O Trágico Massacre de São José do Belmonte Parte II Por: Sousa Neto




Logo de manhã cedo sem as informações almejadas a volante cearense tratou de sair da fazenda Cristóvão e talvez pela falta de caráter que lhe era peculiar, Montenegro afirmou que estava ali por informação e solicitação de Luiz Gonzaga. Para alguns uma justificativa herética e totalmente sem crédito. 
O fato é que dali por diante a semente da desavença foi cultivada, Luiz Gonzaga jurando inocência e Yoio Maroto fingindo acreditar.



Sedento de vingança sempre triste e acabrunhado Yoio Maroto mandou avisar a Sinhô Pereira o ultraje sofrido juntamente com a família. Sinhô já decidido a seguir para Goiás pede então a Lampião que resolvesse essa questão de Belmonte. Sinhô Pereira tinha enorme gratidão e apreço a Yoio, que além de ser seu primo era casado com Maria, irmã de Luiz Padre.

Luiz Gonzaga Gomes Ferraz avisado de um possível ataque por parte de cangaceiros parentes de seu compadre contratou um efetivo armado para lhe garantir proteção. Semanas após resolveu deixar Belmonte retirando-se para a Bahia e depois Sergipe buscando se estabelecer quando foi convencido a voltar ao Pernambuco com todas as garantias, inclusive do governo do estado. Esse fato provocou ainda mais a ira de Yoio Maroto que começou a ponderar ser Belmonte pequeno demais para os dois, vez por outra murmurava: aqui ou um ou outro!




Em Dianópolis Sousa Neto é recebido por Hagahús, D. Josa, Wilson, Vilar, Iara, Prof. Pereira e toda a familia de LUIZ PADRE. 


Entra em cena Antônio Maroto, irmão de Yoio que para conseguir um empréstimo de três contos de reis, convenceu Gonzaga a não acreditar na boataria de uma possível vingança por parte de Yoio e que se empenharia no sentido de convencer o seu irmão de sua inocência. O avisa da saída de Sinhô Pereira do sertão nordestino o que deixa Gonzaga exultante, e em uma demonstração de placidez despensa a sua guarda pessoal recolhendo as armas e munições. Acreditou que tudo havia acabado. Mero engodo. 

Ainda alertado pelos habitantes de Belmonte para não dar crédito a Antônio Maroto, alguns amigos diziam: “Gonzaga em cangaceiro não se pode confiar, Yoio está preparando o bote”! 
É certo que todos tinham razão. Yoio Maroto ia pouco a pouco arregimentando homens para o ataque. Entre outros contou com Tiburtino Inácio (Gavião), filho do major Zé Inácio do Barro que tinha uma irmã casada com um primo de Yoio. Depois Cicero Costa e mais alguns familiares.


Em recente entrevista que fiz com o Sr. Vilar Araújo, filho de Luiz Padre no estado de Tocantins, esse afirmou que José Terto (Cajueiro) já se encontrava na região central do país há mais de dois anos ao lado de seu pai, quando da chegada de Sinhô Pereira lhe ordenando a voltar ao sertão nordestino comandar essa ação. Vilar conta que o seu tio Quinzão (Cajueiro) quando tomava umas doses de aguardente, sempre narrava esse episódio. 

Sinho Pereira e Luis Padre

É certo que a mãe de Cajueiro, D. Antônia Pereira da Silva foi ultrajada pela força volante de Peregrino Montenegro como ele mesmo narra. O que me causou mais curiosidade foi o fato do cangaceiro tão distante ser enviado para comandar uma ação já designada a outro.

Questionei com o senhor Vilar essa motivação de Sinhô Pereira e Luiz Padre. A resposta veio sem pestanejar: “Tio Chico (Sinhô Pereira) acreditava que Lampião pudesse não atender ao seu pedido”. 
Cajueiro chega e se integra ao pequeno grupo liderado por Lampião e principia os preparativos para o ataque.


Yoio Maroto escolheu o dia ideal para o ataque. Belmonte estava em festa, outubro era o mês dos festejos celebrados ao Sagrado Coração de Jesus. Dia 19 de outubro o “noitário” ou patrono da festa era justamente Luiz Gonzaga Gomes Ferraz e o ataque teria que ser no dia seguinte logo cedo, pois com certeza Gonzaga estaria em casa.

Ao romper o dia 20 de outubro o casarão de Gonzaga estava completamente cercado. O povoado é acordado ao som de machadadas, pernadas e várias outras formas de conseguir arrebentarem as portas da residência. As pancadas pouco a pouco iam despertando os vizinhos e outros moradores que logo perceberam se tratar de um violento ataque a residência do homem mais prestigiado daquele vilarejo.

