Lampião, Corisco e os Nazarenos Por:Raul Meneleu

Sub grupo de Corisco

No ano de 1931 Lampião já usava sua mais contundente forma de estratégia para deixar seus inimigos em confusão, a divisão do bando, comandados por homens traquejados na luta de guerrilha e que eram a nata do cangaço junto com ele; Corisco, Mariano, Zé Baiano e Labareda.

Lampião está cada vez mais belicoso e destrói em vingança muitas fazendas do coronel Petronilo de Alcântara Reis, - aquele que recebera o cangaceiro em suas terras, de ‘olho interesseiro’ no dinheiro que trazia - por conta da traição que este lhe fizera, quando para justificar-se do coito que dera aos cangaceiros perante as autoridades baianas, sugeriu que o governo da Bahia voltasse a permitir as volantes nazarenas - que o mesmo tinha proibido de entrar em território baiano, por causa da forma de agir quando agredia e torturava os sertanejos procurando pistas de Lampião.

Diante desses ataques e mortes, os grandes fazendeiros fazem pressão e o governo baiano atende o pleito e permite a volta das tropas do Estado de Pernambuco. A primeira volante a entrar em território baiano é comandada pelo tenente Manoel de Souza Neto com seu sargento David Jurubeba, e formada por jovens guerreiros; inicia-se a caçada ao Rei dos Cangaceiros, desta feita, por homens comprometidos em juramentos de vingança pelos malfeitos praticados por Lampião, às famílias nazarenas, aliados ao espírito de justiça.

Nazareno, Manoel Neto

Ávidos para encontrar e destruir Lampião, a volante cruza o rio São Francisco e inicia sua missão penetrando nas terras devolutas do Raso da Catarina, onde até os mais calejados sertanejos tinham receio de entrar, e no dia seis de setembro de 1931, a pequena força já dá combate aos grupos de Lampião e Corisco na fazenda Aroeira, não muito distante da atual cidade de Paulo Afonso.

Em seu livro CORISCO A Sombra de Lampião*, o autor Sérgio Augusto de S. Dantas conta que entrevistou um dos participantes desse embate, João Gomes de Lira, que recordava bem esse dia, quando em entrevista lhe disse:

"A tropa da qual eu fazia parte estava arranchada na Aroeira, descansando da longa viagem. Ninguém percebeu quando lampião se aproximou e ficou com alguns homens por trás de uma cerca da fazenda. Em dado momento, David Jurubeba se dirigiu a umas fruteiras que tinha ali por perto. Quando David chegou perto das árvores, e começou a olhar se tinha frutos, Lampião já estava deitado no chão, preparado para atirar".

Inicia-se o embate, e só mesmo a sorte do sargento David Jurubeba faz que o tiro não o atinja, pois Lampião era exímio de pontaria. Não deve ter sido um combate prolongado, Lampião estava apenas com o subgrupo de Corisco e como era de costume, quando notava que estava em desvantagem, sumia e deixavam seus combatentes atirando a esmo. Nisso Corisco em sua fuga, aproxima-se de onde o tenente Manoel Neto encontrava-se, mais abaixo do local do embate e não percebe de imediato sua presença. Um soldado ver e logo atrás atira e dá início a um segundo combate. Após os primeiros disparos, as provocações de costume:

-Estou brigando com quem? Grita Corisco.
-Com a volante do tenente Manoel Neto. E quem é você, cabra de peia? - indaga o oficial.
-Sou Corisco, bando de macaco safado. Se prepare para correr, tenente filho de uma puta!

Por certo a resposta a esse impropério não ficou de graça.
Identificados os contendores, a briga continua. O tenente atira e avança, enquanto o cangaceiro responde aos disparos, a curta distância. 
Corisco como era de seu feitio, grita, insulta, com agilidade dá pulos para os lados e gira em torno de si mesmo. Era mesmo um demônio que assustava aqueles que não estavam preparados para a luta. Em pouco o silêncio se instala. A tropa pernambucana fica brigando sozinha. Corisco, como do nada, desaparece em meio à caatinga.

Era mesmo a sombra de Lampião.

Raul Meneleu Mascarenhas, pesquisador e escritor
Conselheiro Cariri Cangaço - 
Fonte:http://meneleu.blogspot.com.br/

Wilson Seraine Chega ao Cariri Cangaço Exu em Julho

Professor Wilson Seraine

O mais importante quando nos debruçamos sobre um Projeto, um Empreendimento, uma Realização, é, além do planejamento sério, dedicado, responsável, trabalho árduo, é também sem dúvidas externar o nosso verdadeiro sentimento. O Cariri Cangaço chega a Exu, terra e berço do Grande Luiz Gonzaga. Em Exu, no lado pernambucano da magnifica Chapada do Araripe, estamos realizando entre os dias 20 e 23 de Julho mais um grande evento com a marca e mais que isso, com o sentimento que norteia o Cariri Cangaço: Paixão pela memória e história do sertão.

Os temas: As brigas entre os Alencar, Saraiva e Sampaio, o Fogo da Ipueira dos Xavier, a inigualável Bárbara de Alencar e sem dúvidas o maior de todos os ícones da cultura nordestina: Luiz Gonzaga. E para continuar perpetuando a figura e a obra de "Seu Luiz" o Cariri Cangaço começa a formar um grande time. Depois de Kydelmir Dantas, Joquinha Gonzaga e Paulo Vanderlei, mais um grande nome: Wilson Seraine da Silva Filho.

