homens dispostos, valentes e que “gostavam da espingarda”. Antônio Ramos comenta que na sua infância tinha um enorme respeito por aquele homem. Pouco falou com ele, mas obteve muitas informações sobre Quelé através de seu sogro Joaquim de Fonte, sobrinho do chefe da família Furtado.
Clementino é descrito como um homem forte, de tez acentuadamente branca, que realmente ficava com a pele vermelha quando tinha raiva e esta teria sido a razão de Lampião apelidá-lo pejorativamente como “Tamanduá Vermelho”.
praça principal da atual Santa Cruz da Baixa Verde, com a estátua do Padre Ibiapina em destaque.
Praça principal da atual Santa Cruz da Baixa Verde, com a estátua do Padre Ibiapina em destaque.

Já para o pesquisador Frederico Pernambucano de Mello (in “Guerreiros do Sol”, 2004, págs. 220 a 225), Quelé era natural da ribeira do Navio, onde seguiu jovem para Alagoas, afastando-se de Pernambuco por questões de disputa familiar. No retorno a sua família vem para Triunfo, no sítio Santa Luzia. O antigo membro de volante João Gomes de Lira (in “Lampião-Memórias de um soldado de volante”, 1990, págs. 123 e 124) comenta ser a Santa Luzia a morada do bravo pernambucano.
Fachada da igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em santa Cruz da Baixa Verde.
Fachada da igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em santa Cruz da Baixa Verde.

Para Antônio Ramos, na época das grandes “brigadas” de Quelé contra Lampião, ele morava no sítio Conceição.Independente desta questão consta para nosso entrevistado que Quelé e seus irmãos eram analfabetos “-De tudo”. Do tipo que “-Não assinavam nem o A” e nem faziam “-Garrancho” do nome. Dizia Quelé ao tio de Antônio Ramos que ele era “careta”, outra denominação para seu analfabetismo. Pois quando olhava para qualquer texto escrito, franzia a testa, mostrava o rosto carregado, com uma careta, por não saber ler.
Mas se Quelé e seus irmãos não sabiam ler, sabiam atirar e muito bem.
CONTINUA...

Lavrenses Ilustres: Centenário !

Nesta sexta, dia 19 de julho de 2013, às 15 horas, na Câmara Municipal de Lavras da Mangabeira, a Prefeitura Municipal, a Secretaria de Educação e a Secretaria de Cultura farão uma homenagem a quatro lavrenses de projeção nacional e internacional: Almir Pinto, João Clímaco Bezerra, João Gonçalves de Souza e Prisco Bezerra.

Você é nosso convidado!

Cristina Couto
Secretaria de Cultura de Lavras da Mangabeira

Regabofe Cangaceiro Parte 2 Por:Rangel Alves da Costa


O regabofe cotidiano do cangaceiro, usual no ato da sobrevivência sertão adentro, consistia apenas naquele alimento necessário a suportar as exigências da lide, de modo a dar sustentação física. Como dito, era a comida comum, geralmente preparada com antecedência e colocada no embornal e desfrutada durante a caminhada ou mesmo debaixo de um sombreado.

Comida do vaqueiro no mato, do caçador, do nordestino nas lides debaixo do sol, consistia, dentre outras coisas, na carne seca, no bode assado, na caça encontrada pela caatinga, na farofa ou mesmo farinha seca. Tudo descendo de goela abaixo com a preciosa água do cantil ou no apreciado gole de pinga. E da boa. Mas tudo que se queria era ter um tempo maior para acender fogo e preparar uma comida mais apurada. Coisa rara era encontrar tal oportunidade.

O regabofe de coito, ou aquele preparado com mais apuro, fazendo com que os cheiros se espalhassem pelos arredores sertanejos, somente era possível quando o bando, sentindo-se em segurança, se refugiava em local adequado. Como não levava o suprimento necessário para a comida diferenciada, recorria-se ao velho amigo coiteiro. Este era quem providenciava tudo aquilo que o bando necessitasse na sua panela ou caldeirão. E chegavam a caça, a carne fresca de bode e de gado, a galinha e o capão, a carne e a toucinhada de porco gordo, o feijão, a farinha, o arroz, o açúcar, o café. Uma fartura.


