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Zé do Papel Por: Archimedes Marques

João de Sousa, Manoel Severo, Lívio Ferraz, Alcino Costa, Archimedes Marques e Antônio Vilela

Em meados de outubro de 1930 quando o bando de Lampião entrou na cidade de Aquidabã, em Sergipe, o ínfimo contingente policial fugiu às pressas deixando as pessoas totalmente desprotegidas e nas garras dos cangaceiros. Aquele era o retrato da força policial sergipana do governador Eronildes de Carvalho, filho de Antônio Caixeiro, sem dúvidas, dos maiores coiteiros que o famigerado Lampião teve na sua vida bandida por cerca de 20 anos no nordeste brasileiro.

Jose Custódio de Oliveira, o Zé do Papel, em virtude de ser uma pessoa aparentemente de classe privilegiada, de classe média para rica, um pecuarista e proprietário da Fazenda Pai Joaquim, fora abordado por Lampião e dentro da sua residência na cidade de Aquidabã, além de certa quantidade de dinheiro, fora encontrado dez balas de fuzil em uma cômoda, sendo daí interpelado para contar onde estava a arma, pois pela lógica, havendo munição haveria a consequente arma, oportunidade em que o trêmulo cidadão afirmou ter emprestado o mosquetão para o juiz de direito daquela comarca, Dr. Juarez Figueiredo.

Tal fato, provavelmente incutiu na mente de Lampião que a arma fora passada ao juiz, justamente para que ele se defendesse do seu bando, daí, enraivecido com o fato, o chefe do cangaço, irracional e impiedosamente arrastou Zé do Papel ruas acima e em frente a um armazém próximo da praça principal da cidade decepou à golpe de faca a sua orelha, depois do bando ter praticado saques no comércio local e tantos outros crimes de torturas contra pessoas amedrontadas, dentre os quais o assassinato de um débil mental de nome Souza de Manoel do Norte, mais conhecido por Abestalhado, que se fez de corajoso na sua insanidade sacando um pequeno canivete com o qual cortava fumo de corda para fazer seu cigarro de palha e com tal arma teria desafiado os cangaceiros. Diante do fato, o sanguinário Zé Baiano partiu em verdadeira fúria contra o pobre do doido ceifando a sua vida a golpes do seu longo e afilhadismo punhal de 70 centímetros, em luta totalmente desigual de um ínfimo canivete em mãos de um doente mental contra um longo punhal em mãos de um feroz e impiedoso cangaceiro. Não satisfeito com o bárbaro assassinato, Zé Baiano abriu a barriga da pobre vítima para retirar gordura e untar as suas armas de fogo. Tal pratica era useira e vezeira quando os cangaceiros eliminavam as suas vítimas e queriam impressionar a população para serem mais respeitados ainda do que já eram.

Cangaceiro Zé Baiano

Consta que Zé do Papel na agonia de sentir o sangue escorrendo pescoço abaixo ainda foi obrigado a beber um litro de cachaça que ao mesmo tempo era usada para estancar o seu ferimento e aliviar a sua dor. Em meio a esse místico de humilhação, crueldade, sangue e cachaça o endiabrado cangaceiro Zé Baiano pegou o roceiro Eduardo Melo e após espancá-lo com o coice do seu fuzil, também cortou a sua orelha seguindo o exemplo do seu chefe. Zé do Papel ainda viveu por muito tempo e viu o cangaço se acabar e seu carrasco morrer, entretanto, o Eduardo Melo não teve a mesma sorte e faleceu cerca de um mês depois da perversidade sofrida.

Assim, Aquidabã viveu o maior dia de terror da sua história. Assim Aquidabã fora vítima das atrocidades dos cangaceiros e para sempre pelos seus sucessores moradores aquele dia será lembrado.  Assim, Aquidabã fora vítima também do próprio Estado que deveria ser o protetor do povo, mas que estava ausente. Ausente pela covardia dos seus policiais que fugiram mato adentro sem esboçarem reação alguma. Ausente pela pouca ou nenhuma vontade política de verdadeiramente se combater o cangaço nas nossas terras.

De tudo isso, por incrível que pareça, a Justiça de Aquidabã, sequer abriu Processo Criminal contra Lampião e seu bando. Teria o juiz Juarez Figueiredo, o mesmo que estava com o fuzil emprestado de Zé do Papel, responsável indireto pela decepação da sua orelha se acovardado para não providenciar qualquer procedimento judicial contra Lampião?...Por outro lado, em igual modo de impunidade falando, dizem – e a história de certo modo comprova –  que a polícia de Sergipe era uma polícia de “faz de conta”: Fazia de conta que caçava Lampião, e, Lampião por sua vez, fazia de conta que era caçado.

