Feira de Cabeças Por: Aurélio Buarque de Holanda


De latas de querosene mãos negras de um soldado retiram cabeças humanas. O espetáculo é de arrepiar. Mas a multidão, inquieta, sôfrega, num delírio paredes-meias com a inconsciência, procura apenas alimento à curiosidade. O indivíduo se anula. Um desejo único, um único pensamento, impulsa o bando autômato. Não há lugar para a reflexão. Naquele meio deve de haver almas sensíveis, espíritos profundamente religiosos, que a ânsia de contemplar a cena macabra leva, entretanto, a esquecer que essas cabeças de gente repousam, deformadas e fétidas, nos degraus da calçada de uma igreja.
Cinco e meia da tarde. Baixa um crepúsculo temporão sobre Santana do Ipanema, e a lua crescente, acompanhada da primeira estrela, surge, como espectador das torrinhas, para testemunhar o episódio: a ruidosa agitação de massas que se comprimem, se espremem, quase se trituram, ofegando, suando, praguejando, para obter localidade cômica, próximo do palco.

Aurélio Buarque de Holanda

Desenrola-se o drama. O trágico de confunde com o grotesco. Quase nos espanta que não haja palmas. Em todo caso, a satisfação da assistência traduz-se por alguns risos mal abafados e comentários algo picantes, em face do grotesco. O trágico, porém não arranca lágrimas. Os lenços são levados ao nariz: nenhum aos olhos. A multidão agita-se, freme, sofre, goza, delira. E as cabeças vão saindo, fétidas, deformadas, das latas de querosene - as urnas funerárias -, onde o álcool e o sal as conservam, e conservam mal. Saem suspensas pelos cabelos, que, de enormes, nem sempre permitem, ao primeiro relance, distinguir bem os sexos. Lampião, Maria Bonita, Enedina, Luiz Pedro, Quinta-Feira, Cajarana, Diferente, Caixa-de-Fósforo, Elétrico Mergulhão...

- As cabeças!

- Quero ver as cabeças!
Há uma desnorteante espontaneidade nessas manifestações.
- As cabeças. Não falam de outra coisa. Nada mais interessa. As cabeças.
- Quem é Lampião?
Virgulino ocupa um degrau, ao lado de Maria Bonita. Sempre juntos, os dois.
- Aquela é que é Maria Bonita? Não vejo beleza...
O soldado exibe as cabeças, todas, apresenta-as ao público insaciável, por vezes uma em cada mão. Incrível expressão de indiferença nessa fisionomia parada. Os heróis de tantas sinistras façanhas agora desempenham, sem protesto, o papel de S. João Batista...

Sujeitos mais afastados reclamam:

- Suspende mais! Não estou vendo, não!
- Tire esse chapéu, meu senhor! - grita irritada uma mulher.
O homem atende.

- Agora, sim.

A pálpebra direita de Lampião é levantada, e o olho cego aparece, como elemento de prova.
Velhos conhecidos do cangaceiro fitam-lhe na cabeça olhos arregalados, num esforço de comprovação de quem quer ver para crer.
- É ele mesmo. Só acredito porque estou vendo.
Houve-se de vez em quando:
- Mataram Lampião... Parece mentira!
Virgulino Ferreira, o rei do cangaço, o "interventor do sertão", o chefe supremo dos fora-da-lei, o cabra invencível, de corpo fechado, conhecedor de orações fortes, vitorioso em tantos recontros, - Virgulino Ferreira, o Capitão Lampião, não pode morrer.
E irrompe de várias bocas:
- Parece Mentira!

Cabeças nas escadarias da Prefeitura de Piranhas


No entanto é Lampião que se acha ali, ao lado de Maria Bonita, junto de companheiros seus, unidos todos, numa solidariedade que ultrapassou as fronteiras da vida. É Lampião, microcéfalo, barba rala, e semblante quase doce, que parece haver se transformado para uma reconciliação póstuma com as populações que vivo flagelara.


Fragmentos de ramos, caídos pelas estradas, durante a viagem, a caminhão, entre Piranhas e Santana do Ipanema, enfeitam melancolicamente os cabelos de alguns desses atores mudos. Modestas coroas mortuárias oferecidas pela natureza àqueles cuja existência decorreu quase toda em contato com os vegetais - escondendo-se nas moitas, varando caatingas, repousando à sombra dos juazeiros, matando a sede nos frutos rubros dos mandacarus.


Fotógrafos - profissionais e amadores - batem chapas, apressados, do povo, e dos pedaços humanos expostos na feira horrenda. Feira que , por sinal, começou ao terminar a outra, onde havia a carne-de-sol, o requeijão de três mil-reis o quilo, com o leite revendo, a boa manteiga de quatro mil reis, as pinhas doces, abrindo-se de maduras, a dois mil-reis o cento, e as alpercatas sertanejas, de vários tipos e vários preços.

