O Massacre Indígena da Serra da Canabravinha Por: Herlon Fernandes

Serra da Canabravinha

De qualquer ponto da Brejo Santo, no Ceará, observa-se, a leste, as imensas serras da Canabravinha e do Poço, como um gigantesco cágado - casco e cabeça, por trás de onde o sol nasce, trazendo os primeiros raios de sol para as planícies alagadas. 

Região remota e envolta em mistérios, a Serra da Canabravinha é um local marcado por histórias que transitam entre o real e o lendário. O relevo acidentado, coberto por uma vegetação densa e cortado por trilhas sinuosas, abriga segredos há muito esquecidos. Seus caminhos foram percorridos por tropeiros, fugitivos e aventureiros, todos em busca de um destino que, muitas vezes, se perdia na imensidão da paisagem.

A vegetação típica da caatinga, com suas canabravas esguias e resistentes, empresta seu nome ao lugar. A flora e a fauna da região resistem bravamente ao tempo e às transformações impostas pelo homem. Há quem acredite que a serra esconde grutas e cavernas onde foram guardados segredos dos tempos coloniais, talvez até mesmo tesouros que nunca foram encontrados.

Nas noites de lua cheia, dizem os mais antigos que é possível ouvir ecos de vozes vindas das profundezas da serra. Alguns juram serem espíritos errantes dos Calangros e Quirinos, bandidos cangaceiros que fizeram fama ali, durante o Império. A verdade, essa senhora virtuosa, se esconde nas brumas que pairam sobre aquelas montanhas ao amanhecer.

Entre os relatos populares, destaca-se a história de um grupo de vaqueiros que teria desaparecido ao tentar atravessar a serra em busca de reses desgarradas. Seus cavalos foram encontrados dias depois, exaustos e sem sinais do dono.

Nesse tempo, diversos grupos indígenas habitavam o sertão nordestino. Entre eles, os índios Kariri e os Tarairiú (ou Tarairiús). Os Tarairiú, em particular, eram compostos por várias tribos nômades conhecidas por sua resistência à colonização e por práticas culturais que, aos olhos dos colonizadores, eram consideradas violentas. Relatos históricos mencionam que algumas dessas tribos praticavam o canibalismo ritualístico, o que contribuiu para sua reputação de ferocidade.​

Acredita-se que esses indígenas viviam isolados do restante do mundo e realizavam rituais macabros, caçando e devorando aqueles que ousavam invadir seu território. Exploradores e caçadores que se aventuraram por essas terras juram ter encontrado vestígios de fogueiras rodeadas por ossadas humanas e símbolos desconhecidos esculpidos nas pedras.

Dança dos Tarairiú, por Albert Eckhout (séc. XVII)

ouve, portanto, um tempo em que a Serra da Canabravinha escondia mais do que seus segredos geológicos e suas formações rochosas misteriosas. Entre suas fendas e veredas, histórias de sangue e resistência estão gravadas no solo seco e castigado pelo sol inclemente. 

O padre João Alboíno Pequeno que andara por aquelas bandas de Brejo Santo, abrigando-se sob o pseudônimo de Abelardo Parreira reuniu diversas histórias sobre esse tempo, intitulando o livro de Sertanejos e Cangaceiros. Nele, há o registro de um dos mais violentos confrontos entre brancos e indígenas naquela terra de extremos.

Tudo começou com o desaparecimento de alguns vaqueiros, fiéis servidores do temido coronel Manoel Gomes Pereira. No distante ano de 1833, os homens sumiram sem deixar rastros enquanto tocavam o gado pelas encostas da serra. As suspeitas recaíram de imediato sobre os Tarairiú, os donos primordiais daquelas terras, cuja fama os precedia: eram bravos, ferozes e, segundo os relatos de viajantes amedrontados, praticavam ritos de antropofagia. O desaparecimento dos vaqueiros foi o estopim de um conflito que já fervilhava.

Sertanejos e Cangaceiros - Abelardo Parreira - 2ª Edição.
Organização: Adriano de Carvalho Duarte

O coronel, homem forjado no calor do sertão e no gosto pelo domínio, não tardou em agir. Reuniu uma bandeira de homens, sertanejos calejados e pistoleiros de confiança, armados até os dentes com seus bacamartes, facões afiados e pólvora suficiente para uma guerra. O objetivo era claro: varrer os Tarairiú da face da terra.

