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Padre Cícero e Lampião Por:Alfredo Bonesi

 Alfredo Bonessi
 
Caro amigo Severo. Na oportunidade em que se fala sobre  o Padre Cícero  de Juazeiro do Norte e Lampião em seu BLOG, no relacionamento entre eles, depois de tudo que li sobre ambos e sobre a questão em foco, depois de  muitos estudos,  em várias obras,  resumo no seguinte:

1- O Padre Cícero era um padre católico em ligação com padres jesuítas. Isso contrariou a Igreja Católica porque já  na época do Império tanto  a Igreja Católica como a Maçonaria eram inimigas dos Jesuítas, instigação essa que se originou na corte Portuguesa Pombalina Maçônica com a destruição das Missões jesuíticas Espanhola na América e a ocupação por Portugal desses territórios. O Padre Cícero estava  no meio de uma fogueira, de uma guerra. Lembro que o movimento jesuítico era de libertação de Portugal  e  Republicano, portanto contra a Monarquia. Daí se beneficiou da Maçonaria que inicialmente era Monarquista e depois se tornou Republicana.

2- Porque Juazeiro não caiu ?
- Porque ficou ao lado do Governo Federal  e o ajudou no combate a Coluna Prestes e também no posicionamento quando da intervenção no governo do Ceará, senão teria sucumbido como sucumbiu  Canudos, Sitio Caldeirão, Pau de Colher e tantos outros movimentos religiosos nordestinos.

3-    Quem mandava no Juazeiro ?
Com a chegada a Juazeiro de Floro Bartolomeu, um medico Baiano fugitivo, esse aos poucos foi assumindo o controle político local, passando de Vereador a Prefeito, Deputado Estadual e depois Deputado Federal. Com idade avançada do Padre esse poder político local foi passado a Floro Bartolomeu, tendo o Padre Cícero se afastado de certas decisões, dizendo: “agora tudo é com o homem”.  O Padre Cícero foi denunciado na Câmara Federal e lá estava Floro Bartolomeu defendendo o Padre e a cidade de Juazeiro. Floro escreveu até um livro sobre esse fato, onde narra até como deu fim ao culto ao Boi Sagrado que acabou num churrasco, confirmando que o Padre e a cidade nada tinha a ver com esse culto religioso. Floro também afirmou que o Padre Cícero não era líder de fanáticos como havia sido denunciado na Câmara.  Foi Floro que convocou Lampião por carta, morrendo logo a seguir.


 4-    Com a chegada de Lampião a Juazeiro  o Padre Cícero não ficou nada satisfeito e reclamou da presença dele no Juazeiro e tratou logo de despachar Lampião pedindo que  fosse embora logo da cidade. O delegado quis prender os Cangaceiros, mas o Padre respondeu  que logo eles iriam embora  e com isso não haveria retaliação nenhuma contra a cidade por parte dos cangaceiros. O que foi feito. não quero esse tipo de gente aqui” teria dito o Padre Cícero.

5-    Lampião se armou e foi de encontro a Coluna Prestes. Avistou a coluna e viu o seu efetivo de mais de 3500 homens, armados, soldados experientes, e ouvindo o conselho dos demais cangaceiros abriu no oco do mundo. Nem 10 bandos de Lampião poderia fazer frente a tão poderosa coluna.

6-    Com a chegada de cada vez mais romeiros a cidade o Padre Cícero começou a ter problemas de acomodação com aquela gente toda e daí se dispôs a comprar terras e mais terras para fazer as acomodações, de tal maneira que pudesse  deixar ocupadas aquela quantidade enorme de pessoas pobres e humildes. Daí ter a posse de várias fazendas. Nessas fazendas havia enorme quantidades de todos os tipos de pessoas: jagunços, capangas, pistoleiros, guarda-costas, foragidos da justiça, bandoleiros, e muita gente de oficio, honestas mesmo que se dedicavam a lavoura e ao gado – algumas  das fazendas se tornaram rentáveis.  O pessoal fugitivo de Canudos e alguns chefes de lá foram ter a Juazeiro e ficaram responsáveis pela defesa da cidade, cavando o fosso de proteção ao redor da mesma. Mas não se pode considerar que o Padre Cícero alimentava as suas fazendas com todo tipo de gente convocada por ele para se tornar um  poderoso homem de negócios, um chefe de bandidos como eram os demais coronéis da região. Toda vez que havia um questão na região o Padre sempre optava pelo lado pacifico de acalmar as coisas, aconselhando ambas partes litigantes a  resolver em paz as pendências. Daí escrevia carta para uns, respondia cartas para outros, fazia pedidos em nome desse e daquele de tal maneira que a região ficasse em harmonia social e política.  Ele mesmo não gostava de receber uma enorme quantidade de romeiros, porque esse pessoal largava suas terras e moradias e vinham para Juazeiro e por lá ficavam ociosas e sujeitas a toda sorte de vicissitudes. Daí que a chegada dos romeiros  a Juazeiro era vista como uma grande preocupação para o Padre Cícero e não como motivo de satisfação por parte dele.

