Humberto Mesquita o "Caçador" de Cangaceiros nos Grandes Encontros Cariri Cangaço

Humberto Mesquita em seu programa ao lado de ex-cangaceiros e ex-volantes na Tv Tupi

Humberto Mesquita paraibano da gema; filho da querida  Campina Grande, começou sua jornada no radio e no jornalismo aos 16 anos de idade. Foi repórter esportivo, redator na Sport Press e da Rádio Tupi, do Rio de Janeiro. Depois vieram a Radio Bandeirantes e TV Excelsior em São Paulo. Escreveu para a revista Realidade e atuou nas TVs Bandeirantes e SBT. Apresentou o histórico programa "Pinga Fogo" na TV Tupi e realizou importantes pesquisas sobre Lampião, o Rei do Cangaço, e sobre figuras lideranças religiosas nordestinas, a partir de sua ligação com a historiadora Christina Matta Machado nos meados dos anos sessenta.


Humberto Mesquita apresentou programas, como o "Pinga Fogo", na Rede Tupi, "Xeque-Mate", na Bandeirantes, e "Isto é Brasil", no SBT. Por trás das câmeras, foi editor de jornalismo na Tupi e no SBT. Na imprensa escrita trabalhou nas revistas Cruzeiro e Realidade, dentre outras. É autor do livro "Tupi, a Greve da Fome", do romance "Santa Brígida", e de "Coisas que eu vi", sua obra mais recente. Atualmente escreve "No Rastro dos Cangaceiros”. Atualmente mora em Marselha, na França.

Programa Tv Tupi
Christina Matta Machado
Almoço promovido por Humberto Mesquita que reuniu ex-cangaceiros e ex-volantes em 1968.

Humberto Mesquita é o convidado especial dos Grandes Encontros Cariri Cangaço. A saga do jornalista que "descobriu" vários cangaceiros no asfalto de São Paulo; sua ligação com Christina Matta Machado, os encontros, as confidências, os testemunhos e muito mais nesta quarta, dia 21 de abril às 19h30.

Humberto Mesquita será entrevistado pelo curador do Cariri Cangaço, Manoel Severo e pelo pesquisador e escritor, Ângelo Osmiro, Conselheiro Cariri Cangaço e presidente do GECC - Grupo de Estudos do Cangaço do Ceará.


Serviço:
Grandes Encontros Cariri Cangaço
NO RASTRO DOS CANGACEIROS
Humberto Mesquita, Manoel Severo e Ângelo Osmiro
Dia 21 de Abril de 2021 às 19h30
Canal do You Tube do Cariri Cangaço



A Morte dos Cangaceiros Mané Moreno, sua Companheira Áurea e Cravo Roxo Por:Archimedes Marques

Mané Moreno

O grupo chefiado por Mané Moreno estava arranchado há três dias na fazenda Jaramataia, em Gararu, propriedade essa pertencente a Antônio Caixeiro, o maior coiteiro de Lampião em Sergipe. Nessa ocasião Antônio Caixeiro ali não estava presente, entretanto, os seus empregados tinham ordem expressa para receber os cangaceiros quando eles bem lhes conviessem, tanto é que a Jaramataia também era um dos portos seguros desses bandoleiros, além de outras tantas fazendas de um lado ou doutro lado do “Velho Chico”, então pertencentes a esse tão importante coiteiro. Assim, provavelmente por conta de informações de moradores circunvizinhos, Odilon Flor ali foi parar no encalço e rastro dos cangaceiros, oportunidade em que os mesmos já tinham “capado o gato”, ou seja, já tinham saído de Jaramataia. Diferente dos policiais sergipanos que não se atreviam a “apertar” os empregados de Antônio Caixeiro em virtude de ele ser o pai do governador Eronides Ferreira de Carvalho, logo, Odilon Flor “pressionou” um vaqueiro e este “vomitou” o trajeto tomado pelos cangaceiros que pararam na casa de Janjão, em Poço da Volta. Neste sentido o mestre Alcino Alves Costa nos ensina que o nome do vaqueiro que delatou a rota dos cangaceiros foi o Pedro Miguel. Tudo ocorreu da seguinte maneira:

Antônio Caixeiro

Era a tarde do dia 23 de junho de 1937, véspera de São João, e na fazenda vizinha, a Palestina, de propriedade de Nezinho Meia Lasca, fazenda essa situada à beira do rio Gararu, logo mais a noite haveria uma festança em homenagem ao santo mais comemorado do mês junino, entre nós, os nordestinos. Nezinho, além de ser um violeiro famoso era festeiro e assim o São João nas suas terras seria de primeira grandeza e o “arrasta-pé” prometia “pegar o sol com a mão”, ou seja, dança e muita animação até o raiar do dia.

