Visita ao local da Prisão do cangaceiro Antônio Silvino.

Antônio Silvino, de pé, segundo à esquerda

No vídeo abaixo trazemos a primeira parte do depoimento sobre o local exato da prisão do cangaceiro Antonio Silvino, precursor de Lampião, que reinou por quase 15 anos no cangaço..... A Matéria completa é composta de três partes

Neste documentário você irá conhecer a antiga fazenda do Sr. Joaquim Pedro localizada no sítio Lagoa da Laje (no município de Frei Miguelinho, antes pertencente a Taquaritinga do Norte, no Agreste pernambucano) onde há cerca de 100 anos atrás ocorrera neste local a prisão do famoso cangaceiro Manoel Batista de Morais o famoso "Antônio Silvino" o "Rifle de Ouro", em 28 de Novembro de 1914, pelo alferes da polícia de Pernambuco Teófanes Torres.
PRIMEIRA PARTE DO VÍDEO:


Gentileza da postagem: VOLTA SECA / Facebook

Vídeo de Autoria do confrade: Francisco Ivan Nóbrega de Oliveira, 
Surubim-PE. (81) 9703-1745, 
e-mail: franciscoivanobregadeoliveira@hotmail.com. 

Os Monte e os Feitosa Por:Ronaldo Correia de Brito

"Quando o Cariri Cangaço vai fazer uma visita à Tauá e descobrir a maravilhosa saga de minha família ? Os Feitosa dos Inhamuns. Sim, sou tataraneta de Marica Macêdo do Tipi pelo lado materno, e Feitosa do Tauá pelo lado paterno. Então tomei a liberdade de enviar-lhes um artigo sobre a guerra entre as famílias Feitosa e Monte."
          ...Saskia Feitosa

Brigam Espanha e Portugal no sertão do Ceará...

O historiador cearense Capistrano de Abreu sugere um estudo mais aprofundado da colonização dos sertões brasileiros. Ressente-se que a maior parte da nossa historiografia não vai além do litoral. Isto é compreensível porque foi no litoral que cresceram as grandes cidades e escolas, ficando os sertões num isolamento que só diminuiu com o avanço das estradas e dos meios de comunicação. Esse desterro em que viveram populações inteiras justifica a permanência de hábitos alimentares, narrativas orais, cantos e danças. Jorge Luis Borges afirmava não ter encontrado o Oriente em Israel, encontrando-o na Espanha. Da mesma forma podemos afirmar que é possível encontrar um Portugal e uma Espanha que não mais existem, em sertões nordestinos esquecidos no tempo, vivendo medievalmente à margem da história.

A literatura brasileira mais fiel a uma épica sertaneja é o Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Ou será Os Sertões, de Euclides da Cunha? Em ambos, o tema da guerra é o motivo da narrativa. No primeiro, um romance, uma disputa entre bem e mal, os bandos de jagunços de Joca Ramiro e do Hermógenes; no segundo, um livro de sociologia e história, a mesma disputa entre bem e mal, representada no povo pobre de Canudos e nas forças policiais da riqueza e do poder instituído. A Guerra de Canudos significou mais para Euclides da Cunha que para a história política do Brasil. Euclides criou uma grande obra e os políticos e poderosos continuam indiferentes aos humilhados e ofendidos.

Três livros sem maior repercussão na vida literária do país, nem mesmo nas cidades onde foram criados, ilustram como vivemos à margem da nossa história: O Clã dos Inhamuns, do cearense Nertan Macedo; O Tratado Genealógico da Família Feitosa, do também cearense Leonardo Feitosa; e Os Feitosa e o Sertão dos Inhamuns, do brasilianista Billy Jaynes Chandler. Neles, conhecemos um pouco da colonização do Ceará, ocorrida a partir do final do século 17, e constatamos o que afirma o poeta Mário Hélio, que as histórias sertanejas em nada ficam a dever à épica e à tragédia gregas.

Duas famílias, os Monte e os Feitosa, durante anos guerreiam entre si, disputando terras e poder, nos sertões dos Inhamuns, Cariri e Icó, aliadas às tribos indígenas locais. O território da guerra é maior que o de muitos países europeus. O curioso da narrativa é que um pedaço da história de além-mar é transposto para as bandas de cá do Nordeste. Os Monte eram cinco irmãos, dois homens e três mulheres, de origem espanhola, que vieram da Europa, fugindo do rigor das perseguições da Inquisição. Dois deles, Geraldo do Monte e sua irmã Isabel, internaram-se nos sertões de Pernambuco e vieram ter ao Ceará. No engenho Currais de Serinhaém, em Pernambuco, residiam os Feitosa, de origem portuguesa, que se comprometeram gravemente no levante dos Mascates do Recife. Para evitar a perseguição que se fez aos brasileiros que entraram nesta sedição, fugiram para o interior do Ceará, onde se fixaram nas proximidades de Icó. O relato é dos historiadores citados. O destino faz com que essas duas famílias se encontrem e se cruzem. Isabel, irmã viúva de Geraldo do Monte, casa com Francisco Feitosa, da família de Serinhaém.

