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O cel. Izaías Arruda e o Incêndio da ponte do rio Salgado Parte II Por José Cícero

Coronel Izaias Arruda

O ainda hoje misterioso,  incêndio da ponte sobre o rio Salgado de 1927, foi uma dura resposta do cel. Izaías Arruda (então prefeito de Missão Velha) em retaliação a um imbróglio com os engenheiros da RVC, depois que a ferrovia decidiu romper um acordo verbal relativo a compra (fornecimento) de madeira de lei para a fabricação de dormentes. A referida madeira era retirada da propriedade do temível coronel. A RVC resolveu não mais aceitar o produto de Izaías em face do preço exorbitante, muito além do valor de mercado que era praticasdo na época. O coronel não aceitou de bom grado o rompimento do contrato. Achou que aquilo era uma desmoralização a sua posição de líder. Indignado com o fim do lucrativo negócio, resolveu se vingar.

De modo que deu ordem aos seus jagunços para que arrancassem quase um quilometro e meio de dormentes da estrada de ferro e fizessem uma grande coivara sobre a ponte. E foi o que promoveram: uma fogueira gigante. Os trilhos ficaram em alguns trechos, soltos sem a sua base de apoio. Uma grande tragédia estava prestes a ocorrer com o trem da feira que passaria ainda nos escuro da madrugada lotado de gente e mercadoria. Um iminente acidente estaria prestes a acontecer. Um verdadeiro atentado que poderia vitimar um grande número de passageiros inocentes. O coronel não estava nem aí para as conseqüências do seu tenebroso ato.

 Missão Velha e Aurora, unidas no resgate da memória do cariri

As labaredas de fogo podiam ser vistas a quilômetros dali. Disse-nos o tal senhor do Jenipapeiro. A ponte estava literalmente em chamas. Vez que grande parte da sua estrutura metálica, segundo relatos, com o fogo, estava vermelha em brasa viva. Uma fogueira monumental alimentada por madeira de lei do tipo: aroeira, pau d’arco, cedro e mssaranduba dentre outras. “O ferro da ponte, como dizia meu pai, ficou em brasa viva”, disse o morador. O calor, segundo ele, era tanto que parte da estrutura metálica chegou ao ponto de alguns peças amolecer. Restos de ferros retorcidos ainda hoje depois de pouco mais de 82 anos daquele inusitado acontecimento ainda foram encontrados sob a areia do leito do rio. "A temperatura era altíssima e o fogo entrou pela noite. Foi uma coisa horrível, nem sei com a ponte não caiu por inteira".

E a tragédia só não foi maior porque um vaqueiro que residia nas proximidades (no Jenipapeiro), às escondidas, montou seu cavalo e rumou célere para à estação de Ingazeiras comunicando o fato ao agente local que de imediato telegrafou para as estações do Crato e Fortaleza. O trem daquele dia ficou pelas bandas de Iguatu ou do Crato mesmo. Por vários dias, quase uma semana o tráfego costumeiro do chamado trem da feira ficou interrompido até que funcionários da Rede Ferroviária Cearenses(RVC) sob segurança reforçada pudessem realizar os necessário serviços de recuperação da linha férrea e da própria ponte sobre o rio Salgado. Os prejuízos foram calculados em cerca de 300 contos de réis; uma verdadeira fortuna naquele tempo.

Mas o mistério ainda permanece até hoje. E algumas perguntas continuam, por assim dizer, inevitáveis. Ou seja, por que será que o coronel Izaías Arruda veio a escolher logo a ponte do Olho d’água a mais de duas léguas da estação de Missão Velha onde inclusive era prefeito? Por que justamente Aurora? Será que queria demonstrar força para os irmãos Paulinos com os quais mantinha uma rixa mortal? Ou quisera com isso, evitar quem sabe, que as volantes que se encontravam na parte baixa do Cariri não pudessem chegar a Aurora para dá cabo de Lampião junto com seu bando? Ou mesmo, queria que o próprio Lampião, fosse responsabilizado pelo incêndio aumentando assim, a ira do governo? Quanto a esta última suposição é notório ressaltar que muitos da época, inclusive alguns jornais da capital, chegaram a noticiar que aquele atentado tinha sido obra dos cabras de Lampião, em retaliação a perseguição das volantes, inclusive como consta equivocadamente na página 339 do livro: ‘A Marcha de Lampião, assalto a Mossoró’ de Raul Fernandes, filho do prefeito potiguar Rodolfo Fernandes, famoso por ter comandado a resistência de 27. Por fim, pelo modus operandi, que relação existiu entre o incêndio da ponte do Salgado e o da antiga estação de Missão Velha?

 José Cícero em visita à ponte sobre o Rio Salgado

Ousado e temível em toda região, o coronel Izaías Arruda era de fato, um inegável fazedor de inimigos. Jogava bem, sobretudo nos bastidores e, como costumam dizer nossos matutos – com dois baralhos. De sorte que, não era tarefa fácil vencê-lo em seus domínios. Tinha, como se sabe ainda hoje, o seu exército particular de jagunços sempre pronto a agir nos mais diferentes ramos.Contudo, adespeito de qualquer outra coisa, é preciso dizer que Izaías Arruda de Figueiredo foi um homem inteligente e de coragem que esteve muito além do seu tempo. A forma como se deu a sua morte foi uma prova inconteste de que pagara caro por tudo isso.

O coronel Izaías Arruda, era filho natutal de Aurora onde foi delegado e, quando ainda prefeito de Missão Velha, foi assassinado na estação de Aurora em 04 de agosto de 1928 pelos irmãos Paulinos, vindo a morrer quatro dias depois.

José Cícero
http://blogdaaurorajc.blogspot.com/

A Marcha de Lampião em Aurora Por:José Cícero

José Cícero com o Sr. Vicente de Generosa - Filho do guia de Lampião no Jatobá: Antonio Arara


José Cícero no sítio Jatobá entrevistando o Sr. Vicente de Generosa - Parente/filho dos guias de Lampião(família Arara).

- Massilon se separa do Bando de Lampião no sítio Japão.
- O assassinato do guia pelo cangaceiro Massilon na Catingueira.

