Pereira versus Carvalho , a mais Extraordinária Guerra do Sertão, nos Grandes Encontros Cariri Cangaço


Nesta próxima quarta-feira, dia 14 de abril, os Grandes Encontros Cariri Cangaço trazem um dos conflitos mais emblemáticos dos sertões nordestinos com estreita relação com o fenômeno do Cangaço, notadamente com os ciclos de Sinhô Pereira e Virgulino Ferreira da Silva. 

Direto do vale do Pajeú, Manoel Severo, curador do Cariri Cangaço, recebe os pesquisadores e memorialistas, Luiz Ferraz Filho, de Serra Talhada, antiga Vila Bela e Valdir Nogueira, de São José de Belmonte para nos contar a verdadeira face do conflito entre os clã Pereira e Carvalho; a gênese, as implicações, os interesses, as tramas, Sinhô Pereira, Luiz Padre e Virgulino Ferreira se encontram nesse espetacular emaranhado da mais cruel historia nordestina.

PEREIRA x CARVALHO
A Mais Extraordinária Guerra do Sertão
DIA 14/04/2021
19H30
Canal do YouTube do Cariri Cangaço

A Passagem de Virgínio Moderno por Pesqueira Por:Junior Almeida

Casarão da Fazenda Catolé
Contou-nos o bancário aposentado e também pecuarista Fred Brito, de 69 anos, residente em uma propriedade da zona rural de Buíque, Pernambuco, que na madrugada do dia 6 de junho de 1936 um grupo de 12 bandoleiros e mais uma mulher, sob o comando de Virgínio Fortunato da Silva, o cangaceiro Moderno, chegou à Fazenda Catolé, em Pesqueira, no Agreste do mesmo Estado, pertencente ao seu avô, Rogério Cavalcanti de Brito (1888-1974), chamado por ele, e todos os netos, carinhosamente de “Padre Dinho”, onde no local, a súcia fez prisioneiro um morador da fazenda, de nome Severino Panelada, forçando-o a bater à porta da casa sede, para acordar seu patrão e compadre.
Severino quando bateu na porta, seu compadre Rogério perguntou o que se tratava, àquela hora da noite, tendo o morador respondido que sua esposa estava doente, precisando de ajuda, de um remédio de Dona Adelaide. A versão foi dita por Panelada conforme a orientação prévia dos cangaceiros. Rogério abriu a porta e foi logo rendido, sendo todos da casa abruptamente acordados.
Nessa época, a sua mãe, Lenira de Lima (1918-2010), era noiva do seu pai, Renato Tenório de Brito (1915-1979), filho mais velho do casal Rogério e Adelaide e, por uma grande falta de sorte, segundo Fred, sua mãe e uma irmã dela, a mais velha, de nome Irene, tinham ido à fazenda conhecer a família do futuro marido, portanto, ficaram também sob ordens dos sicários.
À esquerda da entrada do casarão, existia um quarto grande, usado para orações, o qual era chamado por todos de o “quarto de São Pedro”, pois o fazendeiro Rogério era devoto do santo que a História diz ter sido o primeiro Papa. Nesse cômodo existia uma mesa de madeira, espécie de altar, forrada com elegante toalha de linho branco, que ia até o chão, e sobre ela vários santos e santas, dentre eles, uma bela imagem do santo pescador. O que pouca gente sabia, é que embaixo desse altar, ocultos pelo grande tecido, ficavam guardados dois rifles calibre 44.

Casarão da Fazenda Catolé, em Pesqueira, Pernambuco, que serviu de cenário no filme "O Cangaceiro", de 1997

Por ser aquele espaço um local sagrado da casa, ficou livre da sanha dos sicários, que reviraram tudo dentro da residência, à procura de objetos, joias, dinheiro e, claro, armas. No meio dos cabras, tinha um com um violão velho, com apenas três cordas. Enquanto a casa estava sendo saqueada, as mulheres foram obrigadas a cozinhar para o bando. Menos mal que a despensa estava abastecida, com produtos da própria fazenda e os comprados na feira de Pesqueira, que já naquela época, era realizada nas quartas-feiras.
A cozinha da casa era enorme, do dizer de Fred Brito, “daria para fazer um forró naquele espaço” e, foi justamente isso que os cangaceiros queriam. Com o precário instrumento, ligeirinho improvisaram um “baile”. Um dos salteadores pegou na mão da menina/moça Lenira, de apenas 17 anos, cantou uma quadra que dizia “não quero dengo/não quero choro/, quero a menina do cabelo loiro”, referindo-se a Lenira, e a chamou pra dançar. Sem receios, com coragem tirada não se sabe de onde, ela aceitou, mas o cangaceiro não quis dançar. Era um teste. O bandoleiro disse:
Eu peguei a sua mão e lhe chamei pra dançar, pensando que você não ia e, se dissesse que não dançava, eu ia fazer você dançar nua, aqui na vista da gente. Ia tirar a roupa e ia dançar nua.
Depois do ocorrido, Lenira disse que “se já estava pensando que morreria quando os cabras invadiram a casa, depois do susto que passou com a história da dança, achava que iria cair durinha ali mesmo”.
Logo que invadiu a casa, Virgínio Moderno disse a que vinha: queria três contos de réis do fazendeiro, para que, segundo ele, pudesse deixar Rogério, sua família e propriedade em paz. O grande problema é que o fazendeiro não dispunha, naquele momento, de avultada quantia em casa, então, os cangaceiros, ao deixar a fazenda, o levaram como refém. Só para se ter uma noção do que daria para comprar com tanto dinheiro, naqueles dias um saco com 50 quilos de farinha de mandioca estava custando 18$000 (dezoito mil réis), o feijão preto, saco de 60 quilos, 36$000. Com mesmo peso, o feijão mulatinho era vendido por 60$000 e o milho a 17$000.