Região dos Inhamuns, no Ceará

A trama está armada. Questões de honra e disputas pela terra colocam os Monte e os Feitosa em palcos diferentes. A Ibéria se transpõe para as terras secas dos sertões cearenses. A Espanha representada por perjuros e Portugal, por insurrectos. Guerras e rivalidades seculares podem se continuar na paisagem de angicos, aroeiras, imbuzeiros, jucás e pereiros; e no leito seco de rios que só correm no inverno. Ao invés de castelos de ameias, casas de taipa de cumeeiras altas, só mais tarde substituídas por casarões alpendrados de tijolo, alguns com pedestais de mármore vindos da Itália. No lugar de armaduras e brasões de metal reluzente, roupas de couro rude, dos rebanhos apascentados no planalto. Os luxos de ouros e veludos só irão aparecer depois. No início, só existem a dureza da terra, a lei bárbara, a solidão. Matanças infindáveis para garantir o poder. A união proposta pelo casamento degenera em guerra. O velho sangue ibérico, diluído em gerações, é sempre o de espanhóis e portugueses, disputando pedaços de terra.

É também possível que a guerra entre Tróia e Grécia tenha significado mais para Homero, que para os gregos. Homero escreveu o seu poema, que fixa o idioma clássico, organiza a mitologia, arruma os deuses no Olimpo. Os bravos aqueus ou morreram nos combates ou em casa, velhos e nostálgicos. Sem Homero, eles não teriam existência, cobertos pela poeira do esquecimento. A guerra sertaneja entre Montes e Feitosas já rendeu alguns livros. Poderá render muitos outros, pois sobram enredo e mistério. Falta o olhar sobre a nossa história, para que não aconteça o que canta Gerardo Melo Mourão: “Iam caindo: à esquerda e à direita iam caindo; ...primeiro os que já eram lenda na memória dos velhos, depois os avós de meus avós, porque antes tombavam hierárquicos e cronológicos”. Caindo todos no esquecimento da nossa pobre história de Nação.


Ronaldo Correia de Brito

Os Viriatos Por:Sousa Neto

Marquinélio Tavares, Manoel Severo e Sousa Neto

No meu modesto trabalho sobre "José Inácio, o Barro e o cangaceirismo no sul do Ceará" assim escrevi: “O cangaceirismo chegou ao Barro ainda no período do Brasil Império, a partir da segunda metade do século XVIII com “OS VIRIATOS” liderados por José Vicente Viriato, no povoado de Boa Esperança, hoje Iara no município do Barro, organizavam grupos de bandoleiros e aterrorizavam essa e outras comarcas de estados vizinhos. Assaltavam, saqueavam e extorquiam famílias mais abastadas da região do oeste paraibano e do Rio Grande do Norte, de Icó e Lavras no Ceará”.


Na esplêndida entrevista dos representantes do GPEC (Grupo Paraibano de Estudos do Cangaço) Narciso Dias e Jorge Remígio referendaram o que publiquei. É fato que a grande maioria do povo nordestino e do Brasil desconhece esse episódio e acham que o movimento em destaque começa e termina com Lampião. É verdade que Lampião se tornou celebre e hoje é a figura mais biografada na América Latina, mas há décadas antes de seu nascimento, O CANGAÇO já era praticado no sertão do nordeste.Para ilustrar o meu enunciado vos apresento uma matéria jornalística de 1877. Um abraço a todos!

Sousa Neto
Pesquisador e escritor
Conselheiro Cariri Cangaço

Lampião: bandido, herói e outros adjetivos Por Thiago Fragata

O Cangaço na Arte de Jô Fernandes

O cangaço influenciou boa parte dos movimentos sociais que pontificaram o Brasil no século XX. No século XXI o fato se renova, a insinuação da homossexualidade de Lampião constitui um bom exemplo porque atrelar qualquer tema ao cangaço ou buscar inspiração nele significa atrair público, a opinião pública.  

O fato é que ninguém consegue ficar alheio ao cangaço e seu maior representante, o afamado Virgulino Ferreira da Silva, apelidado Lampião. Já em 1937, Jorge Amado inseriu na sua obra Capitães da Areia uma importante observação: “porque a população dos cinco estados, de Bahia, Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Sergipe, vive com os olhos fitos em Lampião. Com ódio e com amor, nunca com indiferença”. Acrescentaria Ceará e Rio Grande do Norte.

Nos dias atuais vemos estudiosos apaixonados pelo exemplo de resistência ao mandonismo dos coronéis e desenvoltura perante as adversidades do sertão nordestino. A saga lampiônica começou em 1918 e findou na Grota de Angicos, Poço Redondo, em 1938, somando 20 anos de ataques, fugas e revides. 



Invariavelmente, figuram adjetivos nas obras em geral que tematizam o cangaço, mesmo trabalhos acadêmicos com foros de imparcialidade, que desvelam um olhar engajado. Se no meio acadêmico o cangaço tem seus mais ardorosos simpatizantes, com raríssimas exceções, imagina no seio das populações que conviveram e tiveram experiência positivas ou negativas.

