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O abraço cangaceiro da França

Bosco André, Netinho Ferraz e Jack de Witte

Cher Manoel Severo,
Merci pour tes bons vœux pour l’année qui vient !
Desejo famili Cariri Cangaço tambem um feliz ano novo, replete de realizações, com muita saude e felicidade para revender!
Espero tornar a lhe ver para o proximo Cariri Cangaço em setembre! 
Que seria a data provavel ?
Como ja falamos lhe espero com a sua mulher em minha casa para a primavera !!!!!!!
Saudações cangaceiras.

Jack e Michèle de Witte

Jack de Witte, o francês mais nordestino do planeta. Por:Manoel Severo

Bosco André, Jack, Severo e Zé Cícero , em uma de nossas últimas visitas ao Ten João Gomes de Lira em Nazaré

Jack de Witte me foi apresentado pela amiga Luitgard de Oliveira Barros, junto com a apresentação, veio a recomendação: "Severo o homem é espetacular e um apaixonado pelas coisas do nordeste". Sem dúvidas as credenciais apontadas por nossa estimada Luit, se confirmaram sobre maneira. Jack um "brasilianista" que descobriu sua paixão pela caatinga e pelo cangaço, pesquisador atento e escritor, nos deu o prazer de estar ao nosso lado durante quase 10 dias, quando pudemos compartilhar o nosso Cariri, como também visitar alguns dos principais cenários de nossa história cangaceira. 

Jack de Witte, Manoel Severo, Bosco André e Vilson; neto de Antônio da Piçarra
Jack de Witte, Zé Cícero, Anildomá e Bosco André
Rumo a Fazenda São Miguel e Passagem das Pedras

Em principio uma passagem obrigatória; pelas terras de Antônio da Piçarra. Piçarra cenário mais do que vital para entendermos as relações de Virgulino Ferreira com a sociedade rural daquela época. Seu Tôim da Piçarra, coiteiro de confiança que pelas contigências do destino foi obrigado a entregar seu amigo Lampião. Ali nas terras da Piçarra, Lampião foi cercado pelas volantes de Arlindo Rocha e Manoel Neto e ali tombou morto Sabino. "Meu avô disse que entregou Lampião com lágrimas nos olhos", confessa Vilson, neto de seu Tôim da Piçarra e nosso anfitrião.

Serra Talhada e sua lendária "Passagem das Pedras" foi nossa segunda parada, sem deixar de abraçar o confrade Anildoma Willians e nossa querida Cléo da Fundação Cabras de Lampião. Da capital do Xaxado em Pernambuco, partimos para a Bahia não sem antes pisarmos o solo da Estrada Zé Saturnino e as fazendas Passagem das Pedras, onde nasceu Virgulino e São Miguel, berço da família de Seu Luiz de Cazuza.

Nazaré do Pico, a Carqueja, a Vila encardida no meio da caatinga brava, entre Serra Talhada e Floresta, terra de homens valentes e destemidos, ali Virgulino conheceu seus mais ferrenhos inimigos e perseguidores: Os nazarenos. Ali tivemos a oportunidade do último abraço em nosso querido Tenente João Gomes de Lira.

Pedro Luiz, Jack e Alcino Alves Costa na casa de Dona Generosa
Pedro Luiz, Julio Ischiara, Zé Cícero, Jack, Manoel Severo e Bosco André e ainda com Juliana Ischiara, Dra Francisquinha, Sousa Neto, Alcino Costa... na casa de Maria Bonita
Paulo Gastão e Jack de Witte, navegando no São Francisco rumo a Angico
Manoel Severo, Megale e Jack, rumo a Angico
Jack, Lili, Zé Cícero e Bosco André na Grota mais famosa do nordeste

Passando por Pernambuco, Alagoas e desaguando no norte da Bahia para encontrar os confrades que ciceroniadosm por João de Sousa Lima promoviam o Seminário Internacional do Centenário de Maria Bonita. As visitas à Vila de Dona Generosa no sopé da serra do Umbuzeiro, a emblemática Malhada da Caiçara e a Casa de Maria Bonita com direito a abraçar seu irmão, Ozéas Gomes, foi para Jack um  momento único em nossa viagem pelas paragens baianas. Em Delmiro Gouveia a visita a ex-cangaceira Aristéa e ao Museu da Fundação Delmiro Gouveia.

Dali à bela Piranhas, e à Grota de Angico, anfitrionados pelos amigos Jairo Luis e Cacau, fez de nosso encontro um momento único onde Jack, pela segunda vez em Angico, pudesse ter o contato com várias correntes de pensamentos e pesquisa na direção de desvendar as Mentiras e Mistérios de Angico. 

