Cangaço Por:Rubem Braga



Erguerei hoje minha débil voz para louvar o Sr. Getúlio Vargas. Aprovo de coração aberto o veto que ele deu a uma lei que mandava abrir um crédito de 1.200 contos para a campanha contra o cangaceirismo. O presidente vetou porque não há recursos, isto é, por falta de dinheiro. Eu vetaria por amor ao cangaço. Lampião, que exprime o cangaço, é um herói popular do Nordeste. Não creio que o povo o ame só porque ele é mau e bravo. O povo não ama à toa. 
O que ele faz corresponde a algum instinto do povo. Há algum pensamento certo atrás dos óculos de Lampião; suas alpercatas rudes pisam algum terreno sagrado.
Bárbaro, covarde ele é. Dizem que conseguiu ser tão bárbaro e covarde como a polícia – a polícia que o persegue em todas as fronteiras. Mas é preciso lembrar que ele está sempre em guerra: e na guerra como na guerra. Retirai de seu aconchego doce qualquer de nossos ilustres e luxuosos generais; colocai-o à frente de um bando, mandai-o lutar uma luta rude, dura, de morte, através dos dias, das semanas, dos meses, dos anos. Ele se tornará também bárbaro e covarde.

"O cangaço não é um acidente. 
É uma profissão." 

Nasce, vive e morre gente dentro dessa profissão. O tempo corre. Filhos de cangaceiros são cangaceiros, serão pais de cangaceiros. Eles não estão organizados em sindicatos nem em associações recreativas: estão organizados em bandos. 
Ora, a vida do cangaço não pode ser muito suave. É uma vida cansativa e dura de roer. Quando centenas de homens vivem essa vida, é preciso desconfiar que não o fazem por esporte nem por excesso de “maus instintos”.

Cronista Rubem Braga

O cangaceiro é um homem que luta contra a propriedade, é uma força que faz tremer os grandes senhores feudais do sertão. Se alguns desses senhores se aliam aos cangaceiros, é apenas por medo, para poderem lutar contra outros senhores, para garantirem a própria situação. 
Ora, para as massas pobres e miseráveis da população do Nordeste, a ação dos cangaceiros não pode ser muito antipática. E é até interessante. 
As atrocidades dos cangaceiros não foram inventadas por eles, nem constituem monopólio deles. Eles aprenderam ali mesmo, e em muitos casos, aprenderam à própria custa. De resto, a acreditar no que José Jobim, um rapaz jornalista, escreveu em “Hitler e Seus Comediantes”, agora em segunda edição, os cangaceiros são anjinhos ao lado dos nazistas.

Os métodos de Lampião são pouco elegantes e nada católicos. Que fazer? Ele não tem tempo de ler os artigos do Sr. Tristão de Athayde, nem as poesias do Sr. Murilo Mendes. É estúpido, ignorante. Mas se o povo o admira é que ele se move na direção de um instinto popular. Dentro de sua miséria moral, de sua inconsciência, de sua crueldade, ele é um herói – o único herói de verdade, sempre firme. A literatura popular, que o endeusa, é cretiníssima. Mas é uma literatura que nasce de uma raiz pura, que tem a sua legítima razão social e que só por isso emociona e vale.

Lampião e Maria Bonita por Eduardo Lima

Vi um velho engraxate mulato, que se babava de gozo lendo façanhas de Antônio Silvino. Eu percebi aquele gozo obscuro e senti que ele tinha alguma razão. Todos os homens pobres do Brasil são lampiãozinhos recalcados: todos os que vivem mal, comem mal, amam mal. Dar 1.200 contos para combater o herói seria uma tristeza. Eu, por mim (quem está falando e suspirando aqui é o rapazinho mais pacato do perímetro urbano), confesso que as sortidas de Lampião me interessam mais que as sortidas do ser Antônio Carlos.

Não sou cangaceiro por motivos geográficos e mesmo por causa de meu reumatismo. Mas dou àqueles bravos patrícios o meu inteiro apoio moral – ou imoral, se assim o preferis, minha ilustre senhora.
Rubem Braga
Rio, fevereiro de 1935.
em "Diário de Pernambuco" - 02/02/1935
Postado pelo pesquisador e escritor Antonio Correa Sobrinho
Grupo Lampião, Cangaço e Nordeste - Facebook 
Imagem: Site Brasil de Fato

O Legado do Conselheiro Por:Raul Meneleu Mascarenhas


Essa matéria da Revista Veja, traz a nós a questão mal resolvida do massacre de Canudos depois de mais de 100 anos. As feridas ainda estão abertas e podemos dizer que trata-se de um emblema do Brasil pois assim como a ditadura militar/civil de 1964, que ainda projeta suas sombras que ainda pairam sobre a sociedade que até hoje ainda está buscando resolver essa situação mais recente da história brasileira, fica sendo procrastinada. Diferentemente da ditadura que existem vivos que a combateram, temos outros conflitos onde o Estado usou a violência de forma pesada. No caso de Canudos, não existe mais ninguém vivo, assim como em outros massacres que se deram no passado.

Antonio Conselheiro vestia um camisolão azul, sem cintura. Tinha cabelos longos como Jesus e barbas longas. Nos pés calçava sandálias para enfrentar o pó das estradas e a cabeça, protegia-a do sol inclemente com um chapelão de abas largas. Nas mãos levava um cajado como os profetas, os santos, os guiadores de gente, os escolhidos, os que sabem o caminho do céu. Saudava as pessoas dizendo "Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo". Respondiam-lhe dizendo "Para sempre seja louvado". Chamava os outros "meu irmão". Os outros chamavam-no "meu pai". Foi conhecido como Antônio dos Mares, uma certa época, e também como Irmão Antônio. Os mais devotos o intitulavam "Bom Jesus", Santo Antônio". 

