Lampião e o Combate de Serra Grande Por:João de Sousa Lima

João de Sousa Lima, Lourinaldo Teles e Joventino em Serra Grande

A Serra Grande corta as cidades de Calumbi, Flores e Serra Talhada. Muitos escritores e pesquisadores citaram o grande combate da Serra Grande como sendo em Serra Talhada ( nessa época Vila Bela) ou Triunfo, porém a parte onde houve o combate acontecido em 26 de novembro de 1926 pertencia a Flores e hoje pertence à Calumbi, Pernambuco.O policial reformado Lourinaldo Teles, também artesão na confecção das mais belas réplicas de punhais do cangaço, hoje é quem trava essa batalha para provar que geograficamente o combate da Serra Grande aconteceu em Calumbí.  Por diversas vezes Lourinaldo andou mapeando os pontos onde os cangaceiros emboscaram os soldados das volantes e ele conseguiu encontrar, com a ajuda de um detector de metais, mais de trezentas cápsulas, além de carregadores, ogivas e um punhal.

O combate da Serra Grande foi um dos maiores fogos entre policiais e cangaceiros e uma das maiores estratégias de combate armada por Lampião. O número exato de participantes nunca foi totalmente contabilizado, fala-se em torno de 80 cangaceiros e 320 soldados.

As marcas de bala ainda sobrevivem em Serra Grande

Vários “Nazarenos” participaram desse ferrenho combate que foi comandado pelo major Theóphanes Ferraz Torres. Entre os grandes comandantes dos diversos grupos estavam o capitão Higino Belarmino, Manuel de Souza Neto, sargento Arlindo Rocha e Euclides Flor. O combate começou entre oito e nove horas e terminou às dezessete e trinta. Manuel Neto acabou sendo baleado nas duas pernas e por muito pouco não morreu. Calcula-se que mais de vinte soldados morreram nesse confronto. Da parte dos cangaceiros não houve baixas. O rastejador da polícia chamado Ângelo Caboclo foi baleado e posteriormente morto pelos cangaceiros.

Mesmo a polícia contando com um grande contingente e ainda com o suporte de duas metralhadoras e mais ainda com grandes nomes que comandaram as volantes, esse foi o combate que mais desmoralizou as tropas no estado pernambucano. No dia 03 de março de 2014, eu, Antônio Lira e Joventino nos dirigimos para Calumbí onde fomos encontrar com Lourinaldo Teles para que ele nos levasse ao local exato onde houve o combate. Só estando lá para entendermos as estratégias armados pelo Rei do Cangaço e as dificuldades encontradas pela polícia. No lugar conhecido como a “Trincheira de Lampião” ainda pudemos encontrar vários cartuchos com a inscrição DWM, datados de 1910, 1911, 1912, 1913 e 1914.

Cartuchos encontrados pelos pesquisadores em Serra Grande

Todos os méritos dessa pesquisa cabem ao pesquisador Lourinaldo Teles que muito solícito nos transportou  até a Serra Grande e pacientemente nos mostrou durante horas, escalando subidas quase intransponíveis, com pedras soltas, galhos arbustivos, cactáceas espinhosas e calor, os pontos estratégicos onde cangaceiros enfrentaram valentes e famosos comandantes e seus comandados e aonde eles sofreram uma das maiores derrotas na perseguição ao cangaço.

Oitenta e oito anos depois, aquele local ainda guarda as marcas desse confronto, a história perpetua-se feito som propagado na imensidão. Aquela região silenciosa parece trazer os sons da batalha quando nos deparamos com a visão que temos ao olhar o horizonte, estando em seus cumes.......

João de Sousa Lima
Escitor e Hitoriador.
Conselheiro Cariri Cangaço
Fonte:http://www.joaodesousalima.com

O Ataque de Lampião a Mossoró - Um Mistério Quase Centenário Por:Honório de Medeiros


Detalhe da Casa de Rodholfo Fernandes em foto da Resistência ao Ataque de Lampião

