Dia de Glória no Sertão Por:Márcio Costa


Dia 13 de junho de 1927, às 16h, e em meio a uma chuva fina, Mossoró ouvia os primeiros estampidos de uma guerra que entraria para a história como o início da derrocada de um dos homens mais temidos da história do país, o cangaceiro Lampião. O conflito marcado pela resistência pioneira foi antecedido por três dias de caminhada em território potiguar. Da noite de 9 para 10 de junho, os cangaceiros entraram no Rio Grande do Norte pela cidade serrana de Luís Gomes. No dia 12, chegaram ao povoado de São Sebastião, hoje Dix-sept Rosado, de onde foi enviado um bilhete para Mossoró, avisando sobre a chegada dos cangaceiros.

O jornal O Mossoroense publicou na época o bilhete na íntegra. “Cel. Rodopho, estando eu aqui pretendo é drº (dinheiro). Já foi um aviso, ai pª (para) o Sinhoris, si por acauso rezolver mi a mandar, será a importança que aqui nos pedi. Eu envito (evito) de Entrada ahi porem não vindo esta Emportança eu entrarei, ate ahi penço qui adeus querer eu entro e vai aver muito estrago, por isto si vir o drº (dinheiro) eu não entro ahi, mas nos resposte logo”. Ele assinava “Cap. Lampião”.



O prefeito Rodolfo Fernandes não aceitou a extorsão, esvaziou a cidade e montou as trincheiras para recepcionar os invasores. O bando, formado por 53 cangaceiros, não imaginava que por trás da recusa ao pagamento de 400 contos de réis estaria um exército montado por 150 homens comuns, prontos para reagir ao medo e ao terror imposto pelo temido Lampião. Não foi preciso completar a primeira hora de confronto para o capitão do sertão ter a certeza de que dominar a cidade seria praticamente impossível, mas a luta foi além.Repórter e testemunha do confronto, Lauro da Escóssia narrou nas páginas do jornal O Mossoroense: “Durante toda a noite, a detonação de armas em profusão. Parecia uma noite de São João bem festejada”.
No ataque, Lampião perdeu importantes cabras de seu bando. Colchete teve parte do crânio esfacelado por balas. E Jararaca, depois de capturado, foi praticamente enterrado vivo. O mito do Lampião invencível caíra por terra, dando ânimo à polícia, que passou a enfrentar o “rei do cangaço” com menos temor. Era o começo do declínio da carreira de Virgulino. Nesta edição especial, o jornal O Mossoroense mostra os principais detalhes desta história com uma roupagem contemporânea e abordagem de novos detalhes. Mossoró revive seu momento de glória, na resistência de um povo lembrada ao longo de décadas.
Voluntários e militares que defenderam Mossoró até hoje são lembrados como "Os Heróis da Resistência".As notícias da presença de Lampião no Oeste potiguar corriam como um rastilho de pólvora naquele período entre o final de maio e início de junho de 1927. O bando de Massilon vinha de um ataque à cidade de Apodi e juntara-se ao de Lampião com o intento de seguir para Mossoró e o prefeito Rodolfo Fernandes já tinha sido comunicado da situação.


Defensores na Mansão do Prefeito Fernandes

"A mansão do prefeito era um formigueiro humano. Todos queriam notícias. Fervilhavam falácias. A cada momento chegavam pessoas dos mais variados lugares", conta Raul Fernandes, filho de Rodolfo, no seu livro "A Marcha de Lampião". Ficou a cargo do tenente Laurentino de Morais, vindo de Natal, a organização das trincheiras que defenderiam a cidade do terrível bando, mas faltava contingente policial para o grave momento pelo qual passava a cidade naquele momento. A população resolveu, então, espontaneamente, juntar-se aos poucos militares na defesa de Mossoró. Segundo o historiador Geraldo Maia do Nascimento, quatro trincheiras foram montadas: a Trincheira de Rodolfo Fernandes, a Trincheira de Tertuliano Fernandes & amp; Cia., a Trincheira da Boca do Esgoto de Águas Pluviais e a Trincheira da Barragem.

Localizada na casa do prefeito, a Trincheira de Rodolfo Fernandes acabou sendo a que concentrou os momentos que iriam eternizar aquele ataque ao longo da história. Formadas por "altos comerciantes, figuras de destaque, funcionários públicos, trabalhadores urbanos e rurais", conforme apontamentos de Raul.

O historiador Geraldo Maia exalta a valentia dos combatentes de 1927: "Não contavam, os cangaceiros, com a fibra do povo de Mossoró. A cidade se preparou e expulsou à bala os facínoras. Esse evento constituiu-se num marco da história do cangaço". Os "Heróis da Resistência", como ficaram conhecidos os combatentes daquela fatídica noite, ganharam homenagem no frontispício de um dos principais monumentos de Mossoró, o Memorial da Resistência, e são lembrados em livros e placas pela cidade.

