Nazarezinho Parte II Por:Paulo Gastão

Fazenda Jacu da família Pereira, em Nazarezinho

Em determinado momento as famílias de Sigismundo e Pereira se cruzam quando seus filhos Raimundo e Vanice se casam e vão residir em Brasília nos seus primeiros anos de existência, já tendo se tornado a jovem Capital Federal. Não sabemos as causas durante passadas festas do Natal, Raimundo desapareceu e até hoje nenhuma notícia do seu paradeiro. Chico foi para Roma, tornou-se escritor, professor e jornalista. Consegue no final da vida transformar sua grande obra em peça de teatro. E assim Vingança, Não teve inicio a sua grandiosa caminhada. Pelos caminhos do radioamadorismo nos aproximamos de um colega que operava na cidade de Aracaju. 

Era ele frei Lauro, frade da mesma ordem de Albano e que por nossa solicitação, sem saber do que se tratava, quando nós queríamos conhecer mais um filho de Chico Pereira. O tempo se passa e frei Lauro de descendência alemã, passa a residir em Campina Grande, onde viemos a conhece-lo. Naquela oportunidade para nós rara, lhe fizemos completo relato do por que da nossa solicitação. Mas, frei Albano já havia sido transferido e não sabíamos do seu paradeiro. Durante longo período não conseguimos saber do paradeiro do frei Albano. Mais uma vez quem nos salva é frei Lauro, confirmando a presença desejada no Santuário do Canindé no Ceará. Surge que recebemos convite do amigo de caminhadas nas caatingas atrás de depoimentos do tempo de cangaço, Aderbal Nogueira, que nos estende convite para colhermos algumas imagens na Serra Grande ou Serra da Ibiapaba e assim chegamos até a gruta de Ubajara. 

Aderbal Nogueira, Paulo Gastão e José Mendes, do blog "Mendes e Mendes"

Seguimos em busca de Sete Cidades já em território piauiense e fina neblina nos roubou a grande oportunidade de filmarmos as belezas construídas pela natureza.  Seguindo viagem nos deparamos com Guaraciaba do Norte e procuramos pelo bisneto de Antônio Conselheiro, porém, não se encontrava na cidade naquele momento. Então nos dirigimos até a cidade de Ipú, fotografamos e filmamos a bela cachoeira e procuramos nos aperceber da brilhante figura de Leonardo Mota, também identificado de Leota, magistral pesquisador, memorialista e folclorista cearense. Estará chegando uma grande data, ou seja, o sesquicentenário do coronel Delmiro Gouveia o maior empreendedor do Nordeste brasileiro e como a memória do homem de hoje é pequenina por demais, não deveremos comemorar absolutamente nada. Uma vergonha para o Nordeste e para o Brasil. E chegamos ao começo da noite, a cidade de Canindé em festa, a igreja não cabia mais ninguém e teria sido momento de abraçar frei Albano. Nunca pensamos que a cidade estivesse em festa e terminamos indo dormir em Fortaleza.

Afinal Jarda viu seus filhos encaminhados na vida do bem, a enaltecer a memória do pai. Afinal o pai, o homem, o cangaceiro, o cabra macho, ganha espaço no nosso relato. Com a morte do seu genitor o que se tinha em casa era a não violência, era o perdão, o afastamento da vingança que não lavaria a lugar algum. Do outro lado, o mundo via as posições inversas, ou seja, deveria existir a vingança, que a família não poderia ser desmoralizada e assim num crescendo difícil de mudança de comportamento. Conselhos e pedidos foram feitos a Francisco Pereira, o Chico Pereira para não estabelecer a vindita. Mas, o bicho homem depois de decidir o que deseja torna-se impenetrável nas suas decisões, e assim, o filho que perdera o pai vendo que a justiça nada resolvia, tomou do mosquetão e ganhou a caatinga em busca do seu desafeto. 


Jarda, esposa de Chico Pereira

Consegue trazê-lo e coloca-o na prisão. Algum tempo depois está o criminoso na rua. Chico Pereira resolve ampliar sua capacidade de luta e percorre terras vizinhas no próprio estado e viver muito além, percorrendo trilhas nos estados do Ceará, Pernambuco e Rio Grande do Norte.

Localidades que fizeram parte do universo de Chico Pereira. Na Paraíba temos: a partir de Nazarezinho, Sousa, São Gonçalo, Lastro, Antenor Navarro, Fazenda Jacú, Cajazeiras, Condado, Malta, Sítio Pau Ferrado, Coremas, Patos, Santa Luzia, Campina Grande, Guarabira. No Rio Grande do Norte anotamos Acarí, Serra da Rajada, Currais Novos. Esta nomenclatura está estabelecida no livro Vingança, Não, página 18, da Livraria Freitas Bastos, 1960.

Porém as andanças de Chico Pereira se estenderam por um território bem mais amplo. Nas suas andanças Chico Pereira passa a conhecer nomes pouco conhecidos até hoje, como seja: Estrêla do Norte, Jandaia, Serra Negra, Maçarico, Caboré, Jordão, Estrêla Dalva, Corró, Moitinha, Curió, Perigo e muitos outros. Sua mãe pedia para acabar com aquelas andanças perigosas e Chico dizia que queria primeiro casar. Casamento ocorrido por procuração no dia 25 de maio de 1925 na matriz de Pombal. A noiva de 14 anos apenas de nome Jardelina Nóbrega. Depois tomaria o rumo de Goiás para onde já teriam ido Luís Padre, Sinhô Pereira e Zé Inácio do Barro. Era ele bem informado dos acontecimentos que ocorriam no atribulado mundo. Permaneceu no seu torrão natal.


Paulo Gastão em Conferência no Cariri Cangaço dentro do Parahyba Cangaço, ao lado de João de Sousa Lima e Wescley Rodrigues

Patos de Princesa, hoje Irerê, recebeu a visita de Chico Pereira sob os auspícios do coronel Marcolino Diniz, seu amigo pessoal. Fora da vila residia na casa grande, o major Floro, proprietário de terras, gado. Homem que implantou energia elétrica em fins do século XIX, mesmo antes de Triunfo.