Seraine e o Espaço Luiz Gonzaga

O grande Seraine; professor de física, radialista, empresário e colecionador; radicado em Teresina, Piauí, é sem dúvidas um dos mais destacados e respeitados pesquisadores da vida e obra de Gonzaga, paixão à qual se dedica há quase vinte anos, montando em sua residencia uma coleção invejável de objetos ligados ao Rei do Baião, é o Espaço Cultural Luiz Gonzaga. Seraine também mantém o festejado programa de rádio "A Hora do Rei do Baião" na FM Cultura de Teresina e realiza anualmente a Procissão da Sanfona, sempre em 2 de agosto, data que em celebra a morte de Luiz Gonzaga e é o Presidente da I Colônia Gonzaguena do Brasil.

O Cariri Cangaço Exu acontece entre os dias 20 e 23 de Julho de 2017, tendo como anfitriões os municípios de Exu e Serrita, em Pernambuco. Para o Curador do Cariri Cangaço, Manoel Severo, "estamos realmente comprometidos em realizar um evento único. O compromisso de toda a equipe organizadora, Bibi Saraiva, Rodrigo Honorato, Helenilda Moreira, enfim; o apoio dos grupos de estudos: SBEC, GECC, GPEC e GFEC, e a montagem de um grande time a começar com Kydelmir Dantas, Paulo Vanderlei, Joquinha e agora Seraine, dentre muito outros que estaremos confirmando ao longo deste mês, farão do Cariri Cangaço Exu um evento sensacional".

Cariri Cangaço
08 de Fevereiro de 2017
Fortaleza, CE

Vem aí...

A Rua dos Coiteiros Por:Sálvio Siqueira

Junior Almeida, Manoel Severo, Sálvio Siqueira e Ana Gleide no lançamento de As Cruzes do Cangaço em Floresta.
Naquele tempo, para sobreviver às inúmeras perseguições das volantes, Lampião arquitetou uma enorme e eficiente ‘malha’, rede, de colaboradores. Essa rede se fazia necessário para aquisição de material bélico, alimentação, vestimentas e, o mais importante, informações. Que, vira e mexe, O “Rei dos Cangaceiros” usava os ‘informantes’ para passarem a ‘desinformação’. Uma espécie de espionagem e contra espionagem na caatinga sertaneja.
O roceiro tinha que ser coiteiro, não simplesmente por ser. Havia o medo do que poderia lhe ocorrer, assim como a sua família, se se recusa ser colaborador. Tinha lá suas vantagens em ser colaborador do ‘Capitão’. A vida não era, e não é fácil para quem vive exclusivamente dos produtos retirados das pequenas propriedades. Pior ainda, quando o mesmo com sua família, era morador de uma fazenda. Às vezes o dono sabia, consentia e mandava seu ‘morador’ acolher e alimentar os grupos quando por suas terras passavam. Outra era só o colaborador quem sabia da passagem e estada deles naquelas brenhas. 

A partir do momento em que ele matava a sede e a fome de algum cangaceiro, leva ou trazia algum recado, passava a ser colaborador, mesmo que nunca mais se repetisse esses atos. Aí vinha a dureza imposta por aqueles que os perseguiam, por ele ter dado água aos cangaceiros, eram, quando descobertos, presos, maltratados e até assassinados. No entanto, haviam aqueles que colaboravam por recompensas em dinheiro, favores e proteção, dependendo da sua colocação na pirâmide de colaboradores, se estavam na base, no meio ou no topo da mesma.
Certa feita, uma volante comandada pelo Anspeçada Sinhozinho, Manoel Gomes de Sá, rastreava os sinais deixados por dois cangaceiros, que tinham estuprado uma mulher em uma fazenda da região, no leito e margens de um riacho temporário no sertão do Pajeú. Próximo às margens dos riachos e rios, era o local preferido onde os sertanejos procuravam levantarem suas taperas para morarem. Entretidos em decifrar e seguir o que os sinais ‘diziam’, os homens da volante nem percebem que estavam bem perto de uma casa.
Na casa, os dois foragidos, cangaceiros Zé Marinheiro e Sabiá, tinham matado sua sede e estavam a prosear embaixo de uma latada, quando, de repente, o dono da casa e sua esposa avisam aos dois da aproximação de soldados. Acredito que os cangaceiros que ali estavam, pensaram serem poucos os homens em seus rastros, pois um deles, Zé Marinho, faz pontaria e abre fogo contra aquele que estava na linha de tiro.
O som do disparo, repentino àquelas horas e naquele silêncio da mata, não deixa os soldados atinarem o ponto correto de onde tinha partido o mesmo. O tiro teve endereço certo. Acertou o ouvido do militar e esse morre mesmo antes de chocar-se contra o solo seco do sertão. Demorados alguns instantes, a volante, já consciente do que ocorrera, manda bala em direção oposta de onde viera o disparo.

Embaixo da latada onde estavam os cangaceiros, havia um pilão de madeira, e após matar o soldado, é exatamente onde o cangaceiro Zé Marinheiro se protege dos disparos dos soldados, os quais retiram lascas da madeira e fazem o cabra escutar o zunido do projétil tomando outra direção, ou mesmo aquelas que penetram e se alojam no velho objeto de pilar milho e outras culturas.

