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Existia amor no Cangaço? Por:Pedro Luis

Pedro Luis Camelo

Acredito que o cangaço significava uma fuga, para os homens vários motivos foram expostos, mas basicamente restringiam-se a dois: vingança e ganância; da mesma forma representava uma alternativa à vida que se apresentava. Os cangaceiros eram admirados e temidos, não há como negar o imenso atrativo desta “progressão social” quase que imediata, passava-se do sertanejo preso ao patrão (ou condição de vida), ao conhecido e principalmente livre, homem “respeitado”. 

São palavras de Virgulino após a morte de seu pai: “minha casa agora será debaixo de meu chapéu”. Para as mulheres abria-se um novo mundo, uma saída diferente para o resto de seus dias, experiências novas, estariam livres da sina sertaneja de suas antepassadas (procriar, cuidar da cozinha e dos filhos), viveriam aventuras nunca imaginadas, amorosas inclusive. São experiências de vida, que só permitem uma avaliação após sua ocorrência. Todos viveram e pagaram sua conta, cada qual de uma forma, daí, em alguns casos poderia surgir o remorso na hora de prestar contas com as consequências de seus atos: o afastamento da terra natal, da família, dos laços afetivos/comunitários (que o digam Moreno e Durvinha), florescendo profundo sentimento de amargura e rancor em relação ao passado. 

Na minha opinião coexistiam: amor, ódio, medo, ganância, soberba, vingança, coragem, desprendimento, crueldade, alegria, tristeza, amargura, decepção, arrependimento, afinal, eram seres humanos...

Pedro Luís - Crato, CE
Diretor do GECC
Conselheiro Cariri Cangaço

Existia amor no Cangaço ? Por: Paulo Moura

Paulo Moura, Manoel Severo e Ângelo Osmiro

Esta intrigante frase, no meu entender, já por si só se responde. Escrevendo sobre um tema deste, me vem à memória frases de efeito que muita gente já leu por aí: 

Seria um: “Quem casa, quer casa”. Ou então: “Quem ama as rosas suporta os espinhos”, e  eu fico aqui a imaginar, será que era fácil se amar naqueles anos de chumbo, de fome, de seca, de correrias e de sofrimentos constantes? Debaixo de chuva, do sol escaldante, dormindo em cima de pedregulhos, sobressaltados, com medo! 

O sertanejo, devido ao tipo de vida que leva, diante da rusticidade do meio e das privações diárias é um ser que aprendeu a conviver com a falta de recursos e, conseqüentemente, com o sofrimento. Ainda temos a acrescentar que a rusticidade sertaneja está impregnada em seu ser. Herança de gente valente e guerreira. O amor que brota dele é natural. Ele ama o sertão amanhecendo, ele se emociona com a chuva que cai, com o sol se pondo e até mesmo com uma bela poesia. Mas a sua marca maior é aquela do ser rústico que deu-lhe a pecha de “Cabra Macho”.


imagem: cordelparaiba.blogspot.com

Daí eu fico a lembrar um verso lido por D. Helder Câmara, no CD Missa do Vaqueiro, do Quinteto Violado. Ele diz: “Vaqueiro meu irmão vaqueiro, pareces feito de pedra e no entanto tens voz e tens coração. Teu coração não anda se derramando, mas quando ama, ama!” Não quero afirmar aqui que um Canário de Adília a amava. Também não vou arriscar dizer que ele Não a amava. Pois eu não saberia dar a medida certa do amor que ela não recebeu. Acho que o que mais valia naquele tempo para um casal cangaceiro conviver dentro do mato era o companheirismo. A cumplicidade. Cumplicidade esta vista em Dadá de Corisco, em Maria de Lampião.  Essa era uma forma de amor. 