De batismo, era Antônio Vicente Mendes Maciel. Quando fixou sua fama, era Antônio Conselheiro, nome com o qual conquistou os sertões e além. O mais célebre cronista de suas aventuras, Euclides da Cunha, escreveu em Os Sertões que poderia tanto ir para a História como para o hospício. Maldade considerá-lo caso de hospício. Foi para a História, e nela cravou um marco profundo — um ferimento. Transformou-se num dos personagens mais perturbadores da História do Brasil, figura central de um dos episódios mais extravagantes. equivocados e trágicos da nacionalidade, e também dos mais fascinantes, em que o Brasil defronta o Brasil, estranha o Brasil e choca-se frontalmente com o Brasil.


A Guerra de Canudos, na qual, calcula-se, morreram 15.000 pessoas, fez 100 anos em 1997. No dia 5 de outubro de 1897 depois de quatro expedições militares, um ano de lutas intermitentes e uma resistência feroz por parte de seus defensores, o arraial erigido pelo Conselheiro nos ermos do Nordeste da Bahia foi finalmente tomado pelo Exército. Quase nada sobrava daquele santuário-cidadela, um povoado que sonhou ser a Jerusalém dos confins do mundo e acabou uma Pompéia sem Vesúvio, reduzida a escombros, cadáveres, sangue e cinzas. 
Euclides da Cunha

Escreveu Euclides da Cunha: "Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a História, resistiu até o esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5.000 soldados." 

Dias antes, em 22 de setembro, morrera o Conselheiro — de disenteria, segundo alguns, talvez das complicações de um ferimento leve, segundo outra versão, talvez da desolação e da tristeza que cresciam a seu redor naqueles derradeiros momentos. Cem anos passados, programam-se seminários, houve cerimônias na Bahia e em outras partes, e continua a pairar sobre o país a enormidade do mistério de Canudos. Mistério, ou misterioso, são palavras usadas muitas vezes por Euclides da Cunha para qualificar o local que descreve, o ambiente e a coligação de jagunços e beatos que se opunha à ordem representada pelo governo da República e o Exército nacional — ou talvez o bando de jagunços feitos beatos, ou beatos feitos jagunços.

Imagine-se a seguinte cena. Depois de um dia inteiro de combates ferozes, tiros, mortos e feridos de lado a lado, correria e cansaço infinitos, caía a noite, depunham-se as armas e fazia-se silêncio no vale onde se situava o arraial e nas montanhas ao redor. De repente. um rumor começava a insinuar-se na escuridão. Aos poucos, percebia-se que era um coro de vozes humanas, com predominância das vozes femininas, num arrastado entoar de ladainhas. Euclides da Cunha explica: "O inimigo, embaixo, no arraial invisível — rezava". O mistério, a sensação de intercâmbio com o sobrenatural, de parte com o Absoluto, baixava sobre as desolações do sertão. 

Canudos não existe mais. A vila do Conselheiro, não bastasse ter sido destruída na guerra, encontra-se submersa. afogada que foi, em 1969. pelas águas do Açude de Cocorobó. A cidadezinha que hoje toma o nome de Canudos fica a 10 km da original. Em volta do açude qual sentinelas de uma história que insiste em não morrer, vigiam os morros tornados nacionalmente conhecidos, à época da campanha como locais de onde o Exército disparava seus canhões contra o arraial insurgente, e onde os rebeldes arriscavam suas escaramuças contra as tropas regulares — o Morro da Favela, o Morro do Mário. 

O Morro da Favela tomou-se tão famoso que veio a nomear um morro similar no Rio de Janeiro — por causa dos casebres parecidos com os de Canudos que nele vieram a erigir, segundo uma versão, ou porque nele se aboletaram os soldados veteranos da campanha. segundo outra. E a partir daí a palavra "favela" passou a ter um significado tão simbólico do Brasil quanto as cores verde e amarela. Uma multidão de casas de taipa. ordenadas, ou melhor, desordenadas em volta de uma praça: eis o que era o arraial. O Exército calculou em 25.000 os seus habitantes, o que o tornaria a segunda cidade da Bahia na época, só inferior a Salvador.

Canudos sob as cinzas

Considera-se hoje o cálculo exagerado. Na praça central havia duas igrejas, uma em frente da outra — as chamadas "igreja velha" a menor, e "igreja nova" esta uma ambiciosa obra empreendida pelos conselheiristas, nunca terminada. Aquela guerra singular tão brasileira quanto a Guerra de Troia foi grega, e tão reveladora de mitos, artimanhas e desencontros da nacionalidade, travou-se em tomo da praça das igrejas. Mais particularmente, da igreja nova em cujas torres incompletas e andaimes encarapitavam-se os sertanejos para alvejar os inimigos e que por sua vez consistia no alvo preferencial da fuzilaria e do canhoneiro dos soldados. Quando caiu enfim a igreja nova no finzinho da guerra, houve grandes manifestações de júbilo entre os soldados e segundo o relatório de um dos comandantes militares, "uma entusiástica e violenta vaia na jagunçada". 

Aproximava-se do desfecho a bizarra peleja que teve por centro uma igreja. Hoje, sobe-se ao Morro da Favela ou ao Alto do Mário e não se ouvem rezas. O amplo espaço em tomo é vazio e silencioso. Abaixo, vêem-se as águas do açude — apenas um plácido lago, às vezes cruzado por botes simples de pescadores, que num dia de sorte terminarão sua jornada fornidos de tucunarés, carpas ou tilápias. É um lago como outro qualquer, consideraria o observador, até mais feio, porque cercado de árida paisagem. Mas, se se tem consciência das ruínas que ele encobre, dos muitos cadáveres e da cidade duplamente fantasma, destruída pelo fogo e afogada nas águas, um frêmito pode percorrer o observador. 