Vendo o companheiro tombado, seus companheiros procuram cercar o local o mais fechado e rápido que poderiam. Aquele que matara seu companheiro não podia escapar da sua sentença. E acocham cada vez mais o círculo da morte. Vendo que estavam cercados, os dois cabras pulam para dentro da casa do roceiro, e, de lá, dão combate a volante.
Essa casa era d’um caboclo trabalhador, conhecido como Garapu. Casado com dona Carmina, geraram oito herdeiros. Quando os cangaceiros adentram na casa, sua companheira procura proteger sete, de seus filhos, colocando-os em lugar seguro. O caboclo tinha algum dinheiro, provavelmente ganho dos cangaceiros, pega seu ‘tesouro’ e o coloca entre uma telha e outra. Essa ação não passa despercebida por sua esposa, que naquela hora, lembra-se de seu primogênito que tinha ido fazer compras na vizinhança. O filho mais velho daquele casal estava mais perto do que ela, sua mãe, imaginava. Viajando montado em uma burra, já na volta de sua viagem, escuta o tiroteio vindo das bandas de sua casa. Salta do animal e procura uma moita como esconderijo, vendo o que se passava com sua família.

Soldados atacam, cangaceiros se defendem. Num momento infeliz, o comandante da volante passa diante de uma das janelas da casa, e, nessa estava o cangaceiro Sabiá, que sem demora, faz mira e abre fogo contra ele. O tiro e certeiro, levando a mais uma baixa na volante. Após a morte do comandante, vários de seus comandados não conseguem segurar o fogo. Dentre eles, estava o soldado Zé Tinteiro, valente e destemido, segura seu fuzil e combate os inimigos com maior afinco.
Outro volante, Zé Freire, homem de um Santo Protetor fora do comum, estava tiroteando contra Zé Marinheiro. Esse, salta por sobre a porta de baixo, as portas da maioria das casas do sertão rural e mesmo nas cidades, naquela época, eram em duas partes e de madeira, e avança, ficando a centímetros de Zé Freire. Aponta a arma e aperta o gatilho. À bala impina, a espoleta não ‘quebra’, a arma não dispara. Zé Freire, quase que encosta a boca do fuzil na cabeça do cabra e faz fogo, estourando o crânio de Zé Marinheiro.
Seu companheiro, o cangaceiro Sabiá, continua a combater os soldados, virado numa fera ferida. Numa tentativa de louco, salta para fora da casa e nesse momento e atingido na barriga e em uma das pernas. Continuando a combater os soldados bolando pelo terreiro da casa. Até que os dois valentes volantes se aproximam e matam o terrível cangaceiro.
Após abater os cangaceiros, a tropa aproxima-se da casa e o soldado Zé Freire grita para que o dono saia para o terreiro... para morrer.
“(...) o soldado Zé Freire, revoltado com a morte do Aspençada Sinhozinho Gomes e dos outros dois companheiros, gritou para Garapu, dizendo: – Saia pra fora, Garapu. Você tá sabendo que vai morrer (...).” (“AS CRUZES DO CANGAÇO – Os fatos e personagens de Floresta-PE” – SÁ, Marcos Antônio de. e FERRAZ, Cristiano Luiz Feitosa. Floresta, PE. 2016)

O coiteiro sabia sim sua sentença. Sabia que por ajudar bandidos seria condenado a morte certa. Estando dentro de um quarto, com sua esposa e os sete filhos, Garapu despede-se deles, saca de uma faca peixeira e parte de encontro a morte. Desfere um golpe em direção ao soldado que havia lhe inquirido, errando o alvo. O soldado Zé Feire, afasta-se para um lado e mata a tiros de revólver o coiteiro.

“(...) Com a morte de Garapu, Carmina teve que lutar sozinha para criar os filhos, lavando roupas de vizinhos, costurando e cuidando da lavoura(...).” (Ob. Ct.)
Dona Carmina, na época do tiroteio em sua casa, estava grávida. Alguns meses depois, pariu uma menina a qual deu o nome de Nair Carmina da Silva. Logicamente, essa, nunca soube o que é ter um pai, seus afagos e conselhos.
Os corpos dos militares mortos são levados pelo restante da tropa para seu QG. O corpo do caboclo Garapu e dos dois cangaceiros, Zé Marinheiro e Sabiá, são enterrados em uma vala comum bem próximo a casa.
As notícias voam com o vento. E aquela história da morte do caboclo Garapu se espalhou por toda a região do vale do Pajeú. Outros coiteiros, temendo a mesma sina, arrumam suas tralhas em cima de carro de bois, no lombo de animais e dão no pé. Na cidade de Floresta, PE, na rua Theófhanes Ferraz Torres, os fazendeiros “Manoel Januário, Rosendo Januário e Elói Januário", colaboradores de Lampião, estabelecem residência. A partir daí, essa rua passa a ser conhecida como “A Rua dos Coiteiros”, até os dias de hoje.

Sálvio Siqueira, pesquisador do Cangaço.
Grupo Ofício das Espingardas

Fonte (“AS CRUZES DO CANGAÇO – Os fatos e personagens de Floresta-PE” – SÁ, Marcos Antônio de Sá - Marcos De Carmelita e FERRAZ, Cristiano Luiz Feitosa -Cristiano Ferraz. Floresta, PE. 2016)Foto Ob. Ct.

