Grandes Encontros Cariri Cangaço Rastreando a Anfitriã de Lampião na Bahia: Zefa Perdida!

O ano de 1927 teria sido um ano a ser esquecido pelo rei do cangaço; em 27, Uiraúna, Ipueira dos Xavier e por fim Mossoró, formaram heroicas resistências a Virgulino Ferreira e seu bando. Depois da malograda epopeia de Mossoró, o destino apontava novas paragens para o bandoleiro das caatingas, no radar do rei cego: As terras da Bahia.

E assim em agosto de 1928, Lampião ao lado de mais cinco cabras atravessa o caudaloso Velho Chico, sentido norte-sul; o "Homem" chegava a Bahia e um novo reinado haveria de se consolidar. O tempo para recompor suas forças e reagrupar homens para suas hostes acabou contando mais uma vez com todo o talento e as ligações perigosas do rei do cangaço. 

Personagens emblemáticos como os Coronéis , Petronilio Reis, João Sá, João Maria; cangaceiros que marcaram a história como os Ingrácias: Zé Baiano, Zé Sereno; fariam parte dessa nova pagina do cangaço de Virgulino Ferreira, que depois se alastraria com sucesso pelas terras alagoanas e sergipanas, mas... quem foi o primeiro e importante anfitrião de Virgulino na Bahia, ou... quem foi a primeira anfitriã ?

Quem era Zefa Perdida ? Qual sua ligação com os Ingrácias ? Qual o papel de Zefa na vida bandida dos vários membros da família? Que ligações possuía, que relações mantinha? Porque Lampião a procurou antes de qualquer outra atitude em solo baiano no longínquo agosto de 1928 ? 

Para responder essas questões e aprofundar o debate sobre Zefa Perdida, Manoel Severo, curador do Cariri Cangaço, recebe os pesquisadores, Manoel dos Santos Neto, Raimundo Marins e José Bezerra Lima Irmão, para um "ao vivo" sensacional sobre esse personagem pouco estudado pela literatura do cangaço.

"Rastreando Zefa Perdida-A Anfitriã de Lampião na Bahia"

Grandes Encontros Cariri Cangaço

Quarta-feira - Dia 19 de Maio de 2021, 19h30

Canal do Cariri Cangaço no YouTube

Mario Vargas Llosa e Antônio Conselheiro

“O homem era alto e tão magro que parecia sempre de perfil. Sua pele era escura, seus ossos proeminentes e seus olhos ardiam com fogo perpétuo. Calçava sandálias de pastor e a túnica azul de brim que caía sobre o corpo lembrava o hábito de desses missionários que, de quando em quando, visitavam os povoados do sertão batizando multidões de crianças e casando os amancebados. Era impossível saber sua idade, sua procedência, sua história, mas algo havia em seu aspecto tranquilo, em seus costumes frugais, em sua imperturbável seriedade que, mesmo antes de dar conselhos, atraia as pessoas”

[Mario Vargas Llosa; A Guerra do fim do Mundo]

Totonho Laprovítera é o convidado de hoje do Cariri Cangaço Personalidade ao Vivo no Instagram

 

Francisco Antonio Laprovitera Teixeira, ou apenas Totonho Laprovitera, este espetacular artista múltiplo, arquiteto e urbanista brasileiro, nascido na capital do Ceará, Fortaleza, é o convidado especial de Manoel Severo no Cariri Cangaço Personalidade, ao vivo no Instagram, nesta segunda-feira, 17 de maio de 2021, mas, quem é Totonho Laprovitera ?

Na arquitetura – formado pelo Curso de Arquitetura e Urbanismo da UFC – seus principais projetos edificados são:  Sede do Tribunal de Contas do Ceará – TCE, em Fortaleza-CE; Aeroporto Internacional de Aracati, em Aracati-CE; Aeroporto Internacional de Jericoacoara, em Cruz-CE; Sede da Ordem Brasileira de Advogados – OAB-CE, Fortaleza-CE.

