Arquitetura do Sertão Por:Juliana Sayuri


Casa da fazenda Sabugi, no Rio Grande do Norte - Foto - Nathália Diniz

Casa da fazenda Sabugi, no Rio Grande do Norte – Foto – Nathália Diniz
O sertão é do tamanho do mundo, dizia Guimarães Rosa. Dizia como ainda dizem os que se enveredam pelos tortuosos caminhos dos rincões nordestinos em busca de histórias, respostas, saberes. Não raro, porém, muitos retornam dessas terras ainda mais intrigados com novas questões. A pesquisadora Nathália Maria Montenegro Diniz mergulhou diversas vezes nesse território. Ali nasceram a dissertação de mestrado Velhas fazendas da Ribeira do Seridó (defendida em 2008) e a tese de doutorado Um sertão entre tantos outros: fazendas de gado nas Ribeiras do Norte (em 2013), ambas realizadas sob orientação de Beatriz Piccolotto Siqueira Bueno, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP). Nessas empreitadas, ela encontrou não apenas respostas a seus estudos sobre a arquitetura rural do século XIX sertão adentro, mas também questionamentos novos que deram fôlego para um novo projeto de pesquisa, vencedor da 10ª edição do Prêmio Odebrecht de Pesquisa Histórica – Clarival do Prado Valladares, divulgado em dezembro. O projeto O conhecimento científico do mundo português do século XVIII, de Magnus Roberto de Mello Pereira e Ana Lúcia Rocha Barbalho da Cruz, também foi premiado. Os vencedores foram escolhidos entre 213 trabalhos inscritos pela originalidade dos temas. O prêmio inclui a produção e publicação de um livro, sem valor predeterminado.
É difícil desvencilhar a história pessoal de Nathália Diniz de seu itinerário intelectual. De uma família de 11 filhos originária de Caicó, na região do Seridó, interior do Rio Grande do Norte, ela foi a primeira a nascer na capital potiguar. Em 1975, a família mudou-se para Natal – professores de matemática por ofício, os pais pretendiam oferecer melhores condições educacionais para os filhos. Nas férias e feriados todos retornavam à pequena cidade, onde ficavam em uma das casas das fazendas que pertenceu ao tataravô da pesquisadora. “Logo cedo pude notar as visões diferentes construídas sobre o sertão nordestino. As casas que eu via não eram as mesmas retratadas nas novelas de época, da aristocracia rural. Era outro sertão”, lembra.
Nathália Diniz
Graduada em arquitetura e urbanismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Nathália quis explorar os outros sertões esquecidos no século XIX, mais especialmente no Seridó, uma microrregião do semiárido que ocupa 25% do território do estado. Lá o povoamento se iniciou no século XVII com as fazendas de gado e o cultivo de algodão. Ainda estudante, deu o primeiro passo nessa direção quando participou de um projeto de extensão que investigou os núcleos de ocupação original do Seridó a partir de registros fotográficos e fichas catalográficas feitas por estudantes e pesquisadores. Descobriram, assim, que essas casas, posteriores ao período colonial, mantinham características herdadas da arquitetura colonial ao lado de elementos ecléticos modernos.
Uma vez bacharel, Nathália viajou a São Paulo para participar de um encontro de arquitetos e deparou com o processo seletivo para mestrado na FAU. Decidiu, então, despedir-se do Nordeste para estudar na capital paulista. “Foi preciso partir para poder redescobrir os sertões”, diz ela. Para seu projeto de dissertação, a jovem arquiteta tinha um trunfo: a originalidade da pesquisa sobre as casas de Seridó. “Quase ninguém conhece aquele patrimônio. Quis apresentar essa realidade nas minhas pesquisas.”
Nathália investigou o acervo arquitetônico rural do Seridó, de formas simples e austeras, sem o apelo estético de outros exemplares do litoral nordestino. Essas construções, entre casas de famílias, casas de farinha e engenhos, representam um tipo de economia do século XIX alicerçado no pastoreio e no cultivo de algodão. Embora fundamental para a identidade da região, segundo o estudo, esse acervo composto por 52 edificações conta com poucas iniciativas concretas para tornar viável sua preservação.
Casa da fazenda Almas de Cima, também no Rio Grande do Norte: preservação ainda precária - Fonte - Nathália Diniz
Casa da fazenda Almas de Cima, também no Rio Grande do Norte: preservação ainda precária – Fonte – Nathália Diniz
No início do século XVII, com o povoamento do interior do Rio Grande do Norte, sesmeiros pernambucanos fincaram raízes no Seridó. Foi no século XVIII que surgiram as casas na região feitas de taipa, com madeiramento amarrado com couro cru, chão de barro batido e térreas, com telhado de beira e bica. Lentamente, as casas de taipa passaram a alvenaria, com tijolos apenas na fachada. Por fim, no século XIX, o Seridó ficou marcado pela construção de grandes casas de fazenda, habitadas pelo proprietário, familiares, agregados e escravos.
No doutorado, a arquiteta expandiu horizontes, territoriais e teóricos. Por um lado, debruçou-se sobre a arquitetura rural vinculada às fazendas de gado nos sertões do Norte (atuais estados da Bahia, Paraíba, Pernambuco, Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte). Ela mapeou um acervo de 116 casas-sede a partir de levantamentos arquitetônicos do Piauí, Ceará e Bahia. A fim de melhor compreender o patrimônio material e imaterial nas habitações rurais dessa região, entrou nos campos da história social e da história econômica.
Do inventário de 116 casas-sede alicerçadas em pedra bruta, erigidas em diferentes ribeiras (Ribeira do Seridó, do Piauí, da Paraíba, dos Inhamuns e do São Francisco e Alto Sertão Baiano), a pesquisadora notou a heterogeneidade das construções arquitetônicas nas rotas do gado no Nordeste, que mantinham um mercado interno agitado, embora desconhecido, no calcanhar da economia do litoral exportador. Eram ainda construções pensadas para a realidade sertaneja, com sótãos e outras estruturas propícias para arejar os ambientes castigados pela alta temperatura e pelo tempo seco.
A casa da fazenda Santa Casa - Foto - Nathália Diniz
A casa da fazenda Santa Casa – Foto – Nathália Diniz
Contornando ribeiras e atravessando sertões, Nathália Diniz construiu suas investigações a partir de vestígios de tijolo, pedra e barro. Muitas casas de taipa, mencionadas nos arquivos, não resistiram ao tempo e desapareceram. Restaram fazendas formadas por casas-sede e currais. Entre as características da maioria das construções estavam à disposição dos ambientes: os serviços nos fundos do terreno, com tachos de cobre, pilões, gamelas; e a intimidade da vida doméstica no miolo das edificações, com mobiliário trivial, como mesas rústicas e redes, assentos de couro e de sola, baús e arcas de madeira. Em muitas fazendas, em paralelo a criação de gado, cultivaram-se cana-de-açúcar e mandioca, de onde viriam a rapadura e a farinha, que, ao lado da carne de sol, tornaram-se a base da alimentação sertaneja. “A arquitetura rural não segue modelos”, diz Nathália. “Os primeiros proprietários dessas casas eram filhos dos antigos senhores de engenho do litoral. Se a arquitetura rural tivesse um modelo, eles teriam construído casas similares às de seus pais no litoral, o que não ocorreu. A arquitetura dos sertões mostra a formação de uma sociedade a partir da interiorização dos sertões do Norte, de uma economia marcada pelo gado.”
Depois do doutoramento em São Paulo, a pesquisadora retornou a Natal, onde é professora de história da arte e de arquitetura no Centro Universitário Facex. Seu projeto atual é aprofundar a análise arquitetônica das casas-sede, explorando uma lacuna na historiografia brasileira sobre as relações sociais e suas consequências materiais nos sertões, ainda hoje um universo inóspito e incógnito, marcado por longas distâncias e imensos vazios. Esses territórios ficaram esquecidos, apesar de presentes na literatura e nos relatos memorialistas. Daí brotaram generalizações sobre o Nordeste e sua arquitetura rural, ainda compreendida a partir dos padrões dominantes da Zona da Mata pernambucana e do Recôncavo Baiano – o que, nas palavras da pesquisadora, não condiz com a realidade.
Exemplos da arquitetura sertaneja na Paraíba: sede da fazenda Sobrado - Foto - Nathália Diniz
Exemplos da arquitetura sertaneja na Paraíba: sede da fazenda Sobrado – Foto – Nathália Diniz
O novo trabalho será bancado com o prêmio ganho em dezembro e desenvolvido com o apoio de Beatriz Bueno, da FAU-USP. “O projeto de Nathália foi escolhido pela originalidade do tema e pela oportunidade que nos proporciona de compreender o processo de ocupação do sertão brasileiro e suas dimensões econômica, histórica e social”, diz o coordenador do Comitê Cultural da Odebrecht, Márcio Polidoro. Na economia, ela destacará o ferro que marcava o gado e que permitia identificar a fazenda à qual pertencia – até agora, a pesquisadora já coleciona 653 desenhos de ferro diferentes. “Num sertão disperso, sem fronteiras claramente visíveis, pontuado por tribos indígenas inimigas, o gado carregou a representação do território e da própria propriedade dos que vinham de outros lugares”, define. Na sociedade, ao cruzar os inventários post-mortem encontrados nos arquivos e nas casas, pretende compreender e revelar a vida cotidiana do sertanejo que se desenrolava a morosos passos no século XIX. Fará novas viagens para refazer fotografias e rever anotações. Mais uma vez, um retorno às suas raízes e às terras, tão diferentes das que via nas novelas na sua infância. “Ainda procuro o que buscava desde o início: quero mostrar o que eram esses outros sertões. Nós conhecemos a riqueza da arquitetura litorânea, a arquitetura do açúcar e do café. Falta a arquitetura sertaneja”, conclui.
Projeto-Paisagem cultural sertaneja: as fazendas de gado do sertão nordestino (nº 2009/09508); Modalidade Bolsa de Doutorado; Pesquisadora responsável Beatriz Piccolotto Siqueira Bueno; Bolsista Nathália Maria Montenegro Diniz; Investimento R$ 130.587,92 (FAPESP).
Fonte:http://tokdehistoria.wordpress.com/ confrade Rostand Medeiros 