A Saga de Chico Chicote e o Fogo das Guaribas Por:Manoel Severo


Todos que pesquisam o fenômeno do cangaço, dedicam boa parte de suas vidas à intermináveis andanças nordeste à dentro e a fora; depoimentos, lembranças, mistérios, risos, lágrimas e muitas histórias, acabam sendo fundamentais na construção da memória daquele que foi um dos mais marcantes períodos de nosso sertão. Emoções se repetem a cada nova empreitada, amigos se reúnem, planejam, estudam, especulam, se cercam de cuidado, zelo e determinação, ao final: Fragmentos da história da vida de um tempo e de um lugar, começam a se formar.

Hoje trazemos mais uma vez um dos episódios mais marcantes da historiografia do cangaço...Uma das maiores tragédias acontecidas no sertão do Cariri foi sem dúvidas a que tombou um dos homens mais destemidos e valentes de toda região: Francisco Pereira de Lucena, o famoso Chico Chicote. Nascido em 7 de janeiro de 1879, filho mais jovem do Capitão Francisco Pereira de Lucena , se destacava dos demais irmãos pela rebeldia e total desapego á autoridade constituída. Homem de reconhecida força física, chamava a atenção por sua altura e feições alvas, e ainda, pela maneira de falar: falava sempre muito alto, quase aos gritos . Era uma figura singular e que só com o fato de sua presença, já incutia medo às pessoas.

Chico Chicote era tido como desordeiro contumaz; quando bebia quase sempre acabava se envolvendo em problemas. Por seu temperamento difícil ,já tinha sobre seus ombros vários crimes e um número sem fim de inimigos. Dentre esses se destacava a família Salviano, mentora da tragédia de Guaribas.Entre Chico Chicote e Lampião sempre houve um respeito mútuo , apesar da distância; Lampião que até ali não tinha inimigos no estado do Ceará, acabou sendo o álibi perfeito para o início da trama que daria cabo a vida de Chico Chicote.

Flagrantes de Visitas do Cariri Cangaço a Guaribas de Chico Chicote

Virgulino sempre que passava pelas terras do cariri cearense, vinha pelos lados de Jati, Porteiras, Brejo dos Santos , Jardim e Missão Velha, para as paragens do poderoso Cel Santana, da fazenda Serra do Mato. Em uma dessas oportunidades seus cabras acabaram matando e se alimentando de animais do rebanho do também coronel Pedro Martins de Oliveira Rocha, da fazenda Cacimbas de Brejo dos Santos. Diante do acontecido o líder cangaceiro mandou informar ao referido coronel que o autor do morticínio de seus animais teriam sido homens de Chico Chicote e não de seu bando.

Ato contínuo o Coronel Pedro Martins mandou chamar  à sua fazenda , Chico Chicote, que refutou as acusações, desmascarando a acusação infundada lhe imputada por Lampião. A partir dali nascia mais um inimigo de Virgulino Ferreira; o primeiro em terras do cariri cearense. 

Mesmo depois do incidente; pelo menos por duas vezes os coronéis do cariri tentaram a aproximação de Chico Chicote e Lampião; uma das vezes o próprio coronel Pedro Martins através de seu genro, Antonio Xavier, quis promover este encontro na fazenda Crioulo, também em Brejo dos Santos, Chico Chicote lá não apareceu. A outra oportunidade foi na Fazenda Serra do Mato do Coronel Santana, quando ao saber que ali se encontrava Sabino Gomes, Chico Chicote não desceu nem de seu cavalo. Era do conhecimento de todos a rixa entre os dois; entretanto foi a partir dessa rixa que se arquitetou o trágico fim de Chico Chicote.


Quando nos aprofundamos no episódio da morte de Chico Chicote, começamos a desvendar os meandros da  selvagem política dos primeiros anos da república velha. Na verdade uma espetacular trama envolvendo correntes políticas de alguns das principais cidades do cariri, viriam trazer um tempero especial ao combate de Guaribas. Explico: O irmão de Chico Chicote, era o prefeito de Brejo Santo, Quinco Chicote, e por muitas vezes precisou usar toda a força política e ainda amargar alguns desabores em função da ação truculenta do irmão rebelde. Em determinado momento lideranças de Brejo Santo enviaram telegrama ao Presidente do Ceará; Moreira da Rocha; com queixas contra Chico Chicote, e pediam providências às forças do estado. Ato contínuo o mandatário maior do estado designou a volante do tenente José Bezerra, estacionada em Jardim, para atender ao pleito lhe enviado.

Monumento em memória de Antônio Gomes Granjeiro

Na verdade começava ali o esboço de uma das maiores atrocidades da história do cariri. É importante mostrar outros personagens; ou, vítimas; desse bem tramado plano. Primeiro vamos nos deter em Antônio Gomes Granjeiro, de tradicional família sertaneja e amigo fiel de Chico Chicote; sua propriedade, o sítio Salvaterra; seria  a primeira parada da volante assassina de José Bezerra. O Tenente havia partido de Brejo Santo dizendo aos quatro ventos que iria em perseguição a Lampião, que de fato se encontrava ali perto, também na Serra do Araripe; Entretanto naquela madrugada do dia 1 de fevereiro de 1927, a volante seguiu direto para o sítio Salvaterra, com o intuito de efetivar o primeiro "acerto" daquela fatídica empreitada: Matar Antônio Gomes Granjeiro; crime encomendado pela família Salviano, inimiga de Chico Chicote e que se encontrava sob a proteção do poderoso Zé Pereira de Princesa.