O mistério continua, António Vicente Mendes Maciel, nascido em Quixeramobim, no Ceará em 1830 foi professor primário, comerciante e advogado prático — rábula é a palavra — antes de se tomar beato. Não era de família pobre, mas remediada. Não era um ignorante, mas tinha suas letras. Alguns atribuem a guinada que deu na vida a uma desilusão amorosa — o abandono da mulher, Brasilina. Ele ainda se uniria a uma segunda mulher, uma fazedora de imagens conhecida pelo luminoso nome de Joana Imaginária, antes de renunciar aos amores. 

Em 1874 aos 44 anos, já estava avançado na nova senda. É de quando data a primeira notícia sobre suas atividades, um registro do jornal O Rabudo, da cidade de Estância, Sergipe, dando conta de um certo Antônio dos Mares que, em andanças pelo sertão, vinha atraindo um "número espantoso" de pessoas.Seu modesto mundo circunscrevia-se a lugares perdidos como Natuba, Cumbe, Masseté, Uauá, Jeremoabo, Itapicuru — basicamente o sertão da Bahia, com uma ou outra incursão a Sergipe. 

Ele andava, andava. Rezava e vivia de esmolas e ajudava os necessitados, acompanhado de um séquito cada vez maior. Quando parava em uma cidade, oferecia-se para recuperar ou quando não houvesse, construir uma igreja ou então os muros do cemitério. Maciel tinha mania de fazer igrejas e arrumar cemitérios. Algumas de suas obras subsistem. A cidade que hoje leva o nome de Crisópolis, fundada por ele próprio. na década de 1880, com o nome de Bom Jesus, para ali acomodar alguns dos seguidores, tem em sua praça central uma igreja de sua lavra. A igreja. que Euclides da Cunha considerou "belíssima" está pintada de novo e bem conservada. Do séquito do Conselheiro faziam parte pelo menos dois mestres-de-obras, Manuel Faustino e Manuel Feitosa.

A igreja de Crisópolis obedece a um desenho de Manuel Faustino, sendo dele também a talha do altar. Numa das paredes internas, pendura-se um medalhão com a inscrição "Só Deus é grande", o dístico favorito do Conselheiro. A praça que se estende à frente da igreja, remodelada recentemente. chama-se "Antônio Conselheiro". A cotação de Maciel nunca andou tão alta, no sertão e fora dele. Euclides, entre muitos outros epítetos depreciativos, chamou-o de "messias de feira" e "bufão arrebatado numa visão do Apocalipse". 

Considerava-o o "grande desventurado", e, Canudos, a objetivação daquela "insânia imensa". A cotação do Conselheiro, hoje. variará de herói — para aqueles que vêem nele um certo tipo de bravura e resistência — a um bom homem, que não queria senão a salvação eterna, para si e os adeptos. Como se informar sobre esse cearense que procurava a paz de Deus mas acabou joguete dessa obra do Demo que são as guerras fratricidas? Durante décadas, a fonte capital — e sagrada — foi o livro de Euclides da Cunha. Hoje, impossível introduzir-se no assunto sem passar por José Calazans. O octogenário à época, Calazans era o decano dos canudistas da Bahia, um grupo de estudiosos voltado à pesquisa das aventuras do Conselheiro, seu arraial e a guerra. Calazans tinha saído a campo, principalmente, em busca da chamada história oral de Canudos — a história recomposta a partir do depoimento dos sertanejos. 

Como começou a trabalhar na década de 40, ainda alcançou vários sobreviventes do arraial do Conselheiro. Por exemplo: Honório Vilanova, irmão do dono da principal loja de Canudos. Antônio Vilanova, um dos homens mais próximos do Conselheiro. Honório Vilanova, com o irmão e as respectivas mulheres, escapou de Canudos nos últimos dias da guerra, como vários outros conselheiristas. Veio a morrer com mais de 100 anos. Uma vez, contou a Calazans que quando conheceu Maciel em Assaré no Ceará — Honório também era cearense — este era beato. Anos mais tarde, ao reencontrá-lo na Bahia já era conselheiro. "E há diferença?" perguntou Calazans. Honório explicou então que o beato tira rezas, pede esmolas e ajuda os pobres. O conselheiro vai além: dá conselhos. Qual seja, prega. Na hierarquia informal do sertão, a hierarquia para-eclesiástica do misticismo sertanejo, o conselheiro situa-se acima do beato. 

Raul Meneleu e Manoel Severo

Essas figuras de guias espirituais surgiam no interior do Nordeste muito em função da ausência de padres, explica o professor Cândido da Costa e Silva, da cadeira de História das Religiões da Universidade Federal da Bahia, autor de Roteiro da Vida e da Morte, um estudo sobre o catolicismo sertanejo. "Portanto, não existiam para contestar a Igreja ofi-cial mas para suplementá-la." O sertão não tinha padres como nas aldeias francesas, que davam assistência permanente às famílias e acompanhavam-nas ao cemitério, inclusive, levando seus mortos, prossegue o professor. Daí, os tiradores de reza e as incelências — eram figuras e fórmulas que supriam a falta de pessoal e de liturgia oficial. 

A pessoa ascendia à condição de beato ou conselheiro, ainda segundo Costa e Silva, de forma natural, pelo destaque que haviam obtido na sociedade, em virtude de sua liderança, capacidade de expressão, piedade e outras qualidades. Maciel jamais ousou ir além do que permitia sua condição. Nunca se aventurou a ministrar sacramentos. Tampouco podia ser acusado de desvios de doutrina, pois não pregava senão a teologia conservadora daqueles rincões e não aconselhava senão práticas de longa tradição sertaneja, como o jejum, quanto mais jejum melhor, caminhadas longas, até se esfalfar, e carregar pedras, para pagar os pecados. 