A enorme fogueira acesa no meio do terreiro servia ao mesmo tempo para iluminar a para aquecer, pois o frio era intenso. O sanfoneiro não parava o fole, acompanhado de viola, surdo e pandeiro, um bom “Trio Pé de Serra”. Muita bebida, muitas jovens da redondeza e solteironas atiradas, foguetório, bombas, busca-pés. Mané Moreno dançava no alpendre da casa com a sua companheira Áurea.

Era por volta das nove horas da noite quando Odilon Flor guiado pelo exímio rastejador, o cabo Leonídio que também prestava serviços a tropa de Zé Rufino, ali chegou com os seus outros comandados que não se preocupavam em fazer silencio, vez que tudo era abafado pelo calor da festa, ademais a força policial estava em extrema vantagem, pois se encontrava na escuridão da noite enquanto os cangaceiros estavam no clareado da fogueira, alvos fáceis, além dos candeeiros postados na casa sede da fazenda, sem esquecer do fator surpresa, muito importante em qualquer combate, enfim, tudo estava a favor do bravo Odilon Flor naquela bela noite de São João. Assim, todos os policiais se postaram para o ataque surpresa, imprevisto para os animados festejadores, alvos bem visíveis. Alguns escolheram os seus alvos e com a ordem do comandante Odilon Flor “mandaram bala”, tiro que “só o diabo” e “pernas para que te quero” após o pandemônio da nova situação que quase não deu tempo de reação, apenas alguns tiros em revide contra o clarão que vinha da escuridão, enfim, o melhor era fugir e foi isso que o restante do bando fez, principalmente quando viram que o seu chefe já “alçava voo para se entender com São Pedro em pleno São João”, ou seja, o Mané Moreno havia sido atingido mortalmente. E o resultado desse tiroteio foi que ficaram estendidos sem vida cinco cadáveres: três cangaceiros e um casal de convidados que ali se divertia.

Mané Moreno e Áurea foram de logo reconhecidos. Quanto ao outro morto pensaram ser o Gorgulho. Depois o identificaram como sendo o Cravo Roxo. Além dos visitantes mortos, havia muita gente ferida, inclusive Nezinho Meia Lasca, dono da casa. Da força de Odilon Flor ficou ferido sem gravidade o soldado Luís Manoel Santos.


Dia seguinte o sargento Odilon Flor apresentou os seus “troféus”, as cabeças dos cangaceiros abatidos, na cidade de Gararu, onde foram fotografadas e de lá seguiu para Jeremoabo, na Bahia, onde esperava a devida promoção por bravura à patente de tenente.

Entretanto, ao invés de Odilon Flor ser promovido, fora severamente repreendido pelo capitão Manoel Campos de Menezes, comandante das F.O.N.E. (Forças em Operações no Nordeste) situada em território baiano. Odilon Flor fora repreendido por conta de interferência política do Estado de Sergipe com a Bahia, vez que além dos cangaceiros abatidos, sua tropa matara um casal de inocentes e ferira tantos outros que não tinham nada a ver com a bandidagem, apenas estavam em local errado, no horário errado, no dia errado, tão comum naquela época em que os cangaceiros intimavam as pessoas para as suas festas que se não fossem atendidos correriam risco de vingança. Vale ressaltar que o capitão Manoel Campos de Menezes nesse mesmo ano veio a falecer, aos 33 anos de idade, vítima de meningite que assolou aquela região baiana.