O regabofe de estrada, ou aquele encontrado pelo caminho, nem sempre era tão farto quanto o providenciado pelo coiteiro, mas certamente era muito melhor e mais apreciado que a comida levada nos couros do bando. Os olhos do cangaceiro brilhavam quando após a mataria ou nos arredores das estradas, avistavam uma moradia sertaneja. E brilhavam mais ainda quando viam criações pastando ao redor. Galinha de capoeira, cabrito, bode, qualquer coisa que por ali existisse seria de grande valia para matar a fome.

Então batia à porta da casa e ordenava que sem demora fosse preparado alimento para todo o bando. No instante seguinte e o temeroso e sempre acolhedor sertanejo começava a providenciar uma fartura de comida. Muitas vezes era família pobre, sem os alimentos necessários nem para a própria prole, vez que o sertanejo geralmente passa fome mas não sangra uma cria sua para colocar na panela.

Contudo, diante da presença do famoso cangaceiro e seu bando, se enchia de contentamento em poder servi-los com o melhor que tivesse. E não demorava muito para a cangaceirada se fartar com a avidez dos famintos. Muitos cochilavam enquanto a comida fervia na panela de barro, no velho caldeirão ou mesma em bacia de alumínio. Outros, com eterna vigilância, ficavam por ali proseando, fumaçando um cigarro, limpando as armas, impacientes para abocanhar o que temperadamente surgisse. Ou apenas com o tempero da terra, com folhagens ou ervas de quintal. Mas é a fome quem tempera a comida, verdade seja dita.

O folclore cangaceiro conta que foi numa residência com tais características que ocorreu um curioso episódio. Conta-se que Lampião mandou preparar o devido regabofe para o seu grupo e um dos cangaceiros cometeu a imprudência de dizer que a carne estava sem sal, insossa. Então o Capitão se enfureceu de tal forma que, após reprimir com palavras duras a observação impensada de seu liderado e afirmar que deviam agradecer a Deus e àquela família por comida tão saborosa, pediu todo o sal existente na casa e ordenou que o cabra engolisse tudo. E sem deixar um só tiquinho. E também um dia inteiro sem beber uma só gota d’água. Castigo exemplar para os mal agradecidos.


Por último, o regabofe saboreado nababescamente na residência de coronel ou de outra ilustre figura sertaneja. Ora, é sabido por todos que a influência de Lampião era exercida perante todas as hierarquias sertanejas, desde o homem mais simples e empobrecido ao coronel e demais autoridades. De alguns apenas a consideração pelo temor, pelo medo que possuíam; mas verdadeira reverência de outros, num lastro de amizade que permitia com que o bando tivesse guarida e acolhida nas varandas e mesas mais portentosas. Bastava a sua presença e toda e qualquer cozinha parecia fervilhar, com alvoroço de panelas e facas pinicando alimentos.

Dificilmente o Capitão antecipava o conhecimento sobre sua chegada a qualquer lugar. Era perigoso demais avisar com antecedência, vez que a desconfiança era instrumento essencial na estratégia de sobrevivência. Contudo, nada impedia - e assim aconteceu - que mandasse bilhete a uma determinada influência interiorana dizendo que tal dia se faria presente com a sua caravana de luta. Missiva sempre enviada por alguém de sua extremada confiança.

Ao chegar era recebido com as mordomias dos grandes, com direito a boa bebida e mesa farta. Não só muita comida como diversidade de pratos. O nordestino, principalmente se poderoso economicamente, é um desregrado nos alimentos que manda preparar e servir a convidado ilustre. Os mesmos pratos nordestinos, porém mais temperados, requintados e diversificados. Numa mesa assim certamente não faltava a buchada, o sarapatel, a galinha ao molho pardo, o porco assado, a carne de bode e de gado, e as aves apetitosas. E também as saladas, os molhos, as massas, os pratos ao forno de lenha.

Mas não precisava ser pessoa rica, de muitas posses e coronelato sobre o mundo sertanejo, para servir bem ao amigo Lampião. Meu avô materno Teotônio Alves China, ou China do Poço como era mais conhecido, se enquadrava nessa categoria dos que receberam o Capitão com mesa farta, mas sem ser latifundiário ou pessoa de muitas posses. Pequeno comerciante, dono de bodega, lhe sobrava, porém, a grande influência que possuía na povoação sergipana de Poço Redondo. Amigo do líder cangaceiro, era na sua residência que este buscava acolhida e mesa abastecida quando de visita ao lugarejo.