Segundo o cangaceiro Cajueiro na aludida entrevista, disse ser ele o primeiro a penetrar no interior da residência após escalar o muro do quintal. Ficou dando apoio enquanto os seus companheiros arrombavam um portão que dava para a rua dos fundos. Outro grupo tentava o arrombamento da porta da frente. Foi justamente nesse momento que Cajueiro assistiu a morte de Baliza, um dos que tentavam despedaçar o portão. A morte de Baliza ainda não está de tudo esclarecida, há mais razões para esse assassinato e em breves dias irei explanar. Isso é outra história. 

CONTINUA....

Sousa Neto
Pesquisador e Escritor
Conselheiro Cariri Cangaço

Lampião contra o Mata Sete em Feira

Archimedes autografa sua Obra.

Archimedes Marques, autor do livro que foi lançado nesta quinta-feira no museu de artes contemporânea (MAC) “Lampião contra o mata sete”, é também delegado de polícia do estado de Sergipe há 23 anos. Atualmente está lotado na delegacia de apoio a defesa do idoso, em Aracaju e é também especialista em área criminal. Archimedes teve um contato com o livro “Lampião o mata sete” (impedido pela justiça de ser lançado), antes mesmo da sanção judicial. 

Depois disso, segundo relatos do mesmo ,ele passou a escrever sobre o assunto, como uma resposta ao conteúdo que afirma que lampião era homossexual, daí surgiu o livro lançado ontem “Lampião contra o mata sete”, onde o autor contesta totalmente contra tudo que foi exposto de forma leviana no livro proibido, usando de argumentos como se fossem teses, desmontando pedra por pedra tais presunções.



Sem dúvida o livro de Archimedes Marques é uma novidade sobre a matéria que estimula a nossa curiosidade a cerca de um personagem que apesar de nordestino conseguiu repercussão em todo Brasil, criando lendas e histórias de toda natureza.Seguindo a orientação da administração da atual gestão da Secretaria de Esporte, Cultura e Lazer de Feira, o MAC recepcionou o ilustre escritor sergipano, que apesar da formação no mundo jurídico e de estar servindo “às volantes”, se preocupa com a imagem e a história deste personagem ímpar de nossa história, até certo ponto, recente.Muitas personalidades feirenses preocupadas com nossa história e tradições compareceram ao lançamento local de “Lampião contra o mata sete”. 

Fonte: http://www.vivafeira.com.br

É Hoje !! Debate e Apresentação do Cariri Cangaço na Espanha em Noite do GECC nesta terça-feira.


O presidente do GECC - Grupo de Estudos do Cangaço do Ceará, Ângelo Osmiro; e o presidente do Conselho Alcino Alves Costa do Cariri Cangaço, Manoel Severo, convidam a todos os confrades e amigos para participar na noite desta próxima terça-feira, de mais uma Noite GECC-Cariri Cangaço, a se realizar no Auditório da ABO, em Fortaleza.



Ângelo Osmiro, presidente do GECC, ressalta a importância do encontro para a apresentação da Conferencia sobre; Cangaço, Lampião e Cariri Cangaço; acontecida no último mês de Fevereiro na Região de Castilla La Mancha, em Toledo - Espanha pelo Curador Manoel Severo; "quando se deu os primeiros passos para fomentar a realização do evento nordestino de berço cearense, no continente europeu."

Manoel Severo, curador do Cariri Cangaço ressaltou a satisfação em voltar a participar de forma ordinária das noites do GECC - Cariri Cangaço, depois de um tempo fora do país. Para Manoel Severo, o "conjunto de experiências vividas a partir do que pude perceber da leitura que fazem do cangaço, fora do país, foi muito importante, daí ser preponderante debatermos um pouco sobre esses aspectos."


Ângelo Osmiro, Manoel Severo e Juliana Ischiara

Além da apresentação das experiências Cariri Cangaço na Europa, a noite GECC-Cariri Cangaço também terá em sua pauta o inicio de um ciclo de debates dirigidos sobre o tema. Todos estão convidados.

Noite GECC-Cariri Cangaço
Terça-Feira - Dia 01 de Abril de 2014
Auditório da ABO
Rua Gonçalves Ledo, 1630
Fortaleza-Ceará

O Trágico Massacre de São José do Belmonte Parte 1 Por:Sousa Neto

Antônio Amaury e Sousa Neto

Ouvindo amiudadas vezes as gravações feitas pelo amigo Amaury Correa de Araújo com Sinhô Pereira e Cajueiro no final dos anos sessenta sobre esse episódio tão marcante na historia daquela cidade, fui algumas vezes averiguar “in loco” e extrair por mim mesmo determinadas conclusões.


