Os Sonhos e Revelações Místicas do Cangaço Por:Junior Almeida

Arte de Anilton Freitas

Para alguns a definição de sonho é que se trata de uma experiência que possui significados distintos se for ampliado um debate que envolva religião, ciência e cultura. Já para a ciência, é uma experiência de imaginação do inconsciente durante nosso período de sono. Desde os tempos remotos sonhos são citados na história como uma espécie de guia, de conteúdos reveladores para a salvação. Por exemplo, a Bíblia narra os famosos sonhos de José do Egito.
Segundo as Escrituras, o filho de Jacó, antes mesmo de ser vendido como escravo por seus invejosos irmãos e no futuro se tornar pessoa de confiança do faraó, já interpretava sonhos. Em uma de suas primeiras revelações José disse aos seus irmãos que tinha sonhado que “estavam no campo amarrando feixes de trigo e de repente, o seu feixe ficou de pé, e os feixes dos irmãos se colocaram em volta do seu e se curvavam diante dele”. Conta à história que os irmãos, que já não gostavam de José, aumentaram mais ainda seu ódio por ele.
Ainda vivendo em seu lar José sonhou e revelou aos seus irmãos outro sonho que teve, sendo entendidos esses sonhos como prenúncio da sua futura grandeza. Na “revelação” o filho preferido de Jacó via o sol, a lua e onze estrelas se curvaram diante dele. Seria o que as pessoas fariam no futuro, quando esse depois de algum tempo preso injustamente interpretou o sonho do faraó, onde previa sete anos de fartura e sete anos de seca no Egito, quando o faraó via em seu sonho sete vacas magras devorando a mesma quantidade de vistosas vacas no Rio Nilo.

Joao de Sousa Lima, Junior Almeida e Jorge Remigio no Cariri Cangaço Floresta 2017 

O Livro Sagrado também fala que o anjo Azael visitou em sonho por algumas vezes outro José, esse descendente do Rei David e pai adotivo de Jesus. O objetivo de tais aparições em sonho do enviado de Deus seria para guiar a Sagrada Família em sua jornada e livrar-lhes dos perigos, bem como revelar ao casticismo esposo de Nossa Senhora o que se passava com sua companheira. Deus teria falado tanto em sonho com São José, que existe até uma imagem do santo denominada “São José Dormindo”, onde o santo carpinteiro aparece deitado,dormindo, esperando as instruções do anjo.
Na história bem mais recente, alguns episódios do cangaço também tiveram como pano de fundo o misticismo e os sonhos. Por tantas vezes se falou sobre as superstições que guiavam Lampião, ou em revelações nas rezas e sonhos. Na minissérie da Rede Globo, de 1982, “Lampião e Maria Bonita”, que teve Nelson Xavier interpretando o rei do cangaço e Tânia Alves como sua companheira, mostra a mulher de Virgulino sendo avisada em sonho que iam morrer numa emboscada. Claro que o sonho da “Santinha” de Lampião no seriado está no campo da liberdade artística do diretor, não se tendo comprovação de que realmente tenha acontecido, mas em outros casos da história do cangaço, sonhos guiaram pessoas e revelaram salvação bem como tragédias.
Cariri Cangaço na Tapera, 2016
No episódio da chacina dos Gilos, no Sítio Tapera, em Floresta, Pernambuco, no ano de 1926, por exemplo, o misticismo se fez presente, quando uma rezadeira teria dito a Manoel de Gilo o paradeiro de seus burros roubados por Horácio Grande. A mística mulher teria alertado que esse deixasse os animais pra lá, pois em suas orações “via” que se fosse atrás dos animais, uma grande tragédia cairia sobre sua família, fato esse que aconteceu em 28 de agosto de 1926, onde quase toda família Gilo foi dizimada pelas calúnias de Horácio Grande e fúria de Lampião, nesse caso usado como arma de vingança.
No ano seguinte, durante o fracassado ataque a Mossoró, onde morreram alguns cabras de Lampião, e o Rei Vesgo sofreu uma de suas maiores derrotas de sua carreira de bandoleiro, outro episódio “do outro mundo” no mínimo inusitado apareceu na história. Conta Aglae Lima de oliveira em seu “Lampião, Cangaço e Nordeste” que já depois de morto, o pernambucano José Leite de Santana, vulgo Jararaca, apareceu em sonho para uma mulher de nome Joaninha Rosário para lhe mostrar onde estava enterrado o seu tesouro, a chamada botija. Segundo a autora, o casal Chico e Joaninha Rosário viviam de matar bodes e eram muito pobres.
Moravam a aproximadamente um quilômetro da casa de um italiano em que o cangaceiro ferido tinha ido pedir socorro. No sonho um aflito Jararaca teria dito que a sua alma estava nas trevas, penando muito por ter enterrado seu dinheiro, e portanto daria a botija a Joaninha em troca da liberdade da sua alma. No sonho o cangaceiro teria revelado o local exato de onde estava o tesouro, que era nas proximidades da casa do casal de “bodeiros” em baixo de três oiticicas e sinalizado com uma medalhinha “Deus te Guie”. O casal seguiu todos os rituais místicos dos arrancadores de botijas e se deram bem. Pra quem não tinha nada na vida, poderam levantar as mãos pro céu e rezar para agradecer a Jararaca, pois com parte do dinheiro da botija, 80 contos de réis, o casal comprou uma fazenda.
Cangaceiro Jararaca, preso em Mossoró