O amor de Durvinha por Virginio, como bem falou o João de Souza, que mesmo nos seus últimos dias de vida, casada com outro homem, jamais escondeu seu sentimento pelo primeiro companheiro. O amor do facínora Gato que, enlouquecido, entra na cidade de Piranhas para resgatar sua amada Inacinha das mãos da volante. Amor ou loucura? Então, neste interessantíssimo debate (EXISTIA AMOR NO CANGAÇO?) eu quero deixar minha humilde opinião, dizendo: Sim! Existe amor em TODO canto. Até mesmo no cangaço.

Paulo Moura, Poeta, Cordelista e Escritor
Sócio da SBEC

Existia amor no Cangaço ? Por:Juliana Ischiara

Juliana Ischiara

O fato de os cangaceiros não serem carinhosos com suas companheiras não é parâmetro para analisar se havia ou não afeto ou amor por parte deles. Sabemos que, àquela época, demonstração de afeto em público, como beijos e abraços, não era comum. As mulheres eram criadas para procriar, cuidar do marido e dos filhos. Já aos homens, cabia prover o sustento e o bem estar, cuidado e proteção da sua família.

Partindo desta premissa, não se podia esperar de um homem rude, marginalizado e vivendo sobre o jugo da violência, da brutalidade e da luta pela sobrevivência, que este agisse com urbanidade em tempo integral. Como disse João de Sousa Lima, os depoimentos de Adília e Sila, são impressões isoladas. O fato de Zé Sereno e Canário não serem “bons maridos”, não é suficiente para se generalizar que não havia afetividade dentro do cangaço. Sabemos que Maria Bonita*, embora vez por outra brigasse com Lampião,  chegava a gritar e a xingá-lo e, mesmo assim, ele não a agredia. Todos sabem do carinho que havia entre eles e, como citou João de Sousa, ainda temos casais como Durvinha e Virginio, Corisco  e Dadá. 

Maria e Virgulino, "amor" eternizado também na televisão...

Ainda temos o fato de Luiz Pedro, que depois da morte de sua companheira Nene, não voltou a se amasiar com outra mulher. Um outro caso é o de Pancada e sua companheira Maria, que mesmo sabendo das relações extraconjugais da companheira, não a matou, nem a deixou. Por fim, ainda temos o valente cangaceiro Gato, que morreu quando tentava salvar sua Inacinha, que havia sido capturada. Como vemos, havia muito mais demonstração de amor e afeto, que o contrário.

Que estas mulheres viviam em condições subumanas ninguém discorda. Muitas devem ter se arrependido de ter seguido o que, para elas, era uma possibilidade de liberdade, aventura e desejo de viver um grande amor, mesmo que bandido. Já as que foram seqüestradas, arrastadas, forçadas, algumas como Dadá, se adaptaram muito bem àquela vida e amavam seus companheiros. Outras tiveram a oportunidade de fugir e não o fizeram.

Em síntese, não se pode dizer que não havia amor no cangaço, pelo fato de um cangaceiro não ter beijado sua companheira ou ter sido agressivo com a mesma, haja visto que, ainda nos dias atuais, muitas mulheres se casam por amor e depois descobrem em seus maridos verdadeiros algozes. Milhares de mulheres são agredidas e têm suas vidas ceifadas por seus maridos que antes lhes pareciam príncipes encantados. Se, mesmo depois de toda a evolução socioeducacional e da ascensão do universo feminino, ainda foi necessário a criação de uma lei que a tutelasse da violência doméstica, imaginem há mais 70 anos atrás.

Juliana Ischiara
Diretora do GECC
Conselheira Cariri Cangaço

Existia amor no Cangaço ? Por: Maristela Mafuz

Maristela Mafuz e Alfredo Bonessi

Minha visão a respeito desse "amor no cangaço", baseia-se em grande parte, em conversas que tive com Sila e na observação de suas reações em dados momentos, coisas que pude ver durante o tempo que convivi com ela. As meninas, ao entrarem espontaneamente, tinham a visão romântica de que escapariam da submissão a que estavam destinadas e teriam uma vida de aventuras e liberdade. 
Essa ideia já fazia parte do imaginário na época.