Nas artes visuais, fez-se notar desde 1974, quando participou de sua primeira exposição na Casa de Cultura Raimundo Cela, em Fortaleza-CE. No início de sua trajetória tomou parte de prestigiadas exposições coletivas. Ilustrou importantes publicações literárias na imprensa nordestina. Em 1977 como aluno do Curso de Arquitetura e Urbanismo foi bolsista por quatro anos da Bolsa/Trabalho/Arte da Funarte/UFC. No circuito artístico universitário, recebeu seu primeiro prêmio em salão e realizou sua primeira exposição individual.


Obras de Totonho Laprovítera

Após 1982 desenvolveu-se na técnica da pintura e desde então realiza exposições individualmente ou em parcerias pelo Brasil. Em 2001 fez, a convite da Embaixada do Brasil na França, a exposição individual Laprovitera à Paris, no Espaço Cultural Jorge Amado na sede da embaixada em Paris. Em 2005 conquistou o primeiro prêmio da XIII Unifor Plástica 2005, na Universidade de Fortaleza, na categoria gravura. Em 2006 foi homenageado pelo Centro Cultural Oboé, como um dos artistas que mais se destacou nas Artes Plásticas do Ceará, em 2005, realizou a exposição individual Laprovitera em Lisboa, na Casa da América Latina e representou o Ceará na coletiva Artistas Brasileiros 2006, no Salão Negro do Senado Federal, em Brasília.

Em 2018, integrou a curadoria do Museu Orgânico Fortaleza, da Prefeitura Municipal de Fortaleza; participa do catálogo da coleção da Fundação Edson Queiroz, em Fortaleza-CE. Em 2019, recriou novo design da campanha Doe de Coração, realizada pela Fundação Edson Queiroz, Fortaleza-CE; Participou da exposição coletiva Grandes Coleções – Projeto Felicidade, Salão Marc Chagall, Associação Brasileira a Hebraica de São Paulo, em São Paulo-SP. Em 2020 é incluído no acervo do MAUC – Museu da Universidade Federal do Ceará.

Na literatura, tem três livros publicados: “Valder Césio – histórias de um boêmio”, 1995 – pequenos contos sobre um personagem da vida boemia de Fortaleza; “Causos”, 2015 – conta histórias sem a preocupação de apartar a verdade da mentira. Com narrativa leve e bem humorada, o livro é uma coletânea de textos escritos, pelo menos, durante uma década. Nesse alfarrábio o autor conta episódios que vivenciou – alguns com um certo exagero – e outros que inventou – com grande moderação – ocorridas em diversos lugares; e “De Primeiro”, 2016 – sem a menor pretensão de contexto historiográfico, o livro conta um pouco de seu autor, em acontecimentos registrados nas guardadas recordações de tantas histórias que viveu e a que assistiu, ou escutou, ou leu ao longo do seu itinerário de vida. Desde 2019 publica semanalmente crônicas no jornal “O Otimista”, em Fortaleza-CE.

Na música, Totonho Laprovitera é parceiro de Amaro Penna, Chico Pio, Herman Torres, Humberto Pinho, Jabuti Fonteles, Macedo Barbosa, Manassés de Sousa, Nonato Luiz, Romeu Duarte, Sérgio Sá, Tarcísio Sardinha, Wagner Castro e Zivaldo Maia, dentre outros.

Participou como letrista nos CDs: BEIRA DO MUNDO, Chico Pio (Solitudine, em parceria com Chico Pio; Beira do mundo, em parceria com Chico Pio; e Estradas, em parceria com Manassés de Sousa e Herlon Robson); ZIVALDO CANTA, Zivaldo Maia (Violando, em parceria com Zivaldo Maia); e CEARÁ, GRANDES INTÉRPRETES E COMPOSITORES, CD+ (Solitudine, em parceria com Chico Pio); TOQUES E TEMAS, GRANDES NOMES DA MUSICA CEARENSE, Modo Maior (Solitudine, em parceria com Chico Pio); CAIS BAR 18 ANOS DE PRAIA, Joaquim Ernesto e parceiros (O biriteiro, em parceria com Joaquim Ernesto e Pardal); CANÇÕES, Nonato Luiz (Enfim perto de mim, em parceria com Nonato Luiz).