Tendo saído da fazendas Ipueiras às pressas, após o cerco do dia 7 , Lampião atravessa o Salgado e chega com seu bando ao sítio Jatobá de onde leva três pessoas de uma mesma família como guias.


Quando da passagem de Lampião com seu bando pelo sítio Jatobá no município de Aurora no dia 8 de julho de 1927, logo após o histórico fogo da Ipueiras,, três pessoas de uma mesma família foram pegas, para servir de guias. Um rapazola leiteiro, um sitiante e um vaqueiro. Seus nomes: Zé Vicente, Zé Alves e Antonio Arara, respectivamente. Todos trabalhadores do eito, residentes no sítio Jatobá dos Araras. Tudo estava calmo naquele mundo ermo, cercado de mato e morros. Havia rumores de que pras bandas da rua a umas três léguas, soldados do governo estavam a um passo de dá cabo de Lampião. A estação era um vaivém dos seiscentos diabos. Coisa de gente grande que era melhor nem se falar.. .Mas ninguém da ribeira do Jatobá imaginava que os cangaceiros que estavam do outro lado do rio Salgado e da própria vila, pudessem de fato passar sequer por perto daquele lugar distante. Até os boatos dando conta de Lampião e das volantes chegavam aos pouco e distorcidos por aquele fim do mundo. Até que numa certa manhã a velha calmaria foi quebrada como que numa maldição.. O improvável aconteceu. Quando o leiteiro do sítio( quase uma criança) se esbarrou de súbito com o grupo de cangaceiros quando este atravessava o riacho (hoje existe uma barragem). Sem tempo sequer para sentir medo, o garoto foi interrogado pelos facínoras: 


- pra onde você leva este leite menino? - Perguntou um dos bandoleiros. – Vou entregar lá na rua meu senhor. - Respondeu o jovem leiteiro um tanto trêmulo. – Acho que hoje, aqueles lá não vão tomar leite não. Né mesmo cambada!..


Sem demora o bando logo se apoderou do balde. O menino estupefato, ficou apenas observando em silêncio. A princípio não entendia bem o que estava acontecendo. Quase todo o líquido foi bebido pela cabroeira. O restou foi derramado ali mesmo, na margem do riacho. Lampião, o chefe do grupo, neste momento estava um pouco mais afastado, como que a averiguando melhor aquele ambiente que para todos eles era desconhecido. 

– Deixa a rua para outro dia menino. Você vai agora com a gente pra ensinar o caminho. Além do mais, na rua você vai dar é com a língua nos dentes e nos entregar aos macacos. - Disse por fim, o tal cangaceiro. 

Riacho do Jatobá onde ouve o 1º encontro do bando de Lampião com o jovem leiteiro Zé Vicente Arara

1- Local onde aconteceu o incêndio da Ipueiras com o serrote dos Cantins ao fundo. 2 - Local onde Lampião descansou na antiga residência do guia Davi Silva na Malhada Vermelha. 3- JC com o Sr. Moreirinha que em 1927 testemunhou quando Lampião passou pela M. Funda. 4- Sr. Chico Ferreirão com uma relíquia: A janela da sua antiga residência alvejada à bala por um tiro dado pelo grupo de Massilon.


Lampião agora já estava junto do grupo. Mas continuava pensativo. Algo o preocupa além da conta. O grupo agia como se o velho chefe estivesse em descanso das ordens e decisões costumeiras. Havia um verdadeiro burburinho entre os bandoleiros. Mas, até então ninguém sabia do que de fato se tratava. Seguindo o menino a cabroeira logo alcançou a casa do sitiante: o Sr. Zé Alves tia do leiteiro. O cumprimento foi lacônico e seco.

- Aquilo é o bando de Lampião José! – Alertou Dona Raimunda, a esposa.
– Deixa de eguagem mulher. Aqueles por essas horas já devem é tá preso nas Ipueiras do coronel.


Subitamente alguns cangaceiros começaram a vasculhar o pequeno sótão da pobre residência. Estavam como fome. Queriam queijo, farinha e rapadura. Não encontraram o que desejavam. Mas não saíram de mãos vazias. Levaram algumas “cabaças” para transportar água. Pois as deles ficaram para trás com a saída às pressas de Ipueiras durante o cerco do dia 7. 


O dono da casa foi convidado a segui-los, juntamente com um cunhado que se encontrava(como que escondido) na cozinha . Seu nome ara Antonio Arara cunhado do dono da casa. Dona Raimunda ainda pediu que não os levaram. Mas não teve jeito. O bando seguiu na direção do sítio Japão meia légua adiante. Iam todos a pé. Seguiam no sentido do poente pelo caminho de São Francisco (hoje Quitaiús).

Estavam arranchado um pouco mais pra trás, na descida do riacho. Lampião, havia enviado(disfarçadamente) dois cangaceiros até a entrada da cidade. Onde receberiam encomendas de um homem forte do lugar. Um ex-prefeito: munição e algumas garrafas de bebidas finas.De novo Lampião se encontrava desconfiado. Mas precisava de comida e municição... Quando finalmente retornaram, Virgulino pareceu mais calmo. O episódio relacionado a traição da Ipueiras não saia da sua cabeça. Solicitou que os guias experimentassem primeiro a tal bebida. Só após vários goles, é que autorizou que a sua cambada sorvessem a aguardente. - Um presente, de uma autoridade, tem sempre um sabor especial. – disse ele. - E a munição é das boas, diferente da que comprei caro, aquele coronel traidor fio de uma égua. Durante o trajeto, o cangaceiro Massilon Leite se agastou com o guia Zé Alves quando este o dissera que tinha o que fazer em casa. Lampião não gostou da rispidez de Massilon para com o guia em tom de ameaça por uma coisa tão trivial. De modo que o repreendeu fortemente na frente de todos. 


– Respeite o homem Massilon! - disse o rei do cangaço. - O que ele está fazendo por nós é um grande favor. - O cangaceiro, emudeceu. Trancou-se por dentro em seu orgulho. Achou aquilo uma grande desfeita. Tudo culpa daquele desconhecido. Era um sujeito frio e vingativo. Os exemplos eram fartos neste expediente. E assim que o bando chegou na ladeira do sitio Japão, Massilon fez alto; dizendo à Lampião que a partir daquele local seguiria numa nova direção como o seu próprio grupo. Faria igualmente Os Marcelinos, dias antes, ainda no riacho do sangue. O chefe aquiesceu. Despediu-se de Virgulino, dizendo apenas: - até outro dia, capitão. – E Lampião com a mão estendida no ar, desejou-lhe boa sorte. – Tome cuidado, as coisas não estão boas pra ninguém. E não abuse da sorte. - disse Lampião.