Como a realidade se mostrou cruel e oposta aos sonhos, que opção restava a elas? Aprender a viver nessas condições. RESIGNAÇÃO é uma das palavras que define o comportamento adotado por elas. Obrigadas a aceitar o que não podia ser mudado, seguiram vivendo do único modo que lhes era possível. Amargando dores de todos os tipos, porém firmes, lutando junto àqueles homens que acompanhavam.

Apesar de tudo, esses eram os homens com quem podiam contar e que, de uma forma ou de outra, também as protegiam. Aí surge a CUMPLICIDADE, outra palavra que define o comportamento delas. O 'amor' nasceu desse misto de sentimentos contraditórios vividos por elas. Ódio pela agressão, reconhecimento pela proteção... E a contradição: “esse homem ora me agride, ora me defende...” O que isso representou na cabeça dessas mulheres? Quem pode dimensionar as cicatrizes psicológicas dessas meninas-mulheres?  A submissão e o medo imperavam. O que fazer, senão suportar aquilo, firme e quieta? (adiantaria gritar ou tentar fugir?) RESIGNAÇÃO + CUMPLICIDADE: Para mim esse foi o Amor que existiu no cangaço.

Maristela Mafuz
Laser Vídeo

Existia amor no cangaço? Por:Leandro Cardoso

Sousa Neto e Leandro Cardoso

Dois grandes marcos no cangaço de Lampião: a travessia do São Francisco para a Bahia, em 1928, modificando o palco das tropelias dos cangaceiros; e a entrada de Maria Bonita para o bando, como algo sem precedentes nas hostes dos grandes capitães-de-cangaço. No entanto, diferentemente do que muita gente pensa, a participação feminina está longe da passividade. O ingresso de Maria Bonita no bando foi a deixa para que outros cangaceiros trouxessem outras moças para o seio do grupo. Embora a grande maioria tenha ingressado por vontade própria e curiosidade de experimentar aquela vida de aventuras, algumas foram raptadas (como Dadá) e outras vendidas por parentes (como Dulce, de Criança).

É importante levar em conta que a mulher, para cair no cangaço, deixava para trás a intensa rigidez moral, sexual e de comportamento que lhe era imposta pela sociedade machista, para experimentar uma rara sensação de liberdade, ganhado a caatinga na garupa do companheiro. Nas vezes em que a entrevistei, Durvinha falava da opressão que sofria em casa antes de acompanhar Virgínio: intermináveis caminhadas com latas d’água na cabeça e a muda submissão ao pai e aos irmãos. Era a constante da subserviência velada nas casas e fazendas do sertão.



Por outro lado, a visão da aventura do cangaço se traduzia numa sensação de liberdade sem precedentes, qual um sonho medieval da donzela raptada pelos cavaleiros de lança, espada e armadura, de reinos longínquos, enfrentando tudo e todos pelo amor de sua donzela. Entretanto, grande também era a queda do cavalo, logo aos primeiros tiros, transformando o lindo sonho em real pesadelo. A vida no cangaço cobrava seu alto preço com sangue, e era embalada pelo choro triste dos familiares, que ficavam a amargar retaliações por parte da polícia, sob a angústia diária das notícias indesejáveis de filhas degoladas ou seviciadas pelas volantes.

Como falei no início, a participação feminina no cangaço está longe da passividade. A mulher, mesmo sem guerrear (exceção feita a Dadá), impôs sua presença no seio do bando, alterando inclusive a rotina dos grupos. 