Quanto a sua prisão a literatura oral menciona que os Presidentes (hoje governadores) dos estados da Paraíba João Suassuna e do Rio Grande do Norte Juvenal Lamartine de Faria entraram em acordo no sentido de exterminar a chaga do cangaço nos seus territórios. Juvenal esteve a frente do governo potiguar desde 01 de janeiro de 1928 até 05 de outubro de 1930. Correu mundo a seguinte afirmativa: Juvenal Lamartine caçava a cabeça de Chico Pereira em toda região nordestina desde o dia que tomou conhecimento de que um sua parenta, moça bonita e prendada, estava apaixonado por Chico Pereira e com ele queria casar. Juvenal encetou caçada até que consegui prender Chico Pereira que numa trágica viagem os policiais que o transportavam viraram o carro por cima do preso e para encobrir o crime simularam o acidente. Seu mausoléu está fincado às margens da BR-427, quilometro 177 e está a 18 km de Currais Novos do lado esquerdo de quem vem de Natal para Acarí. Na noite tenebrosa da covardia, Chico Pereira encontrou a morte.

Resumindo, Chico Pereira passou a conhecer mundos dos estados de Pernambuco, Ceará e Rio Grande do Norte, onde praticou assaltos, crimes, sozinho ou com seu pequeno bando e foi na cidade de Acarí no estado do Rio Grande do Norte instaurado o Processo Crime contra o paraibano, amor de Jarda.


Local onde foi morto Chico Pereira, na Rodovia BR 226, sentido Currais Novos-Natal.

Vejamos a força do relato oferecido por P. Pereira Nóbrega, a pag. 126.
27 de julho de 1924. As quatro da madrugada, Sousa estava cercada. Os 84 homens formavam quatro pelotões sob a chefia de Chico Pereira, Levino, Antônio Ferreira, Chico Lopes. Três grupos algum tempo ficaram piquetando as principais entradas da cidade, para impedir qualquer socorro de fora. Chico Pereira foi bater à porta da delegacia, acordando as autoridades.

- Tenente Salgado, me desculpe. Não esperava que o senhor estivesse aqui.  Se soubesse, não teria vindo, por atenção à sua pessoa. Mas já é tarde para voltar a trás. Comunico à polícia que Sousa está cercada. Vamos abrir fogo contra Otávio Mariz. Se quiserem podem reagir. Se quiserem podem sair em paz.

O Tenente Salgado sabia que estava só. Reagir era suicídio. Às sete horas da manhã batia retirada. O resto da polícia cumpriu o que dissera às vésperas: passividade absoluta ante os cangaceiros. Êles também foram gratos. A polícia não fizeram mal... Arrolado num processo de mais de 800 páginas está um memorandum do juiz de direito, dirigido ao Presidente do Estado, em que depõe sobre militares:

É de lamentar que a fôrça da polícia, composta de 10 a 12 praças, sob o comando do sargento Apolônio, não tinha se movido a menor diligência de rebate aos assaltantes, pois não disparara uma só arma, conservando-se indiferente no seu cômodo aquartelamento na cadeia, de onde observava o trânsito constante e desassombrado dos cangaceiros, ostensivamente senhores de tudo e de todos. “O Tenente Salgado que ali viera pronto e solícito a reunir-se ao destacamento local no dia anterior à negregada tragédia, não encontrou infelizmente apoio e solidariedade daquela fôrça para a resistência ao ataque que se pressentia, tendo declarado o sargento que os soldados não atirariam se fosse realizado o assalto à cidade pelos referidos bandidos.


Rachel de Queiroz

A história de Chico Pereira nos chega pelas mãos da querida escritora Raquel de Queirós, que no seu prefácio intitulado ÊSTE LIVRO, diz: ”Êste livro, é um livro de padre, mas é também um livro duro, que conta uma história imensamente dramática. Nêle não se poupa ninguém – embora não se acuse ninguém. É um depoimento que impressiona pela honestidade – e se às vezes como obra de arte que é, alça às puras alturas da beleza, nunca perde a severa imparcialidade que representa a marca principal”...

Procura Raquel concluir sua apresentação com o brilhante depoimento: “Conheci este ano a moça Jarda. A esposa-menina de Chico Pereira. Digo moça, porque realmente ainda está muito jovem, embora marcada por tantas tragédias. É uma mulher bonita, de fala mansa e gestos tranqüilos. Vive para os netos que lhe deu o filho engenheiro e pelo amor dos dois outros filhos – um frade e um padre. Conversamos feito amigas de muito tempo – e, curiosamente, Jarda não me deu a impressão da viúva esmagada por um acúmulo de dramas; pareceu-me antes uma pessoa que lutou muito e acabou triunfando. E os dois filhos, ministros de Deus, são a evidente razão dêsse triunfo. Pois, ao encaminhá-los para o sacerdócio, ela não o fazia como uma reparação, como um sacrifício propiciatório pelos pecados do pai. Parece ao contrário que ela queria provar – e provou – que se o sangue de Chico Pereira lhe deu tais filhos – quem tinha razão era ela em o amar quando vivo e lhe venerar a memoria depois de morto. São os filhos de um guerreiro, que serviu uma causa errada sim, mas a serviu com bravura e desprendimento e, por ela morrendo, pagou todos os erros de que se culpara”.

Texto apresentado pelo pesquisador e escritor Paulo Gastão em Conferência do Cariri Cangaço em Nazarezinho, dentro do Parahyba Cangaço em junho de 2013.

Paulo Medeiros Gastão
Sócio Fundador da SBEC
Conselheiro Cariri Cangaço

Augusto Santa Cruz, o "Cangaceiro Doutor"

Dr. Augusto Santa Cruz, o "cangaceiro doutor"

No final do século XIX o país passava por muitas mudanças com a Abolição, em 1888, a República, em 1889, e as diversas facções políticas se realinhavam, se reestruturavam e lutavam pelo poder. Havia grandes desavenças políticas, e os Partidos Liberal e Conservador se readaptavam à nova ordem.

Em 5 de agosto de 1891 foi promulgada a primeira Constituição Republicana da Paraíba, trazendo modificações nas instituições, pois as províncias haviam sido transformadas em estados, cada um com constituição própria. A reorganização política dos municípios abalou estruturas de poder consolidadas, com ameaças à oligarquia dominante. Foi nesse contexto de profundas transformações políticas que cresceu Augusto de Santa Cruz Oliveira, nascido em 1875, filho de João de Santa Cruz Oliveira e de Ornicinda Bezerra, sendo esta filha do Tenente Manoel dos Santos Bezerra, de tradicional família da vila de Alagoa do Monteiro, na região do Cariri Paraibano.

João de Santa Cruz Oliveira havia chegado àquela localidade na segunda metade do século XIX proveniente da vila de Correntes, no Agreste de Pernambuco. Logo se tornou figura destacada na região, dono de várias fazendas, coronel da Guarda Nacional, político influente e deputado provincial pelo Partido Liberal na 25ª. Legislatura (1884/1885). O casal João/Ornicinda teve cinco filhos: Miguel, Arthur, Augusto, Theotonio e Francisca. Os três primeiros se formaram na instituição de ensino mais prestigiada do país àquela época: a Faculdade de Direito do Recife, onde Miguel formou-se em 1891 e Artur e Augusto em 1895.