Cercaram a casa de Antônio Gomes Granjeiro pouco antes do alvorecer, dali levaram o dono da propriedade e mais os companheiros, Louro, Joaquim de Barros e Aprígio, todos violentamente mortos, degolados e queimados, a poucos quilômetros de Guaribas. A primeira etapa da empreitada a que foi contratado Zé Bezerra, estava cumprida.

Mais uma vítima seria assassinada covardemente pelas costas nesta manhã tenebrosa de fevereiro, no cariri cearense. Antônio Marrocos (foto ao lado), o Nêgo Marrocos, era cobrador de impostos em Macapá, atual Jati, na época município de Jardim. Ali mantinha antiga rixa com lideranças políticas locais que aproveitaram a oportunidade para também "peitarem" o tenente Zé Bezerra e acabar com a vida do referido inimigo. Depois de passarem no Salvaterra, foram a casa de Marrocos e praticamente o induziram a acompanhar a malta "oficial" até a propriedade de Chico Chicote, uma vez que o mesmo mantinha boas relações com Marrocos. Era o começo da manhã daquele dia e ao se aproximarem de Guaribas, Zé Bezerra deixou o grosso da tropa, composta por cerca de 70 homens e partiu junto com Marrocos, o tenente Veríssimo e com o sargento Antônio Gouveia e ainda o corneteiro Louro, de encontro a Guaribas.

Quando os moradores de Chico Chicote avistaram o pequeno grupo, avisaram ao patrão: "É o Nêgo Marrocos!" Naquele momento o segundo "acerto" da empreitada seria efetivado: O tenente Veríssimo imediatamente disparou um tiro de revolver nas costas de Antônio Marrocos, que ainda permaneceu vivo por algumas horas no cenário do grande combate. Ao ouvir aquele primeiro tiro, Chico Chicote voltou rapidamente com os seus para dentro de casa; começava ali um dos mais ferozes combates da era do cangaço, em terras cearenses.

 Guaribas, testemunha muda da selvageria do sertão...

A manhã daquele primeiro de fevereiro de 27, avançava nas Guaribas. A força comandada pelo tenente José Gonçalves Bezerra, após o assassinato do grupo de Antônio Gomes Granjeiro em Salvaterra e Antônio Marrocos no terreiro de Chico Chicote, iniciava um dos mais terríveis cercos da história do cangaço.

De dentro de casa, acompanhado apenas pela esposa, Dona Geracina, da filha Josefa, do filho Vicente Inácio, e os cabras Sebastião Cancão e Mané Caipora; Chico Chicote numa das resistências mais célebres do sertão, sustenta uma verdadeira chuva de bala de seus oponentes, que mantinham Guaribas quase que totalmente cercada.

O tenente Zé Bezerra ordena avançar e antes mesmo que o corneteiro Louro pudesse fazer soar o instrumento, foi mortalmente atingido por um balaço vindo da arma de Sebastião Cancão. A fuzilaria se fazia ouvir por todos os recantos daquele sovaco de serra; Lampião estacionado a poucas léguas dali, no local chamado Malhada Funda, na serra do Araripe, ouviu o combate, mas não daria retaguarda a um inimigo confesso: Chico Chicote.

 Cariri Cangaço em Guaribas...

A refrega continuava feroz, de dentro da casa a reação dos sitiados era impressionante, chegando a dá a impressão que havia um verdadeiro exercito na defesa; dona Geracina e a filha Josefa se desdobravam na refrigeração e carregamento das armas; do lado de fora, dois moradores de Chico Chicote, Zé Francisco e Fiapo; chegavam e davam uma retaguarda, atacando a força volante pelos flancos e conseguindo algumas baixas na tropa de Zé Bezerra.

Na vila de Porteiras a repercussão do cerco a Guaribas já havia chegado. Os muitos amigos de Chico Chicote se organizaram para auxiliar na defesa do lugar, achavam que o mesmo estava sendo atacado por Lampião e seus homens e partiram para as Guaribas para atacar o cangaceiro. Eram dez horas da manhã quando o grupo partiu de Porteiras, entre os cerca de 50 homens sob o comando do cabo Cesário,dentre esses, um grande amigo de Chico Chicote, Antônio da Piçarra.

O grupo de Porteiras sustentava o fogo na defesa de Chico Chicote, pelas quatro da tarde o fogo recuou um pouco e Antônio da Piçarra chamou Chico Chicote para romper o cerco e vir se refugiar ao lado da tropa, no que foi rechaçado pelo sitiado, ele ficaria ali até a morte.

Uma hora depois, outro componente do plano , se evidenciaria. Chegava no campo de batalha a volante pernambucana de Arlindo Rocha e  a volante paraibana do tenente João Costa; a esses se somavam homens do poderoso Zé Pereira (foto ao lado), comandados por Sinhô Salviano, terrível inimigo de Chico Chicote e protegido do coronel de Princesa. Com a chegada do reforço das volantes o fogo intensificou, já eram mais de 10 horas de combate ferrenho, àquele momento o grupo de Porteiras percebeu que combatia forças policiais e não o bando de Lampião, supostamente atacante das Guaribas; ali, o grupo recuou e acabou deixando Chico Chicote entregue a seu próprio destino.

Depois de um fogo cerrado de 31 horas de bala e com apenas Manel Caipora, Sebastião Cancão e Vicente Chicote, cai a resistência de Chico Chicote que é encontrado morto, ainda em posição de tiro. Virgulino a tudo ouviu, pois estava a pouco menos de uma légua do acontecido, mas não participou: “Se fosse amigo ia da uma retaguarda...” teria afirmado o rei dos cangaceiros.