Em dias do início do mês de maio do ano da graça de 1927, pelas terras do Rio Grande do Norte que confrontam com aquelas da Paraíba, lá no alto Sertão desses estados, mais precisamente as que ficam entre as cidades de Uiraúna e Luis Gomes, vindos de Aurora, no Ceará, Cariri velho de Nosso Senhor Jesus Cristo, eles, os cangaceiros, entraram no território potiguar.
Era uma horda selvagem com aproximadamente uma centena de homens, para o mais ou para o menos, imundos e bestiais, a cavalo, fortemente armados, portando rifles, fuzis, revólveres, pistolas, punhais longos e curtos, e farta munição. Vinham ébrios, ferozes, e sedentos de violência, sem qualquer outro propósito que não a rapinagem, pura e simples.
E assim entraram. Durante os quatrocentos quilômetros e quatro dias que durou a epopéia, deixando e voltando à Aurora após alcançarem Mossoró,  desenharam, com a ponta dos cascos dos cavalos ou a face externa das alpargatas com as quais pisavam o chão, como que um movimento cujos contornos lembram o de uma flor de mufumbo, cujas laterais seriam as margens da Serra de Luis Gomes e Serra do Martins, por um lado, e, pelo outro, as margens do serrame do Pereiro, limites com o Jaguaribe, Ceará adentro.
Espalharam o terror por onde passaram. Humilharam, surraram, feriram, extorquiram, sequestraram, furtaram, roubaram, mataram... Em toda a história do cangaço, complexa e específica por si mesma, nada há igual. Não foi um ataque qualquer a um arruado, vila ou povoação. Nem mesmo a uma cidade pequena.
Foi um ataque a uma cidade de grande porte para os padrões da época, bem dizer litorânea, a segunda maior do Rio Grande do Norte, com quatro igrejas, três jornais, agência do Banco do Brasil, população que rivalizava com a da capital do Estado, um comércio rico e pujante, que funcionava como centro para o qual convergiam paraibanos, norte-rio-grandenses e cearenses, e, por intermédio do porto de Areia Branca, ao qual se chegava pelo Rio Mossoró ou Apodi, caso necessário, o Brasil todo.
Mossoró não acreditava que tal ataque pudesse se concretizar. O Governo do Estado do Rio Grande do Norte também não. Era inconcebível. O Brasil, representado por sua capital, o Rio de Janeiro, quedou perplexo.
Tanto anos depois é possível algo novo quanto às causas que levaram Lampião a empreender esse ataque?
Os cangaceiros acima foram nominados por Jararaca, a quem a fotografia foi mostrada enquanto ele convalescia, preso em Mossoró, pouco antes de morrer


De antemão, que se diga: não é consenso que haja mistério quanto às causas do ataque de Lampião a Mossoró. 
Ao contrário. Excetuando-se algumas vozes isoladas aqui e ali, outras ouvidas aos sussurros em Mossoró, é prática corrente atribuir à ganância de Lampião, Isaías Arruda e Massilon – este com papel secundário, a existência do episódio.
Entretanto ao estudarmos com atenção redobrada, até mesmo com obstinação, o acervo do qual dispõem os pesquisadores, constata-se a existência de questões, dúvidas, perplexidades, que insistem em aparecer desafiando o passar dos anos e a natural inércia originada das versões consideradas consumadas. 
Levando-se em consideração todas essas questões, após tê-las colhido, assim é que, a seguir, dando-lhes o tratamento mais racional e factual possível, buscando a isenção necessária à qual se deve ater quem busca encontrar a melhor explicação entre várias concorrentes, são elas elencadas, analisadas e colocadas à disposição do leitor, para que este possa fazer sua escolha ou, se não for o caso, meramente ser colocado a par de suas existências.
Há, portanto, e basicamente, quatro teorias acerca das causas do ataque de Lampião a Mossoró: 
(i) o ataque a Mossoró resultou da ganância do Coronel Isaías Arruda e de Lampião, no que foram secundados por Massilon;
(ii) o ataque a Mossoró resultou unicamente da cobiça de Massilon.
(iii) o ataque a Mossoró resultou da paixão de Massilon por Julieta, filha de Rodolpho Fernandes;
(iv) o ataque a Mossoró resultou de um plano político.
Qual delas é a verdadeira?

FONTE: honoriodemedeiros.blogspot.com

Tá na hora de começar a arrumar as malas...Vem aí o segundo Cariri Cangaço Parayba

Família Cariri Cangaço no Parayba Cangaço 2013

Meu nobre amigo Severo,

Saudações cangaceiras!

Como anda essa força? 
Espero que esteja tudo bem. Iniciamos as reuniões preparatórias para a realização do 
II Parahyba Cangaço/Cariri Cangaço. 
Estamos ainda com as ideias em estágio embrionário e analisando a viabilidade e programação. Fechamos o mês de maio para realizarmos, as datas ainda estão sendo pensadas, mas estamos tendenciosos para o terceiro fim de semana do mês.