Alagoa do Monteiro

Durante alguns anos, em Monteiro, o comando político havia sido da família Santa Cruz. Além do Cel. João de Santa Cruz Oliveira, Miguel de Santa Cruz Oliveira, seu filho mais velho, também se destacou na vida pública, tendo sido deputado provincial em 1892 e 1894. O Dr. Augusto de Santa Cruz Oliveira, era mais afeito à política do que os irmãos Arthur e Miguel, que preferiram dedicar-se à magistratura, tendo ocupado ambos e por várias vezes cargos de juiz e promotor em diferentes comarcas da Paraíba, Pernambuco e Alagoas. O irmão Theotonio de Santa Cruz Oliveira, conhecido por “Seu Santos”, mais novo, apaixonado pelas lides rurais, vivia nas fazendas da família. Pelo temperamento, pelo gosto da luta e pela vocação, Augusto foi o herdeiro político natural do pai, que havia falecido antes de 1895. Aos 23 anos, em 1898, já era promotor público em Monteiro.

No início do século XX, o presidente da província da Paraíba Álvaro Machado querendo desmantelar o poder exercido pelos Santa Cruz na região, resolveu investir na liderança do Cel. Pedro Bezerra da Silveira Leal, homem de origem humilde, que havia galgado seu posto às custas de esforço pessoal, sem proceder de família importante. Além disso, era semi-analfabeto. Aos olhos do poder central, sediado na capital, seria uma figura mais fácil de manobrar do que o voluntarioso e ilustrado bacharel Santa Cruz, afeito ao poder, ao mando, carismático, possuidor de vontade própria, com projetos políticos pessoais e liderança consolidada e inconteste.

Homens armados do Dr Augusto Santa Cruz, fonte: Guerreiro Togado

A indicação pelo governo central do coronel Pedro Bezerra soou para Augusto como um desprestígio, um insulto às suas qualidades. Formado, promotor, ilustrado, rico, filho de família tradicional, não se conformava em ser preterido dessa forma. A mesma coisa havia ocorrido no vizinho município paraibano de Teixeira, onde o comando político havia sido transferido para o Coronel Dario Ramalho de Carvalho Lima, em detrimento do Dr. Franklin Dantas, médico, líder político até então.

Rompido com os chefes locais, o Dr. Augusto Santa Cruz protagonizou uma série de episódios onde imperou a violência, com perseguições, espancamentos, invasões de vilas, tiroteios e mortes. Em 1910, rompeu com Pedro Bezerra, envolveu-se em emboscadas e invadiu a vila de São Tomé (atualmente a cidade de Sumé-PB).

Por esses crimes foi pronunciado pela Justiça. Inconformado, em maio de 1911 cercou a vila de Monteiro com 200 homens armados sob o seu comando, quebrou a cadeia, libertou os presos e fez vista grossa aos desatinos que seus homens cometeram pela cidade, quebrando portas, saqueando lojas e bens dos inimigos. Ao final da escaramuça, tomou como reféns as autoridades locais, conduzindo os prisioneiros para sua fazenda Areal. Augusto Santa Cruz pretendia negociar a liberdade deles em troca de anistia dos crimes pelos quais estava sendo acusado.(1)

Casa sede da Fazenda Areal , fonte: Tokdehistória.wordpress

O governador ignorou os pedidos de negociação e enviou força policial a Monteiro para prendê-lo e libertar os reféns. A fazenda Areal foi atacada pelas tropas e depois de intenso tiroteio Santa Cruz conseguiu evadir-se com seus homens. Os reféns foram sendo soltos aos poucos, ou foram fugindo, aproveitando as brechas da segurança. A força policial, depois do cerco, queimou completamente a fazenda, destruindo tudo o que encontrou pela frente. Mas Santa Cruz não desistiu. Reorganizou suas forças, aliou-se a Franklin Dantas, líder também desprestigiado no Teixeira, junto com o qual traçou planos de invadir a capital da Paraíba. Para isso, conseguiu reunir um “exército” de mais de 400 homens, entre moradores, empregados, fugitivos da justiça, ex-cangaceiros, amigos e parentes(2).

Em maio de 1912, à frente dessa beligerante coluna, o Dr. Augusto Santa Cruz invadiu Patos, Taperoá, Santa Luzia do Sabugi, Soledade e São João do Cariri. A partir daí, frente à resistência oferecida pelo governo estadual e vendo a impossibilidade de continuar tendo sucesso no tresloucado projeto, fugiu para Pernambuco e em março de 1913 foi submetido a júri popular em Monteiro, com os irmãos Miguel e Arthur atuando na defesa, sendo absolvido por unanimidade.

Depois disso, exerceu o cargo de juiz de Direito em várias localidades de Pernambuco. Aposentou-se em Limoeiro-PE, onde faleceu, em 31 de outubro de 1944, aos 69 anos de idade.

1. As autoridades seqüestradas foram: Pedro Bezerra, prefeito; José Inojosa, promotor público; Capitão Albino, comerciante e fazendeiro; Major José Basílio, comerciante e fazendeiro; e Victor Antunes, chefe da Agência do Correio da Vila de Alagoa do Monteiro. NUNES FILHO, Pedro. Guerreiro Togado: fatos históricos de Alagoa do Monteiro. Recife, Ed. Universitária, 1997. A fazenda Areal se localiza atualmente no município de Prata-PB
2. Desse exército, fazia parte, como seu lugar-tenente e homem de confiança, Julio Salgado, irmão de Teotônio Salgado de Vasconcelos, meu bisavô. Julio Salgado e sua mulher Quitéria Amélia Borba Salgado (Sinhá), meus tios-avós, foram padrinhos de batismo de minha mãe, Cleuza Santa Cruz Quirino

Nazarezinho Parte I Por:Paulo Gastão


Nazarezinho: Pela primeira vez estamos a nos debruçar sobre momento delicado e significativo ocorrido nesta região. Retornar no tempo significa interesse nas nossas origens. A história que estamos a abraçar é singular. A primeira pergunta que muitas pessoas fazem trata-se de uma interpelação ou curiosidade: Que dimensão se pode dar a família Pereira?