A discussão bandido ou herói dividiu e divide a sociedade. Folheando alguns livros recolhemos expressões curiosas e/ou adjetivos que representam opiniões. Vejamos repertório de Frederico Bezerra Maciel, legítimo representante dos defensores da missão divina e heroica de Virgulino Ferreira da Silva:

Rei do cangaço, Senhor absoluto do sertão, Sua Majestade Lampião, Imperador do Sertão, Rei do Norte, Governador Lampião, Hobin Hood do Nordeste, Interventor do Sertão, Sinhô Lampião,Gênio em tudo, Homem de palavra, Justiceiro, O mesmo [para Bahia] o que fora Padre Cicero para Juazeiro, Ídolo de todos, Invulnerável, Invencível, Eterno, Lampião era o povo, Símbolo das reivindicações sociais, O sertão ínterim, Libertador dos homens explorados do sertão imenso,Paterno e dócil na intimidade, napoleonicamente enérgico no comando, Maior guerrilheiro das Américas, Portador de uma luz de inteligência superior, penetrando até os domínios da cultura, dentre outros.


Por outro lado, minoria de estudiosos renitentes, ora estribado no argumento da legalidade, do Estado de direito, ora afetado pelas estripulias praticadas por Lampião e seus asseclas contra populações indefesas, enfileiram acusações e adjetivos contundentes contra o vilão. Parapesquisadores como Frederico Pernambucanos de Mello e Rodrigues de Carvalho a completa definição de Lampião inclui os termos:

 “Criminoso, truculento celerado, bandido sem ética, alienado mental, nocivo, rapace por cleptomania, sadicamente perverso, imoral currador dos infelizes sertanejos, taciturno caolho, refece profissional, tenebroso celerado, avarento, corruptor das famílias, anjinho de asa de morcego, carne de pescoço infernal, catingueiro e sagaz, soturno sicário, miserável refece, terrível sicário, ardiloso sicário semi-analfabeto, espírito de porco espinho, demônio de sagacidade e esperteza, facínora destituído de humanidade, lombrosiano”, dentre outros adjetivos.

No universo da literatura de cordel é recorrente o tema cangaço. Não é difícil encontrar os títulos referente a chegada de Lampião no céu, no inferno e mesmo ao purgatório. Declara Maria Ângela de Faria Grillo que nos cordéis “as representações sobre cangaceiros diferem das encontradas nos livros didáticos o na literatura oficial. Quase sempre tratados como bandidos nestes espaços, nos cordéis são, pelo menos, mais contraditórios”, ou seja, são assassinos mas são românticos, roubam mas ajudam os pobres, enfim, possuem carga heroica.

Lampião dos cordéis mantém traço heroico e contraditório
Numa rápida leitura de A chegada de Lampião no Céu (s/d), de Rodolfo Coelho Cavalcante; de A chegada de Lampião no inferno, de José Pacheco, e A Chegada de Lampião no purgatório (s/d), de Luiz Gonzaga de Lima (1981) captamos a impressão a respeito da polêmica bandido x herói. Lampião retratado por Rodolfo Coelho Cavalcante não merece entrar no céu por isso é mandado ao purgatório. Daí foi expulso por São Miguel, segundo verso de Luiz Gonzaga de Lima. No inferno não ficou, agora expulso por Lúcifer, desde então vaga pelos sertões feito alma penada a soprar estórias e inspirando arte popular nordestina, tudo para não deixar o Brasil esquecer o cangaço.
Lampião é o herói-bandido dos cordéis

Thiago Fragata

Pesquisador, especialista em História Cultural pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (IHGSE) e diretor do Museu Histórico de Sergipe (MHS/SECULT). Matéria especial para o blog do Museu Histórico de Sergipe e sua exposição “Cangaço: por dentro do emborná e na ponta do punhá” (22 de agosto a 22 de setembro de 2012).E-mail: thiagofragata@gmail.com

http://museuhsergipe.blogspot.com.br/search/label/Lampi%C3%A3o

Lampião no Município de Aurora Parte 2 Por: Amarílio Gonçalves Tavares

Arte de Aldemir Martins

"Fugindo de Mossoró e tendo no encalço as forças volantes do Rio Grande do Norte e Paraíba, totalizando mais de 200 homens, Lampião descamba para a região do Cariri cearense, rumo a Aurora, para o refúgio de Izaias Arruda...Chegando ao lugar Ribeiro..."

A tropa que teve encontro com os bandoleiros foi a do tenente Arruda, em piquetada no sítio Ribeiro, onde aconteceu um fato tão misterioso, quanto engraçado. Não obstante o lugar se achar “ bem guarnecido “, ao clarear a barra , “ O Grupo de Bandoleiros, sem sofrer o menor revés, passou entre as trincheiras, nas quais os soldados dormiam, para só despertarem depois, com cerrada fuzilaria, quando os bandidos não estavam mais ao alcance da pontaria da polícia” O Grupo ocultou-se no vale do Bordão de velho.