Só para ter uma noção do valor da botija de Jararaca, o dinheiro exigido por Lampião para não atacar Mossoró era 400 contos de réis. Dia 26 de março de 2018 o membro do grupo Lampião, Cangaço e Nordeste na rede social Face Book, Rivanildo Alexandrino, postou o que dava para comprar com a quantia que o Rei do Cangaço queria em terras potiguares. Seguindo o mesmo raciocínio do internauta, vemos que só com o dinheiro usado para comprar a citada fazenda o casal Chico e Joaninha poderia comprar 16 carros populares, que em dias atuais seriam necessários mais de 600 mil reais. Se Jararaca é santo ou não isso é outra história, mas aparecer em sonho e tirar um pobre casal da miséria já pode ser considerado por Chico e Joana Rosário como um verdadeiro milagre.
Outro fato da história do cangaço em que aparece a citação de um sonho foi em Serrinha do Catimbau, onde em julho de 1935 o bando de Lampião atacou a então vila de Garanhuns, atualmente município de Paranatama em Pernambuco. Assim como em Mossoró no rio Grande do Norte, a súcia se deu mal em Serrinha, tendo sido nesse fogo baleada nada mais nada menos do que Maria Bonita, a rainha do cangaço. Antes do ataque à vila, porém, os bandoleiros passaram no Sítio Azevém, onde saquearam a residência e comércio do casal Zé Basílio e Maria Gracinda, a Branca.
Arte de André Neves

É certo que o casal ficou sem nada, pois os cangaceiros levaram tudo que o casal possuía, mas poderia ter sido pior. Dona Branca, a agricultora vítima do bando de Lampião, faleceu em 2017 com 103 anos de idade, e agradecia a um sonho que tivera dias antes da invasão de sua casa pelo bando de Lampião. Segundo ela no momento da agonia de ser ameaçada, lembrou-se de um sonho que tivera dias antes.
Ela sonhou que chegava uma mulher em sua casa e perguntava se ela tinha medo de Lampião. Branca no sonho respondeu que sim, pois sabia que os cangaceiros cortavam as orelhas das mulheres para tirar os brincos e os dedos para tirar os anéis. Então a mulher do sonho disse que não era assim. Que ela própria tirasse os anéis e desabotoasse os brincos, e entregasse aos cangaceiros que eles não buliam com ninguém. Que quando eles procurassem dinheiro, ela mesma fosse mostrar onde tinha, que eles não buliam com ela de jeito nenhum. Foi o que Branca fez durante o assalto e isso a deixava de certa forma confiante de nada de mais grave acontecer com ela e sua família.

Junior Almeida em 03 de Abril de 2018
Pesquisador e Escritor, Conselheiro Cariri Cangaço
Capoeiras, Pernambuco

E vem aí
26 a 29 de Abril de 2018...

Que Venha o Cariri Cangaço Fortaleza


Arte e sensibilidade do designe Bruno Ridle...

Em Junho a Festa da Alma Nordestina será em Poço Redondo Por:Rangel Alves da Costa

Prefeito Junior Chagas no Memorial Alcino Alves Costa: 
Cariri Cangaço 2018

Trazer o Cariri Cangaço a Poço Redondo foi uma luta. E ainda se desenrola uma batalha incessante para que tudo dê certo. E assim por que o Cariri Cangaço é evento de tamanha grandiosidade que não cabe sequer imaginar sua realização sem um longo e cuidadoso planejamento. Não é possível receber, de hora pra outra, mais de duzentos participantes, entre estudiosos, pesquisadores e escritores. E quantos turistas, entre brasileiros e estrangeiros, estarão em Poço Redondo de 14 a 17 de junho? 

Os bons amigos sempre merecem a melhor acolhida. Os bons amigos do Cariri Cangaço e os demais interessados, dentre aqueles que já eram amigos de Alcino e outros que ao sertão acorrerão pelo amor à história, à cultura e as tradições, merecem a melhor acolhida. Não só o acolhimento como as janelas e portas abertas para tudo de belo e grandioso que Poço Redondo possa oferecer. E será este nosso empenho e nosso esforço maior, de modo que se sintam confortável e prazerosamente acolhidos, como mais tarde possam retornar pela saudade que certamente ficará.