A batalha se deu entre os recortes pedregosos da serra, onde o eco dos estampidos misturava-se aos gritos de dor e fúria. Os indígenas, mesmo em desvantagem numérica e bélica, não cederam sem resistência. Vinham das sombras, rápidos como o vento que cortava as grotas, disparando suas flechas certeiras e envenenadas, manejando zarabatanas que lançavam dardos silenciosos, letais. De corpos pintados para a guerra, olhos flamejantes e lanças afiadas, embrenhavam-se entre a vegetação, aparecendo e desaparecendo como fantasmas da terra.

Do outro lado, os homens do coronel disparavam sem hesitação, cada tiro um trovão no meio da serra, cada chumbo ceifando vidas indígenas. O chão, antes seco, agora bebia o sangue dos combatentes, formando poças escarlates entre as pedras e os galhos quebrados. O ar cheirava a pólvora e carne queimada.

A luta se arrastou por dias, o massacre desenhando-se inevitável. Por mais que resistissem, os Tarairiú foram sendo abatidos um a um, até que, enfim, restavam apenas corpos espalhados pelo campo de batalha. Desde o ancião pajé até a mais tenra criança. O derradeiro golpe da guerra foi impiedoso: um extermínio, uma chacina. Quando o silêncio enfim se fez, o vento soprou pelas fendas da serra como um lamento de almas inquietas.

O coronel Manoel Gomes Pereira sobreviveu por um fio. Durante o combate, uma flecha atravessou-lhe o tronco, deixando-o à beira da morte. Diz-se que o ferimento o acompanhou pelo resto da vida, como uma lembrança indelével da carnificina que ele mesmo orquestrara. Mas ele viveria, para contar a história a seu modo, a dos vencedores, enquanto os Tarairiú, vencidos, tinham sua história dissolvida na poeira do tempo e no esquecimento cruel do sertão.

Hérlon Fernandes Gomes

Brejo Santo-CE, 19 de Março de 2025.

Fonte:https: amunganga.blogspot.com


O Sertão e seus Mestres Por:Gilmar Teixeira


O Sertão tem seus mestres, guardiões de memórias, aqueles que, com paciência e paixão, recolhem os fios do passado e tecem a história de um povo. Nivaldo Alves de Carvalho é um desses homens raros, que vive entre o presente e o passado, entre os campos da pecuária e os pergaminhos da genealogia, entre o que foi e o que ainda pode ser preservado.

Nascido na antiga casa da Fazenda Água Branca, em Floresta – hoje Carnaubeira da Penha –, o destino de Nivaldo parecia já estar escrito nas terras que o viram crescer. Filho de Rosa Maria de Carvalho e de Alcides Alves de Carvalho Barros, e neto do major Tiburtino Alves de Carvalho Barros, herdou o amor pela terra, pelo gado e pelas histórias que moldam o Sertão do Pajeú. Ali, onde os ecos do passado ainda ressoam, Lampião e seus cangaceiros passaram, feridos, sendo cuidados por seu pai Alcides, numa das tantas passagens que unem sua família à própria história do Nordeste.

Pecuarista de alma e coração, Nivaldo não se contentou apenas em criar caprinos e bovinos com a maestria dos grandes homens do campo. Também foi bancário, servindo no Banco do Estado de Pernambuco, mas seu espírito inquieto sempre o levou a algo maior: a busca pelas raízes. Tornou-se genealogista e memorialista, reconhecido como um dos maiores – se não o maior – da história sertaneja. Cada nome, cada família, cada entrelaçamento de linhagens passava por suas mãos cuidadosas, ajudando a construir a identidade de um povo.

Foi consultor de inúmeros livros escritos por florestanos, um verdadeiro guardião dos relatos e das histórias que o tempo tenta apagar. Além disso, esteve entre os precursores do movimento indigenista no Sertão do Pajeú, sempre atento à preservação da cultura e das tradições de um povo que, muitas vezes, vive à margem da própria história.