Do local onde estava, lampião enviou dois cabras ‘a casa de João Cabral, morador ali perto, convidando-o a vir a sua presença. João Cabral atendeu e Lampião disse-lhe estar com fome e sede, pedindo alimento e água para o grupo, no qual foi atendido. Marchando pelo pé da Serra da Várzea Grande, Lampião chega a fazenda Malhada Funda, onde faz alto, sendo recebido por Gregório Gonçalves, que, após saber com quem estava falando, perguntou a Lampião em eu podia servi-lo.


Amarílio Gonçalves Tavares

Este respondeu “ só quero comida para minha rapaziada. Gregório Mandou matar o boi que estava no curral, e duas ou três ovelhas. Os cangaceiros estavam com tanta fome, que não esperaram. Comendo as carnes sapecadas. Os quartos de Ovelha, eles colocaram nos bornais sobressalentes, junto com farinha e rapadura. Ao retirar-se, Lampião levou João Teófilo como guia. Este saiu montado num burro que o bandoleiro havia tomado de um cidadão que estava comprando rapaduras. O Bando saiu na direção sudeste do município. Lá muito adiante, o guia foi substituído por outro de nome David Silva, tendo Lampião recomendado a João Teófilo pra só voltar quando escurecesse, e que não fosse pelo mesmo caminho.

Continuamos a narrativa, baseada no livro do Major: “Em sua marcha, Lampião procurou a Serra do Coxá, na divisa do município de Aurora com o de Milagres, burlando a vigilância dos policiais, de tal modo que estes se afastavam do ponto em que estavam os bandidos, tomando o rumo de Boa Esperança, serrote do Cachimbo, Riacho dos Cavalos, Ingazeiras e Milagres. Como se Vê, Lampião era um perito em estratégia Militar. Uma de suas táticas consistia em ludibriar a polícia que andava no seu encalço, como fez, quando procurou a Serra do Coxá. Deste modo, tornou-se inócua a providência do Major Moisés, designando o tenente Caminha para colocar piquetes nas estradas, uma vez que, por estas, não passarias o grupo de bandidos.


Enquanto Lampião ficava escondido na Serra do Coxá, O tenente Manoel Firmo seguia para o lado oposto, isto é com a sua tropa, passava de trem por Aurora, em demanda ao cariri, sem dar satisfações ao seu chefe, major Moisés, que naqueles dias se encontrava em nossa cidade, em tratamento de saúde. Com o tenente Manoel Firmo, viajavam os tenentes Luis Leite, Laurentino, Moura Germano, em passeio a Juazeiro e Crato, totalmente despreocupados com os bandidos. Para piorar a situação do “comandante das tropas“ em operações”, chegavam em Aurora o contingente comandado pelo tenente Agripino de Lima, que conduzia trinta e quatro animais de montaria, tomados a fazendeiros de Icó, Pereiro e Jaguaribe.

Virgulino Lampião

Quando o Major pensava que o oficial vinha em seu auxilio, o tenente Agripino comunicava-lhe que resolvera abandonar a campanha e voltar pra o Rio Grande do Norte. Diante disso, o Major Moisés apreendeu os referidos animais, entregando ao sr. Vicente Leite de Macedo, com a recomendação de devolvê-los aos respectivos donos. Além dos animais tomados a sertanejos, o Major Moisés constatou irregularidades na tropa do tenente Agripino, como a venda de munição feita por praças e muitas destas se entregando ‘a embriaguez. A Atitude do tenente Manoel Firmo, viajando para juazeiro e Crato, arrastando o grosso da tropa e quatro tenentes, deixou o comandante Moisés “num mato sem cachorro“ . O Major viu-se na contingência de pedir ajuda – imagine o leitor a quem _ Ao coronel Isaias Arruda, o mesmo que, tempos atrás, havia acoitado Lampião,mas que, agora, dava uma de perseguidor do bandoleiro, pondo oitenta e sete cabras á disposição do major Moises.

Se no combate travado com os bandidos, na serra da Macambira, havia cerca de 400 praças, como se explica ter o major Moisés levado para Ipueiras apenas 15 soldados. Descoberto o paradeiro de Lampião no alto da serra do Coxá, destacaram-se elementos de confiança para, aproximando-se do grupo, conhecerem melhor a sua posição, dentre eles Miguel Saraiva, tio de um dos bandoleiros e morador nas proximidades. Foi então que o Major Moisés e Isaías Arruda conceberam um estratagema, que consistia em preparar um almoço para Lampião e seus cabras, na casa de José Cardoso, em Ipueiras, e juntos, abaterem o bandido, e juntos, abaterem o bandido nas hora conveniente.