Padre Cícero, Padre Bosco e o irmão do Papa...
Em Barbalha com os Conselheiros Cariri Cangaço, Hugo Rodrigues e Rodrigo Sampaio
Cenário: Casa de Izaias Arruda, em Missão Velha
O descanso merecido ao lado de Bosco André na Usina da família Linard

Por fim o nosso amado Cariri...Crato, Juazeiro, Barbalha e Missão Velha fizeram o roteiro do Francês mais nordestino do planeta. Jack de Witte, mais um estimado membro da família Cariri Cangaço !

Manoel Severo

Acompanho com o pensamento e o coração ! Por:Jack de Witte

Jack de Witte

Caros amigos do Cariri Cangaço,  João, caro Zé, caro Severo, caro Paulo, caros companheiras e companheiros de estrada... Bom dia e saudações cangaceiras a cada um! Não vou fazer um grande discurso por culpa do meu conocimento fragil da lingua portuguesa escrita. Ler, se, tenho nenhum problema.
Então! Ja chego a nova edição do Cariri Cangaço 2011. Depois o magnifico seminario sobre o centenario do nascimento da Maria Bonita não parei de pensar en aquele novo encontro na terra do Padim Ciço. Não parei de pensar a todos vocês, empenhados a  descobrir pedacinhos trechos da vida dos cangaceiros, a andar por trilhas sinuosas , à procura de uma verdade historica. Jamais esquecerei aqueles momentos no sertão de Paulo Afonso. Claro que teria gostado estar hoje com vocês em Juazeiro do Norte ! Mas é um viagem muito longe e também caro para eu, que mora no sul da França. Bem-vindo a quem quer conhecer a minha terra e o meu povo milenario. A minha casa sera sua !

Como ja falei com o meu amigo Severo, espero participar na proxima edição do Cariri Cangaço. Pois, não estou fisicamente com vocês, porém,  saibam que estarei acompanhando  em pensamento e com o meu coração os seus pasos pisando a terra sagrada do Cariri. Até logo

Abração
Jack de Witte
França


NOTA CARIRI CANGAÇO: Jack de Witte, um querido amigo que se apaixonou pelo nordeste e pelas coisas de nosso sertão, pesquisador atento, comprometido e talentoso, nos deu o prazer de estar conosco durante uma semana em nosso Cariri, e daqui para as paragens de Paulo Afonso de Joãozinho de Sousa Lima. Querido Jack, estamos com saudades, e em 2012 esperamos você, da França para o Cariri Cangaço.

Antônio Linard uma legenda do Cariri Por:Manoel Severo

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Antônio Linard

Por ocasião da visita de nosso confrade Jack de Witte ao Cariri do Brasil, tivemos privilégio de novamente visitar o complexo industrial dos Linard na acolhedora Missão Velha, portal de entrada do Cariri. Ali fomos recebidos pelo amigo Maraton Linard e seu filho Alônio Linard.

Por mais de duas horas estivemos visitando as instalações da Usina da família Linard, iniciada ainda no início do século passado,  a partir da determinação, trabalho árduo e muito talento de seu fundador, senhor Antônio Linard.

Residência da Família Linard

 Jack de Witte e Alônio Linard

 Jack de Witte, Alônio Linard e Bosco André

famoso Torno de Lampião

Alônio Linard, seu neto, que nasceu e cresceu dentro da Usina e desde criança se acostumou a percorrer e aprender todos os segredos de seu avô e pai; agora é um dos timoneiros do empreendimento; nos mostrou toda a estrutura do parque industrial e nos contou um  pouco da história desse grande pioneiro que foi Antõnio Linard. Uma das passagens mais marcantes foi seu relato de como seu avô fazia no início de tudo: "Vovô não sabia idiomas, então recebia catálogos da Inglaterra, da Alemanha e ia traduzindo com um dicionário e ia montando os moldes, as peças..." e assim se construiu uma das mais festejadas usinas de nosso Ceará. Sem falar no inusitado e marcante episódio de seu encontro com Virgulino Lampião nos idos entre 1926 e 1927, quando dali surgiu seu primeiro torno, o "Torno de Lampião"

NOTA CARIRI CANGAÇO: A família Linard é uma das mais tradicionais de nosso Cariri, com sede em Missão Velha, são também anfitriões de nosso Cariri Cangaço. Grande abraço aos amigos Maraton e dona Eailce Linard e seus filhos, estimados amigos, Amélia e Alônio Linard.
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O nazareno Jack Gomes de Lira... Por:Manoel Severo

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É verdade! Nestes caminhos por entre faxeiros e xique-xique, pelas veredas mais exuberantes de nossas caatingas é que se revelam as verdadeiras personalidades... Pois é!  E aqui faço uma homenagem de gratidão a estimada amiga Luitgarde, explico: Foi ela quem me apresentou ao simpático e agradabilíssimo pesquisador francês, Jack de Witte; personagem marcante deste último mês por entre a família Cariri Cangaço. E tem mais, Luitgarde acabou proporcionando a Jack a realização de um sonho: Tornar-se, mesmo que por poucos minutos, o Jack Nazareno, ou poderia até ser Jack Gomes de Lira...