Capela de São Vicente

Heróis da Resistência

Manoel Duarte, Honório Ferreira, Francisco Pinto, Antonio Pinto, Manoel Arão e seus filhos: Paulino e João, José Pereira Lima e seu filho Jorge Pereira Gomes, Júlio Maia, Francisco Fernandes de Queiroz, Enedino Inácio, João Domingos, José Rodolfo Fernandes, Amaro Silva, Abel Coelho, Adrião Duarte, Francisco Vidal, Francisco Calixto e seu irmão Raymundo, Herculano Barbosa, Geraldo Dunga, Joaquim Benedicto, Rochinha Freire, Antonio Caldas, Antonio Rolim, José Grosso e José Conrado, Luiz Amâncio, Tibúrcio Silveira, Florêncio Netto, Manoel Reis, Francisco Ferreira, Cícero Pereira, Evaristo Pereira, Manoel Tonel, Raymundo Calistrato, Pedro Raymundo, Euclides Aleixo, Sinhô Bento, Manoel Serra Negra, Júlio Souza, Sebastião Raymundo, João Pedro, Antônio Alves, Manoel Pereira, José Ribeiro, João Chá e Octavio Cavalcante, Manoel Alves de Souza, Léo Teófilo e Manoel Félix, Vicente Sabóia Filho, Pedro Sílvio de Morais, Clóvis Marcelo de Araújo, Severino França, Lafaiete Tapioca, Raimundo Leão de Moura, Lourenço Menandro da Cruz, José Cordeiro, Francisco Santiago de Freitas, João Delmiro, José Tenório, José Pereira, Inácio Bispo e Pacífico de Almeida, Mirabeau Mello, Alcides Magalhães, Mário Villar de Melo, Moacir da Cunha Melo, Manoel Leandro Bezerra, Francisco P. de Souza, Laurentino de Morais, Abdon Nunes de Carvalho e João Antunes, João Arcanjo de Oliveira, Gilberto Studart Gurgel, José Furtado de Castro, Padre Motta, Cônego Amâncio Ramalho e Padre Ulisses Maranhão, Júlio Ramalho, Homero Couto, João Fernandes de Queiroz, Cornélio Mendes, José Gomes, Antônio Araújo, Eliseu Viana, Antonio Brasil, João Manoel Filho, Antônio Juvenal, João Ferreira da Silva, Luiz Chico, José Manoel e Francisco Canuto, Manoel Sabino Lima, Francisco Campos Nogueira, Sérgio Queiroz, Francisco Porto, Pedro Maia e Monte Belo, Francisco Alves Cabral, José Alves de Oliveira, José Ibiapino, Manoel Moraes, Celso Alves, Nestor Leite e Pedro Nonato, Amâncio Leite, João Damasceno, Manoel Luz, Affonso Freire, Leônidas Freire, Pedro Ferreira Leite, Lauro Leite, Francisco Negócio da Silva, Abel Chagas Filho, Tertuliano Ayres Dias, José Mathias da Costa, Severino de Aquino, Noberto de Souza Rêgo, Basílio Silva, Manoel Ferreira, Luiz Mendes de Freitas, Antônio Godeiro, Antônio Estevam, Joaquim Gregório da Silva, João Antônio de Oliveira, Leonel Pastel, David Sabino, José Abreu, 
Manoel Pedro, Ismael Siqueira.
Porque Lampião Invadiu Mossoró
Quatrocentos réis, esta foi a quantia pedida pelo cangaceiro Lampião na sua investida a Mossoró naquele 13 de junho de 1927. O valor, atualizado, equivale a algo em torno de R$ 2,8 milhões. Eis, que agora, 88 anos depois daquele dia que ficou registrado na história de Mossoró, o pesquisador e historiador Honório de Medeiros Filho levanta uma pergunta: por que Lampião invadiu Mossoró?


A pesquisa, que vai ser transformada em livro, aprofunda as pesquisas já realizadas e, segundo o pesquisador, faz questionamentos que precisam ser verificados: “No senso comum Lampião invadiu Mossoró por pura ganância. Ele veio aqui em busca de dinheiro. Isto é verdade? É. Mas isto é uma consequência da decisão que ele tomou de invadir. E esta decisão não tinha nada a ver com isto. Há uns quinze dias antes da invasão a Mossoró, quando Lampião chegou em Aurora/CE, nas terras do coronel Izaías Figueiredo, encontrou Massilon que estava voltando do ataque que havia realizado em Apodi. E este ataque, foi resultado de uma questão de natureza política. Como Massilon estava no ataque a Apodi e estava no ataque a Mossoró, ele é o elo que une as causas dos dois ataques. Então é em cima desta linha argumentativa que o meu trabalho se fundamenta”, relata o autor.


Massilon

Sem concordar com a hipótese de que o ataque tenha cunho financeiro, o historiador relaciona perguntas que diz, precisam ser respondidas para comprovar a teoria estabelecida há oito décadas: “A história da vinda de Lampião a Mossoró meramente com intuito de arrancar dinheiro, não tem o menor fundamento. Ele poderia atacar várias cidades da Paraíba, do Ceará, do Pernambuco, todas do porte de Mossoró ou um pouco menor, como Patos, Catolé, Sousa. Todas estas cidades sem passar pela possibilidade de derrota que ele passou quando atacou Mossoró.”

Quatrocentos quilômetros de uma caminhada insólita, um comércio rico, e um ataque suspeito. Entre os vários questionamentos levantados por Honório para a invasão, ele aponta que o grupo de Lampião adentrou o Rio Grande do Norte de forma incomum, o que demonstra que o rei do cangaço não estava seguro de suas ações: “Você imagine o cidadão andar quatrocentos quilômetros de distância para vir atacar uma cidade do litoral, sem conhecer a terra, sem conhecer os lugares, vindo por uma rota errada. A rota que ele pegou, contornando Martins, era de descampado e os cangaceiros jamais usavam este tipo de caminho. A grande arma dos cangaceiros era procurar proteções naturais, rochas, serras, velames e nada disto tinha no caminho”.

