Sangue no Sertão e o Fanatismo da Pedro do Reino Por:Narciso Dias


No dia 24 de junho de 1578, um Exército de 24 mil portugueses, comandado pelo seu rei dom Sebastião I, partiu de Lisboa e após quase um mês navegando pelo Atlântico em 847 embarcações chegou a Tânger, no Marrocos. Dali marchou por sete dias até a cidade de Alcácer-Quibir. O objetivo era atacar, com seus cavaleiros, lanças, espadas, arcabuzes e canhões, o rei marroquino Abd al-Malik. A vitória mataria dois coelhos: afastaria as ameaças dos muçulmanos ao litoral português e o país seria o protagonista de um processo de cristianização e colonização do norte da África.

Mas o desastre foi total para os portugueses. Abd al-Malik também tinha cavaleiros, lanças, espadas, arcabuzes e canhões. E a vantagem de um Exército de 60 mil homens. Três marroquinos para cada português. Metade do Exército lusitano foi morto na batalha e a outra metade, presa.

O corpo de dom Sebastião nunca seria encontrado. Aos 24 anos, o rei não deixou herdeiro ao trono e Portugal seria governado pela Espanha por 60 anos. Do fim misterioso de dom Sebastião surgiu o sebastianismo, a crença mística de que ele voltaria para afastar o domínio estrangeiro ou para livrar dos seus opressores os pobres e infelizes. O mais popular divulgador do sebastianismo foi o sapateiro da vila portuguesa de Trancoso Gonçalo Annes Bandarra, que previu, em poemas, a volta de dom Sebastião, “o Desejado”. 


Suas Trovas fizeram enorme sucesso. Foram proibidas pela Inquisição, mas continuaram circulando clandestinamente por décadas, mesmo após sua morte. A lenda se espalhou por Portugal e, 260 anos mais tarde, tornou-se realidade no alto de uma montanha próxima à cidade de São José do Belmonte, sertão de Pernambuco, transformando-se em um dos episódios mais bizarros e sinistros da história brasileira.

Tudo começou em 1838, na Pedra Bonita (hoje, Pedra do Reino) – um platô encimado por dois rochedos paralelos, cada um com 30 m de altura –, quando João Antônio Vieira dos Santos começou a abordar os habitantes mostrando-lhes duas pepitas, as quais ele dizia serem preciosas. João Antônio afirmava que as havia conseguido graças ao rei dom Sebastião, que o conduzia todos os dias em sonho a seu esconderijo. O rei português ainda lhe teria indicado que o desencanto e a revelação de seu reino estariam próximos e, assim que isso acontecesse, ele retornaria ao mundo como o Messias. Para dar fundamento, digamos, acadêmico a seus argumentos, o profeta levava consigo, além das pedrinhas, os textos de As Trovas do Bandarra, que tanto sucesso haviam feito em Portugal.


“Esse fato demonstra a perspicácia do falso profeta, que, conhecendo o nível de esclarecimento de seus ouvintes, apropriou-se de uma narrativa de convencimento”, diz Marcio Honorio de Godoy, da PUC-SP e autor de O Desejado e o Encoberto, sobre o sebastianismo. Moradores de sítios vizinhos começaram a aderir à crença e visitar o complexo rochoso encantado, onde dom Sebastião dormia, segundo suas pregações. Com a popularidade crescendo, o profeta foi coroado rei de Pedra Bonita, cargo provisório enquanto dom Sebastião não despertava. Mas a agitação atraiu os olhares das autoridades.

O movimento provocava o esvaziamento da mão de obra rural e disseminava uma seita pagã. Enfim, um caso de polícia e de Igreja. O padre Francisco José Correia, respeitado na região, foi acionado. “O embusteiro João Antônio então se apresentou ao sacerdote, arrependeu-se de sua conduta e devolveu-lhe as falsas pedras”, conta Belarmino de Souza Neto, historiador e autor de Flores do Pajeú: História e Tradições.

O que deveria ser o fim do sebastianismo sertanejo gerou uma crença ainda mais fanática e perigosa. João Antônio assumiu a farsa e saiu da cidade, mas antes passou a coroa para o cunhado João Ferreira. O segundo rei de Pedra Bonita também dizia ter visões de dom Sebastião e intensificou a divulgação da profecia. Carismático, ganhou muita popularidade e conseguiu aumentar o número de seguidores para 300. Eles o chamavam de “Sua Santidade El-Rei” e beijavam-lhe os pés. Decidiu estabelecer sua corte ali mesmo, junto às duas grandes rochas de Pedra Bonita – local de rituais de desencantamento que permitiram ao outro rei, o desaparecido em Alcácer-Quibir, e que no momento dormia, voltar ao mundo real.