Não só Lampião e seu bando eram recebidos por Seu China, pois as autoridades regionais ali também faziam estadia. E numa ocasião, num mês de agosto em que se celebrava a festa da padroeira Nossa Senhora da Conceição, eis que o bando maior desponta na estrada e segue em direção à casa do amigo. O Capitão não sabia, contudo, que num dos quartos da residência repousava um feroz combatente de suas práticas: o Padre Arthur Passos.

Os donos da casa, Seu China e Dona Marieta, nervosos demais diante da situação inusitada, tendo ali a presença da arma e da cruz, já nem sabiam o que fazer quando foram perguntados por Lampião o que se passava para estarem assim tão aflitos. Não vendo saída, o amigo segredou-lhe sobre a presença do velho padre tirando uma soneca antes do almoço. Segredou e ficou esperando o pior acontecer.


Mas não, pelo contrário. Aconteceu muito diferente do tão temido. O Capitão sorriu com a informação recebida e disse apenas que por gentileza avisasse ao da igreja que também estava ali e que desejava muito ter o prazer de dividir a mesa com ele. Então surge outro problema para China resolver, eis que temia ser excomungado no mesmo instante que repassasse o recado ao Padre Arthur, reconhecido pela intolerância com as ações cangaceiras e inimigo declarado de Lampião. Alguns, entretanto - como verdade ou mentira -, juram na cruz que os dois mantinham grande amizade.

Amigos nos escondidos sertanejos ou não, verdade é que as pazes foram devidamente seladas na mesa servida por Dona Marieta. Com a ajuda de comadres e vizinhas, a esposa de Seu China colocou tantos pratos apetitosos à disposição que o velho padre, sempre de boca cheia e deixando cair caldo gordo pelos beiços, não conseguia dizer uma palavra inteligível sequer.

E dizem que Lampião ficou três dias sonhando com a comida e repetindo em devaneio: Me passe a buchada, me passe esse capão gordo, me passe esse lombo de porco...

(*) Meu nome é Rangel Alves da Costa, nascido no sertão sergipano do São Francisco, no município de Poço Redondo. Sou formado em Direito pela UFS e advogado inscrito na OAB/SE, da qual fui membro da Comissão de Direitos Humanos. Estudei também História na UFS e Jornalismo pela UNIT, cursos que não cheguei a concluir. Sou autor dos seguintes livros: romances em "Ilha das Flores" e "Evangelho Segundo a Solidão"; crônicas em "Crônicas Sertanejas" e "O Livro das Palavras Tristes"; contos em "Três Contos de Avoar" e "A Solidão e a Árvore e outros contos"; poesias em "Todo Inverso", "Poesia Artesã" e "Já Outono"; e ainda de "Estudos Para Cordel - prosa rimada sobre a vida do cordel", "Da Arte da Sobrevivência no Sertão - Palavras do Velho" e "Poço Redondo - Relatos Sobre o Refúgio do Sol". Outros livros já estão prontos para publicação. Escritório do autor: Av. Carlos Burlamaqui, nº 328, Centro, CEP 49010-660, Aracaju/SE.

Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com
blog do mendes

E em 2013, Hagahus Araujo no Cariri Cangaço....A saga de Luiz Padre


Com 25 anos de idade, no então sertão de Goiás, Hagahús Araújo funda aquela que foi - e continua sendo - uma das melhores obras sociais do país, o Instituto de Menores, em Dianópolis, terra natal da sua mãe, Amélia Póvoa.

Era o ano de 1953. A pobreza e a miséria do antigo nordeste goiano tocaram na alma do jovem que já se via em condições de ajudar aquela região a melhorar quadro tão desolador, através da educação. Nascido em Patos de Minas (MG) em 31 de agosto de 1928, Hagahús já havia se destacado no trabalho junto a menores. Apenas com formação ginasial no Colégio/Internato dos Padres Sacramentinos de Nossa Senhora, em Patos, tornara-se um autodidata e leitor voraz e compulsivo, dono de vastos conhecimentos para sua pouca idade. Discutia qualquer assunto com bons argumentos, serenidade e confiança, conquistando o interlocutor e a comunidade em que vivia com a solidariedade e humildade na assistência aos necessitados, e com  fidalguia, destemor e o dom da liderança que já moldavam a sua personalidade, características que lhe foram sempre marcantes. 