Honório estranha o fato de o grupo de cangaceiros, chegando a Mossoró, não ter buscado as fontes de recursos como o comércio e o próprio banco, atacando primeiramente a casa do prefeito Rodolfo Fernandes, o que deixa margem para uma conotação política para o ataque:
Honório de Medeiros e Manoel Severo

“A hipótese que eu levanto, é que Lampião foi manipulado, pois havia um projeto interno menor, capitaneado por Massilon, que era alcançar um desfecho que teve como alvo Rodolfo Fernandes. Você raciocine: se você é cangaceiro e você quer dinheiro, você vem atacar Mossoró e ataca a casa do prefeito? O comércio de Mossoró pujante como era, com banco inclusive. Eles não sabiam que o dinheiro do banco havia sido levado para Areia Branca por Joaquim Perdigão. O banco estava aí à disposição. Ao invés de invadir Mossoró pela rota natural, que era margeando o rio, como eles sempre fizeram, alcançar o centro da cidade, onde estava o comércio de Mossoró e o Banco do Brasil, onde estava o dinheiro, e eles resolvem atacar Rodolfo? Massilon queria atacar Rodolfo, tanto é que no ataque, ele entrou pelos fundos. Mandou Jararaca distrair os resistentes que estavam na frente da casa, enquanto isto, ele atacava pelos fundos da casa. O que ele não contava era com a resistência que lhe foi proposta. Então tudo isto é extremamente curioso”.

Sobre a entrada ou não de Lampião na cidade como contestam alguns, Honório relata que o Virgolino Ferreira acompanhou o ataque ao prefeito do cemitério da cidade, tentando assim, assegurar a segurança do bando. O livro “Porque Lampião Invadiu Mossoró” deverá ser lançado por Honório em outubro deste ano.

Márcio Costa

Editor-geral
FONTE:http://omossoroense.uol.com.br/index.php/o-jornal/cotidiano-mobile/67548-dia-de-gloria-no-sertao

Simpático e Gentil...O mais Temido Matador de Cangaceiro Por:Jornal da Tarde



Magro, alto, elegante, todo vestido de azul celeste, lá está o coronel Mané Neto. Se não fosse aquele Taurus 38, cano médio, na cintura, ele poderia ser definido como um velhinho simpático e indefeso. Indefeso, jamais: quando me aproximei dele, um tanto bruscamente, brecando o carro a poucos metros, a mão (fina, delicada) do coronel ameaçou puxar o Taurus da cartucheira. Mas um grito – “É jornal, coronel! É do jornal!” – guardou os reflexos do coronel para outra ocasião. Mas ele ainda desconfiou:

- Abra a porta do carro, meu filho. Vamos, desça, venha cá. Devagar.

A voz é pausada, suavíssima, é quase uma sonata. Vamos manter o simpático na definição do coronel. Ou melhor: vamos chama-lo de encantador. Mesmo quando ele, escudando-se em desculpas gentilíssimas, diz que não vai falar de homens sangrados, cabeças cortadas, atrocidades de um modo geral. Não, ele não vai falar de jeito nenhum sobre a fama dele: o mais feroz e destemido caçador de cangaceiros de que já se ouviu falar. A opinião – de ex-cangaceiros e policiais da época – é unânime. O próprio Lampião dizia dele: “Se os macacos vier sem Mané Neto é como se não fosse nada”. Ou: “Se Mané Neto chegou, precurem sarvar metade da vida que a outra já foi”. Os cangaceiros sobreviventes chegam a fazer caretas quando se toca no nome dessa gentil criatura. Segundo eles, Mané Neto jamais poupou a população civil que, supostamente, não lhe queria dar a direção de Lampião. Os colegas de Mané Neto elogiam a sua bravura, sem cair em detalhes.


Então, a gente fica sem jeito de acreditar que uma pessoa tão delicada, um velhinho de conversa agradável (ele deve estar com uns 60 e tantos anos) como este coronel de azul celeste tenha um passado tão sanguinário. Uma coisa é verdade: aquele conjunto azul celeste elegante cobre as marcas de mais de 30 balas. Daí o Taurus e o reflexo extraordinário para a sua idade. Mas por que tantas balas? Não se pode dizer que as brigadas na caatinga, entre polícia e cangaceiro, pelo menos na primeira fase, até 1928, tenham primado por geniais esquemas táticos. Era um grupo na frente do outro, atirando. É claro que, de vez em quando, um grupo ou outro armava um esquema de pegar o inimigo pela retaguarda. 

Mas será que essa obviedade pode ser chamada de tática? Muitas das 30 balas do coronel (tenente, na época) Mané Neto foram recebidas pelo fato de ele não suportar ficar agachado, atirando. Era do tipo que se levantava, de peito aberto, para xingar os inimigos com os mais tradicionais palavrões. E tome bala.A guerra entre polícia e cangaceiro tinha disso. Geralmente era o cangaceiro que se expunha, de pé, para perguntar:




- Com quem luto?
- Com Mané Neto (um exemplo)
- Então vai ser um arrocho!
E tome bala. Esses estranhos diálogos entre os inimigos chegou a certos requintes quando, em 1926, o então tenente Higino atacou um grupo usando pela primeira vez uma metralhadora. Os cangaceiros, depois do susto, gritavam:
- Nêgo safado(Higino é um tipo escuro, acaboclado), passe essa 
“costureira” pra cá!
- Venha buscar, seu filho...

O coronel Mané Neto não quer falar do passado. Nem aceita convites para fazer conferências em escolas militares. Parece que o passado lhe dói muito. Ele tem uma fazendinha em Ibimirim, no sertão pernambucano, um jipe velho, e quer o resto da vida em paz. Mesmo assim, o suave coronel reforça uma observação do jornalista pernambucano Fernando Menezes, quando se mostra muito irritado com os caminhões de carga. O jornalista observara que os caminhões que passam pelo sertão são os novos cangaceiros. Insinuantes, piscando mil luzes, enfeitados de todas as cores, dirigidos por um príncipe que conhece a fala de outras terras e gentes, os caminhões excitam e atraem as mulheres sertanejas. Aquela atração que o cangaceiro de cabelos longos, cheio de metais cintilantes e histórias heroicas, usava para conquistar as marias bonitas da época.

