Instituto Cultural do Cariri na Festa dos 10 Anos de Cariri Cangaço




Atenção

O Conselho editorial da Revista Itaytera estará recebendo os artigos dos sócios até o dia 16 de março de 2019, quando tal prazo restará esgotado! Quem tiver interesse em publicar algo, deve seguir as seguintes exigências:

1- O texto deverá ser em fonte 12, times new roman, Word Windows 2010;
2- Espaçamento entre as linhas: 1,5;
3- O texto deverá vir corrigido pelo autor; 
4- Nesta edição, em decorrência das comemorações dos 10 anos do Cariri Cangaço, os temas relacionados ao banditismo social (lato sensu) terão predileção, bem como aqueles que façam menção ao Cariri cearense (mesorregião, conforme preconiza o Estatuto) ou as suas imediações;
5- O número máximo de laudas, para cada artigo, será de 5 a 7, mas, a depender da relevância do assunto (fato inédito, descoberta científica, etc.), o Conselho Editorial poderá abrir exceção, aceitando um número maior de laudas;
6- Os custos da publicação correrão por conta do Instituto;
7- Caso o número de artigos exceda o permitido (aproximadamente, 200 páginas), estes serão selecionados, seguindo alguns critérios (a importância do tema, a situação do sócio perante o ICC- anuidade-, a primazia do envio, bem como a observância dos outros requisitos acima citados);
8- As fotos que ilustram o texto deverão ser enviadas tanto dentro do artigo (word) quanto em arquivo separado. Neste último caso, em jpeg;
9- Os artigos deverão ser enviados para Heitor Feitosa Macêdo, através do email: heitorfeitosa82@hotmail.com;
10- Os sócios terão preferência na compra de páginas para propaganda comercial, etc.;
11- Os autores dos textos que não forem publicados receberão a justificativa fundamentada por parte do Conselho Editorial, no prazo de 15 dias após o término do recebimento.

Heitor Feitosa Macêdo
Presidente do ICC- Instituto Cultural do Cariri


Cariri Cangaço
10 Anos
24 a 28 de Julho de 2019


A Gênese do Bando de Lampião Por:Geziel Moura

Não é novidade que Lampião e seus irmão, Antônio e Levino, tornaram-se cangaceiros antes da morte de sua mãe, Maria José Lopes, em 03/05/1921 e de seu pai José Ferreira dos santos em 18/05/1921, pois os irmãos Ferreiras participavam de grupo cangaceiro, desde agosto de 1920, aliás, a morte de Zé Ferreira se deu justamente, após assalto na cidade alagoana de Pariconha, que ensejou no deslocamento da policia, comandada pelo sargento José Lucena Maranhão, ao Sítio Fragoso, em Santa Cruz do Deserto, município de Mata Grande (AL), em busca dos irmãos Ferreira, e que resultou numa operação desastrosa, sendo mortos o dono do sítio, Sinhô Fragoso e Zé Ferreira, inocentemente.
Lampião e seus irmãos sempre operaram em grupo, antes de unir-se a Sinhô Pereira, eles andaram com Antônio Mathildes, Pirulito, Caneta, Carrossel, Meia Noite, além de Baliza e Gato (Não confundir com Santílio Barros) do grupo de Sinhô Pereira e os irmãos Porcinos (Antônio, Pedro, José, Cícero, Raymundo e Manoel) de Alagoas.


Quando Sinhô Pereira foi para Goiás, em agosto de 1922, Virgolino assumiu o grupo do ex-chefe, porém alguns componentes do grupo, vieram com ele e seus irmãos, dentre eles, os cangaceiros Meia Noite, Antônio Rosa, o Toinho do Gelo, eles aparecem na famosa foto flagrada na Fazenda Pedra, em Princesa (PB).
Geziel Moura, Pesquisador - Belém, Para

Em Julho, o Brasil Volta Seus Olhos para o Sul do Ceará...

Vem ai...

Cariri e Juazeiro!
Eu acho engraçado,
Já apartei o cadarço
Da botina pro roçado.
Eu vou bem disfarçado.
Eu tinha viagem planejada,
Já cancelei a minha jornada.
Eu desejo estar nesta estrada
Viajando a Juazeiro sem parada.
Dez anos de Cariri com aprendizado.
E eu tenho cinco de vivência enraizado,
Dentro da família com valor concretizado,
Eu desejo comemorar a data neste batizado.
Eu desejo encontrar a todos vocês lá em Juazeiro.
E esse movimento se tornou sentimento de romeiro.
Cariri Cangaço é cultura nordestina e ação de pioneiro.
Assim sendo: eu e você, vamos nos ver igual cangaceiro.
Rossi Magne. 
31/01/2019


Cariri Cangaço
10 Anos
24 a 28 de Julho de 2019
CEARÁ

Cangaceiro, Vítima da Justiça Por:Luiz da Câmara Cascudo

Luiz da Câmara Cascudo

“Aqui no Nordeste brasileiro nós sabemos que o cangaceiro não é uma formação espontânea do ambiente. Nem sobre ele influi a força decantadamente irresistível do fato econômico. Nas épocas de seca a fauna terrível prolifera, mas nenhum componente é criminoso primário. Os bandos têm sua gênese em reincidentes, trânsfugas ou evadidos. Nunca a sugestão criminosa levou um sertanejo ao cangaço. É cangaceiro o já criminoso. E criminoso de morte.

Depois de tanta discussão explicativa fica-se sem saber de que elementos estranhos sai o tipo hediondo, que outrora inda conservava o tradicional “panache” do heroísmo pessoal, do respeito às mulheres e aos velhos e da solidariedade instintiva à bravura. Nunca um cangaceiro digno desse nome matou um homem reconhecidamente bravo. Quase sempre ficavam amigos ou mutuamente se distanciavam.