Na televisão, em 2005, apresentou o programa de entrevistas “Pense!”, na TV União, em Fortaleza-CE. Desde 2020 apresenta o programa “Mosaico por Totonho Laprovitera” na TV Otimista. No teatro, em 2012, participou da peça "O Gólgota - A Paixão de Cristo", da Casa da Comédia Cearense, na Praça Verde do Dragão do Mar, em Fortaleza-CE. No cinema, em 2018, participou do filme “O Filho Único do Meu Pai!”, produzido por D1 Realizações (Danilo Carvalho) e dirigido por Dado Fernandes. Desde 2011, escreve o “Blog do Laprovitera”.

Totonho Laprovitera ocupa a cadeira de No. 16 da Academia Cearense de Artes – ACA (desde 2012); e a cadeira de No. 38 da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo – ACLJ (desde 2015). 

Totonho Laprovitera no Cariri Cangaço Personalidade , nesta segunda, 17 de maio de 2021, ao vivo às 20 horas no Instagram do Cariri Cangaço.

O Nordestino é Antes de Tudo um Forte.... e o que mais?


"O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral. A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista, revela o contrário. Falta-lhe a plástica impecável, o desempeno, a estrutura corretíssima das organizações atléticas.

É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo, reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos. O andar sem firmeza, sem aprumo, quase gingante e sinuoso, aparenta a translação de membros desarticulados. Agrava-o a postura normalmente abatida, num manifestar de displicência que lhe dá um caráter de humildade deprimente. A pé, quando parado, recosta-se invariavelmente ao primeiro umbral ou parede que encontra; a cavalo, se sofreia o animal para trocar duas palavras com um conhecido, cai logo sobre um dos estribos, descansando sobre a espenda da sela. Caminhando, mesmo a passo rápido, não traça trajetória retilínea e firme. Avança celeremente, num bambolear característico, de que parecem ser o traço geométrico os meandros das trilhas sertanejas. (...)
É o homem permanentemente fatigado."

Euclides da Cunha, Os Sertões

O Cangaceiro Cícero Costa Por:José Tavares de Araujo Neto


Embora nos dias de hoje seja pouco conhecido do grande público, Cícero Costa foi um dos mais célebres facínoras da história do cangaço. Apesar de comandar seu próprio bando, sua história se confunde com a de Luiz Padre e Sinhô Pereira, com quem participou de memoráveis eventos criminosos, a grande maioria à serviço do major Zé Inácio, proprietário da Fazenda Barro, localizada no município de Milagres, no cariri cearense.

Natural de Conceição, município paraibano localizado no Vale do Piancó, Cícero Costa de Lacerda se destacava pelo seu notável conhecimento a respeito doi poder medicinal da flora sertaneja. Era habilidoso no atendimento primeiros socorros, bem como no preparo de chás e meizinhas, diversidade de xaropes naturais, chamados de “lambedor”, elaborados a partir de misturas de mel de abelha, folhas, cascas e raízes de plantas da caatinga, destinados à cura dos mais diversos males. Não por acaso, Cícero Costa entrou para história como “o médico dos cangaceiros”.

Atendendo chamando de Luiz Padre e Sinhô Pereira, em abril de 1919, participou da defesa do povoado São Francisco, reduto da família Pereira do Pajeú, que há muito se encontrava em guerra com a família Carvalho. Naquela ocasião, o capitão da força pernambucana Holanda Cavalcante, aliado dos Carvalhos, decidiu ocupar aquele florescente povoado de Vila Bela, atual Serra Talhada/PE, sob o pretexto de que era um valhacouto de bandidos que praticavam os mais variados tipos de crimes na região.

Sinhô Pereira e Luiz Padre

Na entrada do povoado, a coluna do capitão Holanda Cavalcante, constituída por cerca de 72 policiais, foi surpreendida por uma bem arquitetada emboscada, que resultou em uma das mais humilhantes derrotas da Polícia Militar do Estado de Pernambuco. A força pernambucana teve uma baixa de nove soldados mortos e três saíram gravemente feridos, sem contar com o enorme prejuízo material, acarretado pelo extravio de armas e munições, deixadas pelos assustados praças que fugiram em desorientada disparada caatinga adentro. Neste combate também participaram os pombalenses Ulisses Liberato de Alencar e seu fiel amigo Barnabé Ferreira de Oliveira, o primeiro comandado o reforço enviado pelo major Zé Inácio do Barro.