E como se faz um evento assim, como possibilitar que tudo dê certo conforme o planejado ou ao menos se aproximar do que foi planificado? Somente com organização e tenacidade, mas também por um fator fundamental: o apoio da administração municipal, do prefeito, do gestor. A Comissão Organizadora elabora as diretrizes, traça todo o delineamento do evento, mas a sua efetiva concretização somente é possível com o apoio da prefeitura municipal. 
Ora, sem que o prefeito chame para si também essa responsabilidade não há que se falar em possibilidade alguma de realização, até mesmo por que os patrocínios de entidades e pessoas estão mais escassos do que se imagina. Até o presente momento a Comissão Organizadora não recebeu sequer um centavo, nem mesmo dos estabelecimentos comerciais do município. E com relação ao gestor de Poço Redondo, o que se tem, na verdade, é um empenho pessoal do prefeito Júnior Chagas. 
Prefeito Junior Chagas ao lado da Comissão Organizadora do 
Cariri Cangaço Poço Redondo 2018

Significa dizer que o apoio pessoal do prefeito vai além do que a própria administração municipal possa oferecer. A prefeitura possui uma estrutura de serviços, de obras e de pessoal, que já está trabalhando para o sucesso do evento. Contudo, a relevância maior está no comprometimento do prefeito e no seu interesse que tudo dê certo, ainda que para tal ele mesmo disponibilize recursos.

Diga-se ainda que não é apoio de momento ou apenas pela iminência de sucesso do evento, pois o prefeito Júnior Chagas já desde muito que tem compromisso firmado com a direção do Cariri Cangaço, através de seu curador Manoel Severo e demais membros do Conselho Consultivo Alcino Alves Costa. Esteve pessoalmente acompanhando o Cariri Cangaço Exu e o Cariri Cangaço Floresta, e estará no Cariri Cangaço Fortaleza, entre os dias 26 e 29 deste mês. E no ano passado recebeu uma Comitiva Cariri Cangaço na sede da prefeitura e em seguida acompanhou a visita feita a Curralinho. E não permitiu que nada faltasse aos participantes.



Ainda no final do ano passado o prefeito Júnior Chagas autorizou a realização das obras necessárias na Estrada Histórica Antônio Conselheiro (Estrada do Curralinho), conforme solicitação da Comissão Organizadora. E já está tudo definido e logo as obras serão iniciadas. Quer dizer, a todo instante o que se tem o engajamento cada vez maior do prefeito perante o evento. Até o presente momento, jamais negou qualquer solicitação da Comissão Organizadora e assim faz por conhecer a importância do evento e por saber a seriedade como está sendo elaborado.

No último sábado, por exemplo, mais uma demonstração desse comprometimento, que mais corretamente se traduz em total apoio, pessoal e administrativo, do prefeito Júnior Chagas. Esteve presente na reunião realizada no Memorial Alcino Alves Costa e pela manhã inteira dialogou com todos sobre as ações em andamento e os planejamentos futuros. Desde o roteiro a artistas, desde a acolhida a demais eventos, tudo foi debatido e conduzido pessoalmente pelo prefeito.

O que dizer, então? Somente agradecer. Obrigado, prefeito Júnior Chagas, percebe-se facilmente que seu compromisso se traduz em ação. Por isso mesmo que teremos em Poço Redondo o maior e melhor Cariri Cangaço de todos os tempos. Avante!

Rangel Alves da Costa, Pesquisador, escritor e poeta
Conselheiro Cariri Cangaço
Poço Redondo, 02 de Abril de 2018
blograngel-sertao.blogspot.com

Canário e o Caminho de Curralinho Por:Manoel Belarmino


Cariri Cangaço Poço Redondo pelos Caminhos de Curralinho...
Além das tantas histórias que o caminho do povoado Curralinho testemunhou, como o trotar dos tropeiros, a morte dos soldados marcadas pelas Cruzes dos Soldados, as Carreiras, as alpercatas do Conselheiro e seus seguidores e outras, não podemos esquecer que é nas margens do Caminho do Curralinho que está a localidade Cururipe, onde o cangaceiro Canário, filho de Poço Redondo e esposo da cangaceira Adília (filha de Poço Redondo), foi covardemente assassinado por Penedinho, naquela última quinta-feira do mês de setembro de 1938. Penedinho, natural de Canhoba e primo de sua mulher Adília.
Penedinho entrou no cangaço a pedido de seu patrão, o poderoso Antonio Caixeiro de Canhoba e da Borba da Mata com a finalidade de matar Canário, pois este havia extorquido dinheiro daquele coronel de Canhoba. Penedinho era um infiltrado no cangaço. E foi o que aconteceu. Canário foi covarde e traiçoeiramente assassinado na sombra de uma quixabeira com um tiro só por Penedinho. Não deu tempo de Canário se entregar á justiça como já havia planejado. 
Cangaceiro Canário, morto no caminho de Curralinho