É certo que os homens ricos do inicio do século passado, na ausência de estruturas financeiras formais com suficiente segurança, tinham que guardar o seu dinheiro e objetos de valor em suas próprias residências, despertando assim o interesse de todos os ripários. Por essa época grupos de cangaceiros e salteadores infestavam os sertões nordestino roubando, assaltando , extorquindo e muitas vezes até sequestrando. A ausência do estado e o diminuto contingente de agentes da lei favoreciam essas ações.

Casa de Gonzaga em São José de Belmonte

Luiz Gonzaga Gomes Ferraz havia se destacado na região do Pajeú como próspero comerciante. Era alheio a guerra travada entre as influentes famílias Pereira e Carvalho por questões politicas naquela e em outras províncias da região. Até comentavam o interesse de Gonzaga de ingressar na politica por anseio de algumas outras famílias amigas, mas Gonzaga Ferraz era mesmo um grande empreendedor. 

Em março de 1922 o principal protetor de Sebastião Pereira e Luiz Padre, “major” Zé Inácio do Barro devido à austera perseguição do Governador do Ceará Justiniano de Serpa, seguiu os mesmos passos de Luiz Padre rumo ao estado de Goiás onde se homiziaram. Ficara ainda Sebastião Pereira (Sinhô Pereira) com os mesmos planos já frustrado uma vez.

Antônio Vilela, Sousa Neto, Leandro Cardoso, Jorge Remígio, Manoel Severo e Ivanildo Silveira no Cariri Cangaço 2013

Sem o auxilio do major Zé Inácio e do coronel Antônio Pereira em declínio financeiro, mantenedores do bando, Sinhô Pereira se obriga a pedir ajuda a outros parentes mais abastados, fazendeiros amigos e comerciantes afortunados. Manter um grupo armado naqueles tempos não era tarefa das mais fáceis. No mês de maio daquele mesmo ano um comboio conduzindo mercadorias para Luiz Gonzaga foi interceptado pelo bando de Sinhô que saqueou todos os artigos. 

Sinhô Pereira já era avesso a Gonzaga por esse lhe negar ajuda financeira por varias vezes, inclusive recebeu certo dia como resposta da esposa de Gonzaga, Dona Martina, “que se quisesse dinheiro, que fosse trabalhar como o seu esposo”.

Sinho Pereira e Luiz Padre

Havia, entretanto um destacamento do Ceará sob o comando do Tenente Peregrino Montenegro, homem versado pelas barbáries cometidas em busca de arrancar qualquer informação a cerca do major Zé Inácio e seus asseclas, ultrapassando inclusive as fronteiras de seu estado para saciar o seu desejo e alcançar os seus intentos. 

Nas cercanias do vilarejo de Belmonte havia a fazenda Cristóvão, pertencente a Crispim Pereira de Araújo, conhecido como Yoio Maroto, casado no seu primeiro matrimonio com Maria Océlia Pereira, irmã de Luiz Padre. Ao ficar viúvo casa-se com a prima da primeira esposa por nome Francisca Pereira Neves e por ocasião do falecimento de Francisca, casa-se pela terceira vez com a cunhada de nome Generosa. Yoio Maroto era amigo e duas vezes compadre de Gonzaga aonde o respeito era reciproco.

Por ocasião da passagem do tenente Montenegro a vila de Belmonte ficou sabendo por Gonzaga Ferraz das tropelias do bando de Sinhô Pereira naquela região e da amizade e parentesco entre o chefe cangaceiro e Yoio Maroto e rumou sem demora a fazenda Cristóvão. Ao chegar, ao finalzinho da tarde o perverso oficial já mostra a que veio e começa o seu interrogatório, como de costume a base de boas chicotadas nos criados da fazenda que acudiam pelo nome de Zé Maniçoba e Zé Preto. Foi uma noite de terror para a honrada família que ouviam palavrões dos mais alarmantes por parte da soldadesca embriagada que humilharam Yoio Maroto por algumas vezes. O ex- cangaceiro Cajueiro disse a Dr. Amaury que a sua mãe só não morreu por um milagre de Deus. 



Continua...