Em fins de agosto de 1918, após um cerrado tiroteio, Eustáquio de Morais, subdelegado de Bonito, atual município de Bonito de Santa Fé/PB, então povoado de São José de Piranhas/PB, baleou e prendeu o famigerado cangaceiro Cícero Costa.  A sua permanência na cadeia de Bonito trouxe um enorme clima de tensão ao lugar, principalmente devidos as informações que corriam dando conta de que um grupo de cangaceiros se organizavam em Milagres, no vizinho Estado do Ceará, com vistas a vir resgatá-lo da prisão. A vigilância da cadeia foi reforçada e logo que o preso estava em condições de viajar, em meados de setembro, foi conduzido para a cadeia da cidade de Patos, sob uma forte escolta comandada pelo experiente tenente Manoel Benício.

Posteriormente, quando totalmente restabelecido, com igual esquema de segurança Cícero Costa foi conduzido para a cadeia de Pombal, o abrigo seguro para os fora-da-lei de maiores periculosidades. Porém, a estadia do bandido na cadeia não foi tão demorada como almejada pelas autoridades. No início de julho de 1920, o Jornal do Comércio veicula notícia dando conta que “Os cangaceiros Cícero Costa, José Coelho da Silva, Pedro Neco Fernandes e Melquíades Januário da Silva, que a muito custo haviam sido capturados e recolhidos a cadeia de Pombal, dali fugiram, auxiliados pelo soldado do destacamento policial Severino Alves de Oliveira”.

Rodrigo Honorato, Manoel Severo, Zé Tavares e Ivanildo Silveira

O soldado Severino Alves de Oliveira, que facilitou a fuga dos perigosos bandidos, aderiu às hostes cangaceiras, integrando o bando de Cícero Costa, onde foi batizado pelo cognome de “Fortaleza”. Em correspondência datada de 6 de outubro de 1921, publicada no jornal “O Norte”, de 8 de outubro, o tenente Manoel Cardoso, então delegado de Conceição, Estado da Paraíba, comunicou ao Chefe de Polícia do Estado que se encontrava preso na cadeia daquela cidade o cangaceiro Severino, vulgo Fortaleza, ex-praça que deu fuga ao célebre criminoso Cícero Costa quando preso na cadeia de Pombal. Adiantava o delegado, que o referido havia sido preso em uma diligência comandada pelo sargento Horácio.

Cícero Costa deixou registrada em sua extensa ficha criminal alguns fatos que mancharam de forma indelével a história do nordeste brasileiro. Dentre os quais, podemos destacar as seguintes façanhas de abominosas recordações:  1. Assalto à Fazenda Nazaré de Dona Praxedes (20/01/1919), viúva do coronel Domingos Furtado, um dos mais rentáveis financeiramente da história cangaceira; 2. trucidamento do valente João Flandeiro (12/01/1922), um humilde sertanejo que ousou contrariar os arroubos arrogantes do poderoso major Zé Inácio do Barro; 3. o “Fogo de Coité” (20/01/1922), episódio em que o Padre Lacerda heroicamente sustentou fogo contra o ataque de um bando integrado pelos mais afamados bandoleiros que estavam sob o auspicio do major Zé do Barro; 4. ataque ao então povoado de Jericó (24/01/1922), seguido do assalto a Fazenda Dois Riachos do Coronel Valdivino Lobo, além a outros fazendeiros da região de Catolé do Rocha (26/01/1922; 5. assalto à baronesa de Água Branca (23/06/1922), considerado o primeiro evento em que Lampião chefiou um bando. Realizado com objetivo de arrecadar recursos para cobrir despesas da viagem de Sinhô Pereira, foi por conta do sucesso desta missão que Lampião ganhou sua admiração e recebeu a chefia do bando em definitivo dois meses depois, quando o vingador do Pajeú partiu para o Estado de Goiás.