Ruinas atuais do Casarão

Renato Brito, como já foi dito, era o filho mais velho de Rogério e Adelaide, e pediu permissão a Virgínio para selar um cavalo para seu pai ir montado, pois sabia que seu genitor não aguentaria o trupé da caminhada dos cabras. O argumento do primogênito, para o fazendeiro Rogério Brito ir montado, enquanto os cangaceiros iriam a pé, era que “se iam matar seu pai, que matassem logo, ou então permitissem ele ir a cavalo.” Com o consentimento de Moderno, o rapaz trouxe um animal de nome “Revoltoso”, para que o pai pudesse acompanhar a marcha do bando, perguntando em seguida ao chefe do bando, como faria para encontrá-los depois, para pagar o dinheiro do resgate. Virgínio respondeu:
Nós vamos para os lados de Boa Sorte (atual Venturosa). Você é um homem de fazenda, vai saber pegar o rastro de 13 pessoas e apenas um cavalo.
Depois da saída do grupo da Fazenda Catolé, levando seu proprietário como refém, Renato Brito foi até Pesqueira, distante quatro léguas da Catolé, arranjar o dinheiro do resgate com amigos. Fato curioso, é que os cabras do bando trocaram de roupa na fazenda, deixando para trás as vestes sujas de tantas andanças e combates, com algumas delas até manchadas de sangue, peças essas, que depois foram expostas nas Casas José Araújo, na cidade de Pesqueira.
Na terra do doce e da renda, Renato conseguiu o dinheiro com Severino do Leite, e célere, seguiu a pista do bando, encontrando-o no local Carrapateira, meia légua depois de Venturosa, sentido Garanhuns. No local, um fato inusitado aconteceu: ao receber o pacote de dinheiro, Moderno conferiu o valor e devolveu Rogério à família, dizendo que mesmo que seu filho não tivesse conseguido a quantia exigida, não matariam o fazendeiro, pois, segundo o cangaceiro, “um homem bom daqueles não se matava”. Especula-se que ou Virgínio costurou um acordo futuro, para proteção ou outro tipo de vantagem, ou durante a caminhada, o fazendeiro fez, na medida do possível, amizade com os cabras, pois, se sentiu tão à vontade, ao ponto de pedir a Virgínio um cachorro que acompanhava o bando, tendo Moderno dito que não dava “porque aquele cão pagava muitos dos cabras ruins sob seu comando”. Rogério e Renato Brito, pai e filho, voltaram para sua Catolé, em Pesqueira, depois das cinco da tarde daquele dia.

Virgínio, no centro, ao lado de Durvinha

Sobre essa passagem do cunhado de Lampião por Pesqueira, o Diário de Pernambuco publicou no dia 7 daquele mês a seguinte nota:
BANDIDOS NO LUGAREJO IPANEMA.
O COMANDANTE DE UMA DAS FORÇAS VOLANTES TELEGRAFA A SECRETARIA DE SEGURANÇA.

Ontem, à noite, a Secretária de Segurança recebeu telegrama do comandante de uma volante em Pesqueira. Informava que alguns bandidos passavam pelo lugarejo denominado Ipanema. A volante saiu em seu encalço, travando ligeiro tiroteio. Os cangaceiros, porém, fugiram em debandada. A polícia não sabe si se trata de Lampião ou do grupo de Virgínio.
No dia 9 o mesmo jornal publicou:
OS BANDIDOS EM PESQUEIRA
UM TELEGRAMA DO PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO COMERCIAL
Recebemos ontem de Pesqueira o seguinte telegrama: “PESQUEIRA, 7 – Confirmando meu telegrama publicado nesse jornal sobre a passagem de um grupo de cangaceiros neste município, foi atacada, ontem, a fazenda Catolé, distante apenas 15 quilômetros desta cidade. Foi sequestrado pelos assaltantes o proprietário da mesma fazenda sr. Rogério Brito, para cujo resgate exigiram três contos de réis. (a) Antônio Araújo, presidente da Associação Comercial”.
Seis décadas depois da invasão da Catolé, um número bem maior de cangaceiros esteve na propriedade, com direito a cavalos, tiros e mortes, mas tudo isso de mentirinha, é claro, pois na verdade, o que aconteceu naquela propriedade, foram gravações de cenas da refilmagem do filme “O Cangaceiro”, de Lima Barreto, de 1953. Na nova versão, que estreou nos cinemas de todo Brasil em 1997, o ator Paulo Gorgulho, fazia o papel do Capitão Galdido, e Luíza Tomé, viveu Maria Bonita. O elenco ainda contava com o experiente Joffre Soares, Ingra Liberato, Jece Valadão, Othon Bastos, o sanfoneiro Dominguinhos, dentre outros. A bela casa da Fazenda Catolé nem de perto se parece com as dos tempos de Rogério Brito, muito menos da época que o filme “O Cangaceiro” teve algumas cenas gravadas lá, o que não faz tanto tempo. Recentemente (2020) um youtuber da cidade de Pesqueira esteve no local e mostrou que o que fora um imponente casarão, hoje está em ruínas.

Junior Almeida, pesquisador e escritor  - Capoeiras -PE

Conselheiro Cariri Cangaço

*Fontes: Fred Brito, Canal Raniery Mendonça, no Youtube, Blog Pesqueira Lendária e Eterna e Jornal Diário de Pernambuco.
**Fotos: Cangaceiro Moderno, fonte Blog do Mendes; Casarão da Fazenda Catolé, fonte Blog Pesqueira Lendária e Eterna; Print do filme O Cangaceiro, de 1997; Ruínas do casarão, fonte Canal Raniery Mendonça, no Youtube; Fazendeiro Rogério Brito

Carybé Retrata o Cangaço Por: Beto Rueda

O grande artista plástico Hector Julio Páride Bernabó(Carybé), retratou o cangaço em várias formas de sua expressão artística, contribuindo para o enriquecimento e divulgação do tema.

Nascido em 7 de fevereiro de 1911, na pequena cidade de Lanús, subúrbio de Buenos Aires, o pintor viveu em Gênova e Roma (Itália) dos 6 meses aos 8 anos. Em 1919, veio morar no Brasil onde completou os estudos secundários no Rio de Janeiro e estudou na Escola Nacional de Belas Artes. Em 1927, retornou para a Argentina, onde trabalhou em diversos jornais, até que o periódico "Prégon" o contratou para viajar por vários países fazendo e enviando desenhos e reportagens de onde passasse. Com isso, Carybé começou a ter contato com várias culturas e diferentes formas de expressão artística, que influenciaram o seu trabalho como pintor. Em uma dessas viagens conheceu Salvador, onde começou a ter contato com a cultura baiana.


Até meados dos anos 40, Carybé viveu entre vários países, mas sempre retornando ao Brasil. Neste período, trabalhou como ilustrador de obras literárias e traduziu o livro Macunaíma, de Mário de Andrade, para o espanhol, neste mesmo ano ele conquista o Primeiro Prêmio da Câmara Argentina del Libro por sua ilustração do livro Juvenília, de Miguel Cané, ícone da literatura argentina. Em 1943, fez sua primeira exposição individual e ilustrou o livro "Macumba", Relatos de la Tierra Verde", de Bernardo Kordan.