Mas qual seria o fator psicológico na formação do cangaceiro? Para mim é a falta de Justiça, que no Brasil é corolário político. A vindita pessoal assume as formas sedutoras dum direito inalienável e sagrado. Impossível fazer crer a um sertanejo que o tiro com que ele abateu o assassino de seu pai deve levá-lo à cadeia e ao júri subsequente. Julga inicialmente um desrespeito a um movimento instintivamente lógico e que a Lei só deveria amparar e defender. Daí em diante surgirá o cangaceiro vítima de sua mentalidade. Ele descende em linha reta das “vendettas” e da pena do Talião.

Arte de Carybé...

Este é o aspecto raro. O comum é o sertanejo matar o assassino que ficou impune e bazofiador. Neste particular a ideia de prisão é para ele insuportável e inadmissível. Surge, fatalmente, o cangaceiro. A desafronta constitui a característica inicial do “bravi”. Numa alta proporção de oitenta por cento o cangaceiro do Nordeste brasileiro apareceu num ato de vingança. E são estes justamente os grandes nomes que o sertão celebra num indisfarçado orgulho que não dista da possível imitação.

Adolfo Rosa quis uma prima e o tio mandou prendê-lo num tronco. Dois dias depois o tio estava morto e surgia Adolfo Velho Rosa Meia Noite, chefe de bando, invencível e afoito. É uma das figuras mais representativas do velho cangaceiro típico, generoso e cavalheiresco. Jesuíno Brilhante tornou-se cangaceiro defendendo os irmãos contra a Família Limão. Baixo, loiro, afável, risonho, Jesuíno é uma lembrança cada vez mais simpática para o sertão. E sua morte é guardada como a dum guerreiro:

Jesuíno já morreu
Acabou-se o valentão.
Morreu no campo da honra
Sem se entregar à prisão.

Antônio Silvino matou o que lhe matara o pai. Jesuíno, no ódio que tinha da Família Limão, declarou guerra a todos os limoeiros que encontrava. Destruía-os totalmente, mastigando os limões entre caretas vitoriosas. Antônio Silvino “acabou a raça” dos assassinos do pai.

Jesuino Brilhante

O horrendo Rio Preto, hercúleo e feroz, não seria abatido se não fosse vingança doméstica. Os Leites, ajudados por meu tio Antônio Justino, fizeram guerra de morte ao moleque demoníaco. Se a Justiça chamasse Leite ou o negro Romão (escravo alforriado por meu tio, e que matou Benedito, o herdeiro de Rio Preto) às contas, estes se tornariam infalivelmente cangaceiros.

Não é fenômeno peculiar à zona nordestina do Brasil. Em São Paulo há o caso do jovem Aníbal Vieira. Quatro empregados duma fazenda violentaram lhe uma irmã. Aníbal não “foi à Justiça”, que por retarda e tardonha desanima. Armou-se com seu pai e matou dois dos violentadores. Os dois restantes fugiram para Mato Grosso. Aníbal viajou para Mato Grosso e matou-os. Julgou-se de contas saldadas. Fora um justiceiro. Mas a Justiça não entendeu desta forma. Mandou prender Aníbal. A tropa de polícia que o perseguia encontrou-se com ele em Três Lagoas. Aníbal fez frente à força militar. Feriu dois soldados e fugiu. Aí estará o movimento inicial dum Dioguinho.”

Fonte: Diário Nacional, São Paulo, 03 de junho de 1930.

Toma Posse a Nova Diretoria da Associação Cultural Pedra do Reino Por:Gaby Leal


A noite de sexta (01) foi de celebração! Tomou posse a nova diretoria da Associação Cultural Pedra do Reino, formada pelo presidente Ernesto Sávio, a vice-presidente Nazaré Magalhães, os tesoureiros Caio Menezes e Ana Paula Novaes, os secretários Joelma Marques e Cícero Moraes, bem como os membros do Conselho Fiscal nas pessoas de Mestre Régis, Francisco Diogo (que passa a presidência para Ernesto), Charles Neves, Auxiliadora dos Santos e Zé Iran. Esses responderão pela ACPR durante o biênio 2019/2020.

O evento foi prestigiado por autoridades municipais, dentre elas, o prefeito Romonilson Mariano, sua esposa e Secretaria de Assistência Social, Heliany Pereira Mariano, o vice prefeito e um dos fundadores e primeiro presidente da Associação, Antônio de Alberto, sua esposa, Marta, o secretário de turismo, Jackson Berg, o presidente da Câmara, Nenga de Stomberg. Além dessas autoridades, registramos a presença do comandante da Polícia Militar de São José do Belmonte, tenente Pablo, e o presidente da CDL de Belmonte Anderson Eugênio.


A presença das autoridades demonstra o compromisso do Poder Público em irmanar esforços junto à ACPR com o fim de tornar a Cavalgada uma festa cada vez maior. Nós da ACPR firmanos nosso compromisso de auxiliar incansavelmente os trabalhos da nova diretoria.

Gaby Leal
São José de Belmonte

Já o Milagre foi Milagre! Por:Professor Laílson Gurgel

Padre Cícero e Benjamim Abraão

Ao adentrar na política, meio escuso, verdade, o Padre Cícero estava, ainda obediente ao seu propósito, reservar o Juazeiro aos carentes de tudo e de todos. Ele tinha sim, várias propriedades, direcionadas ao plantio de mandioca e outras vocações agrícolas para salvaguardar os carentes da fome, e ter uma renda, não era no sistema de arrendamento! Dr. Floro apareceu no momento e hora certa, sozinho o Padre Cícero não conseguiria preservar o território. Popular como foi em vida, sabidões tiraram proveitos, Benjamim Abraão, principalmente. 