José Cícero entrevista o Sr. Chico Ferreirão morador da Catingueira por onde passou Massilon com seu grupo.
1- Grota da Catingueira onde foi lançado o corpo de Zé Alves. 2- Local da antiga residência de Izaías Arruda e Zé Cardoso na Faz. Ipueiras. 3- JC entrevista parente do vaqueiro de Zé Cardoso. 4 - Dona Ana Silva esposa de Davi Silva(esta Sra. falecera pouco depois desta entrevista ano passado).

O gesto de adeus foi imitado por todo o resto do bando. Apenas cinco cangaceiros acompanharam Massilon. Em seguida, ele próprio apontou para Zé Alves, dizendo: - Quero este aqui como guia. – E assim foi feito.
Logo nos primeiros passos no sentido Sul, um dos cabras de Lampião(talvez Sabino), afirmou em relação ao guia: - Aquele não voltará mais vivo. Um pouco mais à frente, antes mesmo de chegarem ao sítio Vazantes, Lampião agradeceu aos dois guias que ficaram com ele. Pagou-lhes com algum dinheiro pelo serviço. 

– Meus amigos, não digam aos meus inimigos por onde eu fui.
- Pode crer meu capitão. - E assim os dois moradores do Jatobá voltaram pra casa. Estavam aliviados e até alegres, afinal de contas, após um dia e uma noite de andança pela caatinga, estavam sãos e salvos.

Mas depois pensaram com preocupação:
- E Zé Alves como estará ele? Será que já retornou? - Deus haverá de ter guiado ele nos rumos de casa.
- Quem meu padim pade Ciço de ousa meu tio.

Estavam ansiosos para chegar ao Jatobá e contar da aventura. E saber notícias o quanto antes do chefe da casa. E assim finalmente chegaram, um tanto exaustos, no lusco-fusco do dia. Péssima notícia os aguardavam. Zé Alves não estava lá. Todos ficaram preocupados. As mulheres chorosas começaram a rezar. Mas, quem sabe,(disesam os dois) ele tivesse ido mais longe? Mas, haveria de voltar tranqüilo como eles. Esse pensamento vez por outra, servia-lhes de consolo...Mas não por tanto tempo. Massilon seguira para o Norte. Agora sem Lampião, ficara ainda mais cruel e perigoso. Desconfiava até do vento assobiando sobre a copa das matas. Boatos davam conta de que as volantes do major Moisés agora ajudada pela jagunçada do coronel Izaías Arruda estavam espalhadas por toda a Aurora. Os macacos não lhes dariam mais trégua.

Esses pensamento atormentavam o juízo de Massilon. Tinha, vez por outra, verdadeiro aceso de raiva. Era um bicho em forma de gente. Os que iam com ele, também não ficariam por baixo. A morte estava expressa na bila dos olhos de cada um deles. Até que chegando no lugar de nome Catingueira a cerca de três léguas(mais ou menos) de onde deixaram Lampião, Massilon ouviu do guia que a partir daquele ponto, não conhecia mais nada. O cangaceiro com a cara amarrada cheio de ódio, apenas respondeu com ironia:

- Você não vai né, mas porém também não volta... - Os outros que estvam ao seu lado, apenas riram como que já soubessem como iria terminar aquela história.


Sem mais um palavra, o malvado Massilon sacou a arma e à queima roupa, assassinou de maneira fria e covardemente Zé Alves com um balaço na cabeça. O corpo do guia foi jogado na grota ao lado(foto). Uma perversidade sem tamanho. Seguiu em frente com os seus, como se nada tivesse acontecido. Tinha sede de sangue. Um lenhador que vira o bando do alto do serrote, saiu na frente e avisou aos que moravam no caminho. Todos deixaram suas casas. Algumas delas foram alvejadas... Quatro dias depois, um vaqueiro da região que procurava uma vaca desgarrada avistou sobre uma grota um enorme bando de urubus. Era um cadáver sendo devorado pelos abutres dos sertões. Era o corpo do pobre guia do Jatobá. A família ficou sabendo e, só reconheceu seu corpo devido o cinturão que ele usava.


Depois daquele bárbaro assassinato ocorrido no sítio Catingueira não se teve mais nenhuma notícia dando conta do itinerário do cangaceiro Massilon Leite com o seu grupo de facínoras.
Cruz da Catingueira - marco do local onde o guia Zé Alves foi assassinado pelo cangaceiro Massilon Leite em julho de 1927.

 
1- JC e Luiz Domingos(revista Aurora) com o filho de Davi Silva na Malhada Funda 2- JC e Rdo. Davi com o punhal que Lampião presenteara o seu pai. 3- JC entrevista Seu Edgar Rangel testemunha do confronto do sítio Ribeiro no Bordão de Velho. 4- JC, Dr. Sebastião Rangel e o vice-pref. Antonio Landim no sítio Ribeiro(riacho das Murtas) local do confronto.

Enquanto isso, o rei do cangaço com seus comandados pernoitaria em segurança no sítio Juá(Vazantes) na residência do Sr. Agostinho Silva, onde um boi foi assado para o jantar do bando. De lá, continuaria sua marcha com o auxilio dos guias João Pereira e Joaquim de Lira(dois vaqueiros) requisitados no Alto da Boa Vista(Caiçara) entre as serra dos Quintos e do Góes. Ambos o levariam até o sítio Cajuí nas proximidades da vila de Ingazeiras. Depois, já no dia 9 atravessou o rio Salgado e a linha do trem no lugar Morro Dourado de onde seguiu, finalmente, para a Paraíba e o Pernambuco.

José Cícero

Secretário de Cultura,Pesquisador do cangaço
Conselheiro Cariri Cangaço
(*) Fragmentos do livro: ‘Lampião em AURORA – Antes e Depois de Mossoró’ – de: José Cícero(Inédito - 2011).