Mesmo assim a hierarquia da Igreja lhe era crescentemente hostil. Em 1887 o arcebispo de Salvador, dom Luís Antônio dos Santos cobrou providencias ao governo do Estado que por sua vez pediu socorro ao governo do Império. A idéia era internar Maciel no Hospício Dom Pedro II no Rio de Janeiro. A autoridade imperial consultada respondeu, no entanto, que não havia vaga no referido hospício. Em seu ímpeto repressor, na verdade, a autoridade eclesiástica aliava-se à aflição dos coronéis do sertão, que se viam ameaçados duplamente no poder econômico e no poder político. Estudiosos contemporâneos, como o brasilianista americano Ralph Della Cava, demonstraram como o Conselheiro, e também o padre Cícero, no Ceará, na mesma época, drenavam a mão-de-obra das fazendas, ao mesmo tempo que retiravam da influência dos chefetes os votos de cabresto que lhe garantiam o controle dos instrumentos do Estado. 

Acresce que, quando o movimento do Conselheiro aproximava-se de seu auge, ocorreu a mudança de regime no país, de Monarquia para República, e o Conselheiro, tradicionalista como era, recusa-se a aceitar o novo regime. A República era o Anti-cristo, era a ordem de Satanás. Ousara separar a Igreja do Estado. E, entre outras disposições odiosas, instituíra o casamento civil, roubando da Igreja a exclusividade de celebrar matrimônios. Uma mulher casada no civil, segundo o professor Costa e Silva ouviu de um sertanejo. em época bem mais recente, seria uma "p... testemunhada". 

O novo regime também delegara aos municípios a faculdade de instituir impostos. Certa vez, o Conselheiro encontrou os habitantes de Natuba inconformados com os impostos anunciados em editais no centro do povoado e incentivou-os a destruí-los. Foi seu primeiro gesto de desobediência civil. Em conseqüência, uma tropa policial saiu-lhe ao encalço. Depois de um choque violento, na localidade de Masseté, que resultou em três mortos de cada lado, a tropa retirou-se, mas para o Conselheiro ficou um sinal de alerta. 

O clima crescentemente desfavorável pedia uma decisão. Chegara a hora de mudar de vida. Depois de vinte anos de andanças, ele se estabeleceria com sua gente num lugar onde pudesse rezar em paz, aconselhar em paz e viver em paz, ao abrigo dos agentes do insano governo dos incréus, ou dos bispos que faziam o jogo do Diabo. Nascia Canudos.


O fotógrafo Flávio de Barros (foto acima) tinha um estúdio, em Salvador, e isso é quase tudo o que se sabe dele. Nas últimas semanas da guerra, seguiu para Canudos, comissionado pelos militares, para cobrir a Quarta Expedição. A foto ao lado é uma de suas mais famosas — a foto conhecida como das "prisioneiras”, embora, olhando bem, perceba-se que nela há homens também, no fundo. As mulheres prisioneiras foram, uma vez destruído o arraial, transportadas para Salvador. Os homens foram executados. Ao longo desta reportagem, estão estampadas mais fotos de Flávio de Barros, (que prepararei e postarei em outros artigos). Foram selecionadas principalmente as que mostram aspectos do arraial do Conselheiro — uma minoria, dentro de um conjunto em que a ênfase do fotógrafo foi nos militares. Se constituem um documento precioso, dos mais importantes da história da fotografia no Brasil, as fotos de Flávio de Barros apresentam também uma das mais lamentadas lacunas dessa mesma história: por força da censura, ou das obrigações que o prendiam ao Exército, ou ambas as coisas, ele deixou de documentar a selvageria e as atrocidades que caracterizaram o fim do conflito.


Pesquisa do Texto em base da reportagem de Roberto Pompeu de Toledo 
Fonte: Revista Veja 3 de setembro 1997

Raul Meneleu Mascarenhas
Pesquisador e escritor ; Aracaju-Sergipr
Conselheiro Cariri Cangaço
http://meneleu.blogspot.com/2016/04/canudos-o-legado-do-conselheiro.html



E Vem aí...
Cariri Cangaço
Antônio, O Conselheiro do Brasil
Quixeramobim - Maio de 2019

A Cangaceira Adelaide e o Umbuzeiro da Bandida Por:Manoel Belarmino

Manoel Belarmino ao lado de Rangel Alves da Costa

Adelaide Soares, filha de Pureza e Lê Soares, dos Soares do Sítio de Poço Redondo, deixou sua família junto com a sua irmã Rosinha (Maria Rosa Soares), no mesmo dia, para entrarem no Cangaço. Adelaide e Rosinha são primas da valente cangaceira Áurea Soares. Adelaide foi conviver na vida cangaceira com o cangaceiro Criança e Rosinha com Mariano. Não demorou muito para Adelaide engravidar. Mesmo grávida, as andanças pelas caatingas eram intensas na companhia do cangaceiro Criança, no bando. Os nove meses de gravidez já se completavam. O coito nas serras da Serra Negra, entre Poço Redondo e Lagoa da Serra Negra, poderia ser um lugar tranquilo para Adelaide "dar a luz" ao menino.
Todos estão ali tranquilamente acomodados no coito. Os moradores da serra já haviam levado beiju, tapioca, farinha, pé-de-moleque, e outros produtos para o bando no coito. Alguns barracos de palha de licuri já estavam ali armados. O esconderijo é seguro. Mas um tiro inesperadamente é disparado. Um tiro ecoou nas serras. Um cangaceiro, que havia entrado no Cangaço há poucos dias, de nome Serapião, inexperiente, dispara, acidentalmente, o seu rifle. Todos os cangaceiros fogem do coito às pressas. Imaginam ser uma tentativa de cerco das volantes.
Essas cruzes estão no cemitério da Curituba. Algumas pessoas afirmam ser de Adelaide. Mas há muita dúvida, pois outras pessoas afirmam que não teve cruz no cemitério. Somente a cruz do umbuzeiro colocada pelo cangaceiro Criança no mesmo dia da morte de Adelaide. E que a cruz que está lá não é mais a original. Moradores da região, percebendo que a cruz original estava precária, colocaram outra Cruz mais nova.
Naquele corre-corre e no susto, Adelaide começa a sentir as "dores de menino". Os cangaceiros andam muito pelas caatingas. Passam pelo Boqueirão, Barra de Baixo, Risada, Surrão, Pedra D'água, e chegam na fazenda Planta do Milho onde moram duas parteiras bastante conhecidas dos cangaceiros, Dona Maria e a jovem Afonsina. As parteiras rapidamente recebem Adelaide. Fazem de tudo, rezam, oferecem chás, mas o menino não nasce. "As dores de menino" e o sofrimento da parturiente aumentam. Os cangaceiros desesperados decidem levar Adelaide em uma rede para o povoado Curituba, em Canindé de São Francisco, na tentativa de salvar a mãe e o menino. Antes de chegar no povoado, Adelaide morre. A sombra de um pé de umbuzeiro serviu para o derradeiro gemido de Adelaide.