Depois do tiro, o silêncio fúnebre. Canário está ali estendido no chão. Apenas o seu cachorro está ali para protegê-lo. O silêncio é, de instante em instante, quebrado pelo uivar do cachorro. O único amigo fiel do finado Canário. Um silêncio e um uivar. Um uivar para impedir que os urubus se aproximassem do cadáver do seu dono. E não demorou, a volante da Serra Negra chega ao local em busca de ouro e joias do cangaceiro. E o cachorro, fiel ao seu dono, rosna para tentar impedir que as volantes se aproximem. Um soldado aponta uma arma e, com um tiro só, mata o cachorrinho ali mesmo próximo ao cadáver de seu dono. Um cangaceiro traidor matou Canário e um volante matou o seu cachorro. 
O cangaceiro Canário era Bernardino (nome de batismo) e apelidado de Rocha de Cante na sua infância e juventude. Filho de Cante e Maria das Virgens, nasceu no Poço de Cima, um poço-redondense que virou adubo na sua terra.
Maria Oliveira, Rangel Alves da Costa, Ronivaldo dos Santos e Manoel Belarmino: Então que venha o Cariri Cangaço Poço Redondo 2018

A fazenda Cururipe, no Caminho de Curralinho, estará na programação do Cariri Cangaço Poço Redondo - CCPR 2018, de 14 a 17 de junho, culminando com o aniversário do mestre Alcino Alves Costa.
Na manhã de hoje, dia 17, estivemos lá na Fazenda Coruripe. Eu(este que escreve), Rangel de Alcino, Ronivaldo dos Santos(secretário de obras), Maria Oliveira (professora) e Geferson(estudante de engenharia civil) com a finalidade de definir onde será colocada a placa no local da morte do cangaceiro Canário. E será ponto de parada e de palestra no Cariri Cangaço Poço Redondo.
Estamos preparando os caminhos da história e da cultura do Cangaço no chão do mestre Alcino Alves Costa. E de coração e braços abertos para receber todos e todas que virão ao Cariri Cangaço Poço Redondo e Serra Negra 2018. Como diz Manoel Severo Barbosa. Avante!
Manoel Belarmino
Pesquisador e Escritor
Poço Redondo, 17 de Março de 2018

E vem aí...
Cariri Cangaço Poço Redondo
14 a 17 de Junho de 2018

A Arte de Eliane Giolo...



Eita meninoooo, que ao ver esta arte em andamento, me veio uns versos do mestre Patativa do Assaré na mente ó?! Reparem...


"Eu sou de uma terra que o povo padece
Mas nunca esmorece, procura vencê,
Da terra adorada, que a bela caboca
De riso na boca zomba no sofrê.
Não nego meu sangue, não nego meu nome,
Olho para fome e pergunto: o que há?
Eu sou brasilêro fio do Nordeste,
Sou cabra da peste, sou do Ceará...Terra da jandaia, berço de Iracema,
Dona do poema de Zé de Alencá.
Eu sou brasilêro fio do Nordeste,
Sou cabra da peste, sou do Ceará!"

Que venha o Cariri Cangaço Fortaleza!
Aonde terei a honra de representar e apresentar à todos, a arte sem Fronteiras desta gaúcha pra lá de arretada, chamada Eliane Giolo, 
faço questão de entregar-lhes pessoalmente Manoel Severo e Ingrid Rebouças, tendo a mais absoluta certeza de que muito em breve, a própria se fará presente nas futuras edições do 
Cariri Cangaço...Avante!!!

Cris Silva

Cine Teatro São Luiz e o Cariri Cangaço Fortaleza...


Cariri Cangaço Fortaleza 2018... A Noite do sábado, dia 28 de abril de 2018, o especular e imponente Cine Teatro São Luiz, estará recebendo o Cariri Cangaço em mais um momento eletrizante de sua programação. A partir das 19h30min o Cariri Cangaço Fortaleza apresenta em grande estilo, "Onde Nascem os Bravos" película do grande diretor Daniell Abrew, com a participação dentre outros, de Camilo Vidal e Aldanisio Paiva; antes da apresentação da noite, grande debate sobre cinema, cultura e cangaço com Régis Frota, Jonasluis da Silva, de Icapuí, Aderbal Nogueira e o próprio diretor Daniell Abrew. Avante, que venha o 
Cariri Cangaço Fortaleza 2018 !!!