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Izaias Arruda e o Incendio da Ponte Parte I Por:José Cícero

 Mesa de abertura do Cariri Cangaço em Aurora no ano de 2011

Há anos que esta história me intrigava. Algo que nunca saíra de vez da minha cabeça. Tanto que, depois de várias investidas em vão para saber o local exato onde o incêndio ocorreu – por sorte, alguns meses atrás terminei encontrando o que procurava, isto é – a ponte do Olho d’água localizada entre o povoado de Quimami (Missão Velha) e Ingazeiras (Aurora).
 
Quando já me dirigia para a ponte do Jenipapeiro nos rumos do riacho dos Porcos nas proximidades de Ingazeiras, distrito de Aurora tive a sorte de parar numa bucólica residência de um agricultor. Um senhor de aproximadamente 80 anos. Cordato e hospitaleiro. Após falar-lhe do que eu estava procurando, ele de súbito, disse saber de toda a história contada-lhe um dia pelo seu genitor já falecido. E mais, que eu estava errado quanto a localização. A tal ponte não era a do jenipapeiro e sim, uma outra situada um pouco mais a frente a uma légua e meia dali. A ponte do incêndio ficava na localidade rural de Olho d’água. Aquela dica para mim foi muito mais que uma surpresa agradável. Foi um lenitivo. E assim, seguimos(eu e a minha equipe). De moto, ficou mais fácil vencermos as léguas tiranas das estradas empoeiradas. Chegamos finalmente ao local procurado. A ponte era magnífica. Exaustos mas recompensados por mais uma constatação histórica.
 
No ano passado, havia ido a Missão Velha e tendo inclusive conversado com o pesquisador Bosco Andréa acerca deste fato. Tudo estava, ainda como agora um tanto quanto nebuloso. Um mistério. De lá fui até a ponte/pontilhão das Emboscadas. Por sinal uma bela obra de arquitetura. Confiante de que havia sido ali o ambiente onde tudo ocorreu. Só em seguida é que fiquei sabendo que também não era lá. De novo estava eu desolado. E agora, diante do local exato pude constatar que se trata mesmo de uma bela ponte metálica de engenharia arrojada para os padrões da época. Logo que chegamos pude notar que bem ao lado, havia um canteiro de obras com vistas à construção da ferrovia denominada Transnordestina - obra do governo federal ainda da era Lula. Uma nova ponte estaria sendo projetada. E que será construída paralela a esta da Reffesa. Torço para que, com a suposta desativação da antiga linha, que pelo menos a histórica ponte onde todo o fato ocorreu venha a ser preservada. Posto ser ela, um patrimônio arquitetônico e histórico não somente de Aurora e Missão Velha, mas de todo o Cariri.

 
A Pesquisa de campo

Vasculhamos todo o matagal em seu entorno, assim como o leito do rio, quando pude, para minha alegria descobrir algumas peças antigas de ferro retorcido que estavam enterradas na lama, assim como cobertas pelo mato(ver foto). Tudo o que aquele senhor nos informou estava ali diante dos nossos olhos. Era a história viva e pulsante de um tempo ido, como que desafiando o olhar dos contemporâneos. O rio estava belo, mesmo que rasgado e maltratado pelas máquinas que estavam a construir a nova ferrovia. Vi muita destruição em boa parte do percurso. Uma verdadeira agressão ao rico e ao bioma da nossa caatinga como um todo. Tudo em nome de um progresso devorador que parece puder tudo. Até mesmo devastar e destruir os nossos ecossistemas e a nossa própria história.
 
Era gozado a forma como os operários da Transnordestina nos olhavam. Talvez, por não compreender o nosso propósito de pesquisa. Ficavam curiosos. Vendo-me com a minha equipe a fotografar tudo, a esquadrilhar o ambiente em suas minúcias; como a procurar algo no vazio. Descobrimos peças de metais enterradas na areia do rio. Checamos restos de antigos dormentes. Buscando assim qualquer vestígio possível daquele remoto acontecimento, passado a mais de 80 anos. Era possível ver os sinais de fogo nos pilares da velha ponte. Tudo ali parecia está realmente carregado de antigas memórias.
 
Eu olhava para aquela ponte e imaginava o velho coronel Izaías Arruda e Zé Gonçalves com todo o seu bando de jagunço em suas infindáveis estripulias. Lampião e seus comandados... Além dos grandes potentados e outras autoridades que um dia passaram por ali. Por fim, saber que por sobre aquela ponte do Salgado passou boa parte do antigo progresso do Cariri foi para mim uma sensação das mais indescritíveis. Um misto de saudade, alegria e curiosidade.

Continua...

José Cícero
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Quando Lampião esteve em Aurora Por:José Cícero

 Bosco André, José Cícero e Manoel Severo em manhã de Cariri Cangaço em Aurora
Estamos nos grotões do município de Aurora – Sul do Cariri cearense. Quase na fronteira com o estado da Paraíba. Início do mês de julho de 1927. Vinte e seis dias depois do malogrado ataque a cidade norte-riograndense de Mossoró. Desde então, Virgulino Ferreira - o Lampião, juntamente com os que ainda restarem do seu bando, luta com unhas e dentes para não ser massacrado pelas volantes interestaduais do CE, RN, PB e PE.


Um verdadeiro exército está a persegui-lo sem trégua. A desproporção é, simplesmente gritante em desfavor do chamado rei do cangaço. Em alguns combates, chegando incrível a razão numérica de 40 soldados para um cangaceiro. Mas Lampião não se entregará. Se caíra na esparrela de uma empreitada enganadora, também haverá agora de sair(por sua conta e risco)o quanto antes dela. Sua perspicácia em rasgar a geografia da caatinga cearense ainda continua sendo a sua maior arma. 


O fogo pesado da resistência fê-lo retornar às pressas numa marcha sofrível. Tirando de Mossoró à Limoeiro num fôlego. Exausto nas suas últimas forças lutou como nunca na vida para não sucumbir de vez aos seus inimigos de farda. Estava por assim dizer, desmoralizado, justamente num ataque que lhes disseram ser fácil. Foi ele própria, a primeira vítima de um grande engodo arquitetado por uma corja de interesseiros. Bandidos piores que os que estavam sob seu comando. Mas não se deu por vencido... Rasgou a caatinga cearense na direção de Aurora como um autêntico vaqueiro conhecedor daquelas bibocas. Desde aquele instante, Izaías passou a ser o Norte na sua cabeça.