Ele acolhia crianças desamparadas, dando-as dignidade. Sua viagem a Roma foi sob ajuda financeira, inclusive passando "aperreios" na cidade eterna por falta de dinheiro. Já o milagre, 
foi um milagre. 

Milagre é qualquer manifestação que não pode ser explicada pela ciência. José Marrocos não provocou o fenômeno com substâncias, ficaria muito claro e evidente a fraude. Quem indicou a primeira comissão foi a própria cúpula da igreja dando parecer favorável. 


Lailson Gurgel, Heitor Macedo, Manoel Severo e Calixto Júnior

Lampião levou armas, munição, dinheiro e a falsa patente, tudo articulado por Dr. Floro ou Benjamim Abraão, a batata esquentou nas mãos de padre Cícero. O bando sai de Juazeiro com o objetivo alcançado, promessa é promessa... ou aconteceria uma carnificina, tudo controlado e a cidade permaneceria tranquila. Ficaria ao cargo do Estado o seu papel de combater o crime... como? Se a corrupção impera!! Latifundiários e, até corporações, vinculados na proteção do bandoleiro. 

Laílson Gurgel
Pesquisador, Juazeiro do Norte, CE


E vem aí
Cariri Cangaço
10 Anos
24 a 28 de Julho de 2019
CEARÁ

A Cruz e o Rilfe, Padre Cícero, Lampião e o Poder Por:Urbano Silva


Figuras emblemáticas do panorama social do nordeste, personagens envoltos em lendas, misticismos, folclore, fantasias e realidades das mais diversas, Cícero e Virgulino - o padre e o cangaceiro - estão alçados à condição de mitos nordestinos. Há três décadas juntando literatura, imagens e percorrendo cidades, bibliotecas e museus com o tema dos referidos personagens, gostaria de expor nesse artigo um extrato da visão que tenho sobre eles, moldado na imparcialidade, historiografia e vontade de compartilhar pesquisas.

Autores da grandeza de Nertan Macedo, Francisco Nóbrega, Pereira Gondim, Amália Xavier, Luitgarde Cavalcanti, Lira Neto e outros publicaram valiosos trabalhos sobre o tema. E claro, são referências universais de pesquisa. Um dos pontos nevrálgicos da biografia de Cícero, é o cruzamento da sua aura religiosa com a de líder político. Um dos autores atribui a ele a seguinte frase: o que Deus rejeita, o diabo não enjeita. Se a igreja não me quer, a política me convida.


Professor Urbano em participação no Cariri Cangaço em Juazeiro do Norte, 
no Horto do Padre Cícero

A base política do padre é sólida, formatada pela ambição do Floro Bartolomeu, médico e articulador político, que soube como ninguém ler a força do carisma do sacerdote, acrescentado doses de vaidades que os firmariam no poder social.


Em 1911 o padre funda a cidade de Juazeiro, em 1914 derruba o governador do Estado, em 1926 frente a frente estiveram Cícero e Lampião, projeto oriundo do Presidente da República Arthur Bernardes, via deputado federal Floro e o prestígio quase divino do padre, que assinou a convocação. Uma patente que não teve validade, mas rendeu frutos de armas e munições, matéria-prima valiosa para o vaidoso cangaceiro, capitão Virgulino Lampião! A missão? Abater a tiros Carlos Prestes, líder do comunismo que tanto incomoda os latifundiários e mais abastados.


Pesquisadores favorecem a tese de santificação do padre, a partir do robusto trabalho de acolhimento aos menos favorecidos. Mas esses mesmos estudiosos se omitem em aprofundar-se na revelação do perfil sacerdotal que moldou para si um pedestal e o sustentou no poder e suas benesses até os dias de hoje, 85 anos depois do seu falecimento. Política não é lugar para ingênuos, santinhos ou aprendizes de samaritanos. O padre lançou mão de um misticismo, estudioso que era a partir de sua vasta biblioteca, e esse misticismo iluminou a sua face religiosa, que reverberou em votos e força eleitoral. Inteligentíssimo, montou o seu próprio ministério, com pessoas dentro de sua própria residência, para que ele pudesse monitorar cada passo, cada palavra, cada ato dos seus auxiliares.

Floro Bartolomeu e Padre Cícero

Beata Mocinha, sua governanta, criada pelo padre desde os 11 anos de idade. Uma filha adotiva e obediente.
Maria de Araújo, a moça do fenômeno (não vejo como milagre) da hóstia, criada por familiares dele desde a infância, ela mesma se denominando “a noiva de Cristo” e a fantasia que expelia o sangue do próprio Jesus, interpretação sem nenhuma base teológica. Se era sangue humano? Ponto final, nenhuma relação com o Divino ser. Resume-se a um fenômeno biológico do próprio corpo, ou algo mais simplório. Foi espetacularizado e tomou dimensões inimagináveis de popularidade e santificação ou veneração popular. Atingiu plenamente os objetivos. Para a beata, significou sua sentença de polêmicas, castigos e morte. Para o padre, acusações e expulsão de sua própria igreja. Até o Papa soube.

Tereza, ex-escrava, residiu com o padre e foi serviçal até o fim dos dias.
Floro Bartolomeu, único da corte com curso superior, político maquiavélico, vaidoso, sedento de poder, manipulador, usou o carisma do padre e lhe formatou a identidade política. O carisma de um somado com a ambição do outro e ambos se beneficiaram das coisas boas do poder. Não há ingenuidades nessa relação.

Beata Maria de Araujo

Benjamin Abrão, mercenário, ambicioso, vaidoso, namorador, quantos detalhes e segredos da corte levou para a sepultura, e jamais saberemos? Como secretário do padre, falava em nome dele e o cargo lhe abriu todas as portas, até as confidências do destemido Rei do Cangaço, a quem fotografou, filmou e fez marketing de aspirinas e jornal. Ousadia da peste! Apresentado como “conterrâneo de Jesus” o que nunca foi, pois era libanês, território há centenas de quilômetros onde o Cristo nasceu...mas uma mentirinha assim, que mal faz? Impressionar os devotos era a primazia, e ninguém questionaria o padre, sua corte, nem se preocupariam com os detalhes geográficos.