Aracaju, 03 de novembro de 2020
Archimedes Marques, Pesquisador
Presidente da ABLA e Conselheiro Cariri Cangaço

Estreia hoje no Instagram: CARIRI CANGAÇO PERSONALIDADE


IMPERDÍVEL HOJE , LÁ NO INSTAGRAM !!!
Impossível pensar a musica brasileira sem passar necessariamente pela musica nordestina. É impossível pensar a musica brasileira sem deitar o olhar para dois de seus principais ícones . Um o Rei, o Embaixador, o outro, um Anjo, o Sucessor... Um chamava Luiz outro José...Ou melhor, Luiz Gonzaga do Nascimento; o Gigante Rei do Baião Luiz Gonzaga, o outro, José Domingos de Morais; ou simplesmente Dominguinhos. "Paulo Vanderley um dos maiores pesquisadores do universo Gonzaguiano" no programa de estreia do Cariri Cangaço PERSONALIDADE no Instagram.
HOJE, DIA 19 DE ABRIL DE 2021 - AO VIVO AS 20H .

Segue lá: @cariricangaço

Manoel Severo, Paulo Vanderley e Waldonis

"Sempre comentamos e asseveramos que o Cariri Cangaço é uma construção de muitas mãos e muitos corações; sempre foi assim, desde sua gênese. Primeiro na realização dos grandes seminários, conferências, debates, extraordinárias visitas técnica, exposições, enfim, e já se vão doze anos; depois a consolidação desta mesma "revista eletrônica" que se tornou nosso blog, depois a expansão nas redes sociais: Facebook, You Tube, Whats App, Instagram, e mais recentemente com o sucesso que são os "Grandes Encontros Cariri Cangaço" programa semanal em nosso canal no YouTube. Agora ousamos mais uma vez, hoje estreia nosso Programa semanal na plataforma Instagram: PERSONALIDADE; vale a pena ver, grande abraço a todos e até lá", convida Manoel Severo, curador do Cariri Cangaço.

A Fazenda Santa Cruz Por: Valdir José Nogueira

Fotografia de André Magalhães.

Numa madrugadinha friorenta de julho de 1927, as jovens mocinhas Belisarina Alves de Carvalho (Belisa) e Gertrudes Gomes de Carvalho (Tudinha), na companhia do vaqueiro Pedro Leôncio, em suas montarias seguiram da fazenda Malhada Grande com destino à fazenda Santa Cruz para realizar o pagamento de uma promessa, pois Belisa havia alcançado uma graça com o milagroso Bom Jesus dos Aflitos, padroeiro daquela fazenda. A devoção ao Senhor Bom Jesus dos Aflitos possui suas raízes em Portugal, de onde foi levada aos países de colonização portuguesa, como Brasil, Angola e Açores. A tradição conta que a imagem venerada na Fazenda Santa Cruz foi trazida de Portugal pelo Sr. Manoel Gomes dos Santos, casado com Maria Águida Diniz (de Panela D’Água), arrendatários e proprietários da Fazenda Inveja. A referida imagem foi benta pelo padre santo de Juazeiro Cícero Romão Batista, numa de suas inúmeras passagens pela Santa Cruz, sendo zelosamente segregada dentro de um antigo oratório de jacarandá que veio da Bahia, com outras imagens e relicários de santos também antigos e de raro valor, dentre os quais uma belíssima imagem de Santa Escolástica, hoje em poder de dona Maria José Primo de Carvalho Costa, esposa de seu Levino Costa, residente no Recife. Tradicionalmente se rezava naquela fazenda todos os anos a novena ao Bom Jesus dos Aflitos, por sinal, muito concorrida, onde afluía um grande número de devotos entre parentes moradores, agregados e vizinhos.

Ao chegarem a dita fazenda, depois dos costumeiros cumprimentos as mocinhas foram guiadas ao Quarto dos Santos onde ficava a imagem do Padroeiro da fazenda. Ora, frustrou-se a jovem Belisa porque as guardiãs do santo, dona Adelina e dona Abigail, estando as duas em seus dias de mau humor, não permitiram que o oratório fosse aberto. Tendo rezado apenas um mistério do rosário, voltaram as mocinhas para a Malhada Grande com muita raiva, sem soltar os fogos nem acender as velas que haviam levado.