Ao olho frio das codaques interessa menos a multidão viva do que os restos mortais em exposição. E, entre estes, os do casal Lampião e Maria Bonita são os mais insistentemente forçados. Sobretudo o primeiro.


O espetáculo é inédito: cumpre eternizá-lo, em flagrantes expressivos. Um dos repórteres posa espetacularmente para o retratista, segurando pelas l=melenas desgrenhadas os restos de Lampião. Original. Um furo para "A Noite Ilustrada".

Lembro-me então do comentário que ouço desde as primeiras horas deste sábado festivo: -"Agora todo o mundo quer ver Lampião, quer tirar retrato dele, quer pegar na cabeça...Agora..." Há, com efeito, indivíduos que desejam tocar, que quase cheiram a cabeça, como ansiosos de confirmação, por outros sentidos, da realidade oferecida pela vista.


Desce a noite, imperceptível. A afluência é cada vez maior. Pessoas do interior do município e de vários municípios próximos, de Alagoas e Pernambuco, esperavam desde sexta-feira esses momentos de vibração. Os dois hoteis da cidade, literalmente entupidos Cheias as residências particulares - do juiz de direito, do prefeito, do promotor, de amigos dessas autoridades. Para muitos, o meio da rua.

Entre a massa rumorosa e densa não consigo descobrir uma só fisionomia que se contraia de horror, boca donde saía uma expressão, ainda que vaga, de espanto. Nada. Mocinhas franzinas, romanescas, acostumadas talvez a ensopar lenços com as desgraças dos romances cor-de-rosas, assistem à cena com uma calma de cirurgião calejado no ofício. Crianças erguidas nos braços maternos espicham o pescoço buscando romper a onda de cabeças vivas e deliciar os olhos castos na contemplação das cabeças mortas.
E as mães apontam:
- É ali, meu filho. Está vendo?
Alguns trocam impressões;
- Eu pensava que ficasse nervoso. Mas é tolice. Não tem que ver uma porção de máscaras.

- É isso mesmo.

Cabeças de Lampião e Maria Bonita

Os últimos foguetes estrugem nos ares. Há discursos. Falam militares, inclusive o chefe da tropa vitoriosa em Angico. Evoca-se a dura vida das caatingas, em rápidas e rudes pinceladas. O deserto. As noites ermas, escuras, que os soldados às vezes iluminam e povoam com as histórias de amor por eles sonhadas - apenas sonhadas... Os passos cautelosos, mal seguros sobre os garranchos, para evitar denunciadores estalidos, quando há perigo iminente. Marchas batidas sob o sol de estio, em meio da caatinga enfezada e resseca, e da outra vegetação, mais escassa, que não raro brota da pedra e forma ilhotas verdes no pardo reinante: o mandacaru, a coroa-de-frade, a macambira, a palma, o rabo-de-bugio, facheiro, com o seu estranho feitio de candelabro. A contínua expectativa de ataque tirando o sono, aguçando os sentidos.
O sino toca a ave-maria. Dilui-se-lhe a voz no sussurro espesso da multidão curiosa, nos acentos fortes do orador, que, terminando, refere a vitória contra Lampião, irrecusavelmente comprovada pelas cabeças ali expostas.


Os braços da cruz da igrejinha recortam-se, negros, na claridade tíbia do luar; e na aragem que difunde as últimas vibrações morrediças do sino vem um cheiro mais ativo da decomposição dos restos humanos.
Todos vivem agora, como desde o começo do dia, para o prazer do espetáculo. As cabeças!


A noite fecha-se. Em horas assim, seriam menos ferozes os pensamentos de Lampião. O seu olhar se voltaria enternecido para Maria Bonita. Que será feito dos corpos dissociados dessas cabeças? O rosto de Maria Bonita, esbranquiçado a trechos por lhe haver caído a epiderme, está sinistro. Onde andará o corpo da amada de Lampião? A cara arrepiadora, que mal entrevejo à luz pobre do crescente, não me responde nada. E Lampião? Sereno, grave, trágico. O olho cego, velado pela pálpebra, fita-me. (1938).


Postado no Grupo Lampião Cangaço e Nordeste
(*) Autor do mais importante dicionário da língua portuguesa publicado no Brasil neste século. Texto do livro esgotado "O chapéu de meu pai, editora Brasília, 1974.