Miguel Saraiva se faz acompanhar de oito homens que se apresentam a Lampião, fingindo que são perseguidos pela polícia, e para melhor comover o chefe do bandoleiros, lamentam e choram a sua desgraça, tentando com isso, infiltrar-se no bando. “Alguns bandoleiros aceitaram a presença de novos companheiros, mas Lampião logo faz sentir que não acolhia em seu grupo pessoas que lhe fossem estranhas” os oito homens de Miguel Saraiva tinham recebido instruções para atacar os bandido na hora em que o grupo “ descansasse” a armas para almoçar.
Simultaneamente, os soldados e jagunços puseram-se discretamente em volta de casa, prontos para fechar o cerco aos bandidos, no momento oportuno. Mas o ardil fracassou, porque Lampião, sagaz, arisco e desconfiado, chegou e rejeitou o almoço oferecido por Miguel Saraiva. E colocou sua gente em pontos diversos e estratégicos.Eis como o major Moisés descreveu o tiroteio:


Izaias Arruda

“ Conhecido o fracasso do estratagema, fomos impelidos a atacar os bandidos, com ímpeto, de sorte que, em pouco tempo, estavam debaixo de cerrada fuzilaria. A luta teve início pouco mais ou menos ‘as 12 horas do dia 7 de julho, tendo uma duração de mais de três horas, terminou infelizmente, porque os bandido caíram em fuga, e no campo deixaram dois mortos, um queimado, que recebeu vários ferimentos, e outro também morto na ocasião em que fugia”. Essa foi a história narrada pelo major Moisés no citado livro. Entretanto, existe outra versão para o episódio segundo nos contaram Róseo Ferreira e Vicente Ricante que , na época, moravam nas proximidades da fazenda Ipueiras, a coisa aconteceu assim.

O Major Moisés Leite e o Coronel Isaías Arruda combinaram um plano de acabar com Lampião, assim que este chegasse em Ipueiras, pois sabiam que o grupo vinha desmuniciado e bastante desfalcado, em conseqüência da derrota sofrida em Mossoró e das deserções que se seguiram ao frustrado ataque aquela cidade norte riograndense. Lampião ficara na manga com a cabroeira. Convidado pra almoçar na casa de José Cardoso, na citada fazenda Ipueiras, o Rei do Cangaço compareceu com alguns dos seus rapazes. Quando Miguel Saraiva chegou e pôs sobre a mesa o alguidar contendo o almoço envenenado, Lampião tirou do bornal um colher de latão e meteu-a na comida. Quando puxou a colher, o bandido notou mudança de cor e deu alarme.
“ninguém come desta comida. Esta comida está envenenada! Nisso, Lampião e seus cabras conseguem romper o cerco de um cordão de jagunços e soldados a paisana que se formara em volta da casa, e correm pra a manga onde ficara a maior parte da cabroeira, sendo atacados pelo cabras de Isaías e soldados do major Moisés.


Arte de Aldemir Martins

Ao mesmo tempo em que estrugiu a fuzilaria, os atacantes lançaram fogo na manga, por todos os lados do local em que estavam os cangaceiros. Lampião investiu várias vezes contra os atacantes, conseguindo, por fim, escapar por um corredor. Lampião perdeu dois cangaceiros, um queimado e ferido por ocasião do ataque. O Outro, com ferimento no ouvido, ficou em Ipueiras, em tratamento, mas os coiteiros acabaram de mata-lo, tocando fogo no cadáver... Ao escapar do cerco de Ipueiras, lampião tomou o rumo da serra do Góes, perto de São Pedro do Cariri, atual Caririaçu. Veja o leitor o Zig- zag feito por Lampião para confundir a polícia. No dia 7 de julho, saiu de Ipueiras, desceu pelo riacho do Pau Branco, atravessou o rio Salgado no lugar Barro Vermelho, passou pelos sítios Jatobá e Brandão, fazendo “ alto “ em Vazantes.

Na serra dos quintos, fez um refém – o Sitiante Joaquim de Lira – para ensinar o caminho para a serra do Góes, onde chegou, no início da noite. Na manhã do dia 9, Lampião deixou a serra do do Góes e rumou para o município de Milagres, atravessando a via ferrea no lugar Morro Dourado. O Major Moisés havia mandado tomar as ladeiras da Serra do Mãozinha e São Felipe, por onde poderia passar o bandoleiro. Mas Lampião, mais uma vez, conseguiu burlar a força policial e penetrou no estado da Paraíba, pela serra de Santa Inês, no rumo de Conceição do Piancó, de onde prosseguiu em fuga para Pernanbuco.

Amarílio Gonçalves Tavares
TEXTO RETIRADO NA INTEGRA DO LIVRO AURORA HISTÓRIA E FOLCLORE, 
AMARÍLIO GONÇALVES TAVARES P. DE 138 A 146 IOCE, 1993 - CAPÍTULO 15
(Cortesia do Envio: Luiz Domingos de Luna)
FONTE:http://www.icoenoticia.com/2009/05/lampiao-no-municipio-de-aurora.html

Divine Académie Française des Arts Lettres et Culture Por:Socorro Cavalcanti

Francisco Clementino, presidente da ACE


Em março de 2014, ao ser empossada em Paris como Embaixadora da Divine Académie Française des Arts Lettres et Culture, aceitei o desafio de trazer à Fortaleza a Presidente dessa Academia – Diva Pavesi, para: com o apoio das Academias de Letras, filiar 30 cearenses e norte-rio-grandenses como membros de Honra dessa Academia e organizar uma coletânea bilíngüe (Português e Francês), para ser lançada no 35º Salão do Livro de Paris, em março de 2015. 