Conselheiro Cariri Cangaço Louro Teles, entrega a familiares das cangaceiras, Adelaide e Rosinha, o Diploma de reconhecimento como "personalidades da historia" , conferido pelo Cariri Cangaço no grande evento de Poço Redondo 2018.

O cangaceiro Criança acendeu uma vela de cera ali junto do corpo da sua amada, rezou e chorou. Depois os cangaceiros levaram o corpo de Adelaide para o Cemitério de Curituba, onde foi enterrado. O Cemitério de Curituba é aquele mesmo das margens do Riacho Curituba, pertinho do Quilombo Rua dos Negros.

Adeláide e Rosinha

No local da morte da cangaceira Adelaide Soares, sob aquele pé de umbuzeiro, ainda existe uma cruz. E aquele umbuzeiro é conhecido ainda hoje como "Umbuzeiro da Bandida"
Manoel Belarmino
Pesquisador e escritor - Poço Redondo, Sergipe

Centenário de Dona Fideralina


A Academia Lavrense de Letras e o Cariri Cangaço convidam a todos para participar da Programação em alusão à Celebração do Centenário de Morte de Fideralina Augusto Lima que acontecerá em grande estilo nesta próxima sexta-feira, dia 18 de janeiro de 2019, em Lavras da Mangabeira, no estado do Ceará.

PROGRAMAÇÃO
Dia 18 - Sexta-Feira
8h30min: Missa na Matriz de São Vicente Ferrer.
Celebrante: Confrade Pe. Benedito Evaldo Alves.

9h30min: Café e Visita Guiada
Casarão de Dona Fideralina Augusto Lima.
Rua Major Ildefonso-83, centro - Lavras.

Roda de Conversa:
Émerson Monteiro, Jorge Emicles
Manoel Severo e Cristina Couto.

Solenidade de doação da Foto-pintura de Dona Fideralina Augusto Lima aos proprietários do Casarão
Heitor e Magnólia Férrer,
doado pelo artista plástico Francisco Ivo;

12h00min: Almoço e Visita Guiada
Sítio Tatu - Propriedade de Dona Fideralina
Recepção e guias: Gualberto e Ítalo Leite,
Émerson Monteiro e Jorge Emicles.


17h00min: Solenidade da Academia Lavrense de Letras
Câmara Municipal de Lavras da Mangabeira.
Exposição dos quadros da Artista Plástica lavrense
Sinhá D'Amora e do artista plástico Francisco Ivo.

17h20min: Cerimônia de Entrega da Medalha Fideralina Augusto Lima
Pesquisadores e Biógrafos: Dimas Macedo, Émerson Monteiro, Melquíades Pinto Paiva, Rejane Monteiro Augusto Gonçalves,
Rui Martinho Rodrigues e Heitor Férrer.

18h00min: Cerimônia da entrega da Medalha do Mérito Educacional Prof. Gustavo Augusto Lima, a professora Maria Sizenita Venâncio Gonçalves. Saudação da acadêmica Íria Zogob.

18h20min: Entrega de Título do Mérito Cultural aos incentivadores e pesquisadores da literatura e da História de Lavras da Mangabeira professores: Maria da Glória Rolim Cavalcanti, Luiz Raul Cavalcanti Marcolino, Sara de Holanda Laurindo, Francisco Aparecido Alencar, Maria Gildete Olimpio da Silva, ao poeta Agustinho Firmino de Oliveira e ao escritor Vicente Ferrer Augusto Gonçalves.

18h50min: Entrega de Título de Sócio Honorário da 
Academia Lavrense de Letras aos escritores:
Benedito Vasconcelos Mendes, Heitor Feitosa Macedo,
José Glauber Lemos, Jorge Emicles Pinheiro Paes Barreto e 
Raimundo Custódio Neto (Poeta Mundoquinha).

19h00min: Entrega de Título de Sócio Correspondente 
Francisca Pereira da Costa e Francisco Correia Ivo.

20h. Entrega de Medalhas de Honra ao Mérito aos estudantes/pesquisadores: 
Cícera Rejane de Sousa Magalhães, Flávia de Sousa Oliveira, Lucas Oliveira de Freitas e Márcia Rhakell Guedes de Oliveira.

20h30min. Encerramento do Evento.

Cristina Couto
Presidente da Academia Lavrense de Letras
Conselheira Cariri Cangaço



Calixto Júnior e o Coronel Isaías Arruda Por: Odisseia Cangaço


Fonte: YouTube

A partir do Programa Odisseia Cangaço do confrade Thiago Menezes a lúcida e espetacular entrevista com o grande pesquisador e escritor caririense,João Tavares Calixto Junior com Isaías Arruda...

Vem aí
Cariri Cangaço 10 Anos...