- Esses caminhões – diz o coronel com um toque sutil de irritação na voz - são umas desgraças. Já levaram umas dez garçonetes daqui

Jornal da Tarde - O Estado de São Paulo
Edição de 31 de julho 1973
Cortesia da divulgação - Facebook - Antonio Correa Sobrinho

Carta ao Bassetti Por:Juliana Pereira

Juliana Pereira e "Lampião - o cangaço e seus segredos"

Caríssimo amigo José Sabino Basseti. Que conversa agradabilíssima acabamos de ter... Acabei ler "Lampião - o cangaço e seus segredos" e, com toda sinceridade, da minh'alma, como gostava de dizer meu querido e amado mestre Alcino... eu adorei, gostei demais, mesmo!!! Graças a Deus, o amigo revogou sua decisão de não mais escrever. Na minha opinião, este livro tem a mesma qualidade do anterior, sendo que, a mim, parece mais uma boa conversa, entre leitor e o autor, ou seja, a sensação é de estarmos ouvindo o autor falar com toda segurança e conhecimento sobre o assunto. 

Sem adoração, sem condenação injusta, sem leviandade... Apenas e tão somente, usando da sinceridade e do conhecimento... Em síntese, O livro é fantástico!!! Só não vou dizer que estou surpresa, por eu já esperar que fosse tão bom quanto o é!!! Em algumas passagens, rolei de rir de suas tiradas, suas impressões. Amigo, destes uma aula sobre cangaço. É o tipo de livro que atende as expectativas desde o pesquisador/estudioso mais experiente ao iniciante no assunto. 

Mesa de Debates sobre Angico, no Cariri Cangaço 2010, com Antonio Amaury, Aderbal Nogueira, Sabino Bassetti, Paulo Gastão e Manoel Severo

Parabéns!!! E receba um abraço de admiração... Estou realmente festejando, feliz e animada por este trabalho tão bom, de excelente qualidade e sério. No mais, faltam-me palavras para exteriorizar quão feliz e agradecida estou por teres dedicado seu trabalho ao mais sensível, sério e dedicado pesquisador do cangaço, meu amado mestre e querido amigo Alcino Alves Costa... Agradecida estou, por certo, Ele deve tá lá no céu com aquele sorrisão doce dele, feliz por você ter concluído o livro e agradecido pela lembrança. 

Além de ser um dos maiores conhecedores do fenômeno Cangaço, Alcino era de uma elegância singular. Respeitava todas as opiniões, sem se curvar a elas. Tinha convicções declaradas, muitas delas incontestáveis, em meio a outras que ele só confidenciava a pessoas muito próximas... Diferente de muitos algures... Foi um grande amigo dos amigos. Hoje, conta seus causos no sertão celestial... Parabéns pelo excelente trabalho, amigo Bassetti. Um abraço fraterno.

Juliana Pereira, advogada, pesquisadora
Sócia do GECC e da SBEC
Conselheira Cariri Cangaço

NOTA CARIRI CANGAÇO: Sem dúvidas quero me permitir somar minhas palavras, meu sentimento e minhas impressões sobre mais essa grande obra de meu particular amigo Sabino Bassetti, ao primoroso e sincero texto de nossa Conselheira Juliana Pereira. Perfeito Juliana, perfeito Bassetti. Ficamo felizes por mais um grande presente... Nos encontramos no Cariri Cangaço ! E para quem desejar adquirir a obra, entrar em contato direto com o autor pelo email: sabinobassetti@hotmail.com

Quando Lampião Passava... Por: Rangel Alves da Costa


Não precisava nem o bando ser avistado ao longe, pois bastava alguém chegar em correria para dizer que Lampião e seus homens se aproximavam, e então tudo revirava de cabeça pra baixo. Para muitos, era a notícia mais triste de se ouvir, o anúncio mais pavoroso de se escutar, pois sabiam que a presença daquelas feras das caatingas bons rastros não iam deixam. Era um deus nos acuda, um aperreio danado, o redemoinho do medo tomando conta de tudo.
Certamente que o sertanejo temia muito mais a fama de ferocidade e violência que a real possibilidade de devastação do seu lugar e o abuso contra seu povo e até de velhos e inocentes. Não havia quem não relatasse fatos terrificantes da passagem do bando. Ainda que jamais tivessem presenciado qualquer fim de mundo, mesmo assim iam buscar no “ouvir dizer” as práticas mais medonhas e abomináveis do bando de cangaceiros.

 Arte de Carybé


O medo era inevitável. Mesmo que Lampião estivesse somente de passagem ou à localidade chegasse para um encontro com algum poderoso ou fiel amigo, nada disso impedia que a maioria da população passasse a temer pela própria vida. Ora, a fama fazia o monstro. E quando a cangaceirada despontava na curva da estrada ou de repente surgia de dentro da mataria, então o mundo inteiro se alvoroçava.

Em muitas povoações sertanejas, Lampião e seu bando chegaram e saíram sem disparar um só tiro, sem ameaçar ou olhar feio pra qualquer pessoa. Algumas vezes chegou a Nossa Senhora da Conceição do Poço Redondo, pacificamente se instalou na casa do amigo China, dividiu a mesa farta com Padre Arthur Passos, depois foi assistir missa na igrejinha de Nossa Senhora da Conceição. A cangaceirada dentro da igreja e as armas de cano longo todas do lado de fora. O padre exigiu o desarmamento total em respeito ao lugar sagrada, mas impossível conseguir que perseguidos ficassem completamente desprotegidos.