Hoje, aposentado, mas longe da inatividade, Nivaldo continua sua missão de preservação. Sua fazenda, onde construiu uma nova casa ao lado de sua esposa Amália Adalia Barros, tornou-se um verdadeiro santuário da caatinga, onde a vegetação nativa e os animais sertanejos encontram refúgio. Enquanto seus filhos, Dênis Carvalho e Ariádne Carvalho seguem seus próprios caminhos, ele mantém viva a essência do Sertão, seja na lida com os animais, seja nas páginas que escreve e nos relatos que compartilha.

Membro da ABRAES, a Academia Brasileira de Letras e Estudos do Sertão Nordestino, Nivaldo não é apenas um pesquisador. Ele é um elo vivo entre o passado e o futuro, um contador de histórias que não deixa o Sertão ser esquecido, um homem cuja vida é um tributo à terra que o formou. E assim segue Nivaldo, entre os livros e o gado, entre as lembranças e a lida, mantendo vivo o Sertão naquilo que ele tem de mais valioso: sua história.

* Gilmar Teixeira, Conselheiro Cariri Cangaço

Água Branca, uma Pérola em Terras Alagoanas, casa do Cariri Cangaço

O estado das Alagoas guarda em seu território; desde o litoral passando por suas serras e a brava caatinga; cenários espetaculares, cheio de beleza, história e tradição, O Cariri Cangaço possui com Água Branca uma relação de muita proximidade, aqui já realizamos dois grandes eventos; 2016 e 2017;  reunindo mais de 250 pesquisadores de todo o país. Neste último mês de fevereiro de 2025 mais uma vez o Cariri Cangaço esteve em Água Branca, no radar; rever e visitar os muitos amigos e preparar mais uma agenda do Cariri Cangaço; Água Branca 2026.

O mais destacado cenário de Água Branca, considerando a historiografia do cangaço, sem dúvidas é o Casarão da Baronesa de Água Branca, Joana Sandes,  esposa do Barão de Água Branca, Joaquim Siqueira Torres. O ano era 1922 e aqui veio a acontecer o primeiro assalto de vulto perpetrado por Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião, investido na condição de chefe de bando pela primeira vez, quando assumiu o bando de Sinho Pereira.

Casarão da Baronesa de Água Branca
Manoel Severo e Tailene Nogueira Barros
A arquitetura e os detalhes do belo casarão do século XIX chegam a impressionar por sua beleza e grande significado histórico, ainda é possível identificar marcas de balas possivelmente daquele junho de 1922. A mobília de época nos transporta para o cotidiano de uma das mais tradicionais e influentes família do sertão de Alagoas. 

"A baronesa de Água Branca, dona Joana Vieira Sandes, era viúva do Barão de Água Branca;  Joaquim Antônio de Siqueira Torres; e já contava mais de 90 anos quando sua residência foi invadida e assaltada por Lampião e seu bando, nesse que é contado em prosa e verso, como o primeiro ato do Rei do Cangaço, como chefe efetivo de um bando. Era o mês de Junho de 1922. Por muito tempo as joias roubadas da Baronesa de Água Branca, ornaram a figura da rainha do Cangaço, Maria Bonita. Joana Vieira Sandes nasceu em Água Branca no dia 30 de dezembro de 1830 e morreu no dia 27 de dezembro de 1923, com 93 anos de idade."


Em Água Branca realizamos nos anos de 2016 e 2017, dois grandes eventos que sob o comando e coordenação de nosso Conselheiro Cariri Cangaço, in memorian, professor Edvaldo Feitosa, tivemos oportunidade de pela primeira vez adentrar nas dependências da Casa da Baronesa de Água Branca, concessão de familiares e herdeiros, como também realizar de maneira inédita uma visita à fazenda Cobra, do lendário coronel Ulysses Luna.

Homenagem do Cariri Cangaço ao nosso Conselheiro Edvaldo Feitosa, que nos deixou no ultimo mês de dezembro do ano de 2024. Na foto, do ano de 2017, ao lado de sua querida esposa professora Zilda.

Horlandinho de Neuza, Manoel Severo e Zé Carlos Carvalho

Por ocasião de nossa visita neste fevereiro de 2025, estivemos com  o ex-prefeito Zé Carlos Carvalho, nosso anfitrião em uma de nossas edições como também  com  o atual vice-prefeito, Horlandinho de Neuza, quando começamos a construir as possibilidades para realização no ano de 2026 a da terceira edição do Cariri Cangaço em Água Branca.