Deixo o meu abraço e coloco-me a disposição.

Prof. Wescley Rodrigues
Conselheiro Cariri Cangaço

A Espanha de Toledo, Templários, Quixote e Cariri Cangaço Parte I Por:Manoel Severo

Os Templários de Toledo e a chegada de Virgulino Lampião

O Cariri Cangaço estou convencido; é fruto mais do que qualquer outra coisa, deste sentimento de nordestinidade que toma conta de nosso coração. Não são poucas as vezes que nos surpreendemos com o brotar dessa mesma paixão nos mais variados e inesperados lugares, estamos neste momento em Toledo, Património Histórico da Humanidade; capital de Castella La Mancha na Espanha; uma das cidades mais belas e ricas em história, de todo o planeta. Aqui somos acolhidos pela Fundação General Universidade Castilla La Mancha, onde meu filho, Pedro Barbosa faz uma Pós-Graduação em Governabilidade, Direitos Humanos e Cultura de Paz; aqui também nos surpreendemos com a força da história de nosso sertão nordestino e brasileiro, em particular o cangaço, que incrivelmente encantou também o velho mundo.


Toledo, Castella La Mancha - Espanha

Fomos protagonistas, para nossa honra e satisfação, de uma tarde de Conferencia sobre o Cangaço; Virgulino Lampião, Sertão, e Cariri Cangaço. Abaixo transcrevemos a primeira parte da entrevista que concedemos aqui na terra da Universidade de Castilla La Mancha, em Toledo, Espanha, com a participação de vários estudantes, professores, alguns jornalistas, advogados, empresários, entre outros. 


Lampião invade a Espanha !

Pirro de Nijon: Dr Severo, é uma alegria te-lo aqui em Toledo nas terras de Castilla La Mancha.

Severo: A alegria é toda nossa, obrigado, e está em Toledo, esse verdadeiro Património da Humanidade, uma cidade que guarda em si a própria historia da Espanha, é simplesmente maravilhoso e gratificante.

PN: Hoje a tarde o senhor nos brindou por quase duas horas com uma brilhante apresentação sobre o Cangaço e agora nos concede essa entrevista, então para os que ainda não conhecem poderemos começar falando de Nordeste do Brasil, sertão e Lampião.

Severo: Pois não, seria importante traçar inicialmente o perfil de nossa região,onordeste.Possuímos clima e vegetação específicos, notadamente dominada pela caatinga; que os nativos indígenas chamam de Mata Branca,típica do semi-árido, com pouquíssima precipitação pluviométrica, dessa forma estamos fadados a aprender a conviver com o a Seca, rsrsrs. É uma região muito vasta dentro desse continental país que é o Brasil. Nesse habitat viveu Virgulino Ferreira da Silva, Lampião.

Virgulino Ferreira da Silva, Lampião

PN: Se tem noticias do Brasil a partir de outros segmentos, principalmente carnaval e futebol, como a Espanha, o Brasil é apaixonado pelo Futebol, e agora temos em particular o privilegio de conhecer esse personagem real, tão cheio de histórias e aventuras, chamado Lampião: Me fale quem foi Lampião...

S: Seu nome era Virgulino Ferreira da Silva, nasceu no final do século dezenove e era filho de uma família de pequenos lavradores e comerciantes da zona rural de Pernambuco, estado nordestino, teve uma infância e adolescência igual aos muitos daquele tempo e daquele lugar, conseguiu estudar um pouco e ajudava aos pais na labuta da agricultura e depois no oficio de almocreve; um tipo de mercador do sertão; trabalhando com o transporte e venda de mercadorias junto com o pai e irmãos, até ter seu destino totalmente modificado e vir a se tornar um dos maiores cangaceiros que já se teve noticia.

PN: Estou vendo as fotos que nos trouxe, e o senhor acaba de me dizer que o termo Cangaço vem desses apetrechos usados por eles...

S: Sim, alguns pesquisadores definem a origem do termo Cangaço, Cangaceiros, enfim; em função de sua forma de vestir e conduzir todos os seus pertences; no nordeste do Brasil temos um artefato chamado canga que se usa em animais para o transporte de mercadorias, por guardar certa similaridade com o uso feito desse artefato é que se derivou o termo Cangaço e Cangaceiro. Essas fotografias fazem parte de uma acervo único e organizadas neste belo livro que você tem em mãos, pelo pesquisador Ricardo Albuquerque, inclusive essas fotografias estiveram há alguns anos em exposição na cidade de Paris, França.