Lampião com a família, em sua visita a Juazeiro em março de 1926

7-      Os familiares de Lampião vão morar no Juazeiro. Não vimos em nenhum livro que foi a convite do Padre Cícero e muito menos que o Padre protegia esses familiares. Acontece que na terra do Padre Cícero ele mantinha a ordem e a justiça local e ninguém iria perseguir ninguém por lá, muito menos os familiares de Lampião que não tinha culpa nenhuma por ele ter entrado no Cangaço. Sabemos que um dos contatos de Lampião com os seus familiares em Juazeiro era feito via Antonio da Piçarra que alem de fazer as compras de armas e munições nesse local ainda levava dinheiro de Lampião aos  familiares desse.  Com a traição de Antonio da Piçarra, essa  via de contato se desfez e não vi escrito outra forma de contato para com esses familiares. 

8-    Não temos registros que Lampião se confessou com o Padre Cícero – se isso ocorreu ficou em segredo. Não temos registros se Lampião deu contribuição a Igreja do Padre, se deu o Padre não aceitaria porque era dinheiro  roubado – comprometeria a reputação do Padre.

9-    Tivemos acesso ao inventário deixado pelo Padre Cícero  - tudo natural e normal.
10 - Sabemos que o Padre, já  em avançada idade, teve uma morte      muito dolorosa, sofrendo muitas dores até a chegada da morte
 
11-Sabemos também que o Padre Cícero  se espelhou na vida do
           Padre Ibiabina para cumprir o seu sacerdócio, mas isso já é
           outra História.

No mais a sua vida íntima e cotidiana  não sabemos  como era, ficou esse segredo  com quem o acompanhou de perto  por longos anos  em convivência diária, tendo a oportunidade de escutar seus planos, projetos, suas queixas e atribulações porque passou nesse lugar onde recebeu a sua cruz e que foi palco de seu calvário místico –religioso – social.  Padre Cícero  - Um mártir   de Juazeiro.

Atenciosamente

Alfredo Bonessi

Um pouco mais de Luis Pedro Por:Alfredo Bonessi

Alfredo Bonessi, Edilson e Comendador Mariano, em um dos encontros Cariri Cangaço-GECC

Apelidado de Catitu por Maria Bonita, que apelidava todos os componentes do Grupo de Cangaceiros, Luis Pedro ficou comprometido em morrer ao lado de Lampião após o acidente de tiro que vitimou Antonio Ferreira, irmão desse. Era estimado e respeitado por todos os cangaceiros e tido como um homem de coragem. Segundo Sila, a sua mulher Nenê morrera logo após apanha-la e ao pular uma cerca foi alvejada, sendo escudado o baque do seu corpo de encontro ao solo por aqueles que iam a sua frente. Luis Pedro foge da luta, mas depois tenta resgatar o corpo dela, sendo impedido a força pelos demais companheiros.

Segundo registros, a policia pôs um cachorro para violentar o cadáver de Nene. Talvez essa morte tenha sido o maior golpe da vida desse cangaceiro. Depois disso não temos registros dos seus feitos na vida cangaceira, mas episódios apenas, como daquela vez que após as brigas dos cachorros, de sua propriedade com o do Lampião, o chefe puxa a pistola para atirar no cachorro vencedor de Luis Pedro e esse arma o fuzil para atirar no chefe.

Um lance para ser questionado: a vida do leal amigo por um cão ? – que amizade é essa ?
 

Nenê e Luis Pedro
 
Outro que disse que puxou arma para Lampião foi Volta Seca – o que Sila contesta: se alguém fizesse isso Lampião matava na hora !. Outro que disse que também engatilhou arma para Lampião foi Labareda e se cuidava dele quando estava “danado da vida”. Já falamos que o grupo de Lampião não era comandado de uma maneira militar, com rigidez e disciplina como eram as volantes do Exército e da Policia. Havia respeito e consideração pelo chefe, que possuía uma intuição privilegiada, sabia mais, mas não na base do temor em relação a ele. Todos se respeitavam e seguiam Lampião como um líder carismático. Ele mesmo se cuidava de sua segurança interna, pois tinha sempre um homem de confiança a sua retaguarda, ora Juriti, ora Amoroso, ora Quinta-Feira, ora Luis Pedro. A noite, ao dormir, armava a sua rede, depois pegava as suas cobertas e ia dormir em outro lugar, no chão a maioria das vezes e durante a madrugada se acordava várias vezes, espreitava ao redor e depois voltava a dormir novamente.

Não se pode negar que Luis Pedro era íntimo de Lampião e de Maria Bonita...

... muito próximo a eles, a ponto de dar uma palmada nas nádegas de Maria Bonita e os três, após isso, darem sonoras gargalhadas. Pergunto: você possui um amigo tão sincero assim e de confiança a ponto de poder dar uma palmada na traseira de sua mulher e você achar graça ?

O fato que quando nos lembramos de Luis Pedro construímos uma imagem de homem leal, de amigo, de homem bom- predicados impróprios para foras da lei - e mesmo para soldados volantes daqueles tempos, muitos deles mais criminosos que os próprios cangaceiros. A grande diferença era que os militares estavam a serviço da Lei e os cangaceiros eram perseguidos em nome da Lei.

Não temos noticias que o viúvo Luis Pedro, em dois anos restantes da sua vida cangaceira, tenha se aproximado de outra mulher dentro do bando ou fora do bando. Uma mulher acusou-o de te-lo visto aos amassos com Maria Bonita dentro de uma canoa – coisa que não acreditamos – Maria era uma mulher de vergonha e de caráter - não iria macular a união fruto de um amor sincero com o homem que amou até na hora da morte, além do mais essas coisas quando acontecem na vida das pessoas, se espalham mais que fogo em macega seca – mais hoje, mais amanhã, ele saberia e o mundo viraria de cabeça para abaixo.