 

Imagens de Jack de Witte em visita que fizemos a casa do Tenente João Gomes de Lira, em Nazaré. As fotografias mostram Jack com o quepe e rifle que pertenceram à destemida família dos descendentes de João Gomes Jurubeba.

Manoel Severo
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Padre Bosco, o irmão do Papa e o concílio de Missão Velha

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Padre Bosco e Padre Cícero

Este incrível mundo do cangaço é realmente surpreendente. A cada viagem, a cada encontro, a epopéia é recheada de fatos e atos "inusitados"; apenas esses já poderiam fazer tudo valer a pena. Nesta última empreitada que assumimos, o Seminário Internacional em Paulo Afonso, não poderia ser diferente, e as "marmotas" começaram bem antes da partida... Ainda em nosso amado cariri, sob a batuta do Padre Bosco André, calma, explico...

Em 2010 quando estávamos construindo o Cariri Cangaço 2010 e visitávamos a fazenda de Marica Macedo no Tipi, encontramos uma família e começamos a conversar, a senhora dona da casa toda animada foi logo dizendo que tinha uma filha que era noviça, etc, etc, então olhei para o lado e vi Bosco André todo compenetrado olhando para o horizonte e aí falei imediatamente para a senhora, veja quem me acompanha: é um padre, Padre Bosco. Imediatamente Bosco tomou um susto mas não teve tempo de negar ou reagir, teve que assumir o papel sacerdotal, o fato é que não teve coragem de acabar com  a alegria daquela sertaneja por está ao lado de um representante de "Sua Santidade"; Bosco a partir dali era cumprimentado com toda reverência em todas as casas do Tipi, na Aurora, teve que sair de lá e ainda abençoar umas 10 a 20 crianças...Ossos do ofício!

Guarda-roupa secreto de Bosco André

Pois bem, antes de sairmos para Paulo Afonso fomos recebidos pelo amigo pároco de Missão Velha, Padre Ivo. Lembrando do acontecido em Aurora fui logo sugerindo, já que temos tantas autoridades eclesiásticas seria bom promovermos logo um concílio; tinhamos padre Ivo, padre Bosco e ainda um francês com uma cara de cardeal. Seria o primeiro concílio da história do cangaço: Concílio de Missão Velha.

Concílio de Missão Velha: Severo, o cardeal Jack e os padres, Ivo e Bosco

Como andávamos com a autoridade eclesiástica não haveríamos de perder a oportunidade de aproveitar tão maravilhosa dádiva, e conseguimos por duas vezes: A primeira já em Paulo Afonso, na Malhada da Caiçara, todos estavam receosos de ir até a casa do irmão de Maria Bonita, daí, olhei atentamente para o nosso querido Jack de Witte e decretei: Eis aí a nossa salvação... Jack de Witte a partir daquele momento se tornou o "Irmão do Papa", ele resmungou, reclamou, tudo em francês, mas não havia jeito, ele seria o nosso trunfo para chegar à família de seu Ozéias. Ora, logo que chegamos fomos apresentando a grande autoridade divina, Jack - O irmão do Papa; a esposa de seu Ozéias foi logo dizendo: "logo vi, com esses cabelinhos brancos..." Só faltamos dizer a ela qual dos Papas!

O irmão do Papa visita irmão de Maria Bonita

Jack a contragosto teve seu minuto de fama "papal". No outro dia pela manhã fomos a Delmiro Gouveia visitar a ex-cangaceira Aristéa; sem dúvidas a esse grande encontro também haveríamos de sugerir uma benção sacerdotal. Não teve outra: Quando chegamos e nos abancamos, chamei a querida amiga Damaris; nora de Aristéa e esposa de Pedim; para um canto e sacramentei: - Damaris tá vendo esse senhor velhinho aí, de fala esquisita? É o irmão do Papa! Damaris ficou logo branca, e começou logo a se emocionar, quase se ajoelha na frente de Jack de Witte, foi uma emoção só... mas Jack, a beira do desespero começou logo a gritar: "É mentirrra, é mentirrra, é brincadêrra, brincadêrra de severo...." 