A partir da segunda metade de 1922, quando Luiz Padre, Sinhô Pereira major Zé Inácio já haviam deixado o Nordeste, Cicero Costa permaneceu mantendo a parceria criminosa com o antigo bando dos vingadores do Pajeú, agora comandado pelo jovem Virgulino Ferreira, alcunhado de Lampião. Consta neste período, o memorável ataque a cidade de Belmonte que redundou o bárbaro assassinato do Coronel Luiz Gonzaga Gomes Ferraz, em sua própria residência, fato ocorrido na madrugada do dia 20 de outubro de 1922. Neste mesmo episódio também foi a óbito o soldado Heleno, que fazia a defesa, e, do lado dos atacantes, morreram Antonio Cachoeira e José Dedé, o cangaceiro Baliza, reconhecido como um dos estupradores no ataque ao povoado de Jericó, no município de Catolé do Rocha. Cícero Costa saiu ferido, juntamente com os companheiros Zé Bizarria e Ioiô Maroto, membro da família Pereira, um dos comandantes da horda criminosa.

A carreira criminosa de Cícero Costa findou-se no início de 1924, ocasião em que ele foi prestar socorro paramédico ao seu amigo Lampião que estava gravemente ferido na Serra do Catolé, município de Belmonte, Estado de Pernambuco. O bando de malfeitores foi atacado pela força paraibana, comandada pelo tenente Cícero Oliveira e o sargento José Guedes, volante que também contava com o ex-cangaceiro Clementino Quelé e o soldado João da Mancha, este último tido como o sangrador oficial da polícia paraibana. Após intenso troca de tiros, os cangaceiros Cícero Costa e Lavandeira foram gravemente alvejados, capturados e depois sangrados, sob os olhares dos seus comparsas Levino, Meia Noite e outros, que impotentemente assistiam a cena macabra por entre as folhagens da mata cerrada.

José Tavares de Araujo Neto, pesquisador - Pombal-PB

05 de maio de 2021

 

O Fogo da Ipueira dos Xavier nos Grandes Encontros Cariri Cangaço


O ano de 1927 foi sem dúvidas, à exclusa de 1938; em função de Angico; um ano a ser esquecido por Virgulino Ferreira da Silva, Lampião, Rei do Cangaço. Imperador absoluto dos carrascais e caatinga sertaneja entre o Ceará e a Bahia, Lampião haveria de, no ano de 1927, amargar seus mais infelizes revesses... Foi em Maio de 1927 que recebeu uma "corsa" na cidade Uiraúna; sertão paraibano; em junho do mesmo ano a mais notável de todas as derrotas: Mossoró de Rodolfo Fernandes, desta vez no oeste potiguar e ainda em Fevereiro do mesmo ano a pequena Ipueira dos Xavier no município de Serrita, Pernambuco, também colocaria seu nome no rol daqueles que não se rederam à sanha do bando cangaceiro.

Ipueira dos Xavier, berço e morada do clã Xavier que tinha no coronel Pedro Xavier seu patriarca e grande referência e que possuía fortes e intimas ligações familiares com outro clã poderoso dos sertões pernambucanos, o do coronel Chico Romão. Ali nas Ipueira dos Xavier, no inicio de fevereiro de 1927, capitão Virgulino Ferreira seria rechaçado pela força, coragem e tenacidade desses sertanejos liderados pelo patriarca e familiares. Ao final de um cerco e um fogo de cerca de tres  horas, Lampião havia perdido um de seus melhores "fuzis", o cangaceiro Tempero, e teve que ordenar uma retirada diante da iminente derrota anunciada.

Coronel Pedro Xavier, patriarca do Clã Xavier

Para contar essa historia; a ligação dos coronéis do sertão de Pernambuco e do próprio coronel Pedro Xavier da Ipueira dos Xavier com o chefe dos cangaceiros, as razões, circunstâncias e o desfecho desse histórico episódio, Manoel Severo , curador do Cariri Cangaço recebe os pesquisadores; descendentes do clã de Pedro Xavier; Audízio Xavier e a escritora Maria do Socorro Xavier num "Ao Vivo" eletrizante...