Onde Nascem os Bravos
Cariri Cangaço Fortaleza 
28 de Abril de 2018, 19h30min...
Cine Teatro São Luiz, Fortaleza

Que Venha o Cariri Cangaço Poço Redondo 2018 Por:Rangel Alves da Costa



Não se fala noutra coisa em Poço Redondo e até no sertão sergipano inteiro: Cariri Cangaço Poço Redondo 2018, de 14 a 17 de junho. Contudo, muitas dúvidas ainda persistem perante grande parte da população. Muitos imaginam ser apenas uma festa de shows, outros pensam serem eventos que serão realizados no Memorial Alcino Alves Costa, e ainda outros idealizam como um misto de shows e visitas a locais históricos, principalmente com relação à Estrada Histórica Antônio Conselheiro (Estrada de Curralinho).

Antes de relatar o que será o evento, como será e o que nele estará envolvido, necessário que se afirme um pouco sobre o que é o Cariri Cangaço enquanto seminário permanente de estudo da história, da cultura, dos movimentos sociais e religiosos e das tradições nordestinas. Logo se depreende que o Cariri Cangaço não é apenas um evento de shows nem de palestras ou de visitações a locais históricos, mas isso tudo.
 

O Cariri Cangaço é um evento de cunho turístico-cultural e histórico-científico que reúne os mais destacados pesquisadores e historiadores das temáticas cangaço, coronelismo, misticismo, messianismo e correlatos ao sertão e ao Nordeste do Brasil, configurando-se como o maior e mais respeitado evento do gênero no país. Reúne, a partir de uma programação plural, dinâmica e universal, personalidades locais, regionais e nacionais, do universo da pesquisa e do estudo das temáticas propostas. E se materializa através de palestras, debates, visitas técnicas, apresentação de documentários, exposições de arte, lançamentos e feiras literárias.

Isso mesmo, o Cariri Cangaço é uma grande festa da cultura e da história, da religiosidade e das tradições de um povo, contextualizando a cada realização não só o estudo e aprofundamento do tema proposto (no caso de Poço Redondo, “Celebrando o Chão Sagrado de Alcino”) como o desenvolvimento de atividades interligadas à temática principal. Daí que para Celebrar o Chão Sagrado de Alcino implica em conhecer aspectos históricos e culturais de Poço Redondo e do sertão, suas manifestações artísticas, suas tradicionalidades, seus pontos de referência histórica, principalmente no que diz respeito ao cangaço, pois este um dos temas principais da obra de Alcino.

 Visita do Cariri Cangaço ao Memorial Alcino Alves Costa
 Cariri Cangaço visita Curralinho ao lado do prefeito Junior Chagas

Desse modo, Celebrar o Chão Sagrado de Alcino é festejar o sertão como um todo, pois em Alcino toda a amplitude da terra sertaneja com suas facetas e façanhas desde os tempos mais antigos. E não se pode celebrar o sertão de Alcino sem conhecer locais históricos da saga cangaceira, da passagem de missionários, dos primórdios do desbravamento da região. Não se pode celebrar a terra sertaneja sem conhecer a cultura de seu povo, seus dotes artísticos, suas raízes culturais, suas manifestações festivas tradicionais. Não se pode conhecer o sertão sagrado de Alcino sem que se conheça a grandiosidade de Poço Redondo.

Então, como será celebrado o chão sagrado de Alcino? Durante quatro dias, de 14 a 17 de junho, trilhando uma programação que está sendo elaborada para que cada evento espelhe a real identidade sertaneja. Para uma ideia do que está sendo programado, nenhum show artístico terá outro som senão o da raiz nordestina e sertaneja. No pífano, na sanfona, no xaxado, no rodar do pastoril, no samba de coco, tudo se revelará no mais autêntico contexto do mundo amado, vivenciado e difundido por Alcino.

 Manoel Severo e Rangel Alves da Costa: Alcino Patrono do Cariri Cangaço

Durante quatro dias, desde a abertura na noite do dia 14 de junho, na Praça de Eventos de Poço Redondo, até o seu final na manhã do dia 17 (data de nascimento de Alcino, que estaria comemorando 78 anos), com a missa celebrada pelo Padre Mário defronte ao Memorial Alcino Alves Costa, tudo será uma festa só: festa do conhecimento, do saber, da participação popular, da comemoração festiva e dançante. Festa da história, da cultura, da tradição. 

Uma festa que percorrerá a Estrada de Curralinho - a mesma estrada no passado aberta por Antônio Conselheiro e seus fiéis - e a cada passo fincará para a posteridade, através de marcos alusivos, os feitos históricos ali presentes, como o local da morte de Canário e as Cruzes dos Soldados. E mais adiante as visitas aos locais históricos da povoação ribeirinha, bem como palestras defronte a Igreja de Nossa Senhora da Conceição (construída com a participação dos fiéis do Conselheiro) e nas beiradas do Velho Chico.