Archimedes Marques
Delegado de Policia Civil no Estado de Sergipe. Pós-Graduado em Gestão Estratégica de Segurança Publica pela Universidade Federal de Sergipe
archimedes-marques@bol.com.br

Pessoas Especiais Por:Archimedes Marques


Archimedes Marques compondo a Caravana Cariri Cangaço-GECC

Amigo Manoel Severo!
Foi realmente um carnaval bastante especial esse que passei em companhia de vocês, pessoas especiais na minha vida. 
Saúde, Paz e Prosperidade!
Archimedes Marques

Sete chaves dentro do cangaço... Por:Archimedes Marques


Archimedes Marques
Quem conhece o cismado sertanejo sabe muito bem que jamais um cidadão que tivesse qualquer desconfiança da sua masculinidade, por mínima que fosse, jamais teria condições de chefiar homens cuja coragem e machismo eram cultivados e levados às últimas consequências.
Uma análise criteriosa, baseado em tudo que já foi escrito sobre o fenômeno cangaço em centenas de livros, em tudo que já foi pesquisado, em tudo que já foi historiado, nenhum desses homens e mulheres que se embrenharam caatinga adentro no rastro desses sanguinários bandidos, em especial no rastro de Lampião, entrevistando cangaceiros sobreviventes, coiteiros, policiais, perseguidores, amigos e inimigos de Lampião, investigando os fatos, comparando depoimentos, colhendo historias, comparecendo aos locais das guerras do cangaço, aos locais das atrocidades praticadas pelos bandoleiros, conversando com todos os que vivenciaram aquela época de dor e lagrimas dos sertões nordestinos, a exemplo de Alcino, Amaury, João de Sousa Lima e tantos outros amigos pesquisadores e escritores do Cangaço, nunca disseram tamanho disparate quanto o autor do livro “Lampião, o mata sete” diz na sua obra.
Archimedes Marques e Manoel Severo
Haveria possibilidade de se fazer sexo a três de uma maneira silenciosa, calada, quieta e escondida de vinte ou mais pessoas entre cangaceiros e cangaceiras, saindo Luiz Pedro na calada da noite da sua barraca deixando sua companheira Neném dormindo para entrar na barraca de Lampião e Maria Bonita sem que ninguém desconfiasse de nada, nem mesmo os vigilantes do acampamento?...
O suposto triângulo amoroso vivido por Lampião, Luiz Pedro e Maria Bonita, pela lógica, não havia possibilidade alguma de se manter um segredo desse a “sete chaves dentro do cangaço”. As próprias condições físicas do ambiente em que viviam os cangaceiros, nas caatingas, sem teto para dormirem, sem quatro paredes para fazer e acontecer sem ninguém ver ou escutar o que estava ali ocorrendo, não dá qualquer margem de suspeita para uma possível relação sexual a três em segredo. Não teria o trio a mínima condição de enganar todos os componentes do bando a todo tempo, justamente um tipo de amor tão combatido, jamais admitido pelos ferozes e sanguinários bandoleiros.  
Como era que o cangaceiro Luiz Pedro manteria relações sexuais com Maria Bonita e Lampião dentro de uma pequena barraca de pano - que eles chamavam de torda - sem chamar atenção ou fazer qualquer barulho a ponto que os outros cangaceiros não desconfiassem, não vissem e nem escutassem nada de anormal?...
Ademais o próprio Luiz Pedro também tinha a sua mulher, Neném. Estaria ela envolvida também nessa triangulação amorosa que no caso já seria um quarteto amoroso, sem chamar a atenção dos machistas cangaceiros que viviam naquele mesmo plano de moradia como se uma grande família fosse?...
Será que todos os cangaceiros eram tão idiotas a tal ponto de nada maldarem com uma safadeza dessa se passando ao seu redor?... Seria possível que esse segredo tenha sido mantido preso a sete chaves e dezenas de cangaceiros sobreviventes não tenham dito nada nas suas entrevistas, até porque não tinham nada mais a perder, pois Lampião, Luiz Pedro e Maria Bonita já estavam mortos?... O autor entrou em contato comigo reclamando que eu estava fazendo propaganda contra o livro dele e argumentou alguns fatos como sendo provas que facilmente eu contestei e não foi contra-razoado. Assim, apesar de não ter lido o livro dele, acredito que todas as suas alegações maldosas serão colocadas por terra, pois não existe sustentáculo algum de provas verdadeiras em seu livro. Tudo parece mesmo uma triste maneira de aparecer para vender o seu peixe, mesmo que ultrapassando, pisando e enlameando a história de um trio de cangaceiros que jamais vivienciaram tal safadeza, e porque não dizer, uma suja tentativa de mudar a história do cangaço com afirmativas inveridicas quanto a honra sexual dos três atingidos.
Saudações e abraços a todos que fazem o Cariri Cangaço.
Archimedes Marques

Guerreiro Menino Por:Archimedes Marques


Guerreiros são pessoas
São fortes, são frágeis
Guerreiros são meninos
Por dentro do peito
Precisam de um descanso
Precisam de um remanso
Precisam de um sonho
Que os tornem perfeitos
(GONZAGUINHA)

Estive agora pela manhã junto com a minha esposa Elane a visitar o nosso amigo, o Decano, o Caipira de Poço Redondo, o convalescente de uma recente cirurgia, mas o que encontrei foi o Guerreiro Alcino pronto para nova batalha, um homem forte em todos os sentidos, mas frágil na emoção, um homem-menino que trás dentro do peito uma alegria sem tamanho, que irradia uma Luz Divina, que fortalece os mais fracos, os mais necessitados que o cercam. Um homem que também precisa de um descanso, de um remanso, mas que não se sente cansado, volta à luta sem reclamar. Um homem que vive os seus sonhos para se tornar perfeito. Um verdadeiro GUERREIRO MENINO.

Eu que estava fraco e meio triste por ter me submetido a uma cirurgia bariátrica que terminou sendo de alto risco em virtude de varias complicações na própria fase operatória e pós-operatória, voltei renovado, voltei fortificado com a luz irradiante que me passou o GUERREIRO MENINO ALCINO e agora também vou continuar com meus sonhos em busca da perfeição com bem diz o poeta imortal Gonzaguinha.
 
Muito obrigado amigo Guerreiro Menino Alcino!...