Os relatos dão conta que Lampião tinha uma predileção especial por Poço Redondo, gostava de visitá-lo e estar pelos seus arredores. Basta ver o grande número de filhos da povoação que participaram do bando e logo se terá a força dessa proximidade. Contudo, nada disso evitava que o lugarejo ficasse em polvorosa com a notícia da proximidade ou da chegada do bando. Meu pai, o saudoso escritor Alcino Alves Costa, denominou de “As Carreiras” os episódios de fuga tresloucada de grande parte dos poço-redondenses ante a presença do Capitão. 

Arte de Carybé

Como aconteceu em Poço Redondo, do mesmo modo por toda a região nordestina. A vaga informação já era motivo de preocupação desmedida, de medo e de pavor. Quanto mais a notícia ia se confirmando mais a população agonizava, ficava em tempo de enlouquecer. E quando os cangaceiros chegavam já encontravam cidades vazias, portas e janelas batendo, tudo revirado, com trouxas espalhadas pelos caminhos, pessoas correndo rumo à mataria ou qualquer lugar que garantisse salvação.

Os relatos sobre a situação de desespero sertanejo são mistos de comédia e tragédia. De um lado, o medo provocando situações inusitadas, como se esconder debaixo das camas, dentro de baús e armários, sorrateiramente subir nos telhados e lá permanecer até a tempestade passar. E de outro o desespero indescritível, a busca da fuga a qualquer custo, o sacrifício de velhos, doentes e adultos correndo levando crianças nos braços.

A fuga desesperada lembra a história bíblica da família fugindo da destruição de Sodoma. Sem poder olhar para trás para não virar estátua de sal, assim também o sertanejo que nem pensava em voltar para buscar o preá assado esquecido em cima do fogão. E também pelo medo de avistar cangaceiro em seu encalço e, igualmente a esposa de Lot, não poder mais seguir adiante.


Rangel Alves da Costa
Poeta e cronista

A Saga de Virgulino Lampião Por:Sarah Brasil


Fascinada pelas  histórias de cangaceiros  que revolucionaram o Nordeste Brasileiro, a cantora e compositora Sarah Brasil decidiu falar, em forma de música, sobre os casos mais conhecidos envolvendo o famoso cangaceiro Lampião, seu bando e seu grande amor 'Maria Bonita'. 

Durante cerca de 10 anos de pesquisa, a cantora Sarah Brasil ouviu conhecidos de Lampião e Maria Bonita, Leu alguns livros conceituados, além de visitar museus e cidades históricas, como Piranhas, onde, de acordo com historiadores, as cabeças do cangaceiro e integrantes do bando foram expostas em praça pública.

O saldo dessa pesquisa: O Cd “SAGA DE VIRGULINO FERREIRA O LAMPIÃO”. São 14 músicas com riqueza de detalhes sobre a época, enfocando a entrada de Virgulino Ferreira no cangaço, passando por suas pelejas, os dialetos, costumes, romances, momentos festivos e por fim sua morte na Grota de Angico. No CD, há a participação de vários artistas, entre eles, o músico Chambinho do Acordeon, que foi o protagonista do filme "Gonzaga, de pai pra filho", na música FORRÓ NO CANGAÇO É FUÁ retratando os momento de descontração e festa dos cangaceiros.

Sarah Brasil neste CD cultural rima com fidelidade em verso e prosa, a vida e morte de Virgulino Ferreira ,Lampião, e seu bando, que reinou no cangaço por vinte anos, tornando-se o maior cangaceiro de todos os tempos. Inspirando até os dias atuais, artesãos, repentistas, cordelistas, poetas, compositores, romancistas, cineastas e etc. Na viagem da história do Rei do Cangaço  Sarah Brasil relata a participação da mulher e sua influência, as cangaceiras mais famosas,  Cila, Dadá, Enedina, Inacinha e por fim Maria Bonita. 

A Saga de Virgulino Ferreira o Lampião por Sarah Brasil visa transformar essa história do cangaço num musical didático e de entretenimento cultural: “SAGA DE VIRGULINO FERREIRA O LAMPIÃO” Um cordel cantado.

Contatos:
(81) 8354-4237 /  9673-7021 / 3039-5361
Email: sarah_donabrasil@hotmail.com

Coronéis e Cangaceiros Por:Juliana Pereira

Cangaceiro de Jô Fernandes

Como diz o advogado e historiador Victor Nunes Leal, sem sua obra “Coronelismo, Enxada e Voto”, os coronéis foram senhores do bem e do mal. Não poderia ser diferente, posto que suas patentes foram-lhes conferidas em uma época em que o voto era censitário. Em sendo assim, o sufrágio era uma prerrogativa das elites dominantes. Patente de coronel autorizava-lhes inclusive, formar tropas provisórias em caso de conflito e esta prerrogativa foi mais um instrumento hostilizador nas mãos daqueles que usavam o poder como forma de subjugação dos menos favorecidos. Durante o período da república velha de 1889 a 1930 foi criada uma política sui generis, a famosa “política dos governadores”, dando margem à máxima do que “é dando que se recebe”. 

Este sistema político tinha seu esteio numa relação de favores que se estendia das relações entre o Presidente da República e os governadores e destes aos coronéis, que por sua vez, exerciam seus poderes sobre os trabalhadores rurais. Vale ressaltar, que estes trabalhadores rurais podiam contar com nenhuma legislação que os defendessem, sendo a parte fraca dessa cadeia vertical de mandos e desmandos, onde não lhes era permitido nenhum tipo de reivindicação, seja de natureza política ou de natureza econômica. Ainda hoje perdura em nosso sistema sociopolítico o ranço daquele coronelismo da República Velha, o mandonismo, o nepotismo e as diversas formas de apadrinhamentos continuam como se nada tivesse mudado ou evoluído. Em síntese, mudaram as peças, o jogo é o mesmo.