"Voltar a Água Branca é uma verdadeira imposição, pela imensa gratidão que temos por essa terra, por seu povo e principalmente pela memória, lembrança e legado de nosso inesquecível Conselheiro Cariri Cangaço, professor Edvaldo Feitosa. Sem dúvidas ja começamos a construir a possibilidade de mais uma edição do Cariri Cangaço em Água Branca e assim resgatar todas essas lembranças" ressalta Manoel Severo, curador do Cariri Cangaço.

Água Branca localiza-se no oeste alagoano, fica a 305 km da capital Maceió
Tailene Nogueira Barros e Manoel Severo
Manoel Severo
Tailene Nogueira Barros

"Joaquim Antônio de Siqueira Torres, filho do capitão Teotônio e de Gertrudes Maria da Trindade, nasceu em 8 de setembro de 1808 vindo a falecer em 29 de janeiro de 1888. Nobre proprietário rural do sertão alagoano, recebeu a comenda da Ordem de São Gregório Magno, pelo Papa Leão XIII por ter patrocinado a construção da belíssima Matriz de Água Branca. Por concessão de Dom Pedro II, recebeu o Título de Barão de Água Branca por Decreto Imperial em 15 de novembro de 1879.

Joaquim Antônio de Siqueira Torres, Barão de Água Branca

"No segundo casamento, com sua cunhada Joana Vieira Sandes — irmã mais nova de Joaquina —, tiveram os seguintes filhos: Misseno de Siqueira Torres; padre Cícero Joaquim de Siqueira Torres; juiz de direito Miguel Arcanjo de Siqueira Torres; Manuel Vieira de Siqueira Torres; engenheiro geografo, deputado e senador estadual Antônio Vieira de Siqueira Torres; capitão da guarda nacional Alexandre Vieira de Siqueira Torres; engenheiro Luiz Vieira de Siqueira Torres, que também foi senador federal e vice-governador do estado de Alagoas; Brandina Vieira de Siqueira Torres; Manoel Antônio Firmino de Godoy e Cecilia DouradoUma das maiores realizações de Joaquim Antônio de Siqueira Torres foi a construção da Igreja Matriz de Água Branca. Avalia-se que gastou parte considerável de sua fortuna para erguer um dos mais belos templos do país. Esse desprendimento foi reconhecido pelo imperador D. Pedro II, que lhe concedeu, pelo Decreto Imperial de 15 de novembro de 1879, o título de barão, e do Papa Leão XIII recebeu a comenda da Ordem de São Gregório Magno."

2016 o Cariri Cangaço invade pela primeira vez Água Branca


2017 o consolidação de um grande encontro


Cariri Cangaço, Território de Grandes Encontros.

Visita do Cariri Cangaço
a Água Branca - Alagoas
13 de fevereiro de 2025

Cariri Cangaço: Uma Jornada pelo Sertão da Memória Por: Gilmar Teixeira

O sol desponta no horizonte sertanejo, e mais um Cariri Cangaço se anuncia. Desde a primeira vez em que coloquei os pés nesse grande encontro, criado e idealizado pelo mestre Manoel Severo,  e guiado pelas mãos do amigo e escritor, João de Sousa Lima, soube que não seria apenas mais um evento – seria um chamado, um reencontro com a alma Nordestina. Já se vão 15 anos dessa caminhada, atravessando sete estados e mais de 30 cidades, onde cada pedra, cada vereda, cada história contada em prosa e verso nos faz sentir o pulsar do sertão. Do começo em Juazeiro do Norte, Crato e Barbalha, cariri Cearense ao litoral nordestino, passando por recantos que respiram história, seguimos desvendando os rastros de cangaceiros, beatos e coronéis. No palco do Cariri Cangaço, ecoam os nomes que moldaram nosso destino: Padre Cícero, Lampião e Maria Bonita, Antônio Conselheiro, Padre Ibiapina e os temidos coronéis que impuseram suas vontades sobre o povo sofrido do sertão. De Delmiro Gouveia a João de Sá, de Nazaré e Floresta às terras de bravos soldados  volantes, a Glória e Paulo Afonso, na Bahia, onde Maria Bonita e mais 40 cangaceiros, nasceram para entrar na história, cada local guarda suas marcas e mistérios.

