Entre Cabras uma Flauta Doce no Sertão do Menino Por:Camilo Lemos

A Cidade de Lajes no centro do Rio Grande do Norte estava em festa, todos envolvidos no FLILAJES, Festival literário de Lajes, realizado de 08 a 10 de setembro de 2016, o homenageado foi Antônio Cruz. Fui acompanhando Professor Múcio Procópio, chamo-o de Prof. Múcio desde que o conheci, a palavra professor se incorporou ao seu nome. Não consigo chamá-lo simplesmente de Múcio, mesmo depois de algum tempo de amizade.
Na quarta-feira à noite do dia 07 de setembro, prof. Múcio me convoca: “Camilo, vamos a Lajes!”, com o tom de voz de satisfação característico de quando ele fala que vai a Lajes. Respondi de bate pronto: “Tudo bem Professor”.  Além de poder aprender com mais uma viajem, ter o privilégio de ir com um filho de Lajes que tem forte amor pelo berço, eu também iria rever “DUDU”.
Dudu tem 09 anos de idade e é filho de Tonhinho, primo de Prof. Múcio. Na primeira vez que estive nas Caraúbas, localidade onde foi construído o primeiro açude de LAJES-RN, conheci Dudu que me apresentou, com muito entusiasmo, as cabras e dois cabritos, os quais ele estava dando um reforço alimentar com a mamadeira. Tocou-me a maneira como ele lidava com os animais! Um exemplo de grandeza humana.
A época era muito difícil. Muito dura. Já eram quatro anos que a seca castigava a região e estávamos entrando no quinto ano, era dezembro de 2015. Os animais sofriam. Tudo seco na região, os galhos dos “pés de pião” contorcidos davam a impressão de que estava tudo invertido, ali as raízes nasciam para cima e as folhas e tudo que era verde nasciam para baixo do chão fugindo do sol.
Querendo retribuir a gentileza à Dudu, perguntei se ele gostava de música, então fomos para as primeiras lições de leitura rítmica, trata-se do reconhecimento dos valores na música, duração dos sons e das pausas, noções básicas. Dudu é muito inteligente, gosta de matemática, portanto a tarefa não seria difícil para ele e mesmo assim ele me surpreendeu. Prometi a Dudu uma flauta doce para iniciar os estudos do instrumento e uma camisa do Vasco. Pois bem, era hora de rever Dudu e levar os presentes.
Viagem boa, prof. Múcio guarda todo o mapa e a paisagem antiga na cabeça, então vem remontando o caminho, estradas, trilhas, plantações, propriedades numa verdadeira aula de campo. Chegamos antes do horário previsto e fomos andar pela região. Depois da reunião onde foram definidos alguns detalhes da participação de prof. Múcio na FLILAJES, seguimos para as Caraúbas. Tonhinho nos recebeu e fui logo perguntando: “Cadê Dudu?”. Respondeu Tonhinho: “Dudu está bem, está na casa da Mãe dele, está se arrumando para ver uma apresentação lá no centro”. Era a FLILAJES, o envolvimento do povo de Lajes com o evento é de se admirar. Eu disse: “tudo bem, vou me encontrar com ele lá.”
Depois do almoço, uma rede para descansar e um vento morno para embalar. Quando Tonhinho estava saindo para o evento, falei com Dudu, disse da flauta e que gostaria de dar uma aula para ele se quisesse. Não vou tentar descrever a cara que Dudu fez, pois não conseguiria. O mais próximo que posso chegar é de uma grande mistura de surpresa, alegria e ansiedade. Dudu seguiu com sua família, pai, mãe e irmã para o centro de Lajes, fomos logo depois.
Ruas enfeitadas, alunos e professores terminando os últimos detalhes. Cangaceiros e cangaceiras, sacis pousavam para fotografias junto a mula sem cabeça, o maior tinha menos que um metro e meio de altura. O centro das atenções eram as crianças, aquele momento era delas, das crianças.  Netos, avós, pais, vizinhos, amigos e conterrâneos estavam ali, todos. É muito gratificante ver a cidade daquele jeito, todos envolvidos com a sua cultura, a esperança chegava com um vento frio.
Fomos procurar um lugar afastado do local do evento, para apresentar a flauta doce a Dudu. Encontramos um banco de uma praça, que era também praça de alimentação perto do ginásio no centro de Lajes. Começamos, Dudu foi indo, o cabra é daqueles seres humanos que querem aprender e aprendem fácil. Ele é sereno e puro, simples e forte, menino bom do sertão.
Dudu
Começou a escurecer e fomos para uma mesa de uma lanchonete onde havia luz. Continuamos, Dudu começava a ficar intimo das semínimas e colcheias e suas respectivas pausas, chegamos ás notas Sol, Lá e Si, na flauta e na pauta. A tarde havia se despedido e a noite veio. O vento continuou frio só que agora mais forte. Chegou a hora de nos despedir , os familiares já nos esperavam.
Sugeri então: -Dudu, era bom nos encontrarmos amanhã para eu ver como ficou a lição, tirar suas dúvidas, praticar mais um pouco… Dudu com a mesma cara que não sei descrever perguntou:-E vocês vão de que horas amanhã? Respondi:–Vamos voltar amanhã pela manhã, lá pelas 10 horas, apareça na casa de seu pai um pouco mais sedo que podemos adiantar tudo bem?-Tudo bem. Tudo bem…E com a mesma rapidez que respondeu, perguntou:-Às 05:00h tá bom? Olhei para Dudu e o tranqüilizei:– Hômi, não precisa ser tão cedo… E ri.
A programação do FLILAJES foi noite adentro poesia, música, leitura dramática, troca de livros, mesa redonda e dança. Lajes estava dando um grande exemplo de como a cultura pode aproximar as pessoas, como disse antes, várias gerações estavam ali prestigiado sua arte e sua história.
A noite passou, a madrugada chegou e o vento gelado deixou a ponta dos meus dedos dormentes, “nessas alturas” já havia desistido de dormir no alpendre da casa de Tonhinho. Na volta contei ao prof. Múcio sobre o horário que Dudu propôs para a aula – Cinco horas ta bom? – Rimos muito e fomos dormir.
Acordei com o som dos animais logo cedo por volta das 4h e 30min, o som foi aumentando, eram os animais chegando perto da casa, pensei, são os bichos vindo pedir comida de manhã. Fiquei na rede, estava muito frio ainda.
Ouvi Tonhinho se levantar e abrir a porta: “O que é que você esta fazendo uma hora dessa aqui Dudu? Você tem aula hoje na escola rapaz! E eles estão dormindo ainda!” PENSEI: “EITA PIÚLA!” Dudu tão novo carrega consigo uma das coisas mais preciosas do sertanejo, a palavra. Dudu falou: “Vai ter aula hoje não. É feriado”. Tonhinho incrédulo resolve tirar a prova: “Vai ter aula hoje não? Vou perguntar essa história a sua mãe! Vamos lá.” PENSEI NOVAMENTE: “EITA PIÚLA”. Só que dessa vez mais alto.