Paulo Gastão e Juliana Pereira

O voto ainda funciona como moeda de troca, assim como os cargos públicos, isso em todas as esferas. O Estado continua favorecendo alguns em detrimento de muitos, perpetuando-se a mesmice. Não é preciso muito esforço para perceber as ações dos novos coronéis, os que hoje habitam no meio urbano. Ora, todos nós sabemos que a indicação para um cargo público na esfera local depende e implica no apoio dado aos vencedores nas campanhas eleitorais, sejam prefeitos ou vereadores, assim como o saneamento básico, instalações de energia em distritos e as melhorias nas rodovias estaduais não acontecerá sem o aval do deputado, do governador. Cargos federais que não necessitam de concurso é inimaginável sem a indicação de deputados federais e ou senadores. 

O ciclo do mandonismo, favorecimentos e apadrinhamento, continua regendo de forma orquestrada sobre as muitas vidas desfavorecidas e necessitadas nos quatro quantos do país. A história do Brasil é repleta de fenômenos sociais de alta complexidade, com revoltas, insurreições ou complôs locais ocorrendo em todas as regiões do país. Na Republica Velha não foi diferente e no nordeste, fenômenos sociais como Guerra de Canudos e Cangaceirismo, contemporâneos do sistema político coronelista, são objetos de pesquisa de muitos pesquisadores e estudiosos. 

O cangaceirismo manteve uma relação estreita com o coronelismo, principalmente no período em que teve Virgolino Ferreira da Silva, o Lampião, como líder de bando cangaceiro. Lampião, o mais imponente dos líderes do cangaço, ainda hoje provoca muitas discussões e inquietações entre os que lhe estudam, herói para alguns, bandido para outros. O fato é que, se nos afastarmos dos conceitos engessados por parte da historiografia, donde o fanatismo, admiração ou mesmo um viés mercadológico, poderemos analisá-lo tendo como premissa o contexto social e político no qual viviam estes bandoleiros de forma mais científica e ou imparcial. Mesmo em se tratando de uma realidade sociocultural e política diferente da que vivemos, é possível tal analise, desde que façamos o esforço de nos despirmos de conceitos e preconceitos. 


O cangaço não se divorcia do contexto político vigente em sua época, muito pelo contrário, posto que estes indivíduos também se beneficiavam deste sistema político para satisfazer seus anseios. Se para alguns pesquisadores os cangaceiros eram justiceiros, do tipo Robin Hood, claro, guardando as devidas proporções, o Hobin Hood histórico, buscava resgatar a cidadania e a autonomia de seu povo, já os cangaceiros se vingavam e desmoralizavam chefes políticos, mostrando-se subversivos ao regime imposto aos seus protegidos. Porém, esta teoria cai em descrédito diante da selvageria e da violência, não só contra os donos do poder, mas todo e qualquer indivíduo que se opusesse aos seus desmandos, fossem sertanejos miseráveis ou donos de pequenas propriedades rurais. 

Não era incomum alianças destes asseclas criminosos com coronéis. O fato é que, independia do poder ou da falta de poder por parte dos sertanejos, os cangaceiros protegiam uns e massacravam outros. A moeda de troca era a confiança em lhes dar coito e ou omitir informações destes para as volantes que viviam em seu encalço. Outra teoria defendida por seus pesquisadores se acosta ao fator vingança. Seria este o motivo pelo qual muitos entravam para o cangaço ou permanecia naquela vida nômade e insegura, expostos aos mais diversos tipos de adversidades climáticas e geográficas? Porém, esta teoria também apresenta suas lacunas e falhas no que concerne às ações e atuações, nas praticas dos mais variados crimes, de assassinatos desmotivados a estupros e demais humilhações gratuitas aos sertanejos desprovidos de proteção. 

Mesmo depois de efetivadas tais vinganças “motivadoras de suas causas”, as represálias não cessavam o que descredibiliza a assertiva defendida por esta teoria. As alianças seladas na calada da noite eram alicerçadas nos interesses particulares e em comum, todos imbuídos do desejo de satisfazer suas necessidades. Nesta via de duas mãos, um protegia o outro. A vida nômade, o conhecimento geográfico e a facilidade de se deslocar na caatinga lhes favorecia em relação aos seus perseguidores. Sertanejos que moravam em fazendas ou povoados viviam em constantes sobressaltos. 

Getúlio Vargas  e o Estado Novo

As agressividades e todas as formas de violência empregadas tanto pelos cangaceiros quanto pelo o Estado representado pela volante, eram desmedidas, ninguém vivia em segurança e o medo de terem suas vidas ceifadas por uma das “facções”, reinava absoluto. Não se podia medir quem era mais violento, se os ditos “bandidos” ou os que deveriam protegê-los oferecendo-lhes segurança e conforto. Uma vez alcançado, o status de valentes e temidos deveria ser mantido a todo custo, mesmo que o preço fosse o sangue das inúmeras vidas ceifadas sertão a fora. Assim, a política do medo assolava boa parte do nordeste, enquanto o banditismo social se impunha e se beneficiava sobre as fragilidades de um povo sem proteção e esquecido pelos governantes. 