A Santa Cruz era um “Condado”, conforme se falava na Ribeira de Belmonte. Foi uma das sedes da unidade familiar dos Carvalhos, da atividade produtiva do ciclo do gado além de ter sido também sede da vida política local, da grande autarquia sertaneja dessa poderosa família com poderes quase que absolutos e da rede de mandos e desmandos que pautou a própria organização do território belmontense. Além de que seu primitivo proprietário possuía ali uma grande escravaria.

Augusto Martin, Manoel Severo e Valdir Nogueira

A fazenda Santa Cruz foi arrendada à Casa da Torre da Bahia em 04 de novembro de 1829 por Gonçalo Gomes dos Santos. Este senhor era filho do português Manoel Gomes dos Santos e de Maria Águida Diniz, proprietários da Fazenda Inveja. Da fazenda Inveja originou-se o Patrimônio de Belmonte. “Tendo Ana Maria Diniz, recebido de herança de sua mãe Maria Águida Diniz uma propriedade na fazenda Campo Grande (Floresta), permutou essa fazenda pelo Sítio Santa Cruz de Cima (Belmonte), pertencente ao seu irmão Gonçalo Gomes dos Santos.” Este é o texto do documento cartorial datado de 24 de agosto de 1831, da Comarca de Floresta, conforme publicação do livro “Do Clã do Tapuio Os Primos”, da escritora belmontense Zélia Primo de Carvalho Leal. Dessa forma a referida fazenda Santa Cruz, pertencente a Ana Maria Diniz, passou por herança, para a sua filha Manoela Maria de Jesus, que casou com José Alves de Carvalho e Sá, que era filho de Manoel Goiana de Carvalho e de Maria Gomes de Sá.

Filhos de Manoela e José:
1 – Antônia Benedita de Carvalho. Casou em 28/08/1861 com Manoel de Sá e Araújo Neves, filho de Manoel de Sá e Araújo e Quitéria Maria da Cruz.
2 – Maria Teodora de Carvalho. Casou em 16/11/1859 com Manoel Lopes da Silva Barros, da fazenda Icós, filho de Martinho Lopes Diniz e Maria Águida Diniz. Esse casal deixou 8 filhos dentre os quais o tenente coronel José de Carvalho e Sá Moraes, grande vulto da história belmontense. Dentre os cargos públicos que ocupou foi prefeito em dois mandatos e grande líder político da família Carvalho no município. No tempo das questões com os Pereiras, foi embora para o Estado da Bahia, onde faleceu no ano de 1920.
3 – Gertrudes Maria de Carvalho. Casou em 28/05/1859 com Clementino Alves de Carvalho, natural da freguesia de Fazenda Grande, filho de Antônio Alves de Carvalho e Antônia Maria de Carvalho. Esse casal também deixou 8 filhos, dentre os quais Antônio Clementino de Carvalho e Sá, o famoso caudilho Antônio Quelé. Este se transformou no principal desafeto da família Pereira em decorrência de ter assassinado Manoel Pereira Maranhão seu parente. Quelé foi preso e inocentado. A sua absolvição demarcou o ressurgimento da secular questão entre Carvalho e Pereira na ribeira do Pajeú no século passado.
4 – Joaquim Ernesto de Carvalho. Solteiro, em 13/01/1874, aos 27 anos de idade faleceu de “bexigas”.
5 – João Alves de Carvalho e Sá. Nascido no dia 16/05/1838, época em que estava acontecendo as imolações no “Reino Encantado da Pedra do Reino”. Foi batizado solenemente pelo reverendo Frei Simão do Coração de Maria que lhe pôs os santos olhos na Capela de São Francisco a 22/06/1838, sendo padrinhos Manoel de Carvalho Alves (seu tio paterno) e Gertrudes Maria de Barros (sua tia-avó materna).
6 – Ana Maria Diniz – faleceu ainda criança.
José Alves de Carvalho e Sá, que era conhecido também como Zezinho ou Zé de Carvalho da Santa Cruz, seu antigo proprietário, depois da morte do seu cunhado José Pires Ribeiro, encabeçou a relação dos responsáveis para a conclusão da igrejinha de São José do Belmonte que havia ficado inacabada.
Há relatos de que Zé de Carvalho sempre dizia: - “Quando eu morrer me enterre na porta central da Igreja de São José para que o povo de Belmonte passe por cima, como forma de remir os meus pecados.” Ao falecer em 1897 seu desejo foi cumprido sendo então sepultado no local por ele indicado. Em 1927, trinta anos depois, o padre Renato de Menezes empreendeu uma reforma na Matriz de São José. Quando os mestres foram cavar os alicerces da base da torre, que logo após desabou, o mestre da construção encontrou as meias de seda e as botinas do velho Zé de Carvalho da Fazenda Santa Cruz ainda intactas.
Observem os sinais do caminho do tempo, a sede da Fazenda Santa Cruz, imóvel secular que abrigou tantas histórias se transformou hoje em assentamento do MST, onde o único sobrevivente do seu passado é um nobre, grande, belo e poderoso Baobá, que triste e saudoso vive ali a contemplar o passado glorioso daquela velha fazenda do torrão belmontense.
Valdir José Nogueira de Moura, Conselheiro Cariri Cangaço