José Teles Marrocos, o primo legítimo do padre, ex-seminarista, filho de um padre com uma beata, homem de uma cultura primorosa, professor, conhecedor de química (tipos sanguíneos, plasmas, glóbulos, hemácias, bicarbonato etc) era seu material de estudo e experimentações. Parente que vivia o dia a dia do primo famoso...e morreu subitamente, quando medicado de um diagnóstico banal, por dr. Floro Bartolomeu!

Lampião visitou o reino encantado do Juazeiro em março de 1926, história cheia de detalhes. E lá reuniu a família, dialogou com o padre (encontro histórico) e seguiu seu destino bandoleiro. Foi essa a única visita? Desconfio que não. Foi a única pública, é possível ter havido outras, afinal, o rei do cangaço tinha uma veneração pelo religioso e um débito de gratidão pelo acolhimento de seus familiares, como Maria Queiroz Ferreira, dona Mocinha, que faleceu aos 102 anos de idade, já no século XXI.

Lampião e a clássica fotografia ao lado da família por ocasião de sua visita 
a Juazeiro do Norte em Março de 1926

A causa política do sacerdote teve seu próprio exército recrutado por aventureiros dos sertões, numa variação de 450 até pouco mais de 1.000 homens. Força paramilitar, um crime aos olhos da lei, que o enquadraria como milícia armada nos dias de hoje. Sem estar em combates por causas políticas, eram esses mesmos homens que soltavam os rifles e punhais e empunhavam a cruz e os rosários, varando madrugadas em preces e ladainhas. Também compunham o exército de agricultores que davam “dias de serviços gratuitos” nas lavouras e engenhos do padre, produtor de excelentes rapaduras, distribuídas em vários estados nordestinos.

Casamentos, só com a análise prévia do sacerdote. Negros com brancos? Negativa na certa. Pobres com ricos? Nenhuma chance. Onde ficava o amor do casal? Embaixo da autoridade de Cícero, senhor absoluto no seu reino cearense.

Por mais impactante que seja, a revelação dos bastidores do poder, seja ele religioso, político, militar etc, é necessária para entendermos a psique que acontece quando vontades se tornam leis, opiniões são irredutíveis, dinheiro é identidade, e dominar vidas de súditos satisfaz tanto quanto se banquetear nas sombras do poder, geradoras de vaidades, autos satisfação e prestígio na forma de respeito, admiração e submissão dos pares que manipulam os destinos sociais.
Quando os súditos os adoram, os personagens transpõem os tempos.
Morre o homem, se eterniza o mito.

Viva a cultura nordestina!
Prof. José Urbano
Caruaru, Pernambuco


E vem aí
Cariri Cangaço
10 Anos
24 a 28 de Julho de 2019
CEARÁ

Uma Lembrança de Ariano Suassuna Por:Bruno Paulino



Um dia eu conheci o escritor Ariano Suassuna e conversei com ele. Não foi por muito tempo, mas valeu o papo. Foi quando o vate visitou Quixeramobim no final do ano da graça de 2011. Fico pensando hoje que poderia ter tirado uma foto para registrar aquele momento. Mas ele estava tão emocionado por adentrar a casa em que nasceu Antônio Conselheiro que respeitosamente hesitei. Acho que fui também tomado por aquele sentimento catártico. 
                                   
"Suassuna lacrimejava em silêncio."

Depois ele comentou com todo mundo que ali o rodeava que o livro Os Sertões foi um componente fundamental de sua formação intelectual. Que foi lendo Euclides da Cunha que se deparou pela primeira vez num livro com a gente simples e a paisagem que conhecia. E que aquela saga de Antônio Conselheiro e sua gente – que teve início ali naquela casa – era também a história dele. Era a história de todo o sertão. Era um Brasil que não se conhecia. Era o Brasil Real. Não o Brasil Oficial. Impossível não se emocionar com depoimento tão vivo e espontâneo.

Ariano recebe do Cariri Cangaço comenda de 
"Personalidade Eterna do Sertão"

Recordo que ao tomar posse na Academia Brasileira de Letras, Ariano Suassuna discursou: “Euclides da Cunha, mesmo ofuscado, ao se ver diante do povo brasileiro real, pôde tomar seu lado – e o grande livro que é Os Sertões resultou do choque experimentado ante aquele Brasil brutal, mas verdadeiro, que ele via pela primeira vez em Canudos e que amou com seu sangue e seu coração, se bem que nunca o tenha compreendido inteiramente com sua cabeça, meio deformada pela falsa ciência européia que o Brasil venerava, e ainda venera, como dogma.”

Bruno Paulino, Manoel Severo e Anapuena Ravena

Apaixonado pela saga do beato Antônio Conselheiro, Ariano dedicou-lhe o Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta e andava pelos vários cantos do país com a relíquia de um cartucho de bala em seu bolso, artefato que foi encontrado nos arredores do dizimado arraial de Belo Monte, e que gentilmente um morador da atual cidade de Canudos na Bahia lhe presenteou. O escritor exibia a cápsula durante suas palestras e falava das medonhas disparidades entre o Brasil Real e o Brasil Oficial, citando e explorando o pensamento antes desenvolvido por Machado de Assis. Dizia que bastava estudar sobre Canudos para entender toda história do Brasil.