Em 1946, casou-se com Nancy, na província argentina de Salta, com quem teve dois filhos, o artista plástico Ramiro e a bióloga Solange. Após várias viagens para Salvador, em 1950 foi morar definitivamente na capital baiana, onde, através de uma carta de recomendação de Rubem Braga, foi contratado para fazer murais em prédios e obras públicas.

Durante os quase 50 anos em que viveu na Bahia, Carybé desenvolveu uma profunda relação com a cultura e com os artistas de Salvador. As manifestações culturais locais, como o candomblé, a capoeira e o samba de roda, passaram a marcar a sua obra. Ao lado de outros artistas plásticos, como Jenner Augusto, Mário Cravo e Genaro de Carvalho, participou ativamente do movimento de renovação das artes plásticas no Estado.


Bastante eclético, Carybé experimentou ao longo de sua vida grande parte das técnicas artísticas conhecidas, como aquarelas, desenhos, esculturas, talhas, cerâmicas, entre outros. Além desses trabalhos, destacou-se também na criação de diversos murais pelo mundo, entre eles, um no Aeroporto de Nova York.

Em 1955 ele obtém o prêmio de melhor desenhista na III Bienal de São Paulo. Sua obra atinge o montante de cinco mil produções, dentre pinturas, desenhos, esculturas e delineamentos iniciais de alguns trabalhos. Suas ilustrações enriquecem publicações de famosos literatos, entre eles Jorge Amado e Gabriel García Márquez.

Em 1957, o artista naturalizou-se brasileiro. Entre seus grandes amigos no país, destacou-se o escritor Jorge Amado, que escreveu, em sua homenagem, "O Capeta Carybé". Na obra, o artista foi definido como "feito de enganos, confusões, histórias absurdas, aparentes contradições, e, ao mesmo tempo, é a própria simplicidade". Carybé fez desenhos em inúmeras obras de Amado, além de ilustrar trabalhos para livros de outros autores de grande expressão, como Mário de Andrade, Gabriel García Márquez e Pierre Verger.


O artista também escreveu livros como "Olha o Boi" e foi co-autor da obra "Bahia, Boa Terra Bahia", com Jorge Amado. Em 1981, após 30 anos de pesquisa, publicou a Iconografia dos Deuses Africanos no Candomblé da Bahia. Realizou também roteiros gráficos, direção artística e figurinos para teatro e cinema. Foi diretor artítico, figurinista e figurante no filme O Cangaceiro de Lima Barreto onde desenhou mais de mil e seiscentas cenas do filme, quase quadro a quadro.

Em virtude de seus trabalhos voltados para a cultura afro-brasileira, enfocando seus ritos e orixás, principalmente em princípios dos anos 70, ele conquistou um importante título de honra do Candomblé, o obá de Xangô. Parte de sua produção encontra-se hoje no Museu Afro-Brasileiro de Salvador, englobando 27 painéis simbolizando os orixás baianos, produzidos em madeira de cedro.

Por quase toda a sua vida, o pintor acreditou que o seu apelido Carybé provinha de um pássaro da fauna brasileira. Somente muitos anos depois, através do amigo Rubem Braga, descobriu que a sua alcunha significava "mingau ralo", o que lhe rendeu diversas brincadeiras.Freqüentador do terreiro de candomblé Ilê Axé Opô Afonjá, Carybé morreu aos 86 anos, no dia 1° de outubro de 1997, em Salvador, durante uma cerimônia no próprio terreiro. O artista deixou como legado mais de 5.000 trabalhos, entre pinturas, desenhos, esculturas e esboços.

Por Beto Rueda

REFERÊNCIA:
ARTISTAS, Arte. Biografia de Carybé e suas obras. < https://arteeartistas.com.br/biografia-de-carybe-e-sua-obra>. Acesso em 29 mar.202

O Coito Perfeito (e Sangrento) Por Rangel Alves da Costa

No mundo cangaceiro, era no coito que a cangaceirama se escondia, repousava ou se entrincheirava até novamente arribar seu destino. Quando o repouso era só de passagem, qualquer sombreado de umbuzeiro servia, mas não quando havia pernoite ou descanso mais demorado. Então, o local de estadia tinha que ser bem escolhido e oferecer meios de proteção contra as surpresas inimigas. Imaginava-se que do local estratégico, não só fosse dificultada a chegada de estranhos como fosse possível avistar qualquer movimentação suspeita ao redor e até mais adiante.

Angico, o mais famoso dos coitos, depois se mostrou como de péssima escolha aos cangaceiros. Ao invés de acoitados e protegidos, ficaram entrincheirados entre serras e montes, e ao largo da beirada de um rio, à mercê do ataque dos soldados e seus comandantes conhecedores da região. Quando a soldadesca chegou já não havia o que fazer. Era como um ninho de passarinhos cercado por gaviões. Não muito distante de Angico, ainda dentro dos sertões sergipanos de Poço Redondo, há um coito que se pode chamar de perfeito: o Coito da Pia das Panelas, na região da Comunidade Areias.

Em meio à caatinga, tufos de mato, arvoredos sertanejos e mandacarus e xiquexiques, uma colcha de pedras grandes se estende quase nos escondidos. Entre as pedras, fendas e buracos desigualam o colchão pedregoso. Por cima, verdadeiros buracos foram sendo escavados pela própria natureza e onde muita água é juntada em tempo de chuvarada. São as chamadas pias. Algumas delas cabem até mais de uma pessoa. Assim, um local perfeito para um coito cangaceiro, pois em meio à vegetação fechada e espinhenta, do alto é possível avistar as distâncias, entre as fendas é possível posicionamento para ataques, e as pias servindo como verdadeiras trincheiras para defesa e contra-ataque.