Fonte:Diário Oficial -Estado de Pernambuco-Ano IX - Julho de 1995

Material cedido pelo escritor, poeta e pesquisador do cangaço:
Kydelmir Dantas

Conteúdo Cultural Por:Pedro Nunes Filho

Pedro Nunes Filho

Cariri Cagaço é um blog que possui um conteúdo cultural muito valioso. Sem ele, parte da nossa história regional haveria de desaparecer e nunca mais seria recuperada. À medida que as antenas parabólicas levam para dentro das casas dos sertanejos que moram nos recantos mais longínquos, e por isso mesmo eles são detentores de traços culturais primitivos reveladores das nossas origens ibéricas e da influência judaica, esses valores de fora não haverão de se sobrepor aos nossos, se divulgarmos, como o Cariri Cangaço faz, o que temos de singular. Além de neutralizar essa influência de culturas distantes, esse esforço cultural cria um senso de pertinência sem igual. As pessoas passam a valorizar e ter orgulho do que é nosso.

"Eu nasci aqui e aqui é minha terra. O lugar onde aprendi a cultivar os valores que compõem a minha personalidade."" 

Quando escrevi o livro GUERREIRO TOGADO procurei ir fundo na pesquisa, lí muitos autores antigos, entrevistei muita gente que se foi e que valiam um tesouro. Mais que um livro que trata de um aspecto da história do Cangaço, é um modesto esforço de preservação cultural.

Pedro Nunes Filho
Pesquisador e Escritor
Autor de "Guerreiro Togado"

Que Foto é Esta ? Por: Sálvio Siqueira

Jornal do Recife
Infelizmente os jornais escritos, veículos de comunicação de maior extensão nos idos tempos do cangaço, usavam de falcatruas e outras ideias, afim de 'vender' seu produto. Na prisão do chefe cangaceiro Antônio Silvino, Manoel Batista de Moraes, não foi diferente. Após ter sido baleado na altura do tórax, parte posterior e lateral direita, o "Rifle de Ouro", chega a decisão de que chegou o momento de sair de cena...

Procurando a casa de um 'amigo', coiteiro, ele manda que o mesmo vá chamar a força policial para que ele se entregue.O comandante dessa força, na época, era o Alferes Theófhanes Ferraz Torres, prisão essa que lhe deu a promoção para Tenente. Fazendo parte da tropa, além dos Praças, o sargento José Alvino, o qual sua família tinha sido vítima das ações do bando do cangaceiro, queria terminar o 'serviço' naquele instante, porém, contam os pesquisadores, que fora impedido pelo Alferes.
Matéria de capa do "Jornal do Recife", ODYSSÉA DE UM BANDIDO - A PRISÃO DE ANTÔNIO SILVINO - "o destemido Theófhanes e seus companheiros de armas".

Muitas fotografias foram tiradas e recortadas por outros, mudando sua forma íntegra, com propósito que sabemos bem quais...Os registros das capturas fotográficas que veremos abaixo, mostram a realidade e a não realidade de como foi 'criado' certos 'furos jornalísticos'. Há, na maioria das informações sobre esse registro, citações de que seja o Grupo de Cangaceiros de Antônio Silvino...

mostraremos que não, que são seus capturadores, inclusive os dois comandantes, O Alferes e o sargento, ladeando o grupo...Em conversas com alguns amigos e amigas, comentários que fiz em determinada matéria, sobre a realidade da foto, quase que retiram meu couro...mas eu tinha a foto no inteiro, eu sabia o que estava dizendo, porém, na ocasião, resolvi ficar calado, prevendo fazer uma matéria sobre ela... E chegou o momento. É chegada a hora...

Então, quando citarem o recorte dessa foto, não mais dirão que trata-se do grupo de cangaceiros de Antônio Silvino e sim da Força Policial que o prendeu. Mistério desvendado... 

O 'erro' inicia-se em uma foto do periódico "O Malho", quando o mesmo posta a foto citada, só que 'recortada'. Ou já a obtiveram com o recorte ou fora feito por ele. a parti de então, haja citações controversas sobre a dita imagem. O periódico citado, citando a foto, ou melhor, quem na foto encontra-se, suas imagens, escreve em seu rodapé, o nome do Alferes Theófhanes, que encontra-se de um lado, e do sargento Alvino do outro. No entanto, não notamos a 'presença' desses dois personagens no registro. Ha não ser em 'quadros' na dita matéria.

A partir daí, começa minha pesquisa. Vários e vários foram os dias e noites, a 'visitar' sites, sítios e blogs a procura de desvendar o 'porquê', ou os porquês... tinha que haver algo. Por fim a encontro... Vejam meus amigos(as), que na maioria das vezes, vemos apenas quatro pessoas em pé e três agachadas, quando na verdade são seis pessoas em pé e três agachadas. Do lado esquerdo de quem olha a foto, encontra-se Theófhanes Tores, o Alferes, e, na outra extremidade, o sargento José Alvino... A terceira pessoa, muito se parece com o chefe cangaceiro, com uma arma, se trata-se dele, com certeza, foi apenas para posar para a captura... isso se tratar-se de Manoel Batista.