“Em Canudos, a bandeira dos seguidores de Antônio Conselheiro era a do Divino Espírito Santo – a bandeira do nosso povo, pobre, negro, índio, e mestiço. Povo que o Brasil Oficial, o dos brancos e poderosos, mais uma vez (e como já se sucedera em Palmares e no Contestado), iria esmagar e sufocar, confrontando-se ali, no caso, duas visões opostas de justiça”, escreveu certa vez Suassuna ao inaugurar no Recife um teatro que nominou de Arraial em homenagem aos seguidores do Beato nascido em Quixeramobim. Nem sei por qual motivo hoje dei para lembrar esse dia. Porém, nunca esquecerei uma frase que disse pessoalmente a mim quando tive a oportunidade de trocar algumas palavras com ele: 

“Tenho muita inveja de você rapaz que nasceu nessa terra que pariu um dos maiores revolucionários que esse mundo conheceu que foi o bom peregrino Antônio Conselheiro. Cuide com seus amigos para que essa história não caia no esquecimento por aqui.”.

Disse isso me deixando atordoado e sem saber o que responder naquele momento.

Bruno Paulino é cronista e aprendiz de poeta
Quixeramobim, Ceara
Fonte:blogs.opovo.com.br


E Vem aí...
Cariri Cangaço
Antônio, O Conselheiro do Brasil
Quixeramobim - Maio de 2019

O Inesgotável Tema Cangaço Por:Wasterland Ferreira



Como todos sabemos, o fenômeno histórico e criminógeno do Cangaço foi derrotado militarmente (ainda bem), tendo como marco-histórico e oficial o assassinato do cangaceiro Cristino Gomes da Silva Cleto, o Corisco, que não obstante o fato de estar aleijado de ambos os braços e obviamente segurar o mosquetão, por haver sido baleado meses antes na cidade baiana de Paripiranga, foi alcançado pela volante do tenente Zé Rufino (José Osório de Farias) da Polícia Militar da Bahia, que terminou por metralhar o famoso cangaceiro, tido por muitos, inclusive pela imprensa como o braço direito de Lampião, e também chamado de Diabo Louro. 

O fato, ocorrido na fazenda Pulgas, em Brotas de Macaúbas, Bahia, a 25 de maio de 1940, pôs fim à um ciclo histórico e épico de praticamente cinco séculos e que não tenho dúvidas, foi uma das mais fortes e aguerridas formas de irredentismo levantadas (de modo contínuo, ou seja, de caráter permanente e prolongado) contra os valores impostos pelo colonizador europeu, e com o passar dos séculos, a partir de quando o banditismo rural passou a operar nos sertões do Nordeste, deu-se início aquilo que o Mestre Frederico Pernambucano denominou magistralmente como o "divórcio litoral-sertão" - ver Guerreiros do Sol. Violência e banditismo no Nordeste do Brasil, ora em 5.a ou 6.a edição pela Editora A Girafa/Massangana, e considerada a obra mais completa sobre o assunto. 

Sandro Lee, Wasterland Ferreira, João de Sousa Lima e Itamar Baracho

Contudo, o Cangaço tornou-se bem vitorioso culturalmente, sendo seu símbolo máximo Nordeste, Brasil e mundo afora o famoso chapéu de couro com abas enormes e levantadas na frente e atrás e que a partir de 1930 sofreu uma estilização riquíssima - a partir do advento das mulheres, cuja porta de entrada foi a partir de Maria Gomes de Oliveira, a "Bonita", depois chegando Sérgia Ribeiro da Silva, a "Dadá", mulher do mencionado cangaceiro Corisco, que havia dois anos que estava na casa de uma tia deste. E sem ordem cronológica também citamos Dulce Menezes dos Santos, de Criança; Nenê, fiel companheira de Luiz Pedro; Adília, de Canário; Maria Fernandes, companheira do cangaceiro Mané Juriti; Antonia, do Rego, mulher de Santílio Barros, o Gato; Maria dos Santos, a Mariquinha, companheira de Ângelo Roque da Costa, o famoso Labareda, e tantas outras -, tornando-o ainda mais bonito e atrativo, como também a todo o conjunto do traje guerreiro do cangaceiro nordestino, que foi tão bem estudado pelo já referenciado escritor e historiador Frederico Pernambucano de Mello que terminou por dedicar uma obra especializada a respeito: Estrelas de Couro. A Estética do Cangaço, ora em 3.a edição pela Escrituras Editora, sendo o quê há de mais completo sobre a chamada "estética do Cangaço".

Aí o que vemos hoje são as várias representações da figura histórica e épica do cangaceiro em nossa cultura, seja através do boneco de barro esculpido pioneiramente pelo Mestre Vitalino (in memoriam), no Alto do Moura, em Caruaru, Pernambuco, fazendo escola; seja na formação dos grupos estilizados de Xaxado - esta é a música, sendo a "pisada", a dança -, estilizados no que refere-se a participação feminina na dança histórica e guerreira (surgida ainda nos tempos da atuação do bando de cangaceiros sob o comando de Sebastião Pereira e Silva, o Sinhô, havendo relatos de que o Xaxado teria sido criado em seu próprio bando), onde originalmente era uma dança exclusivamente masculina.


Podemos também apontar o uso de elementos históricos e estéticos do Cangaço na formação dos grupos folclóricos de bacamarteiros, de que se valeu o eminente professor e escritor pernambucano Olímpio Bonald Neto, para escrever e publicar livro clássico: Bacamarte, pólvora e povo, recentemente reeditado pela CEPE - Companhia Editora de Pernambuco.
E a lista de manifestações artístico-culturais no uso da figura do cangaceiro que por tanto tempo atuou neste Nordeste setentrional é enorme, e vale ressaltar que bem acertado na absorção pelas vias da arte e do folclore e que hoje, ao contrário do que foi no passado, traz alegria, entretenimento, arte e beleza plenas à toda a população, como também riquezas materiais através dos capitais investidos e em contrapartida advindos dessa gama de produção cultural.