Sousa Neto, Barro - Ceará
Pesquisador, escritor
Conselheiro Cariri Cangaço

Fazenda Ipueiras,Cenário de Histórias e Decisões Cangaceiras Por:Maria Thereza e Aristides Camargo

Maria Thereza Camargo e Neli Conceição no Cariri Cangaço 2013

Inspirados nos relatos apresentados por expositores, durante o Cariri cangaço 4 –,  em Setembro de 2013, evento sediado em Juazeiro do Norte CE, reunindo eminentes estudiosos de assuntos ligados à história do cangaço, procuramos desenvolver um texto relacionado aos episódios, os quais colocaram em evidência, nos idos de 1927, historicamente, a Fazenda Ipueiras. Localizada no município de Aurora, compreende área em pleno Cariri, num cenário de caatinga, este, um bioma tipicamente brasileiro. Todavia, colocamos em destaque Ipueiras, simplesmente, por ter sido ali, palco de inusitadas e históricas decisões vivenciadas num período efervescente do “coronelato”, com seus mandos e desmandos e as atividades do cangaço aterrorizante, protagonizado, em sua maioria, por sertanejos  injustiçados, jurando vingança.

Embora já conhecendo bastante do que já vem sendo escrito sobre os bandos de cangaceiros agindo por todo o sertão nordestino, imaginamos o quanto, ainda, se tem para ser elucidado, já passado quase um século dos acontecimentos, tendo como principal protagonista, Lampião, o rei cangaço e seu bando.


Conselheiro José Cícero e a primeira visita do Cariri Cangaço a Ipueiras

É natural que feitos históricos, com o passar do tempo, venham a inspirar obras literárias de cunho ficcional da realidade histórica, sobretudo, por cordelistas em seu dom inato de versejar. Todos, porém, com o mérito de manterem viva uma história real, de um passado que já vai longe e que o tempo vem mitifiando.

Porém, temos consciência de que, desvendar a realidade histórica de fatos que ocorreram em tempos passados, dos quais restam poucas fontes testemunhais, é tarefa, sem dúvida, difícil.  Neste sentido, sabemos que as fontes mais corretas a serem consultadas estejam em testemunhas da época que, direta ou indiretamente participaram ou tomaram conhecimento dos fatos em foco ou em documentos impressos – jornais, revistas, etc. – os quais passavam a circular, noticiando as ocorrências de interesse histórico.   Todavia, sabemos que tais meios de divulgação e depoimentos pessoais, representam fontes sujeitas a incorreções. Porém, esta, passíveis de comprovações a partir de novos documentos de época ou de novos depoimentos com remanescentes dos períodos vivenciados pelos fatos investigados, a fim de se chegar o mais próximo possível da realidade histórica.


Cel. Izaias Arruda

O presente texto não tem a pretensão de trazer à luz documentos mais esclarecedores, das ocorrências históricas, ainda por serem esclarecidas, se é que, ainda, as há, sobre os episódios ocorridos, por exemplo, na fazenda Ipueiras. Este, o local onde teria sido elaborado o fracassado plano para atacar Mossoró e, o mesmo local, de retorno de  Lampião e seu bando, onde os aguardava,  o fracassado plano visando o extermínio do rei do cangaço e seu bando. Plano de extermínio, arquitetado pelo mesmo coronel Izaias Arruda, aquele que os municiou, através para aquele frustrado ataque e que, naqueles primeiros dias do mês de Junho, tenta eliminá-los (Mello, 2011:82, 240).

O que nos inspirou a elaborar este texto foram os seguintes  quesitos:

1. Buscar em fontes documentais impressas – jornais e revistas – as notícias referentes à fazenda Ipueiras e seu envolvimento com o histórico assalto a Mossoró, no Rio Grande do Norte, ocorrido no mês de Junho de 1927. Para a pesquisa em jornais, optamos pelo Jornal O Estado de São  Paulo, visando conhecer como foram as notícias sobre aqueles fatos históricos, as quais via telégrafo, em tempo real, iam chegando à redação do mesmo.  Tais noticiários eram divulgados, ora  na coluna Notícias dos Estados, ora em local mais destacado, com o título O banditismo no Nordeste. Tal pesquisa visa, ainda, disponibilizar tais notícias para fins comparativos com outras fontes impressas – jornais e revistas – ou outras fontes apontadas por pesquisadores, conforme vão por eles mencionados em suas obras e, por nós, relacionadas no final do presente texto.

2. Cientes da possibilidade de que tais noticiários, já sejam do conhecimento dos experientes pesquisadores do cangaço, mas, possivelmente, não, de todos, sua apresentação aqui, visa, sobretudo,  despertar discussões, as mais abrangentes possíveis, em torno dos vibrantes temas relacionados ao fracassado assalto a Mossoró, no mês de Junho e ao retorno de Lampião e seu bando a Ipueiras, naqueles tumultuados primeiros dias de Julho de 1927.