Sálvio Siqueira 
Ofício das Espinguardas
Foto Jornal do Recife

Não Sou Cangaceiro por Motivos Geográficos Por:Rubem Braga

Rubem Braga
Leiam, meus amigos, esta crônica do grande escritor brasileiro, Rubem Braga, extraída do seu livro “O Conde e o Passarinho”, a respeito de LAMPIÃO, escrita em 1935, quando ainda vivo o famanaz bandoleiro dos sertões nordestinos. Teria o Capitão Virgulino Ferreira da Silva, por um acaso, lido esta sua tradução? 
Antonio Corrrea Sobrinho

Erguerei hoje minha débil voz para louvar o sr. Getúlio Vargas. Aprovo de coração aberto o veto que ele deu a uma lei que mandava abrir um crédito de 1.200 contos para a campanha contra o cangaceirismo. O presidente vetou porque não há recursos, isto é, por falta de dinheiro. Eu vetaria por amor ao cangaço.


Lampião, que exprime o cangaço, é um herói popular do Nordeste. Não creio que o povo o ame só porque ele é mau e bravo. O povo não ama à toa. O que ele faz corresponde a algum instinto do povo. Há algum pensamento certo atrás dos óculos de Lampião; suas alpercatas rudes pisam algum terreno sagrado.

Bárbaro, covarde ele é. Dizem que conseguiu ser tão bárbaro e covarde como a polícia – a polícia que o persegue em todas as fronteiras. Mas é preciso lembrar que ele está sempre em guerra: e na guerra como na guerra. Retirai de seu aconchego doce qualquer de nossos ilustres e luxuosos generais; colocai-o à frente de um bando, mandai-o lutar uma luta rude, dura, de morte, através dos dias, das semanas, dos meses, dos anos. Ele se tornará também bárbaro e covarde.
A Arte de Manoel Perigo Neto

O cangaço não é um acidente. É uma profissão. Nasce, vive e morre gente dentro dessa profissão. O tempo corre. Filhos de cangaceiros são cangaceiros, serão pais de cangaceiros. Eles não estão organizados em sindicatos nem em associações recreativas: estão organizados em bandos.

Ora, a vida do cangaço não pode ser muito suave. É uma vida cansativa e dura de roer. Quando centenas de homens vivem essa vida, é preciso desconfiar que não o fazem por esporte nem por excesso de “maus instintos”.
O cangaceiro é um homem que luta contra a propriedade, é uma força que faz tremer os grandes senhores feudais do sertão. Se alguns desses senhores se aliam aos cangaceiros, é apenas por medo, para poderem lutar contra outros senhores, para garantirem a própria situação. 
Ora, para as massas pobres e miseráveis da população do Nordeste, a ação dos cangaceiros não pode ser muito antipática. E é até interessante.

As atrocidades dos cangaceiros não foram inventadas por eles, nem constituem monopólio deles. Eles aprenderam ali mesmo, e em muitos casos, aprenderam à própria custa. De resto, a acreditar no que José Jobim, um rapaz jornalista, escreveu em “Hitler e Seus Comediantes”, agora em segunda edição, os cangaceiros são anjinhos ao lado dos nazistas.


Os métodos de Lampião são pouco elegantes e nada católicos. Que fazer? Ele não tem tempo de ler os artigos do sr. Tristão de Athayde, nem as poesias do sr. Murilo Mendes. É estúpido, ignorante. Mas se o povo o admira é que ele se move na direção de um instinto popular. Dentro de sua miséria moral, de sua inconsciência, de sua crueldade, ele é um herói – o único herói de verdade, sempre firme. A literatura popular, que o endeusa, é cretiníssima. Mas é uma literatura que nasce de uma raiz pura, que tem a sua legítima razão social e que só por isso emociona e vale.

Vi um velho engraxate mulato, que se babava de gozo lendo façanhas de Antônio Silvino. Eu percebi aquele gozo obscuro e senti que ele tinha alguma razão. Todos os homens pobres do Brasil são lampiãozinhos recalcados: todos os que vivem mal, comem mal, amam mal. Dar 1.200 contos para combater o herói seria uma tristeza. Eu, por mim (quem está falando e suspirando aqui é o rapazinho mais pacato do perímetro urbano), confesso que as sortidas de Lampião me interessam mais que as sortidas do ser Antônio Carlos.

