Do Conceito de Cangaço, Cangaceiro e Cangaceirismo Por:Honorio de Medeiros

Arte de Eduardo Lima

É possível que o termo cangaço tenha surgido, realmente, para designar toda a parafernália (conjunto de objetos de uso pessoal; apetrechos, pertences, acessórios) que o sertanejo portava para se deslocar pelo Sertão nordestino desde o início do ciclo do couro até o começo do século XX. Por associação de idéias transplantou-se o termo “canga”, suportado pelo boi, mas constituído por apenas uma peça, para cangaço, suportado pelo homem, mas constituído por várias peças. 

O sertanejo precisava transportar consigo, em seus deslocamentos, quase sempre a pé, vez que animais de transporte eram raros e caros, privilégio de poucos, armas de fogo e armas brancas, as mezinhas, o farnel, o dinheiro, algum papel escrito, as orações, a água, bebida, alguma panela de ferro, material para fazer fogo, artigos de higiene, e por aí vai...

Em “NOTA SOBRE CANGAÇO E CANGACEIRO”[1] Luis da Câmara Cascudo lembra que “Cangaço é a reunião de objetos menores e confusos, utensílio das famílias humildes, mobília de pobre e escravo, informa Domingos Vieira (1872). Troços. Tarecos. Burundangas. Cacarecos. Cangaçada, cangaçaria. Nunca ouvi dizer cangaçais ou cangaceira. (...) Beaurepaire Rohan registra ‘o conjunto de armas que costumam conduzir os valentões (1889)’. É, para mim, a menção mais antiga. Para o sertanejo é o preparo, carrego, aviamento, parafernália do cangaceiro, inseparável e característica, armas, munições, bornais, bisacos com suprimentos, balas, alimentos secos, meizinhas tradicionais, uma muda de roupa, etc.” 

Verdadeira canga, verdadeiro cangaço. 

Ao longo do tempo o bandido rural nômade em grupo do Sertão nordestino do final do século XIX até meados do século XX passou a ser o maior portador dessa parafernália, exigência do seu mister, que lhe obrigava deslocamento permanente e muitas vezes abrupto, em qualquer hora do dia ou da noite. E veio a ser conhecido como cangaceiro aquele que transporta cangaço, aquele que tem cangaço. 

Heitor Feitosa Macêdo, em “ORIGEM DA PALAVRA CANGAÇO”[2], nos diz que “Gustavo Barroso, estudioso incansável do cangaceirismo, foi responsável por arrematar a teoria mais aceita para explicar a origem da palavra cangaço. Segundo o referido autor, a terminologia ‘cangaço’ surgiu do hábito de os antigos bandoleiros se sobrecarregarem de armas, trazendo o bacamarte passado sobre os ombros, à feição de uma canga de jungir bois, por isso dizer que estes indivíduos andavam debaixo do cangaço, isto é, de uma canga metálica, feita de aço. Daí a expressão usada por Euclides, em ‘Os Sertões’, ao dizer que alguns indivíduos: ‘vinham debaixo do cangaço’”. A hipótese de Cascudo, indiscutivelmente, em termos epistemológicos, é mais completa, verossímel. 



O transporte do cangaço, embora nomine o bandido rural nômade em grupo do sertão nordestino do final do século XIX até meados do século XX e seja uma de suas características, não é suficiente, por si só, para identifica-lo, vez que embora com outro nome os gaúchos da fronteira usavam também parafernália própria e semelhante: o peão das vacarias gaúcho usava, à cintura, faixa larga, negra, ou cinturão de bolsas, tipo guaiaca, adaptado para levar moedas, palhas e fumo e, mais tarde, cédulas, relógio e até pistola. Ainda à cintura, as inafastáveis armas desse homem: as boleadeiras, a faca flamenga ou a adaga e, mais raramente, o facão. E sempre à mão, a lança - de peleia ou de trabalho. 

Assim, também, o peão do pantanal. Ou o cawboy americano...

Outras características do cangaceiro, além dessa denominação tão peculiar, são: ser bandido rural, nômade, e viver em grupo no Sertão nordestino desde o final do século XIX até meados do século XX. Bandido, aqui, no sentido de ser inimigo do Estado, da ordem legal vigente, embora algumas vezes contasse com a simpatia de parcela da população nordestina sertaneja.