"você possui um amigo tão sincero assim e de confiança a ponto de poder dar uma palmada na traseira de sua mulher e você achar graça ?
Foto:Maria Bonita
 
Para falarmos mais de Luis Pedro, era dele a ideia de executar as cangaceiras que, viúvas e sem maridos, optavam para retornar para a casa dos familiares, com a desculpa de se fossem presas poderiam denunciar a rotina dos cangaceiros. Foi assim com Cristina, que já na estrada rumo ao seio de seus familiares, foi perseguida por Luis Pedro, Juriti e Candeeiro, e assassinada a punhal por eles, a mando de Lampião e com o consentimento de Maria Bonita, aproximadamente em junho de 1938 - fato esse que originou a desavença de Corisco e Dada para com Lampião e Maria. Corisco, ouvindo o gado mugindo triste, quase como um lamento, vaticinou: que é isso, parece que tá tudo se acabano !!!!!! – De fato, um mês depois foi a vez de Lampião e de Maria e dois anos depois, dele mesmo passar por essa experiência derradeira de dizer adeus a vida e dormir para sempre nos braços da morte.

Com relação ao fim da vida de Luis Pedro, testemunhas declararam que, iniciado o tiroteio, ele já estava fora do cerco quando retornou. Segundo Balão era na tentativa, entre muitas já realizadas, para apanhar o ouro que estava no interior das latas de óleo, na barraca de Lampião, bem de frente aos fuzis da volante que cuspiam fogo sem cessar. Outros afirmaram que era para cumprir o juramento feito ao chefe, de que morreria no dia que este morreria - não acreditamos nisso. Foi apanhado em cheio pelo fuzil de Mané Véio, soldado volante do Pelotão do tenente João Bezerra, que vinha em sentido contrario, descendo rumo a gruta de Angicos - foi um tiro só e tudo se acabou para aquele cangaceiro rico e tido como boa gente.

Iniciado o tiroteio na madrugada de 28 de julho de 1938, na grota de Angicos, Maria Bonita leva um tiro na altura do ombro que saiu na frente, Lampião já está caído e se contorce, com um tiro que levara no lado esquerdo do umbigo. Maria leva um segundo tiro por detrás que lhe rasga o frente, ainda corre e vai cair junto a Lampião. Cessado o tiroteio, quando a volante invade o reduto, Lampião ainda se mexe e Maria, ainda viva, balbucia palavras intelegíveis – com certeza assistiu a tudo o que aconteceu naquele buraco. Quando o Tenente João Bezerra chega lá embaixo, Lampião está acabando de morrer e o Aspirante Ferreira de Melo já está com duas cabeças cortadas de cangaceiros dependuradas em ambas as mãos. Mais tarde afirma que Maria não foi degolada viva. As últimas palavras escritas nas páginas da História pertencem sempre aos vencedores, aos vivos que restaram para contar as suas versões sobre os fatos. Não há literato que consiga expressar e substituir a visão e a experiência de quem realmente participou daquele cerco, bem sucedido, naquela histórica e invernosa manhã ao lado do Rio São Francisco, quando o estado-maior do cangaço deixou de existir para sempre.


Não se pode negar que metade da população nordestina comemorou o feito policial de Angicos...

...outros tantos guardaram silencio não acreditando e não retiraram o rifle detrás da porta por longos anos, como foi o caso de Zé Saturnino; outros se lamentaram e ficaram entristecidos porque a alegria do Sertão tinha se acabado com Lampião e os seus leais companheiros.

Alfredo Bonessi – Professor –Pesquisador – Estudante
Membro Fundador do GECC - Membro da SBEC

A cangaceira Sila em noite calorosa Por:Alfredo Bonessi

Alfredo Bonessi e Wilton Dedê

 Sila mentiu ?

Aderbal Nogueira- principal interessado na abordagem e discussão do tema, proferiu a seguinte pergunta aos presentes e em seguida passou a palavra ao sucessor por ordem das cadeiras:

- peço, por gentileza, a todos os presentes que citem três mentiras ditas por Sila.
 Aderbal Nogueira, Antônio Tomaz e George "Seixas"
  
O microfone passou de mão em mão até o Professor, Estudante, Pesquisador e Membro Fundador do GECC – Alfredo Bonessi- o qual proferiu as seguintes palavras:

- nenhum personagem daqueles tempos, que restou vivo, volante e cangaceiro, foi capaz de aquilatar as repercussões que o tema cangaço teria futuramente...todos procuraram enfeitar a história do pouco que se lembraram, omitiram seus crimes, os crimes que participaram e os crimes vivenciaram...a idade avançada foi o principal fator capaz de embaralhar as datas dos eventos, fatos e acontecidos citados por esses personagens;

 

- Sila escreveu três livros todos diferentes em conteúdo. Neles se co
nfunde no tempo entre os personagens: irmãos – pai - Zé Bahiano(seu admirador e futuro marido) -Nenê(de Luiz Pedro) e fatos, principalmente com relação a si mesma, a ponto de não saber a data em que nasceu, nem que idade tinha quando seu pai faleceu. Comprovou-se que ela queria mesmo ir para cangaço e esperava por Zé Bahiano . Na verdade apareceu Zé Sereno, tendo ela acompanhado esse cangaceiro sem saber do destino de Zé Bahiano. Ele já havia morrido meses antes.