 Sousa Neto, Manoel Severo, Bosco André e José Cícero, na estação da RVC em Aurora, palco onde foi baleado Izaias Arruda


Adentrou o território aurorense pelas fímbrias da serra da Varzea Grande seguindo o riacho do Bordão de Velho, Malhada Funda, Riacho das Antas, Coxá, Diamente, serrote dos Cantis até finalmente, alcançar o valhacouto da fazenda Ipueiras - propriedade do seu amigo e sócio de empreitada – o coronel Izaías Arruda de Figueiredo. Imaginara está em segurança. Ledo engano. Seus aperreios estavam apenas começando. Chegara exausto, assim como todos os seus cabras em mais de 30 cangaceiros. Muitas deserções foram registradas ao longo do caminho. Uma marcha que pelo jeito, ainda não havia terminado. 


Ansiava angariar o necessário auxílio do coronel, até então seu confiável coiteiro nestas paragens salgadianas. Mas não. Estava desconfiado. Alguma coisa lhe dizia que a Ipueiras não era mais a mesma que deixara dias atrás. Tudo havia mudado, após a humilhante derrota que sofreu em Mossoró. Sabia que agora teria que lutar com inteligência e denodo. Como era amarga a traição, assim como a solidão após uma derrota. Não haveria de morrer ali depois de tantas guerras. Queria ver o coronel que estava a demorar além da conta. Seus amigos de empreitada o traíra. Viu não o foram, nenhum deles. Todos a sua volta estavam com o moral sob a rés do chão. Sabino lamentava as baixas e jurava vingar o companheiro Jararaca. Massilon emudecera. Antes era todo um falastrão...Comemaça a partir dali uma nova batalha. Uma questão de vida ou morte. Salvara-se de novo. Primeiro do banquete envenenado a cargo do vaqueiro de Zé Cardoso, Miguel Saraiva, depois, do incêndio da manga e do fogo cruzado dos macacos do major Moisés e ajudado pela jagunçada do próprio coronel. Salvara-se milagrosamente pela parede do açude velho. Mas, por que ficara desguarnecida até o corredor que dava para a Malhada Vermelho e o riacho do pau branco? Num ímpeto de raiva, gritara não ser preá para morrer sapecado... Fizera naquele instante mais um inimigo. "Izaías vai me pagar esta desfeita", disse ele. Prosseguiu a passos largos pisando o rumo Oeste.

 Caravana Cariri Cangaço visita Ipueiras de Zé Cardoso, em Aurora

Os plano do major Moisés Leite de Figueiredo, por sinal, parente do coronel, foi por água abaixo como que de propósito. Quem sabe, 'eles' não desejassem de fato pegar Lampião... Senão, por que pediu ao governador a dispensa das tropas não-cearenses? Por que fora tão negligente nos combates desde a serra da Macambira? Seguido do sítio Ribeiro e agora na própria Ipueiras e no esconderijo do Diamante? Lampião, contudo seguiu seu rumo. Sabia ele que o grande encontro com o seu destino estava muito mais além. Fez o que estava ao seu alcance para salvar o que restou do seu antigo bando. Ou que restava dele. Malgrado, o cansaço somado a fome e a falta de munição e ânimo dos seus cabras.Os bandoleiros da terra, já não estavam com ele. Deixaram-no tão logo adentraram a região do Bordão de Velho.


A perseguição arrefecera um pouco, ao passo que se distanciavam cada vez mais da cidade, mas não lhe dera trégua. Havia um trem desde a noite do dia 6 a esperar o corpo do bandoleiro na estação. Soldados ainda estavam espalhados em diversas parte de Aurora e região.Talvez dividir-se seria uma opção inteligente e necessária. E foi o que fez. Massilon estava envergonhado, quem sabe com remorso de ter colocado Lampião naquela situação vexatória. Ao ponto de quase ser abatido. Não o deixara na fazenda Letrado no riacho do sangue(como escreveram depois os jornais). Seguiu-o na direção da Ipueiras até o sítio Brandão onde finalmente se separaram de vez. Homem de palavra, Lampião não lhe demonstrara nenhum ressentimento pelo fracasso. Iria na direção da serra do Góes. A despedida foi um tanto quanto amistosa. Massilon pediu-lhe o guia José Alves, um rapazola do sítio Jatobá e de lá, seguiu para o Sul. Na localidade de Catingueira légua e meia depois, o facínora matou covardemente o jovem rapaz da família Arara.

Até hoje seus familiares não têm dúvida, o primo que ficara com Lampião(sã e salvo) contara todo o caso quano retornou pra casa. Virgulino, ao contrário tratara bem os seus guias, tanto que ao chegar no Cajuí de onde era possível avistar (da ponta da serra) a então vila de Ingazeiras agradeceu-o oferecendo algum dinheiro a Joaquim de Lira, outro lservido de guia a partir da Boa Vista(da região de vazantes).

- Que povoado é aquele lá embaixo? - indagou Lampião.
- ali é as Ingazeiras capitão - respondeu o guia.
- Então me diga, como faço pra passar bem longe. Lá deve tá cheia de macacos vindos pela linha do trem.
- De fato, é bem arriscado, capitão...


A pouco mais de 72 horas se safara de mais uma espetacular refrega. Desta feita, na fazenda Ipueiras – justamente o QG onde toda a trama foi organizada com a participação direta e indireta de muitos cangaceiros e potentados regionais, tais como Massilon Leite, Zé Cardoso, Miguel Saraiva, Júlio Porto(representante dos interesses de Décio Holanda do Pereiro), e do mais célebre de todos – o coronel Izaías Arruda, dentre outras pseudo-autoridades que pagaram caro para que ficassem até hoje no anonimato desta história de sangue, traição e poder.

 Antônio Amaury e José Cícero

Na pisada de Lampião...