O cangaceirismo foi um fenômeno social tão complexo, que estudá-lo com o objetivo de rotular seus participantes como heróis ou bandidos, será incorrer em um erro crasso. Podemos até admitir traços de heroísmo quando estes se opunham aos desmandos do inimigo, mesmo este sendo poderoso como o Estado, que além se persegui-los causavam dores e sofrimentos às camadas mais miseráveis, assim como percebemos também os traços criminosos, estes mais delineados e acentuados, quando das práticas de assaltos, estupros, assassinatos, castrações, humilhações e demais formas de violência que se possa praticar contra outro ser humano. 

Estigmatizá-los ou vangloriá-los com certeza não será o caminho mais propício para uma análise mais honesta deste fato histórico. Se o objetivo de alguns pesquisadores é encontrar os heróis deste período, com certeza estão buscando de forma equivocada, pois se houve heroísmo neste contexto, sem sombra de dúvidas não foram os que causaram o sofrimento, mas as vítimas destes. Foram os homens e mulheres perseguidos, assassinados, subjugados, vilipendiados e massacrados pela medição de força entre Estado e Cangaceiros. 

Juliana Pereira, Manoel Severo, Cristina Amaral e Ana Lúcia no Cariri Cangaço Princesa

O fim do Republica Velha e nascimento do Estado Novo, trouxe consigo mudanças nas relações políticas onde o Estado, com o intuito de mostrar-se mais sério, eficaz e eficiente, intensifica a perseguição aos cangaceiros, bem como aos seus aliados, os coronéis. A elite oligárquica, representada pelos getulistas, não aceita nenhuma forma de oposição ao poder estatal. Acostumados ao sistema político da troca de interesses, tanto os cangaceiros quanto os coronéis foram atingidos pelo novo sistema implantado pelo o Estado Novo. 

Tanto um quanto o outro foram enfraquecidos pela estrutura arrojada e determinada dos novos governantes, os novos donos do poder. Tanto o apogeu quanto o declínio do coronelismo ocorreram concomitante ao também apogeu e declínio do cangaço. Ambos tiveram interesses em comum, assim como tiveram como causa de erradicação o mesmo algoz, o Estado. Claro, o fim do coronelismo rural não significa o fim das práticas coronelistas, estas perduram ao longo do tempo e podem se sentir ainda nos dias atuais. Em síntese, não podemos omitir ao menos o fato de que fazemos parte de um país que, mesmo tendo evoluído em algumas, áreas ainda somos uma nação atrasada, carente de heróis, que fecha os olhos diante dos absurdos impostos pelos governantes nas diversas esferas. Preferimos uma posição mais cômoda, ser livres, contestadores e reivindicadores dos direitos conferidos pela constituição é inimaginável, somos naturalmente pacíficos e passivos, a síndrome de colonizados ainda nos persegue. 

Se hoje não existem mais os coronéis de patentes figurativas, conferidas pelo Estado, temos nossos políticos, empresários e empregadores que ditam as regras. Se não temos mais cangaceiros de bornal espalhados pelas caatingas, assolando os sertões com suas ações criminosas, hoje temos traficantes e quadrilhas espalhando as mais diversas formas de miséria e degradação humana, das drogas oferecidas nas portas das escolas ao poder paralelo ao do Estado. Não podemos esquecer o tráfico de influencias perverso. Infelizmente esta carência de heróis naturais nos leva a forjá-los. 

" escrevi este texto a pedido de Alcino, que uma vez indagou-me sobre o que eu pensava sobre a relação entre cangaceiros e coronéis..."

Tratamos jogadores de futebol milionários como deuses, heróis nacionais. Endeusamos políticos, artistas e esportistas. Enquanto isso, professores e demais trabalhadores vivem com salários miseráveis, e são desrespeitados todos os dias, milhares de mães e pais sofrem dores na alma ao verem seus filhos passarem as mais diversas privações. Milhares de idosos que trabalharam a vida toda vivem de forma miserável em todo país. Estes não são nossos heróis, são apenas indigentes.

Juliana Pereira, advogada, pesquisadora
Membro do Conselho do Cariri Cangaço
Sócia do GECC e SBEC

Padre Cícero de Lira Neto Por:Honório de Medeiros


Concluída a leitura de “Padre Cícero”, do escritor cearense Lira Neto, cujo subtítulo é “Poder, Fé e Guerra no Sertão”, Companhia das Letras - “um tijolo” - como diz Aluísio Lacerda, passo a recomendá-lo vivamente aos amigos leitores do blog.

Lira Neto foi, para mim, uma grande e agradável surpresa. Nascido em Fortaleza, Ceará, 1963, já abocanhou o Jabuti em 2007, na categoria “melhor biografia” por “O Inimigo do Rei: Uma Biografia de José de Alencar”. Também escreveu “Maysa: Só Numa Multidão de Amores”, e “Castello: A Marcha para a Ditadura”. Não os li, mas que prometem, prometem. E, claro, escreveu a excepcional biografia de Getúlio Vargas, mas essa é outra história. Duvido que os outros sejam tão bons quanto “Padre Cícero”. Tão bons quanto, assinalo.

Lira Neto

Primeiro por que é muito bem escrito: a leitura é muito agradável, flui fácil, o texto é envolvente; segundo por que a reconstituição histórica, inclusive em termos fotográficos, é primorosa; e terceiro, mas, não, por fim, é impressionante a dimensão do personagem principal e daqueles “secundários”, como é o caso do Dr. Floro Bartolomeu, baiano, médico, garimpeiro, político, ferrabrás, a “alma negra” do Padre Cícero, ou mesmo da Beata Maria de Araújo, negra, analfabeta, protagonista do “milagre do Juazeiro”, que consistiu em cuspir hóstias transformadas em sangue, quando da Comunhão.