*Archimedes Marques. Delegado de Policia no Estado de Sergipe. Pós-Graduado em Gestão Estratégica de Segurança Publica pela Universidade Federal de Sergipe) archimedes-marques@bol.com.br

A alegria e bondade do povo do Ceará no Cariri Cangaço 2011 Por: Archimedes Marques

Archimedes Marques

Quando Manoel Severo, idealizador e curador do Cariri Cangaço me convidou para participar dessa edição do Seminário Cariri Cangaço " Da Insurreição a Sedição " de 20 a 25 de setembro/2011, até relutei de início em não aceitar o convite, primeiro porque eu não me achava preparado por não ser um estudioso do tema, como de fato ainda não sou, apesar de já ter lido mais de três dezenas de livros e ter realizado muitas pesquisas, além de ter publicado centenas de artigos de autores diversos no CANGAÇO EM FOCO, site que tanto me dá prazer e alegria, segundo porque me considero apenas um mero estudante desse tema que tanto me empolga quanto me intriga devido a sua diversidade, misteriosidade e controvérsias, principalmente entre as opiniões de alguns escritores, terceiro porque eu sabia perfeitamente que nesse evento eu encontraria o sumo, a nata, o néctar dos estudiosos, pesquisadores, escritores, historiadores, colecionadores. Assim, apesar de ser um estudante, um curioso e de certa forma um amante inicial do tema cangaço, vez que desde criança, quando ouvia as histórias pertinentes, em especial as histórias de Lampião, de tudo me empolgava e, quando da minha vida adulta, da minha vida profissional, da minha vida policial, da minha vida de delegado de polícia há mais de 25 anos de atuação no Estado de Sergipe, não me deixaram melhor me aprofundar no assunto, o que vem acontecendo agora, gradativamente, por conta principalmente do intercambio ocorrido por conta do meu blog e pelo fato de eu já estar próximo da minha aposentadoria e com mais tempo.

Na minha infância fui ouvinte assíduo e atento das tantas histórias lampionicas, principalmente as contadas pelo meu querido amigo piranhense Inácio de Loiola Damasceno Freitas, que desde aquele tempo já demonstrava ser um excelente orador e contador de casos e "causos", apesar dos seus 13 ou 14 anos de idade. Inácio e Washington foram e continuam sendo os meus amigos de fé, meus irmãos camaradas. Nas décadas 70 e 80, aqui em Aracaju, praticamos muitas estripulias juntos, fruto de um tempo que não volta jamais e próprias da juventude avançada para a época, uma época que só deixa saudades.



De volta ao Cariri Cangaço, mais de perto ao convite de Severo, ponderei e terminei por aceitar. Depois de romper quase 700 Km, cheguei ao Crato junto com a minha adorável e amada esposa Elane Marques e do amigo Alcino Alves da Costa, o decano caipira de Poço Redondo, entretanto, o que vi daí para frente superou todas as minhas expectativas. Esperava eu por um evento de grandeza, mas não com tanta magnitude, com raras ressalvas. Desde o dia da abertura até o dia do encerramento as várias cidades do Cariri cearense que se somaram a ideia de Severo, mostraram grande eficiência e de certo modo até disputaram por melhores receptividades à grande família do Cariri Cangaço, provando assim a alegria e bondade do povo do Ceará para com os seus visitantes. Dias inesquecíveis foram esses que por certo ficarão para sempre na minha memória. Foram palestras e debates de grandeza, partindo de pessoas realmente entendidas no assunto cangaço e adjacências que me deixaram mais enriquecido nesse tema que a cada dia mais me apaixona. De tudo aprendi um pouco com cada um dos participantes, pois a vida é um eterno aprendizado e nada melhor do que aprender com bons professores.

Archimedes Marques e Manoel Severo

Contudo, notei que no âmago das discussões há uma certa rivalidade, uma certa competição entre alguns membros, no meu ver desnecessária e descabida, vez que ninguém é o dono da verdade no assunto cangaço, o cangaço não é e jamais será uma "ciência" exata, ainda mais quando de tudo se mostram que a cada livro, a cada texto, a cada opinião, de uma maneira ou de outra, existem certas verdades ou pelo menos fatos descritos que se aproximam delas que se contradizem com outras do mesmo gênero, ademais, a história oral, os testemunhos pessoais são passíveis de erros, de exageros, de enaltecimentos próprios ou interesses diversos.

No âmbito judicial alguns juristas até consideram as provas testemunhais como sendo as "prostitutas das provas" devido a fatores diversos que distorcem as verdades. Com saber se os depoimentos prestados pelos sobreviventes da época do cangaço são depoimentos reais daquilo que realmente ocorreu?... As declarações prestadas por determinados cangaceiros, coiteiros, volantes e demais pessoas que vivenciaram o cangaço a certos escritores são mais importantes e verdadeiras do que as outras prestadas a outros escritores e historiadores?... Quem vive no mundo das investigações e em busca de auxiliar a Justiça, como é o meu caso é quem mais sabe que um cidadão hoje dá uma versão para determinado crime, sobre determinado fato e amanhã da outra narrativa, outra história é contada e quando o Inquérito policial chega à Justiça ele até muda o seu depoimento, por vezes dois ou três depoimentos diferentes.