Os chocalhos foram se afastando, me levantei, lavei o rosto e prof. Múcio dormia na rede na sala. Voltei pra minha rede e fiquei pensando no que iria dizer a Dudu para que ele não faltasse a escola por minha causa, pois voltaria e continuaríamos as aulas. Olhei as horas: 5h.
O som dos animais foi chegando perto da casa, chegaram. A porta abriu e eles entraram. Quando Dudu me viu acordado olhou para o pai com os olhos arregalados como quem dissesse – Ó ele está acordado! – Abriu um sorriso puro de felicidade. Todos os problemas de Dudu naquele momento tinham se acabado. Primeiro ele não teria aula na escola, de fato era feriado e segundo, eu estava acordado. Ganhei o meu dia naquele momento, estava fazendo parte da felicidade de alguém e ele merece.
Dudu e seus pequenos cabritos
Dudu então disparou com toda a energia: “Você lembra daqueles cabritos? Eles estão grandes e nasceram mais, são muitos, já viu? Venha ver! Vem!” Eu disse: “espere um pouco Dudu, deixe eu vestir uma camisa”. Antes de eu terminar a frase, ele já estava lá fora chamando os cabritos, tive que ir. Lá fora, um frio de cortar e de acordar qualquer um. Interrompi as apresentações no quinto cabrito: “Dudu, só um minuto, meu amigo! Vou vestir uma camisa, estou morrendo de frio”. Para minha sorte, Dudu concordou. Agradeci, corri para a casa e Tonhinho já estava com um café pra mim.
Prof. Múcio já estava acordado, todos conversamos um pouco, menos Dudu que ficava para lá e para cá, só observando. Quando dei a última mordida no pão e o último gole no leite, recebi “a ordem”: “venha aqui, venha ver a cachorrinha, temos uma cachorrinha agora aqui”. Agora sim, o dia havia começado, os primeiros raios de sol apontaram no horizonte, o ar matinal do sertão e, uma paisagem que faz o olhar se perder na imensidão. Contemplei a Serra do Feiticeiro e tudo que estava em minha volta.
Lá estava Dudu me apresentando a cadelinha, quando a vi, perguntei: “Dudu ela tem algum problema?”.  Ela estava toda “mole”, com “pés de mola”, depois se esparramou no chão. Pensei que ela tivesse algum problema nas patas. Tonhinho apareceu e disse: “Não, ela tem nada não, é boazinha, danada que só!” E assobiou para ela que saiu correndo em disparada dando voltas a toda velocidade, mostrando a agilidade dos cães sertanejos. Depois complementou: “Ela fica assim quando está perto dele”. Eu ri. Já estava acostumado com esse tipo de reação vindo dos cães, mas não esperava o que estava por vir.
Saímos em busca do tal cabrito que ele mencionou que já estava grande, fui percebendo que todos os bichos vinham cumprimentar Dudu, passou a primeira turma de cabras e cabritos, todos se dirigiram a ele, segunda turma, a mesma coisa, terceira também. Chamou-me a atenção tamanha naturalidade da relação de Dudu com o ambiente em que vive.
Do outro lado do terreno foi a vez dos sagüins, fomos chegando perto de umas algarobas altas, o primeiro apareceu, Dudu foi me explicando que eles são uma família grande e que moram ali: “tem até uma com um filhotinho nas costas, ela aparece já”. Chegamo-nos mais perto, Dudu começou a se comunicar com eles e os sagüins foram aparecendo e se aproximando. Quem conhece um sagüim sabe que eles são muito ariscos, desconfiados, mas eu estava vendo outra coisa ali naquele momento, eu via uma família de sagüins vindo cumprimentá-lo, dar bom dia a Dudu, inclusive a mamãe sagüim e seu filhote nas costas. Dudu chamou e ela veio, nesse momento senti que o elo de confiança, de amizade entre eles, era muito grande, mas não comigo. É que a “guarda pessoal” da mamãe sagüim estava muito bem posicionada a menos de dois metros da minha cabeça, percebi quando olhei para trás e achei melhor me afastar, pois a presença da fêmea com o filhotinho alterou o comportamento deles que antes estavam apenas curiosos, agora em alerta. Mantive a mesma sintonia de antes, “sou amigo de Dudu, eles não vão fazer nada comigo”. Estava certo e veio outro pensamento: “Será que eles estavam protegendo também Dudu?”
Na volta para casa, achamos o tal cabrito que fomos procurar, estava nessa última turma. Junto também estavam três cabritinhos que ao avistarem Dudu, vieram correndo balançando o rabo e ficaram brincando com ele e comigo.  Dudu contava a vida deles: “Este aqui é ceguinho, um carcará pegou ele quando era bem novinho e deu uma bicada, ele ficou assim”. Os outros dois estavam brincando comigo, eu não conheço a língua das cabras, mas uma cabra grande com seu par de chifre de 20 cm estava deixando bem claro o que queria dizer da forma que me olhava e se movimentava: “quem é esse humano com os meus filhotes?”
Camilo Lemos e Múcio Procópio
Ora, se eu notei, imagine Dudu. Ele veio para perto e tentou me tranqüilizar: “Ela é assim mesmo, é a mais braba que tem aqui, esta assim por que você esta perto dos filhotes dela”, disse-me com a sinceridade, inocência e a pureza das crianças. Mas ouvir isso às seis da manhã foi uma boa dose de adrenalina. No mesmo instante ele se aproximou dela, alisou e balançou sua cabeça pelo chifre, disse qualquer coisa e ela deu as costas e saiu tranquila.
Quando minhas pernas reagiram, achei melhor lembrá-lo da aula e disse: “E aí Dudu, e nossa aula? Vamos lá? Vai ou não vai?”. O local escolhido foi embaixo de uma velha algaroba, onde tem um banco grande e uma comprida mesa de refeição. Começamos a revisão e a nova aula, no final daquela manhã Dudu chegou à nota “dó” e “ré aguda”, agora ele tocava cinco notas na flauta: ré, dó, si, lá e sol.
Deixei Dudu entre pausas e notas. Saí de lá com a certeza que Dudu tem de sobra o que falta ao mundo. Saí também com a paisagem, a natureza, a criança, os animais, com a pureza do sertão. Foi uma manhã inesquecível, aprendi sobre as plantas de lá, o que os bichos comem e não comem. Foi uma aula sobre a vida e sobre um menino que tem uma intimidade com as animais que pouquíssimos veterinários que conheci têm. Dudu não sabe, mas a verdadeira aula quem deu foi ele.
Despedi-me dizendo:– Dudu que privilégio você têm, toda manhã você tem isso! Ele riu encabulado e falou: “Só não deu para ver os preás, eles são muito ligeiros”. “Tem nada não Dudu, fica para próxima.” No tempo da indelicadeza, Dudu é uma riqueza.
Camilo Lemos, Natal RN
Fonte:https://camilolemosartecultura.wordpress.com/2016/10/09/entre-cabras-uma-flauta-doce-no-sertao-do-menino/