Por isso mesmo que o Coito da Pia das Panelas era um dos preferidos da cangaceirama quando de passagem pela região. E não há notícia de nenhum ataque das volantes na localidade. Mas, por outro lado, há notícias de terríveis acontecimentos no coito, e envolvendo os próprios cangaceiros e outros sertanejos. Nada menos que cinco mortes no coito e ao redor: Lídia de Zé Baiano, morta pelo próprio companheiro; Coqueiro, o delator da traição de Lídia; Zé Vaqueiro e Preta de Virgem. A quinta morte foi a de Rosinha, logo adiante. Do alto do coito se avista o Riacho Quatarvo, alguns passos mais abaixo, onde a companheira de Mariano foi morta, a mando de Lampião, pelas mãos de Zé Sereno, Juriti, Balão e Vila Nova. Quem conhece o passado da região e o que por ali ocorreu nos tempos cangaceiros, é como se os vultos ainda rondassem e os gritos ainda ecoassem por todo lugar. O sangue um dia jorrado ainda está por ali, as ossadas também. Fantasmas da história que ainda assombram. Num coito perfeito, um leito carrasquento de mortes.

Rangel Alves da Costa, pesquisador e escritor

Conselheiro Cariri Cangaço - Poço Redondo-SE

Guaribas de Chico Chicote chega aos Grandes Encontros Cariri Cangaço

Um dos episódios mais sangrentos do ciclo do cangaço e coronelismo no nordeste nos idos dos anos 20. Era fevereiro de 1927 quando as volantes do tenente Zé Bezerra e Arlindo Rocha, formada por mais de 100 homens cercam a fazenda Guaribas, de Chico Chicote, no sul do Ceará. Ao final de um fogo de mais de 30 horas, Chico Chicote ao lado de mais tres cabras, é vencido e morto. Consolidava-se ali uma das mais covardes tramas entre as elites mandatárias dos rincões do cariri cearenses. Para nos contar essa história, Manoel Severo, curador do Cariri Cangaço, recebe os pesquisadores e escritores Bruno Yacub e Hérlon Fernandes, numa programa eletrizante.

NESTA QUARTA-FEIRA

dia 31 de Março de 2021, 19h30

Canal do You do Cariri Cangaço


Em Memória de Antônio Amaury Correa de Araújo - Um Marco Referencial nos Estudos do Cangaço Por: Leandro Cardoso

Luiz Ruben, Leandro Cardoso, Antônio Amaury, João Souto 
e Napoleão Tavares Neves em dia de Cariri Cangaço

Apresentação do acadêmico Leandro Cardoso Fernandes por ocasião de Sessão Solene da Academia Brasileira de Letras e Artes do Cangaço, em homenagem póstuma ao pesquisador e escritor paulista, Antônio Amaury Correa de Araújo, acontecida de maneira virtual, no último sábado, 27de março de 2021.

"Boa noite a todos. Me chamo Leandro Cardoso Fernandes, ocupo a cadeira de número 13, cujo patrono é o escritor e magistrado William Palha Dias.

O motivo de hoje estarmos reunidos, mesmo que virtualmente, é para celebrarmos a memória de Antonio Amaury Correa de Araújo, nosso amigo e membro da ABLAC, cuja transição para outro plano de existência se deu recentemente. Para os que se debruçam sobre o tema Cangaço, Antonio Amaury é unanimidade incontestável como referência de qualidade pelas suas pesquisas e livros. Ninguém pode acercar-se seriamente desse tema, sem beber nas fontes de sua extensa produção bibliográfica.

Minhas senhoras e meus senhores.

No dia 26 de fevereiro do corrente ano, recebi a infausta notícia da partida de meu amigo Antonio Amaury. Passou-me rapidamente pela memória muitos dos momentos agradáveis que compartilhamos, seja no convívio mútuo com nossos familiares, seja com os amigos pesquisadores, no Cariri Cangaço, nas viagens Brasil-afora, nas inúmeras tardes nos sebos em São Paulo, enfim... meu coração foi tomado por uma nostalgia que veio de mãos dadas com uma sensação de tristeza e perda. Compartilhei a notícia com minha esposa, e as lágrimas vieram-nos aos olhos. Isolei-me por um momento, meditei e ocorreu-me um lampejo reflexivo que, imediatamente, empurrou para longe esse sentimento negativo pela partida do amigo Amaury.

Lembrei-me do verso de Fernando Pessoa: “A morte é só a curva da estrada/Morrer é não ser visto”. A construção da nossa eternidade começa aqui e agora, e só sucumbe à morte os que se dão ao esquecimento. Morrer é ser esquecido. Disse em versos Francisco Otaviano: “quem passou pela vida em branca nuvem/e em plácido repouso adormeceu/(...) foi espectro de homem, não foi homem/ só passou pela vida e não viveu”. E nesse ponto, meus amigos, confrades e confreiras, Antonio Amaury foi exemplar. Viveu plenamente um sonho profícuo, com extensa frutificação, cujas sementes foram espalhadas pelos bons ventos da arte, da beleza e do conhecimento.

Dito isto, esta solene reunião da ABLAC, nesta tarde de sábado não é um necrológio, não é um elogio fúnebre. Muito longe disso. O motivo de estarmos aqui é celebrar a VIDA; é cantar a linda apologia do bem viver, do cultivar em plenitude o amor e o sonho; é louvar e agradecer a VIDA de Antonio Amaury Correa de Araújo, Membro Honorário de nossa Academia.

Em primeiro lugar, gostaria de agradecer à Deus pelo dom da VIDA, pois é esse, como já disse, o motivo primeiro de estarmos aqui.

Mas, o que é a VIDA?

Convido-os, agora, a refletir sobre esta que, em apenas quatro letras, encerra uma multiplicidade de conceitos biológicos, metafísicos e filosóficos. Seria simplesmente o espaço de tempo entre a concepção e a morte de um organismo? Seria um processo metafísico contínuo de relacionamentos?

Eu poderia, para responder a essa indagação, citar o eminente e folclórico professor de Patologia da Faculdade de Medicina do Derby, em Recife, Aluísio Bezerra Coutinho. Ele disse no seu livro “Da Natureza da Vida” que VIDA seria de maneira taxativa “a reprodução auto catalítica de polímeros macromoleculares”. Mas seria a VIDA somente um fenômeno biológico autolimitado? É ela apenas fruto do acaso, ou foi a VIDA deliberadamente criada? Reconheço a dificuldade em defini-la, sem pisar em terreno movediço, onde duelam criacionistas e evolucionistas, às voltas com evidências positivas e negativas para cada lado.

No entanto, armando-se somente com a luz bruxuleante dos candeeiros da Biologia, como explicar satisfatoriamente, por exemplo, o pensamento, esse momento da nossa consciência? Ou a explosão de sentimentos, às vezes contraditórios, que experimentamos ininterruptamente? Seria tudo isso produto exclusivo do ballet químico dos neurotransmissores?