Iconografia do Cangaço, por Ricardo Albuquerque

PN: Vendo as fotografias é realmente espantoso e surpreendente. Como Virgulino se tornou Lampião ?

S: Existem varias correntes de estudo e interpretações; alguns pesquisadores insistem que Virgulino entrou no mundo fora-da-lei para vingar a morte do pai, outros, a meu ver com mais lucidez, se dedicam a traçar de forma mais racional um conjunto de fatores que acabou levando Virgulino a transformar-se em Lampião. Penso que não houve um motivo exclusivo, mas um conjunção de situações, como: A ausência da presença do Estado, as constantes aflições naturais dos períodos de estiagem, seca, as próprias condições de desigualdades existentes e impostas pela sociedade coronelista da época e ainda a meu ver, no claro e inequívoco espírito beligerante de Virgulino, junte todos esses ingredientes e daí começamos a entender não só Virgulino, mas um pouco mais do universo que cercava o fenômeno do cangaço.

PN: Era o inicio do século vinte, podemos dizer que os cangaceiros eram já naquela época milícias armadas, fazendo justiça com as próprias mãos na zona rural do Brasil ?

S: Não penso assim. Não existia nenhuma característica de milícia e também não diria que ali poderíamos ter um movimento armado eminentemente realizando justiça com as próprias mãos. O mundo dos cangaceiros era desprovido de princípios, a não ser aqueles que lhes eram convenientes, penso que não havia motivação ética ou de qualquer natureza que sustentasse ou justificasse a ação dos grupos de cangaceiros. É verdade que muitos entraram no cangaço por alguma injustiça sofrida ou vingar-se de uma agressão, enfim, mas no todo o cangaço, a meu ver, independente das motivações de sua origem, acabou se tornando para muitos um grande e perverso negócio, e como na máfia; quando se entrava era praticamente impossível sair.

PN: O senhor falou de máfia ? Poderíamos mesmo fazer alguma ponte comparando as duas coisas: Cangaço e Máfia ?

S: Bem, me entenda, não poderia sair por ai comparando as duas coisas (risos) , mas a partir de sua pergunta e com um pequeno esforço poderia traçar alguns pontos de reflexão, como por exemplo: Os fortes traços de organização para o crime, redes organizadas e orquestradas em torno de interesses, redes e trafico de influencia, comercio de armas, sequestro, extorsão, muitas mortes, etc etc etc; esses e outros pontos poderiam servir de reflexão e talvez conseguíssemos traçar de maneira bem empírica essa comparação (risos) , mas de uma coisa fique certo, como na máfia o cangaço era um caminho quase sem volta.


Marlon Brando, o Dom Corleone em O Poderoso Chefão de Copolla

PN: Crime organizado na zona rural do Brasil ?

S: Sim, pelo menos a meu ver , apesar de ter ocorrido no sertão do nordeste do Brasil, não há duvidas que naquele momento se esboçava um fenômeno com características mínimas de crime organizado, senão vejamos: Foram mais de 20 anos de cangaço, de vida fora da lei, se falarmos apenas no ciclo de comando de Lampião, esse tempo todo percorrendo sete estados , com milhares de policiais em seu encalço, dia e noite, batalhas e mortes sem fim, interesses mil, com uma logística invejável; pontos de apoio, centenas de verdadeiras feras para alimentar, movimentar, armar, liderar... e ainda, depois de 1930 a entrada das mulheres, que viria a exigir ainda mais do líder maior, Lampião. Diante de tudo isso, arriscaria a dizer sim, que Virgulino poderia ser considerado um verdadeiro Poderoso Chefão; à sua maneira e bem no meio do sertão brasileiro do inicio do século passado. 

PN: Dr Severo são tantas curiosidades, tantos aspectos, tantas perguntas, talvez precisássemos de umas 10 entrevistas (risos) mas vamos lá: O senhor falou em 20 anos de vida fora da lei, estamos falando de que intervalo de tempo e como se consegue viver 20 anos fora da lei?

S: Estamos falando de um intervalo de tempo entre 1918 a 1938. Sem dúvida nenhuma esse tempo todo nos causa espanto. Traçando um paralelo com os dias de hoje chegamos a pelo menos algumas constatações: Uma época totalmente diferente com condições e relações sociais específicas, outra realidade com relação a transportes, comunicação, segurança, acesso a serviços públicos básicos, enfim, tudo era diferente, infelizmente essa conjuntura aliada ao talento nato e a sua capacidade de comando ,  acabou produzindo esse ciclo tão longo de liderança de Lampião; costumo dizer que Lampião era um homem à frente de seu tempo, mesmo considerando o uso que fez desses mesmos talentos.  Para você ter uma ideia, policias, o que nós chamamos lá de volantes, de sete estados brasileiros se dedicaram a combater Lampião, com vantagens e desvantagens e com certeza muitas mortes, e mesmo assim, se passaram 20 anos.