3. Dar ênfase à posição geográfica em foco, abrangendo a região do Cariri cearense  envolvida pela caatinga, esse bioma exclusivamente brasileiros, encerrando  características próprias, importantes de serem preservadas o que, ainda, resta dela.

Além do jornal O Estado de São Paulo, o presente artigo recorreu a outras fontes, cujas referências vão destacadas no texto, na medida em que vão sendo citadas. Chamamos a atenção para as reticências, entre parênteses, substituindo trechos apagados devido ao envelhecimento do papel impresso, assim como substituem trechos das notícias que foram eliminados, por não focarem, exatamente, o que nos interessava transcrever.

Continua...

Maria Thereza Camargo,Etnofarmacobotânica, especialista em plantas medicinais na medicina popular no Brasil. ,
Aristides Camargo, Arquivista, especialista em patrimônio cultural brasileiro.

Festival RioMar de Literatura em sua segunda edição acontece em Pernambuco

Festival RioMar de Literatura Pernambucana anuncia programação

Na sua segunda edição, o festival homenageia o autor pernambucano Carneiro Vilela e traz palestras, debates, atrações musicais e teatrais gratuitos para o Teatro Eva Herz.

Nesta edição teremos as participações dos confrades Geraldo Ferraz e Frederico Pernambucano de Melo.


Alguns dos grandes nomes que fazem a cultura pernambucana estarão reunidos nos dias 25, 26 e 27 de março no Teatro Eva Herz da Livraria Cultura do RioMar com um propósito: celebrar a literatura e os escritores do nosso Estado. O II Festival RioMar de Literatura Pernambucana anuncia sua intensa programação com debates, palestras, música, e fecha os três dias de atividades com o espetáculo “O Amor de Clotilde por um certo Leandro Dantas”, adaptação do livro “A Emparedada da Rua Nova”, obra-prima de Carneiro Vilela, o homenageado deste ano.

Além de ser conhecido por seu romance folhetinesco sobre a lenda urbana da mulher emparedada, o autor, foi fundador da Academia Pernambucana de Letras (APL), polêmico cronista, e tem uma relação quase mítica com o Recife. Ele será alvo de debates e palestras durante a programação do festival. Um dos destaques será a palestra da atual presidente da APL, Fátima Quintas, sobre Vilela, narrando curiosidades sobre a vida e obra deste que foi o primeiro presidente da casa, há mais de cem anos.


A abertura do festival fica por conta da Orquestra Criança Cidadã Meninos do Coque, com repertório de músicas regionais. Ao longo dos três dias, nomes como Antônio Campos, Frederico Pernambucano de Mello, Raimundo Carrero, Luzilá Gonçalves, Nelly Carvalho, entre outros expoentes marcarão presença. “Romances”, “Cordão de histórias: A literatura de cordel”, “A presença da Mulher na Literatura Pernambucana” são alguns dos painéis e debates em pauta.

O “new journalism” e a crítica literária também serão discutidos na mesa-redonda Jornalismo Literário: Para além do lead, com a participação dos jornalistas Marcelo Pereira, editor do Caderno C (JC), Schneider Carpeggiani (Jornal Pernambuco e Revista Cesárea), Talles Colatino, editor do caderno Programa (FP) e Felipe Torres, setorista literário do Diário de Pernambuco.

Geraldo Ferraz presença confirmada no II Festival RioMar

Integrando a programação do Festival, o espetáculo “O Amor de Clotilde por um certo Leandro Dantas” já circulou por todo o País, através do Prêmio Myriam Muniz. A peça é inspirada no folhetim de Carneiro Vilela, “A emparedada da Rua Nova”. Na versão teatral da Trupe os elementos que renderiam um melodrama de circo ganham contorno paródico.  A peça já foi convidada por importantes festivais de teatro do país – Festival Recife do Teatro Nacional, Cena Contemporânea de Brasília, Porto Alegre em Cena, Festival Internacional de Artes Cênicas, em Caxias do Sul, dentre outros.

Serviço:

Festival RioMar de Literatura

Quando: 25 a 27 de março de 2014
Horário: a partir das 15h
Local: Teatro Eva Herz – Livraria Cultura do RioMar
Entrada gratuita

A Espanha de Toledo, Templários, Quixote e Cariri Cangaço Parte 2 Por:Manoel Severo

Universidade de Castilla La Mancha em Toledo 

Hoje trazemos a segunda parte de entrevista concedida pelo curador do Cariri Cangaço, Manoel Severo, por ocasião de Conferencia na cidade de Toledo, em Castilla La Mancha, na Espanha, no último dia 26 de Fevereiro do corrente, concedida ao jornalista Pirro de Nijon.