Nosso trajeto nos leva a Piranhas, onde João Bezerra escreveu o último capítulo da saga de Lampião. Em Poço Redondo, território de cangaceiros e cangaceiras,  do saudoso Alcino Costa, pisamos a Grota de Angico e sentimos no vento a presença daqueles que ali tombaram. Entre palestras, debates e lançamentos de livros, o Cariri Cangaço mantém viva a chama de um tempo que nunca se apaga. Mas não é só de história que se faz essa jornada. São as amizades que se constroem a cada encontro, os laços que se fortalecem entre uma palestra e outra, entre um verso declamado e uma piada solta no ar. Ivanildo Silveira, com sua irreverência, Jadilson e suas canções, Aderbal Nogueira registrando tudo com sua lente atenta, Luiz Ferraz e Clénio com seus causos inesquecíveis, e tantos outros que fazem desse evento um verdadeiro lar sertanejo.

Lembramos dos companheiros que tornam essa estrada ainda mais rica: Dr. Leandro Cardoso, que cuida dos nossos corações, Padre Agostinho e Bispo André, que nos ensinam a rezar e orar, Coronel Marins, sempre pronto a nos proteger, e a turma de Senhor do Bonfim, trazida no laço por Odilon Neto. Cada um, à sua maneira, é peça fundamental desse grande mosaico cultural. Sem esquecer os livreiros, que nos abastece de informações, Professor Pereira,  Professor Adriano e Zé Carlos CRB, pessoas importantes na formação de saberes e de novos talentos literários que enriquece nossas cabeças, com novas informações, da memória e da história nordestina. Também lembrando dos que nos deixaram tão cedo, como Alcino Costa, Antônio Amaury, Sabino Basseti, João Bezerra, Paulo Gastão,  Narciso Dias, Voldi Ribeiro, Paulo Brito, que deixaram não só saudades, mas um legado de história e dedicação a memória do povo nordestino. 

Ah sem esquecer as mulheres que embelezam o evento com suas presenças, e conhecimentos sobre todos os temas ali retratados, Luma HolIanda, Célia Maria, Sulamita, Elane Marques, Aninha, Fabiana Agra, Catarina Venâncio, Diana Rodrigues, Angela, Rosane Ferraz, e tantas outras Marias, que com  suas presenças engrandece o nosso Cariri Cangaço.  E entre todas essas letras, siglas, entidades e instituições que se unem para preservar a memória do sertão, ALPA com seu presidente Isaac de Oliveira,  ABRAES, na presidência o escritor e pesquisador, Leonardo Gominho, ABLAC, com Archimedes Marques,  delegado, escritor, no seu  comando, GEC, com o ilustre Ângelo Osmiro, no leme, GECAPE, com o pesquisador incansável, Westerland Leite, GPEC, o escritor paraibano, Bismarck Martins é o seu presidente, e o SBEC tem no seu comando o professor Lemuel Rodrigues, e entre outras tantas instituições, estamos nós: eu, Gilmar Teixeira, e minhas irmãs, Lúcia e Leide, que só faltamos quando a saúde nos impede – ou quando o bolso não colabora!

O Cariri Cangaço é mais que um evento. É um compromisso com a história, um reencontro com a identidade do povo nordestino. E enquanto houver estrada, sol a pino e poeira levantando sob nossos passos, estaremos lá, mantendo viva a memória do nosso sertão.

* Gilmar Teixeira , Conselheiro Cariri Cangaço

Há 103 anos a Comemoração do Primeiro Centenário da Revolução Pernambucana Por: Valdir Nogueira

Capa do Livro: O Brazil Heróico em 1817, de Alipio Bandeira, 1918, Imprensa Nacional Rio de Janeiro, com 329 páginas. Importante obra sobre a Revolução Pernambucana, com resumo histórico, seus heróis e lista de mártires.

“6 de Março de 1817 – O feito glorioso que a data de hoje relembra, ora comemorado neste município de Belmonte, que muito se ufana de estar inserido neste Estado, se reveste como uma das efemérides de mais conteúdo e grandeza nas lutas pernambucanas na defesa dos nobres ideais libertários.”