Cariri Cangaço Personalidade, Novo Projeto para o Instagram


Você já conhece os GRANDES ENCONTROS CARIRI CANGAÇO;  programa semanal em nosso Canal do You Tube; e agora te convido para conhecer CARIRI CANGAÇO PERSONALIDADE, nosso novo projeto, criado especialmente para o Instagram.

Vem com a gente, entra lá no Instagram e segue @cariricangaço e se apaixone ainda mais por esse vasto e extraordinário universo do sertão.

PERSONALIDADE estreia nessa segunda,

dia 19 de abril, às 20h.

As Grandes Fugas da Cadeia Velha de Pombal Por:José Tavares de Araujo Neto


A cadeia de Pombal, cuja construção foi iniciada em 1841 e concluída em 1849, registrou sua primeira fuga em massa quatro anos após sua inauguração, precisamente em 24 de novembro de 1853. O fato chamou muito atenção e teve grande repercussão, tendo em vista ser ela considerada uma das mais seguras do império.

As paredes externas com 1 metro de largura e mais de 4,5 metros de altura; na parte frontal, um portão de grades em ferro maciço e quatro janelas reforçadas com grades duplas; na enxovia, cela escura que abrigava os presos de maior periculosidade, a altura de cerca de 3 metros, foi instalada uma espécie de forro em vigas de madeira de lei com cerca de 30 cm de espessura, o que dificultava ainda mais qualquer tentativa de fuga por via área.  O carcereiro era responsável pelo controle, enquanto um destacamento, constituído por policiais da guarda nacional, sob o comando de um delegado, incumbia-se de manter a ordem e a vigilância, tanto interna como externa.

A arquitetura e a vigilância faziam da cadeia de Pombal uma fortaleza inexpugnável. Pelo menos era isso que se imaginava. Porém, na prática a teoria nem sempre funciona.  Assim se pode constatar quando naquele 24 de novembro de 1853, à véspera da unidade prisional completar quatro anos de sua inauguração, aconteceu a primeira fuga em massa da até então inexpugnável fortaleza. A esse respeito, o jornal Diário de Pernambuco, edição de 24 de dezembro do mesmo ano, noticiou o fato de forma muito jocosa, sugerindo o óbvio:  que os dez presos, constituídos de quatro homicidas, cinco recrutas e um desertor, só obtiveram êxito porque contaram com providencial ajuda de autoridades responsáveis pela segurança da cadeia.

Segundo o jornal, no dia da ocorrência o destacamento responsável pela segurança havia saído a fim de efetuar a transferência de um preso, sendo substituído por paisanos. Estranhamento, os presos conseguiram fugir sem despertar nenhuma atenção dos guardas, os quais são comparados aos “setes dormentes de Éfeso”, a lenda milenar dos sete jovens que caem em uma sonolência secular. O mais incrível foi que o preso que era conduzido pelo destacamento também conseguiu evadir-se, mesmo sob a vigilância da força policial.

Eis a integra da nota veiculada no jornal:

“Na noite de 24 de novembro último, os presos da cadeia de Pombal tiveram a fortuna de encontrarem os guardas tocados de uma vara mágica, e com a sonolência dos sete dormentes, e puderam a seu salvo pôr fogo em que parte da cadeia, subir pelo rombo ao telhado, descer por cordas ao corpo das guardas e porem-se a andar, ou porém a andar alguns cavalos, que casualmente encontraram com tanto tento e prudência, que o mais leve ferimento, nem ainda uma esfoladela, ou arranhão no passar do buraco.