Esquivo-me de falar aqui do enriquecimento visual pelo apuro da indumentária, para deter-me na violência. Vários autores sugerem que a presença feminina diminuiu a violência no cangaço. Ledo engano. A combatividade sim, a violência não. Esta sempre foi uma constante no modus operandi dos grupos e das volantes, que após 1930 ganha nova dimensão: o ataque às mulheres pela polícia e pelos próprios cangaceiros. As volantes proporcionaram cenas de extrema barbárie, como a exposição do cadáver de Nenê de Luis Pedro, nua, na localidade Mucambo, em Sergipe, inclusive estimulando cães de rua a simular sexo com o corpo. Os cangaceiros, sob o punho selvagem de Zé Baiano, ferrariam mulheres na “taba” do queixo e, por consórcio entre chefes de grupo, assassinariam a sorridente Cristina, ante o injustificável motivo de preservar a segurança coletiva. Não precisa dizer que Zé Baiano, aparentemente “apaixonado” por sua querida Lídia, a matou a pauladas.


Marca do flagelo de Zé Baiano

Afinal, Zé Baiano amava Lídia? Houve amor no cangaço? Vejamos algumas considerações a respeito:O amor não é um sentimento. É uma decisão. O que muitos tomam por Amor, na verdade é apenas paixão arrebatadora, que evanesce ao cabo de alguns meses sob qualquer contrariedade, ou mesmo amizade duradoura, que isoladamente, também não o é. Amor de verdade é outra coisa: tem base sólida, vem com o tempo. É quando os cônjuges resolvem colocar um coração pareado ao outro, condicionando sua felicidade à felicidade do outro. O Amor de verdade é maduro, não admite inconsequências e, para que exista, tem que ser pautado no perdão. Resumindo: o verdadeiro Amor somente aparece quando o perdão ocupa, incondicionalmente, o lugar da mágoa.

Voltando novamente os olhos para o cangaço, temos alguns exemplos que, talvez, preencham estes critérios: Lampião e Maria Bonita, Corisco e Dadá e Virgínio e Durvalina. Embora, tenha sido raptada e violentada por Corisco, Dadá deu provas de sua devoção ao Vingador de Lampião, mesmo após sua morte. Este foi o único casal (até onde se sabe) que casou durante a vida de estripulias (Zé de Julião e Enedina eram casados, mas já “caíram” no cangaço após o matrimônio). Se, como disse o velho Guimarães Rosa: “no viver tudo cabe”, temos a nítida impressão de que o cangaço foi palco de Amor, amores, paixões, companheirismo e amizade. Cabe a cada um, portanto, saber o peso que o coração lhe tem no peito.

Para encerrar: viva as mulheres sertanejas que, condenadas a envelhecer aos 30, se despojaram de suas latas d’água para, com os bornais cruzados ao peito, acompanharem seus companheiros. Muitas foram amadas, odiadas, fuziladas, decapitadas, mas quebraram tabus e ajudaram a virar a página da História, escrita com seu sangue, dos seus amores e da sua família dilacerada. Abraço a todos do Cariri Cangaço

Leandro Cardoso Fernandes
Médico, escritor
Sócio da SBEC

“A mulher tem na face dois brilhantes
Condutores fiéis do seu destino.
Quem não ama o sorriso feminino,
Desconhece a poesia de Cervantes.
A bravura dos grandes navegantes
Enfrentado a procela em seu furor,
Se não fosse a mulher, mimosa flor,
A História seria mentirosa.
Mulher nova, bonita e carinhosa
Faz o homem gemer sem sentir dor”.

Octacílio Batista.

Existia amor no Cangaço ? Por: Ângelo Osmiro

Ângelo Osmiro e Kiko Monteiro

Acredito sim que tenha havido amor no cangaço. Assim como Sila disse nunca ter amado seu companheiro Zé Sereno, Adília falava que não derramou uma lagrima sequer quando da morte de seu companheiro Canário, apesar de tê-lo acompanhado por livre e espontânea vontade, tendo inclusive declarado que o acompanharia até se ele fosse para o inferno. O que é isso senão paixão? Mesmo que de uma adolescente, depois transformada em rancor. Entretanto Dadá percorreu justamente o caminho inverso; foi seqüestrada, estuprada por Corisco, mas mesmo assim, com o tempo e a convivência passou a amar aquele homem, pelo menos era isso que ela declarava.