Wasterland Ferreira Leite, Recife-PE.
Pesquisador e Membro efetivo da SBEC - Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço.

Missão Velha Homenageia Coronel Liberato na Festa de 10 Anos do Cariri Cangaço Por:Bosco André



Nos 10 anos do Cariri Cangaço em Julho de 2019, Missão Velha se prepara para grandes homenagens. Vultos históricos que com sua atuação e presença forte nos cenários politico e administrativo foram relevantes para a construção da memória imortal da região do Cariri cearense. Dentre esses temos o Cel. Liberato Manuel da Cruz.

Cel Liberato foi Inspetor Escolar , Delegado e Intendente do Município de Missão Velha, substituindo ao não menos importante 
Cel. Antonio Joaquim de Santana, no período entre
 29-08-1917 a 19-10-1917. Vigésimo filho
 do casal Manuel Inácio da Cruz e Maria das Dores da Encarnação, ca
sou duas vezes, primeiro com a sobrinha Ana Isabel da Conceição Macêdo e em segundas núpcias com Joana Rodrigues da Cruz (Santinha). Então que venha os 10 Anos de Cariri Cangaço no Portal do Cariri, Missão Velha, com a ho
menagem do Município ao ilustre Patriarca da família Liberato – Coronel Liberato Manuel da Cruz.

João Bosco André
Pesquisador e escritor
Conselheiro Cariri Cangaço.

Canudos -O Fim do Treme-terra Por:Raul Meneleu Mascarenhas

Moreira Cesar

Uma onda de temor varreu o sertão. Lá vinha ele: o Anticristo, o Corta-Cabeças. o Treme-Terra. Muito tempo depois da guerra, ele ainda serviria de inspiração para os cantadores. Como nesta quadra, recolhida por José Calazans: 

Moreira César foi ao céu 
Com Tamarindo ao seu lado 
Sdo Pedro falou assim: 
A que cara de malvado! 

Antônio Moreira César era o seu nome,  coronel a sua patente. O oficial talvez mais celebrado do Exército, a quem se atribuía bravura sem igual. Era considerado o herdeiro do marechal Floriano Peixoto, falecido havia dois anos, ídolo dos militares e patrono-mor dos "jacobinos", como eram chamados os defensores mais intransigentes do regime republicano. 

Euclides da Cunha o descreve: "O aspecto reduzia-lhe a fama. De figura diminuta — um tórax desfibrado sobre pernas arcadas em parênteses —, era organicamente inapto para a carreira que abraçara. (...) Apertado na farda, que raro deixava o dólmã feito para ombros de adolescente frágil agravava-lhe a postura. A fisionomia inexpressiva e mórbida completava-lhe o porte desgracioso e exíguo". E no entanto, quanto respeito — e quanto medo — impunha à sua volta. Consideravam-no um herói por sua atuação na repressão aos dois movimentos que haviam desafiado o regime florianista — a Revolta da Armada, no Rio de Janeiro, e a Revolução Federalista, no Sul. 

Em Santa Catarina para onde foi enviado com plenos poderes, para apagar os últimos fogos da Revolução Federalista distinguiu-se pela ferocidade. Quando não fuzilava, decapitava os adversários. Agora ia entrar na legenda do sertão. 


"Na Guerra de Canudos, depois de Antônio Conselheiro e Euclides da Cunha, Moreira César é o principal personagem", diz Oleone Coelho Fontes, outro dos canudistas baianos, autor de um livro sobre Moreira César, O Treme-Terra." 

O elenco da epopeia do sertão pode ser prolongado ao infinito: coronel Tamarindo, o segundo de Moreira César, cabo Roque, herói efêmero de uma bravura que não houve; marechal Bittencourt, o ministro da Guerra. Do lado dos conselheiristas, a turma dos jagunços valentes, alguns formados na escola do cangaço antes de se juntar ao Conselheiro e se tomar os cabeças de seu Exército improvisado: João Abade, o "comandante da rua", como era conhecido — "rua" no sentido de "arraial", de "cidade", de "área urbana" e comandante porque era o chefe militar supremo: Pajeú, o temível guerrilheiro das estocadas ardilosas, "forma retardatária de troglodita sanhudo", segundo Euclides; Pedrão, que veio a morrer só em 1958, com tanto gosto de lutar que dizia a José Calazans, quando já nonagenário, e entrevado: 

"Faz pena um homem como eu morrer sentado". O mesmo Pedrão, que mais de trinta anos depois de Canudos seria contratado pelo interventor Juraci Magalhães para combater Lampião, justificava-se: "O coração pedia para brigar". 

A estes, acrescentem-se os acólitos religiosos do Conselheiro: Antônio Beatinho, José Beatinho, Paulo José da Rosa. José Beatinho, com sua bela voz, fazia as rezas mais bonitas e mais pungentes. Havia o sineiro Timotinho. Até o fim, não importava o vareio de balas, o troar de canhões e o mar de cadáveres que se interpunham em seu caminho, nas ruas estreitas do arraial. Timotinho cumpria a obrigação de tocar o sino. Morreram juntos, ele e o sino, um arremessado para cada lado, quando uma bala de canhão atingiu a torre da igreja velha. 

A Guerra de Canudos é tão rica de personagens quanto a — releve-se a insistência na comparação — de Troia e de personagens que igualmente foram se credenciando à mitologia, tal a maneira como os descrevem, e tais as façanhas que lhes atribuem. 

Se o Brasil fosse os Estados Unidos, e produzisse filmes como Hollywood, haveria aqui mais filmes com Moreira César e Pajeú, Tamarindo e João Abade, do que há nos Estados Unidos com o general Custer e Touro Sentado. 