A Emoção de um Livro e do Cariri Cangaço Por:Junior Almeida

Manoel Severo e Junior Almeida no Cariri Cangaço Piranhas 2016
Quem é aficionado pela história nordestina, especialmente a do cangaço, deve estranhar um pouco quando observa em algum livro antigo fatos que já viu em algum lugar além da obra que se está lendo, seja em sites ou mesmo em livros mais novos. Pode-se até pensar: Esse livro é uma cópia de outro que eu já li. Não é isso. É o mais ou menos o contrário que acontece. Não que o livro novo seja uma reprodução total de uma obra antiga, mas a obra antiga é usada como fonte para novos autores. Grandes obras de escritores consagrados como Frederico Pernambucano de Mello, Luiz Ruben, João de Sousa Lima, José Bezerra de Lima Irmão, só como exemplo, citam os importantíssimos João Gomes de Lira, Ranulfo Prata, Rui Facó, Rodrigues de Carvalho, Optato Gueiros, Billy Jaynes Chandler, Marilourdes Ferraz, Alcino Alves Costa, Oleone Coelho, Antônio Amaury, Padre Frederico, Oliveira Xavier, Flanklin Távora, dentre outros.
Claro que é bem interessante quando um escritor da nova geração cita sua fonte de pesquisa, mas o que me deixa particularmente maravilhado é quando leio que o próprio autor conversou com cangaceiro fulano, volante sicrano ou coiteiro beltrano. Ano passado quando eu e demais integrantes da maravilhosa “família Cariri Cangaço voltava da Grota do Angico em Poço Redondo, após a missa de Virgulino Ferreira, Maria Gomes e mais dez almas que tombaram sem vida naquele local em 1938, ficamos esperando um companheiro voltar para o barco em um lindo restaurante, numa das várias entradas de trilhas que levam ao local do massacre. 
Ivanildo Silveira, Valquíria Lisboa e Antonio Amaury no Cariri Cangaço Piranhas 2015
Entre os vários entendidos no assunto presentes, estava o mestre Antônio Amaury. Sentado à sombra de uma mangueira e assediado por várias pessoas, o doutor paulista atendia a todos com presteza, tirando dúvidas dos presentes felizardos. No local estava também uma guia turística; Valquíria Lisboa, morena de olhos verdes, pernas grossas e muito bonita; Valquíria vestida a caráter como a própria Maria Bonita, parece que não tinha se dado conta de quem era aquele senhor tranqüilo que se dispunha a conversar com “alunos” curiosos. Só quando o Doutor Ivanildo Silveira, com sua potente voz, chamou Amaury pelo nome, é que ela percebeu estar ao lado de um dos mestres em cangaço. Os olhos da cangaceirinha pareciam duas lanternas acesas, visivelmente emocionada, ela quis imediatamente ser fotografada ao lado do ilustre pesquisador.
José Tavares, Valquíria Lisboa e Antonio Amaury no Cariri Cangaço Piranhas 2015
É isso que acontece, é diferente. O leitor, pesquisador ou mesmo o curioso pode ter acesso a milhares de informações, mas,ler ou conversar com quem viveu o fato ou com as pessoas que tiveram como fontes quem fez a história, faz diferença. Quando se vê nos livros do próprio Amaury que Dadá lhe disse isso ou aquilo, ou que Optato Gueiros levou sua volante para determinada localidade, onde houve sangrento tiroteio, ou até Oliveira Xavier, que conviveu com Padre Cícero e viu de perto a sedição do Juazeiro, dizer que viu fatos famosos da história nordestina é bem mais emocionante do que a narração de terceiros.
A leitura vicia, e a literatura cangaceira mais ainda, e observar nos livros clássicos, indispensáveis para quem quer entender alguma coisa do tema, que o autor conviveu de perto com quem fez a história, é algo maravilhoso. Além a emoção da leitura, outras nos são ofertadas pelo seminário Cariris Cangaço, ao fazer com que seus membros interajam com escritores renomados, familiares dos guerreiros do sol e locais dos fatos cangaceiros. Ano que vem se Deus assim nos permitir, estaremos juntos, vivendo novas emoções.

Junior Almeida, pesquisador e escritor
Capoeiras-Pernambuco
Fotos: José Tavares de Araujo Neto
Fala Conselheiro Cariri Cangaço, pesquisador Narciso Dias, Presidente do GPEC: 
"Presenciei esse momento Junior Almeida e me lembrei do primeiro contato com o mestre Amaury no aeroporto do Juazeiro em 2010, fiquei meio que anestesiado também é de igual teor foi com Frederico, Luitgarde, entre outros não menos importantes, isso é o que faz a Família Cariri Cangaço."

Fala Valquíria Lisboa:
Gostaria de agradecer ao gentileza dessa pessoa queria José Tavares pelo carinho... De fato não a história mais encantadora do que o cangaço, assim como já descreveu o José Tavares, foi um dos melhores encontro que um leitor pode ter é se depara com um escritor na qual vc admira, amo a saga cangaço, já cheguei a ter a oportunidade de ler bons livros que traz esse tema apaixonante e sou uma fã do Dr Antônio Amaury... Sou apaixonada pelo cariri cangaço, homens e mulheres de visão e apaixonados por nossa história.No fundo todos temos um pouco de cangaço/volante em nossas veias"

Olhar sobre o Cangaço Por:Guerhansberger Tayllor


Gostaria de esclarecer para o amigo leitor, que não tenho a pretensão de buscar a “origem” do cangaço, pois estaria caindo no que o célebre fundador da escola dos Annales, Marc Bloch, chamou de o “ídolo das origens” . Nesse primeiro momento do capítulo, através da historiografia do tema, objetivo compreender como o cangaço emergiu como campo de estudos. E como essas escritas teceram memórias sobre o cangaço e seus agentes históricos. Para isso, reflito a partir dos livros: O Cabeleira (1876), de Franklin Távora; Heróis e bandidos: os cangaceiros do Nordeste (1917), de Gustavo Barroso; Lampeão: sua história (1926), de Érico de Almeida; e Lampião (1933), de Ranulfo Prata .  

Escolhi abordar esses livros porque os dois primeiros foram pioneiros no estudo sobre o cangaço, proporcionando-nos notar como esse fenômeno passou a ser concebido no momento em que estava emergindo como campo de estudos. Já os dois últimos, criam inscrições negativadas para os corpos de Lampião e para o cangaço. A partir deles, tento pegar o fio condutor para compreender como vai ser produzida uma “memória maldita” para o cangaceiro aqui estudado. 

Em 1876, João Franklin da Silveira Távora, em um esforço de explicar o nacional pelo regional, publicou O Cabeleira. Considerado o primeiro romance histórico do cangaço, resultou da necessidade que o autor teve em apresentar o valor literário e a riqueza histórica e cultural da então região Norte. Cearense, nascido no dia 13 de janeiro de 1842, mudou-se dois anos depois para o Recife, onde residiu até 1874. Inserido em um contexto histórico de decadência econômica das elites da região Norte, que perdiam espaço no cenário nacional para a economia cafeicultora e a cultura sulista em ascensão, as províncias do Norte foram colocadas em segundo plano .