É nesse momento que as coisas começaram a degringolar. Ferreira decidiu estabelecer sua casa em um dos blocos de rocha. Nela, eram promovidos festejos e beberagens entre seus associados, que se drogavam com manacá e jurema, ervas com propriedades alucinógenas, para conseguir “entrar” no reino de dom Sebastião. Na segunda torre de pedra, foi escavado o santuário – que servia de refeitório e para os rituais de desvirginamento, nos quais, após cerimônias de casamento, as noivas eram oferecidas em primeira mão ao monarca.

O que o novo rei pregava foi registrado, em 1875, por Antônio Attico de Souza Leite, do Instituto Arqueológico da Província de Pernambuco. “Um iluminado ali congregou toda a população para o advento do reino encantado do rei dom Sebastião, que irromperia castigando, inexorável, a humanidade ingrata”, escreveu. O dia a dia dos sebastianistas era ocupado por rezas e cantorias. Na rotina não entravam a preocupação com vestimentas ou com a higiene. Também não se tomava o cuidado de cultivar vegetais ou criar animais. Caravanas de jagunços de confiança do rei eram despachadas para recolher doações ou saquear fazendas vizinhas e, se possível, buscar novos adeptos.

Ferreira tinha ideias próprias de quais seriam os rituais exigidos para promover o desencantamento de dom Sebastião. “Era necessário banhar as pedras e regar todo o campo vizinho com sangue dos velhos, dos moços, das crianças e dos irracionais”, registrou Antônio Attico. A loucura começaria para valer na manhã de 14 de maio de 1838. Ferreira anunciou que, numa visão, dom Sebastião lhe garantira que o sangue dos seguidores o traria de volta.



Durante três dias, os fiéis, embalados por gritos, danças hipnóticas, música e bebidas alcoólicas, mataram 30 crianças, 12 homens, 11 mulheres e 14 cães. Pais e mães traziam como oferendas partes do corpo dos filhos. Aos pés do rei, arrancavam orelhas, línguas, dedos dos pés, das mãos ou genitais, relata Antônio Attico, baseado em testemunhas. Os cadáveres amontoavam-se e eram colocados na base das duas pedras de maneira simétrica, separados por sexo, idade e “qualidade”, esta última determinada de acordo com o tipo de promessa e da entrega de entes queridos ao sacrifício que eles houvessem feito. Quem se recusava ao sacrifício era tido como infiel e desprezível. “Os mais fanáticos entendiam tal recusa como uma quebra na continuidade do ritual de desencanto”, afirma Honorio de Godoy.

A loucura assassina de Sua Santidade El-Rei fez surgir um terceiro personagem. Pedro Antônio Viera dos Santos, irmão do primeiro rei, João Antônio, resolveu frear o ritual. Tomou a palavra e fez um discurso carismático anunciando que ele também tinha uma mensagem de dom Sebastião para divulgar. “Ele anunciou que dom Sebastião lhe apareceu em uma visão cobrando o sangue do segundo rei para o desencantamento ser concluído”, afirma o historiador Belarmino de Souza.

Os fiéis apoiaram imediatamente a sugestão e começaram a gritar: “Viva El-Rei dom Sebastião! Viva nosso irmão Pedro Antônio!” Deposto do seu título e na condição de um simples súdito, João Ferreira, o amalucado messias, foi arrastado ao sacrifício. Seu crânio foi esmigalhado e o corpo amarrado, pés e mãos, ao tronco de duas árvores grossas. Ao vencedor, Pedro Antônio, foi passada a coroa. Era ele, agora, o terceiro regente de Pedra Bonita. Sua primeira medida foi decretar a suspensão imediata dos assassinatos.


Mas tamanho horror não poderia escapar às autoridades. Enquanto no alto do morro a transição entre os dois reinados acontecia, as denúncias dos sacrifícios humanos chegavam ao conhecimento do major Manuel Pereira da Silva, autoridade militar de São José do Belmonte. Um vaqueiro, José Gomes, fugido de Pedra Bonita, relatou as barbaridades. Curiosamente, o delator destacava a frustração dos integrantes por terem sacrificado inocentes em vão, já que dom Sebastião não havia desencantado.