Bando de Lampião em foto clássica de 1936 de Benjamim Botto

PN: Realmente impressionante. Outra coisa a analisar a partir dessas fotografias, que o senhor inclusive me falava em off, os excessivos adereços e a forma como se trajavam, não nos parece que se tratavam de homens que estavam preocupados em se esconder, imagino que de longe essas figuras dos cangaceiros poderiam ser identificadas.

S: Interessante, esse aspecto que te chamou a atenção é mais um dos aspectos controversos do cangaço, homens que deveriam estar preocupados com a discrição e em esconder-se se trajavam de forma espalhafatosa, colorida, brilhante. Na verdade, poderemos nos deter a outro aspecto interessante do cangaço e em particular de seu maior líder Lampião. Esses homens viveram o auge de suas vidas no cangaço entre 1920 e 1940, e já naquele tempo Lampião tinha a exata noção da força de sua imagem, chego ate a brincar dizendo que Lampião foi o primeiro marketeiro do sertão.

PN: Como assim?

S: A minha impressão e chego a dizer que estou convencido, que Lampião tinha a exata compreensão da força de sua imagem e que passo a passo isso também foi sendo agregado pelos demais chefes e membros do grupo. Nesse tempo os cangaceiros eram figuras míticas, chamavam atenção por onde passavam.  Ora, imagine a zona rural daquela época, uma terra muitas vezes esquecida e abandonada de tudo, aqueles grupos fortemente armados, cangaceiros, por mais paradoxal que seja, acabavam exercendo grande influencia na sociedade do sertão brasileiro; nos rapazes despertava a ilusão de uma vida de gloria, de poder, de dinheiro fácil e nas mocinhas; a ilusão da liberdade, de uma vida de amor e aventura ao lado de super homens; Lampião parece que logo cedo percebeu a grande força que sua imagem tinha, e se esmerava em mantê-la forte, daí vejo o zelo e o cuidado que o mesmo passou a ter em relação principalmente às vestimentas e indumentárias, tendo uma forte inclinação para a exposição pública e para fotografias, colaborando em muito para essa mistificação do cangaceiro no universo sertanejo.


Maria Bonita e Lampião

PN: Tinham alguma coisa de Napoleão, com esse chapéu virado, alguma coisa de samurai, com essas facas e punhais entrançados transversalmente, alguma coisa de templários, que coisa impressionante. E por falar em templários estamos na cidade dos templários, Toledo, o senhor chegou a ver a Exposição Templários  ?

S: Passei cinco dias hospedado nessa maravilhosa Toledo Medieval, vi muitas coisas ligadas aos Cavaleiros Templários, mas infelizmente quando fui visitar a exposição a mesma já não estava disponível.

Continua...

Nota Cariri Cangaço: Parte de entrevista concedida pelo Curador do Cariri Cangaço, Manoel Severo, na noite do último dia 26 de Fevereiro, na cidade de Toledo, capital de Castilla La Mancha, Espanha, sede o Colégio Mayor Gregório Maranon da Universidade Castilla La Mancha.

O Arsenal dos Coronéis Parte II Por:Fábio Costa

Winchester 1886...

Evidente que os coronéis possuíam muitos desafetos e inimigos devido aos crimes que cometiam e a política acirrada, tinham de manter suas propriedades e rebanhos, bem como se defender dos assaltos de bandoleiros e cangaceiros (que o digam os potes e botijas enterrados e repletos de moedas e jóias que aparecem nas histórias de assombração, mudas testemunhas da riqueza desses homens...). Suas casas eram verdadeiras fortificações (já vi uma até com seteiras). Meu finado tio Zeca lá pelos anos 40 trabalhou na fazenda de um rico fazendeiro na fronteira da Bahia/Minas Gerais. Ele me contou que na casa da sede tinham caixas fechadas com dezenas de carabinas Winchester e 8 pistolas Parabellum, além de outras armas curtas!! Para economizar tempo na hora de limpar eles simplesmente jogavam óleo por cima e fechavam a caixa. 