Com estas palavras, o reverendo de Belmonte o padre Joaquim de Alencar Peixoto iniciou o seu discurso na solenidade que o município promoveu na noite do dia 6 de março de 1917, para comemorar a magna data. Nas suas palavras o padre brilhantemente exaltou o valor dos pernambucanos que sonharam com a democracia antes da nossa independência política, fato que determinou a acertada escolha do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano para dissertar sobre essa brilhante página de nossa História.

 Dr. Felisberto dos Santos Pereira, juiz municipal do Termo de Belmonte, encabeçou a Comissão responsável pela realização das comemorações do Primeiro Centenário da Revolução Pernambucana de 1817, no município belmontense.

Para a realização da comemoração do Primeiro Centenário da Revolução de 1817, em Belmonte foi organizada uma comissão, composta do Dr. Felisberto dos Santos Pereira, juiz municipal; do padre Joaquim de Alencar Peixoto, vigário da Freguesia de Belmonte, e do coronel José de Carvalho e Sá Moraes, prefeito local. A solene data, tão bem registrada nos anais da história belmontense, foi publicada no Diário de Pernambuco – Quarta-feira, 19 de abril de 1917, pág. 2:
“As 19 horas do dia 6 de março no edifício do governo municipal desta cidade, realizou-se com grande imponência a sessão magna comemorativa do Primeiro Centenário da Revolução Pernambucana de 1817. O Paço do Conselho Municipal apresentava caprichosa ornamentação com artísticos bouquets nos belos jarros sobre a mesa da presidência, e da tribuna, destinada aos oradores. Grande multidão composta do que a sociedade belmontense tem de mais seleto encheu literalmente a ampla sala do Conselho Municipal, onde uma organizada orquestra dava a nota de destaque executando maviosos trechos musicais à chegada dos convidados.

Padre Joaquim de Alencar Peixoto, vigário da Paróquia de Belmonte, integrante da comissão formada para realização das comemorações ao Primeiro Centenário da Revolução Pernambucana de 1817, no município belmontense
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A sessão foi presidida pelo Dr. Felisberto dos Santos Pereira, juiz municipal deste termo, ladeado pelo reverendíssimo padre Joaquim de Alencar Peixoto, orador oficial, e pelo senhor José Ribeiro Viana, que serviu de secretário.

Ao abrir a sessão, o Dr. Felisberto Pereira pronunciou um ligeiro discurso abrindo a solenidade sobre a “Data Magna” da nossa história pátria, e congratulou-se com os belmontenses pelo magnífico benefício que doravante iam eles usufruir, com a fundação naquela data, de mais uma escola, com a denominação de “ESCOLA BARROS LIMA”, em homenagem a um dos mártires da Revolução Pernambucana de 1817, ficando assim satisfeitos os desejos do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano, cuja ação fecunda o orador enalteceu.

Em seguida obteve a palavra o reverendíssimo padre Joaquim de Alencar Peixoto, vigário desta Paróquia e orador oficial da festividade. Falar no resumido espaço deste relato sobre a ardorosa oração cívica do talentoso sacerdote é tarefa difícil de desempenhar. Sua reverendíssima empolgou o auditório por espaço de meia hora, e tal era o fulgor das suas mensagens, tal o entusiasmo patriótico que imprimiu as suas rutilantes frases, que toda a numerosa assistência ali presente, vibrou. Ruidosas palmas saudaram as últimas palavras do orador que terminou rendendo aos mártires de 1817, as homenagens sinceras de patriotismo de quantos ali se congregavam para cultivar-lhes a imperecível memória.

Prefeito de Belmonte, Coronel José de Carvalho e Sá Moraes, integrante da comissão formada para realização das comemorações ao Primeiro Centenário da Revolução Pernambucana de 1817, no município belmontense.