O major partiu no dia seguinte rumo à Pedra Bonita. Liderava um grupo formado por dois de seus irmãos, Cypriano e Alexandre, e 26 soldados. Após um dia de caminhada, e ainda distante do local da seita, a caravana fez uma pausa embaixo de alguns umbuzeiros. A poucos metros do abrigo, no entanto, encontrou-se de frente com o novo rei dos sebastianistas, Pedro Antônio, acompanhado de um séquito numeroso de pessoas armadas com porretes e facões.O rei e sua corte haviam deixado Pedra Bonita fugindo do cheiro dos cadáveres insepultos.

O encontro pegou os dois grupos de surpresa. Os militares, em campo aberto, pareciam em desvantagem diante dos sebastianistas. Mas estes estavam exaustos. Na batalha que se seguiu, o major ganhou a guerra, mas pagou caro pela vitória. O rei, Pedro Antônio, e 16 de seus seguidores foram mortos. Do lado dos militares, cinco vítimas fatais, inclusive os dois irmãos do major. Ali, debaixo dos umbuzeiros, terminava, em 17 de maio de 1840, o sangrento reinado dos sebastianistas da Pedra Bonita, sem que dom Sebastião acordasse para socorrê-los. O messianismo não se extinguira no imaginário brasileiro. Grupos semelhantes surgiram. Um dos maiores, no interior da Bahia, em 1896, foi liderado por Antônio Conselheiro e gerou a Guerra de Canudos.

Postagem por Narciso Dias - Conselheiro Cariri Cangaço
Fonte: Facebook

SAIBA MAIS - LIVROS
No Reino do Desejado: A Construção do Sebastianismo em Portugal nos Séculos XVI e XVII -
Jacqueline Hermann
Companhia das Letras, 1998.
Flores do Pajeú: História e Tradições
Belarmino de Souza Neto
Biblioteca Pernambucana de História Municipal, 2004

Cabaceiras: A Roliude Nordestina Por:Kydelmir Dantas


Quem não conhece precisa ir a Cabaceiras - A ROLIÚDE NORDESTINA - cidade paraibana onde foram filmados O AUTO DA COMPADECIDA e mais 24 filmes entre curtas e longas... Excelente a estadia no Hotel Fazenda Pai Mateus. Alguns prédios usados nas locações do 'Auto' estão lá intactos; há o Museu Histórico e o Memorial Cinematográfico; a Casa de Cultura - antiga Cadeia Pública que foi invadida pelo cangaceiro Antônio Silvino - abriga os movimentos ligados às Artes na cidade. 


Com certeza se encontra na rua principal o poeta PAULINHO de Cabaceiras e, com sorte, a cordelista JULIANA SOARES; o encantador de viúvas ZÉ DE CILA, que foi o dublê do Padre - interpretado pelo Rogério Cardoso - em algumas cenas do filme, você encontra em sua Bodega com muita conversa e agrado. E as meninas do Museu Histórico lhe tratam com o devida atenção passando as informações sobre sua cidade e região; do Lajedo Pai Mateus se vê a maravilha do por-do-sol... Ou o nascimento da lua... Só indo pra ver.

Kydelmir Dantas
Conselheiro Cariri Cangaço

Memórias da Policia Militar da Bahia - O Massacre de Queimadas



Publicado em 4 de agosto de 2016
Em 1929 o bando de Lampião esteve no município de Queimadas, saqueando a cidade que contava com 8 policiais militares em sua guarnição. 
Este documentário conta o desfecho sangrento dessa investida
 criminosa do cangaceiro.


PRODUÇÃO:
Cap PM Bandarra /  Cap PM Danillo Ferreira/ St PM Luciano Macêdo
ROTEIRO:
Cap PM Raimundo Marins/Cap PM Danillo Ferreira
PESQUISA:
Cel PM Souza Neto/Cap PM Raimundo Marins
DIREÇÃO E EDIÇÃO:
Cap PM Danillo Ferreira
IMAGENS:
ST PM Luciano Macêdo/SD PM Orlando Junior
Daniel Pujol/Jonatan Costa
ASSISTENTES:
SD PM Orlando Junior/SD PM Igor Freitas
AGRADECIMENTOS
Moacir Mancha e ao povo de Queimadas
REALIZAÇÃO:
Polícia Militar da Bahia
Departamento de Comunicação Social  

Abram Alas para o Movimento Armorial Por:Manoel Severo


Quando falamos que o Cariri Cangaço é uma das construções coletivas mais exitosas dentro do conjunto de manifestações culturais nordestinas, estamos falando de um conjunto de pessoas; homens e mulheres; pesquisadores, escritores, artistas, produtores culturais, personagens apaixonados por nossa matriz cultural, enfim, que se unem não só em torno de um evento, mas, se unem em torno de um sentimento e a partir dali, olham na mesma direção.