De Aurora, mais precisamente do riacho das Antas, participaram da empreitada do assalto à Mossoró os cangaceiros: Zé Roque, José Cocô, Zé de Lúcio e Antonio Soares(seria este o Asa Branca?) que alguns(poucos) pesquisadores apontaram como o cangaceiro mais jovem e natural da própria Ipueiras. Teria o bando um segundo ‘Asa Branca’ que depois do ingresso receberia outro nome como era comuns aos neófitos?. Cumpre destacar que no começo de agosto do mesmo ano “O Nordeste”, periódico jornalístico de Fortaleza estamparia em sua capa uma matéria especial em reportagem tratando acerca da suspeição sobre o major Moisés Leite de Figueiredo – comandante geral das tropas dos três estados e parente do coronel. O foco era a suposta facilitação...

A Marcha no território aurorense:
No dia 7 de julho saíram às pressas da Ipueiras. O ziguezague que a partir dali realizou no território aurorense foi algo só digno de um profundo conhecedor da caatinga aurorense. Após a traição de Ipueiras Lampião seguiu para a serra do Góes já na divisa com Caririaçu indo pelas bandas do Pau Branco atravessando o Salgado na altura do sítio Barro Vermelho, passando pelo Jatobá, Brandão e pernoitando em Vazantes. De lá se dirigiu para a serra dos Quintos e no dia 9 para a serra dos Góes, seguindo pelo riacho da boa vista até a ponta da serra pras bandas do Cajuí. Adentrou o município de Milagres transpondo a linha de ferro na localidade de Morro Dourado ainda em Aurora nas proximidades de Ingazeiras. Ainda, mas adiante passara pela Piçarra onde cangaceiro Sabino foi abatido pela volante de Manoel Neto. Uma outra traição, desta feita do velho Antonio da Piçarra outro ex-coiteiro e amigo de Virgulino. As coisas não estavam nada boa...

Uma volta que envolveu todo o perímetro do território aurorense. Esta estratégia deixou completamente perdidos os que o caçavam a ferro e fogo. Dali conseguiu penetrar sem ser incomodado o estado da Paraíba pela a serra de Santa Inês. Um fino estrategista. Verdadeiro preá das matas.

Na parte II deste episódio trataremos do enigmático incêndio da Ponte do trem da RVC sobre o rio Salgado no localidade de Olho d’água(Aurora) depois da vila de Ingazeiras nas proximidades de Quimami a duas légua de Missão Velha.O Enigmático Incêndio da Ponte sobre o rio Salgado em Aurora:Há muita desinformação pertinente a este fato. No livro de Raul Fernandes ( a marcha de Lampião) por exemplo, narra que o incêndio foi obra de Lampião quando(provavelmente) da sua passagem pela proximidade com destina à Milagres e a Fazenda Piçarra e de lá para Serra de Santa Inês e Pernambuco. Outros diziam que o tal incêndio havia sido na ponte do jenipapeiro um pouco antes. Mas não. A ponte era maior: a do olho d’água. E mais: o incêndio foi obra não de Lampião, mas dos jagunços do coronel Izaías Arruda. Em retaliação a um histórico imbróglio deste com os engenheiros da RVC, depois que a ferrovia decidiu romper o contrato com Cel. Izaías sobre a compra de dormentes de madeira extraídos da sua propriedade em face do alto preço, cobrado acima do valor de mercado da época.
 
...Continua
 
José Cícero
Professor e pesquisador do cangaço.

Conselheiro Cariri Cangaço
Secretário de Cultura -Aurora – CE.

http://blogdaaurorajc.blogspot.com/

Uma modesta reflexão acerca da importância do Cariri Cangaço Por:José Cícero


Conselheiro José Cícero, Danielle e Severo

Quão lisonjeiro e gratificante é a doce experiência de se viver toda a emoção de, literalmente termos mergulhados no fundo da história destes sertões do mundo. Principalmente em meio a uma sensação de alegria e contentamento quase descomunal, numa sinergia coletiva entre aqueles que procuram o tempo todo viver e sentir os fatos históricos na sua compleição mais forte e verdadeira, quase como uma profissão de fé. Na sua grande maioria, pesquisadores, escritores e historiadores deveras apaixonados que são pela temática dos sertões e, em particular, do fenômeno do cangaço desde a sua gênese. Tendo como pano de fundo, o papel exercido pela ínclita figura de Virgulino Ferreira da Silva - O Lampião, rei do cangaço e os seus comandados, além de coronéis, beatos, jagunços, coiteiros e volantes.

Uma grande multidão de aficionados, dos mais diversos e distantes rincões do Nordeste(quando de outras partes do Brasil e do mundo ) reunidos em torno de um tema no mais das vezes, recorrente e por demais palpitante. Movidos todos eles, pelo combustível incontrolável da curiosidade, da leitura e da pesquisa como um farol sempre à serviço da verdade e da ciência social. Uma multidão de abnegados pesquisadores, cuja paixão pela história lampiônica é quase uma marca indelével, notadamente na visão dos que desejam sempre quere aprender um pouco mais.

Um considerável ingrediente que há muito tem fomentado a produção de conhecimento, chamando a sociedade(em especial a acadêmica) a pensar e se debruçar sobre toda uma série de questões a partir do enfoque do cangaço e seus desdobramentos. E, é bom que se diga que o Cariri Cangaço tem jogado um papel de destaque neste processo. Assim como outros eventos do mesmo naipe, que ora acontecem em outras paragens do Nordeste e pelo país afora.


Quem sabe, como uma profunda cicatriz deixada na própria pele(destes sertanejos curiosos), por espinhos de antigos mandacarus durante as inumeráveis andanças e incursões pelas inóspitas caatingas nordestinas. Uma declaração de guerra em favor do bem. O bom combate anunciado como que por meio de medievas trombetas sertanejas, sobre os chapadões destes grotões carirenses. Uma sensação de alegria sem tamanho, estampada nos olhos, bem como no peito de todos estes verdadeiros vaqueiros visionários de uma saga sem fim; chamada cangaço. Pulsão de quase morte a nos impulsionar às andanças e à pesquisa, buscando conhecer um pouco mais daquilo que de fato, aconteceu um dia neste sagrado chão e pelas bibocas desconhecidas de uma elite ainda hoje preconceituosa.