 

-no mais é aquilo que já foi dito: Sila tinha pouca vivência no Cangaço, sabia muito pouco, era uma simples dona de casa em São Paulo quando, descoberta, virou artista e famosa. A idade avançada e os anos de muito sofrimento fez com que escondesse alguma coisa com medo da justiça, com medo de comprometer outras pessoas e levou para o túmulo pouca coisa que ainda não sabemos.

Por fim, o Estudante e Pesquisador Ângelo Osmiro apresentou o resultado de um trabalho seu sobre os livros escritos por Sila, comparando-os a luz de datas, fatos e acontecidos em que todos os presentes puderam realmente ficar a par das discrepâncias acontecidas, mais de uma dezena de equívocos, contradições, omissões donde se concluiu que Sila estava perdida no tempo e no espaço quando ditou a obra para os escritores que escreveram o que quiseram sobre ela. Sila mesmo em vida confessou que nem ela tinha lido os livros e não sabia o que tinham escrito sobre a vida dela.

Haroldo Felinto, Edilson, Cel. Gutemberg e Ângelo Osmiro

Por fim, concluímos, que ainda temos muito que pesquisar e estudar, eliminando e deixando de lado aqueles escritores fantasiosos e destituídos de vontade de buscar a verdade. O cangaço é um mistério que se acabou com Lampião em 28 de julho de 1938 – só ele poderia nos dizer o porque de tudo aquilo, o porque da violência, o porque de ser cangaceiro, o porque do orgulho, da prepotência, da arrogância com relação aos demais pobres sertanejos, trabalhadores, sofredores, que se não bastasse a região hostil, as intempéries, as doenças, as secas, ainda sofriam nas mãos dos seus algozes: volantes e cangaceiros.

Somente o tempo poderá nos indicar as veredas culturais de raízes históricas em que se possa encontra os motivos, as razões para tanta violência, desamor, crimes de todas as formas, ganância, cuja verdade absoluta jaz no interior dos túmulos daqueles que se debateram naqueles tempos, com dor, sofrimento e sangramentos de ambos os lados. Se tudo isso valeu a pena, a resposta está com eles.

Alfredo Bonessi - Professor – SBEC - GECC

Sila...e seu afilhado "macaco" Por:Alfredo Bonessi

Capitão Alfredo Bonessi

Quando vi Sila pela primeira fez,   fiquei um bom tempo olhando para ela. Ela me mostrou uma foto quando ainda era jovem, no tempo do Cangaço. Olhei atentamente a fotografia e disse a ela: a senhora era muito bonita, se eu estivesse por lá roubava a senhora do Zé Sereno. Ela se virou de lado e respondeu: - "ooooooooooóh."

Depois mostrei a ela algumas fotos do bando de Lampião: ela  não soube me dizer quem eram os cangaceiros da fotografia. A impressão que me causou era que escondia algo. Notei um certo nervosismo em  seu comportamento. Aparentando calma e muito desconfiada, falava pouco  e não respondia a quem se dirigia a ela.  Em um jantar em uma churrascaria de Fortaleza, quando o GECC a recepcionou, estava  na mesa mais de 25 pessoas e mais de duzentos ouvintes ao redor de nós, ela ficou todo tempo perto de mim e da minha esposa e após a janta,  quando roncou o fole de  uma sanfona,  falei:

-vamos dançar madrinha ! Ela me respondeu na bucha e secamente: -vá dançar com a tua mulher ! Foi o que eu fiz.

Outros encontros se sucederam na mesma semana. Quando eu chegava e pedia a benção a ela:

-benção, madrinha ! Ela respondia: -jamais pensei que fosse ter um afiliado macaco.

Em uma viagem cultural a cidade de Maranguape-Ceará, quando ela foi recepcionada pela população em um ginásio de esportes, onde havia mais de trezentos espectadores,  ela queria falar e não podia, a platéia  não fazia silêncio,  ela perdeu a calma e falou diretamente a população comprimida   e inquieta que olhava para ela: -que povo mal educado, eu nunca vi um povo tão mal educado que esse!

Alfredo Bonessi e a Caravana Cariri Cangaço



As palavras dela  soaram como um raio -  foi como se dessem uma chicotada na multidão. Um estrondo e um vozerio  tomou conta da platéia. Tomei o microfone da mão da Sila e gritei para ela: -madrinha !  cuidado !  - eles matam a gente aqui !!!!

Pegando da palavra, agradeci a presença de todos, elogiei a população do Ceará e principalmente a de   Maranguape, dei uma ensaboada e passei a palavra para  a Sila. A Secretaria de Educação do Município  se levantou da platéia e veio em minha direção,pouco menos de 3 metros de distancia,  e cochichou para mim: - o senhor falou em boa hora, se não as coisas iam  se complicar aqui, ia ser uma  brigaiada  na certa.