Durvinha mesmo tendo casado e vivido muitos anos na companhia de Moreno, declarava em alto e bom som que o amor de sua vida fora Virginio, seu primeiro companheiro no cangaço, seus próprios filhos tem conhecimento disso. Sem contar Maria de Déia, que deixou o marido, Zé de Nenen para acompanhar Lampião, segundo consta por livre e espontânea vontade, vindo a morrer junto com seu companheiro em julho de 1938 em Angico.

Obviamente o cangaço não era o local ideal para se viver um grande amor, entretanto acredito que apesar do sofrimento experimentado por aquelas pessoas, existia sim espaço para o amor, assim como também para o ódio e o rancor.   

Ângelo Osmiro.
Presidente do GECC, Sócio da SBEC
Conselheiro Cariri Cangaço

Existia amor no Cangaço ? Por: Eloisa Farias

Eloisa Farias e Manoel Severo, em visita do Cariri Cangaço ao MINC

Denis de Rougemon, na obra "A História do Amor no Ocidente", afirma que não amamos por felicidade e paz; amamos porque gostamos de sofrer. Além dessa descrição do que seria o amor, muitas outras são suscitadas quando questionamos "O que é o amor?". Bom, até hoje, depois de ter escutado tantas definições,ainda não sei dizer o que é o amor. Talvez seja esse expressado pelas mulheres do cangaço... 

Mas pode ser também aquele que sinto pelo meu marido. Ou será que é aquele que o torcedor sente pelo seu time do coração? Hummm... Acho que o amor é aquele que o fiel sente por sua religião. Se bem que aquele que o filho sente pelo pai também é amor. Depois de tantas nuances, continuo me perguntando "o que é o amor?"...  Só sei de uma coisa: trata-se de um sentimento multifacetado; uma methamorfose ambulante; um sentimento plástico, capaz de assumir inúmeras formas nas mais diversas situações. A História do amor certamente tem muita "história" pra contar!

Eloísa Farias
Brasília - DF


O Amor no Cangaço, uma breve ilusão Por:Jairo Luiz

Cacau, Manoel Severo e Jairo Luiz, em manhã de Cariri Cangaço

Durante estes muitos anos que venho acompanhando de perto a saga de homens e mulheres que enveredaram para o Cangaço ,sejam como cangaceiros, volantes ou coiteiros, cheguei a ouvir muitos relatos que me impressionaram; no entanto alguns marcaram para sempre e continuaram assim por toda minha vida. Dentre os relatos que mais deixaram-me  "curioso" foi o das mulheres que participaram do Cangaço e em especial os que tive oportunidade de ouvir de duas mulheres cangaceiras: Adília e Sila.

Quando perguntadas sobre seus companheiros a resposta praticamente era a mesma para as duas que viveram situações parecidas; o amor não existia e sim a admiração, o respeito e até mesmo a necessidade de sobrevivência. O grande poeta da minha geração, Renato Russo, em um das suas músicas diz: "O amor é bom, não quer o mal /Não sente inveja ou se envaidece/amor é o fogo que arde sem se ver/ É ferida que dói e não se sente/ É um contentamento descontente/ É dor que desatina sem doer." E o que vimos nessas mulheres foi muita mágoa, muito rancor e raiva, no entanto vemos admiração , respeito e medo;  perguntamos então a nós mesmo: Isso é AMOR ? 
Adília em entrevista, disse que havia prometido seguir Canário para onde ele fosse e Sila afirmou que NUNCA havia beijado Zé Sereno e não sentia nada por ele. Talvez, no modo de pensar delas isso seja amor , mas o amor verdadeiro mata, trai, maltrata  e deixa lembranças ruins para o resto da vida ? Creio que não ! As mulheres no Cangaço foram verdadeiras heroínas que souberam como ninguém sofrer, amar e principalmente abdicarem da família, dos amigos e de um futuro simples mas tranquilo.Mas essa renuncia  foi por amor ? Ou simplesmente por conveniência ou por medo ? Não podemos afirmar que todos casais do Cangaço não sentiram amor e não viveram esse amor, mas a história nos mostra que nem sempre o amor em sua forma plena esteve presente no Cangaço, portanto o amor no Cangaço pode ter acontecido mas precedido de muito rancor e mágoa e isso não é AMOR. 