Lie To Me Por:Juliana Ischiara

Ex-cangaceira Sila

Sempre que assisto uma entrevista da/com a ex-cangaceira Sila, tenho a impressão de que estou assistindo mais um episódio da série americana “ Lie to me”. Evidente que, assim posto, não estou dizendo que tenho a capacidade do Dr. Col Lightman de detectar mentiras ou invencionices só pela linguagem corporal.

Em um dos vídeos postados por nosso companheiro Aderbal Nogueira, aqui mesmo em nosso blog do Cariri Cangaço , Sila diz: “quando alguém lhe dizia que ela deveria se orgulhar por ser mulher de cangaceiro e ou ter sido cangaceira, ela respondia: Orgulho de que? Isso é um absurdo! Tudo que vivemos naquela vida. (...)”. Mais à frente, ela diz que “não se sentia uma mulher famosa, que não era famosa, que era uma mulher simples”, ou seja, em apenas duas falas, durante a entrevista, ela consegue tergiversar ou mesmo ser controversa. Como sempre suas falas nunca combinavam com sua conduta. Assim vejamos:  vamos refletir sobre estas duas frases:“ Orgulho de que?”, “ não sou famosa, sou simples”.

É estranho uma pessoa não se orgulhar de seu passado e ser uma pessoa simples, se chegou a adotar até um nome artístico para que soasse melhor na imprensa, lembrando que a mesma continuou usando o apelido que lhe deu a pretensa “fama”. Isso não me parece uma atitude de uma pessoa simples, humilde ou ingênua. Ainda numa rápida pesquisa sobre os remanescentes e ou celebridades do cangaço, percebe-se claramente dois grupos: O primeiro é formado pelos que adoravam falar sobre o assunto e aparecer, mesmo que inventando, mentindo, aumentando ou supervalorizando sua participação no cangaço. No outro grupo, estão os que não gostam de falar sobre o assunto, os que sentem vergonha de seu passado criminoso, os que dificultam, a todo custo, qualquer contato com os pesquisadores. Estes não gostam de se expor.