Ela no Nordeste se fixou e tem se ampliado das margens do rio São Francisco, onde mencionamos Piranhas; seguimos em direção ao Norte e abrigados os encontramos às margens do rio Pajeú em Serra Talhada e na ribeira do Piancó, representada por Nazarezinho. Como trazer os Pereira para com a presença dos cristãos novos entre nós?

Necessário se faz um estudo genealógico contundente, específico e esclarecedor para que possamos nos aperceber da representatividade desta ilustre família. Alguns aspectos são determinantes para com o processo evolutivo desta região. A presença dos dirigentes da Casa da Torre é determinante, no sentido da implantação de novos currais. Com a caminhada dos vaqueiros até o Sul do estado do Piauí em determinado momento verificamos o caminho de volta pelo gado gordo, que transitava na chamada Estrada Real, que determina a espinha dorsal deste estado, servindo até os dias atuais, para seu grande fluxo de riquezas e materiais de vários matizes. Esta estrada é fundamental para levar a proteína até as populações do litoral, que se dedicavam a glicose pela cana-de-açúcar e seus derivados.  Para que estes conceitos sejam ampliados recomendamos a leitura da obra de Rosilda Cartaxo – Estrada das Boiadas (roteiro para São João do Rio do Peixe).   

Paulo Medeiros Gastão

A geografia nos mostra de uma situação deveras interessante. Sendo Nazarezinho considerado nosso centro, para o Norte temos o Rio Grande do Norte; para o Sul Pernambuco e para oeste o Ceará. Conclui-se que o elemento – divisa – encontra-se bem próximo. Se constitui erro designar como fronteira, pois, é entre países que a denominação é correta. Que os futuros pesquisadores não cometam este erro. Os deslocamentos para outros estados eram frequentes, desde que não era permitida a presença de militares atuando fora do seu estado de origem. Depois de algum tempo as divisas deixaram de ser problema para o trânsito das volantes.
O mando regional era estabelecido pelo coronel. Desde o século XIX que as patentes eram compradas. O imenso país, sem vias de acesso, buscou o governo na figura do coronel o processo administrativo, de mando, das diretrizes políticas e do conteúdo social. Era, portanto, o coronel, um potentado por excelência. Para seu comando corria a riqueza da região, concentrando inclusive as peças de ouro e deixando as localidades pobres ou de pouca representatividade. Dai a grande concentração dos movimentos bélicos terem ocorrido na área do campo e de pouca atuação nas comunidades que buscavam a todo custo se tornarem núcleos denominados de cidade. Nos afirma Horácio de Almeida, na sua História da Paraíba, que no Nordeste o aparecimento das  cidades ocorre a partir de 1850.

A região recebe a Coluna Prestes oriunda do Norte, que tinha alcançado Flores, hoje Timon, estado do Maranhão. O caso do padre Manoel Otaviano, que resolveu defender seu rebanho tendo trágico fim, representa o mais significativo episódio em terras paraibanas. Quando anos após eclode a Revolta de Princesa, sob o comando do coronel Zé Pereira, chefe político e filho de tradicional família da região oestana.  Mais uma vez temos o registro dos Pereira, fazendo história no seu torrão natal. Não confundir este episódio isolado com a Revolução de 30, que atingiu a nação.

A implantação de novos segmentos na região determinou a chegada do barracão. Este por sua vez era controlado e mantido pelo coronel e servia como fonte de abastecimento aos residentes na construção de açudes, estradas e outros segmentos. Desta feita vamos nos deparar com grave situação, desde que, ocorre um assassinato vitimando pessoa de representatividade na comunidade local. O barracão funciona em São Gonçalo. É morto o sr. João Pereira e outros. O moribundo pediu por várias vezes que não existisse vingança.

Cariri Cangaço presente em Nazarezinho, de Chico Pereira

Acreditamos que caso único no planeta, onde fica estabelecida a conduta em não haver vingança. Gesto heroico e que deve ter sensibilizado a todos que tomaram conhecimento da decisão. Com o passar do tempo aparece no caminho a saga histórica de Chico Pereira.

Como nos posicionarmos frente a epopeia vivida por este paraibano? No inicio do ano de 1959 de férias na minha cidade, Trinfo estado de Pernambuco, recebemos a visita de um senhor que procurava pelo meu genitor. O nome do meu pai é Manoel Gastão Cardoso que morou vários anos em Princesa e dela se afastando por recomendação da própria família quando estourou a Revolta de Princesa. Foi ele ao chegar a Triunfo funcionário da firma do coronel Carolino de Arruda Campos, também conhecido pelo apelido de – Duduzinho. Tornou-se almocreve e consequentemente conhecedor da região e seus habitantes. O período das suas andanças está compreendido entre 1930 e 1940. Porém, o meu pai não se encontrava na cidade naquele momento. Fizemos ver ao nobre pesquisador que desconhecíamos documentos referentes ao assunto em questão, mas, na vizinha Princesa ao chegar ao cartório, procurasse o senhor Zacarias Sitônio, meu padrinho de batismo. Com ele tudo seria resolvido. E assim segue Pereira da Nóbrega em busca de informes.  Vez primeira que estivemos com a ilustre figura do naquele tempo reverendo.   Não nos vimos nunca mais. Raras vezes trocávamos informações pelo telefone. A última vez que tentamos trazer Chico Pereira foi para encenação da peça Vingança, Não em teatro na cidade de Mossoró.  Proposta a ser analisada, mas infelizmente não se confirmou. Com algum tempo tomávamos conhecimento que Chico teria de nós se despedido para ficar ao lado do pai.

Caravana Cariri Cangaço na fazenda Jacu, da família Pereira, em Nazarezinho

Outro momento que gostaríamos de aqui registrar ocorreu no nosso tempo de universitário na cidade do Recife. Para bem caracterizar no bairro do Espinheiro.  Em plena manhã de domingo encetamos visita a nossa amiga Lília, por nós chamada de Lila, era ela nossa vizinha em Triunfo na Rua da Caridade, hoje homenageada com o nome do homem que implantou as Casas de Caridade, Rua Padre Ibiapina. Deveriam ter colocado - Rua Mestre Padre Ibiapina. Pois bem, traquino e irrequieto sempre estávamos em cima do muro e quando descíamos era para o lado da casa dela, recebendo bolo ou doces. Ela não tinha filhos menores, e acreditamos ter a nós se dedicado pela nossa tenra idade. Era seu marido o guarda-livros Sigismundo Pinto, oriundo do Vale do Piancó e proprietário do Jornal ‘A Voz do Sertão’, que circulou por muito tempo na cidade. Seus filhos Miranda, Vanice, Geraldo, Vanilda e Vanessa todos com sobrenome Campos. A Vanessa é jornalista, trabalha como editora de assuntos do sertão na empresa Jornal do Commércio em Recife e acaba de lançar livro sobre o cangaço. Naquele domingo conhecemos uma grande figura, grande mulher. Seu nome Jardelina que para a família era Jarda. Estatura mediana, magra, não esboçava nenhum sorriso, pouco se comunicava, porém, demonstrava viver algum problema de ordem familiar, pois, a roupa usada naquele momento era de cor preta, significando o chamado luto fechado. 