Manoel Severo
Curador do Cariri Cangaço
Fontes - Revista Itaytera  Volume 16 - Otacílio Anselmo; Cordel - A Tragédia das Guaribas, Maria do Rosário Lustosa da Cruz; entrevista Memorialista Napoleão Tavares Neves.

Alcino Alves Costa Por:Rangel Alves Costa


Alcino Alves Costa. Filho de Emeliana Marques da Costa e Ermerindo Alves Costa, Alcino nasceu em Poço Redondo a 17 de junho de 1940 e faleceu no dia 1º de novembro de 2012, aos 72 anos. Foi político (prefeito por três vezes em seu município), pesquisador, compositor, radialista, escritor e palestrante. Era conhecido e prestigiado não só em Sergipe, mas em todo o Nordeste e além-fronteiras, principalmente pela sua obra acerca do fenômeno cangaço.

O “O Caipira de Poço Redondo”, como assinava seus artigos e gostava de ser chamado, era conhecido pelo seu comportamento de homem simples que buscou nas raízes sertanejas a motivação para a pesquisa e a escrita. Sua marca característica era a havaiana nos pés até nos compromissos mais formais. Além de político renomado em todo o sertão sergipano, foi também um apaixonado pela autêntica música caipira e compositor gravado por duplas sertanejas famosas como Dino Franco e Mouraí e Dino Franco e Fandangueiro. Foi também gravado por Clemilda num hino sertanejo chamado “Seca Desalmada”, de 1974.

Foi radialista na Rádio Xingó FM, de Canindé de São Francisco, onde durante muitos anos apresentou o programa “Sertão, Viola e Amor”. Mas foi como pesquisador e escritor da saga nordestina, enveredando pelas pesquisas acerca do mundo cangaceiro, coronelista e violento, que se tornou reconhecido mundialmente.
Sobre o cangaço e suas afluências escreveu “Lampião Além da Versão - Mentiras e Mistérios de Angico”; “O Sertão de Lampião” e “Lampião em Sergipe”. Contou a história de Poço Redondo e Canindé de São Francisco nos livros “Poço Redondo - A Saga de um Povo” e “Canindé de São Francisco - Seu Povo e sua História”.


Sobre a autêntica música caipira e suas famosas duplas escreveu “Sertão, Viola e Amor”. É também de sua lavra os livros “Saudação a Paulo Gastão” e “Preces ao Velho Chico”. Em junho de 2012, já gravemente enfermo, fez o lançamento do romance “Maria do Sertão”. E outros livros inéditos aguardam publicação.

Era membro da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço – SBEC, sócio honorário do Grupo de Estudos do Cangaço do Ceará, participante efetivo do seminário permanente Cariri Cangaço, além de palestrante em diversos eventos em renomadas instituições. Postumamente, o seu nome foi outorgado ao Conselho Curador do Cariri Cangaço.

Em setembro de 2011, no município de Barbalha/CE, foi homenageado com uma placa distintiva outorgada pela Comunidade Lampião – Grande Rei do Cangaço como “Reconhecimento por sua valiosa contribuição à cultura nordestina, e, em especial, aos estudos e preservação da memória do cangaço”. Em fevereiro de 2012, o evento II Arena de Arte e Cultura, promovido pela Prefeitura de Nossa Senhora da Glória/SE, homenageou-o como expoente da cultura e da memória sertaneja. 

Professor Pereira, Manoel Severo e Alcino Alves Costa no Cariri Cangaço

Nos seus livros, ensaios, artigos e composições estão presentes a história, a geografia, o cotidiano matuto, a sociologia da violência e do misticismo, a descrição dos meandros políticos como causa e consequência das injustiças, da pobreza, da violência e das lutas cangaceiras que tão presentes estiveram nas vastidões áridas do Nordeste.

Todos estes aspectos foram pesquisados, analisados, discutidos e dimensionados por Alcino Alves Costa nas suas obras. O seu amor ao sertão foi sua característica mais marcante. Certa feita, durante entrevista ao programa Sergipanidade da TV Aperipê, Alcino afirmou: “Minha vida é o sertão, meu mundo é o sertão”. E sua vida e seu mundo eram Poço Redondo.

Rangel Alves da Costa
Pesquisador, poeta e escritor
Poço Redondo, Sergipe

Nazaré é um Espetáculo !


A bela Nazaré é realmente uma terra diferente, um lugar onde passado e presente se tocam, um lugar onde a História brota em cada casa, em cada pessoa, vejo o orgulho de um passado glorioso e um presente que precisa olhar para trás e projetar um futuro melhor, poucos lugares tem tanta riqueza junta, mas a riqueza que falo é obviamente outra, não é a material, que nos aprisiona e muitas vezes faz com que paremos no tempo.
É a riqueza da História, essa é deslumbrante no caso de Nazaré, Homens e Mulheres que há 100 anos construíram esse lugar na base de muita luta e suor, Nazaré resistiu ao Cangaço, resistiu a agressividade do clima e hoje, pessoas dos mais diversos lugares vão a Nazaré, em reverencia a seu povo e sua História.
É a riqueza das belezas naturais, meu Deus, esse aspecto é singular, a grandiosidade da Serra do Pico, a beleza da paisagem local (seja na Ema ou no Jenipapo), Nazaré é bela sim senhor, como outros lugares do Sertão, a beleza natural de Nazaré é imponente.
Há alguns anos tenho frequentado regularmente essa terrinha, ano passado assisti um evento incrível, de alto nível e organizado pelas pessoas de Nazaré, o Cariri Cangaço passeou pela História, visitou locais e relatou fatos e feitos dos Nazarenos, prestei atenção em tudo, pessoas de vários estados do Brasil estavam ali e todas foram unânimes ao dizer: NAZARÉ É UM ESPETÁCULO.
Definitivamente Nazaré não é um local pequeno, pelo contrario, Nazaré é uma terra de GIGANTES, a História mostra isso, o tempo tratou de mostrar isso também, são 100 anos e atravessar um seculo não é tarefa fácil, desejo que Nazaré continue a atravessar o tempo com tanta força e brio.
Fica aqui um salve para Nazaré, sua História e seu povo. 