Antônio Amaury e Leandro Cardoso em São Paulo

O Professor Adauto Lourenço, PhD em Física e pesquisador pela UNICAMP diz que “a função da Ciência não é provar como o Universo e a Vida surgiram espontaneamente, mas como teriam surgido. Espontaneamente é apenas uma das hipóteses”. E vai mais longe, quando sugere que “átomos e energia não criam as leis da Natureza; eles obedecem a essas leis”.

Pelas lentes de Isaac Newton, e com olhos da fé, Deus está por trás destas leis. A Ele, portanto, minha gratidão por estarmos hoje aqui reunidos, mesmo que fisicamente distantes.

Voltemos, entretanto, ao nosso raciocínio: saiamos da Teologia e dos embates entre as teorias científicas e deixemos que a poesia pungente do pernambucano de Parnamirim, Antonio Marchet Callou defina a VIDA:

“Vida – é amargura doce,/ Vida – uma doçura amarga./ A vida é como se fosse/ Via, ora estreita, ora larga”.

Trilhamos todos nós esta estrada sinuosa, onde sobram nas curvas amarguras, frustrações, paixões, abnegação, gratidão, beneficência, o que levou o grande Guimarães Rosa a afirmar que: “no viver tudo cabe”. E é Gandhi quem dá o arremate, quando diz que “a arte da vida é fazer da vida uma obra de arte”.

Eu os convido, então, a celebrar comigo uma verdadeira obra rara da arte do viver. Uma Vida cujos alicerces foram feitos com a argamassa do amor; as paredes levantadas com os tijolos da generosidade, e revestidas com o brilho do serviço e da disponibilidade. Se “a Geografia prefigura a História”, como disse Euclides da Cunha, as boas obras precedem os homens de bem.

A infausta notícia da ausência física de Antonio Amaury entre nós, não pode extinguir sua VIDA, posto que, além do físico, ele vive nas nossas melhores recordações e na indiscutível perenidade que permeia a substância de sua obra. No universo do estudo do Cangaço, dentro e fora da ABLAC, Antonio Amaury é imortal. Cabe aqui, entretanto, duas palavras sobre o que seja a Imortalidade Acadêmica, antes de nos ocuparmos de uma breve exposição da biografia e da obra do nosso querido homenageado de hoje.

O termo Academia derivou de Academus, o herói grego que revelou aos gêmeos Cástor e Pólux onde Helena havia sido escondida por Teseu. Em homenagem a este herói, foi preservado o jardim onde ele vivia: o “jardim de Academus”. E foi exatamente neste lugar onde o filósofo, Platão reuniu seus discípulos e fundou sua escola filosófica, a Academia.

Mas foi somente na Europa do século XV que se utilizou o termo Academia para designar grupos de estudo e preservação de cultura clássica. Assim, as Academias dos mais diversos segmentos do conhecimento e das artes congregam indivíduos que reconhecidamente trazem uma bagagem relevante de contribuição em área específica, ou até além dela.

A nossa Academia Brasileira de Letras e Artes do Cangaço (ABLAC) foi fundada em 25 de julho de 2019 e é capitaneada de magistralmente pelo nosso presidente Archimedes Marques e sua diretoria. A ABLAC hoje é um farol a iluminar, para curiosos e estudiosos dos temas afeitos à história e à cultura nordestina, os caminhos que levem à pesquisa científica séria, ao respeito, à ética, e ao diálogo, como condições indispensáveis para um estudo em alto nível do cangaceirismo, suas adjacências e desdobramentos. E, ao cruzar os umbrais da Academia, chega-se, então, à imortalidade. Minhas senhoras e meus senhores, confrade e confreiras.

Antônio Amaury, Leandro Cardoso e Luiz Ruben

Agora, passo a ocupar-me do imortal, Antonio Amaury Correa de Araújo, que nasceu em Boa Esperança do Sul, São Paulo, em 22 de novembro de 1934, e que vive eternamente na memória e nos corações dos seus familiares, dos seus leitores e dos seus amigos. “A Amizade é o vinho da vida”, disse Edward Young, poeta inglês; e celebrar uma amizade eterna é deliciar-se com o doce néctar da melhor das safras.

Amaury era filho de Elydio Correa de Araújo e Benedita Abdala de Araújo. E foi aos oito anos de idade, por intermédio de sua avó materna, que caiu em suas mãos um folheto em prosa sobre Cristino Gomes da Silva Cleto, o Capitão Corisco, despertanto-o para o tema Cangaço. Mal podia imaginar o pequeno Amaury ao debruçar-se sobre as páginas daquele folheto que algumas décadas adiante ele mesmo hospedaria em sua casa Dadá, a viúva do perfilado. Vejam só.

Depois de completar seus estudos iniciais no Colégio São Bento em Araraquara (SP), Amaury ingressou na Faculdade de Odontologia na UNESP, e a graduou-se também na Escola de Belas Artes, também em Araraquara.

Já na capital paulista, trabalhando como odontólogo em alguns sindicatos como o da Congás, da Construção Civil, dos Condutores de Veículos e também na lida do seu consultório privado, Amaury estabeleceu contato com pessoas ligadas ao fenômeno Cangaço, como ex-cangaceiros, ex-volantes, vítimas, parentes das personagens, etc... Afinal, como disse certa vez o cantor e compositor Belchior: “o nordestino ou sobe pra São Pedro ou desce pra São Paulo”, sendo esta a maior capital nordestina do mundo. Juntando todo esse material humano e a disponibilidade do seu consultório de Odontologia, Amaury viu-se diante de um interessante laboratório improvisado de Antropologia e História, moldado pelos atendimentos do dia a dia. Logo, logo, tornou-se amigo e compadre de Cila, Zé Sereno, Criança, Balão, Dadá... e, de registro em registro, materializava-se o maior banco de dados do Brasil sobre o Cangaço:  milhares de fotos, cartas, documentos e gravações que, sem medo de errar, deve ultrapassar as 7000 entrevistas.... Entre elas Sebastião Pereira, Cajueiro, o Coronel João Bezerra, Mané Velho, Antonio da Piçarra, dentre outros...

Em pouco tempo, Amaury já era conhecedor do assunto, apesar de muito jovem. Prova disso é que Rodrigues de Carvalho pediu opinião a ele sobre os originais de “Lampião e a Sociologia do Cangaço” para que ele fizesse correções, as quais incorporou na publicação. Era esse o começo de uma notável carreira como escritor e pesquisador.