O FOGO DA IPUEIRA DOS XAVIER
Grandes Encontros Cariri Cangaço
Quarta-Feira, dia 05/05/21
Ao Vivo 19h30
Canal do Cariri Cangaço no YouTube

A Intrigante Morte de Bom de Veras Por:Sálvio Siqueira

Coronéis, Chico Heráclito e Chico Romão

Entre os anos de 1919 a meados de 1927 o Sertão nordestino viveu o seu maior ciclo de terror. Nesse período foi quando mais se alastrou o banditismo rural com a formação de muitos grupos cangaceiros. Desde o Alagoas até o Cariri cearense, passando pela Paraíba e Pernambuco, os grupos de cangaceiros infestavam as caatingas e de quando em vez invadia Vilas, Povoados, pequenas cidades e sedes de algumas fazendas furtando, roubando, matando e extorquindo.

É sabido de que sem a proteção, o apoio e a colaboração de alguns “coronéis”, os mandachuva regionais, a sobrevivência dos bandos cairia à zero. A partir de 1922 um jovem pernambucano, natural de Vila Bela, começa a destacar-se dentre os vários chefes cangaceiros impondo táticas de guerra de movimentos deixando a Força Pública de vários Estados meio zonzas em suas missões.

Esse jovem chamava-se Virgolino Ferreira, o qual herdou o bando do chefe cangaceiro Sinhô Pereira, transforma-se naquele que seria o mais temido pelos sertanejos. Quando planejava uma ‘empreitada’ de grande porte, Virgolino, já alcunhado de Lampião, mandava convites para alguns chefes de bandos para que se juntassem ao bando chefiado por ele, no que era acatado sem muita demora ou contradições.

Surge o bando dos “Marcelino” composto pelos irmãos Manuel, Vicente e Pedro Marcelino que logo passam, respectivamente, a chamarem-se “Bom de Veras”, “Lua Branca” e “Vinte e Dois”.

Coronel Chico Romão

Bom de Veras participou mais intensamente das ações do grupo de Lampião, pois, em determinada época, fez parte e foi chefiado pelo mesmo. Registros literários nos mostram que Bom de Veras estava em Juazeiro do Norte, CE, no dia 4 de março de 1926 junto a Lampião quando esse recebe a patente de Capitão Provisório dos Batalhões Patrióticos. No decorrer desse ano Bom de Veras, ou seu nome, aparece constantemente junto ao de Lampião em várias ações praticadas pelos cangaceiros; foi denunciado em 1º de agosto daquele ano no processo instaurado sobre o ataque a fazenda Serra Vermelha; também é citado como participante do ataque a fazenda Tapera em 28 de agosto quando da chacina de alguns integrantes da família Gilo e é referido que tomou parte no combate da Serra Grande em novembro de 1926.

O bando dos Marcelinos, sob o comando de Bom de Veras, formou um bando que, segundo as informações de alguns autores, chegou a ser composto por, aproximadamente, vinte ‘cabras’ em determinada época..
Em setembro de 1926 o bando atacou a fazenda Granito. Tiveram participação no ataque a cidade de Cabrobó em 2 de setembro e, em 23 de novembro, teve participação no ataque a Vila de São Francisco.

Bom de Veras é abatido na véspera do natal de 1926, próximo à cidade de Salgueiro, PE, pela volante comandada pelo cabo Alfonso Rodrigues comandado por Theófenes Ferraz Torres. Como em quase toda morte de uma personagem de destaque nas hastes cangaceira, sua morte também é envolta em mistérios e possui mais de uma versão.

Manoel Severo, Peixoto Junior e Ângelo Osmiro

Principiando, mostraremos parte do depoimento de um parente do coronel Chico Romão, senhor dominante do Vale do Pajeú das Flores em Pernambuco, até o sul cearense, o qual é citado como mandante ou delator do chefe cangaceiro o qual encontramos na obra, livro, Os Fuzilados do Leitão:

“(...) Sobre o cangaceiro Bom de Veras, o que eu sei da história é que, o ponto principal era a fazenda que pertencia ao seu amigo e compadre (amigo e compadre do coronel Chico Romão), naquela localidade ( a fazenda Branquinha no município de Serrita, PE). Só que existe duas fazendas com o mesmo nome. Uma era do coronel Chico Romão e a outra era do herdeiro do coronel Agemiro Sampaio de Barbalha, que na época era esse amigo e compadre de tio Chico. Foi lá que se deu o roubo. Naquela época não tinha carros por aqui. Os ricos, em vez de carros possuíam cavalos(...). Sobre o tal roubo deu-se o seguinte, a fazenda ficava entre Serrita e Salgueiro(por um desvio) depois que roubou os animais, acampou a 3 km depois de Serrita. Um vaqueiro do compadre, seguiu o bando de Bom de Veras até o esconderijo. Voltou para Serrita e passou a informação para o patrão. Esse, dirigiu-se imediatamente para a casa de tio Chico em busca de ajuda. Meu tio mandou de imediato alguns homens de sua confiança selar os animais e acompanhá-lo, lá encontra o cangaceiro e seu pequeno grupo:

- Bom de Veras, eu vim resgatar os cavalos do meu compadre e amigo que você roubo!

Bom de Veras não esboçou reação nenhuma naquela hora.

Tio Chico corajosamente, fez uma advertência:

- Retire-se imediatamente do município de Serrita e entregue já os cavalos do meu compadre!

E acrescentou ainda (que) logo que chegar a Serrita mandaria buscar um reforço policial em Salgueiro.

Um doa cangaceiros ainda disse para o seu chefe Bom de Veras:

- Bom de Veras, nós vamos deixar esses homens sair daqui vivos?

Ele disse:

- Vamos cumprir o que o coronel está dizendo!

E entregou os cavalos de estimação do amigo de tio Chico Romão(...).” (VM, Pg 51 a 52,2012)

Seguindo a narração, o Sr. Lebom Ximenes Maia, sobrinho do coronel Chico Romão, acrescenta:

“O Coronel Chico Romão ao chegar a Serrita mandou rapidamente o pedido de reforço à polícia de Salgueiro. A volante chegou rápido a Serrita. Tio Chico mandou alguns de seus homens acompanha-la. Seguindo o rastro do bando até o esconderijo num local chamado Cachoeira da Miséria, no minadouro, onde teve início um tiroteio infernal. Bom de Veras foi morto(...). Só foi encontrado dias após. Já em estado de putrefação do corpo ( o mau cheiro teria chamado a atenção dos moradores). Seu bando foi disperso. Uns capturados e feridos. Outros, evadiram-se.” (VM, 2012)

Já o escritor José Peixoto Júnior, através de seu livro “Bom de Veras e Seus Irmãos”, nos conta dessa forma a morte do terrível cangaceiro:

“(...) Na ribeira do Riacho do Cachorro integrantes do grupo assaltaram um eleitor de Chico Romão, levando vinte e seis mil réis em dinheiro e peças de ouro. O eleitor correu até Serrita para queixar-se ao chefe amigo. Sem perder tempo, o coronel passou a perna na montaria do queixoso, por sinal cavalo de sela esquipador, e saiu em busca dos bandidos. Mandou um positivo ao Salgueiro comunicar o desaforo ao delegado civil de polícia Levino Barros(...).”

Notamos aqui uma contradição, entre uma e outra citação, sobre o produto do roubo e, na última, a não participação do chefe Bom de Veras. Continuando, o autor nos revela:

“(...) Na sede da Fazenda o grupo havia-se acomodado ocupando a casa sentados no chão. Aproxima-se, sozinho, o coronel Chico Romão e Bom de Veras vai recebe-lo no terreiro. Desapeia e, sem rodeios nem saudações, vai dizendo:

- Cadê o ouro e o dinheiro que os cabras seus roubaram no Riacho do Cachorro!?

Não foi difícil ao chefe da cabroeira encontrar os culpados.

Eram dois novatos, ainda titubearam, porém não se contiveram ante a ameaça da revista. Bom de Veras passou-lhes descompostura, pois estavam todos avisados de que nos domínios do cel. Chico Romão ninguém punha a mão em nada.

Nisso, o cabra Criança, muito atrevido, indagou de Bom de Veras:

- Padim, num tá no tempo de nós acabar o nim dos Romão?!

E Chico Romão de semblante sisudo, o olho fechado mais arregalado que o olho bom, respondeu com ares de mofa:

- Menino, esse ninho é muito grande!