Coordenei esse Projeto e com a adesão da ACE e o respaldo de 12 Academias do Ceará e 03 de Mossoró e Natal-RN (Museu do Sertão, SBEC e Instituto Câmara Cascudo), realizamos esse sonho, a Presidente Diva Pavesi veio à Fortaleza e no dia 13.12.2014 empossou 31 Membros de Honra, outorgou altas insígnias à personalidades governamentais, militares e eclesiástica (Bispo Diocesano, Governador, vice-governadora eleita, Comandante da Policia Militar do Ceará e os presidentes das Academias de Letras do Ceará e de Caucaia), através de uma linda solenidade, tida como extraordinária - singular, nunca vista no nordeste brasileiro. 

Socorro Cavalcanti apresenta a Divine Académie Française des Arts Lettres et Culture

Para completar esse sonho, em março de 2015, será lançada no Salão do Livro de Paris, a Coletânea bilíngue CEARÁ EM CENA, composta de 32 escritores e poetas do Ceará e do Rio Grande do Norte. Com vistas a esse lançamento em Paris, na cidade da Luz, 22 pessoas já estão com passagens compradas e hotel reservado.

Para tanto, de mãos dadas, fizemos o máximo e esperamos que os erros cometidos, involuntariamente, sejam perdoados e por nós da equipe do Projeto Cultural França Brasil sejam encarados com humildade e consciência, para melhorarmos os próximos eventos!


Socorro Cavalcanti
Fortaleza, Ceara

A Lendária Fazenda Abóboras Parte 2 Por: Rostand Medeiros

Rostand Medeiros ao lado de Ivanildo Silveira, João de Sousa, Lívio Ferraz, Kiko Monteiro e Paulo Gastão; no Cariri Cangaço em Crato

Outros Episódios do Ciclo do Cangaço na Fazenda Abóbora...

Pelos muitos autores que se debruçaram sobre o tema cangaço e pelos relatos da região está mais que provado a franca convivência entre os membros da família Diniz e os cangaceiros no seu verdadeiro feudo na Abóbora. Mas no meio desta história, onde estava o aparato de segurança do estado? Segundo informações colhidas pelo autor deste artigo, que esteve na região em várias ocasiões, a polícia frequentava a Fazenda Abóbora, mas o poder dos Diniz era tal, que os homens da lei tinham que avisar com antecedência que iriam lá.

Daí, no caso de cangaceiros estarem acoitados na grande gleba, estes eram informados por Marçal, Marcolino ou alguém de confiança, e seguiam tranquilamente para coitos nas Serras Comprida, da Pintada, ou da Bernarda, ou nas propriedades denominadas Xiquexique, Pau Branco, Areias do pelo Sinal e outras. Essa verdadeira promiscuidade praticamente só vai ter um fim diante da extrema repercussão do ataque dos cangaceiros a cidade de Sousa, na Paraíba. Ocorrido na noite de 27 de julho de 1924, o fato logo ganha destaque nas páginas de vários jornais e assusta as autoridades nas capitais da Paraíba e de Pernambuco. Em pouco tempo os líderes sertanejos são instados a negarem a proteção dada aos bandos de cangaceiros. [8]

Theophanes Ferraz Torres

Tanto assim que três dias após o assalto a Sousa, ao meio dia, uma força volante sob o comando do major Theophanes Ferraz Torres, trava um combate contra um grupo de cangaceiros comandados por Sabino, que foge sem dar prosseguimento à luta. Certamente Sabino tentava chegar ao seu conhecido “lar” e teve esta desagradável surpresa. [9] Ao longo do mês de agosto de 1924 vários combates serão travados na região. Tiroteios nos lugares Areias do Pelo Sinal, Serra do Pau Ferrado, Tataíra e outros vão marcar a história de luta contra os cangaceiros. Não havia propriedade que não pudesse ser adentrada e varejada pela polícia. Mas não seria o fim da presença de cangaceiros no local.

"Diário de Pernambuco", 4 de agosto de 1926

Em uma pequena nota existente na página quatro do jornal “Diário de Pernambuco”, edição de quarta feira, 4 de agosto de 1926,  encontramos a informação que por volta das três horas da tarde do dia 30 de julho, na área da Fazenda Abóbora, foram mortos pela polícia pernambucana e paisanos, depois de demorado tiroteio, os cangaceiros Juriti e Vicente da Penha. Juriti era erroneamente apontado pelo jornal como sendo o comandante de um ataque ocorrido no dia 7 daquele mesmo mês, a uma casa comercial em Triunfo. No caso o comandante da ação foi Sabino.

O “Coito” do Coronel José Pereira...