Ainda no final dos anos 60 contribuiu para o roteiro do filme “Corisco, o Diabo Loiro” de Carlos Coimbra, grande sucesso do ciclo do Cangaço no nosso cinema. A seu convite, Dadá confeccionou toda a indumentária dos cangaceiros utilizadas no filme, que tinha como atores principais Leila Diniz e Maurício do Vale.

Nos anos 70, aceitou o desafio de responder sobre Lampião no programa de perguntas e respostas, da Rede Globo, “8 ou 800”, apresentado pelo ator Paulo Gracindo, e dele saiu premiado. Sua expertise no assunto passou a ser reconhecida em todo o Brasil. A partir daí, multiplicaram-se convites para assessorar novelas e programas de televisão, destacando-se aqui o episódio piloto do “Globo Repórter”, “O Último Dia de Lampião”, dirigido por Maurice Capovilla. Vale ressaltar que este programa fora baseado em um livro seu “Assim Morreu Lampião”, um grande sucesso e ainda hoje imbatível como obra referencial sobre o epílogo do Rei do Cangaço. Neste trabalho clássico, pela primeira vez, foram enfeixados os depoimentos dos que sobreviveram ao Combate do Angico, fossem volantes, cangaceiros ou coiteiros. Este livro antológico sedimentou um novo modo de se “escrever” sobre o cangaço, dando voz a uma literatura que tem como esteio metodológico os registros de memória oral de sobreviventes dos episódios da crônica histórica cangaceira.

A partir daí, vieram outros clássicos como o excepcional “Lampião: As Mulheres e o Cangaço”, que de maneira pioneira aborda o universo feminino na crônica cangaceira. A obra é até hoje um dos melhores trabalhos escritos sobre o tema, que de maneira corajosa e inusitada, mostra o lado sofrido e guerreiro das mulheres corajosas, bem como das vítimas daqueles tempos brabos.

Dos seus mais de 10 livros sobre o assunto, gostaria de elencar os parceiros, que, sob sua impecável orientação, publicaram trabalhos que se tornaram referenciais, na já extensa bibliografia sobre o assunto: cito aqui Vera Ferreira Nunes (“O Espinho do Quipá” e “De Virgolino a Lampião”); Luiz Ruben Bonfim (“Lampião e a Maria Fumaça” e “Lampião e as Cabeças Cortadas”, Carlos Elydio (“Lampião: Herói ou Bandido?” e Leandro Fernandes (“Lampião: A Medicina e o Cangaço”).

 Amaury teve importante e vasta participação em documentários: cito de maneira especial aqui sua contribuição ao trabalho de Aderbal Nogueira, nosso Benjamim Abrahão da contemporaneidade, que viabilizou notáveis entrevistas com o mestre Amaury. Cito também aqui o excepcional “Os Últimos Cangaceiros”, de Wolney Oliveira, filme premiado pelo mundo afora, figurando hoje entre os 100 melhores filmes latino-americanos da década, que contou com a consultoria histórica do mestre.

Dona Rene e Antônio Amaury

Antes de finalizarmos, não poderia deixar de falar aqui da maravilhosa família formada pelo casal Antonio Amaury Correa de Araújo e René Maria Tavares de Araújo. Deste feliz matrimônio, ocorrido em 31 de dezembro de 1961, vieram 3 filhos: Antonio Amaury Junior, Carlos Elydio e Sérgia Renée, cujo nome foi homenagem à Sergia Ribeiro Chagas, a Dadá, comadre de Antonio Amaury e Dona René; o genro Nelson Romano, os netos Marcelo e Henrique, e agora uma linda bisnetinha, recém-chegada. Aqui, mando meu abraço carinhoso de admiração e agradecimento à Dona René pelo acolhimento dispensado a mim e minha família; seu exemplo de esposa, mãe, companheira, avó, sogra, que sem dúvida, permitiu que Antonio Amaury pudesse estender para as lonjuras o alcance do seu trabalho. Eu, minha esposa Raissa e minhas filhas Cristina e Laura temos muitas saudades do convívio com todos vocês, que perfumaram as nossas vidas.

Para terminar, gostaria de mais uma vez recitar o soneto que fiz no dia em que meu amigo Antonio Amaury despertou para a eternidade. Deixemos sangrar o açude do peito com lágrimas de alegria por termos convivido com um homem bom, íntegro, que, passando à larga da mediocridade, contribuiu para que nos uníssemos em torno de um tema que, outrora ponteado pela violência, hoje é o palco de harmonias, congraçamento, amizades e o carro chefe da melhor cultura do mundo. 

SONETO EM PRECE

Ao amigo Antonio Amaury Correa de Araújo

Dos cangaceiros ele ouviu depoimentos

E dos Volantes colheu muitas entrevistas;

Investigando sempre rastejava as pistas

Para entender do sertanejo os sofrimentos.

 

Escuto o choro, entre soluços e lamentos,

De iniciantes aos grandes conferencistas,

Na despedida deste grande entre os paulistas,

Que nos brindava com tantos conhecimentos.

 

Agradecendo a sua ajuda, afinal,

Na mão sincera que estendeste a quem quisesse

Aprofundar-se nos estudos do Sertão...

 

Eu mando, amigo, pra Mansão Celestial

Um abraço forte que eu envio nesta prece

Banhado em lágrimas, saudade e gratidão.

 

Muito obrigado."

Leandro Cardoso Fernandes, médico, pesquisador e escritor                      Conselheiro do Cariri Cangaço                                                                  Acadêmico da ABLAC , Membro da SBEC.

Grandes Encontros, sempre !


 

Antônio Amaury, nosso Mestre Por: Kydelmir Dantas

Amaury e Kydelmir, entrega do Diploma de sócio efetivo da UNES

Conhecemos o mestre Antônio Amaury quando chegamos em Mossoró, no ano de 1987, através de seus livros adquiridos na Livraria Independente, ali na Praça da Matriz. Foi onde comprei os 2 primeiros: Assim Morreu Lampião (1982) e Gente de Lampião: Sila e Zé Sereno (1982). Em 13 de junho de 1993, juntamente com Paulo Gastão e mais 14 pesquisadores e admiradores do tema, fundamos a SBEC – Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço; no ano seguinte o II Fórum do Cangaço teve como homenageada Dadá de Corisco; para este vieram nomes importantes do tema que nem José Umberto Dias – com o documentário A MUSA DO CANGAÇO - e Antônio Amaury com seus livros e palestra. Daí começamos nossa amizade.