Ao longo dos anos, além do Conselho Consultivo Alcino Alves Costa, hoje composto por 30 membros, pesquisadores notáveis de todo o Brasil; o Cariri Cangaço possui ainda uma imensidão de mais mil colaboradores de todo o Brasil, que ajudam a construir nossa história. Cada evento, cada movimento, cada ação, possui a alma de muitos desses heróis do sertão... Eles são os grandes responsáveis pelas diretrizes, pelo formato, pelas temáticas, enfim, assim vamos construindo, passo a passo o Cariri Cangaço.

Carlos Alberto, Camilo Lemos, Manoel Severo e Mucio Procópio

Nesta última semana, em mais uma oportunidade nos reunimos com companheiros de Cariri Cangaço, desta vez em Natal, Rio Grande do Norte; para nos debruçarmos sobre os desafios da Marca para o anos de 2017, 2018...enfim. Encontros como muitos outros anteriores e como muitos outros que irão se repetir pelos próximos quatro meses, em varias cidades do Brasil, na direção do planejamento de nossas próximas agendas.

No restaurante Mangai, de comida típica regional; Manoel Severo, Mucio Procópio, Carlos Alberto e Camilo Lemos; estivemos por longas horas compartilhando ideias sobre o desenvolvimento do Cariri Cangaço, as novas sedes e projetos como também os temas para os próximos anos. Naturalmente quando nos debruçamos sobre nosso principal objeto de paixão, a conversa flui sem tempo e sem compromisso, tornando o encontro de trabalho em algo simplesmente sensacional, uma noite preciosa...

Cariri Cangaço em noite de conversa em Natal

O Cariri Cangaço tem como temática principal o Cangaço, entretanto desde suas primeiras edições vem se configurando como um grande e dinâmico palco por onde se apresentam todas as faces desta maravilhosa historia e cultura nordestina: Cangaço, messianismo, coronelismo, religiosidade, enfim, como também todas as suas manifestações  através das artes; musica, dança, teatro, cinema, poesia, literatura, fotografia, escultura, pintura, cordel, cantoria...

Para 2017 e 2018, estamos nos dedicando a construir uma agenda que nos permita consolidar esse sentimento de fomento de todas essas manifestações. A chegada aos municípios de Exu, Serrita, Paulo Afonso, Delmiro Gouveia, e em nossas esperadas reedições em Floresta-Nazaré, Piranhas-Água Branca, Princesa Isabel, depois em nosso Ceará e ainda as ousadas empreitadas das capitais nordestinas; em principio João Pessoa e Teresina;, e da surpreendente Lisboa, haverão de tornar esse biênio que se aproxima em um momento verdadeiramente especial.


Uma das grandes novidades da agenda 2017/2018, será sem dúvidas a chegada em grande estilo do Movimento Armorial ao Cariri Cangaço. A espetacular Arte Armorial Brasileira, que se traduz no Movimento Armorial; nascido a partir do gênio incomparável de Ariano Suassuna e que como traço comum principal tem a ligação com o espírito mágico dos "folhetos" do Romanceiro Popular do Nordeste, a nossa sensacional Literatura de Cordel; se configura como uma das mais autenticas manifestações da verdadeira alma nordestina.

"A vida é a arte do encontro..." e estamos todos comprometidos em promover esse grande encontro entre o povo e sua origem , que passa e se fortalece necessariamente através de nossa cultura de raiz" comenta o curador do Cariri Cangaço, Manoel Severo. Para o pesquisador Carlos Alberto "já era tempo do Cariri Cangaço abrir suas portas para o espetacular Movimento Armorial, a literatura de cordel, a musica de viola e rabeca, a xilogravura, os ferros de marcar gado, sem duvidas será sensacional".