Não sou cangaceiro por motivos geográficos e mesmo por causa de meu reumatismo. Mas dou àqueles bravos patrícios o meu inteiro apoio moral – ou imoral, se assim o preferis, minha ilustre senhora.

Rio, fevereiro de 1935.
Cortesia da Indicação
Antonio Correa Sobrinho

Padre Cícero e Virgulino ? Por:Manoel Severo

Padre Cícero Romão Batista

Padre Cícero e Virgulino Ferreira ? Sobre essa ligação, apesar de não me considerar devidamente credenciado, permitam-me fazer algumas reflexões sobre o referido episódio da visita de Virgulino Ferreira a Juazeiro do Norte. 

Poderia começar provocando e ressaltando alguns pontos dentro do contexto da época. Juazeiro já era considerado naquele momento um grande centro desenvolvimentista da região, tanto pela presença da figura carismática de Padre Cícero, como pela projeção política que alcançou a partir das articulações do próprio Floro Bartolomeu, daí ser um ponto forte e vital para o governo central na luta contra a Coluna Prestes. Na minha maneira de ver, Padre Cícero em nenhum momento cogitou a convocação, convite, ou coisa que o valha, com relação a Virgulino Lampião fazer parte dos Batalhões Patrióticos, sob o comando de Floro e formado para defender o sul do Ceará contra a referida Coluna.

Penso que o grande articulador do convite a Lampião foi mesmo Floro Bartolomeu; médico baiano, deputado federal sob as benção de padre Cícero e que via na figura do líder cangaceiro um trunfo a mais para suas hostes, já enormemente formada por jagunços, cangaceiros, pistoleiros e tudo o que de pior havia por aquelas terras secas do sertão. Floro chegou a ter sob seu comando um grupo de mais de 500 homens, e Lampião, a meu ver, seria uma "jogada de mestre"; ao mesmo tempo imprimiria simbolicamente mais força à sua trôpega tropa e criava uma condição mais favorável para que o líder da família Ferreira pudesse criar menos problemas.


Padre Alencar Peixoto e Floro Bartolomeu

"Floro Bartolomeu, era um médico de Salvador que morou 18 anos em Juazeiro. Ele sempre seguiu a orientação política dos gaúchos. Em 1914 na Sedição de Juazeiro teve o apoio do senador Pinheiro machado, Hermes da Fonseca e em 1926 contava com o prestigio do general Setembrino de Carvalho. A sua lealdade aos gaúchos lhe valeu o titulo de General honorário do Exercito Brasileiro." Ressalta o pesquisador Antonio Pereira Cariry e continua:
"Em tempo essa sua reflexão sobre a estada do rei dos cangaceiros na cidade do Padre Cícero. Havia me dedicado a pesquisa da Sedição de Juazeiro que finalmente conclui a parte de pesquisa e já estou investigando os fatos narrados e obscuros ocorridos em 1926. A vinda de Lampião a Juazeiro acontece no momento crucial da vida de Floro Bartolomeu condenado à morte por uma facção política local liderada pelos "filhos da terra" e alguns adventícios que não comungavam com o prestigio político do médico do padre Cícero, entre eles o turco Benjamin Abraão. A verdade é que havia um plano macabro para o fim de Lampião em Juazeiro. A noticia da morte de Floro no Rio de Janeiro abortou o plano dos "filhos da terra". Há muito mistério e pouco se fala deste tema dentro do Juazeiro".

O fato é que nada disso aconteceu. Floro acabou morrendo no dia em que Lampião visitava Juazeiro do Norte, em março de 1926; dessa forma, a "batata quente" acabou caindo nas mãos de Padre Cícero. Com certeza e digo com muita segurança, padre Cícero sabia o que estava sendo tramado; nada ou quase nada acontecia no nordeste sem quem o santo do Juazeiro soubesse; assim, me parece que devido às circunstâncias, o padre não teria conseguido dissuadir a Floro, e ao mesmo tempo talvez esperasse que a empreitada não se confirmasse, daí alguns autores falarem de sua surpresa com a chegada do rei do cangaço em Juazeiro do Norte.