Sem dúvidas, num gesto da mais evidente ousadia dos que, ainda não se deram por satisfeito diante da mentira de uma história descrita e escrita pelos vencedores. E assim, decidem por si mesmos, ir além. Muito além da versão daquilo que há muito se convencionou a chamar de história oficial. Diante de todo este incomensurável contentamento e disposição para este mergulho profundo e perigoso na história, ficamos a nos perguntar: Que força e que energia (talvez sobrenatural) no impulsionam a esta grandiosa empreitada ? Que motivação será tão forte, ao ponto de fazer com que homens e mulheres das mais diferentes classes, profissões, idades, concepções, crenças e lócus geográficos; desconhecendo distâncias venham se compor como num verdadeiro exército de desbravadores pós-modernos ansiando ver de perto os nossos sertões hodiernos? A face cruel da história. Os resquícios do passado que sobreviveu a toda escuridão tenebrosa dos anos idos...

Que argamassa inquebrantável possui a fantástico história do cangaço ainda hoje, ao ponto de mexer o mais profundamente possível com todos nós pesquisadores e entusiastas desta temática ? Será que, como dizem os opositores, estamos implicitamente a enaltecer bandidos? Não. Isso não. O que estamos na verdade, ao meu juízo, é lançando um novo olhar justo, preciso e necessário sobre a fenomenologia dos acontecimentos que, por mais de cem anos, impregnou os sertões e a sua gente de grandes percalços, marcados pela miséria e pela injustiça de toda sorte.

Independente, portanto, de enxergarmos (por exemplo) Lampião, quer seja como herói ou como bandido – o cangaço por seu turno, como um fenômeno eminentemente social e político, deixou sua marca na historiografia de todo o interior nordestino. E, Virgulino Ferreira, o Lampião, quer queira ou quer não, foi o seu protagonista maior. De tal maneira que não poderá passar despercebido neste estudo de casos e acontecimentos. É fundamental que conheçamos nossa verdadeira história... Como de resto, é mister que se diga que, só após as estripulias de Lampião com seu bando, foi que o sertão ‘passou’ a ser visto de uma outra maneira pelos poderes do litoral. Contudo, parte daquela antiga realidade ainda persiste, vez que a ótica dos poderosos também permanece tal qual como no passado: míope, excludente, injusta, massacrante, discriminante e mentirosa.

José Cícero
Secretário de Cultura – Aurora/CE
Professor e Pesquisador do Cangaço
Conselheiro do Cariri Cangaço
Sócio do GECC

A verdade histórica Por: José Cícero

Mesa de Debates: Angico, SESC  Crato
A verdade histórica. O que é isso? Uma pequena reflexão sobre o Cariri Cangaço 2011

O conhecimento dos fatos históricos não é e, tampouco, pode ser em qualquer tempo privilégio de ‘seu ninguém’. Cada um quer seja pesquisador por vocação, hobby ou historiador por academicismo ou por cátedra, terá o direito sagrado de acreditar naquilo que bem entender. Contudo, a ciência está aí, gritando alto quase a romper os nossos tímpanos. Os fatos ainda rastejam (no caso do cangaço lampiônico) pelos sertões adentro, grávidos de verdades. A verdade às vezes salta aos nossos olhos em alguns momentos saturados pelo carvão do tempo. E muitos de nós, pobres mortais ficamos cegos diante dela pela enormidade da nossa arrogância...

Mas é imperioso que vejamos, igualmente, com o tato das mãos e a sensibilidade do coração o óbvio ululante, somado a uma dose considerável de experiência empírica e companheirismo como a argamassa necessária à corporificação da verdade que almejamos constatar. Posto que, pela história escrita nos transportamos muito além do tempo... Ainda, que tenhamos a capacidade de puder dividi-la com os outros. Por conseguinte é preciso que vasculhemos os pergaminhos dos que chegaram ao palco dos acontecimentos primeiros que nós. Que sejamos verdadeiros o suficiente. Os “ratos de biblioteca”, freqüentadores de sebos. Aperreadores dos amigos ante a sede de saber sempre mais. Que sejamos dados aos livros... ‘Livros à mão cheia...’ Que alimentemos a ousadia, tanto quanto a tenacidade no itinerário da busca cotidiana. Que sejamos capazes de cultivar a humildade como uma lanterna de popa que nos dará o rumo certeiro do caminho a ser seguido tal qual um Dom Quixote e seu Sancho Pança das bibocas do mundo.  

deputado Inácio de Loiola e José Cícero

Pois lá, no fundo escuro desta leitura, bem como nas informações do povo – principal protagonista desta saga -, é que jaz o ouro da verdade que buscamos a todo custo encontrar. A verdade que procuramos como o ‘elo perdido’ que nos falta para construirmos de uma vez por todas, os alicerces inquebrantáveis do edifício histórico a que nos propomos edificar em nome do passado, do presente e do futuro. E, digamos, que no estudo analítico e descritivo do cangaço nordestino não é lá muito diferente de outros fenômenos sociológicos ocorrido pelo Brasil e pelo Globo. Razão da nossa necessária modéstia e ponderabilidade na qualidade de estudiosos e observadores atentos da fenomenologia cangaceira.

Nós, os pesquisadores, o mínimo que podemos fazer é lançar um pouco mais de luz sobre os acontecimentos, e não nos arvorarmos como seus donos. Tudo com base no estudo, na análise, na comprarão e, sobretudo na pesquisa. Sem, contudo, perdermos de vista o foco central em nome de uma contraproducente posição de faraó – dono da verdade e porteiro-mor dos caminhos objetivos. Nunca é demais ressaltar que, ser inteligente é também ser simples e modesto. Todo o resto é falso e fisiológico.