Não procuramos saber em detalhes de quem se tratava, nem por que aquele traje. Dias depois, tomamos conhecimento de quem se tratava e por não termos ainda nos ligado a história por ela vivida houve total desligamento e nunca mais nos vimos. Perdemos uma grande oportunidade em nos aproximarmos daquela que se casou ainda de menor, com o homem que amava e a ele continuou ligada até seu último suspiro e que trouxe ao mundo três crianças que se tornaram o orgulho dela, da família e de nós outros que deles nos aproximamos. Precisamos registrar com carinho seus nomes – Raimundo, Francisco e Dagmar. Todos receberam o melhor que ela poderia dar – a educação. Raimundo torna-se engenheiro; Francisco segue o caminho da religião sendo padre e Dagmar, agora como Albano, se fixa na Ordem dos Franciscanos Menores.
Em busca de ampliar nossos conhecimentos nos deparamos com Rosilda Cartaxo, a mulher que ganhou título de baronesa de São João do Rio do Peixe que nasceu em Cajazeiras e foi sua cabeça lavada na mesma pia onde o padre Rolim foi batizado. 

Para nosso estudo recomenda-se a leitura de ‘Estradas das Boiadas’ e em particular ‘Mulheres do Oeste’. Dentre importantes e representativos nomes de mulheres da região nos deparamos com Jardelina Pereira Nóbrega – Jarda. Relata a escritora: “Se hoje eu falo de Mulheres do Oeste, o espaço devia ser todo seu – Jarda – a medida do amor. Certa vez encontrei-a na igreja, ajoelhada, terço na mão, soletrando mágoas e rimando solidão. As rosas deixadas no beiral da Casa Grande de Nazarezinho se despetalaram. Só a saudade de Chico Pereira não passava. Registramos que Dom Adelino Dantas dirige carta a escritora logo que recebe seu livro. Mais adiante temos – Jarda não guardava mágoas pelo título de cangaceiro dado a Chico Pereira. Aceitou. Feliz teria ficado se esta carta fazendo-o Mártir tivesse lhe chegado às mãos. Se um dia Chico fora chamado de bandido, um Bispo da Bahia Dom Adelino Dantas, chamou-o de Mártir, perdoado foi quando a família criou a frase “VINGANÇA, NÃO”, maior atestado de humanismo.  A  autora finaliza sua homenagem a esta grande mulher assim relatando: Jarda tem neste espaço todo o carinho dos Dantas lá do Serrote, em São João do Rio do Peixe, que fez a pousada de Chico!

Continua...

Texto apresentado pelo pesquisador e escritor Paulo Gastão em Conferência do Cariri Cangaço em Nazarezinho, dentro do Parahyba Cangaço em junho de 2013.

Paulo Medeiros Gastão
Sócio Fundador da SBEC
Conselheiro Cariri Cangaço

O Abraço da Chapada Por:Leandro Fernandes

Leandro Cardoso ao centro: Cariri Cangaço 2013.

Amigo Severo. Saudações e um Grande Abraço!
Este vai em homenagem a você e ao maravilhoso evento capitaneado por você, que é o Cariri Cangaço. 
Foi excelente, de altíssimo nível. 
Nos sentimos abraçados pela 
Chapada do Araripe, 
que serviu de cenário para revivermos boas amizades e cultivá-las. 

Abração, 
Leandro Cardoso
Teresina

Leandro Cardoso Fernandes, Teresina. 
Médico, Pesquisador, Escritor, Sócio da SBEC e Conselheiro Cariri Cangaço

Vó Marica do Tipi Parte Final Por:Vicente Landim Macedo

Fazenda Tipi, em Aurora

Em julho de 1909, Dom Manuel Antônio de Oliveira Lopes, Bispo Coadjutor de Fortaleza, em visita pastoral ao sul do Ceará, ficou pasmo e indignado com os desmandos que ocorriam em Aurora.  Com a autoridade moral e religiosa que lhe era peculiar, Dom Manuel Antônio ponderou aos novos chefes políticos de Aurora que os homens armados deveriam desocupar a cidade, deixando seus habitantes em paz. No que foi imediatamente atendido. Após a destituição de todas as autoridades de Aurora, assumiram tais funções parentes, amigos e correligionários indicados por vó Marica. Coronel Cândido Ribeiro Campos, como Intendente Municipal; José Francisco Sales Landim, irmão de vó Marica, como Primeiro Suplente de Juiz; Antônio Landim de Macêdo, seu filho, foi agraciado com a função de Segundo Suplente de Juiz, sendo que, em 1918, exerceu o cargo de Primeiro Suplente de Substituto do Juiz Federal e, de 1919 a 1921, o de Prefeito Municipal.      
        
A Delegacia de Polícia foi confiada a João Cândido Ribeiro, filho do Coronel Cândido. De 1914 a 1918, administrou Aurora o Coronel Manuel Teixeira Leite, sogro de Antônio Landim de Macêdo. O Coronel Cândido Ribeiro Campos voltou a ocupar a administração municipal no período de 1921 a 1926.O filho mais velho de vó Marica, Raimundo Antônio de Macêdo (Mundoca) foi nomeado Delegado de Polícia de Aurora em 1921. Como podemos observar, o nepotismo vigente atualmente na administração pública brasileira, já existia em Aurora no início do século XX, como em todo o Brasil.
      

Dom Manuel Antônio de Oliveira Lopes

Sobre o poderio de vó Marica no município de Aurora, transcrevo o que diz Joaryvar Macêdo, no seu livro Império do Bacamarte, pág. 104:  “Cessada a questão de 8 e entronizado o Coronel Cândido do Pavão no poder, iniciou-se, em Aurora, o período oligárquico dos Ribeiros Campos, conhecidos como os Cândidos, e dos Macêdos do Tipi, liderados por Marica Macêdo. Saindo ela do anonimato, tornou-se figura de prol no município. Investida de poderio e enroupada das características do coronelismo, firmou-se legítima mandona, exercendo, inquestionavelmente, até 1924, ano do seu passamento, profunda influência na política municipal, decidindo, lado a lado do Coronel Cândido, para quem sua palavra era lei.” 