Quanto ao que seja “bandido”, não é outro o pensamento de Eric Hobsbawn logo no início de “BANDIDOS”[3]: “Assim, o banditismo desafia simultaneamente a ordem econômica, a social e a política, ao desafiar os que têm o poder, a lei e o controle dos recursos. Este é o significado histórico do banditismo nas sociedades com divisões de classe e Estados.”

O cangaceirismo aqui e de agora em diante, para distinguir a atividade cangaceira da parafernália que o cangaceiro portava, foi banditismo rural, mas nem todo banditismo rural foi cangaceirismo. Não apenas rural, termo amplo que engloba tudo quanto não litorâneo, ao qual se vinculam alguns historiadores por não conhecerem a realidade específica desta região, o Sertão, do Nordeste brasileiro. O cangaceirismo foi banditismo sertanejo de grupo.


Eric Hobsbawn

Banditismo nordestino sertanejo de grupo – há bandidos nordestinos de grupo que não são sertanejos, e há bandidos sertanejos de grupo que não são nordestinos – o que rechaça, de pronto, todos quantos não situados naquele tempo específico que vai do final do século dezenove a meados do século vinte e todos quantos não situados naquele espaço específico do Sertão nordestino compreendido entre Bahia e Ceará, entrando pelo Piauí.

Existe, pois, um tempo específico: os bandidos de hoje não são cangaceiros por que, dentre outras, não andam com aquela parafernália já referida, típica do cangaceiro. Lugar específico: os bandidos rurais, mesmo quando em grupo, de outras regiões não eram cangaceiros porque não atuavam no Sertão do Nordeste.

Aqui não é possível concordar com Câmara Cascudo[4]:

“O cangaceiro não é um elemento do Sertão. Não vem da seca, da justiça local, da mestiçagem, da educação, do uso das armas. Existe em todos os países e regiões mais diversas. Na inóspita Mauritânia e na alagada China, nas montanhas da Córsega e nos plainos de França, onde viveu e reinou Mandrin, em São Paulo com Dioguinho e em Portugal com o José do Telhado, nas cidades tentaculares e nas povoações minúsculas, repontam esses tipos de inadaptação, somas de todos os fatores, vértices para onde convergem as grandezas das taras, tendências, ineducações e impulsos.”

Cascudo confunde banditismo com cangaceirismo. Todo cangaceiro foi bandido, mas nem todo bandido foi cangaceiro. Toda orquídea é uma flor, mas nem toda flor é uma orquídea. Percebe-se, do texto, que Cascudo não leu seu Aristóteles...


Câmara Cascudo

Essa falta de precisão, muito encontrada nas ciências ditas sociais, nos leva a equívocos tais quais o de Gustavo Barroso em “À MARGEM DA HISTÓRIA DO CEARÁ”[5], que parece ter inspirado o texto acima de Câmara Cascudo, tamanha sua semelhança:

“Em livro que publiquei há mais de quarenta anos disse: ‘Os bandidos não são produtos exclusivos das terras brasileiras do Nordeste. Em todos os povos, têm existido com denominações diversas. O jagunço não é criminoso por mero acidente do seu caráter; não é criminoso, as mais das vezes, por si próprio. Ele termina uma série de antecedentes os mais variados ou é um elo na seriação de causas as mais diversas.

Dentro dessas linhas gerais deve ser enquadrada historicamente a figura de um dos mais famosos cangaceiros do sertão cearense na segunda metade do Século XIX, o José Antônio do Fechado (...)”.

O título do Capítulo de Barroso é “O SENHOR FEUDAL DO FECHADO”. Não era nômade, não extorquia, não assaltava, não sequestrava... Não era cangaceiro, portanto, embora fosse bandido, andasse em grupo, e fosse sertanejo. É algo basilar na Ciência entender que apreendemos a Realidade encontrando sua “essência”. Melhor: algo que integre a Realidade, como um epifenômeno social tal qual o Cangaceirismo, somente vai ser apreendido, conhecido, quando formos capazes de encontrar sua “essência”, ou seja, sua especificidade, sua singularidade. Sujeitamo-nos, pois, ao pleno domínio do ramo da Filosofia denominado Gnosiologia.