Canudos, entre outras coisas, é uma esplêndida história, com uma trama de emoções e imprevistos. A guerra começou com um equívoco. Correram rumores em Juazeiro, à margem do Rio São Francisco a noroeste de Canudos, de que por causa do atraso na entrega de uma encomenda de madeira para a construção da nova igreja do arraial, os conselheiristas preparavam uma invasão da cidade. A população assustou-se com o boato, o juiz local notificou o governador do Estado, Luís Viana, e este resolveu enviar a Canudos — estamos em novembro de 1896 — uma expedição punitiva. 


Tinha 104 homens, era comandada por um tenente, Pires Ferreira, e estava destinada ao primeiro dos sucessivos vexames que seriam impostos aos militares. Quando os soldados estavam estacionados no povoado de Uauá, já perto de Canudos, sentiram a aproximação de um estranho cortejo — uma fila de gente que rezava e entoava cânticos religiosos, tendo à frente uma grande cruz e um estandarte do Divino. "Parecia uma procissão de penitência", escreve Euclides. Era um batalhão do Conselheiro, armado com o que foi possível juntar na circunstância — velhos trabucos, facões, paus, pedras, foices. Depois de quatro horas de combate, embora com muito mais perdas do que o inimigo, puseram-no a correr. Terminava aquela que passou para a História como a primeira expedição. 

A segunda expedição, comandada pelo major Febrônio de Brito, quintuplicou de tamanho — 550 homens — e pela primeira vez usou Monte Santo como base de apoio e ponto de partida da ofensiva, algo que se repetiria nas expedições seguintes. Monte Santo, 100 quilômetros ao sul de Canudos, é, hoje como há 100 anos, o lugar mais interessante da região. O Monte Santo que lhe empresta o nome é a Sena de Piquaraçá, que se eleva atrás da cidadezinha. Na verdade, a cidadezinha é como outras do sertão. O que há de interessante no lugar é o monte, que lhe serve de majestoso pano de fundo — um monte sulcado por um caminho que o vai galgando, sinuosamente, subindo sempre, subindo até quase perder de vista e todo salpicado de capelinhas, como se fosse, como escreveu Euclides da Cunha, "uma escada para os céus". 

Febronio de Brito

Lá no alto, no fim do caminho, há uma igreja maior, a Igreja de Santa Cruz. Trata-se de uma via-sacra, em que as capelinhas representam as passos da Paixão. Foi construída no século XVIII. 100 anos antes de Canudos, por um capuchinho italiano, frei Apolônio de Todi. A subida até Santa Cruz, longa de 3 km, é penosa. O caminho é não só íngreme, quase a desafiar alpinistas, como composto de chão rude de pedras, cortantes algumas, escorregadias outras. No alto, bate um vento forte e descortina-se um panorama deslumbrante da região.

O Monte Santo de frei Apolônio, reprodução do que ele imaginava fosse o Calvário de Jesus — na verdade muito mais alto, mais íngreme e mais penoso de subir do que o Calvário ao qual se é apresentado em Jerusalém —, é o mais eloquente símbolo material do catolicismo do sertão: um catolicismo feito de penitência de severidade, de purgação atormentada e permanente dos pecados.

Hoje, ao chegar a Monte Santo, depara-se com uma placa: "Benvindo. Welcome. Bienvenido. Monte Santo. Altar do Sertão". Como se a cidadezinha perdida nos fundões do Brasil fosse visitada por estrangeiros. Não é, mas os sertanejos continuam a procurá-la. Na Semana Santa, costuma atrair milhares de devotos. Mas mesmo no resto do ano, e especialmente nas sextas-feiras, o dia da feira na cidade, o movimento é grande. É o dia preferido pelos pagadores de promessa. 

Monte Santo , Bahia

O caminho de pedras que sobe morro acima registra então um contínuo vaivém. Hoje são raros, mas ainda há os que sobem de joelhos ou carregando pedras. Fica-se a perguntar que tanto se peca, no sertão, que tanto se precisa de penitência? Monte Santo evoca tanto a religião como cidade santuário, quanto a Guerra de Canudos. No tempo de suas peregrinações pelo sertão, antes de estabelecer-se no arraial. Antônio Conselheiro visitou-a várias vezes. Um ano antes de estabelecer-se em Canudos, encetou. com seus seguidores, trabalhos de restauração em algumas das capelinhas da montanha. 

Quando os soldados se reuniram em Monte Santo, segundo Euclides, a cidade tomou ares de festa. Barracas militares, centenas de forasteiros: "Tudo aquilo era uma novidade estupenda". A segunda expedição demorou quinze dias na cidade antes de se pôr a caminho. E então, tudo foi muito rápido. Bastaram dois dias, ao se aproximar de Canudos, para que ela também, fosse desarticulada e posta a correr, depois de ter sido surpreendida pelo inimigo emboscado nos morros próximos do arraial insurreto. A humilhação era demasiada. O irredentismo dos fanáticos" sertanejos, como começavam a ser qualificados, virava questão nacional. O histerismo que tão frequentemente caracteriza a vida política brasileira, materializado ora em denúncias arrasadoras, ora em invectivas que desqualificam o adversário num dia como um "comunista" no outro como "neoliberal", consolidava uma fantasia: a de que Canudos era a ponta-de-lança de uma reação monarquista. 

Lembre-se de que o regime republicano fora inaugurado havia apenas sete anos. O novo regime já enfrentara o desafio da Revolta da Armada e da Revolução Federalista. Agora, sob o disfarce do fundamentalismo religioso, vinha dos sertões uma revolta que sem dúvida se ramificava pais afora, nos arraiais monarquistas, e quem sabe tinha até apoio do exterior. Para debelá-la. só um bravo como Moreira César. Paulista de Pindamonhangaba, então com 47 anos, o coronel foi convocado para chefiar os 1.300 homens que formariam na terceira expedição. Da lenda de Moreira César faz parte uma coleção de marcos na região. Na cidade de Euclides da Cunha, a antiga Cumbe. apontarão ao visitante a casa em que ele ficou, quando por lá passou, a caminho de Canudos — um sobrado hoje vazio e fechado, atrás da igreja. 