Todas as vezes que eu estive com a Sila  foi o mesmo silencio por parte dela com relação ao cangaço e eu sabendo do sofrimento que ela tinha passado  não perguntei mais nada, mas guardei bem as queixas que ela sempre fazia do marido Zé Sereno, dando a impressão que ela  nunca gostou dele. Também pudera, a menina fora levada de casa com 14 anos de idade,  na marra, segundo ela, mas as vezes a gente tinha a impressão que ela foi a convite dele mesmo,  porque no cangaço se encontravam três irmãos.  Ela alega que se não fosse, o  Zé Sereno podia mata-la, ou tomar uma represália contra a sua família, coisa que eu não acredito. Sila entrou no cangaço porque quis, embarcou na vida cangaceira para uma aventura que nem as outras mocinhas sertanejas de sua época, movidas pela curiosidade em ver aquela  gente armada, com dinheiro no bolso, alegres, festeiro  e prepotentes. Após ser levada por Zé Sereno, já no dia seguinte, foi estuprada por ele em cima de uma pedreira -  começava aí o seu sofrimento.  A mulher foi feita para ser amada, acariciada,  e não para ser  violentada, possuída como um objeto  de prazer – essa foi a vida de Sila ao lado de Zé Sereno, até a morte desse. Daí as suas mágoas e queixas pelo comportamento  bruto e violento da parte dele.

Em dois anos de cangaço Sila  presenciou umas quatro brigadas com a policia, e nesse período por quatro vezes  esteve na presença de Lampião e de Maria – é muito pouco de quem se exige muito para contar. Nem mesmo Zé Sereno revelou a ela os segredos do cangaço, os coitos, os coiteros, os fazendeiros amigos,   os vaqueiros em que se podia confiar,  mesmo os paradeiros de outros cangaceiros, mesmo porque  Zé Sereno sabia somente aquilo que era para saber, mas o grande segredo de tudo estava com Lampião e os cangaceiros mais velhos como Juriti e Luiz Pedro.

Nos encontros com o bando de Lampião, Sila ficava na  tolda dela a espera pelo marido, algumas vezes Maria do Capitão a chamava para comer na mesma barraca do chefe e saiam as vezes ali por perto para fumar um cigarro. Maria já era veterana no cangaço,  fazia mais de seis anos que acompanhava o capitão, era agarrada com ele, obedecia a ele e  dependia dele para sobreviver no cangaço,  bem diferente de Dada, a outra cangaceira,  que contrariava as ordens de Corisco, alterava os planos feitos pelo marido,  mudava o rumo do deslocamento do grupo, e tomava a frente na luta quando era  necessário. Sila era uma criança quieta,  educada,  tristonha, não sabia nada e o que mais gostava era quando os grupos de cangaceiros  se reuniam ao redor das fogueiras para comerem   carne assada, tomarem  café  e baterem uma prosa alegre e divertida.

Em Angico Sila ficava em sua barraca como tantas vezes ficara em outros lugares. Conversava com alguma mulher de vez em quando e na maioria das vezes esperava pelo marido. No tomava parte nos planos dos cangaceiros,  não falava nada a esse respeito, não sabia nada e assim não podia opinar sobre esse ou aquele assunto ligado ao bando.Via algum cangaceiro  não muito perto, de alguns sabia o nome, de outros  apenas via sem saber quem era e o que fazia, nem para onde ia.

Iniciado o tiroteio na manhã de 28 de julho de 1938, sonolenta se levantou e custou a entender o que estava ocorrendo. Daí saiu correndo em uma direção. Outros vieram atrás dela. Alguns caíram pelo caminho. Ela por fim saiu do cerco e se encontrou com alguns cangaceiros fugitivos. Não sentia as dores dos lanhos  que a caatinga impiedosa rascou em suas pernas e  braços. Estava apavorada, horrorizada e por fim chorou muito as mortes acontecidas daquele dia, como um desabafo de quem passara por  momentos de muita angustia e aflição. 

 Alfredo Bonessi e Ângelo Osmiro



Veio as entregas para as autoridades,  seguiu   destino incerto com o companheiro, e  por fim   rumou  para a cidade  grande,  onde começaria nova vida – nova vida de sofrimento – de dor – de noites mal dormidas, trabalho com  cansaço, a criação dos filhos,  as  brutalidades  por parte  do marido- quase um selvagem, a labuta diária  em uma  capital enorme,  o custo de vida caro e cada vez mais exigente movido pela ganância do ser humano  em ganhar dinheiro custe o que custar, doa em que doer, em cima de quem for. Cila acabara de vir  de um meio  hostil, onde a sede e a fome assolava a natureza de uma maneira geral. No cangaço o maior perigo era cair nas garras das volantes-  ela mesma sabia se defender  das balas da policia  que derrubavam  paus a sua frente, mas vivendo  na cidade grande pouca coisa podia fazer. As noites aflitivas e mal dormidas  eram as mesmas,  a doença dos filhos,  o compromisso de chegar no horário no emprego,  bandidos de toda sorte, sem identificação, desconhecidos, sem uniformes, estavam por todos os lados,   perigos no transito,  nos deslocamentos para o trabalho. Mesmo assim, essa vida louca das grandes cidades era bem melhor que a vida  do cangaço, pelo menos se podia recorrer a algum medico para  tratamento,  podia se viver  com higiene e banhos diários, podia se comer sossegado,  podia se receber o calor e o carinho da família,  tinha-se um lugar para  viver e para morrer e  havia um cemitério para descanso do corpo morto, coisa que na caatinga, quando muito,  poucos felizardos  tinham o direito  de  receber  uma  tosca cruz como indicativo de sua sepultura.

A maioria das respostas dadas por Sila era o silencio  ou então não sei. Bem diferente  de  não conheço, não vi, não vou dizer. Depois de sessenta anos passados,  não se pode exigir que uma senhora idosa e em avançada idade, se lembre daquilo que nunca viu, que fale o que não saiba,  pois  na época de meninice não entendia como se passavam aquelas  coisas, como funcionava  a sistemática do bando, que rumo tomar e como sobreviver naquela vida desgraçada.