Gustavo Barroso

Para encontrarmos essa essência, característica, ou singularidade, precisamos distinguir para conhecermos. É como nos diz Pascal Ide, em seu “A ARTE DE PENSAR”[6]“Para definir é preciso dividir, distinguir. Com efeito, a definição é um conhecimento distinto do ser de uma coisa; ora, vimos que no ponto de partida, nosso conhecimento é confuso, e não distino. Como passar do confuso ao distinto a não ser distinguindo, ordenando esse confuso? Foi assim que Deus procedeu diante do caos primitivo (Gn 1, v. 2). Ele separa, distingue: a luz das trevas, a terra do céu, etc.”

Questões como essa me levaram a escrever o seguinte texto, que creio caber bem neste contexto: “Em primeiro lugar tratar da questão do que seja ciência, principalmente no que diz respeito a seus enunciados, que para serem considerados verdadeiros, não podem ser refutados uma única vez;

Karl Popper afirma, em “CONJECTURAS E REFUTAÇÕES”[7], que se pode dizer, resumidamente, ser sua capacidade de ser testada que define o status científico de uma teoria. Foi uma evolução significativa à teoria quase consensual, anterior, que a ciência se distingue da pseudociência pelo uso do método empírico, que decorre da observação ou experimentação[8]Este não é o ambiente apropriado para uma discussão crítica acerca da posição de Popper em relação à indução. Basta recordar que ele retoma Hume[9], e sua crítica psicológica à indução, aprofunda essa crítica, em uma perspectiva lógica, e propõe o que passou a se chamar, no jargão acadêmico, de “falsificacionismo”.

Por outro lado, esses enunciados da ciência para se manterem verdadeiros, não podem ser refutados. Uma só afirmação que seja demonstrado, empírica ou matematicamente, como falsa, compromete a teoria. É o respeito à “lei das exclusões das contradições”[10].


Karl Popper

Caso tal lei não seja seguida, chegaríamos à desarticulação completa da ciência[11]Em segundo lugar mostrar somente há uma ciência, ou seja, a tentativa de considerar que as ciências ditas do espírito são ciências é falsa. Em terceiro lugar mostrar que há uma ciência social que usa o método científico impropriamente dito como das ciências naturais e que parte do pressuposto de que fato social é igual a fato natural.

Iniciar, então, a partir dessas premissas e avançar afirmando que um olhar da sociologia acerca do cangaceirismo pode ser ofertado a partir de leis causais do quais ele seja conseqüência (dedução), como é o caso do marxismo ou darwinismo, aqui chamado olhar perspectivo externo, ou a partir da comparação da estrutura interna do fenômeno com outros fenômenos com os quais guarde semelhança estrutural induzindo (indução) uma lei geral.

Demonstrar que no segundo caso não há como propor uma lei geral, vez que não se conhece todos os casos e a semelhança existente é sempre forçada; Ao contrário, ao se partir de uma lei geral é possível encontrar o que de geral há nos específico e propor que tal fenômeno irá se repetir, respeitado o específico, caso aconteçam as mesmas condições que suscitaram o seu surgimento.”


Arte de Anilton Freires

Mas prossigamos. Outra especificidade importante para definir o cangaceirismo é sua circunstância histórica, constituída por elementos próprios do período que vai do final do século XIX para meados do século XX, quais sejam, dentre eles, mas não somente, o coronelismo, e o misticismo. 

Cangaceiros e coronéis nordestinos são indissociáveis e especificam o período no qual conviveram. Cangaceiros e Padre Cícero também o são. Mas seria bom acrescentar, aqui, também, os cantadores de viola, os repentistas, os cordelistas, enfim, os rapsodos que andavam pelas cidades, vilas, povoados, arruados, feiras, disseminando e aureolando os feitos dos cangaceiros, ajudando a construir, no imaginário do sertanejo, o paradigma dessa figura histórica.