Como saber qual o verdadeiro depoimento?... Como saber quais as declarações prestadas aos escritores e historiadores do cangaço são as verdadeiras?... É evidente que todas essas indagações podem ser buscadas e melhor pesquisadas pelos estudiosos do assunto, mas nunca sob a alegação de determinado escritor em querer a tudo sobrepor para ser o dono da verdade em detrimento da verdade do outro que então passa a ser uma verdade duvidosa, mascarada e até mesmo uma "verdade-mentirosa". É evidente que as aberrações e invencionices descabidas de certos autores que só visam o comercio devem ser veementemente combatidas para o próprio bem da história do cangaço, mas não discussões que a nada levam.

Archimedes Marques, um dos debatedores da noite em Aurora

Quanto a questão da verdadeira "maratona" para os participantes existente na programação do Cariri Cangaço, fruto da minha única reclamação com o comandante Severo, tenho certeza que a partir do próximo evento, principalmente agora que foi criado o Conselho e todos os conselheiros já tomaram posse, assim espero que será revista para melhor. Tenho plena certeza que os nobres conselheiros em comum acordo com o curador Severo hão de encontrar um meio termo para tornar o evento menos cansativo, mais proveitoso e de todo elogiado como seminário de primeira grandeza, ultrapassando a magnitude que de fato foi o Cariri Cangaço 2011.
 Entrando na seara das palestras e das falas dos membros, sem desmerecer os demais participantes que tiveram todos as suas reais importâncias no contexto geral do seminário, quero destacar as palavras técnicas do Ivanildo Silveira na sua conferencia O CANGAÇO EM IMAGENS, as excelentes e irreverentes interferências do Paulo Gastão e Antonio Villela, as serenidades de Alcino Alves da Costa e João de Sousa Lima, as boas explicações de Jose Cícero e Bosco André na conferencia AURORA " A TRAMA DE IPUEIRAS E A INVASÃO DE MOSSORÓ, ao trabalho efetuado por Ângelo Osmiro com o tema A LITERATURA NA ÉPOCA DO CANGAÇO, a conferencia em palavras fáceis de Inácio de Loyola e em especial o trabalho cinematográfico ainda em construção, mas apresentado o seu primeiro capitulo da minisérie SEDIÇÃO DE JUAZEIRO, de Jonasluis de Icapuí.

Agradecendo ao comandante Manoel Severo Gurgel Barbosa por ter sido eu também um dos privilegiados a vivenciar este grandioso evento, desejo todo o sucesso possível para os próximos CARIRIS CANGAÇO que por certo ocorrerão por muitos anos.

Archimedes Marques
Aracaju, Sergipe
http://www.cangacoemfoco.jex.com.br/meus+comentarios/minha+opiniao+sobre+a+terceira+edicao+do+cariri+cangaco

Lampião - Assaltos e Morte em Sergipe Por:Archimedes Marques




O livro "Lampião – Assaltos e morte em Sergipe”, de autoria do grande pesquisador, jornalista e escritor Juarez Conrado (In memoriam), publicado pelos seus entes queridos (filhos, outros parentes e amigos): Frederico Carlos, Helder Ricardo Conrado, Guilherme Henrique, Juarez Conrado Neto, Mateus Vieira Conrado Dantas, Valfredo Avelino dos Santos, Vivian Farias, Walter Jose Neves da Rocha, Vitor Gabriel, Beatriz, Giovana, Carol e Moema Conrado, é o mais completo painel que até então tive o prazer de ler sobre o assunto relacionado às investidas e histórias de Lampião e seus comandados no Estado de Sergipe. 

O autor, que infelizmente faleceu antes de ver a sua grande obra lançada ao público, descreve com precisão as atrocidades dos bandos de cangaceiros que fervilhavam no Nordeste desde as últimas décadas do Século XIX até os anos 40 do Século XX, quando o último e temível cangaceiro, Corisco, morreu pelas mãos das volantes baianas, mais de perto, pelas mãos do tenente Zé Rufino em Brotas de Macaúba na Bahia.

Mostrando o ambiente sócio-econômico e político de Sergipe que permitiu o exercício dessa forma de banditismo ao longo de tantos anos e descendo a minúcias biográficas de cada um dos mais importantes atores dessa atividade tão desumana quanto trágica que era o cangaço e sua sanha criminosa e sanguinária, o autor passeia nos lugares mais ermos onde Lampião e seus bandoleiros pisaram.

Baseado em longas e minuciosas pesquisas, incluindo investigações nos locais dos fatos e entrevistas com importantes personagens, sem faltar o mergulho em incontáveis coleções de jornais e na melhor bibliografia pertinente possível, o autor transformou a sua obra em um trabalho sério e confiável, merecedor das melhores considerações e observações. 



Archimedes Marques

A sobrevivência do cangaço em Sergipe por longos anos, demonstram nas  explicitas ocorrências discorridas pelo autor e, principalmente no imaginário dos sergipanos, que havia intimidade de Lampião com Eronildes Ferreira de Carvalho, médico e capitão do Exército que na cidade de Gararu selou um acordo em que o cangaceiro, na quantidade desejada, seria abastecido de armas e munição e, em contrapartida, tudo que fizesse parte do patrimônio do Eronildes seria respeitado pelo bando, por óbvio, as pessoas suas amigas também não seriam molestadas por Lampião. Posteriormente, Eronildes, galgado ao cargo de governador e interventor do Estado, com certeza, Lampião sentia-se em casa, por outro lado, sua livre permanência nas terras sergipanas também encontra explicação na circunstância de que contava com o apoio, além dos coiteiros, das populações rurais das regiões onde se desenrolava as atrocidades ou mesmo nas passagens amistosas dos bandoleiros em diversas localidades, destarte para a cidade de Capela em que Lampião chegou até a assistir um filme no cinema local, talvez, e bem provavelmente, o único filme em que ele assistiu na sua vida, ainda levando dessa sua “visita” ao município, grande soma em dinheiro arrecadada entre os mais abastados personagens da cidade para que não houvesse saques e mortes.