Ah! Grande Jack, muito obrigado por esses momentos inesquecíveis e de onde você estiver; seja na França ou no Vaticano, não temos dúvidas que levou um pedaço desse maravilhoso nordeste em seu coração. E os Vaqueiros da Histórias continuam suas andanças...Depois conto mais.




O sertão é realmente sensacional e generoso. Vejam que até a caatinga resolveu homenagear tamanha reunião eclesiástica e mandou também seu representante o destemido e majestoso "Coroa de Frade"...

Manoel Severo
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O francês que se apaixonou pelo Cangaço

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.Olho no Olho...
Por Jack de Witte

Pesquisador e escritor Jack de Witte

Caros companheiros de estrada, pois é exatamente disto que se trata. Eu poderia ter dito "Caros amigos, caros participantes deste seminário, caros colegas, etc." Mas é a ideia de estrada, de caminhada, no sentido próprio e figurado, que me vem em primeiro lugar ao espírito. Andanças do pensamento, da razão, por trilhas sinuosas e escondidas, à procura de uma verdade histórica ou então o percorrido por Benjamin Abrahão, que levou um tempo imenso e teve que superar uma infinidade de obstáculos unicamente com o intuito de se aproximar e em seguida filmar Lampeão, Maria Bonita e o grupo deles em seu esconderijo. Caminhos de cangaceiros, andarilhos infatigáveis, percorrendo sem se esgotar o Sertão através de sua incontáveis veredas de terra e de pedras, farejados pela morte, num dia caçadores noutro caça, navegando pela caatinga como um barco desgorvernado.

A vida quis que eu nascesse na França. Não se escolhe o lugar de nascimento, não é verdade ? Assim eu tive uma educação calcada no espírito de Descartes, filósofo e matemático, que nos incitava a "Nunca aceitar uma coisa como verdadeira sem que eu evidentemente a soubesse como tal." eu não tinha nascido quando Lampeão morreu e desse modo nunca fui testemunha direta de qualquer acontecimento que lhe diz respeito. A dúvida intelectual, consequentemente, sempre esteve presente quando me dediquei às minhas pesquisas jornalísticas e bibliográficas relativas à vida dele. Essa desconfiança é reforçada pela minha experiência pessoal: a cada vez que tive a oportunidade de ler na imprensa um artigo sobre um ocorrido do qual eu tinha sido testemunha ou mesmo participante, observei erros mais ou menos importantes.

Acontece a mesma coisa com os depoimentos dos que viveram esta saga cheia de "ruídos e de furor": Quanto mais o tempo passa entre um acontecimento e a sua narração por um ator ou uma testemunha direta, mais a informação recolhida está sujeita à caução: às falhas da memória, à necessidade, consciente ou não, de se valorizar, de impor seu ponto de vista. A ideia preconcebida e a subjetividade da pessoa que entrevista, se misturam formando um labirinto no qual o espírito mais lúcido se perde ! Existe no meio disto tudo um núcleo de verdade, uma pepita, mas não se pode saber de antemão se o historiador, o pesquisador, vir a encontrá-la ! Seriam vocês capazes de descrever as suas férias do ano passado, não esquecendo nada de significativo O diabo está nos detalhes...

Jack, o francês apaixonado pelo Cangaço...

Eu escrevi este livro, digo isso francamente, antes de tudo para me dar prazer a mim mesmo. Eu não pretendia convencer ninguém, somente a mim mesmo. Contar a história, uma história - de um homem que nasceu, cresceu, amou e foi morto, assassinado seria mais justo, no Sertão, a partir de informações que eu podia obter e daquilo que pude ver com meus próprios olhos. Tudo isto em função da minha cultura. A objetividade não existe, a sinceridade, sim. E para compartilhar com o maior número de pessoas - depois de Canudos, que tinha transtornado a jovem República brasileira, - a epopeia, as peregrinações deste homem - o mais célebre dos cangaceiros -, e de todos que acreditaram nele.

Assim que eu me aposentei, e animado pelo estado de espírito que acabo de descrever para vocês, me pus ao trabalho. Antes de tudo eu precisava reunir a maior quantidade de informação possível, de preferência confiável, sobre o assunto. Eu vim varias vezes ao Brasil. Frequentei os sebos, acionei as minhas relações e consegui compor uma biblioteca de uns quarenta livros que eu "devorei" (engraçada, esta expressão), com o marcador (de texto) ou um lápis na mão.