Padre Cícero e Abraão Benjamim

Sálvio Siqueira revela:"Com certeza, nada se passava no Ceará e região, no Nordeste mesmo, em termos de política, sem que o Padre Cícero soubesse. Claro que a carta/convite encaminhada para Lampião foi redigida e encaminhada pelo próprio Floro Bartorlomeu. Mas, após o envio, adoeceu e teve que ir tratar-se na Capital do País, na época, Rio de Janeiro, onde vai a óbito. Floro, com suas ligações, essas devido sua aproximação ao Padre, recebe uma soma muito alta para 'criar' o Batalhão Patriótico na Juazeiro do Norte, do Governo Federal. O acordo ficou em torno de Mil Contos de Réis, desculpem não saber escrever o valor em cifra, e como primeira parcela, ele recebe quinhentos contos de réis. Com todo o gasto, soldos, construção(reforma), alimentação, material bélico, etc e etc., a quantia acaba... Na sequência, o governo cearense, que apoiava Floro( Padre Cícero) cai. Perdendo esse 'trunfo' na manga, as coisas começam a escacear para o lado de Floro, que fica sem receber a outra metade, os outros quinhentos contos em atraso. Acreditamos que um dos motivos foi que algum órgão do Governo Federal abre investigação do porquê do envio de tão alta quantia para o Ceará, mais especificamente, para Juazeiro, e assim, a outra parte nunca foi enviada".
"Na leitura de autores da grandeza e credibilidade, como Francisco Teixeira e Lira Neto, eu entendo que, nas entrelinhas desse fato histórico, o Padre era consciente da dimensão do seu prestígio político e religioso, e ele, unicamente ele, poderia ter reprovado a articulação do Floro, e mais ainda, pela veneração do Lampião ao Padre, não vejo em momento algum, a ousadia de Virgulino em pressionar Cícero - na ausência de Floro - para obter a "simbólica patente" que não teve valor oficial. Embasado por tamanha força social, o padre poderia, se discordasse, perfeitamente cancelar todo e qualquer ato, bem como nem permitir a permanência por 3 dias do referido grupo e seu líder nas terras da sua Juazeiro. Desconfiado com era, a meu ver, o cangaceiro jamais levaria sua trupe ao Juazeiro nem ele iria pessoalmente atender o convite de Floro, que ele nunca tinha visto (quem danado é esse homem?) Mas o convite do Santo de sua veneração....irrecusável! Vemos ainda o valor da gratidão do Lampião, pelo acolhimento das suas irmãs, e D. Mocinha, desde 1918. A família Virgulino na clássica foto do Juazeiro é ímpar. Em outra foto, Virgulino trocou o chapéu de cangaceiro por um de "massa', a roupa de brim por um elegante terno "risca de giz"...a imagem do novo homem, agora "capitão" pronto a se enquadrar nas leis sociais como autoridade pública. Se o venerável padre não reprimiu....autorizou!...a história é suas múltiplas interpretações! " Pontua o pesquisador Urbano Silva de Caruaru.
"Também acredito que não partiu do padre Cícero a ideia de convidar Lampião para fazer parte do Batalhão Patriótico. Mas, nada se passava no Cariri cearense, que ele não soubesse. É só ler as suas correspondências, e aí temos a noção do quanto ele agia nos bastidores. Interferindo na vida e no destino de ricos e pobres. Quem não gostaria de ser informante do Padrinho?" Fala Chagas Nascimento,            pesquisador de Mossoró.
Assim, consoante às considerações de pesquisadores renomados e de novas teorias e elementos de pesquisa, trago minha humilde opinião: Padre Cícero não teve nenhum ingerência com relação ao convite para que Lampião viesse a Juazeiro, nem tão pouco recebesse a famosa e polêmica patente de capitão.
Manoel Severo - Curador do Cariri Cangaço

Tática de Lampião - O Silêncio da Morte Por:Raul Meneleu

Raul Meneleu e Manoel Severo no Cariri Cangaço 2015

Nertan Macêdo em seu livro "LAMPIÃO", traz a narrativa do Coronel Antônio Gurgel, prisioneiro/refém de Lampião, a respeito da sua fuga do Rio Grande do Norte, depois do ataque fracassado à cidade de Mossoró. Relato esse que impressiona pois poderemos ver as táticas de guerrilha que eram aplicadas e a total obediência dos 
cangaceiros a seu líder. 


Onde Lampião aprendeu essas táticas de guerrilha? Onde buscava inspiração para desenvolver essas manobras militares? 

Era assim Virgulino Ferreira da Silva. Tinha rasgos de herói e saídas de poltrão. Inteligente e astucioso, era um homem de vocação perdida.

Se aquele talento cru fosse devidamente aproveitado, Lampião poderia ter sido, não simplesmente um bravo vaqueiro do Pajeú ou um amaldiçoado chefe do cangaço, mas poderia ter sido um poeta, músico e artista, qualidades que revelou em seus versos, tocando sanfona, confeccionando belos e artísticos objetos de couro.