Com o declínio da ação de cangaceiros na região de Triunfo, discretamente a Fazenda Abóbora deixa de ser local de combates, mas não deixaria de servir como um ótimo esconderijo. Em 1930, eclodiu um grave conflito armado na vizinha Paraíba, mais precisamente no município de Princesa. Entre as origens deste sério problema, estavam as divergências entre o governador eleito da Paraíba em 1927, João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, e os coronéis monopolizadores da economia e política do interior do estado.

João Pessoa discordava da forma como este grupo político, que o elegera, conduzia a política paraibana. Entre estes poderosos era valorizado o grande latifúndio de terras do interior, possuidores de grandes riquezas baseadas no cultivo de algodão e na pecuária. Estes fazendeiros, como vimos no exemplo de Marçal Diniz, atuavam através de uma estrutura política arcaica, que se valia entre outras coisas do mandonismo, da utilização de grupos de jagunços armados, da conivência com cangaceiros e outras ações as quais o novo governo não concordava.

Um dos pontos mais fortes da discórdia era cobrança de taxas de exportação do algodão. Os ditos coronéis paraibanos exportavam a produção desta malvácia pelo porto do Recife, causando perdas tributárias para o estado da Paraíba. O governador estabelece diversos postos de fiscalização nas fronteiras do Estado. Por esse motivo os coronéis do interior passaram a apelidar João Pessoa de “João Cancela”.

José Pereira

O fazendeiro e líder político José Pereira Lima, mais conhecido como “Coronel Zé Pereira”, da cidade de Princesa, era o mais poderoso entre todas as lideranças do latifúndio na sua região. Para muitos ele é descrito como verdadeiro imperador do oeste da Paraíba, na área da fronteira com o estado de Pernambuco. Zé Pereira contava com o apoio dos governadores de Pernambuco e do Rio Grande do Norte, respectivamente Estácio de Albuquerque Coimbra e Juvenal Lamartine de Faria. Diante do impasse com o governador João Pessoa, Pereira declarou Princesa “Território Livre”, separando-o do estado da Paraíba, tornando-o absolutamente autônomo.

A reação do governo estadual foi pesada e uma verdadeira guerra começou. Princesa se tornou uma fortaleza inexpugnável, resistindo palmo a palmo ao assédio das milícias leais ao governador João Pessoa. O exército particular do Coronel José Pereira era estimado em mais de 1.800 combatentes, onde diversos lutadores eram egressos das hostes do cangaço e muitos eram desertores da própria polícia paraibana.

Combatentes da Guerra de Princesa-Fonte - http:rotamogiana.blogspot.com

A força do governador João Pessoa possuia cerca de 890 homens, organizados em colunas volantes. Essas colunas eram chefiadas pelo coronel comandante da Polícia Militar da Paraíba, Elísio Sobreira, pelo Delegado Geral do Estado, o Dr. Severino Procópio e José Américo de Almeida (Secretário de Interior e Justiça). Marçal Florentino Diniz e Marcolino, ligados por parentesco com José Pereira, se juntam a luta na região. Houve muitos episódios sangrentos na conhecida Guerra ou Sedição de Princesa.

João Pessoa assassinado. Estopim da Revolução de 30

Após a morte do governador João Pessoa, ocorrida em Recife, houve a consequente eclosão da Revolução de 30 e o conflito em Princesa acabou. Durante os quatro meses e vinte e oito dias que durou sua resistência, Princesa não foi conquistada pela polícia paraibana. Após a eclosão da Revolução, as tropas do Exército Brasileiro, de forma tranquila, ocuparam a cidade.Para muitos pesquisadores José Pereira Lima organizou de tal maneira a defesa dos seus domínios, que provocou baixas estrondosas à força pública paraibana.Diante da derrota, José Pereira e muitos dos que lutaram com ele fugiram da região. A família Diniz se retraiu diante do novo sistema governamental imposto e a fortuna de Marçal e Marcolino ficou seriamente comprometida.

O tempo dos caudilhos do sertão estava chegando ao fim, pelo menos naquele formato utilizado por Marçal Diniz e José Pereira. José Pereira deixa Princesa no dia 5 de outubro de 1930 e fica escondido em propriedades de pessoas amigas, em diversas localidades existentes em outros estados. Segundo o Sr. Antônio Antas, depois de percorrer vários locais, segundo lhe informou o próprio Marcolino Diniz, José Pereira passou muito tempo escondido na Fazenda Abóbora, até que em 1934 o novo regime lhe concedeu anistia e ele decidiu permanecer em território pernambucano.

Antônio Antas, conviveu quando jovem com Marcolino Diniz, seu parente. Um grande amigo e memória viva da história de sua região

Mas segundo o Sr. Antônio Antas, a situação na Fazenda Abóbora não foi fácil. Um ano depois da anistia, por ordens de Agamenon Magalhães, então Interventor Federal em Pernambuco, a polícia estadual cerca a Fazenda Abóbora. José Pereira escapa, volta a Princesa e recebe garantias dos líderes estaduais paraibanos.