Caravana Cariri Cangaço em Curralinho

Também visita e palestras na Fazenda Maranduba, local da segunda maior refrega entre cangaceiros e volantes, com apresentação de teatro e muito mais. Considerando a importância da participação do coronelismo baiano no sertão sergipano, também uma visita a Pedro Alexandre (antiga Serra Negra) e a inserção ao mundo do Coronel João Maria de Carvalho, seu irmão Liberato de Carvalho, bem como de Zé Rufino, o implacável caçador de cangaceiros. Na cidade de Poço Redondo, inaugurações importantes na Avenida Alcino Alves Costa e na Praça Lampião, dentre outras.

Mas haverá muitos mais (e muitas e belas surpresas). Durante os quatro dias, mais de duzentos pesquisadores, escritores, estudiosos e turistas tomarão as ruas e as estradas de Poço Redondo. Durante quatro dias uma infinidade de pessoas estrão presentes nas palestras, nos debates, nos locais de visitação, nos lançamentos literários, nos shows. Todos os dias haverá festança na Praça de Eventos. E todos os dias Poço Redondo se transformará numa festa só. AVANTE, POÇO REDONDO!

Rangel Alves da Costa, pesquisador, escritor, poeta
Conselheiro Cariri Cangaço
Poço Redondo, Sergipe

Por Terras do Bandarra Profeta do Sebastianismo Por:Valdir José Nogueira


Sugestionado pela curiosa e fantástica história da Pedra do Reino, cujos antecedentes também se reporta ao sapateiro de Trancoso, Gonçalo Anes, o Bandarra - personagem celebrizada pelas suas proféticas trovas que alimentaram o mito do sebastianismo, desde muito tempo que vivia com a curiosidade de conhecer a terra deste célebre profeta do Quinto Império de forte ligação com a história da "Terra da Pedra do Reino". Mas os anos foram se passando e, a oportunidade então surgiu.


Trancoso é uma cidade que integra a rota das aldeias históricas beirãs, de Portugal. Trata-se duma bela cidade, com uma história riquíssima e com um notável patrimônio arquitetônico, encontrando-se rodeada de muralhas com um belo castelo, também medieval, a coroar um majestoso conjunto fortificado. Os seus vários monumentos constituem um dos mais expressivos e belos centros históricos do país, destacando-se, as igrejas de Santa Maria, da Misericórdia e de São Pedro, a Casa do Gato Preto, a Casa dos Arcos e o Pelourinho, bela peça do mais puro estilo manuelino.

Em Trancoso foi realizado em 26 de junho de 1282 o casamento do rei D.Dinis e D. Isabel de Aragão. D.Dinis, o sexto rei português, ficou conhecido na História de Portugal como o rei lavrador. Já D. Isabel veio a celebrizar-se como a Raínha Santa, ligada à popular lenda do "milagre das rosas". Foi beatificada e canonizada, sendo por isso venerada como Santa Isabel e é uma das figuras mais conhecidas da nossa História.


 Valdir José Nogueira

Pois bem, foi nesta maravilhosa cidade beirã que nasceu e viveu Gonçalo Eanes o Bandarra sapateiro de profissão que se dedicou à escrita em verso de profecias de cariz messiânico. Os seus escritos revelam um bom conhecimento das Escrituras do Antigo Testamento, do qual fazia as suas próprias interpretações, tendo composto uma série de "Trovas" sobre a vinda do “Encoberto” e o futuro de Portugal, como reino. Bandarra foi acusado pela Inquisição de Judaísmo e as suas trovas foram incluídas, posteriormente, no catálogo de livros proibidos, já que suscitaram interesse sobretudo entre cristãos-novos. Foi inquirido perante este tribunal e foi obrigado a participar numa procissão do auto-de-fé, sendo-lhe ainda imposta a obrigação de nunca mais interpretar a Bíblia ou escrever sobre temas da Teologia. Após o julgamento voltou para Trancoso, onde viria a morrer, em 1556. 

A sua cidade natal prestou-lhe homenagem, construindo numa das suas praças uma estátua, perpetuando assim a sua memória. No entanto e apesar de julgado e condenado e da interdição do Santo Ofício, as suas trovas circularam por todo o país em diversas cópias manuscritas. As Trovas de Bandarra foram interpretadas como uma profecia ao regresso do Rei D. Sebastião após o seu desaparecimento na Batalha de Alcácer-Quibir em Agosto de 1578. Mesmo com todas as censuras e proibições, as Trovas continuaram circulando tendo sido impressas várias edições. Segundo alguns críticos, as Trovas do Bandarra influenciaram o pensamento sebastianista e messiânico de D. João de Castro, do Padre António Vieira e de Fernando Pessoa.