Autor: Delcy Vilas Boas Magalhães
Gentileza da Postagem: Charles Wagner Lira

Em Outubro...


Lampião na Rua São José ? Por:Renato Casimiro


Lampião esteve na Rua São José? Tivesse sido afirmativa esta resposta aos garotos da Rua São José, naqueles idos dos anos 50-60, bem imagino o ar de surpresa que o fato teria causado. Nossas brincadeiras, do tipo mocinho x bandido não iam além dos modelos trazidos pelos concorridos filmes de faroeste, vistos no Cine Avenida, em animadas sessões dominicais, à tarde. E, por exemplo, nunca vi ninguém se fantasiar de cangaceiro. É bem verdade que o próprio cinema demorou bastante a utilizar o manancial de histórias do cangaço para produzir películas. Eu soube em casa de algumas histórias de Lampião. 

Meu pai me contou algumas delas, uma das quais, por depoimento próprio, de quando Lampião e seu bando estiveram em Juazeiro, em Março de 1926. Nas narrativas, tanto de meu pai, quanto de outros, os cangaceiros vieram para Juazeiro a chamado de Floro Bartholomeu da Costa. Mas nisso há uma grande controvérsia, pois muitos dizem ainda que foi a chamado de Padre Cícero. Essa, afinal, persiste ainda hoje como uma grande chaga na biografia do patriarca, com as menções frequentes de que protegia, aqui recebeu – dizem, várias vezes, dava guarida a sua família que morava na cidade, e há até fotografia de todo o clã reunido na visita do filho mais “ilustre”. 

A primeira hipótese é a mais admissível, não que queiramos livrar a responsabilidade do Patriarca, mas porque eles foram hospedados na fazenda do Floro, onde hoje está instalado o Orfanato Jesus, Maria, José, no bairro Santa Tereza. Por questões de segurança, aí, sim, entra em cena o Padre Cícero que os teria remetido para a hospedaria do Palácio das Águias, o sobradinho do poeta João Mendes de Oliveira, na Rua Boa Vista. Esse imóvel eu o visitei há muitos anos atrás, pois pertencia a pessoas a nós aparentada, dos Soares, de Alagoas. 

Clássica foto da família Ferreira em Juazeiro, março de 1926

Hoje completamente descaracterizado, o sobradinho perdeu o charme que havia, dos tempos do poeta João Mendes. Para aquele Juazeiro dos anos 20, isto era o “arisco”, uma designação que eu usei, repetindo muito, para referir aos cantos distantes daquele núcleo mais central, em torno da Praça Padre Cícero. Recentemente, relendo alguma coisa sobre Lampião, e as questões relativas a sua permanência em Juazeiro e ao malfadado capítulo de sua patente de capitão, contidos em Frederico Bezerra Maciel – Lampião, seu tempo e seu reinado, vol. III - A guerra de guerrilhas (fase de domínio), fui encontrar detalhes do trânsito do bandido pela cidade. Prefiro transcrever os textos. 

Sobre o dia 05.03.1926, depois de relatar como foi a visita de Padre Cícero ao sobrado de João Mendes de Oliveira, o autor fala: “À noite, cedo, retribuiu Lampião a visita do Padre Cícero, na sua “casa velha”, sita à Rua São José n. 126. Ocasião em que recebeu a patente de Capitão comissionado na luta contra os revoltosos”. E acrescenta com uma nota: “Do sobrado da rua Boa Vista, dobrou Lampião pela rua São Paulo e por ela foi seguindo até o cruzamento com a rua Nova (hoje Av. Dr. Floro), onde quebrou a esquerda e continuou seguindo, atravessou a rua Grande (hoje Padre Cícero), e entrou no beco da Catarina, saindo na rua São José, onde dobrou à direita até à “casa velha”, hoje de n. 126, onde morava o Padre. 

A primeira casa em que o Padre morou, cedida por José Francisco Gonçalves, ficava onde hoje é o n. 130 da rua Padre Cícero. A “velha casa” é hoje abrigo de velhos e velhas dirigido pelas irmãs de Santa Teresa e guarda piedosas relíquias do Padre, onde viveu durante 28 anos. Depois mudou-se ele dessa casa apertada para a espaçosa “casa nova”, construída mais adiante um pouco, pela beata Mocinha e por Floro, na mesma rua n. 242, onde morou e hoje é o Museu do Padre Cícero.” O autor até ilustra sua obra incluindo o trajeto de Lampião e bando, usando um mapa mais recente da cidade de Juazeiro do Norte. Mas, comete imprecisões, pois coloca a “nova casa” do Padre Cícero (Museu), na rua Grande, em frente a Matriz. E a “velha casa” na rua São José, esquina com Cruzeiro. 