As Havaianas de Alcino Por:Rangel Alves da Costa

Manoel Severo, Rangel Alves da Costa e as "Havaianas de Alcino" no
 Memorial Alcino Alves Costa em Poço Redondo, Sergipe

Alcino era um apaixonado pelo sertão, pelas histórias cangaceiras, pela música caipira, pela dupla Tonico e Tinoco, pela saga sertaneja e suas múltiplas feições, mas também por alpercatas havaianas. Sandália, chinelo, alpercata, ou qualquer outra denominação que se deseje dar, a verdade é que Alcino não tirava uma dos pés.
Seu costume e apego pelas havaianas era tamanho que não tirava elas dos pés por motivo algum, abrindo exceções somente quando, na condição de prefeito municipal, recebia autoridades políticas e governamentais em eventos oficiais ou se dirigia até o palácio do governo para tratar de assuntos referentes ao município. Ainda assim num desconforto danado.

O desconforto com os sapatos era visível. Alcino só faltava mesmo levar chinelo nos bolsos e calçá-los assim que saísse dos gabinetes. Andava troncho, pisando desconforme, à moda daqueles que usam sapatos apertados demais. E certamente, mesmo que folgados ou ajustados aos pés, tornavam-se apertados demais. Seus pés estavam acostumados mesmo com a liberdade.

Professor Pereira, Manoel Severo e Alcino Alves Costa

Muitas vezes, na capital sergipana e após o uso de sapatos em reuniões oficiais, chegava da rua e ultrapassava o portão em verdadeira correria. Nada de estar apertado e precisar ir ao banheiro, nada de outra motivação para aquela pressa toda, pois simplesmente sua vontade de se desafazer daquele couro e daquelas meias e calçar suas havaianas. Depois, confortado, chegava a sorrir sentindo seus pés em liberdade.

As havaianas eram, assim, sua companheira inseparável, desde o levantar ao deitar. Fazia seu uso em quase todas as situações. Bastava se imaginar calçando sapatos e já fazia cara feia, como se já estivesse sentindo seus pés doloridos e aprisionados. Era um prefeito de havaianas, um líder político de havaianas, um eterno caminhante de havaianas.

Alcino gostava de usar calça social, mas não camisa social. Mesmo de calça assim, nos pés sempre as havaianas. Acaso alguém avistasse ao longe uma pessoa de calça social, camisa fechada (geralmente listrada), cantarolando baixinho a cada passo, e de havaianas, podia saber que se tratava de Alcino.Certamente que havia motivações para que Alcino gostasse tanto de havaianas. E tudo pode ser explicado pelo próprio amor ao sertão. Seus pés ficavam mais rentes a terra que tanto amava, seus passos ficavam mais seguros por onde fosse, a leveza no passo permitia que caminhasse muito, que incessantemente seguisse. E ter os pés sujos da poeira sertaneja significava também ter sobre si a essência daquele seu mundo.


Alcino Alves Costa em entrevista a TV Diário no Cariri Cangaço 2009

A liberdade proporcionada pelas havaianas era a liberdade que Alcino tanto procurava em cada passo da vida. Talvez nem sentisse a borracha sob a pele. Talvez simplesmente sentisse a própria terra abaixo dos pés. E neste sentido dissesse a si mesmo que caminhava descalço e que o chão sertanejo fazia parte de sua própria pele.

Tão apaixonado era pelas havaianas que sequer se importava se já estivessem totalmente desgastadas e necessitando de outras. Enquanto filho, já o vi pedindo para que colocassem alguma presilha abaixo da correia que havia quebrado. Em instantes assim, logo outra era providenciada. E com as havaianas seguia até que alguém percebesse - nunca ele - que já estava imprestável ao uso.

O Memorial Alcino Alves Costa ainda guarda um exemplar dessa paixão de Alcino. Visitantes chegam e perguntam por que aquelas chinelas ali. A resposta é sempre a de que ele gostava de usar havaianas. Mas a resposta certa é outra: “Ali a simplicidade de um homem e o seu passo quase descalço pela sua amada terra sertão!”.


Rangel Alves da Costa, Escritor
Conselheiro do Cariri Cangaço - Poço Redondo,SE

Vila Nova de Pombal: O Inicio da Ocupação Portuguesa Por:José Tavares de Araujo Neto