Outra figura curiosa, para sempre ligada à história de Trancoso é a do Padre Francisco da Costa, Prior de Trancoso no século XV que gerou 299 filhos em 53 mulheres, muitas delas familiares diretas, incluindo irmãs e a própria mãe! O prior foi julgado em 1487, aos 62 anos; a sentença proferia que seria "degredado de suas ordens e arrastado pelas ruas públicas nos rabos dos cavalos". No entanto, El-Rei D. João II perdoou-o e mandou-o pôr em liberdade com o fundamento de ajudar a povoar aquela região da Beira Alta, ao tempo tão despovoada!

Valdir José Nogueira
Pesquisador e Escritor, 
São José de Belmonte-Pernambuco

E vem aí
Cariri Cangaço São José de Belmonte
11 a 14 de Outubro de 2018

O Fogo das Guaribas - O Casarão de João Gomes Grangeiro Por:Bruno Yacub

Dois dias antes da chacina de Guaribas, o jovem Edmundo de Sá Sampaio, corretor da loja do seu tio, Argemiro Sampaio, em Barbalha, passou na residência de Antônio Gomes Grangeiro e sentiu a sua preocupação, por ser amigo e vizinho de Chico Chicote. Edmundo de Sá Sampaio, sentindo aquele clima de medo e apreensão de Antônio Gomes Grangeiro, sugeriu que ele fosse embora dali. Resposta de Antônio Gomes Grangeiro a Edmundo Sá Sampaio: “Não posso porque, para onde eu for o homem vai me buscar”!
Em meados de fevereiro de 1927, Lampião e seu bando entrou no Cariri cearense por Macapá (atual Jati), passou pela fazenda Piçarra, onde ouviu as novidades comunicadas por “Seu Tonho”, relatando movimentos das volantes. Tangenciou Porteiras e Brejo dos Santos (atual Brejo Santo), subindo a chapada do Araripe totalmente livre de perseguição, foi visitar a propriedade de Antônio Gomes Grangeiro no sítio Salvaterra, uma área de 300 hectares situados com cafezal, cana e gado, localizado na zona serrana do Brejo. 

 Casa grande de João Gomes Grangeiro em Salvaterra
Interior da Casa Grande de João Gomes Grangeiro

Lampião procurou o proprietário, mas este conseguira fugir ao perceber a aproximação do bando – Antônio Gomes Grangeiro tinha sido um dos signatários de um abaixo-assinado reclamando providências contra a insegurança da região. Dona Maria Celina Grangeiro, esposa de Antônio Gomes Grangeiro, informou que o marido estava viajando e ofertou uma cesta de mangas para Lampião e seu bando desfrutarem. Virgulino, desconfiado que a mulher estivesse mentindo, disse:


- Eu sei qui seu Antonho Grangero é amigo de Chico Chicote. Diga a ele, dona, qui nun precisa tê medo deu, não. Ele pricisa tê coidado é cum “os bonzinho” qui vem aí atrás...