Poderia ter sido um bispo católico, ou quem sabe um general brasileiro, pois em seus combates que travou, demonstrou acentuada capacidade de estrategista. Não foram poucas vezes em que empregou planos bem arquitetados e bem executados para enfrentar e desestruturar seus inimigos. Possuía tato e qualidades de comando. Era na verdade um estrategista nato. Até hoje se discute o por que de Lampião ter atacado a cidade de Mossoró. Mas vamos ao relato: 

Lampião e seu bando chegavam à fronteira do Ceará. De Cacimba do Boi, lugar conhecido também por Buraco do Gado, Lampião mandou portador a Limoeiro. De volta, o emissário vinha de matula graúda: caixas de charuto, garrafas de vinho quinado, pacotes de biscoito. Não despendera um vintém nas aquisições.

O emissário contou: O povo do Limoeiro está em festas. Vai receber o senhor com grande satisfação. Até já mandaram embora os soldados pra não haver atrapalhação. O recado tocara, fundo, na fibra orgulhosa de Virgulino. Era por Isso que ele gostava do povo do Ceará. Meteu o fura-bolo na cara animada dos comparsas e repetiu a advertência já feita durante o trajeto, quando avistaram os campos do Jaguaribe:

– Daqui pra frente é o Ceará, terra do meu padrinho. Não se rouba e nem se mata! Não quero ver desavença nem safadeza! 

Os cabras baixaram os olhos. Os campos do Jaguaribe fumegavam, espichados no mundo. Todos se enfeitaram para a entrada em Limoeiro. Botaram fitas coloridas nos chapéus de couro e nas cartucheiras. No cano e bandoleira dos rifles — as fitas esvoaçavam, sopradas pelo vento quente daquelas planuras lavadas de sol. 

Lampiao em Limoeiro do Norte, CE, retornando de Mossoró

Entraram assim em Limoeiro, o chefe na frente, os óculos faiscantes, feliz com a recepção que lhe proporcionavam as autoridades e o povo. Gritos estrugiram na rua.

— Viva o Capitão Virgulino! - Vivá...! 

Coqueiro, mais afoito, tirou o chapéu, ergueu-o no ar, o rifle seguro na esquerda, e bradou em resposta: 

— Pois viva o govêrno Moreirinha! — Vivá... ! 

Outro cangaceiro berrou: 

— E viva meu padrinho padre Cícero! — Vivá...! 

O tempo esquentou debaixo das aclamações. Os vivas se multiplicavam, um nunca acabar de aclamações.

— Viva São Francisco do Canindé! 
— Viva São Francisco das Chagas! 
— Viva Nossa Senhora da Penha! 
— Viva a Mãe das Dores! 
— Viva Nossa Senhora da Conceição! 
— Viva o Bom Jesus da Lapa! 

Raul Meneleu e dona Francisca no Cariri Cangaço Piranhas 

Eram vivas em cima de vivas, bando e povo dialogando alto, festivamente. No patamar da igreja, o Capitão fez parada. Rezou ao padroeiro da terra e distribuiu esmolas aos mendigos que lhe estendiam as mãos. Comeu, em seguida, banquete regado a vinho e cerveja. Deram-lhe automóvel para passear na cidade. E o coronel Antônio Gurgel ia anotando tudo no seu caderninho.

Padre Vital Guedes, o vigário, animou-se a pedir a Virgulino: 

— Capitão, tenho um pedido a lhe fazer... 
— Diga, seu padre, que estando na medida dos meus poderes, eu atendo... 
— Eu queria que o senhor soltasse os prisioneiros do Rio Grande do Norte. 
— Pelo menos um, seu vigário, eu deixo ir embora. Os outros vão comigo, mando soltar depois. 

Libertou o preso mais barato, cujo resgate era de apenas dois contos de réis, um rapaz chamado Leite, do Apodi. Padre Vital Guedes ficou muito agradecido pelo gesto. E lá se foi de novo o bandido pelo sertão, tangendo os seus reféns, o coronel Antônio Gurgel, dona Maria José e o velho Joaquim Moreira. Este, por ser malcriado, ia montado num cavalo em pêlo, sem direito a sela. 

Rei Vesgo...

De Limoeiro, Lampião partiu para a Fazenda Armador, de propriedade de um cearense magro, fanhoso, de voz arrastada, insolente como os seiscentos diabos, de nome João Quincola. A tudo que o Capitão perguntava, João Quincola respondia de má vontade, carregando no cenho e sem despregar o ôlho do chão. 

Aí Sabino não se conteve mais: 
— Cabra, respeite Lampião, se não vai conhecer no lombo o gosto desta peia... E esfregou o relho na cara de Quincola, que se limitou a fungar e responder:
— Não tenho mêdo não, seu Sabino. 

Deixando a casa de João Quincola, que ficou de surra prometida por Sabino, o bando foi para o Saco do Garcia. Lampião já sabia que vinham volantes no seu rastro. Esperou-a jogando o 31, balas fazendo às vezes das fichas.