É fato também, que os cangaceiros mais atrozes, ferozes e sanguinários ficavam famosos e, em contra-senso, acabavam se tornando figuras admiradas principalmente pelo povo pobre, sertanejo sofrido pela seca e pela fome, a cujos olhos muitos deles apareciam como justiceiros que afrontavam um Estado injusto e incompetente, responsável pela miséria reinante e pelas gritantes desigualdades econômicas e sociais da época.
Inteligentemente Lampião, o comandante maior do cangaço, buscava com empenho, sabedoria e perspicácia criar vasta rede de relacionamento com pessoas poderosas, em cujo meio se encontravam os grandes coiteiros que sempre estavam ao seu dispor nas principais áreas sergipanas, destarte para a família de Antonio Brito em Propriá, seu principal ponto de apoio, ou mesmo em terras escondidas e de difícil acesso como era o esconderijo de Zé Baiano na Serra da Caipora, em Alagadiço, município de Frei Paulo. Zé Baiano, o Pantera Negra, da “Toca da Onça” saía e aterrorizava os municípios de Frei Paulo, Ribeirópolis, Pinhão e Carira, em Sergipe, além de Paripiranga, no vizinho e fronteiriço Estado da Bahia.

Zé Baiano era um dos mais sanguinários e temido cangaceiro do bando de Lampião, famoso por ferrar em brasa com as inicias JB as suas vítimas, destarte para as mulheres que ele estuprava. Não se pode esquecer que do próprio povo da caatinga, de cujo seio também saía a maioria dos componentes dos grupos dos cangaceiros, sempre aqueles mais destemidos, destarte para os assassinos que eram os mais bem-vindos pelos chefes do cangaço e por isso, por óbvio, tinham a proteção e o segredo das suas famílias em localidades diversas.


Graças a tudo isso, os cangaceiros obtinham apoio nos momentos cruciais, bem como a indispensável ajuda na aquisição daquilo de que necessitavam. Muitos coiteiros, vivendo isolados num meio rude, não tinham como se negar à ajuda, sob pena de sofrerem fortes represálias, embora muitos deles recebiam em troca, além da recíproca proteção, favores diversos, destarte para a eliminação dos seus inimigos.
Mesmo sendo Sergipe a “casa” de Lampião, jamais o cangaço conseguiria se manter sem a simpatia e o apoio popular, apesar de todas as atrocidades praticadas. Essa condição foi sempre ressaltada e,  o povo humilde das caatingas, de uma maneira geral, tinha Lampião como um homem honrado, respeitador e bom para os pobres. O povo era aliado de Lampião, tanto é que por onde passava o facínora, apesar do medo inicial das pessoas, havia multidões ao seu redor. Curiosas e prestativas as diversas pessoas advindas principalmente da classe pobre, dele se cercavam e esperavam por suas palavras, atos e decisões sem se incomodarem muito com o dinheiro ou jóias que seriam levados dos mais abastados das localidades, ou mesmo dos diversos crimes praticados pelo bando.
Entregue à própria sorte, o interior sergipano e nordestino em geral se transformou em território livre para as investidas dos bandoleiros de todos os tipos. Inteligente e estrategista como era,  Lampião não tardou a intuir da necessidade de se formar grupos organizados, com regras, chefias definidas, sub-grupos, estratégias e táticas próprias e, assim, passaram de simples arruaceiros criminosos a profissionais especializados.


Nas batalhas dos grupos do cangaço, eram realizadas em perfeita investidas de guerrilhas, as emboscadas, os ataques pelos flancos e pela retaguarda, os truques para furar cercos e despistar os rastros, unidos ao perfeito conhecimento do palco de ação, deixando sempre atabalhoadas as forças policiais das volantes, muitas vezes despreparadas ou ineficientes para o combate. O medo que os cangaceiros  provocavam nas pessoas pacíficas facilitava suas tropelias. Ninguém, por mais corajoso que fosse, ignorava o pavor que causava por toda parte a presença de Lampião. Na sua presença, todos procuravam o melhor meio de bem tratá-lo. Daí a razão pela qual foram os bandoleiros tantas vezes recebidos com festas, banquetes e rapapés em inúmeros lugares, passeando com liberdade pelas cidades, organizando bailes e comilanças.
O autor demonstra no seu livro que a admiração pelos cangaceiros famosos, seus trajes vistosos, sua postura exibicionista e arrogante de seres que estavam acima do bem e do mal influíam na decisão, em especial de jovens, muitos dos quais se iniciaram cedo, por vezes até menores de idade, nas lides do cangaço, como foi o caso de Antonio da Pinta, o Volta Seca, que se tornou um dos mais cruéis do bando de Lampião. Sedento de sangue, Volta Seca, ficava chateado quando em cidades sitiadas pelo bando era impedido por Lampião de sangrar alguém.
A maioria dos cangaceiros recebia ou adotava uma alcunha, quase sempre relacionada com suas características pessoais, habilidades ou fatos biográficos e que serviam como luva. O apelido, apagando o verdadeiro nome, contribuía para despistar inimigos, ademais, o próprio Lampião, estrategicamente, para confundir ainda mais os seus perseguidores, por vezes, quando morria determinado cangaceiro adotava o mesmo apelido em novo componente do bando.