Em relação aos Coronéis, Raymundo Faoro[12] faz uma interessante constatação que robustece a opinião antes apresentada acerca de que embora o banditismo rural não seja algo próprio do século XIX/XX, o cangaceirismo, que é um dos tipos desse fenômeno, deve ser definido a partir de suas características que o singularizam: “O fenômeno coronelista não é novo. Nova será sua coloração estadualista e sua emancipação no agrarismo republicano, mais liberto das peias e das dependências econômicas do patrimonialismo centra do Império. O coronel recebe seu nome da Guarda Nacional[13], cujo chefe, do regimento municipal, investia-se daquele posto, devendo a nomeação recair sobre pessoa socialmente qualificada, em regra detentora de riqueza, à medida que se acentua o teor de classe da sociedade. Ao lado do coronel legalmente sagrado prosperou o ‘coronel tradicional’, também chefe político e também senhor dos meios capazes de sustentar o estilo de vida de sua posição.”


Raymundo Faoro

Mas precisamos estar atentos: não se pode confundir cangaceiro com jagunço nem pistoleiro. Os cangaceiros não têm chefes que não sejam de sua própria categoria. Os jagunços subordinam-se a coronéis. O pistoleiro é solitário e trabalha eventualmente para um ou outro. É como nos assevera Frederico Pernambucano de Melo[14]“A segunda figura a ser estudada é a do cabra, também chamado por alguns de capanga ou jagunço, ainda que entre os três tipos haja diferenças que não devem ser ignoradas. Cabra é o homem de armas que possui patrão ou chefe, desempenhando mandados tanto de ordem defensiva quanto ofensiva.”

Não somente banditismo brasileiro nordestino sertanejo de grupo existente entre o final do século XIX e meados do século XX cujos integrantes usam o cangaço - essa parafernália inseparável e característica, como o afirma Luís da Câmara Cascudo.

Mesmo aqui ainda é preciso distinguir para compreender: como disse Fenelon Almeida[15], “os volantes em tudo se pareciam com os cangaceiros.” Os jagunços também. Ambos usavam a parafernália do cangaceiro. Todo cangaceiro a usava, mas nem todo aquele que a usava era cangaceiro. As volantes a usavam, eram nômades e atuavam com o aval do Estado; os jagunços a usavam, não eram nômades e submetiam-se aos coronéis. O cangaceirismo pressupõe a perseguição pelo Governo e a insubmissão, além de outra característica: a existência do coiteiro.


Rangel Alves da Costa

Rangel Alves da Costa diz bem o que é “coiteiro”[16]“Coiteiro era o sertanejo que, mesmo não fazendo parte do bando cangaceiro propriamente dito, compartilhava do seu mundo e de sua existência. Exteriorizava os desejos e as ordens cangaceiras. Servia de elo entre a vida na caatinga e os seus arredores, incluindo pessoas e povoações. Sem o coiteiro, o cangaço não compartilhava do mundo exterior e ficava totalmente vulnerável aos ataques.

Coiteiro era o matuto chamado a colaborar com o cangaço. Nunca forçado, mas sempre disposto a cooperar. Era, a um só tempo, mensageiro, transportador de mantimentos, confidente, conhecedor e guardião de segredos de vida e de morte. Boca sempre fechada e ouvido sempre aberto, talvez fosse o seu lema. Mas nem todos, segundo dizem, cuidaram de seguir os ditames.

Coiteiro era aquele que, conhecedor de cada linha e cada canto da região catingueira, auxiliava nas estratégias de proteção cangaceira. Era o olho pelo arredor, era o cão farejando o inimigo. Logo dizia sobre a segurança do local escolhido para repouso ou alertava acerca dos perigos que estavam correndo. Coiteiro era o bom amigo do bando que levava a carne fresca de bode, a linha e agulha para costura, o remédio e a porção, as armas e a munição, o dinheiro e outros objetos enviados ao bando; aquele que se esforçava ao máximo, e correndo todos os perigos, para que nada faltasse naquela estadia dos cangaceiros. E eram bem recompensados pelas providências tomadas. De vez em quando um anel dourado era colocado no dedo.

Coiteiro era aquele que servia o abrigo cangaceiro, o local de descanso e repouso, a moradia temporária do bando, o coito. Desse modo, tem-se então que coito era o local onde a cangaceirada se amoitava vindo de longe viagem e desejosa de algumas horas ou dias de descaso. Assim, coito era o lugar escolhido pelo líder do bando para o merecido descanso, até que a necessidade fizesse levantar acampamento e seguir adiante. Tantas vezes numa correria no meio da noite ou a qualquer hora do dia que o vento inimigo soprasse pelos arredores.”