Escritor Vilela entrevista ex-cangaceiro Vinte e cinco

Não é difícil saber em qual grupo se enquadravam Sila, Volta Seca, Balão e muitos outros. Da mesma forma que não é difícil saber em que grupo está Vinte e Cinco, Maria de Juriti e alguns ex-volantes. É comum ao ser humano querer esquecer os acontecimentos ruins, esquecer aquilo que lhe causa vergonha. Geralmente tende-se a não falar sobre o assunto ou falar o mínimo possível. Ao ler as entrevistas de muitos pesquisadores, concedidas a Kiko Monteiro e postadas em seu Blog Lampião Aceso, em uma das perguntas feitas por Kiko, os pesquisadores responderam sobre a resistência e ou dificuldade de entrar em contato com alguns remanescentes do cangaço, vejamos alguns: Sergio Dantas diria menos fácil, (...), VINTE E CINCO; Alcino Costa diria ZÉ RUFINO; Sabino Bassetti, VINTE E CINCO e CRIANÇA; Paulo Gastão, VINTE E CINCO  e MARIA DE JURITI; Antonio Vilela, EXPEDITA FERREIRA; Aderbal Nogueira, LERO, filho de ZÉ SATURNINO; Leandro Cardoso, MARIA DE JURITI; João de Sousa Lima, PRETÃO (irmão de Maria bonita) BEM-TE-VI e MARIA DE JURITI;  Antonio Amaury, OS SOLDADOS (os ex-volantes não gostavam de falar) e MELCHIADES DA ROCHA.

Vale ressaltar que aqueles que faziam parte do grupo celebridade, o contato era facílimo, inclusive não se incomodavam de passar meses na casa dos amigos e admiradores, desde que isso lhes proporcionasse conforto, mídia e atenção. Não tenho conhecimento de que Dadá tenha passado dias na casa de sua irmã dona Joana, uma senhora simples, humilde. Sila na casa de seus parentes simples e humildes que ainda hoje moram em Poço Redondo e assim por diante...

Juliana Ischiara, Pesquisadora e Historiadora
Diretora do GECC, Conselheira Cariri Cangaço

A Canudos de José Calasans

José Calasans

Em 1947, quando das rememorações do cinqüentenário da Guerra de Canudos, o vilarejo, reconstruído no início do século XX sobre as ruínas do arraial conselheirista, recebeu a visita de Odorico Tavares e Pierre Verger. Ambos, jornalista e fotógrafo, fariam uma reportagem para a revista O Cruzeiro que seria um marco nos estudos canudenses. Nela são apresentados os primeiros depoimentos dos sobreviventes do conflito. 
A História começou a registrar a voz dos vencidos. Pouco tempo depois, em 1950, José Calasans Brandão da Silva iniciou estudos para elaborar uma tese que privilegiasse a tradição oral sobre a Guerra de Canudos, a vida de Antônio Conselheiro e o Povoado do Belo Monte. Para realizá-la, foi ao sertão, conversou com sobreviventes e compilou preciosas informações que abririam novas veredas para pesquisas sobre o tema. Com a reportagem de Tavares e Verger e as investigações de José Calasans iniciou-se a oralidade da tragédia sertaneja, até então ofuscada pela grandeza literária do livro Os sertões, de Euclydes da Cunha. 
Hoje, mais de cem anos depois da destruição do Arraial de Canudos, dispomos de informações que contemplam os dois lados da bárbara peleja. E muito devemos aos estudos do Professor José Calasans. Suas pesquisas, além de esclarecerem inúmeros episódios da Guerra, tiraram das coxias dos palcos da História as pessoas que ali, às margens do Rio Vazabarris, ouviam ao entardecer as prédicas e conselhos de Antônio Conselheiro. Armado apenas com a obstinação e paciência do historiador, José Calasans entrincheirou-se nos escombros do arraial conselheirista e foi um dos seus mais bravos defensores.

Notícia dos Beatos, por José Calasans...

Admitimos, na igreja popular sertaneja, uma hierarquia, com beatos e conselheiros. Tivemos nossa atenção despertada para o assunto numa conversa com Honório Vilanova, em terras do Assaré. Disse-nos que conhecera, por volta de 1873, no Ceará, o beato Antonio, que iria encontrar, depois, na Bahia, como conselheiro. Explicou-nos que conselheiro era mais do que beato. 

Ao beato cabia a missão de tirar rezas, cantar ladainhas, pedir esmolas para obras da igreja. O conselheiro ia além, porque, melhor preparado sobre os temas religiosos, pregava, dava conselhos. Um conselheiro pode ter, debaixo de suas ordens, um ou vários beatos. Foi o caso de Antonio Conselheiro, ao qual estavam subordinados alguns beatos, como o beato Paulo, José Beatinho, Antonio Beatinho, além de outros que não nos foi possível identificar. Cronologicamente, o primeiro a ser apresentado é Paulo José da Rosa, também referido como José Paulo da Rosa. 

Em 1876, apenas dois anos após o surgimento de Antonio Conselheiro no centro das províncias da Bahia e de Sergipe, já era pessoa importante no meio dos acompanhantes. Tanto assim que foi preso na Vila de Itappicuru, no citado ano, vindo em companhia do Santo para Salvador, com ele percorrendo as ruas da capital baiana no dia 5 de julho, juntamente com mais dois outros presos, José Manuel e Estevam, o primeiro apontado como vagabundo e larápio e o segundo acusado de ser escravo fugido, pertencente a uma viúva moradora em Porto da Folha, Sergipe, informações contidas no expediente do delegado em exercício de Itapicuru, Francisco Pereira de Assunção (Aristides Milton, 12 : p.11) , onde Paulo José da Rosa está nominalmente citado por causa de suas ligações com o místico cearense. 