Rostand Medeiros, pesquisador e escritor
Fonte:tokdehistoria.com

[8] Sobre o ataque a Sousa ver o livro “Vingança, Não”, de Francisco Pereira Nóbrega.
[9] Sobre este combate ver “Pernambuco no tempo do Cangaço – Theophanes Ferraz Torres, um bravo militar (2 volumes)”, de Geraldo Ferraz de Sá Torres Filho, págs. 379 e 380.

As Excentricidades do Banditismo Por: Donatello Grieco

Ranulfo Prata e o seu Livro sobre Lampião...

Ainda outro dia um jornalista francês falou da “decadência do documentário”. Apontava exemplos significativos: os livros de “choses-vues”, de reportagens sensacionais, de viagens pelo Tibete, arrancadas pelo Saara, “visões da China”, “espelhos do Alasca”, “infernos dos vivos”, etc. etc., eram todos, muitas vezes, frutos de imaginação excitada. Nem sempre os “fatos descritos correspondiam à mínima partícula da realidade, ou os “gestos” exaltados apresentavam dez por cento de caracteres de autenticidade de fácil comprovação. Assim, o foliculário gaulês decretava a morte do documentário.

Sem querer incidir no vício brasileiro de achar que no Brasil tudo é assombroso, formidável, gigantesco, eu chamaria a atenção de tal jornalista, e de todos os descrentes nas obras de honestidade de documentação, para o volume que o senhor Ranulfo Prata acaba de publicar sobre Lampião. O assunto é velho. Como antiga é a fama do bandoleiro, e antiga a descrença dos nordestinos em qualquer possível medida para o extermínio do mal.

Ainda, há meses, em Propriá, cidadezinha perdida às margens de um São Francisco muito minguado (uma desilusão, o São Francisco!), um caboclo narrava à assistência extasiada, de jornalistas do Sul, “fatos” e “gestos” de Lampião. Mas com uma perfeição de detalhes que tornava todos os aspectos da narrativa ainda mais saborosos. Perguntei-lhe então como conseguira tanta minúcia interessante a respeito. E ele:


Lampião em foto de 1926

- Ora, todo mundo sabe. Nós todos somos repórteres “formados” em Lampião. Pois ele não anda por aí, soltinho?...

Nos primeiros tempos, o caboclo encarou o banditismo como uma praga. Depois, o espírito brasileiro dos filhos do Norte foi se acostumando com o flagelo; a praga, já que apresentava caracteres de eternidade, devia ser encarada de outro modo. Por exemplo, como a seca. A seca é uma praga, contra a qual não há remédio. O banditismo será também encarado como a seca. Essa a filosofia do caboclo.

Já o senhor Ranulfo Prata, que passou pelos bancos dos cursos secundários e de uma escola de medicina, não tem (nem podia ter) essa opinião resignada, apalermada, admirativa, mesmo, do flagelado diante do flagelo. Ele chega por vezes mesmo a ter palavras violentas. Os vocábulos “chaga” e “vergonha” aparecem a cada passo. Terá o senhor Ranulfo vantagem com isso?

Em qualquer país, um livro como “Lampião” causaria crises ministeriais e quedas de gabinetes. No Brasil, quando muito, arrancará gritos de indignação dos burgueses e fará com que se levantem os punhos rotos dos revoltados. Uns gritarão: “É uma miséria!” E outros: “São os defeitos do regime!” Mas aqueles que deveriam gritar, não gritam. Esses preferem o assento cômodo das poltronas de sua burocracia deleitosa, o retrato nos jornais, a palavra pelos microfones. Que fazer contra um inimigo tão incômodo? E depois, fica tão longe! E onde arranjar a verba para combater o facínora?



Mas o livro do senhor Ranulfo ficará como documento. Nesse sentido, ele é admirável. Tem trechos que reunidos dariam ótimas monografias sobre as “Excentricidades do Banditismo” ou sobre a “Despreocupação virgiliana dos governos”. Mas está tudo isso no livro, e repetir os fatos seria estragar o gosto da leitura dos que abrirem o “Lampião”.

Aqui fica o registro, e o protesto diante do jornalista que falou na “decadência do documentário”. Se o português não fosse uma língua tumular, o tal francês, diante de casos como o do morticínio do sítio Almacega, da sangueira da vila Queimadas ou da matança de Aquidabã, seria forçado a acreditar que estava mesmo diante da “verdade”, e que nenhuma imaginação, nem mesmo a imaginação tropical, que pudesse ser um dos dotes do senhor Ranulfo Prata, poderia compor tantos detalhes sangrentos em tão poucas linhas.

Porque o senhor Ranulfo não fala só no passado, nem só no presente. Também faz profecias. As suas linhas sobre a passagem triunfal de Lampião pela avenida Rio Branco da Capital Federal são (com licença do objetivo) gostosíssimas.

E – quem nos afirma ao contrário? – com todas as probabilidades de realização em um futuro que seria falta de patriotismo avaliar muito distante.

DONATELLO GRIECO
Extraído da “Folha da Manhã”, de São Paulo, 
de 28 de janeiro de 1934.
Cortesia da Postagem e Fotos: Antonio Correa Sobrinho