A Beata, que até palmatoradas tomou do Vigário do Crato, e foi exilada durante anos de sua Juazeiro natal por ordem da Igreja, também entrava em êxtase e apresentava os estigmas de Cristo, ao mesmo tempo em que se banhava de sangue para logo depois “acordar” limpa e sem qualquer marca no corpo – fenômenos constatados por padres e médicos.

Mas há outros personagens menores sumamente interessantes: o que dizer do Conde Adolphe Achille van den Brule, ex-camareiro do Papa Leão XIII, companheiro e sócio de Floro Bartolomeu, que se apaixonou por uma Juazeirense e, mesmo sendo casado na Europa e lá tendo deixado dois filhos, casou-se novamente no Cariri, nele fincou raízes e nunca mais voltou?

Paulo Gastão, Honório de Medeiros, Luitgard Barros, Carlos Santos e Franklin  Jorge em Juazeiro do Norte, Cariri Cangaço 2013

Além dos personagens, alguns fatos históricos relatados na obra chamam a atenção, como a tomada do poder central, em Fortaleza, pelos coronéis do Cariri tendo, à frente, Floro Bartolomeu e um exército de cangaceiros, jagunços, romeiros e devotos de Padre Cícero, todos pelo “padim” abençoados? Revolta que derrubou, na ponta do fuzil, o Governador Franco Rabelo, amado pelos fortalezenses, e, de permeio, matou o nosso Capitão José da Penha, que com ele se solidarizara?

O livro deixa algumas interrogações no ar: qual o passado de Floro Bartolomeu e o fim do Conde van den Brule? Por outro lado demonstra, à exaustão, como a incompetência da Igreja Oficial, externada, principalmente, dentre outros, por intermédio do Segundo Bispo do Ceará Dom Joaquim José Vieira. Preconceito, racismo, intransigência, autoritarismo, alheamento, burrice, tudo isso serviu como combustível de primeira grandeza para alimentar o incêndio fanático no qual se transformou Padre Cícero.


E o quê dizer de Padre Cícero? Nada. É preciso ler o livro. Entretanto é possível ter uma noção de sua sabedoria tomando conhecimento de seu catecismo ecológico, vazado lá pelos idos da virada do século XIX para o XX, e distribuído com os agricultores:

“Não toquem fogo no roçado nem na caatinga; não cacem mais e deixem os bichos viverem; não criem o boi nem o bode soltos; façam cercados e deixem o pasto descansar para se refazer; não plantem em serra acima, nem façam roçado em ladeira muito em pé: deixem o mato protegendo a terra para que a água não a arraste e não se perca a sua riqueza; façam uma cisterna no oitão de sua casa para guardar água da chuva; represem os riachos de cem em cem metros, ainda que seja com pedra solta; plantem cada dia pelo menos um pé de algaroba, de caju, de sabiá ou outra árvore qualquer, até que o Sertão todo seja uma mata só; aprendam a tirar proveito das plantas da caatinga, como a maniçoba, a favela e a jurema; elas podem ajudar vocês a conviverem com a seca. Se o sertanejo obedecer a estes preceitos, a seca vai aos poucos se acabando, o gado melhorando e o povo terá sempre o que comer; mas, se não obedecer, dentro de pouco tempo o Sertão vai virar um deserto só.” Enfim, uma grande obra. Para ser lida ou para ser estudada. Ou ambas, nada impede.

Honorio de Medeiros
Mestre em Direito; Professor de Filosofia do Direito da Universidade Potiguar (Unp); Assessor Jurídico do Estado do Rio Grande do Norte; Advogado (Direito Público); Ensaísta.Pesquisador e Escritor; Conselheiro Cariri Cangaço
Fonte:http://honoriodemedeiros.blogspot.com.br/

Aurora promove FESTAC 2015


A Secretaria de Cultura e Turismo de Aurora sob os auspícios da gestão municipal promove na noite da próxima sexta-feira; 12 de junho; a 3ª edição do Festival Municipal de Artes Cênicas de Aurora - Festac 2015. O evento acontece na plataforma da antiga estação ferroviária - patrimônio histórico da cidade - que neste ano completará 95 anos de existência.  A Secult-Aurora, na ocasião fará uma homenagem simbólica pela passagem do aniversário da velha estação da RVC.

Vários grupos de teatro amador de Aurora participarão do festival, sendo que a abertura oficial será feita pela companhia de teatro Anjos da Alegria  da cidade do Crato com a apresentação da consagrada peça: Animartes. Conforme a secretaria de cultura, cada grupo local receberá um cachê de quinhentos reais e mais um troféu pela participação, além de certificados que serão fornecidos a todos os integrantes dos grupos teatrais.

Prefeito Adaílton Macedo e Secretário Jose Cicero prestigiando o Festac 2014 em Aurora

O Festac 2015 assim como aconteceu nas edições anteriores conta também com o apoio do Centro Cultural Banco do Nordeste. "Não temos dúvida de que o Festac este ano será mais uma vez coroado de muito sucesso, dada a participação maciça da nossa população que adora espetáculos teatrais encenados pelos artistas amadores da nossa terrinha", disse o secretário da pasta o prof. José Cícero. 

Uma das principais razões para que o Festac venha recebendo todo o apoio necessário por parte da gestão municipal a frente o prefeito Adailton Macedo que, aliás, tem acompanhado de perto todas as apresentações durante as edições passadas, disse. Bastante concorrido o Festival de teatro de Aurora, há muito que já constitui um dos mais esperados eventos culturais da região e que por isso mesmo compõe parte especial do calendário festivo-cultural  do município. A secretaria de cultura, por isso espera contar mais uma vez com a grande participação da comunidade local.

Da Redação do Blog da Aurora e da Secult.
http://blogdaaurorajc.blogspot.com.br/