Montou no cavalo, deu de rédeas e saiu sem se despedir, com o roubo recuperado. Talvez, não fosse esse assunto do ninho, e os soldados mandados de Salgueiro sido aconselhados a voltar(...).” (JP. 2009)

O chefe cangaceiro Bom de Veras jamais imaginou que seu protetor, o coronel Chico Romão, deixaria a polícia persegui-lo dentro dos seus domínios. Continuou na fazenda e esperou pela noite com todos se divertindo, jogando cartas e tomando cachaço. Chegando a Serrita a volante comandada pelo cabo Afonso Rodrigues, o mesmo se dirigiu ao coronel a procura de informações sobre o paradeiro do bando. Passado as informações, o cabo segue com cautela e planeja um cerco e um ataque aos cangaceiros.

O cabo dar ordens para que sua tropa cercasse a casa e dá voz de prisão ao chefe cangaceiro dando-lhe garantia de vida. Em resposta, o cangaceiro descarrega seu mosquetão de dentro da casa em direção aonde se encontrava o cabo Afonso. O mundo fechou-se e tiroteio foi tremendo. Pessoas dentro da casa se feriram e depois de certo tempo os cangaceiros furam o cerco e caem dentro da caatinga. Três dias depois o corpo do chefe cangaceiro Bom de veras é encontrado por uma senhora chamada Neném Alexandre.

A posição em que foi encontrado o corpo do cangaceiro é que nos chamo bastante atenção. Certamente não foi ferido no combate com a Força Pública naquela noite, apesar da imprensa noticiar de que sua morte deveu-se ao combate contra a volante do cabo.

O Jornal Pequeno, da cidade do Recife, em sua edição do dia 27 de dezembro de 1926 tráz a seguinte notícia:

“ No dia 24 do corrente, em Salgueiro, o cabo Afonso Rodrigues, um dos mais destemidos servidores da força do major Theophanes Torres, com 11 praças cercou um grupo de 18 bandoleiros, chefiados por Manoel Marcelino, vulgo “Bom Deveras”, depois de Lampião o mais terrível do grupo. O combate foi prolongado, oferecendo os bandidos uma tenaz resistência”.

Segundo o José Peixoto, o corpo do cangaceiro foi encontrado na seguinte posição: “Dobrado sobre o ventre, sentado na batata das pernas, tórax curvado para frente até a cabeça apoiar-se no chão, cotovelos afastados, pois as mãos seguravam firme o mosquetão, ora separando coxas do abdômen e servindo de espeque para o corpo não cair de lado, jazia Bom Deveras. Um furo entupido de sangue no barbicacho passado na testa, do seu chapéu de couro, mostrava o caminho da bala.”

De maneira alguma uma pessoa recebe um tiro de fuzil na esta e tem reflexo para ficar na posição em que foi encontrado o corpo do cangaceiro. Tiveram que decepar, cortar fora, os dedos da mão que segura sua arma, mostrando que foi morto com uma arma de calibre menor. Até pode ter sido abatido por um dos próprios companheiros... mas esse será mais um dos mistérios contidos na saga cangaceira.

Sálvio Siqueira, Pesquisador
Fonte Obras Citadas
Jornal Pequeno do Recife – 27/12/1926
Foto “Os Fuzilados do Leitão – Uma Revisão Histórica” – MACIEL, Vilma. 2ª Edição. 2012.
Identificação:
1 - Coronéis Heráclio e Chico Romão
2 - Coronel Chico Romão
3 - Bando de Lampião em 1926

Elane Marques hoje no Cariri Cangaço Personalidade , Ao Vivo no Instagram

ELANE MARQUES, pesquisadora e escritora, Conselheira Cariri Cangaço e Acadêmica Secretária da ABLAC;  no Cariri Cangaço Personalidade desta segunda-feira, dia 03/05/21. 

 Elane Marques é a convidada especial do Ao Vivo Personalidade , programa especial para a Plataforma do Instagram, do Cariri Cangaço, é nesta segunda-feira, dia 03 de Maio pontualmente às 20h, vem com a gente, segue la: @cariricangaço no Instagram.