Sinhô Pereira, sentado; de pé:Luiz Padre

Ou uma forte herança genética: o seu bisavô paterno, Andrelino Pereira da Silva, o barão do Pajeú,de Vila Bela (PE), hoje Serra Talhada- de família portuguesa e feito nobre por ato de Dom Pedro II -foi “um dos mais influentes e poderosos  políticos pernambucanos do início do século” (jornal O Globo, 2/9/1971, em reportagem de Maura Eustáquia de Oliveira). O velho Aristocrata acolhia todos – políticos, sertanejos e músicos – nos salões de sua residência que contavam com cômodas gigantes “onde eram conservadas, permanentemente limpas, 300 redes de dormir, 300 cordas de couro para armá-las, 300 travesseiros e 300 lençóis recendendo a capim cheiroso.” na descrição do escritor Nertan Macedo. 

Hagahús é filho de Luiz Pereira da Silva, o “Luiz Padre”, o  neto do barão. Este, com apenas 16 anos e filho único, foi instado pela mãe a vingar a morte do pai, o coronel Manoel Pereira da Silva Jacobina, o “Padre” Pereira, um ex-seminarista (daí o apelido) filho do barão do Pajeú e morto em emboscada pelo clã adversário. Para atender à determinação materna, Luiz se uniu ao seu  primo Sebastião Pereira, o legendário “Sinhô Pereira”, ainda mais moço, e a outros familiares. Sinhô Pereira também era primo de Agamenon Magalhães, depois governador de Pernambuco. Suas avós eram irmãs.


Barão do Pajeú

Padre Pereira, avô de Hagahús, era um homem pacífico e caridoso que havia assumido a liderança da família na região, após a morte do pai barão. Vivia para fazer o bem no sertão do Pajeú, principalmente entre os  mais humildes, que o tinham como padrinho de pelo menos um dos seus filhos. Esta era uma forma de demonstrar gratidão a quem se dedicava, diuturnamente, a servir ao próximo e a todos que o procuravam. A exemplo do pai, tinha a casa sempre cheia de amigos e gente do povo, e com comida farta. Foi o escolhido para morrer justamente por sua bondade, por sua liderança e por não ter adversários, o que provocaria a ira da sua poderosa família, como frisam os historiadores.

O assassinato do Padre Pereira - de maneira covarde e brutal- gerou uma das mais cantadas, sangrentas e históricas lutas de família nos sertões nordestinos do início do Século XX, Pereira X Carvalho. Nesses combates, que duraram mais de uma década, Luiz Padre e Sinhô Pereira tiveram Lampião sob os seus comandos, antes deste se tornar o temível cangaceiro e reinar absoluto pelos sertões, após 1923.

Preocupado com os rumos que essas lutas de família tomavam, o Padre Cícero Romão, do Ceará, aconselhou Luiz Padre a abandonar o Nordeste. Em 1920, Luiz Padre – já com o nome de José Andrelino ou Zeca Piauí – chega ao sertão de Goiás, mais precisamente em São José do Duro, (hoje Dianópolis), onde se casa com Amélia Póvoa, esta com 13 anos de idade. O primo de Zeca, Sinhô Pereira (os pais eram irmãos), teve de retornar a Pernambuco. Só mais tarde, eles voltam a se encontrar em São José do Duro, região também conturbada por lutas locais. Com eles vieram remanescentes do grupo e o major José Inácio, líder político da cidade do Barro (CE). O assassinato do major, de forma vil, gerou cruento conflito com  a facção do líder político da região, o ex-deputado Abílio Wolney .


Dona Chiquinha e "padre" Pereira

Mais uma vez, os dois filhos ilustres do sertão do Pajeú decidem recomeçar uma nova vida em outras terras, em Patos de Minas, sob as graças do coronel Farnesi Dias Maciel, irmão do presidente Estadual, Olegário Maciel, de quem se tornam amigos. Zeca (Luiz Padre) e Chico (Sinhô Pereira) passaram a adotar os nomes de José Araújo e Silva e Francisco Araújo e Silva. Jamais se deixaram fotografar com armas. Vestiam-se de maneira sóbria, não bebiam, não fumavam, não tinham vícios, e o passado de lutas era um tabu na família que vivia apenas para o trabalho, no interior de Minas. Os próprios filhos só tiveram conhecimento dos antecedentes de luta dos seus genitores quando rapazes.