Assim suave e naturalmente esgueiraram-se quatro criminosos de morte, um desertor e cinco recrutas.Convém notar que a cadeia de Pombal, obra de prestante cidadão Bernardino José da Rocha, finda há quatro anos, é uma das mais sólidas e bem construídas cadeias do império; e que o rombo foi tal, que com a despesa de oito mil réis ficou reparado, e como se nada sofrera.

A guarda era de paisanos, porque o destacamento de polícia tinha ido conduzir um criminoso não sei para onde, o qual, também não se sabe como, saudou-se em caminho, ou fugido ou tomado pelos parentes, ou mesmo aderentes, o que não está verificado. Parece que um jubileu foi concedido pela fatalidade aos presos de Pombal para passarem a festa no olho da rua, e acrescentarem as fieiras thuggaes, que iam rareando com as últimas prisões.”


A cadeia de Pombal foi inaugurada em 1849 e desativada na década de 1970. Por todo esse tempo foi considerada a mais segura do sertão. Isso não impediu o registro de muitas fugas, sempre com a ajuda externa, sejam por conivência de autoridades, sejam por ataque de bandidos, ou até mesmo com o conluio das duas partes.

Na edição de 16 de outubro de 1856, o Correio de Mercantil, do Rio de Janeiro, veiculou matéria noticiando uma frustrada tentativa de fuga da cadeia da vila de Pombal. Adiantava o matutino da capital imperial que não era aquela a primeira vez que bandidos tiveram seu intento frustrado. Registra que o carcereiro ficou em estado agonizando após ser barbaramente espancado, e tece elogios a atuação da guarnição frente a repressão aos amotinados. “Pela terceira, quarta ou quinta vez, os presos da cadeia da vila de Pombal, em número de setenta e três, tentaram evadir-se, esbordoaram  cruelmente o carcereiro que ficou moribundo, e arrojaram-se ao portão para sair; encontraram porém a mais corajosa resistência da parte do alferes da guarda nacional Umbelino José de Almeida e de três soldados também da guarda nacional, que estavam também de guarnição, os quais sustentaram o primeiro ímpeto dos presos, e lucraram com eles ferindo a dois ou três, até que acudiram o delegado e mais cidadãos armados, repeliram os amotinados, e os obrigaram a recolher-se outra vez á enxovia sem ter escapado um só.”

Em 7 de outubro de 1857, o Diário de Pernambuco noticiou que aproximadamente às 16 horas, do dia 5 de abril daquele mesmo ano, dois guardas da cadeia de Pombal haviam rendido o carcereiro, quando este fazia a revista, dando fugas a 13 presos. “Os dois guardas fugiram com os presos. Houve luta, alguns tiros, mas nenhum morto ou ferimento”, concluía o jornal.

Em 1863, aconteceu o mais ousado ataque da história da cadeia de Pombal. Na ocasião, encontravam-se entre os presos os irmãos Andrelino de Araújo Lima e Antonio Thomaz da Fonseca, acusados de participação no assassinado do subdelegado de Piancó, Estanislau Lopes da Silva, crime ocorrido em 13 de novembro de 1852. Almejando a prescrição do crime, os irmãos, poucos meses antes, haviam se entregado em Misericórdia, atual Itaporanga, Paraíba, onde ficaram detidos. Ao tomar conhecimento, o chefe de polícia ordenou ao delegado de Misericórdia que transferisse com urgência os dois presos para a cadeia de Pombal, onde haveria maior segurança. Os irmãos ficaram bastante transtornados, achando que foram ludibriados.

Na madrugada do dia 5 junho, um grupo de bandoleiro, composto de mais de 30 cavalheiros, proveniente de Pajeú das Flores, província de Pernambuco, invadiram a vila de Pombal e tomaram de assalto a cadeia local. Após um acirrado tiroteio, um guarda que estava de sentinela foi atingido por um tiro fatal. Dois soltados e o alferes, comandante do destacamento, também foram atingidos por tiros certeiros, que os deixaram fora de combate. Em seguida, o grupo invadiu a cadeia e libertou onze presos, inclusive os dois irmãos, alvos principais da espetacular missão criminosa.