As mulheres que viviam no bando, cujos companheiros morriam em combate deveriam ser sacrificadas como "queima de arquivo", visto que, como conhecedoras das minúcias da vida do bando, elas o deixariam em permanente risco. Mediante tortura sempre praticada pela polícia com supostos protetores ou coiteiros de Lampião, com certeza as viúvas de volta às suas famílias tudo revelariam. Narra o autor em fls. 180 a 182 as mortes em combate com a tropa volante de Zé Rufino dos cangaceiros Mariano, Pai Véio e Pavão, ocorridas no município de Porto da Folha e, em decorrência da viuvez de Rosinha, companheira de Mariano, casal amigo de Lampião, que por sinal sentiu muito a morte desse seu comandado, apesar de ter aberto uma exceção deixando que a cangaceira Rosinha fosse visitar os seus pais, quando da sua volta, resolveu para o bem do bando, matá-la.
Zé Sereno e Pó Corante foram os cangaceiros encarregados da execução da morte de Rosinha e, assim, sob o falso pretexto de realizarem uma viagem, seguiram os três com destino ignorado. Mais adiante, longe do bando, a cangaceira soube da verdade e, apesar dos seus apelos, pânico, choro e total desespero, Pó Corante desfechou um tiro de misericórdia no seu ouvido, para em seguida os dois executores cavarem a sua sepultura em cova rasa, terminando assim, a existência daquela que um dia fora uma brava guerreira, punida pelo infortúnio de ter ficado viúva, conforme bem explicita o autor no final desse capítulo: “Era a dura lei imposta por Lampião: cangaceira que tivesse o companheiro morto e não encontrasse outro como substituto seria de logo eliminada, para evitar deserção ou traição ao grupo, detalhando à polícia fatos considerados sigilosos pelo capitão Virgulino.”
Nota-se perfeitamente no decorrer da leitura do presente livro que foi Lampião o iniciador da fase do "cangaço sem ética". No seu reinado, dependendo da situação, valia tudo, inclusive o assassinato de mulheres, velhos e crianças, seqüestros, extorsões, torturas, castrações, estupros, saques e destruição de propriedades alheias. E de fato, os episódios relatados ao longo do livro, todos confirmados através da extensa pesquisa e relatos de pessoas, familiares ou amigos das vítimas, são de arrepiar os cabelos. Como primeiro exemplo cito o caso ocorrido no povoado Oiteiro Alto em Capela, quando Lampião espancou e estuprou uma mulher e em seguida mandou que todos os cangaceiros presentes fizessem o mesmo. A vítima por estar sofrendo grande hemorragia na sua vagina após a selvageria sexual do bando, ainda teve o seu órgão entupido de areia, socado com o cabo do punhal de um dos cangaceiros, por ordem do próprio Lampião, em desdém e pouco caso ao sofrimento alheio, com pretexto de estancar o sangramento. A indefesa vítima, com pouco tempo de casada, entrou em profunda depressão, não mais saindo de dentro do seu quarto, logo apresentando evidentes sinais de desequilíbrio mental e, enfim chegando a morte prematura por conta da maldade sofrida.
Caso não menos chocante é a comprovação do sadismo de Zé Baiano ocorrido no Sítio Maranduba em Canindé do São Francisco em 1932, quando duas mulheres por ele foram ferradas como se gado fossem. Olindina Marques, mulher de um sargento que pouco antes tinha sido sangrado por Lampião, assim como,  Antonia Marques, que além de sofrerem atroz e intensa dor, viveram o resto das suas vidas com as iniciais JB nos seus rostos.
Quem lê o presente livro jamais se esquece dos diversos crimes e demais atrocidades perpetradas pelo bando de Lampião na cidade de Nossa Senhora das Dores. Dentro da seqüência de crimes é de se destacar a castração de Pedro Jose dos Santos, o Pedro Batatinha, pessoa simples que nada tinha a ver com problema algum, apenas tinha vindo do Povoado Malhada dos Negros para a cidade sede do município no intuito de extrair um dente que lhe incomodava, entretanto, ao invés disso, um dos cangaceiros lhe arrancou seus testículos em comprovação de pura perversidade e sadismo. Pedro Batatinha viveu com sua triste sina até o ano de 1990, época em que faleceu em São Paulo onde passou a residir após o seu sinistro castigo e pecado de estar no lugar errado na hora errada.
Fazenda Jaramataia
Exemplo de maldade atroz também se deu em Aquidabâ quando o próprio Lampião em dia de ira decepou a orelha de Jose Custódio de Oliveira, o Zé do Papel. Zé do Papel, em virtude de ser uma pessoa aparentemente de classe privilegiada por ser um pecuarista e proprietário da Fazenda Pai Joaquim, fora abordado por Lampião e dentro da sua residência na cidade, além de certa quantidade de dinheiro, fora encontrado dez balas de fuzil, sendo daí interpelado para contar onde estava a arma, oportunidade em que afirmou que a mesma se achava em poder do juiz de Direito daquela Comarca, Dr. Juarez Figueiredo. Tal fato, provavelmente incutiu na mente de Lampião que o fuzil fora emprestado ao juiz, justamente para que ele se defendesse do seu bando, daí, enraivecido com o fato, o chefe do cangaço, arrastou Zé do Papel pela cidade e em frente a um armazém próximo da Praça principal da cidade, depois do bando ter praticado saques no comércio local e tantos outros crimes contra pessoas amedrontadas, dentre os quais o assassinato de um débil mental que se fez de corajoso, arrancou fora, provavelmente à faca, a orelha esquerda da sua indefesa vítima e ainda ordenou que o mesmo cortasse um pedaço da orelha do seu próprio irmão de nome Antonio, além de obrigá-lo a beber um litro de cachaça. Em meio a esse místico de humilhação, crueldade, sangue e cachaça o cangaceiro Zé Baiano pegou o roceiro Eduardo Melo e após espancá-lo com o coice do seu fuzil, também cortou a sua orelha seguindo o exemplo do seu chefe. Zé do Papel ainda viveu por muito tempo e viu o cangaço se acabar e seu carrasco morrer, entretanto, o Eduardo Melo faleceu cerca de um mês depois da perversidade sofrida.
A obra do Juarez Conrado é, sem sombras de duvidas, muito rica em detalhes e de excelente qualidade explicativa e exemplificativa a tal ponto que o meu comentário poderia se alongar e até virar um livro, entretanto, mesmo deixando ainda algumas lacunas a citar, quero finalizar com a história da inteligente artimanha usada pelo Padre Madeira para espantar, impedir ou não deixar o bando de Lampião entrar na cidade de Frei Paulo, onde provavelmente haveria derramamento de sangue, vez que alguns homens se prepararam para combater os cangaceiros.
Sabedor que Lampião iria naquele dia invadir a sua cidade, o Padre Madeira, inteligentemente bolou um arriscado plano que deu certo: colocou dentro da sua Igreja um caixão funerário vazio para ser velado pelos seus fiéis católicos que se fizeram presentes em grande número. O defunto invisível e imaginário seria uma pessoa influente e querida por todos da cidade. A população contribuiu se fazendo de consternada pela irreparável perda de um dos seus filhos mais ilustres. A farsa contou com a ajuda de todos, que amedrontados, temiam pelas suas próprias vidas. As senhoras pesarosas, vestidas de preto, véus cobrindo a cabeça, terços nas mãos, encenavam a peça teatral como se verdade fosse, rezando e chorando pelo defunto inexistente, ou mesmo, na verdade, rezando para que o plano desse certo. O Padre Madeira sabia que Lampião, apesar de cruel, bárbaro, sádico e assassino sanguinário, também era extremamente supersticioso e por temer um castigo Divino caso atacasse aquele povo em sofrimento, consternação e luto, certamente desistiria do seu intento. Para a felicidade de todos os atores e da cidade em geral, o plano deu certo. Assim, o Padre Madeira conseguiu ludibriar o grande Lampião, o rei do cangaço e das estratégias que enganavam os seus inimigos e perseguidores.
Por tudo isso e por muito mais, vez que, além de tudo, o livro em comentário é bem ilustrado com fotografias de personagens ligados ao tema proposto pelo autor, recortes de jornais e tudo mais relacionados com a passagem de Lampião no nosso Estado de Sergipe até o seu trágico fim em 28 de julho de 1938, na grota do Angico, a história é fechada com chave de ouro com a vingança e morte do diabo louro, Cristino Gomes da Silva, o temível e famoso cangaceiro, Corisco, em Brotas de Macaúbas na Bahia, além de outros detalhes e informes de tudo precedentes que finalizam a sua excitante leitura.
Recomendar a aquisição e leitura da grande obra do jornalista e escritor Juarez Conrado, para os amantes e seguidores das noticias do cangaço e o público em geral, é o mínimo que eu posso fazer, e em assim sendo, para aqueles que se interessarem pelo livro, é só entrar em contato com o seu filho Helder Dantas no endereço de e-mail:
heldidantas@bol.com.br