Isso foi um aviso... Subornado pelo grupo de Sinhô Sebastião Salviano e utilizando da justificativa de vir dar cabo ao Rei do Cangaço no Cariri, o tenente José Gonçalves Bezerra, um dos maiores bandidos-autoridades de que já teve notícias no Ceará, saiu de Brejo dos Santos na madrugada de terça-feira, 1° de fevereiro de 1927, comandando uma volante com 70 praças, como auxiliar o Sargento-Tenente Veríssimo Alves Gondim e como guia e agregado à tropa, voluntariamente, João Gomes de Lucena, filho do então prefeito de Milagres e ex-prefeito de Brejo dos Santos, coronel Manoel Inácio de Lucena e sobrinho do então prefeito de Brejo dos Santos, Joaquim Inácio de Lucena, conhecido como Quinco Chicote, além de cabras do coronel Nozinho Cardoso. 
A tropa chegou ao sítio Salvaterra antes do amanhecer, cercando o casarão de Antônio Grangeiro, quando então cometeu os maiores e mais bárbaros crimes ocorridos no Ceará, sobre o que nem foi aberto inquérito. O casarão foi invadido e a seguir, sob a brutal e súbita violência, Antônio Gomes Grangeiro, seu sobrinho João Grangeiro (Louro Grangeiro) e dois moradores, Aprígio Temóteo de Barros e Raimundo Madeiro Barros (Mundeiro) foram dominados fisicamente, com as mãos e pés amarrados com cordas.
 Sítio Salvaterra, testemunha muda do massacre que precedeu Guaribas...
Antônio Gomes Grangeiro era ligado a Chico Chicote por grande amizade. Tanto assim que, em consequência de forte intriga entre Antônio Gomes Grangeiro e José Franklin Figueiredo, vulgo José Franco, proveniente duma questão de terra, Chico Chicote penetrou na casa de José Franco e matou-o barbaramente. José Franco era cunhado de Sinhô Sebastião Salviano. Daí que Sinhô Sebastião Salviano retirou-se para Princesa Isabel, na Paraíba, e passou a viver sob a proteção de seu donatário, o coronel José Pereira Lima (04.12.1884 – 13.11.1949), responsável pela Revolta de Princesa, em 1930, tendo participação do próprio Sinhô Sebastião Salviano chefiando um de seus bandos de jagunços.
Feito o aprisionamento de Antônio Gomes Grangeiro e seus companheiros, a tropa prosseguiu levando os quatro prisioneiros. Logo adiante, depois de uma capelinha, havia uma vereda que subia para a chapada do Araripe. Lampião e seu bando acabara de subir por ali em direção a lagoa da Malhada Funda, entre os municípios de Missão Velha e Barbalha. Dali ele ouviria o papoco vindo de Guaribas, no lutuoso dia 1° de fevereiro de 1927.
A volante prosseguiu para o sítio Guaribas. Ao atingir cerca de dois quilômetros, houve um "pequeno alto". Nesta ocasião, à retaguarda do grosso da tropa e devidamente instruído, o cabo João Joaquim de Moura, conhecido como Joaquim da Conceição, degolou os quatro prisioneiros, cujos cadáveres, num só bloco, foram incinerados numa fogueira, cobrindo-os com galhos e folhas, previamente ensopada de álcool. Dona Maria Celina, esposa de Antônio Gomes Grangeiro, viria a falecer posteriormente durante um parto.
Totalmente destroçada, a família Grangeiro mudou-se para Fortaleza e São Luiz do Curú e, no desdobramento dos tempos, aos poucos, como que saindo daquele terrível pesadelo, João Gomes Grangeiro, um dos onze filhos de Antônio Gomes Grangeiro, nascido em 1914 e aos doze anos vendo o assassinato do seu pai, tornou-se um homem de posses, sócio da Usina de Açúcar do Vale do Curú e, posteriormente, empresário das lojas de material elétrico de Fortaleza, “Eletro Grangeiro”. João Gomes Grangeiro era um dos filhos da grande vítima de Guaribas. Bafejado pela sorte na indústria e no comércio, homem trabalhador e equilibrado, tempos depois voltou a Porteiras e comprou o esquadro de terra onde seu pai foi morto e ali ergueu um belo mausoléu de mármore, assinalando o local do trucidamento.
As pessoas que ali transitem, mal sabem que aquele mármore cinzento, dentro do mato, é mais um marco do arbítrio policialesco do Ceará na década de 20 do século passado, quando os truculentos chefes de volantes policiais tudo podiam, fazendo prevalecer o direito da força sobre a força do direito.
Mausoléu erguido por João Gomes Grangeiro, filho de Antônio Gomes Grangeiro, no local onde foram assassinados , em fevereiro de 1927: Antônio Gomes Grangeiro, seu sobrinho João Grangeiro (Louro Grangeiro) e dois moradores, Aprígio Temóteo de Barros e Raimundo Madeiro Barros (Mundeiro) . 
Depois da chacina de Salvaterra, a próxima vítima do tenente José Bezerra, naquele mesmo dia 1° de fevereiro de 1927, seria Antônio Marrocos de Carvalho, fiscal de tributos da prefeitura de Jardim, residente no distrito de Macapá.
Após dar água aos seus animais na lagoa da Malhada Funda, Lampião se dirigiu para a Serra do Mato, município de Jardim, onde não encontrou o coronel Antônio Joaquim de Santana, seu maior coiteiro no Cariri, e nem Júlio Pereira, alfaiate em Juazeiro e notório fornecedor de munição ao seu bando. Lampião ficou irritado, pois dera viagem perdida. Nem dinheiro, nem munição, quando seu grupo precisava das duas coisas.
Dali Lampião seguiria para mais um episódio do Cangaço: O Fogo da Ipueiras dos Xavier.
Bruno Yacub, pesquisador
Brejo Santo, Ceará
NOTA DO AUTOR: Gostaríamos de agradecer a receptividade de Cristiano Grangeiro, parente e atualmente um dos proprietários do Casarão de Antônio Gomes Grangeiro.
Com informações obtidas das seguintes fontes bibliográficas:
- Separata da Revista Itaytera, A Tragédia das Guaribas, Otacílio Anselmo e Silva, 
- Açúcar no Sertão, de Mônica Dias Martins, 2008;
- Cariri Cangaço, Coiteiros e Adjacências, Napoleão Tavares Neves, 2009;
- Texto: Chico Chicote – A Tragédia das Guaribas, sem informações sobre o autor.

E vem aí...
Cariri Cangaço na capital do Ceará
26 a 29 de Abril de 2018
Cariri Cangaço Fortaleza