O mosquetão Mauser (e por vezes o fuzil) realmente existia em grande número, inclusive podia ser comprado por encomenda, bastava um telegrama para a FN ou a DWM e caixas destas armas aportariam em Santos, Salvador ou Recife. Fuzis Mauser inclusive, são itens constantes em um catálogo de afamada casa paulista no início do Séc. XX. Fuzis e mosquetões Mausers Oviedo espanhóis aparecem com certa raridade também. Como detentores de arsenais governamentais, diversos fuzis oficiais estavam em sua posse, como os Comblain 11 mm de tiro único (a “combréa” da guerra de Canudos). Estes são citados no combate de Brotas de Macaúbas/Ba de 1914, usados por jagunços do Cel. Militão Coelho. Mas as preferidas mesmo eram as armas de repetição por alavanca (lever action), pois eram leves e rápidas, como são as Winchester (sendo “repetição” uma das alcunhas desta arma, que em diferentes versões, parecia uma praga por aqui), existiam também carabinas Marlin, e outras menos famosas no mesmo sistema. 


Cel.  Militão Coelho

Carabinas Colt, e Remington por ação de bomba ou deslizante (pump action) também aparecem.Quanto aos fuzis além dos de ferrolho como o Mauser e um ou outro Mannlicher perdido por aqui, aparecem outras armas longas exóticas, mas em menor número, se vendo praticamente um pouquinho de tudo. Os revólveres na sua maioria eram de origem americana (principalmente Colt e SW), além de seus clones espanhóis, sendo que destes os mais famosos eram os populares “H.O.” (o correto é “O.H.” - Orbea Hermanos da cidade de Eibar), mas se encontram muitos outros espanhóis como os Tanque, os Corso, BH, GH. Etc. Etc. Etc. Para mais umas 20/30 marcas espanholas. 

Os revólveres Nagant em calibre 440, de dotação do Exército Brasileiro foram extremamente comuns entre os civis no nordeste do Brasil (e como relíquia até os dias de hoje se acham muitos). Creio que nada impede que alguns deles tenham sido desviados de quartéis na época do coronelismo. Os calibres mais comuns nos revólveres da época eram o 32 SWL, 38 SPL, .44 SW russo, 44-40, e em regiões do mato-grosso o .44 SPL. Evidente que sempre se pode ver algum em calibre mais raro ou exótico. Ouvi falar de pelo menos um exemplar de Colt Peacemaker 1873 em calibre 44-40 que estava e mãos de um rico fazendeiro, arma bem rara por estas plagas. Dentre as pistolas, as alemãs da casa Mauser, notadamente a C-96 de 7,63 mm alcunhada de “caixa de pau” por causa do coldre-coronha de madeira, arma predileta do Cel. Horácio de Matos que febrilmente usou uma nos combates de 1918 em Brotas de Macaúbas/Ba contra o também Coronel Militão Rodrigues Coelho, num entrevero onde quase 500 jagunços lutaram, cavando trincheiras e sitiando várias fazendas e povoados, e desafiando e entrando em combate com uma expedição da Força Pública Estadual que havia ido em socorro de uma das partes. 


Contendas do Sincorá, Bahia

A contenda (nome inclusive de uma das cidades da região: Contendas do Sincorá, batizada segundo contam em lembrança as freqüentes rixas entre os poderosos nesta área) durou cinco meses, com um saldo de centenas de mortos.Curiosamente a cara e bem feita Mauser C-96 era bem popular no Nordeste. Um aparte deve ser feito ao sistema de municiamento destas armas, que usavam um carregador fixo municiado por uma lâmina, e quando estava cheio com os 10 cartuchos o povo via nele os dentes de um pente, surgindo assim a expressão leiga “pente” usada até os dias de hoje para denominar qualquer tipo de carregador de armas semi ou automáticas. Como as Mauser foram as primeiras semi-automáticas a chegar por aqui, seu nome por muitos anos foi sinônimo de pistola, “fulano tem uma mausa”, se fosse grande era uma “mausona”, se pequena ”mausinha”. 