DE ARRAIAL DO PIANCÓ À VILA NOVA DE POMBAL: O INÍCIO DA OCUPAÇÃO PORTUGUESA E A DESTERRITORIALIZAÇÃO 
DAS ÁREAS INDÍGENAS (1698-1772)
A Coroa Portuguesa enfrentava uma grande crise econômica, causada principalmente pelos holandeses, que após serem expulsos do Brasil iniciaram uma forte concorrência na produção de açúcar. No século XVII, a produção de açúcar, realizada principalmente no litoral do Nordeste, era a principal atividade econômica do Brasil Colonial, consequentemente, importante fonte de receita para o reino português. Visando enfrentar a concorrência dos holandeses, a Coroa Portuguesa determinou que a faixa litorânea fosse destinada exclusivamente à plantação de cana-de-açúcar, forçando os criadores de gado a se deslocaram para o inexplorado e hostil interior. Em 27 de julho de 1698, Teodósio de Oliveira Ledo, Capitão-mor das Cercanias do Piranhas, Piancó e Cariris, chega ao lugar denominada Piancó, e depois de provocar um massacre na aldeia dos índios da tribo Pegas, dar início a colonização portuguesa do lugar, que foi denominado Arraial de Nossa Senhora do Bom Sucesso do Piancó.
Em julho de 1709, temos o registro do primeiro sinal de resistência dos nativos, através de uma carta do Capitão-mor Teodósio de Oliveira Ledo ao Governador da Capitania de Pernambuco. Na missiva, o Capitão-mor informava que nos sertões do Piancó havia duas tribos da nação de Tapuia, chamados Pega e Corema, que inquietavam os moradores, e que os Pegas possuíam “cabo e mais de mil e tantos arcos”, o que dificultava a colonização e instalação de novos currais. Neste mesmo ano, o Rei de Portugal escreve ao governador da Capitania de Paraíba, determinando que mandasse o capitão-mor dos Sertões Teodósio de Oliveira Ledo, juntamente com os índios que tinha feito cativos, reprimir os índios hostis, que estavam provocando prejuízos na ribeira.
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 Igreja de Nossa Senhora do Rosário, no município de Pombal/PB, foi construída entre os anos de 1721 e 1723
A organização político-administrava do Arraial do Piancó tem início a partir de 1711, quando da sua elevação à categoria de Freguesia. A partir de então, a Freguesia de Nossa Senhora do Bom Sucesso do Piancó passa a ser governada por uma junta, dispondo de juiz ordinário, auxiliado por um escrivão/tabelião, ao tempo em que torna-se o centro da administração de toda a região, cujo domínio territorial se estendia desde o sertão do Cariri-Velho até a vila do Icó e sertão do Jaguaribe, na capitania do Ceará; aos limites do sertão do Pajeú, na de Pernambuco; até Jucurutu, na capitania do Rio Grande do Norte, abrangendo os sertões das ribeiras dos rios Piancó, Piranhas, do Peixe, Apodi, Seridó e Espinhara. Em 1721, é criado o Curato de Nossa Senhora do Bom Sucesso, com sede no Arraial do Piancó, ocasião em que e criado a criada Irmandade de Nossa Senhora do Bom Sucesso., que se incumbirá da Construção da Igreja Matriz. Em 04 de fevereiro do mesmo ano, o capitão-mor José Diniz Maciel assina o contrato destinado a Construção da Igreja de Nossa Senhora do Bom Sucesso, cuja obra é concluída em 1724.
Em 21 de setembro de 1725, o Governador da Capitania da Paraíba do Norte, João de Abreu Castelo Branco, por ordem do Rei de Portugal, D. João V, divide as Cercanias do Piranhas, do Piancó e dos Cariris em duas jurisdições. O Capitão-mor Teodósio de Oliveira Ledo fica responsável apenas pelas Cercanias do dos Cariris, enquanto que o Sargento-mor João de Miranda é promovido ao cargo de Capitão-mor das Cercanias do Piranhas e Piancó. O Capitão-mor João de Miranda, pessoa de extrema confiança da Casa da Torre dos D’Ávilas, havia participado como alferes da expedição comandada pelo Capitão-mor Teodósio de Oliveira Ledo em 27 de julho de 1698. A gestão do Capitão-mor João de Miranda, que se estendeu-se de 1725 até 1733, foi marcada por uma intensa onda de conflitos com os nativos. Alegando que as aldeias dos Pegas, Panatis, Icós e Coremas estavam mal situadas entre fazendas de gado, em 1730 ele propôs ao Bispo de Pernambuco, Frei José Fialho, as transferências para locais onde estas populações indígenas pudessem ser melhor assistidas e doutrinadas ao serviço de Deus.
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Tapuias
Os índios das tribos Pegas, Coremas, Panatis e Icozinhos foram os primeiros a sofrerem o impacto direto do processo de desterritorialização, principalmente por suas aldeias estarem situadas mais próximas à Freguesia do Piancó, em locais com disponibilidade de agua, terras férteis, propícias para implantação de novos currais. Após, o fatídico ataque ocorrido em 1698, os Pegas sobreviventes haviam se aldeado na ribeira do Piranhas, mais ao norte da região de onde foram enxotados; a aldeia dos Panatis se localizava ao sul, no lugar denominado Casa Forte, nas margens do Piancó, apenas meia légua da povoação, nome até hoje conservado; os Coremas também estavam estabelecidos nas margens do Piancó, no lugar denominado Boqueirão, onde hoje estar localizado o açude de Coremas; a aldeia dos Icós ficava nas margens do Rio do Peixe, entre terras de propriedade do poderoso Capitão-mor Jose Gomes de Sá, onde hoje estão localizados os municípios paraibanos de Sousa e Aparecida.
Em 1733, João de Miranda é sucedido pelo Capitão-mor Jose Gomes de Sá, abastado criador de gado, residente na Fazenda de Acauã, situada às margens do Rio do Peixe. Foi ele o construtor da Igreja e Casa da Grande, importante conjunto arquitetônico no estilo barroco, localizado no hoje município de Aparecida, considerado Patrimônio Arquitetônico e histórico do Estado da Paraíba. Juntamente com o Padre Bento Freire, ele é um dos fundadores do Povoado de Nossa Senhora dos Remédios do Jardim do Rio do Peixe, que mais tarde veio se transformar na cidade de Sousa/PB. Assim como seu antecessor, o Capitão-mor João de Miranda também impreendeu fortes pressões sobre os indígenas, pode-se afirmar, até com maior rigidez. A luta pela desapropriação das terras indígenas foi objetivo comum entre os dois mandatários, muito embora com motivações aparentemente diferentes. Enquanto João de Miranda, militar de carreira, buscava atender a satisfação da Coroa Portuguesa, José Gomes de Sá, igualmente português, buscava a tomada das terras indígenas em benefício próprio, com vistas a expansão das suas ambições pecuaristas.