Conselheiro Múcio Procópio e Manoel Severo

O Conselheiro Cariri Cangaço Múcio Procópio completa, "todos temos experiencias ricas quando se trata dessa cultura de raiz nordestina, o Cariri Cangaço presta um serviço importantíssimo na divulgação e preservação desse movimento". Para Ariano Suassuna "sendo "armorial" o conjunto de insígnias, brasões, estandartes e bandeiras de um povo, a heráldica é uma arte muito mais popular do que qualquer coisa. Desse modo, o nome adotado significou o desejo de ligação com essas heráldicas raízes culturais brasileiras." Camilo Lemos ressalta o esforço "de todos os que fazem o Cariri Cangaço na direção de fortalecer essa mesma cultura, isso é fenomenal."

Segundo Manoel Severo,"estaremos inaugurando neste 2017, algumas iniciativas ousadas e com certeza haveremos de trazer o  Movimento Armorial para dentro do Cariri Cangaço, começaremos com o "Ferro de Marcar Boi" e o "Cordel", acho que será muito bacana".

Manoel Severo
Curador do Cariri Cangaço

Um Sonho a ser Sonhado, um Museu no Centro do Sertão Por:Gilmar Teixeira

Gilmar Teixeira, Givaldo Teixeira e João de Sousa Lima, em Paulo Afonso

Estive na casa do amigo, escritor, pesquisador e historiador João de Sousa Lima, fui lá para apresentar ao meu irmão Givaldo Teixeira, o museu particular do amigo João. Logo na entrada de sua casa, já respiramos sertão em toda em sua plenitude, principalmente nós , sertanejos natos que vivenciamos e eternizamos em nossas memórias cada detalhe daquilo que diz, isso é sertão, isso faz parte do nosso sertão, assim é a casa de João de Sousa, assim é a casa que começamos a visitar naquela segunda-feira de ressaca, ainda da copa vela, que acabara de terminar nas primeiras horas da madruga com o show cultural de Anitta e sua trupe. 
Vamos a visita, que é o que nos interessa: Ao adentrarmos o quintal da sua casa, deparamos com uma imensidades de bicicletas antigas, cangaias de jegues, filtros antigos, rodas de carro de boi, máquinas de custuras, fósseis achados em nossa região e outras máquinas afins, ao pisar logo na sala de espera, uma surpresa nos aguardava, várias cristaleiras abarrotadas de cristais e porcelana de épocas diversas, móveis com mais de 100 anos, relógios centenários, gramofones e seus discos de 78 rpms, quadros com seus feitos, além de uma enormidade de objetos centenários. Passamos a olhar a segunda sala, onde se encontram os objetos da época do cangaço; suas armas, suas roupas, seus utensílios de viagens, perfumes e jóias usadas pelas cangaceiras e cangaceiros. 

No quarto ao lado encontram-se objetos usados na guerra de canudos e na insurreição de Juazeiro, como cartas originais de Padre Cicero, livros da época, além de milhares de fotos originais da história geral de Paulo Afonso, do cangaço, messianismo na nossa região, além de uma coleção de milhares de discos de vinil, e sem falar da coleção de cordéis, contados aos milhares. São mais de 3 mil objetos históricos, digno dos mas nobres museus, aí pergunto, por que não disponibilizar esse patrimônio para um museu em Paulo Afonso ?
Ao sair daquela visita fiquei matutando o dia todo, como um homem gasta todo seu valoroso suor na compra destes objetos, gastou milhares de horas em busca destas relíquias, ausentou-se inúmeros dias do aconchego do seu lar, dos abraços de suas filhas queridas, dos papos com os amigos, tudo isso apenas para a realização de um sonho, dar de presente um museu a cidade que o acolheu, matutando na solidão do meu quarto, tomei uma decisão, vou atrás com os amigos diletos, para a realização deste sonho de João de Sousa Lima, pois juntos; eu, vocês, João, Josés, Marias, seremos capazes de fazer a roda desse sonho rodar, como dizia Raul Seixas, um sonho sonhado sozinho é um sonho, um sonho sonhado juntos é realidade

Gilmar Teixeira
Cineasta, documentarista, pesquisador e escritor
Paulo Afonso, BA

Cangaceiro e Cordel Por:Raul Meneleu


O povo sertanejo nunca admirou criminosos. Algumas pessoas são enganadas por aqueles que querem "branquear" a história de bandidos e querem confundir os incautos com a admiração que o sertanejo tinha e tem por homens valentes. Isso sempre foi assim. 