Jairo Luiz Oliveira, turismólogo
Idealizador da Rota do Cangaço Xingó
Conselheiro Cariri Cangaço

Existia amor no Cangaço ? Por: Alcino Alves Costa

Alcino Alves Costa

Na verdade o viver cangaceiro, especialmente da mulher, seria mais correto dizer - da menina-moça – aquelas juvenis sertanejas, que num instante de total infelicidade deixou a sua humilde, porém aconchegante residência, abandonando seu lar, deixando seus pais na mais completa agonia e desespero, para seguir a triste vida bandoleira, todas elas inebriadas pela ilusão do cangaço, é um capítulo extraordinário na história cangaceira.

Por que a caboclinha dos cafundós das caatingas, sem nenhum traquejo e nenhuma experiência de vida, se bandeou para o cangaço? Qual foi essa ilusão? Segundo informações abalizadas e confiáveis de um dos grandes rastejadores de cangaceiros, o nosso Aderbal Nogueira, levado por suas diversas e proveitosas entrevistas, gravadas em vídeos, de um número elevado de cangaceiros e cangaceiras, elas atestam com convicção que essa decisão, segundo informes de Sila, Adília e Aristéia não significava a existência de amor entre os cangaceiros e suas parceiras e sim “A ILUSÃO DO CANGAÇO”. Respeito profundamente o trabalho meticuloso e confiável deste querido vaqueiro da história. Aderbal nasceu com o estigma da decência e da dignidade. No entanto, não concordo em nosso companheiro generalizar os casais cangaceiros afirmando que não existia amor entre o homem e a mulher que vivia a vida errante e sofredora do cangaço.

Adília e Sila, em plena caatinga

É certo que Adília dizia de seu sofrimento em relação ao seu viver ao lado de Canário, um homem, segundo as suas palavras, extremamente ciumento, tendo um ciúme doentio de Juriti, portanto a sua vida na companhia de Rocha se tornou um inferno. Mas, é bom que se esclareça que Adília era namorada de Canário bem antes dele ir ser cangaceiro e ela o acompanhou de sua livre e espontânea vontade. Qual o motivo de seu ingresso no cangaço? “ILUSÃO DO CANGAÇO” ou amor?

Quanto a Sila, uma mocinha admirada em Poço Redondo, tida e havida como a melhor dançarina nos bailes e forrós; vivendo na casa de seus padrinhos China e Mariêta, ao lado das filhas deste ilustre casal de Poço Redondo, Dosa e Tila, não tinha nenhuma necessidade de ir para o cangaço para ficar ao lado de Zé Sereno que nem sequer foi seu namorado. Zé Sereno não obrigou ela acompanhá-lo, ela foi porque quis e, esta sim, talvez, pela “ILUSÃO DO CANGAÇO”.

Estes exemplos não significam que não existia amor no cangaço. Existia sim senhor. Existia amor em sua maior profundidade. Eis alguns exemplos: No Congresso sobre o cangaço que aconteceu em Brasília em uma conversa que eu tive com Durvinha, e ela estava ao lado de Moreno, ela me disse toda emocionada que o homem da vida dela, aquele que realmente ela havia amado, teria sido Virgínio. Lembro-me que Moreno balançou a cabeça e disse: “Esse era um homi de verdade”.