Entretanto todos os bandidos brasileiros nordestinos sertanejos nômades de grupo existentes entre o final do século XIX e meados do século XX, que usavam cangaço e coiteiros eram cangaceiros? Sim. Tomando-se como paradigma os bandos de Antônio Silvino, Sinhô Pereira, Lampião e Corisco, sim. Estes no dizer de Maria Isaura Pereira de Queiroz[17] são “grupos de homens armados liderados por um chefe, que se mantinham errantes, isto é, sem domicílio fixo, vivendo de assaltos e saques, e não se ligando permanentemente a nenhum chefe político ou chefe de grande parentela.”

Ou seja: os cangaceiros viviam de assaltos e saques. Assaltos, para sintetizar, por que quem saqueia assalta. Não somente assaltos, porém. Extorsão também. E, às vezes, embora não comumente, alugando suas armas a algum Coronel. Concluindo, por fim: sobreviviam à custa do seu banditismo. O que fizemos foi precisar essa noção acerca do cangaceiro, que também é a do senso comum.

Portanto temos: cangaceiros foram bandidos brasileiros nordestinos sertanejos nômades de grupo existentes entre o final do século XIX e meados do século XX, cujos integrantes usavam o cangaço, recebiam suporte dado por coiteiros, e viviam à custa de sua atividade criminosa.

Não podemos dizer que a estética cangaceira que surgiu com Lampião defina o cangaceiro. Antes do bando de Lampião e de sua estética já existiam bandos de cangaceiros, tais como aqueles chefiados por Sinhô Pereira e Antônio Silvino. Assim é possível que o que realmente defina o cangaceirismo seja a presença de todos esses elementos e mais o momento histórico, o espaço de tempo que vai do final do século XIX a meados do século XX.  Não por outra razão diz-se que com o advento do Estado Novo e a morte de Corisco extinguiu-se o cangaceirismo.

Honório de Medeiros
Conselheiro do Cariri Cangaço
Fonte:http://honoriodemedeiros.blogspot.com.br/2016_04_17_archive.html

NOTAS:

[1][1] “FLOR DE ROMANCES TRÁGICOS”; EDUFRN; Coleção Nordestina; 3ª edição; 1999; Natal. 

[2] JORNAL “ACONTECE”, Região do Cariri - De 30 de outubro a 10 de novembro de 2014, nº 53.

[3] PAZ E TERRA; 4ª edição; 2010; São Paulo. 

[4] “VIAJANDO O SERTÃO”; Global; 4ª edição; 2009; São Paulo. 

[5] ABC Editora; 3ª edição; 2004; Rio de Janeiro. 

[6] Martins Fontes; 1ª edição; 1995; São Paulo.

[7] Pg. 66. 

[8] Pg. 64. 

[9] Pg. 72.

[10] Pg. 346/347. 

[11] Pg. 348. 

[12] “OS DONOS DO PODER”; Globo; 15ª edição; v. 2; 2000; São Paulo.

[13] Fator que distingue o coronelismo. 

[14] “GUERREIROS DO SOL”; A Girafa; 5ª edição; 2011; São Paulo.

[15] “JARARACA: O CANGACEIRO QUE VIROU SANTO”; Guararapes; 1ª edição; 1981; Recife. 

[16] http://blograngel-sertao.blogspot.com.br/2013/08/coiteiro.html 

Estes Bravos de Floresta Por:Cristiano Ferraz

Denis Carvalho, Leonardo Gominho, Marcos de Carmelita, Joao de Sousa Lima, Cristiano Ferraz e Manoel Severo; o Cariri Cangaço chega a Floresta.

Floresta é, indiscutivelmente, uma cidade cuja história está intrinsecamente ligada à do cangaço. Suas terras foram palcos de lutas onde seus filhos foram atores de destaque. Como se pode falar em cangaço sem citar a questão entre Cassimiro Gomes da Silva (o lendário Cassimiro Honório) e Zé de Souza? E os desentendimentos entre Lampião (e seus irmãos Antônio e Livino) e os moradores da vila de Nazaré (praticamente uma só família)?