Lampião no Tipi. A fama da coragem e bravura de vó Marica corria além dos limites de Aurora, espalhando-se pelo Cariri e adjacências. Em uma das incursões pelo Município de Aurora, Lampião mandou avisar a minha avó que gostaria de visitá-la.  Ela respondeu afirmativamente, desde que ele viesse em paz e não praticasse nenhum ato contra sua gente no Tipi. Caso contrário, ele, Lampião, seria recebido à bala.  Ele passou pelo Tipi, visitou vó Marica e foi embora em paz.
        
Aquarela Aurora Antiga por Enoque

Das histórias sobre Lampião que ouvi de meu pai, minha mãe, parentes e outras pessoas que residiam no Tipi, guardei na minha mente duas relativas à passagem de  Lampião pela nossa região. A primeira a que acabei de mencionar e a outra, já após minha avó ter falecido. Essa segunda passagem de Lampião pelo Tipi ocorreu da seguinte maneira.  Lampião e seu grupo, em torno de trinta pessoas, chegaram ao Sítio Jerimum, que pertencera a vó Marica, a mais ou menos 1 km distante da casa de meus pais, ali pararam e o chefe mandou chamar meu pai.
        
Meu pai atendeu ao chamado e, em companhia de seu homem de confiança, Pedro Ribeiro, foi ao encontro de Lampião. Chegando ao Sítio Jerimum, papai foi recebido por um  homem, o Corisco, que, quando viu papai, perguntou quem ele era, papai respondeu ser Silvino Macêdo, então ele disse: “o chefe quer falar com o senhor.” E imediatamente perguntou a papai.  “Quem é este que está em sua companhia?” Papai respondeu ser uma pessoa de sua confiança.

José Cícero, Adailton Macedo e Manoel Severo no Cariri Cangaço 2013 em Aurora: Marica Macedo, com Vicente Landim de Macedo
       
Corisco levou papai até Lampião. Os dois se cumprimentaram e Lampião falou para papai que precisava passar uns oito ou dez dias em um lugar reservado, uma vez que necessitava reformar seus bornais e uniformes e que, durante esses dias, lhes fosse fornecida alimentação. Papai, então lhe perguntou quem iria arcar com tais despesas.  Lampião respondeu que pagaria tudo. Papai confiou no que ele estava dizendo e disse-lhe que iria mandar uma pessoa, também de sua confiança, para levá-lo juntamente com seu grupo para  um local reservado, bem distante da estrada.
        
Ao voltar para casa, papai mandou chamar João Inácio, seu vizinho, amigo e compadre, contou-lhe o ocorrido e solicitou que ele conduzisse Lampião e seu grupo para a represa do açude de sua propriedade, que ficava a 1 km da estrada, lugar de difícil acesso, pois era composto por um juremal. Neste local, Lampião e seu grupo permaneceram durante 10 dias, onde reformaram seus bornais e uniformes. Eles possuíam máquinas de costurar e o material necessário à execução das tarefas.
        
Diariamente, João Inácio levava para eles carne, arroz, feijão e demais mantimentos necessários ao sustento deles. Terminado o período previsto, Lampião mandou chamar papai e lhe reembolsou todos os gastos ocorridos, indo embora e deixando todos em paz. O parente e amigo Joaryvar Macêdo na página 232 do seu livro Império do Bacamarte narra uma passagem de Lampião pelo Tipi, também após o falecimento de vó Marica, isto é, após 1924. Não sei se esta passagem é a mesma que acabei de lhes falar.

Pedro Luiz Camelo, Vicente Landim Macedo e Manoel Severo, em Juazeiro do Norte 
        
Acredito que não. Uma vez que Joaryvar nessa sua narração fala de meus tios Mundoca e Joaquim Furtado de Macêdo, não fazendo nenhuma menção ao meu pai, Silvino, que foi quem atendeu a Lampião na passagem pelo Tipi de que lhes falei. Imagino que Lampião tenha passado outras vezes pelo Tipi, já que Aurora ficava num dos caminhos que ia do Cariri para Lavras da Mangabeira e para a Paraíba.
        
Papai herdou a coragem e disposição de sua mãe, vó Marica, não temendo Lampião que amedrontava muitos coronéis e proprietários, mas que contava também com a amizade de muitos outros, entre eles, parentes de meus avós, como os coronéis Antônio Joaquim de Santana, de Missão Velha, e Raimundo Macêdo (Joca do Brejão), de Barbalha.
        
Vó Marica transmitiu para seus filhos e vários descendentes, principalmente para as mulheres, aquele temperamento encorajador, destemido, decisivo, justiceiro e muitas outras qualidades que lhe eram peculiares, inclusive traços fisionômicos.

       
Morte de vó Marica. Falei que vó Marica foi ouvida por Deus em sua solicitação de não passar outra vez pela grande dor de assistir à morte de um filho. Realmente, no dia 6 de janeiro de 1924, vó Marica foi a Aurora visitar sua única filha mulher, Joaninha, que estava muito doente. Lá chegando, encontrou a filha acamada e cuidando dela a sua neta Soledade, filha primogênita da tia Joaninha, e a senhora dona Maria. À noitinha, minha avó tomou uma xícara de café, acendeu o cachimbo, sentou-se em uma cadeira ao lado da filha e disse para a neta Soledade e para dona Maria que fossem dormir, pois ela ficaria cuidando da doente.
        
As duas, como estavam muito cansadas, foram para o quarto ao lado. Poucos minutos depois ouviram um barulho no quarto da doente. Correram para lá e encontraram vó Marica no chão, chamaram imediatamente o médico Dr. José Dias e o padre Vicente Augusto Bezerra, vigário de Aurora, que  constataram  que vó Marica, com 59 anos, estava morta. A causa-mortis atestada foi enfarte do miocárdio. Anos depois, ao exumarem os seus ossos para os recolherem na Capela da família Macêdo, construída pelos filhos no cemitério da cidade, verificou-se que a sua chapa dentária estava na garganta, ficando a dúvida, se vó Marica morrera, realmente, de enfarte ou de asfixia.
        
Vicente Landim de Macedo e João de Zeca na fazenda de Marica Macedo, Tipi
Caravana Cariri Cangaço 2013 no Tipi em Aurora

Tia Joaninha faleceu dois dias depois. Portanto vó Marica não viu a filha falecer. Nós da família Macêdo nos orgulhamos por termos como ascendente essa mulher com as características do juazeiro, árvore própria do sertão cearense, resistente às intempéries da natureza.