Livre da polícia, o beato Paulo voltou ao sertão, passando a acompanhar, novamente, Antonio Conselheiro, a quem o juiz municipal de Quixeramobim, bacharel Alfredo Alves Matheus, pusera em liberdade, provada sua inocência (Manuel Benício, 03: p.46). Tornou-se a segunda pessoa da grei. Marcos Dantas de Menezes viu o beato Paulo no arraial do Bom Jesus. Velhinho, cabeça branca. Ninguém podia falar ao Bom Jesus sem seu consentimento. Morava no mesmo barracão onde ficava o Conselheiro. Recebia tarefas a serem executadas em outros lugares. 

Em 1893, escreveu-lhe Antonio Conselheiro a respeito da igreja construída em Canudos, dando ordens para não permitir na derrubada do Santuário ali existente, “porque a nova capela não estava benta”. A missiva fora escrita em Brejo Grande, trazendo a data de 10 de maio (Rev. I. G. H. Bahia – vol. 55, p. 741). Nascera no Soure (Natuba)  tinha mais idade do que Conselheiro. Não brigou nas horas dos diversos fogos. Morreu bem idoso. Sepultaram-no na frente da igreja, segundo recordou Honório Vilanova (Nertan Macedo, 11: p. 67). 

Falou-nos Ciriaco do pouco conhecido José Beatinho, cearense, dono de uma voz muito bonita para entoar benditos. A mandado do Santo, saía pelo sertão para tirar esmolas. Nosso informante foi seu companheiro numa dessas oportunidades. Não confundi-lo com Antonio Beatinho, que entrou na história nos derradeiros instantes do Belo Monte. José falecera algum tempo antes da guerra.

Fonte: www.josecalasans.com

Coronel João Bezerra Por:Ane Ranzan

Tenente João Bezerra

Amigo Manoel Severo, saudações atrasadas. Um belo dia você bateu à porta do nosso coração e se instalou. Às vezes buscamos entender de que forma essa conexão é estabelecida e não temos explicação. Fica a presença marcante e a essência em nós.

Hoje, alguns anos depois percebemos que o destino, o universo o colocou em nosso caminho para ser um ELO forte entre muitas pessoas, de forma humilde, de maneira discreta, com total desapego, mas com tal dignidade como um canoeiro que nos conduz na travessia de uma caminho desconhecido, mas que deve ser trilhado.

Houve uma doação de esperanças, de sonhos, de revelações e de tempo.
E o tempo foi passando e com ele, sempre a certeza de que tudo vem em seu momento, dentro do prazo estabelecido por DeusDiante de sua filosofia de vida, que nós, daqui e calados, observamos e percebemos que se trata de um ser humano e batalhador,  que não aceita pensar que sabe o bastante, e nesse contexto, o conhecimento e a incansável busca pelo aprimoramento, ganha cada vez mais importância nos nossos corações. É fácil entender alguém que se solidariza com os Cavaleiros da Cultura.

Ane Ranzan e Paulo Britto

E ao olhar para trás amigo Manoel Severo, vemos um pequeno caminho trilhado, e muito mais a trilhar, onde nos permite muitos esclarecimentos, talvez você esteja pensando estar contribuindo minimamente, mas tenha a certeza que não é.

A figura do Coronel João Bezerra passou a ser mais conhecida depois do seu blog “Cariri Cangaço”.Quem conheceu o militar em questão, sabe que sua atuação foi bastante sofrida, com muitas dificuldades, muitas artimanhas e muitos percalços. Afinal, passar 12 anos no encalço dos cangaceiros, por entre as caatingas e o sertão, debaixo de um sol escaldante, não deve ter sido tarefa fácil, mas temos que concordar que foi uma atuação primorosa e que tudo valeu a pena diante do desfecho de mais essa missão, encerrada em 28 de julho de 1938, na Grota do Angico, em Sergipe, onde morreram Maria Bonita, Lampião e mais 09 cangaceiros.
Em 1938, quando do histórico combate com Lampião e seu bando:

João Bezerra à frente de seus comandados

Já era tenente; havia sido prefeito interventor da cidade de Piranhas em Alagoas; havia passado 12 anos no encalço dos cangaceiros;  Já havia tido 11 combates – com grupos chefiados por: Luiz Pedro do Retiro, Corisco, Gato, Zé Baiano, Português, Manoel Moreno, Moita Brava e Lampião;  Já havia sido nomeado por 08 vezes delegado em diversas cidades de Alagoas;  Já havia participado de 03 Revoluções fora do Estado – 1925, 1930 e 1932; E nos apontamentos de sua carreira militar, já havia recebido muitos elogios dos seus superiores e participado de várias missões de realce. Portanto em 1938, em sua carreira militar, já tinha uma folha de prestação de serviços invejável.

Muitos pensaram que o Coronel João Bezerra ficaria estigmatizado com o tal combate de Angico/SE, que sempre seria lembrado apenas como o militar/tenente sortudo, que deu cabo ao grupo de cangaceiros liderado por Lampião, porque, afinal, este combate lhe deu projeção para o mundo. Puro engano, ele continuou sua trajetória de vida militar até 04/11/1955 quando aposentou-se, como coronel. Depois do histórico combate em 1938, sua carreira militar continuou, galgando as graduações de: Capitão, Major, Tenente Coronel e Coronel, grau supremo da instituição policial militar, quando de sua aposentadoria; teve 19 nomeações de comando e 4 nomeações de delegado.
  
E, diga-se de passagem, teve uma vida intensa. Uma luta por honra, por dever, mas também por amor a sua carreira de militar determinado, estrategista e predestinado. Conclusão, para que alguém tenha tal conceito e evolução em sua carreira profissional dentro de uma corporação é necessário que tenha uma conduta ilibada e digna de enaltecimentos. Faleceu na cidade Garanhuns - PE , em 04 de dezembro de 1970 e sepultado, com honras militares, em Maceió - AL, no Mausoléu da Maçonaria, na qual alcançou o grau 18.