A sua formação, criados de forma mais "guerreira" - digamos assim - o predispõe para reconhecer aqueles que têm coragem de enfrentar o sistema, que os explora - e que também explora não só nas relações financeiras, mas também em autoridade, quando as injustiças são sentidas. Essa é a história inventada pelos poetas cordelistas, pois sabendo que o povo admira e exalta a valentia, criam em suas mentes férteis de poetas, pedras brutas e calhaus  em jóias valiosas de ouro e diamantes

Segundo Luis da Camara Cascudo, "durante séculos, enquistado e distante das regiões policiadas e regulares, o sertão viveu por si mesmo, com seus chefes e milicianos. As primeiras sesmarias, no longínquo século XVII, trouxeram o sesmeiro com seus trabalhadores que eram, nos momentos em que a indiada assaltava, homens de armas." e isso trouxe anomalias sociais e injustiças.
  
Luis da Câmara Cascudo

E continua dizendo que foram "os mais ricos que deram os sargentos-mores, os capitães-mores das ribeiras, títulos honoríficos mas de ação moral segura para a disciplina da região. Os fazendeiros tiveram necessidade de tropa pessoal, fiel e paga, para a defesa de propriedades visadas pelos adversários políticos." 

"A justiça, cara, lenta e rara, era vantajosamente substituída pelo Trabuco, numa sentença definitiva e que passava em julgado sem intimação do procurador-geral. Abria ensancha a uma série de lutas ferozes, de geração a geração, abatendo-se homem como quem caça nambus. Das emboscadas, tiroteios, duelos de corpo a corpo, assaltos imprevistos nas fazendas que se defendiam como castelos, batalhas furiosas de todo um bando contra um inimigo solitário e orgulhoso em seu destemor agressivo, nasciam os registos poéticos, as gestas da coragem bárbara, sanguinária e anônima."

A aura poética foi a grande culpada - digamos assim - se bem que não existe barreiras para a poesia, para o romance e nem para o cinema - mas a grande questão é como separar a inspiração irreal da verdade.


Por exemplo, um dos focos poéticos dos cantadores de feira, tanto no sertão de outrora, quanto na modernidade, faz que os poetas cordelistas enfoquem sempre que os cangaceiros tornaram-se "fora da lei" por conta de injustiças cometidas contra eles ou familiares. Lógico que em alguns casos, isso aconteceu sim. Mas em outros, esses cangaceiros antes que a "lei dura" ao combate do banditismo chegasse a eles ou seus familiares, com a sanha desnaturada de violência, já tinham cometido malfeitos.

Daí isso tornava-se indistinto para a maioria, pois como fazer distinção do cangaceiro do homem valente? No cangaço não sobrevivia quem era "frouxo". Só os valentes sobreviviam aos ataques de uma polícia que era violenta; e tornavam-se admirados, não por seus roubos e assassinatos, mas por não demostrarem medo, até que um dia eram mortos e daí se já eram cantados em vida, quando mortos viravam fontes de enaltecimento pelos poetas cordelistas do sertão.

"Raramente sentimos, nos versos entusiastas, um vislumbre de crítica ou de reproche à selvageria do assassino. O essencial é a coragem pessoal, o desassombro, a afoiteza, o arrojo de medir-se", nos alerta Camara Cascudo.

O sertão nordestino nos mostra que temos muito dos povos ibéricos, principalmente de Portugal e Espanha, e sua presença no mundo. De matriz globalmente latina, os ibéricos tiveram uma profunda influência no planeta a partir do século XV, inaugurando a expansão ultramarina europeia e espalhando as suas culturas e as suas línguas por todos os continentes, mas especialmente pela América Latina. Por sua vez, além de seus costumes, trouxeram também outros que em suas aventuras de busca de rotas comerciais adquiriram. Daí as tradições cantadas, indumentárias de couro dos vaqueiros, as armas brancas. Tudo isso veio de lá, de terras ultra-marinas.


O canto das aventuras dos heróis, onde a poética que tudo pode, transformou o cangaceiro nordestino, por sua valentia em tais. Em todos os povos existe isso. Na Inglaterra com Robin Hood, na França com Pierre de la Brosse, na Itália com Gasparone, com Bonnacchocia, com Nino Martino, com o napolitano Perella, o corso Romanetti cujo enterro, em Ajaccio, a 29 de maio de 1926, foi acompanhado por 30.000 pessoas e a polícia teve de ser recolhida, "por precaução" aos quartéis, para evitar "conflitos com o Povo". (Gustavo Barroso — "Almas de Lama e de Aço", p. 110.) 