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Este belo conjunto arquitetônico no estilo barroco encontra-se na Fazenda Acauã, município de Aparecida/PB. Foi construído pelo Capitão-mor José Gomes de Sousa, então proprietário e morador da Fazenda. 
Findado o seu triênio, em 1733, José Gomes de Sá repassou o cargo para o Capitão-mor Manoel Rabello de Figueiredo até 1740. Morador do Sítio São Pedro, na ribeira do Piancó, em 1738, ele reconheceu o direto de alforria dos escravos Bento Manoel e Pedro, em cumprimento ao que ordenou o falecido Bento Barreiro havia lavrado em seu testamento. Em 1740, foi o próprio Capitão-mor que alforriou a mulatinha Joana, filha de sua escrava Tereza, o que suscitou rumores de que o ele seria o pai da criança.
Diante dos constantes conflitos com os colonizadores, a situação dos Pegas descaminho para o insuportável, ao ponto de recorrerem à Coroa Portuguesa, em busca de um lugar onde pudessem viver em lugar tranquilos, criar seus animais e cultivar suas lavoras, longe da convivência com os brancos. Finalmente, em 1738 lhes foi concedida uma data de Sesmaria na Serra do Quixacó, hoje denominada Serra João do Vale, localizada entre as regiões de Catolé do Rocha/PB e Oeste Potiguar. Foi a terceira concessão de sesmaria a indígenas ocorrida na Capitania da Paraíba, precedido por doações aos Cariris, em 1714, e aos Xucurus, em 1718;
Não foi possível que se inicia em 1740, quando termina o mandato do Capitão-mor Manoel Rabello de Figueiredo que vai até 1746, quando, por infelicidades de todas as tribos, Jose Gomes de Sá retorna ao cargo de Capitão-mor, permanecendo até 1757.
O Capitão-mor Jose Gomes de Sousa mandou prender os índios da tribo Panati, que, em fileiras e amarrados pelo pescoço, foram conduzido até a igreja matriz, onde foram submetidos a humilhações, fome e sede. Depois foram levados a propriedade do Capitão-mor, onde realizaram serviços pesados, sem nenhum tipo de pagamento. O chefe da tribo denunciou ao Governador da Capitania de Pernambuco, a qual a Paraíba era subordinada, que um grupo de colonos, liderados pelo Capitão-mor José Gomes de Sá, estavam disseminando calúnias contra os indígenas, acusando-os de roubo de gado, com o propósito de expulsá-los do lugar e se apossar de suas terras. O Governador de Pernambuco ordenou que os Panatis permanecessem em suas terras. Em razão disso, os moradores planejaram uma vingança contra o líder, que em visita a povoação, foi provocado, depois agredido pelo por um homem de nome Teodósio Alves, que após aplicar-lhe “muitas bofetadas e pancadas”, mandou prendê-lo. Sem atendimento, o líder veio a falecer dentro da cadeia. Entretanto, laudo pericial, emitido pelas autoridades locais, indicou suicídio como o motivo do óbito. Dois anos depois da morte do líder Panati, que aconteceu em 1753, o índio Antônio Dias Cuió, da mesma tribo, foi barbaramente assassinado a tiros, sem motivos aparentes, mesmo assim, o juiz mandou soltar os acusados. Por determinação do Conselho Ultramarino, o ouvidor-geral Domingos Monteiro da Rocha instaurou processo no qual, três anos depois, foram responsabilizados o tenente Antônio da Silva, pela morte líder dos índios Panatis, e o morador Manoel Alves, pelo assassinato do índio Antônio Dias.
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Rodrigo Honorato, Manoel Severo, José Tavares e Ivanildo Silveira 
em dia de Cariri Cangaço
Em 1757, Francisco de Oliveira Ledo, filho do Capitão-mor Teodósio de Oliveira Ledo, que havia sucedido seu pai no Cargo de Capitão-mor das Cercanias dos Cariris, chega a Freguesia do Piancó, para comandar as Cercanias de Piranhas e Piancó, um território que há muito precisava de um desbravador experiente, por ser maior, menos explorados e considerado mais hostil. O novo Capitão-mor buscou uma relação amistosa com os nativos, principalmente com os Pegas, que tinham como missionário o Padre Antonio Saraiva da Silva, velho amigo da família. Em 1740, os Paiacus haviam expulsado os Pegas da Serra Quixacó, agora sua aldeia encontrava-se instalada na Serra Sepilhada, vizinha as terras do Padre Antonio Saraiva.
Como grande desbravador que o era, o Capitão-mor Francisco de Oliveira Ledo se destacou na luta em defesa preservação das fronteiras da a área de domínio. Em 1756, por questões fundiárias na chapada do Apodi, entrou em conflito com Joao Bezerra do Vale, influente sesmeiro muito ligado aos Govenadores das Capitanias da Paraíba e Rio Grande do Norte. O capitão-mor do Piancó comando uma expedição à área conflituoso, reforçada pelas milícias dos seus primos Capitão Francisco da Rocha Oliveira e o Capitão Manoel da Cruz Oliveira, proprietários das datas de fazendas Catolé e Brejo, que mais tarde deram origem as cidades paraibanas de Catolé do Rocha e Brejo do Cruz. Esta pendenga foi o estopim de um litígio territorial entre a Paraíba e o Rio Grande Norte que se prolongou até 1835.
O Capitão-mor Francisco de Oliveira Ledo exerceu o cargo até 1770, quando é afastado pelo ouvidor, provavelmente pior cometer alguma falha. Neste mesmo ano, o capitão-mor, Francisco de Oliveira Ledo, fora afastado pelo ouvidor por ter cometido algum tipo de crime. O capitão-mor do Rio do Peixe João Dantas Rothea reclama ao Governador de Pernambuco que quem dever assumir o posto é o capitão Antônio Gonçalves Reis Lisboa e não o coronel da cavalaria, embora este tenha maior patente, pois o capitão não é subalterno a oficial nenhum, já que pertence ao regime do povo.
Em 4 de maio de 1772, por determinação da Coroa Portuguesa, a Freguesia de Nossa Senhora do Bom Sucesso do Piancó e elevada a condição de vila, recebendo o nome de Vila Nova de Pombal. Francisco de Arruda Câmara, morador da Fazenda Várzea da Tapuia, localizada na Serra de Patu, deste termo, é escolhido o Capitão-mor para a Administrar a vila e toda suas cercanias, dando início a uma nova fase da história da organização político-administrava do lugar.

Jose Tavares de Araújo Neto
Pesquisador, Pombal - PB