E no final de 2013/começo de 2014, conseguimos um grande feito. Reeditar – a 4ª Edição do livro “Como dei cabo de Lampeão”, uma obra muito cobrada e esperada, escrita por ele, como Capitão, logo após o histórico combate de Angico em Sergipe. Que inclui um Artigo belíssimo do Dr. Frederico Pernambucano de Melo, escrito para a 3ª edição e mantido nesta 4ª. Esta 4ª edição pode ser encontrada na Livraria Cultura – Lojas de Recife e site, na Livraria Jaqueira em Recife e com nosso querido amigo Professor Pereira, através do email  franpelima@bol.com.br ou telefones 83 35317352 e 83 99118286.

Portanto amigo Manoel Severo, receba o nosso MUITO OBRIGADO, o agradecimento de coração de uma família que jamais esquecerá o cidadão que busca a verdade e o esclarecimento dos fatos.

Ane Ranzan
Família Ranzan de Britto
Recife, 12 de maio de 2014

NOTA CARIRI CANGAÇO: Ane Ranzan é esposa de Paulo Britto, nora do coronel João Bezerra.

O insubordinado feminino Opinião por:Nadja Claudino

Mulher cangaceira de Marcus Plech

A entrada da mulher no bando de cangaceiros se constitui num dos eventos mais polêmicos do cangaço. Alguns autores atribuem a entrada das mulheres à decadência do bando de Lampião, fato que corrobora com a opinião de Padre Cícero Romão Batista, que foi contemporâneo do rei dos cangaceiros e disse: “Lampião será invencível enquanto não houver mulher no bando”. E não era só o “santo” do Juazeiro que nutria essa opinião, mas Sinhô Pereira, aquele que o introduziu no cangaço, sendo seu chefe até 1922, também pensava assim. Ele foi categórico ao afirmar que jamais levaria mulheres para o cangaço, desaprovando veementemente a escolha de Lampião em aceitar Maria Bonita no bando.

Lampião era uma figura contraditória sob todos os aspectos, homem de vida errante, que se apaixona e leva para junto do seu grupo uma fêmea, criatura fraca, que talvez não se adaptasse às caminhadas estafantes no meio da caatinga, às lutas contra as volantes, à fome e sede muitas vezes companheiras desses grupos de homiziados. O ato de Lampião abriu um precedente e outros cangaceiros passaram a andar acompanhado por mulheres, como foi o caso de Corisco, que viveu e morreu ao lado de Dadá.

Em 1930, Lampião conhece Maria Déia, apelidada pelas volantes como Maria Bonita. Maria era mulher do sapateiro José Neném e vivia uma relação bastante conturbada com o marido. Lampião sempre passava na fazenda dos pais de Maria e foi lá que a conheceu.Para uma mulher sertaneja, um cangaceiro era uma espécie de galã. A impressão que causavam era a de serem homens românticos e diferiam bastante dos outros homens por elas conhecidos. No imaginário feminino sertanejo da época, os cangaceiros era um ser que sempre estava vivendo uma aventura, podiam resgatá-las daquele marasmo em que viviam. 


Eles andavam perfumados, os dedos carregados de anéis de ouro, encarnavam uma aparente riqueza, o luxo, algo escasso naqueles sertões. E foram esses fatores que levaram a mulher do sapateiro a pedir a sua mãe para quando Lampião chegasse, ela fosse avisada. A mulher queria conhecer não um cangaceiro, mas o chefe, o famoso rei do cangaço.O encontro dos dois se deu quando Lampião estava com 33 anos e Maria tinha pouco mais de 20. Lampião, assim que lhe conheceu se apaixonou. Nesse momento, tomou a decisão de levá-la consigo, quebrando desta forma uma regra do cangaço e indo contra os conselhos do Padre Cícero e do seu ex-chefe Sinhô Pereira. 

O guerreiro queria em parte imitar a vida das pessoas comuns, queria uma companheira.Quando Maria entra para o cangaço, Lampião comunica aos seus homens que quem tivesse mulher, namorada ou amasia poderia daquele dia em diante viver com elas no bando. Foi com grande espanto que a imprensa noticiou a entrada das mulheres no cangaço, os soldados de uma volante ao entrarem em combate com o grupo de Lampião ficaram muito surpresos quando notaram a presença de mulheres durante os combates. Afinal de contas, nunca se teve notícias de semelhante coisa nos bandos precursores do bando de Lampião. 


As mulheres dos cangaceiros passaram a mexer com o imaginário do povo. Alguns achavam que elas viviam desfrutando de muito luxo e a beleza das cangaceiras e suas artes de sedução eram cantadas nas feiras pelos violeiros. Elas também povoavam a mente dos soldados das diversas volantes. Inclusive foram os soldados que começaram a chamar a mulher de Lampião de Maria Bonita. No bando ela era conhecida como Maria Déia ou Maria de Lampião.

Maria Bonita, Dadá, Sila, Enedina e outras mulheres entraram na nossa história como protagonistas. O que seria de Lampião sem Maria Bonita ou Corisco sem Dadá? Sem as mulheres o cangaço talvez não tivesse o significado que tem. A mulher pagou um alto preço por essa ousadia. Quando a volante de João Bezerra entra em Angicos, Maria Bonita e Enedina são executadas com os outros cangaceiros. Depois de mortas foram decapitadas e suas cabeças percorreram várias cidades do sertão. O Estado, através da violência instituída, massacrou as mulheres que ousaram ser contra a ordem social vigente. Mas Maria Bonita continuará sendo um mito e ninguém apagará.