Diante desse panorama, Távora propôs uma forma literária que prezasse pelo que acreditava ser a reprodução fiel do cenário regional, apontando para a divulgação dos costumes, problemas e culturas nortista que perdiam espaço para os valores sulistas. Destacando a especificidade e a busca da autonomia literária do Norte em relação ao Sul, no prefácio do livro O Cabeleira, Távora afirma: Proclamo uma verdade irrecusável. Norte e Sul são irmãos, mas são dois. Cada um há de ter uma literatura sua, porque o gênio de um não se confunde com o do outro. Cada um tem suas aspirações, seus interesses, e há de ter, se já não tem, sua política (TÁVORA, 2010. p. 14-15).  

Na busca pela divulgação das histórias do Norte, Távora narrou o passado da então província de Pernambuco por meio das façanhas do jovem aventureiro José Gomes, o Cabeleira . Afamado bandoleiro e tendo seus feitos cantados por trovadores sertanejos anônimos, foi tomado como objeto inicial de representação da literatura do Norte, através da escolha de Távora. Segundo Dutra (2013), é notório perceber que o autor buscou nos ícones populares inspiração para personagens que geravam admiração devido à ambiguidade de suas histórias, possibilitando criar indivíduos que passariam a representar à região. Portanto, o cangaceirismo aparece pela primeira vez na literatura como elemento simbolizador da região Norte. 


Wescley Rodrigues, Reclus de Pla, Guerhansberger Tayllor e Iris Mendes em 
dia de Cariri Cangaço

De acordo com Araújo e Ferreira (1999), José Gomes nasceu no ano de 1751, em Glória do Goitá, Pernambuco, era filho de Joaquim Gomes e Joana. Teve sua infância e adolescência (de)formada pelos conflitos entre a educação materna e a paterna. Enquanto sua mãe tentava lhe catequizar com os ensinamentos religiosos e “humanistas”, seu pai o induzia a praticar crimes contra animais e depois contra humanos. Com isso, o Cabeleira oscilava entre esses dois polos, mas Joaquim Gomes arrastou o seu filho para o banditismo, transformando-o em um fora da lei sanguinário. Távora retratou o cangaço como sendo o lugar do terrível, do não humano, o polo oposto do bem. Segundo ele: “O cangaço é voz sertaneja. Quer dizer o complexo das armas que costuma trazer os malfeitores” (TÁVORA, 2010. p. 140).  

Para despertar o seu lado “humano”, o Cabeleira precisaria buscar romper com o cangaceiro que foi produzido pelos ensinamentos do pai. Não era possível expressar seu sentimento amoroso por Luisinha (o amor da sua vida) sem abandonar a “última arma do terrível cangaço de outrora” (TÁVORA, 2010. p. 130). Um personagem ambíguo, lutando entre o bem e o mal, foi assim que Távora apresentou o cangaceiro do Norte. As histórias e memórias dos “bandidos heróis” também foram objetos de estudo do intelectual memorialista cearense Gustavo Barroso. Em 1917, foi publicada a primeira edição do livro Heróis e bandidos: os cangaceiros do Nordeste.

Trabalho que se tornou uma espécie de paradigma explicativo para os estudos do cangaço, tendo em vista que diversos pesquisadores tomaram Barroso como ponto de apoio para reflexões posteriores sobre o banditismo. Por conseguinte, podemos dizer que Barroso se notabilizou como um tipo autor que Foucault denominou de: “fundador de discursividade”. Ou seja, o autor que possibilita a formação de outros textos a partir dos seus escritos. De acordo com Ferreras (2003), o principal aspecto do livro escrito pelo memorialista cearense é a função estabelecida pelo meio ambiente, sendo decisivo para a compreensão e explicação da forma cultural dos habitantes do sertão nordestino. 


Gustavo Barroso

A geografia exerceria uma influência ímpar para se perceber as formas em que a sociedade se desenvolve e transforma seus indivíduos. Portanto, a condição humana passaria a ser  definida pelo meio ambiente que, por sua vez, condiciona os seus comportamentos. O cangaceirismo se constituiria como o fruto do seu meio social, como afirma Barroso:  


O clima sertanejo tem a máxima culpa na produção da cangaceiragem [...] foi a alma do sertão que moldou e fundiu a do cangaceiro. 

A fim de viver nessa região agreste, batida pelo sol, é demasiadamente sóbrio. O eterno combate contra o meio inóspito desenvolve-lhe a coragem e a resistência. A ameaça continua de perceber dá-lhe o fatalismo e estóica resignação para todos os males (BARROSO, 2012. p. 23-24). O determinismo geográfico é lançado por Barroso como uma forma explicativa para a análise das causas e motivações do cangaceirismo no Nordeste brasileiro. Modelo que influenciará os trabalhos da temática de forma maciça, a partir da década de 1960, quando o interesse pelo estudo do cangaço adentou nas Universidades e recebeu forte influência do marxismo.  

A justificativa pelo meio social também será um dos pilares de sustentação no processo de construção do mito em torno do cangaceiro. Ao recorrer à historiografia do tema, é comum percebermos a repetição do discurso de vitimização pelas circunstâncias vivenciadas pelos indivíduos que passaram a usar o cangaço como forma de vida. O caso mais conhecido é o de Lampião, que justificou sua entrada no cangaço para matar Zé Saturnino e José Lucena: o primeiro, acusado de ser o causador das intrigas familiares com os Ferreiras; e o segundo, de ter matado seu genitor. Para Barros (2007), esse é o início do processo de mitologização da história dos Ferreira e de Lampião. 



Mas não apenas Lampião, outros cangaceiros, juntamente com seus familiares, lançaram mão desse discurso da justificativa pelas circunstâncias do meio na tentativa de defesa ou de superação da memória negativa construída sobre os integrantes do cangaço, como é o caso do personagem estudado neste trabalho, Francisco Pereira Dantas (Chico Pereira). Voltando para Barroso, Heróis e bandidos não deixa de ser um livro que tece admiração pelos cangaceiros. Contudo, também de confronto com essa situação (atraso, desmoralização e incivilização das terras nordestinas). Dessa forma, Barroso construiu distintos arquétipos de bandidos, diferenciando as diversas possibilidades e ambiguidades do cangaço. Assim, podemos perceber bandidos com características particulares como psicóticos, nobres, selvagens, etc. 

É notório que o autor defende alguns e condena outros, justificando o título do livro: Heróis e bandidos (FERRERAS, 2003. p. 173). O cangaço que emergiu como um campo de contradições no “bandido herói” de Távora, e nos “Heróis e bandidos” de Barroso, foi reconstruído, pelas duas primeiras biografias de Lampião, como um espaço do infame, dos corpos e “memórias malditas”. A estigmatização e decodificação do corpo bandido de Lampião fomentou a construção de uma memória negativa em torno de outros cangaceiros em atuação na época, tendo em vista que Lampião passou a ser a figura que sintetizou o cangaço e todas as ações desse fenômeno.  