Dom Quixote de La Mancha, de Castlla e de Cervantes

PN: Dr Severo, o Cariri Cangaço acontece na região nordeste do Brasil, tens desejo de levar as conferencias para fora do pais?

S: Certamente. O cangaço foi um dos fenômenos mais fortes acontecidos no nordeste do Brasil, é pura história, é um recorte que vale a pena não apenas ser contado, mas acima de tudo ser compreendido em toda a sua dimensão, capilaridade e repercussão; sem desejar fazer apologia ao banditismo ou à violência, mas acima de tudo, saber a verdadeira natureza de tão abrangente acontecimento. Então o Cariri Cangaço nasceu com o desejo de dá essa contribuição ao aprofundamento desse debate e levar para outros países, notadamente da América Latina e Península Ibérica, seria muito importante. Quem sabe não iniciamos pela Espanha, por Toledo? Os Cangaceiros invadiriam as terras do Cavaleiros Templários (risos).

 Pirro de Nijon, Manoel Severo, Dom Marciano Silva e Dom Adalberto

PN: Vamos torcer para ter o Cariri Cangaço na Europa (risos) . Dr Severo o senhor em uma resposta passada falava de Mito. Aqui mesmo em Castilla de La Mancha temos um personagem mundialmente conhecido e consagrado que é Dom Quixote,  Lampião também poderíamos dizer que viria a ser considerado um mito?

S: Dom Quixote de La Mancha. Encontrei inúmeros e maravilhosos monumentos em vários lugares aqui na região de Castilla, simplesmente sensacional; fruto do talento incomum deste que é um dos maiores escritores da historia da Espanha e do mundo: Miguel de Cervantes. Nem sei se vou conseguir responder sua pergunta sem me ater ao seu complemento. Lampião tornou-se um mito sim. Sem dúvidas perpetuado por todo o nordeste e Brasil; um personagem real que acabou povoando a mente e a imaginação de um cem numero de pessoas, inicialmente no sertão, principalmente a partir dos cantadores;uma espécie de menestrel ;e dos poetas de cordel, que eram poetas populares que se apresentavam em pequenas feiras das cidades e vilarejos, e depois a partir da vasta literatura sobre o mesmo; para você ter uma ideia, Lampião certamente está entre os três sul-americanos mais biografados do planeta, é algo realmente incrível. Então poderia concluir minha resposta dizendo que Dom Quixote sem dúvidas sai das paginas dos livros para encantar o mundo através da arte de Cervantes; já Lampião faz o trajeto inverso; de existência real, de uma vida cruel e violenta passa a personagem mítico da história.

PN: Voltando aos acontecimentos sobre a vida de Lampião que o senhor tão bem discorreu em sua conferência nessa tarde: Como se dava a relação desses cangaceiros com as mulheres, e o que dizer de Maria Bonita, sua companheira ?

Maria Bonita

S: As mulheres sempre estiveram presentes na vida dos cangaceiros. Na verdade esses homens pertenciam ao mesmo estrato social da maioria esmagadora dos jovens daquela vasta área rural brasileira; então esses cangaceiros eram os mesmos jovens que labutavam na agricultura, que cuidavam dos rebanhos de gados, que trabalhavam nos pequenos comercios, enfim. Depois de entrarem no cangaço, apesar da contínua vida de combates e fugas, mantinha ainda laços, embora esporádicos, com essas mesmas pessoas, e aí se encontravam os relacionamentos com as mocinhas do sertão. As mulheres entraram no cangaço em 1930, com a chegada de Maria Bonita ao bando, como companheira do líder maior, mas antes disso, haviam cangaceiros com namoradas, amantes, e as andanças nos bordéis de então... rsrsrs. Enfim...E Maria Bonita, a primeira dama do cangaço, encantou Lampião que acabou cedendo e a levando consigo, abrindo o espaço para que outros líderes de bando também pudessem acolher suas companheiras no grupo. Fala-se de quase quarenta mulheres que devem ter passado pelos vários bandos cangaceiros daquela época.  

Dom Marciano, Pedro e Gabriel Barbosa em Toledo, Universidade Castilla La Mancha 

PN: Maria Bonita era realmente digna desse cognome ?

S: As fotografias mostram uma morena de traços firmes , corpo bem desenhado, sorriso farto e bonito, a meu ver uma sertaneja como muitas outras sem encantos que chamem a atenção, mas sem dúvidas uma mulher de forte personalidade, basta ater-nos ao fato de ter "dominado" a fera que era Lampião.