Nadja Claudino - História / UFCG
Tianguá - Ceará

E se não fossem as Minas do Coxa ! Por:Manoel Severo



"As minas de São José de Aurora do Padre Cícero. A fazenda Cuprífera acha-se na Fazenda Zaíra, antigamente denominada Coxá ou Riacho Seco. Um terço da Fazenda pertence juridicamente ao município de Aurora e os outros dois ao de Milagres, deste termo de Jardim, no Estado do Ceará, a distância de Zaíra a Aurora é de 12 Quilômetros . A Estação Ferroviária mais próxima é a de Aurora. O riacho que refrigera a fazenda é o Riacho Seco. Este corre do oeste a leste e faz barra no riacho das Antas, afluente do rio Salgado que deságua no rio Jaguaribe. Em junho de 1903 extraí e levei da cidade do Crato, 1.125 quilos de mineral escolhidos e num forno de manga para tratar ferro pertencente ao ferreiro hoje falecido Antônio Fernandes da Silva. Fundi o aludido material, obtendo 23,3 por cento de matta e 98 por cento. Em outra experiência no crisol, um kilo deu 21,6 por cento. Ou seja, para as duas experiências uma média de 22,45. desta matta moldei umas barrinhas que mandei de amostra a várias casas estrangeiras (...) Pe. Cícero Romão Batista em 31 de janeiro de 1918." João Tavares Calixto Júnior

Na verdade ficamos a pensar: O que seria da história de nosso Cariri e de nosso Juazeiro do Norte se não fosse a existência das famosas Minas do Coxá...

Notadamente em função da perspectiva de fortuna a partir do minério do Coxá é que o médico baiano Floro Bartolomeu juntamente com o Conde Adolfo Van den Brule chegaram ao Cariri, o resto da história todos nós conhecemos!

Manoel Severo
Cariri Cangaço

Divulgada a programação do X Encontro Nordestino de Xaxado


A Fundação Cultural Cabras de Lampião divulgou a programação do X Encontro Nordestino de Xaxado, que acontece entre os dias 5 e 8 de junho, em Serra Talhada, no Sertão de Pernambuco.

A programação do encontro inclui apresentação de grupos de xaxado, feira de artesanato, apresentações de grupos de forró pé de serra e participação de Pontos de Cultura da região. Também fazem parte da programação o Passeio Turístico “Nas Pegadas de Lampião”, que inclui passagem nas Pedras onde ocorreu o primeiro tiroteio entre os irmãos Ferreira e José Saturnino – primeiro inimigo de Lampião; nas Ruínas da Antiga Casa Grande da Fazenda Pedreira, de José Saturnino, e no Sítio Passagem das Pedras – Onde Nasceu Lampião.

De acordo com a presidente da Fundação, Cleonice Maria dos Santos,  o evento é 100% cultural e reúne pessoas do país inteiro. É uma festa grande e conhecida e que já se tornou um marco para o nosso município e nosso Estado”, disse.

Primando pela originalidade e autenticidade, o Encontro Nordestino de Xaxado é um evento que vem sendo relizado desde o ano de 2002, e a cada ano vem se aprimorando na qualidade e na valorização do artista sertanejo, sempre enaltecendo as pecularidades das festas culturais de Pernambuco. Pela grandeza alcançada ao longo dos anos, o Encontro Nordestino de Xaxado tornou-se um evento dos mais requisitados, contando com a participação de diversos grupos de vários estados nordestinos, o que possibilita uma verdadeira integração artístico-cultural.

Cleonice Maria dos Santos
Presidente da Fundação Cultural Cabras de Lampião
(87) 9938-6035 

Semana do Cangaço de Piranhas abre o calendário Cariri Cangaço 2014 !


Confirmada a abertura da Agenda Cariri Cangaço 2014. Piranhas, a sede Cariri Cangaço nas Alagoas, promove a primeira Avante-Premiere do evento que tem seu ponto alto em Setembro de 2015. Uma das cidades mais bonitas e acolhedoras do Brasil, às margens do São Francisco, rica em beleza, esbanjando história e tradição, realiza no próximo mês de Julho, de 24 a 27 a Semana do Cangaço, com vasta e rica programação no momento em que se registram 76 anos da morte de Virgulino Ferreira em Angico, Sergipe.

O evento é uma realização da Prefeitura Municipal de Piranhas com a marca Cariri Cangaço e o apoio da ASTURP, da Universidade Federal de Sergipe e do MAX - Museu de Arqueologia de Xingó e terá as conferencias, debates e exibição de vídeos no Centro Cultural Miguel Arcanjo na Piranhas Antiga, Patrimônio da Humanidade; além de visitas dirigidas a muitos dos principais cenários do cangaço lampiônico da década de 30, tanto em Piranhas como em Entremontes e Olho d'Água do Casado,  em Alagoas e Canindé do São Francisco e Poço Redondo em Sergipe.

Manoel Severo e Jairo Luis em Piranhas 2013

A Avante-Premiere Cariri Cangaço 2014 em Piranhas tem a frente o pesquisador e Conselheiro Cariri Cangaço, turismólogo Jairo Luiz; e terá as presenças de representantes da SBEC - Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço, do GECC - Grupo de Estudos do Ceará, do GPEC - Grupo Paraibano de Estudos do Cangaço, além de Universidades e escolas, dentre outras representações e instituições ligadas à pesquisa e estudos do Cangaço, de todo o Brasil. 

A espetacular Piranhas abre a Agenda Cariri Cangaço 2014


Com a palavra o Prefeito de Piranhas, Dante Bezerra de Meneses, "É uma honra e uma grande alegria Piranhas, que tem tanta história ligada ao cangaço, está promovendo esta Semana do Cangaço e recebendo o Cariri Cangaço, movimento que aprendi a admirar e ainda mais porque vejo sempre o blog do Cariri cangaço para aprender com os mestres". Já o curador do Cariri Cangaço, Manoel Severo assegura , "voltar a Piranhas é na verdade um grande presente e ao lado de nosso Conselheiro Cariri Cangaço Jairo Luis e muitos outros companheiros haveremos de reeditar mais uma grande festa da família nordestina, com uma programação dinâmica, responsável e de muita qualidade para os amantes do tema. " Os organizadores estarão divulgando a programação oficial dentre de poucos dias, confirma Jairo Luis, direto de Piranhas em Alagoas.