Nada no estudo, quanto na pesquisa pode ser tão negativo e inaceitável quanto a demonstração da intolerância/arrogância. Por isso, é mister dizer que, qualquer arrogância é sempre pior do que a ignorância. Quem procura a verdade teve está preparado o tempo todo para as pequenas descobertas como a verdadeira pavimentação para o caminha das grandes conquistas. Aprender deve ser inapelavelmente a palavra de ordem. Mas, sobretudo saber dividi-las com seus companheiros de caminhada. Partícipes de uma mesma causa. Protagonistas de uma mesma causa. Assim como, dos que porventura estejam igualmente à margem do caminho. Pois ninguém jamais saberá o suficiente, ao ponto de querer se impor como o dono da verdade absoluta. O mundo, assim como a própria vida é, amiúde, uma sucessão de descobertas. Ninguém saberá tanto, quem não possa aprender com o mais humilde e incipiente dos aprendizes. Tudo na vida é inconcluso. Aprendemos quando ensinamos e dividimos o pouco que sabemos.

 Por mais que não aceitemos, toda verdade é dimensional e, por conseqüência tem seu quê de relativo. De forma que não podermos, por nenhuma razão, afastar ou mesmo querer desconsiderar o seu caráter subjetivo que se plasma segundo a contribuição e compreensão de cada um dos indivíduos envolvidos. A verdade em muitos casos, é filha do tempo e não da força ou da imposição descabida, como de quando em vez presenciamos por alguns pseudo-arautos da história ou vendilhões do templo. E digamos por fim, que nos estudos e nas pesquisas do cangaço lampiônico nada até agora foi diferente.

A ilusória ditadura do conhecimento é um câncer que destrói aos poucos a historiografia planetária e dos grotões dos esquecidos. Urge então, que nos afastemos dela enquanto há tempo. É urgente, portanto, que caiamos na real. Que todos aqueles que por algum motivo, ainda continuam se imaginando donos da verdade que se conscientize dos seus malefícios, enquanto processo de estudo e aprendizagem. É notório que isso não ajuda em nada quanto ao processo evolutivo do estudo do cangaço, por exemplo. A menos que não queiram o crescimento desta causa. A menos que não queiram que o domínio deste conhecimento histórico não venha se tornar um patrimônio do povo. A menos que continuem achando que o conhecimento da história, seja um monopólio como no passado de uns poucos. Que se ache um prodígio. Um supra-sumo da história. Um ser iluminado e insubstituível. Mas convenhamos. Isso não é certo. E nunca será.

Há que sejamos solitários com as massas. Com os que têm sede de conhecer a verdade sobre si mesmos e do solo em que nasceram. Há que distribuir com os outros os conhecimento que acumulamos durante a existência. Toda história verdadeira é um patrimônio da humanidade e, em especial, daqueles que a viveram a ferro e fogo. Toda história como uma construção social só teve pertencer aos seus próprios sujeitos. E com o cangaço nordestino nada disso pode ser diferente. Há que se ter uma visão holística também em relação a história e os seus desdobramentos...

Cultivemos além da solidariedade a humildade como uma das ferramentas fundamentais para a difusão do que foi de fato a temática do cangaço – o maior fenômeno social e político dos sertões nordestinos. Que possamos ter aprendido um mais pouco durante a terceira edição deste Cariri Cangaço. A certeza de termos coletivamente contribuídos para a história do Cariri em particular e do Nordeste em geral – só isso já será um grande feito. Algo digno de nota e elogio. E tudo isso é, deveras fruto de um esforço coletivo.

Como de resto, direi: quem quiser contestar, por exemplo, o que de fato aconteceu em Aurora. Isso é mais que louvável – é primordial, justo e necessário. Contudo, terá que no mínimo, ter lido algo pertinente ao que aqui aconteceu; estudado, pesquisado, escrito... E assim ter conseguido se despir de qualquer ranço de proprietário da verdade absoluta.

José Cícero
Secretário de Cultura de Aurora
Conselheiro do Cariri Cangaço
Aurora-CE
http://www.blogdaaurorajc.blogspot.com/

Cariri Cangaço, uma confraria de grandes amigos e irmãos Por:José Cícero

Danielle Esmeraldo e José Cícero

Foi um belo evento com um intenso sabor de saudade. Por assim dizer, fragmentos de uma magna camaradagem que durou praticamente uma semana inteira de andanças pelo solo sagrado do Cariri cearense. Passos na caatinga de cangaceiros e cangaceiras do conhecimento em busca quem sabe, do elo perdido na ânsia de lançar nova luz e novo olhar naquele que já se configura como o maior fenômeno sociológico dos sertões – o cangaço.

Uma confraria de grandes amigos e irmãos ligados fortemente como que pelos laços consangüíneos e inquebrantáveis de uma história que não quer calar, chamada cangaço e de uma saga apelidada de sertão. Uma luta sem fim. Um mergulho no universo quase indecifrável do oco do mundo. Protagonizada por uma incansável comitiva de entusiastas do conhecimento nordestino que visitara agora pela terceira vez(como se fosse a primeira) sete municípios caririenses(Crato, Barro, AURORA, Missão Velha, Barbalha, Porteiras e Juazeiro do Norte), numa série de seminários sobre os mais diversos temas sempre focados na temática sertaneja – tendo como pano de fundo, o cangaço nordestino, sob o título geral: da insurreição a sedição.

Um ciclo de debates e de palestras que muito ajudará aos caririenses a melhor compreender parte importante da sua história em particular e do Nordeste em geral. De modo que se tivéssemos como sintetizar o Cariri Cangaço 2011 numa única frase – esta seria inegavelmente: Empreitada de sucesso e entusiasmo!

Sem dúvida mais um evento primoroso, algo marcante para toda a região do Cariri coordenado magnificamente pelo seu curador – o inteligente e tenaz pesquisador do cangaço – Manoel Severo ao lado da sua esposa a competente secretária de cultura do ‘Cratinho de açúcar’ – Danielle Esmeraldo. Um acontecimento que, pela sua grandeza de objetivo sociocultural, artístico, histórico, científico e filosófico deveria despertar muito mais a opinião pública, os políticos, as universidades, o estudantes, os educandários, a imprensa e, notadamente, os que se dizem formadores de opinião de toda a região sul caririense.

Portanto, há que agradecermos como de resto, aos que tiveram esta visão um tanto pedagógica e decidiram apoiar o Cariri Cangaço que agora em sua 3ª edição, promoveu literalmente o reencontro do povo do Cariri e do Nordeste com sua própria história.

José Cícero
Secretário de Cultura de Aurora
pesquisador e escritor do Cangaço
Conselheiro do Cariri Cangaço