Em 1950/1951, Zeca  e Chico   declinaram do convite do governador de Pernambuco, Agamenon Magalhães, para retornarem  à terra natal. A família, de alguma forma, voltava ao Poder, com a eleição do ilustre parente para o governo do Estado.Despido do sentimento do medo, até por herança genética, Hagahús enfrentou lutas diferentes dos seus ancestrais. E movido apenas pelo idealismo.


Agamenon Magalhães

Os interessados em mais informações  ou em aprofundar questões aqui tratadas poderão procurar os livros do respeitado pesquisador e escritor tocantinense, Osvaldo Póvoa; de Nertan Macedo,Sinhô Pereira, o Comandante de Lampião; o livro O Tronco,  de Bernardo Élis; o  diário e relatos de Abílio Wolney condensados  por seus netos Abílio  e Voltaire; as detalhadas anotações da história política de Dianópolis feitas por Noélia Costa Araújo e a rica biblioteca e arquivos da Câmara dos Deputados.

Esta é apenas uma contribuição ao resgate da memória do nosso jovem estado, com vistas a fomentar e incentivar o surgimento de novas personalidades que haverão de contribuir para a consolidação do progresso e do desenvolvimento de um Tocantins mais justo e fraterno.

FONTE: www.dno.com.br

NOTA CARIRI CANGAÇO: Hagahús Araujo, filho de Luiz Padre é mais uma espetacular confirmação no Cariri Cangaço 2013. Por ocasião da homenagem que será prestada à sua avó, pelo Cariri Cangaço e o município de Barro do confrade Sousa Neto à Dona Chiquinha, matriarca da família e mãe de Luiz Padre é esperar para ver...Cariri Cangaço 2013 com Hagahús Araujo.

Rostand Medeiros na Serra Grande

Rostand Medeiros na Serra Grande

Olá amigo Severo, espero que esteja tudo bem com você meu grande amigo. Como sei que você gosta de história e pesquisa, gostaria de compartilhar contigo algumas fotos da minha última viagem ao Sertão do Pajeú (PE), para trabalhar em uma consultoria junto a TV Brasil/EBC, de Brasília, em um documentário sobre o cangaço, que em breve vai estar na telinha.

Estava com o André Vasconcelos, de Triunfo, meu amigo e parceiro de empreitadas.Estivemos em várias partes do Pajeú, principalmente em Triunfo e Serra Talhada. Nesta última cidade ficamos na zona rural, na Fazenda Barreiros, onde passamos ótimos momentos. Dali subimos a Serra Grande, palco do maior combate de Lampião contra as volantes. 

 
 
 

Foram 900 metros de altitude que tivemos de encarar e assim compreender o que ocorreu neste local em novembro de 1926.Neste local, Lampião e seu bando, segundo algumas fontes com 85 homens, venceu várias volantes, que totalizavam 300 policiais pernambucanos. 
Um abraço.

Rostand Medeiros

Ganha força o movimento pelo tombamento da Casa de Chico Pereira



Na edição de hoje, 16 de julho de 2013, do jornal A União, que circula no Estado da Paraíba, foi vinculada uma reportagem fazendo alusão ao pedido de tombamento, restauro e criação do museu do cangaço na cidade de Nazarezinho – PB.

A cada dia o movimento está 
ganhando mais força.

Wescley Rodrigues

Regabofe Cangaceiro Parte I Por:Rangel Alves da Costa


É de conhecimento generalizado que cangaceiro, ainda que diuturnamente convivendo com as mais difíceis situações, era sujeito zeloso e vaidoso. Demasiadamente cuidadoso com sua aparência, sim senhor. Tome-se como exemplo as vestes vistosas, os adornos coloridos, os apetrechos cuidadosamente bordados e costurados, sem falar no uso da brilhantina, do óleo de coco e dos perfumes e loções. E dizem que até importados.

No anseio de se mostrar ao mundo como pessoa de vida normal, feliz, contente, nos seus afazeres cotidianos de repouso e retomada de energia, aceitou de bom grado que o fotógrafo sírio-libanês Benjamin Abraão o registrasse quase que artisticamente. Fazia poses, fingia estar atirando, era retratado solitariamente ou em grupo. E nas fotografias um Lampião familiar ao lado de sua Maria e seu cão; o líder lendo a missiva talvez de um coronel importante; tomando conhecimento do prêmio de sua cabeça através de um jornal. Num dos retratos, Virgulino folheia uma revista com modelo em traje de banho. E, sem qualquer receio, mostra o que estava apreciando. E bem ao lado de sua Maria. Cangaceiro era assim, quase um artista.