Segundo Dutra (2013), Virgulino é a figura que levou os indivíduos a fazerem uma relação automática com o cangaço. Portanto, falar de Lampião é falar ao mesmo tempo do cangaço. Embora reconheça a especificidade e complexidade de cada caso (cangaceiro), não resta dúvida que Lampião passou a representar o cangaceiro do Nordeste Brasileiro, a ponto dos escritos sobre seu corpo se estenderem para definir a conduta e as ações dos demais. Na medida em que as notícias jornalísticas abordaram com maior ênfase as práticas cangaceiras como vergonha nacional e a incapacidade dos governantes de estancarem tais condutas, os “donos do poder” começaram a produzir uma “memória maldita” sobre os cangaceiros, lançando mão de práticas discursivas em torno do combate ao banditismo, como meio para angariar recursos do governo federal. 



O livro de Érico de Almeida, Lampeão: sua história foi um marco dessa produção maldita. No ano de 1926, a Imprensa Oficial do Estado da Paraíba publicou a primeira biografia de Lampião, escrita pelo jornalista Érico de Almeida. Segundo Cardoso (1996), o texto foi encomendado pelo então Presidente João Suassuna e auspiciada pelo Deputado José Pereira Lima (Zé Pereira, de Princesa Isabel). Essa escrita tinha como objetivo denegrir a imagem de Lampião e exaltar o combate ao cangaceirismo pelo Estado, comandado por seus representantes: João Suassuna, no litoral; e José Pereira Lima, no sertão.

O livro de Érico de Almeida apresentou um claro projeto de memória: construir uma identidade de combate ao cangaceirismo pelo Estado da Paraíba, ressaltando os esforços de João Suassuna, a quem o autor tratou de “o anjo do bem”. Para esse fim, reservou o primeiro capítulo do livro, chamado: O bandidismo e a ação do presidente João Suassuna. Como toda memória é seletiva, permeada pela dialética da lembrança e do esquecimento, o escritor buscou lembrar que o Estado da Paraíba não media esforços para combater o cangaceirismo. Ao mesmo tempo, iniciou uma luta para que as acusações feitas a João Suassuna e José Pereira Lima, de serem protetores de cangaceiros, caíssem no esquecimento.  

O Governo de João Suassuna (1924-1928) vinha recebendo fortes críticas administrativas pela inércia no combate aos grupos de cangaceiros que atuavam no Estado, como também de possíveis relações de proteções aos mesmos. Acusações que se acentuaram depois que a cidade paraibana de Sousa foi invadida pelos cangaceiros, no dia 27 de julho de 1924. O acontecimento recebeu notável destaque pelos jornais de vários estados do Nordeste e do país. Nessa circunstância, o Governo do estado precisava dar uma resposta às críticas e recuperar a imagem que estava em estágio acelerado de difamação. 

João Suassuna ao centro

Uma das primeiras medidas tomada por João Suassuna foi providenciar a elaboração de uma memória escrita sobre as suas ações frente ao cangaceirismo, buscando maquiar as relações coronelísticas que permeavam seu governo, em que era frequente o uso dos serviços de homens armados para garantir o seu poder e de seus correligionários, atacando grupos rivais no cenário político. Desta forma, a primeira biografia de Lampião pode também ser considerada uma estratégia do Presidente da Paraíba, na construção de uma memória governamental de combate ao cangaceirismo e, ao mesmo tempo, uma contra-memória a esse fenômeno e sua relação com o Estado e seus principais representantes. 

Portanto, Érico de Almeida não poupou palavras apologéticas para definir João Suassuna e seus serviços prestados contra o bandidismo. Foi assim que o autor começou o seu texto: "Publicando estas notas de reportagem, acerca do super-bandido Lampeão, não posso eximir-me ao dever de traçar algumas linha a propósito da extraordinária actuação do sr. dr. João Suassuna, honrado presidente do Estado, na grande campanha contra o banditismo. S. exc., mau grado a insuperável crise financeira que nos asphyxia, não tem recuado perante sacrifícios de qualquer especie, para jugular a terrivel praga que devasta e extermina as nossas fontes vitaes no alto sertão"(ALMEIDA, 2013. p. 7). 

Diante de uma linguagem afetiva e extremista a respeito do presidente João Suassuna, a autoria do livro foi colocada em questão ao longo dos anos. De acordo com Cardoso (1996), já em fins da década de vinte, chegava a Paraíba o poeta e escritor Mário de Andrade, em “missão cultural” para estudar as manifestações da chamada cultura popular. Ao ler a primeira biografia de Lampião chegou à conclusão que Érico de Almeida era o pseudônimo de João Suassuna. Essa hipótese é fortemente defendida e aceita por muitos pesquisadores da temática. Mas o que interessa aqui é que o livro construiu uma memória gerenciada pelo Governo de uma implacável perseguição ao cangaceirismo na Paraíba. Tese que muitos escritores reproduzem até hoje, sem levar em consideração os interesses e o lugar de produção dessa memória oficial. 

Com relação a Lampião e ao cangaço, o livro criou uma espécie de “gramática maldita”, adjetivando esses corpos como o lugar do infame, do sanguinário, do nefasto e de uma terrível praga que assolava o Nordeste. Homens de vidas infames desacreditados pela lei, com má fama, cujos corpos precisavam ser disciplinados pelo poder controlador do Estado. Foi trilhando essa mesma perspectiva e produção memorialista que a segunda biografia de Lampião veio reforçar a construção de um espaço negativado para o cangaço e seus personagens.

Continua...


Guerhansberger Tayllor
Pesquisador de Lastro, PB
Parte de Monografia:
"Nas Redes das Memórias:As múltiplas faces do Cangaceiro Chico Pereira"

Os Filhos de Martinho de Souza... Por Lampião, Cangaço e Nordeste

Volante composta pelos filhos e primos de Martinho 

Em 10 de março de 1934, O subgrupo do cangaceiro Zé Baiano, em terras sergipanas, assassinou o fazendeiro Martinho de Sousa Freire, O vaqueiro Joãozinho de Vítor e o pai deste. Com o assassinato do velho Martinho, seu sobrinho Antonio Conrado foi até o Governador do Estado, o Dr. Eronides de Carvalho, seu amigo, e comunicou-lhe o crime cometido pelos bandidos contra seu tio, pedindo-lhe para incluir os filhos do finado no combate ao Bando de Lampião. Aceito o pedido, foi criada uma Força Volante , composta de 10 homens, sendo 05 deles filhos do morto: Felinto, José, Filomeno, Pedro e Alcino, e mais 05 primos deles, todos dispostos a tudo..

Essa volante deu vários combates com os cangaceiros e, em um deles, auxiliando a volante do Tenente Zé Rufino, mataram o cangaceiro Zepelin.
Fonte do Texto: Carira, do autor João Hélio de Almeida..

Lampião, Cangaço e Nordeste
Facebook

A Real Historia do Cangaço sendo Recuperada Por:Raul Meneleu

Conselheiro Cariri Cangaço, Raul Meneleu Mascarenhas

Os poetas, escritores, cineastas profissionais ou amadores, exercendo atividades criativas e técnicas, podem tudo. Podem contar a história como foi e é, mas também podem viajar na ficção, deixando que suas mentes vagueiem na criação de situações que nunca ocorreram, ou enfeitarem a narrativa e o visual, com a percepção ficcional. 