Renato Casimiro, Manoel Severo e Luitgarde Cavalcante Barros

Em seu livro, A Derradeira Gesta – Lampião e Nazarenos Guerreando no Sertão, a profa. Luitgarde Oliveira Cavalcante Barros, transcreve uma entrevista que teve com meu tio José Gonçalves Casimiro, irmão de meu pai, confirmando o fato, de certa forma, nos seguintes termos: “Quando era dez horas da noite Lampião ia conferenciar com Padre Cícero, que ficava aconselhando ele a sair daquela vida.” E a única maneira de estar com o Padre Cícero era mesmo ir até sua “velha casa”, já que havia tido o primeiro contato no sobradinho de João Mendes. Em seu relato, minucioso, tio José dá detalhes da permanência de Lampião e as ações de Dr. Floro para trazer o pesado armamento que seria entregue aos cangaceiros e ao batalhão patriótico que enfrentaria a Coluna Prestes, nas cercanias de Campos Sales. 

Meu avô, Antonio Alves Casimiro, Tonhero, dispondo de um ônibus e um caminhão, transportou armas e pessoal, porque foi contratado por Floro para tal. Floro, antes de ter viajado para o Rio de Janeiro, para o tratamento de saúde – terminaria falecendo, teria dito ao meu avô, por conhecimento da família: “Seu Tonhero, eu só confio aqui no senhor para passar pelo seu punho todo o material". Meu avô prestou esse serviço a Floro e o pagamento só foi feito após a sua morte, conforme está na execução do testamento do deputado. 

Ainda, segundo Maciel, Lampião e seu bando estiveram na rua São José, de passagem, no dia 07.03.1926, logo depois da missa das nove, celebrada pelo Padre Esmeraldo, e assistida por eles, seguindo para uma visita ao Horto. (Estranho essa afirmação de Maciel, pois Padre Esmeraldo – Pe. Pedro Esmeraldo da Silva Gonçalves, o primeiro vigário de Juazeiro, já havia deixado a cidade em 1921, indo para Pelotas no Rio Grande do Sul, ficando ali a serviço da Diocese, onde o titular era D. Melo, de família cratense). 

Floro Bartolomeu à direita na foto

Tomaram o itinerário da rua Padre Cícero, entraram na rua do Cruzeiro (esquina de Dina e Doroteu Sobreira), passaram no cruzamento com a rua São José e foram na direção do Salgadinho, até a serra do Catolé. Num daqueles dias, em março de 1926, meu pai tinha pouco mais de 11 anos e foi com outros garotos da rua da Matriz, onde morava sua família, para conhecer, seis quadras adiante, pela rua São Paulo, o bando de Lampião. Ele me contava que a meninada ficava embaixo, enquanto o grupo estava no pavimento superior, gritando para que eles aparecessem. De vez em quando, um deles jogava moedas para adultos e crianças que estavam ansiosos pela aparição, na porta do Palácio das Águias. 

Numa destas, meu pai teve sorte e conseguiu apanhar um patacão. Anos mais tarde, a revelação destes fatos lhe trazia um brilho nos olhos e uma emoção que se traduzia com o entusiasmo que seu relato continha. O patacão ficou em seus guardados até que a família retornou à Paraíba, para a fazenda Carnaúba, no município de Sousa. Depois, o patacão se perdeu nos espaços das mudanças e no tempo da criança que ficou para trás. E eu ouvi meu pai me dizer muitas vezes da tristeza de ter perdido esse patacão. Mas, as histórias, como estas e tantas outras de cangaceiros, se perpetuaram com sua memória viva, em narrativas que nos enchiam de encanto, noite a dentro. 

Renato Casimiro
Pesquisador , Juazeiro do Norte, CE

Batalhões Patrióticos e Campos Sales

Batalhões Patrióticos em Campos Sales, no Ceará em 1926

Na época em que a Coluna Prestes, importante facção do movimento tenentista, ameaçava entrar no Ceará, uma força de combate à mesma foi armada em Campos Sales. O movimento liderado por Luis Carlos Prestes visava a conscientizar os sertanejos dos males causados pela república oligarca vigente até então. Organizado às pressas, em Juazeiro do Norte, no ano de 1926, pelo médico baiano e deputado federal pelo Ceará, Floro Bartolomeu da Costa, o Batalhão Patriótico tinha por missão deter a Coluna Prestes. O Batalhão foi deslocado de Juazeiro para Campos Sales, onde fixou seu QG, nos limites do Ceará e Piauí, sob o comando do Coronel Pedro Silvino de Alencar, do Araripe. 

Campos Sales, pequenina aglomeração de homens pacatos, transformou-se de repente em importante praça de guerra, aguardando com nervosismo o confronto do Batalhão com os soldados da Coluna. Esperou em vão. A Coluna avançou e invadiu o Ceará por outro caminho, passando no distrito de Quixariú. 


Curiosidades: 
I - O deputado federal Dr. Floro Bartolomeu da Costa veio a Campos Sales para aqui acantonar seu chamado Batalhão Patriótico, chegando à cidade, ficou hospedado no casarão do Italiano Braz Cortez, hoje o prédio do saudoso João do Alho
II - O Batalhão Patriótico acantonou-se na praça da matriz.


Herlon Baleco de Sousa
Campos Sales - CEARA