PN: Dr. Severo, e o fim de Lampião e o fim do cangaço, como poderíamos analisar ?

S: As duas coisas estão intimamente ligadas; o fim do cangaço se consolidava a partir do fim de Lampião. O cangaço mantinha fortes ligações com as elites rurais nordestinas; não é difícil notar e comprovar a iminente ligação, preponderantemente de Lampião, com os coronéis de barranco do sertão nordestino. Essa ligações variavam de acordo com os interesses mútuos envolvidos, ou seja:Comercio de armas, gados, propriedades, perseguições a adversários políticos, proteção, etc etc etc; por muito tempo essa ligação rendeu frutos a ambas as partes, com advento da revolução de 1930 no Brasil , muita coisa começava a mudar no alto escalão poder central com o líder Getúlio Vargas e que sem dúvidas iriam repercutir em todo o Brasil, ali se delineou o ponto fundamental para o final do cangaço: O cangaço não era mais conveniente para os chefes politicos e à elite governante do sertão, então teria que ser extirpado do seio sertanejo e assim o foi.


Grota do Angico em Sergipe, nordeste do Brasil: local onde morreu Lampião

PN: Morreu Lampião na Gruta do Angico no rio São Francisco ?

S: É. Na verdade o correto seria na "grota do Angico" e não "gruta", Angico é o nome de um afluente do Rio São Francisco, e que também dava nome à fazenda onde Lampião e seu bando estavam "acoitados" no final do mês de julho de 1938, às margens do Rio São Francisco, no estado de Sergipe, hoje município de Poço Redondo, onde se deu o último ato do Rei do Cangaço e sua companheira Maria Bonita. Na madrugada do dia 28 de julho de 1938, as volantes comandadas pelo tenente João Bezerra haveriam de cercar boa parte do bando e ao nascer do dia o tiroteio intenso de 49 homens das volantes dariam fim a vida de Lampião, Maria Bonita e mais 9 componentes de seu bando, como também perderia a vida nesse episódio um soldado das forças públicas de nome Adrião. Ali havia sido dado o golpe fatal para o fim do cangaço; depois desse fatídico dia muitos outros líderes e membros de outros bandos acabaram se entregando até que em 1940 com a morte do segundo homem na hierarquia cangaceira; Corisco, o cangaço deu-se como findo.


PN: 20 anos de luta numa região tão árida e sob intensa pressão, pode se ter uma idéia do que pode ter sido o cangaço.


S: É verdade. Temos um grande pesquisador e documentarista brasileiro, Aderbal Nogueira que nunca perde a oportunidade de com muita lucidez nos lembrar que existem dois cangaços: Um muitas vezes exageradamente explorado de forma romântica pela literatura e um outro; real, duro, penoso e perverso, que muito sofrimento acabou trazendo para todos os envolvidos e principalmente para o povo ordeiro daquela região. O cangaço foi um fenômeno verdadeiramente marcante, pela sua longevidade, por suas origens, por suas repercussões e ainda por sua grande capilaridade, para você ver, atravessei o atlântico, chegamos até o velho mundo, e aqui estamos a falar sobre ele, sem dúvidas o cangaço é impressionante.



Manoel Severo e a Catedral de Toledo

PN: Já estamos chegando às 23 horas, o senhor deve estar cansado, agradecemos imensamente a entrevista, a gentileza , a forma cordata como realizou a conferência e depois aceitou em nos atender, enfim, sua mensagem final.

S: O tempo passou rápido, estamos falando de cangaço desde as 16 horas, (risos), primeiro na conferencia e depois nessa nossa conversa, mas nenhum cansaço, parece que quanto mais dissecamos o tema, mais temos a falar, e isso você pôde comprovar hoje. Quero agradecer a você, a todos os nossos anfitriões, aos estudantes, aos professores, ao público que com muita atenção; apesar de algumas dificuldades na tradução; nos acompanharam desde o inicio, enfim, e dizer de nossa grande satisfação em estar aqui e reforçar o que disse no inicio de nossa conferencia: Não sou um pesquisador nem tão pouco um historiador, sou um "curioso de carteirinha" que ao lado de uma grande família de amigos conseguimos construir esse Seminário chamado Cariri Cangaço. A você Pirro, o meu abraço e reconfirmo o convite a todos para estarmos juntos numa grande expedição Cariri Cangaço pelo sertão de Lampião.