"Não é doutra origem o halo popular que sempre cercou Ciro Annichiarico, dom Gaetano Vardareili que se fez padre ou Louis Mandrin, contrabandista e assaltador, adorado pelos aldeões franceses que o têm como herói legítimo. Como o cangaceiro é a representação imediata da coragem, o sertanejo ama seguir-lhe a vida aventurosa, cantando-a em versos." (Luis da Camara Cascudo - "Vaqueiros e Cantadores" pg 161)

Criando Deus o Brasil, 
desde o Rio de Janeiro, 
fez logo presente dele 
ao que fosse mais ligeiro: 
O Sul é para o Exército! 
O Norte é prá Cangaceiro! ...
Antônio Silvino, o "Rei do Sertão", durante vinte anos de domínio absoluto, era tido pelos cantadores como um ser infeliz, obrigado a viver errante por ter vingado a morte de seu Pai. 

Eu tinha quatorze anos, 
quando mataram meu pai. 
mandei dizer ao cabra: 
Se apronte que você vai 
Se esconda até no inferno 
de lá mesmo você sai.
                
Para Virgolino Ferreira da Silva, o Lampião, a história é a mesma: 

Assim como sucedeu 
ao grande Antônio Silvino, 
sucedeu da mesma forma 
com Lampeão Virgolino, 
que abraçou o cangaço 
forçado pelo destino . 

Por que no ano de Vinte 
seu Pai fora assassinado 
da rua da Mata Grande, 
duas léguas arredado.
Sendo a força de Polícia 
Autora deste atentado ... 

Lampeão desde esse dia 
jurou vingar-se também, 
dizendo: — foi inimigo, 
mato, não pergunto a quem... 
Só respeito neste mundo 
Padre Cisso e mais ninguém! ... 

A exaltação dos cantadores pelas façanhas de Antônio Silvino chegara ao delírio. Subia das gargantas um hino áspero, selvagem e tremendo de glória rude, tempestuosa e primitiva. 

Cai uma banda do céu, 
seca uma parte do mar, 
o purgatório resfria, 
vê-se o inferno abalar ... 
As almas deixam o degredo, 
corre o Diabo com medo, 
o Céu Deus manda trancar! 

Admira todo o mundo 
quando eu passo em um lugar. 
Os matos afastam os ramos, 
deixa o vento de soprar, 
se perfilam os passarinhos, 
os montes dizem aos caminhos: 
Deixai Silvino passar! ... 

Assim mesmo inda há lugar 
que eu passando tocam hino, 
o preto pergunta ao branco, 
pergunta o homem ao menino: 
— Quem é aquele que passa? 
E responde o povo em massa: 
— Não é Antônio Silvino? 

Pergunta o vale ao outeiro
 o ima à exalação, 
o vento pergunta à terra, 
e a brisa ao furacão, 
respondem todos em coro: 
— Esse é o Rifle de Ouro, 
Governador do Sertão! ... 

E a Lampião afirmam, nos versos que lhe são continuamente dedicados: 
O cangaceiro valente,
nunca se rende a soldado,
melhor é morrer de bala,
com o corpo cravejado,
do que render-se à prisão,
para descer do sertão,
preso de desmoralizado...


Para Virgolino Ferreira da Silva, o Lampião, a história é a mesma. A exaltação dos cantadores pelas façanhas dos valentes. Preso a 28 de novembro de 1914, Antônio Silvino, o "Rifle de Ouro" tornou-se um homem digno da viva simpatia que o cercou. O Governo Federal indultou-o e, a 19 de fevereiro de 1937, o "Rei do Sertão", velho, encanecido, risonho, mas impassível, deixou a prisão. Herda-lhe a fama o sinistro Lampião, cangaceiro sem as tradições da valentia pessoal, de respeito às famílias que sempre foram apanágios do velho Silvino. 

"A gesta do Cangaceiro faz ressaltar as grandes e pequenas figuras do "cangaço". Desde o negro Vicente que confessava: 

Eu sou negro ignorante 
só aprendi a matar, 
fazer a ponta da faca, 
limpar rifle e disparar, 
só sei fazer pontaria, 
e ver o bruto embolar.