Em Floresta surgiram nomes de volantes conhecidos por sua bravura e tenacidade no combate ao cangaceirismo. Nomes como os filhos de João Flor: Manoel, Odilon e Euclides (citando apenas três), Antônio Gomes Jurubeba com os seus Pedro e João Gomes de Lira. Manoel Neto, Hercílio Nogueira, David e João Jurubeba, os irmãos Tomaz, e toda uma geração de rapazes que se dedicaram à árdua tarefa de trazer de volta a paz e a segurança ao povo sertanejo.

Esses nomes acima citados, fizeram parte da chamada Volante dos “Cabras de Nazaré”. Assim como eles, dezenas de florestanos “queimaram” sua mocidade no que Frederico Pernambucano de Mello chamou de “Guerra do Sol”. Entre esses gostaríamos de destacar três:



José Freire da Silva

José Freire da Silva, o Zé Freire, que entre tantas outras missões participou ativamente com inigualável bravura, no chamado fogo do Mundé, onde foram mortos os cabras Sabiá e Zé Marinheiro. Nesse renhido combate pereceu também o comandante da Força, o anspeçada Manoel Gomes de Sá Filho (Sinhozinho).

Zé Freire estava também entre os poucos que se atreveram a, junto com Manoel Neto, dar apoio aos Gilos na fazenda Tapera, atacada por Lampião e cerca de cem cangaceiros em agosto de 1926. Mesmo a contragosto do comandante Antônio Muniz de Farias.

Seu Dé

José Rodrigues de Souza, Seu Dé, pelos anos de serviço dedicados às Forças Volantes, com destaque para o combate onde, ao lado do então Sargento Euclides de Souza Ferraz (o Euclides Flor), na escuridão da noite foi ferido no braço. Esse combate se deu contra o grupo do cangaceiro Moreno em abril de 1938, três meses antes da morte de Lampião no coito do Angico em Sergipe.


Manoel Polmata

Manoel Joaquim de Souza, o Manoel Polmata; pelos longos anos dedicados a essa luta desigual, muitas vezes acompanhando Manoel Neto, até mesmo no estado da Bahia. Manoel Polmata esteve presente, inclusive no duro combate da Serra Grande em novembro de 1926. Ali, foi um dos que ajudaram a retirar o comandante baleado nas duas pernas para local seguro, livrando-o da morte certa, sangrado “a ferro frio” pelos cangaceiros de Lampião.

Assim como Zé Freire, Seu Dé e Manoel Polmata, poderíamos citar diversos outros nomes de pessoas que com sua bravura colaboraram com a difícil tarefa de combater o cangaço. Esses com certeza estão para sempre escritos nos anais da história de Pernambuco. Mas deixemos para depois, agora é reforçar o convite para vir a Floresta no grande Cariri Cangaço Floresta, de 26 a 29 de maio deste 2016.

Cristiano Ferraz
Pesquisador e Escritor
Floresta, Pernambuco.

Em Julho....Água Branca !

Celso Rodrigues, Manoel Severo, Sonia Jacqueline, Celsinho Rodrigues  e o casal Edvaldo Feitosa; organizadores em Água Branca


A cada Edição do Cariri Cangaço realizado nesse imenso Brasil, um novo município é contemplado dentro de sua programação cultural. Em 29 de Julho de 2016, será a vez da histórica cidade de Água Branca, no estado de Alagoas. E, O que é o Cariri Cangaço?
O Cariri Cangaço é um Evento Histórico Científico-Cultural promovido pelo Instituto Cariri do Brasil com o apoio da SBEC - Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço, pelo GECC - Grupos de Estudos do Cangaço do Ceará, pelo GPEC - Grupo Paraibano de Estudos do Cangaço .Esse seguimento da História, da Memória e da Cultura Brasileira, através de seminários e debates, com a temática o "Cangaço", reúne a sociedade civil, estudantes, professores, escritores, pesquisadores e historiadores de todo Brasil. Como é do nosso conhecimento, no contexto geral da História brasileira, a cidade de Água Branca, no estado de Alagoas, figura como rota do cangaço e estará promovendo de maneira inédito uma edição do Cariri Cangaço neste próximo mês de Julho de 2016.