Sobre o assunto que acabo de expor há uma vasta bibliografia, entre as quais menciono: Joaryvar Macêdo – Império do Bacamarte; Otacílio Anselmo – Padre Cícero, mito e realidade; Edmar Morél – Padre Cícero, o Santo de Juazeiro; Amarílio Gonçalves Tavares – Aurora, História e Folclore; Rachel de Queiroz e Heloísa Buarque de Holanda - num opúsculo sobre Matriarcas do Ceará e, a obra Marica Macêdo, a brava sertaneja de Aurora, de minha autoria.
                                       
Aurora, 20 de setembro de 2013.
Vicente Landim de Macêdo
Conferência do Cariri Cangaço 2013

O Lobisomem e o coiteiro de Lampião Por:Jairo Luis

Entremontes

Pedro Rodrigues Rosa , conhecido por Pedro de Cândido, era uma figura bastante conhecida  quando o Capitão Virgolino Ferreira  andava pela região do Baixo São Francisco  nos anos de 1930 quando se conheceram  por intermédio da famosa família Félix da cidade de Poço Redondo.
Pedro de Cândido era irmão de Augusta casada com Júlio Félix , um dos coiteiros de maior confiança de Lampião na região, daí  surgiu uma relação de negócios que aos poucos es transformou em grande amizade entre o  capitão cangaceiro e o fazendeiro coiteiro oriundo do belo povoado de Entremontes localizado ás margens do rio São Francisco.


Pedro Barbosa, Sonia Jaqueline e Manoel Severo na fazenda Remanso
Manoel Severo e Jairo Luiz em Piranhas
Por ironia do destino coube a Pedro de Cândido juntamente com seu irmão mais novo, Durval, levar as forças policiais até a Grota de Angico no fatídico dia 28 de julho de 1938 no que culminou na morte de Lampião, Maria Bonita e mais nove cangaceiros além do bravo soldado Adrião Pedro de Souza. Após a morte de Lampião , o ex-coiteiro Pedro de Cândido assumiu o posto de subdelegado de Piranhas destacando no Distrito de Entremontes  substituindo  o seu irmão José Rodrigues Rosa  conhecido por Zezé de Cândido.
Exatamente no dia 22 de agosto de 1941  após  uma noite de farra no Centro Histórico de Piranhas,  Pedro de  Cândido decide  visitar uma amante na localidade conhecida como Canto situada próxima a vila de pescadores, corria um boato que um lobisomem estava a aterrorizar  a cidade e todos moradores estavam com muito medo da fera enigmática e até então invencível. 



Mas naquela noite de sexta-feira  ,22 de agosto de 1941, um jovem de nome Sabino decidiu após uma conversa com amigos que estavam em um bar que acabaria de vez com o lobisomem, o encontro entre o jovem piranhense e  o lobisomem  se deu as escuras  na localidade Canto, com apenas um golpe fatal no peito da fera o jovem Sabino  o matou e saiu correndo gritando para todos “ Matei o lobisomem, matei lobisomem !!!”  . 

Todos moradores apavorados e bastante curiosos saíram  de suas casas  para ver in loco o fato ocorrido , coube ao telegrafista da Rede Ferroviária, Sr. Waldemar Damasceno  , pegar uma lanterna e revelar a verdadeira identidade do terrível lobisomem  para todos ali presentes, para surpresa geral o lobisomem revelado ali era o famoso coiteiro Pedro de Cândido.
Envolto numa capa preta de tecido jazia o corpo de um dos homens que levou para o tumulo um dos maiores segredos da história,  a morte de Lampião.
Jairo Luiz Oliveira - Turismólogo, Pesquisador, Escritor
Conselheiro Cariri Cangaço
Idealizador da Rota do Cangaço
Piranhas / Alagoas

Vó Marica do Tipi Parte 2 Por:Vicente Landim Macedo

Vicente Landim de Macedo em Palestra sobre sua Vó Marica Macedo no Cariri Cangaço em Aurora

Meu pai me dizia que minha avó, sempre atenta ao bom relacionamento dos filhos, procurava prevenir qualquer desavença entre eles. Certa vez, toda a família se preparava para ir a cavalo às festas de fim de ano em Aurora. Cada filho, como era de se esperar, desejava escolher o melhor animal. A fim de evitar discórdias, vó Marica, em sua inata sabedoria de sertaneja, decidiu que, à medida que cada filho fosse acordando, poderia escolher o cavalo desejado. Alguns filhos foram dormir cedo.  Outros, querendo ser mais espertos, tentaram ficar acordados até o amanhecer, mas não conseguiram. Os que se deitaram mais cedo acordaram primeiro e escolheram os melhores animais.Tudo foi resolvido em paz.
       
Passo agora a falar da atuação de minha avó Marica na política de Aurora. A política do coronelismo dominante, naquela época, no Cariri, sul do Ceará, não foi exercida somente por homens, mas também por mulheres que assumiram a condição de chefe político em suas regiões, enfrentando o poder policial, político e social de alguns coronéis, derrubando intendentes municipais (prefeitos) e políticos locais. Entre aquelas mulheres, destacam-se: dona Generosa Amélia da Cruz, em Santana do Cariri; dona Fideralina Augusto Lima, em Lavras da Mangabeira e Maria da Soledade Landim, vó Marica, no município de Aurora.
        
No início da primeira década de 1900, as famílias Leite, Gonçalves, Macêdo e Landim dominavam a política de Aurora, de comum acordo com o Presidente do Estado. Na época, era Intendente Municipal e Coletor de Aurora Antônio Leite de Oliveira e um dos chefes políticos o Coronel Antônio Leite Teixeira Neto, conhecido como Totonho Leite ou Totonho de Monte Alegre, ambos parentes próximos dos meus avós. Seguindo o exemplo de vários outros municípios do Ceará, o Coronel Totonho resolveu destituir Antônio Leite de Oliveira e assumir a Intendência municipal de Aurora. Para conseguir seu intento, Coronel Totonho solicitou o apoio de minha avó e filhos, mas ela não concordou com tal procedimento e determinou aos filhos que não apoiassem a atitude do Coronel Totonho, sogro de sua filha Joana da Soledade Landim (Joaninha).

Caravana Cariri Cangaço em visita ao Tipi em Aurora: 2013.
        