Cariri Cangaço em Piranhas
Semana do Cangaço 2014.

Um golpe frustrado Por: Emerson Monteiro


Na época em que foi prefeito de Lavras da Mangabeira, Gustavo Augusto Lima precisou seguir até Fortaleza, deixando a substituí-lo José Augusto de Oliveira (Zé Borrego), seu primo e esposa de uma de suas primas. Algumas semanas passadas na solução dos compromissos que o levaram à Capital, Gustavo regressa ao município, pronto a retomar as atividades executivas.

Nesse meio tempo, contudo, grupo político adversário convencera Zé Borrego de não mais lhe devolver o mandato, coisas de quando sucessões municipais ocorriam na ponta do punhal e na boca do cravinote, de tão precário modo que o peso da força prevalecia em contrário aos ditames democráticos dos tempos adiante, dominância da rebeldia oportunista.

O líder Augusto chegara à noite. Ouviu de aliados a confirmação dos boatos que corriam soltos no lugar. O coronel Gustavo seria, com isso, vítima das demarches praticadas na sua ausência. Dia seguinte, às primeiras horas da manhã, se dirige ao paço, sentido fixo nos afazeres do cargo que lhe cabia.

Manoel Severo e Emerson Monteiro no Sitio Tatu em Lavras da Mangabeira

De longe, visualiza bem no curso da porta principal da Prefeitura a pessoa de Borrego, corpo franzino, calvo, olhos fundos, sagaz e impaciente no ânimo de manter a fúria golpista que desenvolvera. Atitude própria de quem ignorava o motivo dos acontecimentos imprevistos, Gustavo chega ao prédio na intenção de reaver o posto que confiara às mãos infiéis do parente.

Imbuído no propósito de manter a sublevação, Zé Borrego não arredara os pés e, menos ainda, transparecia qualquer satisfação com o retorno de Gustavo, lhe bloqueando a passagem. Nessa hora, face a face, nos desejos do poder, obstinado, manifestou aos quatro ventos da praça sua intenção avassaladora:

- Gustavo, para entrar aqui você terá que passar por cima do meu cadáver – isso falado num tom duro, deixando claro que pretendia sustentar até o fim a manobra e possíveis consequências.

Ciente, pois, da teimosa disposição de quem antes dele merecera confiança, Gustavo Augusto esqueceu alternativas. Passo rápido, determinado, empurrando nos peitos, afrontou o que visse pela frente, de jeito que readquiriu no muque o domínio da ação e penetrou no recinto, após lançar ao solo, qual traste inútil, o afogueado usurpador, asseverando abusado entre os dentes:

- Sai do meio, Zé Borrego! Que tu nem cadáver possui – e de novo se investiu no cargo de Prefeito da localidade, restabelecido às condições anteriores.

Emerson Monteiro
Fonte: www.blogdocrato.com

Fazenda Ipueiras,Cenário de Histórias e Decisões Cangaceiras Parte 2 Por:Maria Thereza e Aristides Camargo

Cel. Izaias Arruda

O Cariri, região sul do Estado do Ceará, celeiro de coronéis do sertão,  aqueles que fizeram história na região, nas décadas de 1920 e 1930. Rota de saída de produtos do Ceará e de estados vizinhos, Cariri era, também, porta de entrada e saída dos bandoleiros, liderados por Lampião e considerada a menor distância entre os sertões do Pajeu e do Cariri.  Esse espaço geográfico foi local  de acontecimentos que movimentaram a sociedade política nordestina, diante da manutenção do oligopólio dos “coronéis”, envolvendo em suas estratégias logísticas, a obtenção  de sucesso em suas intensões (Correio de Aracajú de 23 de maio de 1930).  Coronel Isaias Arruda, filho da cidade de Aurora e dono de Ipueiras, foi o coronel que se destacou no episódio de Mossoró.

A cidade de Aurora é uma dessas portas de entrada e saída dentro do estado do Ceará, terra de padre Cícero, conselheiro dos muitos que fizeram a história do Nordeste ser polêmica, tanto, devido à ousadia dos coronéis como dos cangaceiros. Cariri, onde a base da alimentação é o xerém e carne de bode e para adoçar café usam rapadura, pois o açúcar branco é só para “mainha”.  Onde, seis chuvas por ano, já se chama inverno e onde, para todos os efeitos, o rifle substituía a lei, nos tempos de cangaço. Cariri, por onde Lampião, o rei do cangaço, e seu bando, se embrenhavam, deixando ali, as maras de sua passagem, teria dito, quando entrevistado pelo Sr. Alves Feitosa, ao pé da serra do Araripe: “Não sou cangaceiro por maldade minha, mas pela maldade dos outros” (O Povo, de 4 de junho de 1928).


Região do Cariri cearense, sul do estado do Ceará

A caatinga de Ipueiras, como as outras tantas, pelo nordeste a fora, sem dúvida, imagina-se ter sido partilhada por toda sorte de sertanejo que, desde tempos passados, ali procuraram viver, sobretudo, os cangaceiros em sua vida errante, ora fugindo de seus perseguidores, ora buscando abrigo seguro.  Mas, a caatinga do tempo do cangaço, nos  anos 20 e 30, do século XX, deixou para a história, tristes lembranças, por exemplo, quando da execução de certos planos para o extermínio dos grupos de cangaceiros, os alvos eram os coiteiros, aqueles que escondiam os bandos, irritando os poderosos coronéis e políticos daquele começo do século XX.