Já cansado de esperar, saiu dali no rumo de Arara, onde chegou um portador, trazendo os vinte contos de réis do resgate do pobre Joaquim. Moreira. O velho começou a dar pulos de contentamento quando viu aproximar-se a hora de ir embora.



Quanto ao memorialista, continuaria arrastado pelo bando, ele e dona Maria José, sofrendo as agruras daquele jornadear inapelável, com as volantes nos calcanhares. Além do mais, era obrigado a comer o molho de pimenta que Sabino, seu companheiro na hora da bóia, fazia questão de preparar e servir ao coronel.

Enquanto isso, a soldadesca rondava. E o Capitão jogando 31 com Sabino, Moreno e Luiz Pedro, seus parceiros de baralho, para os quais, de uma feita, perdeu sete contos que pagou, estrilando e mal-humorado.

Estavam agora no Serrote da Rocha, quando receberam a visita do tenente Pereira, comandante de uma volante cearense. O tenente chegou lascando tiro. Foi aí que o coronel Antônio Gurgel pôde ver, bem de perto, o quanto valiam aqueles guerreiros endemoninhados. O Capitão pulava e rolava no chão como um condenado, no meio da fuzilaria, e não havia bala para roçar-lhe a figura encapetada.

Morreu o meu cavalo e Moreno quase entrega o couro às varas, com o osso do braço à mostra, rasgado por uma bala. Puseram-lhe ali mesmo uma tipóia, envolvendo-lhe o braço num lenço sujo e trataram de abandonar o local da escaramuça, rumando para outros brejos. 

Caminharam sem alimento e água até meia-noite. Desvencilhando-se do grupo, um cangaceiro logrou comprar, numa casa, alguns queijos, mastigados às pressas. Calados, esfomeados, os homens do Capitão varavam as trevas da noite. 

Afinal, dormiram na margem de um riacho. Quando acordaram, estavam outra vez cercados pela polícia. Novo combate violento, sob vivas ao padre Cícero, rolando, pulando pedra, saltando moita. 

De repente, Lampião fez um gesto conhecido do grupo: exigia silêncio absoluto. Não consentia mais gritos e impropérios contra a soldadesca. Queria silêncio, silêncio completo, de morte. Todos obedeceram e o campo ficou mudo. A volante veio avançando, avançando, e quando já estava chegando ao lugar onde Lampião se enfurnara, este se levantou como um gato e bradou: Fogo !

Uma fuzilaria intensa rompeu das moitas e os soldados foram caindo no chão, varados pelos cangaceiros. Era assim que o Capitão Virgulino armava as suas arapucas aos destacamentos, no meio do mato. E sumiu, outra vez, pelos serrotes engarranchados.

Raul Meneleu
Aracaju, Sergipe
Fonte:http://meneleu.blogspot.com.br/2015/08/tatica-de-lampiao-o-silencio-da-morte.html

A Dispensa de Cicero Bezerra Por Norman Lopes Araujo

Cel Jose Pereira e seu estado maior

A Travessia – Zona Rural de Manaíra, distante 12 quilômetros da Sede – ainda tem rastros e marcas dos cangaceiros. Conta-se que Lampião e seu bando costumavam passar por essas bandas, o caminho mais próximo até chegar à antiga Misericórdia, hoje, cidade de Itaporanga, nas cercanias do Vale do Rio Piancó.


Com o fim da Guerra de Princesa, Lampião se aboletara próximo ao Povoado de Patos de Irerê e resolveu tirar algum proveito do pouco que restara do maior conflito armado do século, a chamada Revolta de Princesa.

Cícero Bezerra da Travessia, considerado homem forte do grupo de Zé Pereira, recebeu a mando de Lampião um bilhete no mínimo desaforado: diga a Cícero que mande alimentos, armas e dinheiro. Cícero abandonou o prato de leite e cuscuz e convidou o emissário a acompanhá-lo:

– Estás vendo essa dispensa cheia de alimentos, e esse montão de dinheiro e armas? Tudo é meu e dou a quem eu quero. Agora volte e diga ao capitão que só os entrego a ele, pessoalmente. 

A notícia se espalhou nos arredores e algumas horas depois, 250 homens amigos de Cícero e remanescentes das trincheiras “perrepistas” vieram ao aguardo do Rei do Cangaço.Cícero morreu muitos anos depois sem ver a cara do malfeitor.

Norman Lopes Araujo
Princesa isabel - Pb


OBS( Contada por Odom Bezerra, filho de Cícero à reportagem Folha de Princesa) 
sob minha editoria de notícias