O mais conhecido ataque à cadeia de Pombal ocorreu em 1874. A história contada pela literatura vigente relata que na madrugada chuvosa de 19 de fevereiro, o cangaceiro Jesuíno Brilhante à frente de um grupo de cangaceiros, tomou-a de assalto, libertando 43 presos, inclusive seu irmão, que se encontrava aguardando julgamento por um crime de morte cometido na comarca de Catolé do Rocha. 

Pesquisadores, Junior Almeida e Zé Tavares

Analisando esta versão de forma superficial, e certo afirmar que ela é verdadeira.  O que foge da verdade é o modus operandi, a forma como deita operação nas narrativas dos escritores. As narrativas dos escritores Gustavo Barroso, em “Heróis e Bandidos”, e Rodolfo Teófilo, no romance “Os Brilhantes”, são recheadas de fantasias, buscando enaltecer a valentia e ousadia de Jesuíno Brilhante e seus asseclas, quando na verdade a operação foi um jogo de cartas marcadas.

O processo criminal que se encontra nos arquivos do Fórum Promotor Francisco Nelson da Nóbrega, da Comarca de Pombal/PB, é prova contundente de que os escritores pioneiros romancearam o episódio.  Consta que tudo foi facilitado pelo delegado, alferes Eustáquio Toscano de Oliveira, e principalmente pelo comandante superior da guarda nacional, o coronel João Dantas de Oliveira, que também tinha interesse em libertar um preso, que havia sido condenado por ter praticado um crime por ele encomendado. Trata-se de uma longa história que devido a sua importância, toda a trama será contada com riqueza de detalhes em outra oportunidade.

Em fevereiro de 1890, registra-se a fuga de 34 presos, com denúncias de que houve conivência da guarda da cadeia.  Por sugestão do Chefe de Polícia, João Coelho de Goncalves Lisboa, o governador Venâncio Neiva exonerou o delegado, o tenente-coronel Vicente José da Costa, nomeando para o seu lugar Francisco José de Assis, que recebeu a incumbência de abertura de um rigoroso inquérito policial a fim de apurar a efetiva participação dos denunciados.

O Governo do Estado providenciou um envio de uma força policial constituída de 30 praças, sob o comando de um oficial, tanto para garantir a segurança da cadeia como para efetuar diligências na busca dos fugitivos. Foram recapturados nove dos foragidos, em seguida foi preparado uma relação impressa dos 25 réus, com tiragem de 200 exemplares, os quais foram remetidos as div4ersas autoridade policiais do Estado, bem como aos chefes de polícias dos Estados circunvizinhos: Pernambuco, Rio Grande do Norte e Ceará.

Em 3 de abril de 1917, o jornal O Norte, de João Pessoa – PB, noticiou que o tenente Sosthenes Barreto, delegado de Pombal, havia telegrafado ao presidente do Estado dando conta que, no primeiro do mês, quatro presos havia fugidos da cadeia usando uma chave falsa, levando algum armamento. O delegado diz ainda que já havia expedido diligências no encalço dos fugitivos e que os presos evadiram-se aproveitando o momento em que a sentinela havia ido ao aparelho sanitário. Um relato que mais parece um daqueles contos do 1° de abril.

Em fins de agosto de 1918, após um acirrado tiroteio, Eustáquio de Morais, subdelegado de Bonito, atual município de Bonito de Santa Fé/PB, então povoado de São José de Piranhas/PB, baleou e prendeu o famigerado cangaceiro Cícero Costa, um dos mais importantes líderes cangaceiros, com enorme lista de serviços prestados ao major Zé Inácio do Barro, de Milagres/CE, o mais destacado protetor de bandidos do cariri cearense.

A permanência de Cícero Costa na cadeia de Bonito trouxe um enorme clima de tensão ao lugar, principalmente devidos as informações que corriam dando conta de que um grupo de cangaceiros se organizavam em Milagres, no vizinho Estado do Ceara, com vistas a vir resgatá-lo da prisão. A vigilância da cadeia foi reforçada e logo que o preso estava em condições de viajar, em meados de setembro, foi conduzido para a cadeia da cidade de Patos, sob uma forte escolta comandada pelo experiente tenente Manoel Benicio.