PN: Dr Severo, o prazer foi nosso e vamos ver se conseguimos receber a liberação para ir ao Brasil conhecer de perto as terras de Lampião. Boa noite ao senhor e retorne sempre a Espanha.

Manoel Severo - Cariri Cangaço
Castilla de La Mancha, Toledo, Espanha

O "X" da Questão do Ataque de Lampião a Mossoró Por: Honório de Medeiros

Paulo Gastão, Honorio de Medeiros, Luitgarde, Carlos Santos e Franklin Jorge no Cariri Cangaço 2013

Aparentemente apenas dois personagens são protagonistas tanto da invasão de Apodi, por cangaceiros, em 10 de maio de 1927, quanto de Mossoró, em 13 de junho de 1927. Trinta e três dias separam uma da outra.Eles são o Coronel Isaías Arruda, Intendente de Missão Velha, no Cariri cearense, e o cangaceiro Massilon.

Qual a natureza da relação entre o Coronel e o Cangaceiro? Circunstancial ou decorrente de um planejamento? No que diz respeito ao Coronel sabemos que a invasão de Apodi somente lhe surgiu na mente quando foi procurado por Décio Hollanda para ajuda-lo nesse propósito. Não há qualquer registro de interesse seu quanto ao Rio Grande do Norte anterior a esse contato.

E quanto à invasão de Mossoró, sabemos que essa idéia lhe foi apresentada após o retorno de Massilon da invasão de Apodi, apesar da opinião de Sérgio Dantas, calcado em Raul Fernandes, no sentido de que o Coronel tinha seus olhos voltados para a riqueza da segunda maior cidade do Rio Grande do Norte.E o sabemos em primeiro lugar porque o Coronel não chamara Lampião às suas terras. Lampião lá apareceu inesperadamente, conforme nos demonstra, com precisão, o próprio Sérgio Dantas. E o sabemos também porque não há registro de qualquer atividade anterior do Coronel em promover essa “indústria” da invasão de cidades em busca de lucro.

Massilon

Por fim, podemos inferir essa hipótese com base na seguinte cadeia de raciocínio: se ele não tivesse sido procurado para ajudar na invasão de Apodi, não teria conhecido Massilon; se não tivesse conhecido Massilon não haveria o ataque a Mossoró. Então tudo leva a crer, em uma primeira análise, ao se observar a balança na qual estão postados os argumentos, no fator circunstancial, quanto ao Coronel, enquanto não encontramos qualquer indício que aponte para um planejamento anterior no sentido de atacar Mossoró.

Se circunstancial, então o papel do Coronel nas duas invasões foi de somenos importância, limitando-se a arranjar jagunços, armas, munição e, talvez, animais para as duas invasões, e a convencer Lampião a participar do ataque a Mossoró. Coube, aqui, para empreender esse raciocínio, usar a Navalha de Ockham. Entretanto se essa participação do Coronel foi circunstancial cabe, agora, perguntar o seguinte: o ataque a Apodi e Mossoró, no espaço de trinta e três dias, foi, também, circunstancial ou havia um nexo entre eles, anterior ao próprio ataque?

Izaias Arruda

Quanto à existência do nexo existem os seguintes fortes indícios:
(i) a correspondência de Argemiro Liberato avisando previamente do ataque;
(ii) o aviso do Coronel Chico Pinto ao Coronel Rodolpho Fernandes após a invasão de Apodi e antes de Mossoró;
(iii) a menção ao projeto do ataque a Mossoró feito por jornal da cidade;
(iv) a presença, tendo em vista seu passado, nos dois ataques, enquanto protagonista, de Massilon.

Se assim o é, então a idéia de atacar Apodi e Mossoró já existia antes dos ataques serem realizados. Quanto à invasão de Apodi, não existem dúvidas em relação a sua natureza política. Teria o ataque a Mossoró também a mesma finalidade? Mais: se o ataque a Apodi tinha natureza política, e o ataque a Mossoró também o tinha, o que se conclui quando sabemos que no primeiro caso o objetivo era o Coronel Chico Pinto? Obviamente que o ataque a Mossoró queria atingir, por sua vez, o Coronel Rodolpho Fernandes.

Se decorrente de um planejamento, então como explicar esse liame entre as invasões? Se o há, necessariamente passa pelo único personagem cuja presença nos dois ataques não foi circunstancial: Massilon. Nesse caso somente a história de Massilon anterior aos fatos pode explicar o ataque a Mossoró. Suas relações, seus antecedentes, sua geografia.

Esse é o “x” da questão.

Honório de Medeiros
Pesquisador, escritor, sócio da SBEC
Conselheiro Cariri Cangaço

www.honoriodemedeiros.com