Fato pouco estudado é que dizem que a Força Pública de Pernambuco usava um clone espanhol das Mauser, a pistola Royal com seletor de fogo automático, sendo inclusive arma das tropas “volantes” que combatiam o cangaço. As pistolas Parabellum mod. 1906 (a maioria do contrato militar brasileiro, raras eram comerciais) e 1908 de 7,65 mm e 9 mm Luger, também foram muito apreciadas, várias fotos de época mostram seu uso, inclusive de variantes raras destes modelos. De outras pistolas se vêem principalmente as Belgas (FN-Browning, Jieffeco, Pieper, e outras marcas menos famosas), e cópias espanholas do tipo Ruby, e americanas a maioria da Colt, aparecem ainda algumas austríacas como as Steyr em diferentes modelos, inclusive as 1911 militares. A maioria esmagadora era em calibres 6,35 mm e 7,65 mm, mas algumas que calçam munições incomuns também são vistas. Raras são as pistolas semi- automáticas inglesas, mas de quase todas as marcas e modelos mundiais se vê um pouco. Espingardas existiam em profusão para a caça, a maioria eram “cartucheiras” belgas, inglesas ou espanholas, sendo que algumas ganharam fama e notoriedade entre a população (como as espanholas Victor Sarasqueta).

A justiça dos coronéis era rápida e brutal, os adversários eram eliminados nas infames tocais, emboscadas feitas por jagunços ou pistoleiros “avulsos” contratados para tal fim, quando não eram as escondidas em alguma estrada deserta, eram a luz do dia mesmo para que todos vissem e temessem. Como até o judiciário era engessado pelo poderio político, pouco podia fazer o populacho no caso de uma ofensa perpetrada por um destes poderosos (além dos assassinatos, se ouve falar principalmente em casos de abuso sexual e surras). 

Alguns coronéis no Nordeste e norte de Minas Gerais chegavam até a usar a seu serviço bandos de cangaceiros e bandoleiros, bem como lhe davam guarida e suporte. É fato mais do que sabido que Lampião conseguia seus víveres e munição através de extensa rede de coiteiros, inclusive alguns coronéis, e até com a polícia que o perseguia! Para ilustrar tais desmandos cito certa feita em 1920 e alguma coisa em Vitória da Conquista/BA, quando duas importantes famílias rivais em pleno centro da cidade chegaram, como em um bom western spaghetti que se preze, ao meio-dia a trocar intensa fuzilaria encastelados em suas fortalezas, parando por completo a cidade. Evidente que ninguém foi preso.Com tanto poder assim que peitava governos e desafiou as forças da lei mais de uma vez, só restava a Getúlio “quebrar a espinha dos coronéis”, minar seu poder e evitar obviamente a contra-revolução. 



Getúlio Vargas em foto de 1930

Assim, logo após a revolução houve o famoso desarmamento iniciado em 1930, com a promulgação do regulamento 105 (o famoso R-105 do exército nacional, uma lei draconiana que regula a fabricação, o comércio, e a posse de armas de fogo no Brasil, em vigor até hoje com algumas mudanças). As milícias dos coronéis foram dispersadas, chefes políticos presos, humilhados e levados as capitais. Assim foram presos alguns dos grandes coronéis da Bahia como Horácio de Matos (assassinado com um tiro pelas costas em Salvador no dia 13 de Maio de 1931, no Largo 2 de julho, pelo Guarda Civil Vicente Dias dos Santos, num crime de mando segundo consta encomendado pela viúva do Major Mota Coelho), Marcionillo Antônio de Souza (me informa seu bisneto Luiz Fernando, que ele morreu em 1943 aos 84 anos e não aos 75, e que não deixou os 3 filhos do segundo casamento na miséria, isso é uma informação errônea espalhada hoje de forma virtual.), Anfilófilo Castelo Branco de Remanso, dentre muitos outros nomes menos famosos historicamente, mas igualmente poderosos. 

O desarmamento levado a cabo na década de 1930 foi bem profícuo na Bahia, sendo apreendidos nas fazendas e cidades da região da Chapada Diamantina (as famosas “lavras”) segundo consta cerca de 30.500 fuzis!!!, 376 kg de munição, 236.000 cartuchos, 2 fuzis-metralhadores e 2 máquinas de recarga de munição (creio que provavelmente eram as máquinas de carregar os pentes dos fuzis metralhadores FMH, pois não se praticava recarga naquela época). Os números certamente parecem absurdos, mas deve-se lembrar que não havia uma legislação rigorosa a época restringindo tipos de armas, nem tampouco havia controle sobre as importações e o comércio. Via de regra os coronéis importavam de maneira direta com encomendas nas grandes casas que vendiam armas de fogo ou a caixeiros viajantes (inclusive muitos sírios e libaneses apelidados indevidamente de “turcos”) que levavam estas armas e munições de porta em porta. Há até relatos confiáveis que dão conta de coronéis que possuíam além de boa louça inglesa, metralhadoras Lewis, da mesma origem, bem como de outros modelos. 