Escreveu três livros revolvendo o seu passado agitado e tenebroso – cada um diferente do outro.  Sila era uma linda flor do nosso sertão, que mal amada  e incompreendida,  como tantas outras mulheres sertanejas na época,  veio fazer parte dessa vida atribulada do cangaço, mas  sem perder a beleza  e a sensualidade, coisa que para cangaceiro isso pouca importância  tinha -   morreu  de velha, na cama, quando muitas de suas amigas cangaceiras  foram  mortas  a tiros, apunhaladas, mortas a pauladas,  executadas na maioria das vezes pelos próprios cangaceiros.

Quando se lembrarem da Sila, por favor se lembre dela  com muito amor, com muito carinho, como muitas alegrias -  pois ela em vida passou bem longe da felicidade.

A Benção Eterna  Minha Querida Madrinha................Do seu  afiliado macaco........
Alfredo Bonessi 
Capitão do Exército Reformado
SBEC - GECC

O Cariri Cangaço reascende e espalha essa chama de união, de trabalho, de civismo a todos os Estados Nordestinos Por Alfredo Bonessi

Manoel Severo e Alfredo Bonessi

Estou muito feliz por ter recebido a oportunidade de poder participar do Cariri Cangaço 2011 - sou muito agradecido ao Curador Manoel Severo e distinta esposa Sra Danielle Esmeraldo. Fui premiado em meus ideais de civismo quando fiquei sabendo que a nossa heroína maior da Independência e Proclamação da República, Bárbara de Alencar, seria homenageada e a sua história gloriosa sairia do esquecimento para nunca mais ser esquecida pelo povo nordestino.

O grito de Liberdade-Igualdade-Fraternidade que ecoou no Sertão sob o comando de Dona Bárbara do Crato, reascendeu na época a chama da união e da perseverança em todo o nordeste e sustentaram com arrojo e tenacidade uma vontade firme de vencer a tirania que tanto flagelava o Brasil. De igual maneira o Cariri Cangaço reacende e espalha essa chama de união, de trabalho, de civismo a todos os Estados Nordestinos, conclamando-os ao estudo e a reflexão do passado próximo, do presente incerto, vislumbrando um futuro promissor, pleno de esperanças, tendo como arranco os ideais de justiça, de igualdade e de humanidade.

É uma página da história sertaneja inesquecível as homenagens que recebemos nas cidades que visitamos- os nossos corações ficaram aos pulos quando fomos alvo das manifestações de atenção, de amor, de carinho a todos nós dispensados pela população maravilhosa que nos acolheu curiosa e ansiosa para receber o conhecimento que transportávamos em nossos bornais, bagagem de mais de 15 anos, fruto de estudos, pesquisas e debates sobre a cultura nordestina.

João de Sousa Lima, Geraldo Ferraz e Alfredo Bonessi em manhã de Cariri Cangaço

Tivemos a oportunidade de conviver com pessoas de grandes conhecimentos artísticos,literários e filosóficos como é o caso do Dr Jonas Luis de Icapui, grandes escritores como Dr Amaury, Geraldo Ferraz, Sabino Bassetti, Alcino, Antonio Vilela, Honório de Medeiros, João de Sousa Lima, Manoel Nascimento, Gilmar Teixeira, e grandes pesquisadores, cineastas, professores, autoridades civis e militares, personagens de destaques do evento como Paulo Gastão, Réclus de Plá , Renato Casimiro, Ângelo Osmiro, Aderbal Nogueira, Comendador Mariano, Tomaz Cysne, Wescley Dutra, Ivanildo Silveira, Pedro Luis, Napoleão Tavares, Jairo Luiz, Professor Pereira, Carlos Elydio, José Cícero, Archimedes Marques, George Macário, Alessandra Bandeira, Alexandre Lucas, Renato Dantas, Humberto Cabral, Hugo Rodrigues, Voldi Ribeiro, Juliana e Julio Ischiara, Barros Alves, Vilson Leite, Múcio Procópio,  Kiko Monteiro, Wilson Seraine, Professora Salete Libório, Bosco André, Luiz Ruben, Carlos Eduardo, Narciso Dias, João Nóbrega Bezerra, Raimundo Marins, Lili, e o nosso Been Laden . Se esqueci um nome, peço perdão. Não poderia deixar de ressaltar a grata presença de distintas senhoras, esposas de nosso amigos participantes, que acompanharam todos os trabalhos e deram um brilho especial ao evento. A todos os participantes o meu muito obrigado.

Com o coração cheio de saudades, quero agradecer as autoridades políticas locais que nos honraram com essa festa maravilhosa, e dizer ao querido Povo do Cariri que se orgulhem de Bárbara de Alencar, e não esqueçam a guerra cangaceira, bem como os fatos históricos relevantes que dizem respeito a saga do Povo Nordestino de maneira geral, e que sejam fortes, corajosos, destemidos e determinados na busca por seus direitos, permanecendo cada vez mais unidos em torno dos ideais aqui citados, porque o Nordeste Unido Jamais será Vencido. Amo vocês.