Quando foi publicado, em 1996, Lampião: Segredos e Confidências do Tempo do Cangaço, adquirimos o exemplar encadernado e, para nosso acervo, fizemos uma capa própria com a foto do Mestre no Museu Histórico Lauro da Escóssia folheando um jornal de 1927, sobre a resistência mossoroense ao ataque do bando comandado por Virgolino-Lampião. De lá pra cá foram 20 anos de uma amizade e respeito mútuos; de Mestre passou a amigo e colaborador em nossas pesquisas; encontramo-nos em diversas edições do Cariri Cangaço e a alegria era recíproca. Neste momento, após 30 dias de seu encantamento, só temos a dizer: Ave, Amaury! Os que vão continuar bebendo de tua fonte de pesquisas te saúdam!

Kydelmir Dantas, pesquisador, escritor, poeta e cordelista
Conselheiro Cariri Cangaço
Membro e ex-presidente da SBEC

Antônio Amaury em Homenagem na Reestreia dos Grandes Encontros Cariri Cangaço 2021

Antônio Amaury nos Grandes Encontros Cariri Cangaço 2021

Antônio Amaury Correia de Araújo possui fortes ligações com o Cariri Cangaço. Desde nossa primeira edição ainda no ano de 2009 como um de nossos principais incentivadores e apoiadores, sendo figura principal dentre todos os ilustres convidados daquele que se prenunciava como um dos maiores eventos já realizados sobre a temática cangaço. Ao longo desses últimos dez anos de Cariri Cangaço, tivemos a honra e o grande privilégio de contar com o Mestre Antônio Amaury em incontáveis de nossas agendas, sendo referência na pesquisa e estudo da temática cangaço, muito nos honra em tê-lo na família Cariri Cangaço eternamente.

"Era ainda o ano de 2015, fazia tempo que não encontrava São Paulo tão quente, a sensação térmica estava terrível, a umidade do ar e termômetro marcando 33º C em plena 18:30h só perdiam para a satisfação e alegria em reencontrar queridos e espetaculares amigos. O bairro; Jardim São Paulo;  extremamente agradável e a travessa Guajurus, um recanto onde pontuam preponderantemente residências, pequenos sobrados e pequenas vendas, nos transportam para uma "Sampa" mais tranquila, onde as pessoas ainda se cumprimentam nas calçadas, jogam conversa fora, sorriem juntas... É ali o "coito" de um dos mais respeitáveis pesquisadores sobre o cangaço no Brasil: Antônio Amaury Correia de Araújo, nosso Mestre." Manoel Severo, Curador do Cariri Cangaço, sobre uma de suas últimas visitas ao Mestre Amaury...

"Mestre, segundo o "Aurélio" significa: Professor de grande saber e nomeada, o que é versado em qualquer ciência ou arte, oficial graduado de qualquer profissão... Para mim, Mestre é tudo isso e mais: É aquele que coloca a alma, o coração e todos os seus talentos e esforços, naquilo em que acredita, naquilo pelo qual tem paixão, naquilo que faz o olho brilhar. Querido amigo e Mestre Antônio Amaury temos você como nosso Mestre, e saiba que está em nosso coração" Manoel Severo, Curador do Cariri Cangaço.



Dessa forma o Conselho Alcino Alves Costa do Cariri Cangaço na reestreia dos Grandes Encontros Cariri Cangaço presta uma homenagem, não só ao grande pesquisador e escritor, mas ao grande ser humano que foi Antônio Amaury Correia de Araújo, ou como nós costumamos chamar: Doutor AmauryCelebrado neste programa por toda família Cariri Cangaço e os ilustres participantes: pesquisadores e escritores; Conselheiros do Cariri Cangaço, parceiros de Amaury; Dr Leandro Cardoso e Luiz Ruben; além da presença mais que especial de Carlo Araújo, filho e companheiro de todas as horas, do maior pesquisador do cangaço de todos os tempos.


É NESTA PROXIMA QUARTA-FEIRA,
dia 24 DE MARÇO DE 2021 , as 19:30H
no CANAL DO YOUTUBE DO CARIRI CANGAÇO.

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Billy Chandler, o Forasteiro Por:Geziel Moura


Se alguém perguntasse, sobre que livro, da saga de Lampião, eu recomendaria para o leitor inicial, aquele que seria a primeira literatura, que este hipotético leitor teria acesso, não tenho dúvida, apontaria o "Lampião, o Rei dos Cangaceiros" do estadunidense Billy Jaynes Chandler, e os critérios da minha escolha, vão permear nas seguintes noções:

O texto de Chandler reúne, na minha visão, aquilo que captura qualquer leitor da história, em particular do cangaço, ou seja, a pesquisa analítica, com formidável triangulações de fontes, o que favorece a credibilidade de seu trabalho, tornando-o coerente e lógico, aliado a isto, excelente estilo e estrutura textual, o que permite a compreensão de suas narrativas, sem deixá-lo medíocre e/ou simplório.
Do ponto de vista da pesquisa, ela foi realizada entre os anos de 1973 a 1975, podemos a considerar como de lavra acadêmica, primeiro, porque o movimento que o autor fez em sua produção, é tipicamente de pesquisador que persegue o método científico, e segundo, por ele está vinculado à instituições de pesquisas daquele país. É notório no livro, a vasta publicidade de referências de fontes utilizadas, amplamente usual, por pesquisadores, de tais nichos de produções..


O livro oferece aos seus leitores, além de informações sobre diversos episódios da saga de Virgolino (Queimadas, Mossoró, Serra Grande, Angico, dentre outros), análises interessantes, sobre o perfil dele e de outros cangaceiros e os contextos históricos, que estavam inseridos, não se trata de trabalho meramente de transcrição, e para isto, utilizou-se de entrevistas, e pela minha contabilidade, com cerca de 50 sujeitos que de uma forma ou de outra, estavam ligados ao cangaço lampiônico, além, dos principais jornais do nordeste, que noticiaram, as peripécias do capitão Virgolino e seus companheiros, buscou, ainda, os principais livros biográficos, daquele chefe cangaceiro, e arrematou com a leitura de artigos, documentos e trabalhos publicados sobre o tema.
Com Billy Chandler e a leitura de "Lampião, O Rei do Cangaço" aprendi que a história do cangaço, ou outra qualquer, não tem dono, naturalidade, nacionalidade e nem forasteiros, que a história do cangaço não foi concluída, visto que, continua sendo fabricada, em todos os ambientes, nos cordéis, cantadores de feiras, oralidade, memória, imagens, publicações, filmes, teatros e até na academia, e que a feitura de trabalho literário de qualidade, está relacionada com a pesquisa séria, o método cientifico e principalmente, com a originalidade e criatividade do autor, preceitos que o brasileiro e nordestino Frederico Pernambucano de Mello, por exemplo, realiza de forma contumaz.