Já os historiadores e pesquisadores, ao fornecerem material colhido, devem ser isentos e registrarem literalmente o que ocorreu, deixando tudo como aconteceu, fazendo apenas a narrativa que encontraram, sem envolvimento emocional de pender para quaisquer lado. Apenas a realidade do passado e presente interessa para tais.

Muitos livros trazem como objetivo principal trazer esclarecimentos considerados extremamente valiosos no que se refere à história. E na história do cangaço na época de Virgulino Ferreira da Silva, o célebre "Lampião", não pode ser diferente. Os historiadores e pesquisadores, de posse desse material, e que também se tornam escritores, devem mostrar o real papel de homens e mulheres envolvidos na saga, como bem o diz Manoel de Souza Ferraz, o Manoel Flor, um dos principais combatentes de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião; quando mostra que o cangaço "foi exaltado pela literatura popular sertaneja, mormente em sua forma mais difundida, a poesia. Nela, até os criminosos reconhecidamente empedernidos podiam ser glorificados nas ilusões do cancioneiro." - (1) ***

Trago aqui para os amigos, que não tiveram ainda a oportunidade de ler esse relato, desse bravo filho de Nazaré, que em seu depoimento referindo-se a essa veia poética que praticamente endeusava os criminosos, sabendo que o sertanejo tem uma grande simpatia por homens e mulheres valentes, chama-nos a atenção para a correção dessas narrativas desviadas da realidade. Vamos ao relato, retirado de suas memórias, pela professora, jornalista e escritora Marilourdes Ferraz em seu livro O Canto do Acauã - 2ª Edição:

Marilourdes Ferraz

"O trabalho aqui exposto revela a necessidade em trazer a público um depoimento que mude os conceitos, quase sempre distorcidos, impostos e disseminados sobre a era do cangaço no sertão do Nordeste. Esta urgência é justificada porque são poucos os sobreviventes que maior participação tiveram nos acontecimentos e os quais se ressentem da deturpação dos fatos que viveram e presenciaram. Nosso objetivo é o de expor um relato, autêntico e verídico, daquele tempo conturbado, centralizando-o na região do rio Pajeú, em Pernambuco. O termo cangaceiro descreve um personagem de determinadas características que atuou no Nordeste; o termo engloba tanto o bandoleiro que formasse um grupo armado como o fazendeiro que possuísse a mesma atividade ou o simples agregado que defendesse os interesses do patrão por meio das armas. Sua principal característica era a valentia; era relevante que fosse ousado e mesmo insensato nos seus feitos. Os aspectos de valentia e coragem pertencem à admiração popular nas diversas culturas e épocas; também o cangaço foi exaltado pela literatura popular sertaneja, mormente em sua forma mais difundida, a poesia.

Nela, até os criminosos reconhecidamente empedernidos podiam ser glorificados nas ilusões do cancioneiro. Nas porfias entre grupos rivais o povo tomava partido como atualmente nos esportes e os entusiastas comentavam os últimos combates e defendiam com ardor apaixonado a facção que lhes parecia mais simpática. No sertão, naqueles tempos de enorme carência de apoio à população, principalmente no setor educacional e na estrutura jurídica que coibisse os abusos de poder do homem para com o seu semelhante, a criminalidade proliferou. 

Os habitantes dependiam do próprio valor pessoal para manter a sua integridade física e moral, e o uso amplo da força em seu pleno sentido já era estimulado na luta pela sobrevivência com a Natureza agressiva em tempo de estiagem. O grupo etário mais vulnerável a esse conjunto do influências era exatamente a infância, seguindo-se-lhe a adolescência. Dependendo da intensidade dos diversos fatores e da orientação familiar poderia haver conseqüências desastrosas ou benéficas á vida dos moços. A estrutura básica para o fortalecimento do caráter e a formação da personalidade estava no lar, secundada pela orientação dos poucos mestres-escola e dos religiosos que assistiam a população. isso se tornou ainda mais notável na citada região do Pajeú, onde cresceram os irmãos Ferreira e os homens que os combateriam até o fim do ciclo. 
Manoel de Souza Ferraz

Os futuros grupos conflitantes, cangaceiros e policiais, receberam a mesma carga de influências culturais e do meio ambiente, frequentaram as mesmas escolas improvisadas ao ar livre e tiveram dificuldades como todos os sertanejos. Lampião conviveu e recebeu a mesma educação de muitos conterrâneos, mas com a vantagem de possuir sua família uma situação financeira bem melhor que a de inúmeros sertanejos. Assim, no estudo de sua adesão ao banditismo, é importante que haja uma análise dentro do contexto da época, da região e de sua conjuntura sócio-cultural. 

A personalidade agressiva e contraditória do famoso cangaceiro foi alimentada pelas variadas influências que também agiram sobre os seus contemporâneos. No decorrer dos anos a versão dos acontecimentos da época foi de tal modo deturpada, principalmente por motivos políticos e ideológicos, que se tornou comum atualmente uma profusão de mitos e inverdades, acarretando equívocas tentativas de explicar o personagem Virgulino Ferreira da Silva, em particular, e o contexto histórico-social que, indiretamente, representava. 

É difundida e alimentada a crença de que a Polícia executou nos sertões apenas o papel de verdugo em sua represália contra o banditismo; seus presumíveis atos de vandalismo teriam estimulado a proliferação de homens que, como Virgulino, se tornavam cangaceiros a fim de praticar justiça com as próprias mãos; por inexplicável ódio, o fazendeiro José Saturnino, pretextando o furto de um simples chocalho pelos jovens Ferreira, perseguiu-os com requintes de crueldade, forçando sua adesão ao mundo do crime como único caminho para a sua sobrevivência; que esses pacatos e ordeiros rapazes foram obrigados a lutas intermináveis contra as injustiças, lembrando Robin Hood a castigar os maus e ajudar os infortunados; e ainda que o povo sertanejo teria depositado enorme confiança naqueles "paladinos" da Justiça. 


Tais incorreções foram alimentadas por deficiências na coleta e interpretação dos dados históricos e também por deturpação nos depoimentos fornecidos a alguns escritores que, por exemplo, chegaram a basear seu trabalho exclusivamente em versões de ex-cangaceiros ou de pessoas não possuidoras do necessário conhecimento dos fatos ou que os procuraram alterar em conveniência própria devido a estarem comprometedoramente envolvidos nos episódios da época, em detrimento de uma realidade mais ampla. 

Entretanto, não nos arrogamos na posse absoluta da Verdade nem procuramos rotular os cangaceiros de apenas bandoleiros ou transformar os soldados sertanejos que os enfrentaram em heróis isentos de erros; eram todos seres humanos e, como tais, vulneráveis equívocos e às forças que movem os povos e determinam a marcha da História; todos participaram de uma batalha de múltiplas origens e conseqüências, não sendo totalmente vilões ou totalmente santos muitos dos visados por preconceitos. 