Archimedes Marques
Delegado de policia no Estado de Sergipe
Pós-Graduado em Gestão Estratégica de Segurança Pública pela UFS)
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O Médico e o Cangaceiro Por:Archimedes Marques

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Archimedes Ferrão Marques

A minha avó Helena Motta Marques, quando ainda com vida e lúcida, contava uma história ocorrida em Nazaré das Farinhas, cidade do sertão da Bahia, na madrugada do dia 27 de maio de 1929, época em que ela e o meu avô Archimedes Ferrão Marques, então médico, naquele município residiram por alguns anos.
O meu avô que era médico daqueles que de tudo fazia para ajudar as pessoas, além de ter um cargo estadual como sanitarista possuía também uma farmácia tipo drogaria onde atendia aos doentes e ali mesmo quase sempre manipulava e vendia os remédios que ele próprio receitava. A farmácia que servia de aprendizado e de complemento de renda familiar lhe dava outros bens de consumo, além da satisfação de curar doentes e salvar vidas, vez que, quando os seus pacientes não podiam pagar com dinheiro, presenteavam-no com galinhas, patos, cabritos, porcos e outros animais. Assim eles viveram uma vida dura e simples em Nazaré das Farinhas naquele tempo de muito trabalho, mas também de boas realizações e excelentes lições de vida.

O meu avô Archimedes era muito caridoso e atendia qualquer um a qualquer hora, independente da pessoa ter ou não como pagar pela consulta ou pelo medicamento utilizado. Bastava bater na porta da sua casa que ficava anexa a sua farmácia, que ele medicava, fazia curativos, pequenas intervenções cirúrgicas, engessamento em traumatismo de pernas e braços e até partos realizava com o maior prazer possível. Era médico por vocação, amava a sua profissão e tentava seguir fielmente o Juramento de Hipócrates.