Geziel Moura
Pesquisador

O Estado Maior dos Batalhões Patrióticos Por: Miguel Nirez Azevedo

Foto do Estado Maior das forças organizadas em 1925 pelo "general" Dr. Floro Bartolomeu da Costa formado para combater a "Coluna Prestes" na sua incursão no Estado do Ceará.

Na foto estão: 1) Capitão Tobias Medeiros; 2) Major José Almeida Cavalcante; 3) Capitão Mário Rosal (Homem do Facão); 4) José Parente, ex-prefeito de Piancó, na Paraíba; 5) João Evangelista; 6) Coronel Pedro Silvino de Alencar; 7) Loiola de Alencar (contador); 8) Major farmacêutico Júlio Gomes; e 9) Capitão Antônio Souto.

Tais patentes foram de nomeação e assinadas pelo médico baiano Floro Bartolomeu da Costa.O centro das operações foi na cidade de Juazeiro do Norte e depois, por conveniências estratégicas transferidas para a vila de Campos Sales.Fonte: Museu Histórico do Sr. Odílio Figueiredo, de Juazeiro do Norte, datando de 1936.

Miguel Nirez Azevedo

Lampião, o Tiro no Pé ! Por: Valdir José Nogueira


No próximo dia 23 de março, vai completar exatamente 97 anos que, após ser ferido gravemente no pé, o Rei do Cangaço buscou refúgio na “Casa de Pedra” da lendária Serra do Católe, em São José do Belmonte.

Frondosa e ainda existente, a árvore do tipo “pau-ferro”, localizada bem às margens da lendária Lagoa do Vieira, a pouca distância da Pedra do Reino, testemunhou o combate travado no dia 23 de março de 1924, com uma volante comandada pelo major da polícia de Pernambuco Theophanes Ferraz, onde o cangaceiro Lampião foi seriamente atingido no pé e morta sua montaria, tombando o animal sobre sua perna. Tendo se livrado do peso do animal morto e mesmo ferido, o cangaceiro consegue reagir à altura da situação. Na gruta conhecida como Casa de Pedra, na Serra do Catolé município de São José do Belmonte, Lampião se refugiou e iniciou sua recuperação.



O Cariri Cangaço e a visita à Casa de Pedra no Cariri Cangaço São Jose de Belmonte

Interessante apontar que da Casa de Pedra onde se refugiou Lampião, tem-se uma magnífica visão do vale onde fica a famosa área histórica conhecida como Pedra do Reino, retratada no romance de Ariano Suassuna – O Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta. A Lagoa do Vieira também é citada nesse famoso romance através de uma explicação dada pelo personagem Luís do Triângulo:

“Naquele momento, chegávamos a uma Lagoa rasa, situada à direita da estrada, Luís do Triângulo explicou:
- Essa é a Lagoa do Vieira! Os Vieiras eram parentes do Rei João Ferreira e estiveram, também, metidos na “Guerra do Reino”! Diziam eles que esta Lagoa era encantada e que, aqui, Dom Sebastião tinha uma mina de ouro para os pobres!”.
A famosa notícia do tiro no pé de Lampião ensejou inúmeros escritos jornalísticos e literários. O cronista José Carvalho, carioca da gema, sob o título “Lampião, o tiro no pé” publicou no “Correio da Manhã (RJ)” no ano de 1932, edição 11386, pág. 17:
“Lampião, um dia, numa refrega com a polícia levou uma bala no pé. E com ele sangrando correu a presença de um médico que sabia estacionar perto do lugar em que achava em fuga. Enquanto o médico examinava o ferimento, Virgulino agita-se impaciente, com esse preventimento instintivo que caracteriza e protege certos criminosos.
Mas o doutor queria puxar pela língua do bandido, prelibando, sem dúvida, o gozo de uma entrevista aos jornais. A impaciência de Virgulino aumenta. Não quer conversa.
- Seu dotô, acabe com isto!
- Se é preciso cortar o diabo deste pé, corte logo! Me despache que a poliça não deve tardá por aqui!
Mas o médico ia, calculadamente prolongando o exame e a conversa.
E a outra rogativa inquieta do ferido, obtemperou:
- Ora, deixe de pressa!
- A polícia não vem agora por aqui. Você tem muitos amigos?
E Virgulino:
- Eu me admiro um doutor formado como o senhor dizer uma coisa destas!
E concluiu; conciso, alto, vibrante:
- Bandido não tem amigo!

Clênio Novaes e Kydelmir Dantas e o "Tiro no Pé" no Cariri Cangaço São Jose de Belmonte


A frase deve ficar. Ele que o afirmava era porque sabia. Vale a pena narrar o resto. Depois, como o médico lhe afirmasse que o ferimento poderia ser curado sem precisar cortar o pé, Lampião, envolvendo-o nos trapos que trouxera, corre para o cavalo, cavalga-o e arranca estrada a fora numa disparada homérica. Era tempo; a polícia chegava... Dias depois, esse mesmo médico, numa estrada, vê-se cercado e detido por um grupo de Lampião que lhe exigia dinheiro. E o médico, revestindo-se de calma e como por uma inspiração, revelando intimidade com o bandido ausente, pergunta afavelmente:

- Cadê o Lampa?
Foi como se proferisse uma palavra mágica.
- É amigo! – disse um.
- Sim, sou o médico que lhe fez curativos no pé!
Estava garantido. E foi tratado por todos afetuosamente.
Dizem que esta abreviatura Lampa, é a senha pela qual são conhecidos os amigos.
E o médico acertara casualmente. Teve sorte.
A Antônio Silvino é atribuída esta frase enérgica, sintética, filosófica:
- Minha palavra é um tiro!
Queria dizer: tão certa, tão segura, como é o tiro da arma de um cangaceiro emérito.
É da raça!”
Valdir José Nogueira de Moura
Conselheiro Cariri Cangaço
São José de Belmonte-PE