Em Queimadas, Monte Santo, em cada cidade se mostram os lugares de alguma forma ligados à sua memória. No lugar chamado Umburanas, em Canudos, por onde corre o riacho do mesmo nome há uma cruz, no meio do mato. Uma lápide explica, embaixo: 

"Neste lugar foi abandonado, 
no dia 4 de março de 1897, 
o cadáver do coronel Moreira César..."


O marco, mandado edificar por Oleone Coelho Fontes, José Calazans, Renato Ferraz e outros estudiosos de Canudos, foi inaugurado no dia 4 de março último, centésimo aniversário do evento que rememora. Como pôde o coronel acabar desse jeito? Ele vinha tão confiante... Ao se aproximar de Canudos, ordenou que se disparassem dois tiros de um de seus quatro canhões Krupp. "Lá vão dois cartões de visita ao Conselheiro", disse. Ao longo da marcha, sua preocupação maior era que os conselheiristas abandonassem o arraial, privando-o da glória de derrotá-las. 

À medida que se aproximava, o otimismo aumentara: "Vamos tomar o arraial sem disparar mais um tiro, a baioneta". Ocorre que Moreira César rinha outro adversário, tão difícil de vencer quanto o Conselheiro — ele próprio. Era epilético, num tempo em que não se tinha como conter a doença. Sofreu dois ataques durante a campanha de Canudos. Além disso. apresentava um temperamento instável e impulsivo. Certa vez, navegando para o Rio de volta da campanha de Santa Catarina, com seus soldados, mandou prender o capitão do navio, por suspeitar de uma traição para a qual não havia evidência alguma. 



Em Canudos, da mesma forma como lhe sobrava confiança, faltou-lhe previdência. Mandou seus homens ao ataque depois de longo dia de marcha penosa. sem descanso. Fê-los avançar até para dentro do arraial e entrar numa luta corpo-a-corpo com os conselheiristas — o que, além de facilitar a movimentação do adversá-rio familiarizado com o labirinto de ruelas, inutilizou a artilharia que não podia disparar sob pena de atingir os próprias companheiros.   


A situação se complicava. Moreira César ordenou um ataque de cavalaria mais desastroso ainda em se tratando não de uma planície aberta. mas de um inimigo entrincheirado num reduto cheio de barreiras. Com a situação cada vez mais feia o coronel deixou seu posto de comando, endireitou o cavalo em direção ao arraial e avançou, dizendo: "Vou dar brio àquela gente". Não foi muito além. Atingido no ventre por uma bala, vergou-se. largando as rédeas. Os companheiros cercaram-no. "Não foi nada, um ferimento leve", disse. Morreu naquela noite. Os infortúnios de Moreira César e sua expedição estão magistralmente descritos em "Os Sertões".  


Morto o comandante, a desarticulação da tropa foi geral. O coronel Pedro Nunes Tamarindo, que deveria sucedê-lo no comando — um homem "simples, bom e jovial", segundo Euclides, que já chegara aos 60 anos e não aspirava senão a uma reforma tranquila — proferiu então sua frase famosa, um clássico de todos os tempos das debandadas militares: "É tempo de murici, cada um cuide de si". Tamarindo seria por seu turno abatido horas depois, quando transpunha o Córrego do Angico. Seu corpo foi recolhido pelos conselheiristas, empalado e erguido num galho. para assustar os imprudentes que porventura ainda viessem a ousar uma nova expedição contra o arraial sagrado. Os soldados não tinham como salvar os cadáveres ilustres. 




No atropelo da fuga, com os sertanejos ao seu encalço, fustigando-os e roubando-lhes as armas e as munições, abandonaram o corpo de Moreira César nas Umburanas... 

A morte do cultuado coronel elevou à potência máxima o clima nacional de histeria. As turbas invadiram as ruas do Rio de Janeiro. "A correria do sertão entrava arrebatadamente pela civilização adentro", escreveu Euclides. "Vingança" e "morte aos monarquistas" eram as palavras de ordem. Jornais monarquistas foram empastelados. Um monarquista, o coronel Gentil de Castro, fiel escudeiro do último primeiro-ministro do Império, o visconde de Ouro Preto, foi assassinado. Criavam-se fantasias. Correram rumores de que um certo cabo Roque, ordenança de Moreira César, heroicamente, tinha permanecido ao lado do corpo do chefe e resistira até o último cartucho, preferindo a morte a permitir que o inimigo profanasse a sagrada relíquia. 
 
Uma rua no Rio e outra em São Paulo foram batizadas com o nome do cabo Roque. Eis então que Roque aparece são e salvo, entre as últimos fujões retardatários e destrói o Roque da fantasia. O cabo Roque de verdade, desprovido de qualquer glória veio a morrer prosaicamente em 1900, de peste bubônica, no Rio. Quanto a seu malogrado chefe, ficava agora entregue aos cantos do sertão, mesmo que equivocados, confundindo o local em que foi abandonado o corpo com o da morte: 

Coronel Moreira César 
Olho de cana caiana. 
Tomou chumbo em Canudos 
Foi morrer nas Umburanas. 

Raul Meneleu Mascarenhas
Pesquisador e escritor, Conselheiro Cariri Cangaço
https://meneleu.blogspot.com/2016/04/canudos-o-fim-do-treme-terra.html?m=1&fbclid=IwAR2rViEj1kNihM4aAThhyDvEaoumPKaGRsDs-HFFq6UTfwU1AZFGNsjS_UI




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Cariri Cangaço
Antônio, O Conselheiro do Brasil
Quixeramobim - Maio de 2019