Carinhosamente
Alfredo Bonessi
Sócio do GECC
Pesquisador do cangaço

Foi uma satisfação muito grande poder colaborar Por:Alfredo Bonessi

Capitão Alfredo Bonessi

Severo, obrigado a voce e a Danielle pela oportunidade. Foi uma satisfação muito grande poder colaborar com voces, com o evento e com as pessoas queridas dessa região do Cariri. Gostaria de fazer mais por todos, mas o momento me impede. Peço desculpas por alguma coisa e continuarei a disposição de voces e da região do Cariri para promover esses estudos que fazem parte da nossa cultura e que não podem ser esquecidos. Torço para que a administração do Cariri Cangaço e do GECC atendam os anseios de todos nós e continuarei torcenco e orando por todos para que isso aconteça.

Abraço, Recomendações
Alfredo Bonessi
Sócio da SBEC
Membro do GECC

Virgulino Ferreira, o Perfil.

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Olho no Olho...
Por Alfredo Bonessi.

O rei e a rainha, por Franklin Maxado

Alto, magro, moreno escuro, quase pardo, esguio, meio corcunda, ágil, saudável, resistente a fadigas, manco do pé direito por causa de bala - segundo quem lhe conheceu - por causa de calos no pé segundo declarações dele mesmo, em estado espiritual, a um programa de televisão, com belida no olho direito, um leucoma, assim era o corpo de Virgulino Ferreira, vulgo Lampião. De personalidade alegre, disposto, temperamento inconstante, sujeito a crises de fúria e descontrole, místico, religioso, rezador, intuição apurada, perspicaz, agudeza de raciocínio, inteligente, líder nato, exímio atirador de armas curtas e longas, fazendeiro, domador de animais de montaria, vaqueiro campeão, amante de bebidas finas, cigarros, charutos e mulheres, excelente trabalhador em couro e tecidos, narcisista, impiedoso, cruel, vingativo, justiceiro - falso moralista, abusou sexualmente de algumas mulheres, embora, hoje, não sabemos se eram esposas ou filhas de inimigos, mesmo assim são fatos lamentáveis e inaceitáveis para qualquer época de uma geração.  Desconfiado, prudente, calculista, infiel mas respeitador das opiniões da companheira, maleável até certo ponto, principalmente em algumas decisões a ponto de alterar as ordens dadas por interferências dela, respeitado, temido, considerado, perigoso, astuto, inquisidor, julgador, musico, dançarino, corajoso, amigo, leal, acreditava nas pessoas, perfeccionista , gostava de tudo o que era bom, rico, comerciante, artífice, laborioso, habilidoso e estrategista.

Lampião em Pombal

Lampião foi um homem notável para o seu século. Não existiu até o presente momento ninguém mais do que ele, igual a ele, em mesmas circunstâncias, fazer o que ele fez em um ambiente hostil, carente de meios e desprovido de tudo, por tanto tempo assim – mais de vinte anos - acossado por centenas de volantes policiais. A impressão que se tem pela fotografia, é que em 1928 – na visita a Pombal, possuía um relógio de pulso no braço esquerdo. Não sabemos até hoje como conseguiu gravar o seu nome e o de sua mulher no interior das alianças que ambos portavam e que simbolizavam a paixão que um nutria pelo outro.

Gostava de tudo que brilhava, que reluzia. Quem o avistasse pela primeira vez ficava impressionado com aquele homem impecavelmente trajado de azul, ou brim caqui, apetrechos ricamente ornamentados de variadas cores e matizes, armas luzidias nas mãos prontas para o uso, tez da cor de cuia, olhar firme, voz rouca, sons profundos que calavam fundo na mente de quem o ouvia – de repente a pessoa, em seu intimo, sentia um arrepio, um frio, um medo, um temor – sentia a impressão que estava correndo um grande perigo, e aguardava, apavorada, a qualquer momento o bote daquela fera perigosa, de punhal em riste, e com a ponta do aço duro cutucar a veia jugular na tabua do pescoço, sangrando a vítima em questão de segundos.

O pavor que os nordestinos sentiram quando estiveram frente a frente com Lampião, sentiram também os homens que outrora conviveram com pessoas diferentes e superdotadas, como por exemplo quem esteve nas presenças de
Alexandre, O Grande...

Julio César, Nero e Napoleão Bonaparte – personagens da história, grandes personalidades em suas diferentes épocas, alguns líderes excepcionais, guerreiros, vencedores, que sucumbiram pela vontade do destino, dono absoluto da vida das pessoas importantes. Quem os visse, a princípio, sentiam-se admiradas diante de tanta beleza, depois de contemplá-los por alguns instantes sentiam um respeito profundo pelo que viram, depois eram possuídas por um temor inexplicável que lhe arrebatavam a alma e que lhes causavam calafrios, palidez nas face, suor frio e tremor nas pernas.
Alexandre "O Grande"

Quem visita o lugar onde Lampião nasceu sente a alma envolta por um romantismo inexplicável, o ar circundante é adocicado pelo aroma das flores silvestres. Ainda pode se escutar o gorgeio livre da passarada ao amanhecer e ao entardecer; pode-se sentir o cheiro natural que brota da terra estrumada; pode-se ouvir o guizo da cobra oculta; pode-se escutar ao longe o mugido do gado na invernada; pode-se imaginar o fogo aceso, panelas ferventes, chiando nas trempes, o prato de bolinhos feitos pela Dona Jacosa, sua avó, o café fumegando na caneca, e as suas mãos ágeis enfeitando o couro dos arreios, o seu semblante concentrado mas feliz pela alegria que sentia de viver e de trabalhar, o prazer de tudo e por tudo, o gosto pelo que é bom.