Podemos, no entanto, afirmar com segurança que Virgulino Ferreira da Silva não foi obrigado por perseguições a adotar uma vida de banditismo; ao contrário, foi combatido por ter-se transformado em temível bandoleiro. Seu pai teve o fim precipitado pela turbulenta vida dos três célebres filhos. Antes que fosse muito tarde, Lampião recebeu conselhos e advertências e, o mais importante, o exemplo de numerosos habitantes da região em que vivia; contudo, fustigou-os de tal forma que os obrigou a se transformar de pessoas reconhecidamente pacíficas em argui-inimigas do cangaço quando perderam a crença em sua sobrevivência sem os recursos da luta armada. 


Os irmãos Ferreira assaltavam indiscriminadamente e faziam conluios com pobres ou ricos para os mais diversos fins; os seus prisioneiros eram muitas vezes mortos com requintes de sadismo e a sua fúria não poupava idade ou sexo das vítimas; inúmeras famílias sofreram com a perda de seus haveres e entes queridos. Como Lampião conseguiu atravessar longos anos sem ser detido? Em conseqüência do secular abandono da região sertaneja, as autoridades governamentais não possuíam os meios adequados para encerrar em curto prazo tão calamitosa situação. 

A falta de estradas e meios de transporte, o reduzido número de policiais, o deslocamento de tropas de Estado para Estado, o alistamento de pessoas que não se adaptavam aos rigores da luta, foram algumas das dificuldades encontradas. Os sertanejos tiveram que, praticamente sós, iniciar e manter por longo período o combate a mais um dos flagelos que tão frequentemente os assolavam, enfrentando carência de abastecimento, munições e armamentos, às vezes comprados com seus soldos. 

As forças que combatiam o cangaço se compunham de unidades móveis denominadas "volantes", as quais realizaram verdadeira epopeia, anos a fio, em esgotantes travessias do sertão de vários Estados nordestinos. Entretanto, são hoje cada vez menos compreendidas em seu papel. Também a opinião popular, que exaltava os feitos de bravura da Polícia, do mesmo modo tendia a depreciá-la, fornecendo errôneas explicações da razão de ser da vida de bandoleiro de Lampião, como nos versos seguintes:

"Assim como sucedeu
Ao grande Antônio Silvino
Sucedeu da mesma forma
Com Lampião Virgulino
Que abraçou o cangaço
Forçado pelo Destino... 
Porque no ano de Vinte
Seu pai fora assassinado. . ." (2)

Certamente houve atos impensados por parte de policiais, mas não foram comuns e geralmente ocasionados pelas contingências da luta. A dureza da campanha e as condições em que se desenrolaram os combates podem explicar algumas dessas atitudes. Não se pode esquecer o indescritível desgaste físico provocado pelas marchas prolongadas e pelas emboscadas associadas à sede e à fome no semi-deserto sertanejo. 

A enorme dedicação dos soldados visava a que seus contemporâneos um dia usufruíssem da tranqüilidade desejada. Muitos moços perderam a vida, outros a saúde física e mental; os verdes anos da juventude foram irremediavelmente gastos na luta. Apesar de tudo o que se diz, as pessoas de bem tinham confiança na atuação dos policiais. Isso é o que não pode ser omitido. Os erros de poucos não podem turvar a atuação de valorosos combatentes. Os que viveram os dias difíceis daquela época não poderiam mais calar ante as injustiças cometidas pelos que tentaram enlamear o sacrifício dos bravos componentes das Forças Volantes."

Do depoimento de Manoel de Souza Ferraz (Manoel Flor) 

Raul Meneleu, pesquisador, escritor
Conselheiro Cariri Cangaço, Aracaju SE
Fonte:http://meneleu.blogspot.com.br/

Sila e o Cangaço que Todos Conhecemos Por:Alfredo Bonessi

Alfredo Bonessi

O Cangaço foi um fenômeno social que teve como berço o sertão Brasileiro. Originou-se logo após o descobrimento do Brasil e germinou nas cidades interioranas do Nordeste Brasileiro,  onde a lei era a vontade do mais forte, o  senhor dono das terras. Esse fenômeno surgiu como um grito de revolta e indignação aos desmandos desse poder absoluto,  que estava acima de todos e até mesmo da própria lei – pode-se dizer que o Cangaço foi uma revolta de homens valentes contra as formalidades  sociais da época – insurretos – insubordinados contra as normas vigentes de uma sociedade em transição entre a burguesia portuguesa escravocrata e preconceituosa  e o pobre sertanejo de enxada na mão, escravo da fé, do dogma religioso,  da superstição,  vítima da natureza inclemente que não aceitava a intromissão  de pessoas frágeis, sem vontade de viver e fáceis  de matar.  

O Cangaço foi composto por gente sertaneja, da terra, que nada temia, nem mesmo a morte. Não se tem noticias que  um Cangaceiro não tenha se comportado com valentia e dignidade na hora da morte, mesmo ferido e sabendo que a hora derradeira havia chegado.

Na guerra contra o  Cangaço valia  tudo, e nunca na história das sociedades a fofoca matara tanta gente. Bastava falar mal de um inimigo, inocente ou não, tanto para a polícia  como para os cangaceiros, que seria morte certa dessa pessoa.

O Cangaço como todo o movimento social fora-da-lei cometeu exageros e crimes hediondos, a maioria injustificáveis, às vezes contra pessoas inocentes, algumas delas a serviço da lei, como prova de desacato e provocação a corporação a que serviam.

Sila ao lado de seu companheiro Zé Sereno e grupo

O Cangaço começou a definhar quando atrapalhou o comercio, impedindo o progresso local, e quando surgiram as estradas e o rádio de comunicação, quando veículos motorizados foram empregados em sua perseguição e quando sertanejos foram colocados como guias a frente  das volantes a procura dos cangaceiros. Podemos afirmar que Lampião, principal chefe de bando e considerado o Rei dos Cangaceiros, morreu sem saber da tática principal da policia que acabaria o levando a morte:

-  a intriga entre um coiteiro e outro;
- quando a policia descobria um coiteiro, o deixava de molho, a espera de uma boa oportunidade para agir contra ele, normalmente o aliciava como informante, ao invés de puni-lo com a chibata e a tortura;
- o cerco de várias volantes ao mesmo tempo, se reunindo em um lugar pré-determinado pelo comandante - chegando ali recebiam novas ordens e novos itinerários de busca;

Essa estratégia, uma nova forma de combater,  longe dos olhos dos coiteiros, fazia com que os informes dos movimentos da policia  que chegavam a Lampião eram aqueles que a policia desejava que ele  soubesse, mas não eram verdadeiros,  o único objetivo era deixar transparecer que a força estava inativa, inoperante, estava acomodada, quando na verdade mais de 3 mil homens se movimentavam sem cessar, diuturnamente, fechando o cerco contra o bando de cangaceiros.

Muitos chefes de bando e historiadores culpam as mulheres como o principal fator de extinção do Cangaço – na minha ótica, a mulher favoreceu ao afrouxamento das regras de sobrevivência do cangaço, por questões obvias: elas não combatiam, não cozinhavam, eram mais sensíveis e delicadas,  simplesmente eram mulheres mesmo do pessoal e por tudo isso o bando precisava  sempre andar beirando a água, sejam  nascentes ou rios ou caldeirões de água depositadas pela chuvas.