Naquele dia, mais de perto na calada da madrugada, em meados das primeiras horas, chegaram a sua casa dois homens montados a cavalo, um deles com um dente bastante inflamado e "urrando" de dor, querendo a qualquer custo que ele o arrancasse e lhe livrasse daquele atroz sofrimento. Não bastaram as desculpas do meu avô em dizer que somente poderia aliviar a sua dor, pois não era dentista e sim um médico e, além disso, nunca tinha arrancado um dente na sua vida, além de não possuir os instrumentos pertinentes necessários para uma perigosa extração como aquela demonstrava ser.

Nazaré das Farinhas, Bahia

O homem desesperado puxou de um punhal dizendo que se ele não arrancasse o seu dente seria sangrado ali mesmo sem dó ou piedade. Diante do novo "argumento" não restou outra alternativa senão cumprir a vontade do bandido. Aflita e trêmula de medo a minha avó logo foi buscar um alicate comum na caixa de ferramentas e o colocou para esterilizar em água fervente, enquanto o meu avô aplicava injeção de morfina na boca inchada do intransigente paciente e depois de muito suor, desespero, gemidos e luta do alicate com a boca, o dente do cidadão finalmente foi extraído. Em seguida o meu avô fez uma boa limpeza em toda a boca infeccionada do paciente, aplicando-lhe uma injeção antibiótica e, recomendando por fim, além da higiene necessária, repouso absoluto nos dois dias seguintes.

O homem agradecido e aliviado, em demonstração de possuir algum sentimento, tirou um anel de ouro de um dos seus dedos e o deu como paga ou presente para o meu avô que então mais à vontade, criou coragem para perguntar pelos nomes deles, obtendo a resposta do outro cidadão acompanhante, que os seus nomes não lhe interessava e se ele tivesse juízo que ficasse calado sobre o ocorrido para não ter um dia a sua garganta cortada. Em seguida montaram nos seus cavalos e desapareceram no escuro da noite para sempre.

Por via das dúvidas, diante do iminente perigo da ameaça e com receio dos homens voltarem em vingança caso fossem denunciados e presos, os meus avós preferiram guardar segredo dos fatos durante o tempo em que naquela cidade permaneceram, não prestando queixa à Polícia nem tampouco comentando com vizinhos e amigos sobre o desespero e terror pelos quais passaram naquela noite.

Diz o velho ditado que não há um mal que não traga um bem. Assim, a lição e o exemplo vividos pelo casal que inclusive já tinha filhos menores, serviram para que o meu avô adquirisse os instrumentos dentários essenciais e passasse também a extrair dentes, sendo então, mais uma fonte de satisfação e caridade aos mais necessitados que passavam pela angustia dessa insuportável dor, além do somatório próprio da renda familiar, vez que no município não existia um dentista sequer. Contava a minha avó que por vezes a fila para extrair dentes era bem maior do que as consultas médicas tradicionais realizadas pelo meu avô Archimedes.

Quanto aos dois desconhecidos que a minha avó dizia ser de compleição física sertaneja e rude, de cor morena queimada pelo sol e que usavam roupas grosseiras com bornais de couro e outros apetrechos, nunca souberam de quem se tratavam. 

Teriam sido cangaceiros desgarrados de algum grupo de Lampião ou teriam sido criminosos outros procurados pela Polícia?... Como não há nenhum registro de ataque ou presença de cangaceiros no município de Nazaré das Farinhas é mais provável a segunda opção.

A titulo de ilustração transcrevo o breve currículo do meu avô, colhido no site http://linux.alfamaweb.com.br/asm/dicionariomedico/dicionario.php?id=31900:

Archimedes Ferrão Marques.

Nasceu em 2 de julho de 1892, em Salvador/BA, filho de Ernesto dos Santos Marques e Ana Ferrão Moniz Marques. Formou-se pela Faculdade de Medicina da Bahia em 1917, defendendo a tese "Raspagem Uterina". Iniciou suas atividades médicas em 1918, combatendo a epidemia de varíola que grassava em todo o interior da Bahia, sendo em razão disso nomeado Inspetor Sanitário do 10º Distrito da Bahia e membro da Comissão Sanitária Federal de Combate à Febre Amarela. Em seguida, ainda em Salvador, foi transferido para o serviço de Saneamento Rural, onde fez carreira como médico, subinspetor, inspetor e chefe de distrito e zona até dezembro de 1930. Nomeado Sanitarista do Ministério da Saúde, atuou na Delegacia Federal de Saúde da 5ª Região da Bahia. Transferiu-se para Recife, onde atuou na Delegacia Federal de Saúde e Inspetoria de Saúde dos Portos, durante a 2ª Guerra Mundial. Em 1945 é designado para a Delegacia de Saúde da 6ª Região, em Aracaju.

Cumulativamente exerceu o cargo de médico da Caixa de Aposentadorias e Pensões da Leste Brasileira. Atuou como clínico e obstetra. Faleceu em 17 de março de 1968, em Salvador/BA, com 76 anos.


Archimedes Marques
Delegado de Policia no Estado de Sergipe. 
Pós-Graduado em Gestão Estratégica de Seg.Publica pela Universidade Federal de Sergipe 
archimedes-marques@bol.com.br

NOTA CARIRI CANGAÇO: Archimedes Marques é mais uma destas gratas surpresas dentro do mundo da pesquisa do Cangaço. Profissional de valor reconhecido em sua corporação, preparado, intelectual determinado e que nos presenteia com mais um espaço de qualidade na internet para a felicidade da grande família Cangaceira e Volante. Nós do Cariri Cangaço recomendamos com satisfação: www.cangacoemfoco.jex.com
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