Moreno e Durvinha

Em seus inúmeros depoimentos Dadá fazia questão de mostrar ao mundo o seu imenso amor por Corisco, apesar dela ter sido inicialmente estuprada por ele. Zé de Julião, o cangaceiro Cajazeira e sua bela Enedina sentiam um pelo outro um amor profundo. Rosinha, a companheira de Mariano amava loucamente o seu homem. Após a morte de seu companheiro no Cangaleixo, pela volante de Zé Rufino, Rosinha só tinha um desejo na vida: deixar o cangaço e retornar ao seio de sua família e receber o carinho e o amor de seus pais. No entanto, este desejo não foi alcançado em virtude de ter sido assassinada a mando de Lampião que não aceitava a saída de cangaceiro ou cangaceira de seu bando.

Luís Pedro e Neném se amavam profundamente. Após a morte de Neném na fazenda Mocambo, em Sergipe, o seu companheiro que tanto a amava caiu em um desespero total. Em que pese as loucas e ensandecidas versões dando conta de que Maria Bonita traía Lampião, a cristalina verdade era que Maria Bonita amava com todas as forças de seu sentimento o seu notável companheiro.

É evidente que com o passar dos dias, meses e anos, alguns casais, especialmente as mulheres deixaram de amar, ou talvez, desejar o seu homem e dominadas pela volúpia do sexo se apaixonaram e desejaram outros homens, caso de Lídia, a baianinha do Raso da Catarina, que se apaixonou pelo cangaceiro Bem-te-vi, tendo com ele vários encontros amorosos, até ser flagrada pelo “cabra” Coqueiro e assassinada a pauladas por Zé Baiano.

Inacinha

Maria de Pancada era uma mulher de desejos sexuais irrefreáveis, daquelas que um homem não conseguia saciá-la. Portanto, não estava no cangaço apenas pela “ILUSÃO DO CANGAÇO”, mas também para cumprir o seu desejo louco de fazer sexo. A cangaceira Lili também carregou em sua vida a sina do sexo. Após ser companheira de Lavandeira e de Mané Moreno, a caboclinha do Juá, lá na vastidão do Raso da Catarina, se acamaradou com o temido cangaceiro Moita Braba. Mesmo assim, sabendo que seu companheiro era portador de uma periculosidade extremada, Lili não temeu em coabitar com o cangaceiro Pó-Corante. Eis que um dia ao retornar de mais uma razia, ao chegar ao coito, Moita Braba encontrou a sua Lili nos braços de Pó-Corante. O desalmado cangaceiro não pestanejou, puxou sua arma e disparou vários tiros em sua infeliz e traidora companheira, matando-a instantaneamente.

A infidelidade dessas cangaceiras, incluindo também Cristina de Português, e talvez Dulce que traiu Criança após os dois deixarem o cangaço, não significa que não existisse amor entre as outras cangaceiras. Dentro de um universo de pouco mais, pouco menos de 30 mocinhas que seguiram os bandos cangaceiros, apenas essas citadas não respeitaram e traíram os seus companheiros. Todavia, não se tem nenhuma dúvida de que as mocinhas, quase que em sua totalidade, que se jogaram nos braços dos cangaceiros, elas foram por amor e continuaram amando os seus homens.       
Quem conhece a história desses casais que embelezaram e humanizaram o cangaço, tem que reconhecer que existia amor e muito amor na vida cangaceira.

Saudações cangaceiras,

Alcino Alves Costa, o Decano
O Caipira de Poço Redondo
Sócio da SBEC e Conselheiro Cariri Cangaço

Existia amor no Cangaço ? Por: João de Sousa Lima

Ex-Cangaceira Durvinha e João de Sousa Lima

Ouvindo uma das entrevistas da cangaceira Dadá realizada pelo escritor Antônio Amaury, a cangaceira fala sobre Corisco, do ódio que a princípio sentiu dele pelo estupro, porém diz que depois foi se enamorando do cangaceiro, do seu carinho para com ela, do seu tratamento cordial. Dadá foi aprendendo a conviver com o homem que no começo sentiu rancor e por ele depois se apaixonou, no depoimento ela diz que Corisco foi o grande amor dela, que ela mesmo estando casado com outro, sonhava sempre com o cangaceiro, nos sonhos sentia cheiro de flores, sonhava com os longos cachos dos cabelos do amado, Corisco deixou em seu coração um amor que jamais foi esquecido.