(...) Aqueles que não colaboravam  com a polícia eram eliminados sumariamente.  O efeito foi devastador: inocentes foram enterrados na caatinga, outros passaram anos presos sem processo e alguns ingressaram nas volantes, com medo da represália policial.  (...) Naqueles anos 20 e 30 o povo se encontrava dividido.  Quem morava na cidade, temia e odiava os cangaceiros. Os camponeses ou vaqueiros moradores de vilarejos ou de casas isoladas na caatinga, que dependiam de suas roças para sobreviver, admiravam a coragem dos cangaceiros.  Eles apontavam os melhores esconderijos e despistavam as volantes (...) (Diário de Pernambuco,  7/7/1997, p.4 e 7, respectivamente)


Local onde era a sede da fazenda Ipueira em Aurora

A catinga de Ipueiras, outrora turbulenta, com seu chão poeirento e pedregoso, parece estar ali, numa linguagem muda, mostrando ao sertanejo a arte da sobrevivência.  Convivendo com os prolongados períodos de seca, esta caatinga e as outras que se espalham pelo nordeste, faz com que parte de sua vegetação perca as folhas, transformando-se numa floresta esbranquiçada.  Esta, todavia, uma das extraordinárias estratégias da natureza a fim de manter a caatinga sempre viva, visto que o cair das folhas, logo no início do período de seca, significa menos perdas hídricas, armazenando água em diferentes partes da planta, até a chegada das chuvas hibernais.  E, ainda, favorecidas pelo clima, as folhas que caem passam por um processo de fenação, tornando-se alimento para os animais (Rizzini & Mors, 1976).

Outra surpreendente estratégia de sobrevivência dos vegetais nas caatingas está em sua extraordinária capacidade de adaptação ao meio ambiente, ao desenvolver compostos químicos com a função de estabelecer condições para a continuidade das espécies dentro do ecossistema.  São os meios de proteger as plantas das radiações solares e de predadores, desenvolvendo recursos mecânicos de defesa, como espinhos e acúleos, assim como viscosidade em folhas repelindo insetos predadores e, sobretudo, criando atrativos para os polinizadores, a partir de substâncias com odor, representadas pelos óleos essenciais voláteis e substâncias com cor em flores, frutos ou outras partes das plantas, desenvolvendo, ainda, os flavonoides de múltiplas atividades farmacológicas – anti-inflamatórias, anti-infecciosas, antissépticas, antioxidantes, antipiréticas, cicatrizante, antinociceptivo, muitas vezes concentradas numa mesma planta, comumente em casas.  Enfim, substâncias essenciais para o homem que vive ali, fornecendo-lhes alimentos, sobretudo, em frutos e tubérculos, além de remédios para diferentes males.  Plantas que já nos idos de 1910, já foram tratadas pelo botânico cearense, Francisco Dias da Rocha, cujos dados bibliográficos encontram-se no final.


Vegetação típica da Caatinga

Com a chegada das chuvas, como num processo mágico, todo aquele emaranhado da galharia, aparentemente seca, transforma-se num manto verde matizado por uma cobertura florística multicolorida, cumprindo seu papel de atrair os polinizadores para a tarefa da reprodução das espécies nativas, não permitindo que a caatinga pereça. (Braga, 1976; Salatino, 2012; Carvalho et al, 2001)

Em meio àquele ambiente de caatinga, hoje transparecendo tranquilo, bem diferente daqueles agitados anos vinte do século passado, quando, ali fervilharam tramas dantescas, envolvendo coronéis, coiteiros, volantes, jagunços e cangaceiros.   Gente brava!

Hoje, Ipueiras, parece viver “clima ameno” entre aqueles que ali vivem.Durante nossa peregrinação pelos sítios históricos do período do cangaço, durante o Cariri Cangaço 4, ao nos determos, logo à entrada do caminho que nos levaria à sede da antiga fazenda Ipueiras, estava, ali, postada, à frente de sua casa, uma senhora, parecendo nos aguardar. O seu semblante sereno e ligeiro sorriso nos lábios, ali, em plena caatinga sob um sol ardente, foram suficientes para nos determos, a ponto de não prosseguirmos na caminhada e, então, ficarmos a conversar com ela, seu marido e filho, este, aparentemente com algum distúrbio mental, se não nos enganamos.Junto à entrada de sua habitação, um casebre de pau-a-pique, já bastante desgastado pelo tempo, com dois cômodos e o mínimo de pertences em seu interior, nos fez, logo, perceber a extrema pobreza em que vive aquela família. 


Maria Thereza e Mario Camargo em uma das visitas Cariri Cangaço 2014.

Mas, sempre com aquele semblante sereno e sorriso nos lábios, ia a senhora trocando conosco um descontraído diálogo, nos contando como era a vida vivida naquele canto do mundo.  Perguntada como resolvia os problemas de saúde, morando distante da cidade, contou-nos sobre as plantas medicinais que tinha por perto e com as quais, preparava os remédios, destacando o poder das rezas reforçando o poder de cura.

Afinal, a senhora é uma benzedeira.  Com uma singeleza ímpar, falou-nos sobre o poder da fé, fato que nos encantou. Benzeu-nos, é claro. Falou-nos sobre os remédios que obtém à sua volta, citando as cascas de árvores que são remédio, destacando o juazeiro, ao dizer tratar de árvore sagrada, visto ter sido esta árvore sob a qual Padre Cícero descansou, quando saiu do Crato, em direção a Juazeiro.

Sobre o que nos disse respeito ao poder da fé, logo mais tarde, encontramos testemunhas, quando, ao entardecer, em Aurora, enquanto passeávamos pela cidade, em dado momento, nos deparamos com uma estátua de padre Cícero, bem ao centro de uma praça.  Já era noitinha, quando circulavam por ali moradores da cidade, os quais se detinham diante da imagem, a fim de, acendendo velas aos seus pés, lhe rendendo homenagens.  Era dia 20 de setembro, aniversário da morte daquele que representava a salvação das aflições daquele povo cheio de fé.  Dia de luto, quando as pessoas mais velhas se vestem de preto, como contou-nos uma moradora da cidade. Não tardou para que, logo, as  inúmeras velas acesas, iluminassem a silhueta daquele que o povo elegeu como seu santo protetor, proporcionando-nos uma visão mágica, naquela noite, em Aurora.

Continua..

Maria Thereza Camargo, Etnofarmacobotânica, especialista em plantas medicinais na medicina popular no Brasil.  
Aristides Camargo, Arquivista, especialista em patrimônio cultural brasileiro.