Edvaldo Feitosa
Pesquisador e escritor
Organizador do Cariri Cangaço em Água Branca


Casarão da Baronesa de Água Branca: cenário do primeiro assalto de Virgulino Lampião, chefe de grupo.

"Com as bênçãos de Deus, estaremos em julho em Água Branca, Alagoas, para visitar esse casarão no grande Cariri Cangaço. Pertence à família do Barão de Asa Branca e foi invadido por Lampião. A baronesa de Água Branca, dona Joana Vieira Sandes, era viúva do Barão de Água Branca; Joaquim Antônio de Siqueira Torres; e já contava mais de 90 anos quando sua residencia foi invadida e assaltada por Lampião e seu bando. Por muito tempo as jóias roubadas da Baronesa de Água Branca, ornaram a figura da rainha do Cangaço, Maria Bonita.
 


Esse crucifixo em ouro maciço 22 quilates, uma magnifica peça, segundo o Dr Orlins Santana de Oliveira Membro do Instituto Histórico da Bahia, Membro do Instituto Genealógico da Bahia, estava à venda em 2005 em Salvador. Ele diz textualmente que "Foi vendido para fora do Estado por 12 mil reais. Um comerciante deve ter levado. Fiquei muito sentido pela perda do acervo do cangaço. Na época não tinha recursos para adquirir o mesmo. Salvador era o local mais perto para as volantes revenderem os achados. E tudo vinha pela via ferroviária." - Hoje faz parte de uma coleção particular conforme livro "Estrelas de Couro" 
de Frederico Pernambucano de Melo"


Raul Meneleu, pesquisador de Aracaju

O Fascínio e o Mito Por:Jorge Remigio

Arte de Eduardo Lima

"O fascínio por Lampião que muitas pessoas externam, seja nordestinos ou não, vem de uma criação, uma construção ao longo do tempo, de uma figura mitológica. Os cordelistas tiveram grande influência nesse imaginário. Junto com repentistas, cantadores de meio de feira, mais tardiamente a literatura e o cinema, distorceram a realidade do cangaço. É o que chamamos de inversão de valores. Lampião foi bandido? Foi. É incontestável. Agora, como falei, sua imagem foi ganhando outros contornos ao longo dos anos. Álibis como vingador, vítima dos poderosos, injustiçado, foram se aglutinando a valores exaltados pela cultura sertaneja da época, como: coragem, valentia, tudo isso formou um amálgama, resultando em uma visão positiva daquele que foi o maior bandido do fenômeno cangaço. Lampião hoje é um mito. Impossível acabar o mito. Mas é importante também, ter uma visão histórica do personagem e também do que foi o cangaço."

Jorge Rempígio
Pesquisador, Sócio do GPEC
Conselheiro Cariri Cangaço
João Pessoa

O Filho de Mané Neto Por:Marcos de Carmelita

Manoel Gomes de Sá e Marcos de Carmelita

Manoel Gomes de Sá ( aos 81 anos, filho de Manoel Neto; Mané Fumaça ou Cachorro Azedo; e de Otacilia Gomes de Sá , residente em Floresta. Seu Manoel conta que seu pai não aceitava que uma mulher dissesse que tinha um filho com ele. Em uma visita que fez ao pai em Ibimirim, ele o alertou que o chamasse de tio, não queria que seus inimigos tomassem conhecimento que tinha família. Para todos Manoel Neto o apresentava como um sobrinho. 


As mulheres que divulgassem esse segredo eram abandonadas por ele. Manoel Neto sempre dizia não ser homem para se casar e ter família, devido a vida que levava. Com a saúde um pouco debilitada, seu Manoel tem nas veias o sangue do lendário Nazareno, o maior e mais feroz perseguidor de Lampião e dos irmãos Ferreira, o Tenente Mané Neto. Essa fotografia foi tirada nesta data, 06 de abril de 2016 e em breve divulgaremos o vídeo com ele.

Marcos de Carmelita
Pesquisador e Escritor
Floresta, PE

Todos a Aracaju ! Por:Manoel Severo


Existem pessoas que se notabilizam pela sua espetacular capacidade de aceitar e vencer desafios. Ao longo de nosso caminhada de rastejador das caatingas, andando por este imenso sertão de "meu Deus", pelas veredas da vidas, buscando os fragmentos da verdade histórica, temos tido a oportunidade de encontrar verdadeiros tesouros, um desses tesouros, possui nome e sobrenome: Elane Marques.