Para que vocês entendam, a primeira obra que eu li foi a sutil tese de doutorado, em francês, da socióloga Patricia Sampaio Silva, "Sur les traces de Virgolino, un bandit nommé Lampião" (Nas pegadas de Virgolino, um bandido chamado Lampião),

a qual me fez tocar de perto a complexidade das relações humanas no Sertão, onde o racional se mistura constantemente com o misticismo. Para um engenheiro de formação e de profissão, a mensagem não era superficial !

Passei varias semanas na Biblioteca Nacional do Rio, fazendo pesquisa com microfilmes, ajudado por minha esposa, os artigos dos jornais da época relatando os fatos e feitos de Lampeão bem como dos outros atores que faziam a história do Cangaço. A História oficial, com um grande H, de certa forma. Fotocopiei (com a amável ajuda da administração, faço questão de sublinhar..), centenas de recortes editados pela imprensa, que eu traduzi me esforçando para respeitar o tom enfático e o seu estilo afetado, formal, etc. Desci no terreno: lá onde Lampeão nasceu, lá onde ele viveu, lá onde ele travou batalhas importantes, lá onde ele morreu, em Angico. As descrições, mil vezes repetidas, de seus combates com os volantes e o exército regular tomavam forma diante de meus olhos.

Seguiu-se uma fase de compilação, de triagem desta informação superabundante, muitas vezes contraditórias nas datas e nos fatos, às vezes lisonjeiras demais diante de uma improvável verdade, às vezes facciosas, preconceituosas, segundo todas as evidências. Quando se quer convencer demais...

Chegou a hora da escrita. Respeitar os princípios que eu já expus: a dúvida, a pluralidade de opiniões ."Segundo se é poderoso ou miserável", as narrações de um mesmo fato se diferenciam. Quantas vezes eu li, cobrindo um período de vinte anos, artigos dos jornais anunciando a morte ou o fim provável de Lampeão e de seus sicários ! Certo, este fenômeno não é novo nem especifico ao Brasil nem à época ! Mas ele complica a procura da verdade - desculpem, de uma verdade -, para aquele que pretende contar a História. Desse modo, cada capítulo é dividido em dois: a primeira parte é um recorte de artigo editado pelos jornais da época o qual introduz um fato preciso narrado em seguida na "primeira pessoa" (puramente uma escolha literaria) na segunda parte do capitulo. Dois enfoques diferentes assim, de uma mesma história. Os regionalismos que permeiam o texto, intraduzíveis em francês, são pontuados por uma definição sucinta em pé de página para facilitar a compreensão dos leitores não familiarizados com Nordeste e, segundo as sua importância, são mais bem explicitados em léxico no fim do livro.

Este livro já foi escrito, publicado na França (1), traduzido - e bem traduzido ! - em português brasileiro pelo meu amigo Luiz Frigoletto, mas não ainda publicado aqui. Todavia, é pensado para os leitores brasileiros, e notadamente os Sertanejos, a quem ele era destinado prioritariamente ! Mas o que importa: eu vivi quatro anos apaixonantes.

Desde pequeno me interessei pela Revolução Francesa e os bandoleiros. Mesmo antes de saber ler, eu folheava incansavelmente um livro enorme contendo magníficos desenhos sobre os mais famosos bandoleiros da França, os fora-da-lei. Este meu interesse por Lampeão é bem natural, genético, de uma certa forma ! Quem nunca sonhou, um dia, ainda que furtivamente, bloqueado no seu carro em um engarrafamento, quase sufocado nas horas do "rush" em pleno metrô, suando engravatado pelo seu terno, vítima gritante de uma injustiça da administração ou da discriminação de seu superior hierárquico, tudo abandonar, despir-se de seus badulaques, se tornar justiceiro, partir para bem longe, reencontrar a natureza e os grandes espaços, se sentir livre e responsável por si mesmo ?

Jack François de Witte 

NOTA CARIRI CANGAÇO: Fui apresentado ao pesquisador e escritor francês Jack de Witte pela querida amiga Luitgarde Barros, por longo tempo amiudamos uma salutar correspondencia, via email; atravessando o Atlântico; hoje temos o prazer de trazer um pouco mais deste francês apaixonado pelo cangaço e pelo nordeste e apresentá-lo aos muitos amigos da família Cariri Cangaço. Em março Jack estará desembarcando no Rio de Janeiro e virá direto para o Crato, quando passará uma semana como nosso hóspede, de sobra, ainda vamos, juntos, participar do Seminário Centenário de Maria Bonita em Paulo Afonso, Piranhas e Canindé. Seja bem vindo Jack, entre e se abanque ,a casa é sua!
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