Toda essa vida boa, doce, tranqüila, prazeirosa, o destino ingrato retirou dos caminhos de Lampião, menos a fé em Deus e o amor puro que nutria pelos seus familiares. Mesmo nas horas mais difíceis de sua vida atribulada a paixão pela Virgem Santíssima nunca se arrefeceu de seus pensamentos ardorosos, forjado por uma fé inquebrantável – sentia um amor infinito e incompreensível por ela, a ponto de sempre rezar em sua homenagem, ao deitar, ao levantar, ao meio dia e as seis horas da tarde.

Lampião queria viver bem e feliz. Queria ser o melhor em tudo e por tudo, de acordo com o que Deus lhe dera. Por ser portador de qualidades inerentes a poucos seres humanos, foi invejado, odiado, perseguido, traído e levado a morte, embora tenha feito de tudo para que isso não acontecesse, pois era um amigo leal e de confiança, era muito bom para quem fosse bom para com ele – Lampião era um homem de palavra e não se apossava das coisas alheias por ser ladrão vulgar, salteador de beira de estrada, fazia o saque por necessidade de manter o bando de cangaceiros e por esse fato pedia sempre dinheiro as pessoas mais abastadas, por carta, bilhetes ou mensageiros, ou simplesmente tomava delas.

Lampião a frente de seus homens mantinha uma rede de informantes pagos a peso de ouro. Aliciava policiais e pessoas influentes, e quando não conseguia demover o perseguidor por bons modos, difamava-os, inventava historias cômicas sobre eles, dava apelidos depreciativos, contava piadas que fazia brotar risos na turma acampada e aos redores das fogueiras, sobre esse e aquele oficial. Era temerário, mas não poderia ter negligenciado a capacidade combativa de Bezerra - o oficial que o matou- segundo Lampião, dito por ele mesmo, não tinha medo de boi brabo, quanto mais de bezerra.........o descuido, esse erro de avaliação foi-lhe fatal e custou-lhe a cabeça naquela manhã de 28 de julho de 38.

Criou para si e para seu bando sinais, códigos e gírias que significavam algo entre eles, que conheciam a chave para decodificação, como por exemplo o L formado pelo indicador e o polegar da mão direita que devia ser mostrado quando se aproximavam das sentinelas do grupo. A três pancadas nos troncos das arvores - mas não eram pancadas comuns, elas tinham intensidade, ritmos e freqüência que só os do bando sabiam executa-las.

Lampião, o Mito.

A manutenção dos esconderijos, o depósito escondido no interior dos troncos das arvores, de dinheiro, munição e armamento; a ocultação do cadáver do seus comandados, o sumiço dos rastros, a camuflagem, a dissimulação, a finda, o drible, a manobra audaciosa, o descarte dos dejetos do acampamento, a busca pela água e pelos alimentos, - o lampejo na mente iluminada pela escolha da decisão mais acertada, na hora certa e diante de grande perigo - fizeram o bando sobreviver por longos anos, diante de volumoso número de perseguidores, graças ao tirocínio de seu comandante, de sua visão combativa, de seu planejamento bélico, do seu sentido de direção, de seus objetivos previamente ajustados e na maioria das vezes bem sucedidos, e por esse fato granjeava a admiração e o respeito dos seus seguidores, a ponto de sempre confiarem nele e o considerarem invencível. Seu bando nunca andava a ermo, sem um roteiro estabelecido, se um objetivo, sem uma missão a cumprir. Seus deslocamentos sempre tiveram início, meio e fim.

Lampião morreu no tempo certo e na hora certa. Morreu no apogeu da vida e da saúde. Morreu em combate. Após o mortífero impacto da bala que lhe pos por terra, enquanto pode, enquanto tinha uma pouco de energia, tentou ficar de pé, não conseguiu, se contorceu até que o tiro final esgotou todas as possibilidades de vida. Um espírito muito forte retornava a sua morada divina.

Lampião pode ter sido o que seja, mas um dia voltará para cumprir a sua missão terrena em uma nova chance dada pelo criador. Esperamos que tenha mais sorte desta vez. Analisando a vida de grandes malfeitores podemos dizer que Lampião não teve as mesmas chances e as oportunidades de fazer o bem que tiveram Reis, Rainhas, Religiosos e Políticos da Nova Era. – pelo contrário – foram até muito pior do que ele. As centenas de pessoas que caíram pelo aço de seu punhal ou pelas balas de suas armas nem de longe se comparam aos milhões de mortes causadas na inquisição religiosa e nos porões das masmorras ideológicas. Talvez seja por isso que Lampião mereça uma nova chance nesse mundo de pecado.

Não se pode desejar que lampião nasça em outro lugar, em outro país, em classes mais abastadas. Lampião nasceu e se criou no lugar exato em que todo o homem valente deseja nascer e ser criado - uma terra de homens corajosos, valorosos que não tem medo de nada e de ninguém. Homens acostumados a vida dura, difícil, onde só o destemido, o persistente, o audacioso, os corajosos sobrevivem, prosperam em cima do solo duro, pedregoso, domando o gado hostil - animais bravios - em meios a serpentes venenosas, como a cascavel e rodeado de mata espinhenta por todos os lados.

Alfredo Bonessi
Estudante e Pesquisador - Membro do GECC e SBEC
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