Seguiram-se com a palavra os seguintes oradores: Waldemiro de Araújo Lima, representando o “Externato Belmontense”; dona Josefa do Amaral Martins, pela Escola do sexo feminino desta cidade; Juvenal Ferreira, pelos filhos do povo, para quem era criada naquela data a “ESCOLA BARROS LIMA”; José Alencar de Carvalho Pires, em seu nome individual; Edson Macêdo, recitando a poesia de Manuel Duarte – “A Bandeira”, e Napoleão Ferraz, recitando o Hino da Proclamação da República, letra de Medeiros e Albuquerque. Todos os oradores foram freneticamente aplaudidos. Em seguida o Dr. Presidente declarou instalada a Escola primária “ESCOLA BARROS LIMA”, numa das dependências do Conselho Municipal e da qual ficaram encarregados os hábeis moços, José Ribeiro Viana e João Batista Fructuoso de Pádua. A nova escola que é noturna, para facilitar a freqüência das crianças pobres, que passam o dia em outros misteres, será custeada pelo município e pela população.
Encerrada a sessão entre as mais vivas manifestações de entusiasmo pela comissão respectiva, foi passado um extenso telegrama ao Dr. 1º Secretário do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano, relativo a festa cívica, ora realizada em Belmonte:
“Perante numerosa seleta assistência, entre sinceras evidentes manifestações patriotismo, realizou-se Conselho Municipal Belmonte Sessão Cívica comemorativa Primeiro Centenário Revolução Pernambucana 1817, marco glorioso nossa emancipação política. Fundada escola primária “BARROS LIMA”, satisfazendo assim nobre desejo desse Instituto.
- Felisberto dos Santos Pereira, juiz municipal;
- Padre Joaquim de Alencar Peixoto, vigário;
- José de Carvalho e Sá Moraes prefeito.”
A Revolução Pernambucana de 1817 foi o culminar da fermentação das ideias de autonomia em relação ao governo português que, originando-se na então Capitania de Pernambuco, irradiou-se por várias capitanias do nordeste do país e instalou setenta e três dias de governo republicano em pleno reinado de D. João VI. Elencada na historiografia como antecedente da Independência do Brasil, é celebrada como o único movimento que afrontou com êxito a Coroa Portuguesa em toda sua longa história. O dia 6 de março, data do início da Revolução, é a data magna do estado de Pernambuco, cuja bandeira é inspirada na do movimento.

O nome de um dos heróis da Revolução de 1817 foi dado cem anos depois a uma escola primária de Belmonte: ESCOLA BARROS LIMA, homenageando José de Barros Lima, militar nascido em recife por volta do século XVIII e que também foi capitão do Exército, sendo preso pelo brigadeiro Manuel Joaquim Barbosa de Castro, por apoiar à causa republicana. Ignorando a ordem de prisão, sacou a espada e matou o brigadeiro, que por este fato, iniciou a Revolta Pernambucana de 1817.
Quando as tropas reais reprimiram o movimento, José de Barros Lima foi preso, e enforcado, na cidade de Recife. Suas mãos e cabeça foram cortadas, e seu corpo amarrado a um cavalo, sendo arrastado pelas ruas até o cemitério. Suas mãos e cabeça foram expostas em um quartel, em Olinda.
Valdir José Nogueira de Moura, Conselheiro Cariri Cangaço

A Noite em Que Silenciaram Delmiro Gouveia Por:Gilmar Teixeira


O vento quente do sertão soprava nas ruas estreitas da Vila da Pedra naquela noite fatídica. O Coronel Delmiro Gouveia, visionário e obstinado, havia transformado aquela região árida em um polo de desenvolvimento. Sua fábrica de linhas, sua vila operária, o curtume, que curtia as peles de couros dos animais da região, e a ousadia de instalar a primeira hidrelétrica do Nordeste mexeram com interesses poderosos. No entanto, sua ascensão não passava despercebida. Políticos locais, sócios insatisfeitos e fazendeiros que viam nele uma ameaça se uniram em uma conspiração traiçoeira. A reunião decisiva aconteceu em Água Branca, onde se definiu o destino do homem que ousou desafiar os coronéis da região, e os políticos, donos do poder.

Capitão Firmino Pereira, um homem de sangue quente e honra ferida, trouxe de sua terra natal os temidos cangaceiros Sinhô Pereira e Luiz Padre, também seus parentes. A execução do crime foi meticulosamente planejada. O primo Zé Gomes de Jatobá, de Petrolândia, trouxe Antônio Félix, um pistoleiro experiente, enquanto os  vaqueiros de Água Branca, Herculano Borges e Luiz dos Angicos, garantiam a cobertura, a mando de uma familia influente de Água Branca. Naquela noite, a emboscada foi certeira. Delmiro Gouveia, que sempre acreditou que o progresso protegeria sua vida, tombou sob os disparos de três tiros de fuzil, que selaram o maior crime do Nordeste no início do século XX. Mas a história, como tantas vezes acontece, foi escrita pelos vencedores.