Nenem de Luiz Pedro, Maria Bonita

A presença da mulher foi marcante no bando dos cangaceiros porque o número de estupros das sertanejas diminuíram;  muitas mulheres do bando mandavam mais que os homens, davam as suas opiniões pessoais nas questões internas do grupo, salvaram pessoas da ponta do punhal, e foram algozes na  condenação de outras cangaceiras a morte, nos casos de saídas do bando. Pode-se dizer que com a chegada das mulheres a tenacidade guerreira do grupo de cangaceiros arrefeceu um pouco, os homens se acalmaram mais – o bando virou um feudo do crime, onde havia rei e rainha, quem mandava e quem obedecia; todos os olhares e toda a consideração eram  para as mulheres, principalmente a mulher do chefe. 

Os homens eram ferozes, valentes, justiceiros, guerreiros, altivos, prepotentes, arrogantes, mandões, para os de fora do bando, mas dóceis, afáveis, atenciosos, cortejadores, galantes para com as suas mulheres – as mulheres eram para eles um precioso objeto, um bem valioso, mais que a sua própria vida – a mulher representava  a  honra, o  status, o  poder de seu dono -   por isso era  coberta de jóias - era o centro de todas as atenções  por parte dos membros do grupo – por causa disso  a cangaceira  era o alvo preferido das piadas e descompostura dos policiais durante os combates.

Enedina e Sila na época do cangaço

Sila era uma criança quando se comprometeu que seguiria com o cangaceiro Zé Bahiano, mas  acabou fugindo de casa com  Zé Sereno, primo desse. Em termos de sanguinário e violento não se sabe quem era o maior, mas quando os comparamos ao dinheiro e  a agiotagem,  Zé Bahiano era infinitamente mais rico que Zé Sereno. Sila alegou sempre para a imprensa que a entrevistava,  que seguiu Zé Sereno porque esse ameaçou toda a sua família – não acreditamos nisso. 

O fato é que esses cangaceiros deixavam transparecer uma riqueza e um poder que só existia na mente deles, simplesmente impressionava as mocinhas da época, que viviam em completa servidão na casa dos pais, longe de tudo e que precisavam sobreviver da roça queimada pelo sol, da escassa chuva quando havia, nutrindo a esperança de ver  qualquer um   homem  que raramente  passava pela frente de sua casa. Normalmente a vida da sertaneja se resumia entre a roça e o curral, a cozinha, e as noites enluaradas, onde  contemplava as estrelas do firmamento, deixando-se embalar pelos  devaneios dos causos e das historinhas contadas pela avó e pela mãe – até que o sono as separavam em mais uma noite de sonhos e de ilusões.

Ex-cangaceira Sila, em foto de década de 90

Acertada a fuga,  Sila saiu pela janela de sal casa e logo adiante, na primeira noite,  foi estuprada em cima de uma enorme pedra -  foi mulher como devia ser a mulher de um cangaceiro – escolha feita por ela, fato esse marcante para sua mente juvenil de 14 anos, e que nunca mais saiu de sua memória. Daí por diante foram  correrias, fugas espetaculares da polícia,  noites mal dormidas, chuva, frio, fome, sede e abortos provocados,  algumas raras vezes o sossego a beira de uma fogueira, os encontros com os outros bandos, a carne assada nas trempes, o café delicioso  e o dedo de prosa com as amigas, as costuras e os bordados das roupas do pessoal e o preparo do enxoval do novo filho. 

Mas amor de sonho de menina nunca houve – Zé Sereno tinha muita coisa para se preocupar – precisava viver daquilo e sobreviver como fera em um  ambiente hostil e ainda ludibriar a polícia – dependia do coiteiro para tudo – o cangaço era movimento  e o grupo de cangaceiros, chefiado por ele,  não podia ficar parado em um só lugar. Viver aquela vida,  que não era vida e que não podia deixar de vive-la, foi um tormento para Sila.

Pesquisador Alfredo Bonessi

Ao romper do dia naquela manhã de 28 de julho de 1938 estava acordada quanto um tiro isolado despertou a natureza na Grota de Angicos – Sergipe. Em seguida mais tiros,  levantou-se rapidamente e saiu  correndo em uma direção seguida de alguns companheiros. Balas ricocheteavam por todos os lados, a macega espinhenta se dobrava a sua frente pelo corte dos projéteis. Não teve tempo de olhar para atrás . Viu uma amiga cair morta,  amparou um cangaceiro que estava com o braço dependurado e quando os tiros ficaram mais longe se reuniu com os sobreviventes do grupo de cangaceiros para tomar um fôlego – estava milagrosamente  salva, mas toda lanhada nas pernas pela ação dos espinhos da caatinga.    

Depois vieram  as entregas – rendição para a policia – a viagem a São Paulo – o encontro com a cidade grande, berço de recolhimento de todo retirante nordestino. Seria nova vida ? – não foi. Apesar de ir fazer aquilo que mais gostava – costurar – sofreu  os efeitos que uma cidade grande provoca em todos os seus habitantes: a indiferença. Em um aglomerado urbano de milhões de pessoas, a atenção, o carinho e a afeição passam despercebidos,  de nada valeria gritar para a multidão que foi cangaceira.  Restou  criar os filhos e netos e conviver com o marido feroz e violento.


Em dado momento ressurgiu para as noticias de jornais, rádios e TVs onde tentava explicar o inexplicável: como foi que entrou para o cangaço. Viajou para muitos lugares, encontrou-se com outros remanescentes do cangaço – todos tinham algo a contar e a explicar, mas a grande maioria confundia datas e fatos, alguns escondiam mal feitos, outros não se lembravam de nada, mas grande parte deles  guardavam  silencio, ainda receosos da ação da justiça e da vingança por parte dos familiares das vítimas do cangaço.

Muito se tem escrito sobre  a guerra cangaceira – muito ainda se há de escrever – o tema é inesgotável. Sobreviveu a terra, o sol,  a caatinga. Ainda hoje o chão está marcado pelo  sangue dos policiais e dos cangaceiros – ainda hoje se pode ver as marcas das balas encravadas nas pedras e nos matos – ainda hoje os espíritos desses guerreiros se encontram nos caldeirões, nas aguadas da vida espiritual  para trocarem pensamentos dos feitos da guerra cangaceira  vivida na  terra.

Para o sertanejo nada mudou. A terra é a mesma, a política é a mesma, o gado morre do mesmo jeito, o sertanejo anda de moto, usa iPhone e possui computador. Em cada sertanejo de hoje existe um pouquinho de cangaceiro e um pouquinho de volante – e o pior bandido de todos que existe nesse momento são os políticos – com uma grande diferença dos guerreiros daqueles tempos – agem em nome da legalidade e são protegidos por lei.

Resta-nos  trazer aqui as palavras finais do grande chefe volante, Coronel João Bezerra,  que eliminou o Rei dos Cangaceiros, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião: "Hoje eu não perseguiria Lampião. Hoje eu acho que ele não era bandido. Hoje existem bandidos bem piores do que ele".

Alfredo Bonessi
Pesquisador do Cangaço