A cangaceira Durvinha foi apaixonada por Virgínio, com ele seguiu para o cangaço com a penas 15 anos de idade e viveu um grande amor. Durvinha morreu dizendo, mesmo estando na presença de seu companheiro moreno, que Virgínio foi um grande amor em sua vida. Quando estive com Durvinha pela primeira vez;  passei 30 dias a seu lado; convivi no seu dia a dia e pude confirmar que ela dedicou um grande amor a Virginio e por ele foi muita amada, ela me confidenciou também que sempre sonhava com o famoso cangaceiro.


Durvinha ao lado de seu grande amor: Virgínio

Em um depoimento deixado por Sila ela falou que nunca foi amada no cangaço, porém esse foi um depoimento isolado e os depoimentos isolados não dão créditos para afirmativas históricas que possam se pensar como definitivas,ou seja, não se pode mudar o curso da história apenas por um depoimento, ele tem que fazer parte do contexto, ser analisado, pensado, discutido, porém nunca tomado como um sentimento definitivo generalizando um fenômeno que foi tão diversificado e ao mesmo tempo tão distinto.

No cangaço houve amor sim e posso provar através dos inúmeros depoimentos que tenho gravados, palavras de mulheres que conviveram e viveram as dores e os amores do cangaço!!!


João de Sousa Lima
Paulo Afonso-BA
Sócio da SBEC, ALPA e UNEHSH
Conselheiro Cariri Cangaço

Existia amor no Cangaço ? Por:Aderbal Nogueira

Sila e Adília, com o grupo de Zé Sereno

Amigos, como sabem, o tema de nossa última reunião do Cariri Cangaço - GECC, aqui em Fortaleza foi "Sila". Pois bem, venho agora trazer um pequeno fragmento de alguns depoimentos que tem muito a ver com o que discutimos, bem como com minhas palavras sobre "A ILUSÃO DO CANGAÇO". Prestem bem atenção aos detalhes do que é dito nesses depoimentos. Quando falo que não existia amor no cangaço, é por causa do que ouvi.  Aí estão algumas provas.

Vejam como Adília se apresenta quando foi se entregar à polícia. Reparem no semblante de Sila enquanto Adília está narrando sua história. Escutem bem o que ambas falam de seus companheiros. Notem os detalhes do que Sila diz lá na grota de Angico sobre o tempo que durou o tiroteio. Será que isso é coisa de quem mente ? Vejam o depoimento de Candeeiro nos detalhes. Por que será que Aristéia reagiu dessa forma quando soube da morte de Lampião ?

Ex-cangaceira Aristéa; ainda viva, morando em Delmiro Gouveia

Concordo que as mulheres não tiveram papel importante na história do cangaço, mas Sila estava presente em um dos combates mais importantes de Lampião, pois afinal foi lá que o grande chefe morreu. O que dizer do programa da TV Bandeirantes, gravado se não me falha a memória, em 2001, corroborando com o que o Prof. Frederico explicou há pouco tempo, sobre a origem do apelido de Maria Bonita?

Por favor, desculpem as falhas nesse vídeo. Durante algumas das gravações tivemos problemas de muita chuva e falta de energia elétrica, também não tive tempo de consertar algumas coisas, vale mais pelo registro das palavras. Nos próximos dias passarei para o blog o debate de nossa reunião, na íntegra que, por sinal, foi muito bom, e esperamos que os próximos sejam melhores ainda. Quanto mais discutirmos, mais aprenderemos.

Acompanhem o Vídeo na Postagem logo a seguir:

Aderbal Nogueira
Sócio da SBEC, Diretor do GECC
Conselheiro Cariri Cangaço