Dois inocentes foram apontados como culpados. Róseo Moraes e José Inácio Pia, o Jacaré, conhecidos apenas por sua labuta, foram arrancados de suas vidas e submetidos a torturas impiedosas até confessarem um crime que jamais cometeram. O julgamento foi uma farsa, alinhada com os interesses dos verdadeiros responsáveis: os sócios traidores, os coronéis gananciosos e um homem que buscava vingança em nome da honra de sua filha. Durante um século, a verdade permaneceu soterrada sob camadas de versões convenientes. O nome de Delmiro Gouveia virou lenda, seu assassinato, um mistério. Mas a poeira do tempo, que encobre e preserva, agora se levanta para revelar a trama que tirou a vida de um dos maiores empreendedores do sertão nordestino.

O silêncio que se impôs naquela noite foi enfim, revelado no livro escrito pelo historiador e pesquisador, Gilmar Teixeira. 

* Gilmar Teixeira , Conselheiro Cariri Cangaço 

* resumo do Livro, "Quem Matou Delmiro Gouveia?"

Padre Cícero: Convidado Especial na Reunião do GECC em Fortaleza

 
Reunião Mensal do GECC - Grupo de Estudos do Cangaço do Ceará

Aconteceu na noite da última terça-feira dia 11 de março de 2025,  nas dependências da livraria Cultura do shopping Iguatemi em Fortaleza, mais uma reunião ordinária mensal do GECC - Grupo de Estudos do Cangaço do Ceará. Sob a presidência do pesquisador e escritor Ângelo Osmiro, tivemos  a palestra do pesquisador e escritor, de Mombaça, Barros Alves, com o tema "Padre Cícero" o Santo Padre de Juazeiro.

Barros Alves e Ângelo Osmiro
Aderbal  Nogueira
Ângelo Osmiro, Manoel Severo e Renan Lobo

Durante a noite o Grande pesquisador da vida de Padre Cícero, Barros Alves; apresentou a todos os presentes a trajetória de um dos mais polêmicos e magnânimos personagens do Nordeste: a vida de Padre Cícero desde a sua chegada ao pequeno arraial de Tabuleiro Grande, atual Juazeiro do Norte, as primeiras celebrações e o grande cisma com a igreja católica a partir do polêmico episódio do Milagre da Hóstia, que teve como protagonista a Beata Maria de Araújo. A ligação do Santo Padre com o Pacto dos Coronéis, sua ligação com Floro Bartolomeu e a Sedição de Juazeiro.

Linda Lemos

A noite ainda guardava espaço para outro polêmico episódio que viria a pontuar a vida do Padre: A visita em 1926 de Virgulino Ferreira da Silva - Lampião, a Juazeiro do Norte a pretexto de se incorporar aos Batalhões Patrióticos e a famosa patente de capitão ao rei do cangaço.

O encontro ainda contou com as palavras do presidente Ângelo Osmiro, com a apresentação dos principais lançamentos dentro da historiografia do cangaço durante o mês de fevereiro, como também informes sobre eventos culturais que aconteceriam nos próximos dias tanto na cidade de Fortaleza como também outras cidades do Ceará, pelas pesquisadoras Arusha Kelly e Linda Lemos. Por fim o curador do cariri cangaço Manuel Severo apresentou a todos os presentes a agenda semestral do cariri Cangaço; iniciando ainda no mês de março com o grande Cariri Cangaço Paulo Afonso na Bahia, logo depois em maio no Oeste Potiguar; nos municípios de Patu, Martins,  Lucrécia e Antônio Martins e por fim  em julho o grande Cariri Cangaço em Piranhas, Alagoas. 

Manoel Severo, Barros Alves e Ângelo Osmiro
Manoel Severo e Arusha Kelly

O GECC - Grupo de Estudos do Cangaço do Ceará se reúne mensalmente sempre às segundas terças-feiras do mês, na livraria Leitura, do shopping Iguatemi em Fortaleza, É um evento aberto para todos.

Reunião do GECC
Livraria Leitura - Iguatemi , Fortaleza
11 de março de 2025