Camara Cascudo também fala de outros bandidos famosos, "... de valentia louca e não menor arrogância. Cirino Guabiraba, da Serra do Teixeira, Paraíba, sabendo que ia ser cercado por dez homens comandados pelo delegado Liberato: 

Cirino disse sorrindo: 
— Com isso eu não tomo abalo, 
dez homens contra mim só 
são dez pintos contra um galo, 
para eu matar eles todos, 
basta os cascos do cavalo! ... 

E morreu em luta, um contra dez, arrancando os intestinos varados a bala de latão e chumbo grosso. O sertão guarda a lembrança dessas dinastias de facínoras, heróis e bandidos, e deles evocava suas gestas e valentias. Até que surgiu alguém, um cantador chamado José Patrício que em seus verso entoados nas feiras do Interior paraibano, mostrava com crueza, a ausência daqueles valentes, pois estavam mortos: 

Então, me diga onde estão 
os valentões do Teixeira? 
onde estão os Guabirabas? 
Brilhantes, de Cajazeiras? 
Aonde vivem estes homens 
que eu não os vejo na feira? 

José Tavares, Raul Meneleu e Petrucio Rodrigues, no Cariri Cangaço

E como o sertanejo deduz de toda luta um aspecto moral, um direito preterido, um patrimônio violado, os poetas populares dizem que é o desrespeito às minorias, que nunca se fizeram sentir ante a arbitrariedade dos governadores, um dos motivos da eterna guerra. Daí o endeusamento aos valentes, confundindo com as injustiças que alguns sofreram, com sua luta como se fosse pela justiça social.

Este governo atual Julga
que a oposição 
não tem direito ao Brasil, 
pertence a outra nação... 
Devido a isso é que o rifle
tem governado o sertão! ... 

E os cangaceiros convencem-se de seu papel de justiça social, defendendo pobres e tomando dinheiro aos ricos. Lampião confessa: 

Porém antes de eu ser preso, 
Hei de mostrar o que faço, 
dar surra em cabra ruim 
roubar de quem for ricaço. 
Só consinto em me pegar 
no dia em que alguém pisar 
em cima do meu cangaço ... 

Quando Antônio Silvino percorria o Nordeste com seu bando, os cantadores, aludiam, com uma naturalidade espontânea, ao seu "serviço" social: 
O forte bate no fraco, 
o grande no pequenino, 
uns se valem do Governo, 
outros de Antônio Silvino, 
O rifle ali não esfria 
sacristão não larga sino...

Como nos diz Câmara Cascudo: "A gesta é uma poesia de ação. De luta e de movimento. Não há a sensação da paisagem da natureza e do cenário. Verso descrevendo esses elementos denuncia inteligência semiletrada e nunca a produção se destina aos lábios dos cantadores. Os cangaceiros são as figuras anormais que reúnem predicados simpáticos ao sertão. A coragem, a tenacidade, a inteligência, a força, a resistência eram elementos para a exaltação." (Luis da Camara Cascudo - "Vaqueiros e Cantadores" pg 164)

E como isso afetava de sobremaneira o povo sertanejo, esses predicados foram os preferidos dos poetas cordelistas e cabe aos pesquisadores e historiadores, desfazerem o mito criado.

Raul Meneleu, pesquisador e escritor
Conselheiro Cariri Cangaço - Aracaju SE
Fonte:http://meneleu.blogspot.com.br/2016/09/cangaceiro-x-cordel.html

Joao Pernambuco volta a Petrolandia Por:Mucio Procopio


O que não foi possível no Cariri Cangaço em Floresta será concretizado na simpatica Petrolândia neste próximo dia 23.09.16, uma sexta feira as 15 horas no Trupé Cultural a convite do confrade Jadilson Ferraz que mantem e oferece um Centro Cultural a sua cidade, e inaugurando com uma palestra sobre o filho mais ilustre da cidade e que mais se destacou no cenário da Música Popular Brasileira levando para o Rio de Janeiro a riqueza de nossa música nordestina mostrando a riqueza dos nossos cantadores, violeiros e repentistas e que influenciou paulistas e cariocas de 1912 ao início dos anos trinta, como Noel Rosa, João de Barro, o Braguinha, Almirante, Catulo da Paixão Cearense, além de Pixinguinha e Donga. Dessa forma gostaria de convidar a todos os amigos que puderem comparecer , o que sera uma grande festa de Alma Nordestina.

Mucio Procópio
Pesquisador, Conselheiro Cariri Cangaço
Natal - RN