Na verdade, cangaceiro era um espalhafatoso, gostava de aparecer, de causar uma imediata e aparatosa impressão. Que o medo acaso causado fosse por outro motivo, não pelo aspecto apresentado. As mãos que apertavam o gatilho para matar, que puxavam o punhal para sangrar e para afastar os garranchos e pontas de espinhos da caminhada, eram as mesmas mãos reluzentes dos anéis dourados se enfileirando nos dedos.

E um jeito assim vaidoso de ser não podia ser diferente quando se tratava do alimento. E é inegável que todo mundo quer se fartar do melhor. Mas neste ponto tinha de obedecer à fome e o que estivesse à disposição. O que não significa que abdicasse da escolha do melhor que pudesse ser encontrado na região onde estivesse de passagem ou de refúgio. Mas num sertão empobrecido, de pobreza reinando perante a maioria da população, fortuna quando encontrava uma criação ou uma mesa mais sortida.

Sertanejo, conhecedor e apreciador da cozinha matuta, um guloso pelas misturas e pedaços depreciados pelos sulistas, o cangaceiro só não comia do bom e do melhor se a ocasião só permitisse se contentar com um naco de carne seca e um punhado de farinha seca. E tantas vezes nem disso pôde dispor. Mas o seu intento era sempre ter um prato de alumínio transbordante de feijão de carne com carne de bode, só para citar uma das iguarias autenticamente nordestinas.

Apetitoso no seu regabofe, costumeiro esvaziador de prato de estanho e de qualquer prato. Mas, antes que esqueça, pelas bandas de cá nordestinas, ou sertanejas mesmo de chão rachado de sol, chama-se regabofe o alimento que dá sustança ao cabra. Pode ser uma buchada gorda de bode, um sarapatel apimentado, um mocotó suculento, mas também a perna de preá assada ou até mesmo a carne de palma refogada. Dependendo da fome e da situação, tudo é festança no bucho, na barriga esfomeada.

Por isso mesmo, todo esforço que se faça para citar quais os alimentos da mesa cangaceira, necessário será que se aponte quatro situações ou momentos diferenciados no seu regabofe, e tudo na dependência de onde e como estivesse. Porque a fome existia sempre, e acrescida pelo esforço físico, ainda que sem tempo para comer e ela ali judiando por dentro. Logicamente que o alimento colocado à disposição do coito não era o mesmo que o apressadamente engolido na caminhada pelas matarias.


Do mesmo modo, diferente era a comida de coito e aquela encomendada às pressas nas moradias sertanejas que fosse encontrando na caminhada. E mais diferente ainda era o farto alimento encontrado quando recebido como ilustre e importante visitante de um coronel ou outro poderoso qualquer. Quer dizer, o regabofe variava segundo o local e a situação onde estivesse.

Assim, foi dito que o alimento se diferenciava perante quatro situações. A primeira seria aquela cotidiana, da vivência no bando, saboreada no calor da caminhada ou do repouso na mataria; a segunda seria aquela servida com mais fartura, mais aprimorada, colocada à disposição quando bando se acoitava por mais tempo em determinado lugar; a terceira seria aquela encontrada pelas estradas, nas moradias sertanejas onde batesse à porta e ordenasse o preparo de urgente alimentação; e a quarta seria aquele regabofe mais faustoso, de lamber os beiços e repetir o prato, vez que saboreado na condição de convidado ou de ilustre visitante na residência de um portentoso senhor nordestino.

Continua...