Archimedes e Elane Marques e Manoel Severo

Nesta noite de sexta-feira, 15 de abril de 2016, uma das mais novas escritores da temática Cangaço, Elane Marques lança na Sociedade Semear em Aracaju, sua mais nova obra: 
SILA - Do Cangaço ao Estrelato.

Muito se tem discutido sobre o papel da mulher no universo do Cangaço; as motivações, a capilaridade e acima de tudo suas repercussões. A partir de 1930, o líder máximo cangaceiro se deixou apaixonar pela "Morena da Terra do Condor"... Ali o casal mais famoso do sertão; Lampião e sua Maria; inciavam uma nova saga dentro desse que foi um dos mais significativos fenômenos da história nordestina.

Elane Marques em mais um momento de homenagens dentro do Cariri Cangaço.

A pesquisadora e escritora Elane Marques, esposa de um dos mais destacados escritores da temática cangaço; Archimedes Marques; autor do festejado e abalizado "Lampião Contra o Mata Sete", emprestou toda sua força de trabalho e talento para nos trazer um recorte dessa mesma saga feminina. Elane desta vez se debruça sobre Ilda Ribeiro de Sousa, mais conhecida como SILA, cangaceira, companheira do líder de sub-grupo, Zé Sereno.

Grupo de Zé Sereno, a segunda vista à nossa esquerda: Sila.

Sila - Do Cangaço ao Estrelato, procura traçar um paralelo a partir dessas duas controvertidas situações antagônicas da vida desta sertaneja que nasceu no dia 26 de outubro de 1919 na querida Poço Redondo, Sergipe e que acabou vivendo dois anos no cangaço, ao lado de Zé Sereno, com quem teve quatro filhos e viria a falecer em fevereiro de 2005. 

Elane Marques com o faro e a determinação que lhes são peculiares, aborda um tema mais que polêmico, e por assim dizer, cheio de muitas possibilidades. Com seu mais novo livro, nos provoca um novo olhar sobre a presença da mulher no cangaço e os horizontes surpreendentes reservados pelo destino . Assim, só nos resta dizer: Parabéns querida Elane Marques !!! Todos a Aracaju ! 

Manoel Severo
Curador do Cariri Cangaço

Heróis do Sertão... Angico ! Por: Jorge Remigio

Quem teria sido o verdadeiro herói em Angico?
Foto: Volante do Tenente João Bezerra em Piranhas, AL

A grande dificuldade que temos ao analisarmos fatos históricos muito distante da nossa contemporaneidade, são justamente os valores que sofreram vicissitudes ao longo do tempo. O Sertão é uma cultura. Costumo dizer que o Sertão é um paîs. Isso porque são tão fortes e emblemáticos os seus valores, que não é incomum e também perdoável e aceitável quando cometemos algum deslize. 

Se analisarmos o significado da palavra herói no sentido lato, no sentido "clássico" como o amigo Raul Meneleu Mascarenhas, descreveu em comentário certo dia, claro que não vai ser enquadrado no episódio de Angico. Mas, temos que atentar, que a palavra herói, no Sertão daquela época e também de um tempo não tão distante, se encaixa em várias situações. 

Não é uma banalização do emprego do termo, mas a adequação aos valores culturais dos sertanejos. Por exemplo: Uma pessoa que executa uma vingança de um ente querido em condições desfavoráveis ou não, era considetado um herói. Já ouvi do próprio saudoso Alcino Alves Costa, na cidade de Aurora quando se referia a marcha que Lampião encampou daquela cidade até a longinqua Mossoró, percorrendo em três dias e meio, mais de trezentos quilômetros, falou que Lampião era um herói, por ser tão resistente e obstinado. Eu entendi o emprego da palavra herói utilizada pelo escritor. 

Poderia citar várias situações em que o sertanejo, o matuto o tabaréu emprega o termo herói. A morte de Lampião, também foi a morte do cangaço. Por que não creditar esse ato heroico ao comandante da operação. O Tenente João Bezerra ?

Jorge Remígio
Pesquisador, Sócio do GPEC
Conselheiro Cariri Cangaço