Só do Cel. Horácio de Matos e seu clã, as tropas do governo tiraram 3.000 armas longas de tipos variados, além das armas curtas (pistolas e revólveres, até mesmo as “facas de ponta” foram apreendidas). A chapada era um local pródigo - muito antigamente - para se “garimpar” e achar armas raras. Da Região de Maracás/Ba, sob a influência de Marcionillo, dois batalhões federais recolheram cerca de 2200 armas longas e curtas, e 50 mil cartuchos.


De Vitória da Conquista-Ba, fui informado em conversas com moradores mais antigos que conheceram de perto aquela época violenta (o chamado “tempo do carrancismo”) onde a “política” terminava seguramente em tiros, que se retirou um caminhão e um automóvel lotados de armas de fogo variadas apreendidas. Um velho armeiro me falou certa feita que trabalhando como encanador, ao entrar num porão de tradicional família conquistense na década de 70, achou num canto ao lado da tubulação de ferro, um caixote de munições de diversos calibres, totalmente “zinabradas” (oxidadas), e certamente imprestáveis. 

Exemplos que corroboram a lenda corrente de que quem não queria perder sua arma a enterrou em porões ou em locais seguros, onde a “gente do governo” não andava. Cito um velho revólver S & W DA nº 3 cal. .44 totalmente carcomido que se achou no porão de uma antiga fazenda que foi de uma “coronela”, localizada próximo ao sul da Bahia, bem como outro achado embrulhado em um couro em MG, ou uma carcomida carabina FN-Mauser 1922 enterrada no mesmo estado. Há boatos até de uma metralhadora pesada (Hotchkiss 1914) abandonada em uma fazenda de MG pela coluna prestes, bem como de fuzis achados em diversos locais de MG, SP e RS, todos abandonados por revolucionários ou tropas governamentais.


Pelotão da morte na cidade de Jequié na Bahia em 1930 em ação desarmamentista. As pilhas são de carabinas Winchester e pistolas garruchas.

O coronelismo foi uma chaga. A marca viva de uma época de desigualdade social e econômica, de violência, de impunidade, de atraso e falta de cultura, onde a maioria da população era vítima de homens que manipulavam a sociedade a seu bel prazer através de uma política baixa, interesseira, corrupta e descompromissada socialmente... Peraí! Mas de que época afinal estamos falando, do início do Séc. XX ou do XXI ? MUDA BRASIL!!!!

Fábio Costa

Cortesia: Ivanildo Silveira - Conselheiro Cariri Cangaço
Fonte:http://vitrinedaarmaria.blogspot.com.br/2010/02/o-arsenal-dos-coroneis.html

Novidades em Breve Por:Maria Thereza Camargo

Maria Thereza Camargo e Lily no Cariri Cangaço 2013

Como havia prometido ao amigo Manoel Severo que escreveria alguma coisa sobre meu inusitado encontro com a benzedeira de Ipueiras, acontecido no último Cariri Cangaço 2013, em Aurora do Zé Cícero, estou, agora, a dar uma satisfação aos amigos.

Quando contei a Ari; meu filho e também pesquisador do cangaço; que pretendia escrever sobre aquele encontro, por surpresa minha, ele disse-me que, por sugestão de amigos de Farias Brito, ele deveria criar um blog, pois, possui aquele volume  de documentos  - hoje, todo digitalizado - sem divulgá-los, não tinha sentido.  Dai, sua decisão em criar um blog e, para tanto, convidou para escrevemos juntos.  Ele comentaria sobre os documentos de seu acervo, focando um determinado assunto do cangaço, que pudesse ser munição para comentários.  

Ele discutiria os assuntos relacionados a determinados episódios contidos nos documentos e eu encaixaria comentários sobre a caatinga, cenário dos acontecimentos, a partir dos dados etnográficos de interesse farmacobotânico, que possuo, resultantes de minhas inúmeras andanças pelo Geopark Araripe, na condição de  turista aprendiz.

Topei a parada.
Então sugeri a ele que fizéssemos comentários sobre os noticiários que chegavam ao jornal O Estado de São Paulo, em tempo real, sobre o ataque a Mossoró,em junho de 1927,  envolvendo Ipueiras.  Ele topou. Então, como assinante do jornal pude levantar em seu acervo, as notícias que iam chegando do nordeste em tempo real, resultando no que eviarei a vocês para suas impressões e sugestões.

Grande abraço.
Maria Thereza Camargo
Sao Paulo