(*) Meu nome é Rangel Alves da Costa, nascido no sertão sergipano do São Francisco, no município de Poço Redondo. Sou formado em Direito pela UFS e advogado inscrito na OAB/SE, da qual fui membro da Comissão de Direitos Humanos. Estudei também História na UFS e Jornalismo pela UNIT, cursos que não cheguei a concluir. Sou autor dos seguintes livros: romances em "Ilha das Flores" e "Evangelho Segundo a Solidão"; crônicas em "Crônicas Sertanejas" e "O Livro das Palavras Tristes"; contos em "Três Contos de Avoar" e "A Solidão e a Árvore e outros contos"; poesias em "Todo Inverso", "Poesia Artesã" e "Já Outono"; e ainda de "Estudos Para Cordel - prosa rimada sobre a vida do cordel", "Da Arte da Sobrevivência no Sertão - Palavras do Velho" e "Poço Redondo - Relatos Sobre o Refúgio do Sol". Outros livros já estão prontos para publicação. Escritório do autor: Av. Carlos Burlamaqui, nº 328, Centro, CEP 49010-660, Aracaju/SE.


Rangel Alves da Costa é Poeta e cronista
http://blograngel-sertao.blogspot.com.br
http://blogdomendesemendes.blogspot.com

SBEC na luta pela Restauração da Casa de Chico Pereira


II Grande Encontro da Família Xavier Por:José Cícero


Na noite do sábado(13) aconteceu no hotel Verdes Vales na cidade de Juazeiro do Norte(CE) a abertura oficial do 2º Grande Encontro Nacional da Família Xavier, cuja gênese genealógica no Ceará remonta o longínquo ano de 1797 a partir do nascimento do patriarca coronel Francisco Xavier de Sousa (fundador ou co-fundador de Aurora) na vila de Aracati. Indo em seguida para Aurora(antiga Venda) e seus descendentes(Aristides Xavier) para Missão Velha, Crato e Ipueiras(em Serrita no Pernambuco) e de lá se espalhando para o resto do Brasil e o mundo.

"Foi um encontro dos mais memoráveis e alegres, ocasião em que várias gerações do clã Xavier se reencontraram para matar saudade, trocar ideias, debater amenidades e, mais uma vez, conhecer um pouco mais da sua própria história a partir do Cariri cearense", enfatizou o secretário de cultura de Aurora que igualmente participou do acontecimento como palestrante convidado.  

 Audízio Xavier
Socorro Xavier e o relançamento de "A Saga da Ipueiras"

Uma verdadeira saga, na opinião de alguns historiadores presentes, tais como Dr. Napoleão Tavares Neves e  Socorro Cardoso Xavier, Ionny Sampaio e José Carlos Gentil.

A abertura aconteceu a partir de recepção da família, amigos e outros convidados. Seguida da apresentação de três palestras com os seguintes temas: 1º - "A origem da família Xavier de Aracati à Aurora no Ceará", proferida pelo secretário de cultura e Turismo de Aurora professor José Cícero. 2º - 'De Aurora ao sertão do Pernambuco' por Eimar Granjeiro Xavier e 3º - 'Família Xavier em crônicas Cangaceiras' por Dr. Napoleão Tavares Neves. 

Napoleão Tavares Neves
José Cícero Silva

A programação do 1º dia constou ainda de: exibição  do documentário: "Causos e Acasos da família Xavie" por Audízio Xavier Almeida,;apresentação dos núcleos famílias por cidades residentes e lançamentos dos livros: Lagoa dos Cavalos de autoria de José Carlos Gentil - presidente da academia de letras de Brasília(ALB) e A Saga de um clã Xavier de Maria do Socorro Cardoso Xavier. Além de depoimentos e imagens  da estirpe Xavier, bem como do jantar de confraternização e muito forró de pé de serra com o sanfoneiro pernambucano Ciço do acordeon e sua banda.

Serão três dias de atividades programáticas festivas e culturais ( 13, 14 e 15) de Juazeiro do Norte, Barbalha, Exu e Ipueiras dos Xavier(PE). O III Encontro de 2014 segundo afirmou o organizador do evento Audízio Xavier está previsto para acontecer na cidade de Recife no Pernambuco. Além de representantes da verdadeira colônia Xavier de diversas partes do país e amigos e autoridades convidadas também participaram do evento. Por sinal, bem criativo, organizado e informativo.


José Cícero Silva
Fotos João Silva

NOTA CARIRI CANGAÇO: É com muita satisfação que abraçamos a todo o Clã Xavier na pessoa do companheiro Audízio Xavier, pelo brilhantismo do II Grande Encontro da Família Xavier; o Cariri Cangaço, representado por seus Conselheiros, Napoleão Tavares Neves e José Cícero, se une ao sentimento de preservação e resgate da memória de tão importante família. Que em 2014 possamos ter mais um grande momento Xavier.