Alegou vó Marica que o então Intendente de Aurora, Antônio Leite de Oliveira, estava fazendo uma boa administração, não vendo ela motivos para destituí-lo das funções que ocupava. Além do mais, ele, como o Coronel Totonho, também era seu parente. Observem como vó Marica, com seu temperamento forte e decisivo agia em defesa daqueles que ela entendia que estavam agindo corretamente. Antônio Leite de Oliveira foi destituído do cargo de Intendente de Aurora, sendo substituído pelo Coronel Totonho Leite Teixeira Neto. Em razão desse acontecimento, passaram a existir rivalidades entre as famílias Leite e Gonçalves, partidárias do Coronel Totonho, e as dos Macêdos, Paulinos, Ribeiros Campos e Santos, correligionários de vó Marica e amigos do Coronel Domingos Leite Furtado, chefe político de Milagres, e do Major José Inácio, do Barro.
        
Em consequência dessas discórdias e das divergências de limites de algumas propriedades, na região do Coxá, próxima ao Taveira, terras valorizadas pela existência de minas de cobre, ocorreram graves perseguições das autoridades municipais de Aurora aos seus adversários políticos.O grupo que apoiava o procedimento do novo Intendente de Aurora resolveu invadir a propriedade de vó Marica, no Tipi, e o Taveira, onde residia o Capitão José dos Santos e ali estavam asilados os Paulinos, fugitivos das autoridades aurorenses que queriam prendê-los. A ascendência de vó Marica sobre seus familiares e correligionários era muito forte, como se observa no seguinte acontecimento.
        
Vicente Leite de Macêdo, filho do Coronel Totonho, soube que seu pai e correligionários planejavam a invasão do Tipi e do Taveira.  Imediatamente, enviou ao Tipi sua mulher Joaninha, filha de Marica, para avisá-la de que sua propriedade seria invadida pela força policial de Aurora, reforçada por soldados provenientes de Iguatu e Lavras da Mangabeira, formando um contingente de mais de 60 homens. Vó Marica contava somente com 20 homens, entre filhos, o irmão Amâncio e empregados de sua confiança, para reagir ao iminente assédio à sua propriedade.    Excelente estrategista resolveu partir imediatamente para o Brejão, no Cariri, onde teria o apoio de seus parentes.

Ângelo Osmiro, Vicente Landim Macedo, Aderbal Nogueira e Manoel Severo
        
Prontamente, de acordo com seu irmão Amâncio, arrearam os animais e seguiram viagem. Vó Marica montada em seu cavalo alazão, com o inseparável bacamarte a tiracolo, seguia na frente. Foram pelo caminho mais seguro e rápido, que era pelo Taveira, mas, em face do cansaço de todos e da hora avançada, tiveram que pernoitar na casa do Capitão José dos Santos, pois ainda faltavam muitos quilômetros para chegarem ao Brejão. Após se acomodarem, na noite do dia 16 de dezembro de 1908, por volta das três horas da madrugada do dia seguinte, 17 de dezembro, a casa onde estavam foi atacada pela força policial composta por 67 soldados, comandada pelo Tenente Florêncio, orientado por Manuel Gonçalves Ferreira, Primeiro Suplente de Juiz, e Róseo Torquato Gonçalves, Delegado de Aurora, auxiliares diretos do Coronel Totonho, travando-se pesado tiroteio até às oito horas da manhã, quando os atacantes se retiraram,  deixando morto o jovem José Antônio de Macêdo (Cazuza), com 14 anos, o 5º filho de vó Marica, e ferido o dono da casa, Capitão José dos Santos.
        
Vó Marica, com sua personalidade muito forte, mesmo diante do trágico acontecimento, morte de seu filho, não se entregou, reagiu com coragem, própria de um verdadeiro comandante no campo de batalha, pois, quando viu o corpo do filho caído no chão, indagou: “Ele está vivo?” Com a resposta negativa, disse: “Encostem o cadáver no pé da parede, bala na agulha. Vamos brigar! Ele já está morto. Vamos defender os vivos”. A casa do Capitão José dos Santos foi atacada porque os enviados do Coronel Totonho pretendiam prender os Paulinos, que ali estavam escondidos, e, certamente, humilhar Marica Macêdo e seus familiares, os Ribeiros Campos, os Santos e o  grande amigo, o Coronel Domingos Leite Furtado, chefe político de Milagres.

Estrada que liga Aurora ao Coxá
        
Na manhã do dia 17, a notícia se espalhou. De imediato, chegaram para apoiar vó Marica e seus amigos, o Coronel Domingos Leite Furtado, de Milagres, e o Major José Inácio, do Barro, Antes de seguir viagem para o Brejão, com o apoio dos correligionários e amigos, vó Marica enterrou seu filho Cazuza no cemitério de Boa Esperança, atual Iara. Apesar da aparente frieza de minha avó, na atitude por ocasião da morte de seu filho, ela sofreu muito pelo acontecido, pois minha mãe contou-me várias vezes que vó Marica afirmava sempre que a maior dor que pode acontecer a uma mãe é a morte de um filho e ela sempre rezava pedindo a Deus que nunca mais a deixasse passar por igual tragédia. Ela foi atendida em suas preces, como iremos constatar quando falarmos da sua morte.
       
Minha avó continuou sua viagem para o Cariri, onde recebeu apoio de seus parentes Coronel Antônio Joaquim de Santana, de Missão Velha, Coronel Raimundo Macêdo (Joca do Brejão), de Barbalha, e de vários outros chefes políticos da região. Imediatamente, os chefes políticos que apoiaram vó Marica telegrafaram ao Presidente do Estado, solicitando que determinasse a imediata volta dos policiais que tinham  vindo das cidades de Iguatu e Lavras da Mangabeira, para reforçar o contingente de Aurora, composto apenas por 6 soldados.  Pois eles iam invadir Aurora. O Comendador Antônio Pinto Nogueira Acioli, Presidente do Estado, rapidamente atendeu aos citados coronéis e determinou que a força policial regressasse às cidades de origem.

Major Zé Inácio do Barro
        

Os amigos de vó Marica reuniram um contingente de 600 homens armados que, sob o comando do Major José Inácio de Souza, do Barro, no dia 23 de dezembro, seguiu para Aurora com o objetivo de destituir da função de Intendente do município o Coronel Totonho Leite e seus correligionários dos demais cargos que ocupavam na administração da cidade. Os objetivos foram alcançados após seis horas de tiroteio. Infelizmente, como costuma acontecer com grande número de pessoas, os homens comandados pelo Major José Inácio não se restringiram somente a destituir o Coronel Totonho Leite e aliados das funções que exerciam em Aurora, eles exorbitaram de sua missão, praticando arbitrariedades e saqueando casas comerciais e fazendas.

Continua...

Vicente Landim Macedo
Parte de Conferência do Cariri Cangaço 2013 em Aurora