Posteriormente, quando totalmente restabelecido, com igual esquema de segurança Cícero Costa foi conduzido para a cadeia de Pombal, o hipotético abrigo seguro para os fora-da-lei de maiores periculosidades. Porém, a estadia do bandido na cadeia não foi tão demorada como almejada pelas autoridades. No início de julho de 1920, o Jornal do Comércio veicula notícia dando conta que “Os cangaceiros Cícero Costa, José Coelho da Silva, Pedro Neco Fernandes e Melquíades Januário da Silva, que a muito custo haviam sido capturados e recolhidos a cadeia de Pombal, dali fugiram, auxiliados pelo soldado do destacamento policial Severino Alves de Oliveira”.

Esta foi a última grande fuga registrada na velha cadeia, que embora desativada na década de 1970, permaneceu elegantemente impávida, com sua imponente arquitetura imperial, a roubar a cena de tudo que representa a modernidade. Em 1989, passou a sediar a Casa da Cultura, um pequeno museu que ao longo de mais de três décadas infelizmente ainda não atingiu o seu verdadeiro objetivo, notadamente pela falta de uma gestão mais comprometida com a preservação de nossa memória.

José Tavares de Araujo Neto, pesquisador - Pombal-PB

Pereira versus Carvalho , a mais Extraordinária Guerra do Sertão, nos Grandes Encontros Cariri Cangaço


Nesta próxima quarta-feira, dia 14 de abril, os Grandes Encontros Cariri Cangaço trazem um dos conflitos mais emblemáticos dos sertões nordestinos com estreita relação com o fenômeno do Cangaço, notadamente com os ciclos de Sinhô Pereira e Virgulino Ferreira da Silva. 

Direto do vale do Pajeú, Manoel Severo, curador do Cariri Cangaço, recebe os pesquisadores e memorialistas, Luiz Ferraz Filho, de Serra Talhada, antiga Vila Bela e Valdir Nogueira, de São José de Belmonte para nos contar a verdadeira face do conflito entre os clã Pereira e Carvalho; a gênese, as implicações, os interesses, as tramas, Sinhô Pereira, Luiz Padre e Virgulino Ferreira se encontram nesse espetacular emaranhado da mais cruel historia nordestina.

PEREIRA x CARVALHO
A Mais Extraordinária Guerra do Sertão
DIA 14/04/2021
19H30
Canal do YouTube do Cariri Cangaço

A Passagem de Virgínio Moderno por Pesqueira Por:Junior Almeida

Casarão da Fazenda Catolé
Contou-nos o bancário aposentado e também pecuarista Fred Brito, de 69 anos, residente em uma propriedade da zona rural de Buíque, Pernambuco, que na madrugada do dia 6 de junho de 1936 um grupo de 12 bandoleiros e mais uma mulher, sob o comando de Virgínio Fortunato da Silva, o cangaceiro Moderno, chegou à Fazenda Catolé, em Pesqueira, no Agreste do mesmo Estado, pertencente ao seu avô, Rogério Cavalcanti de Brito (1888-1974), chamado por ele, e todos os netos, carinhosamente de “Padre Dinho”, onde no local, a súcia fez prisioneiro um morador da fazenda, de nome Severino Panelada, forçando-o a bater à porta da casa sede, para acordar seu patrão e compadre.
Severino quando bateu na porta, seu compadre Rogério perguntou o que se tratava, àquela hora da noite, tendo o morador respondido que sua esposa estava doente, precisando de ajuda, de um remédio de Dona Adelaide. A versão foi dita por Panelada conforme a orientação prévia dos cangaceiros. Rogério abriu a porta e foi logo rendido, sendo todos da casa abruptamente acordados.
Nessa época, a sua mãe, Lenira de Lima (1918-2010), era noiva do seu pai, Renato Tenório de Brito (1915-1979), filho mais velho do casal Rogério e Adelaide e, por uma grande falta de sorte, segundo Fred, sua mãe e uma irmã dela, a mais velha, de nome Irene, tinham ido à fazenda conhecer a família do futuro marido, portanto, ficaram também sob ordens dos sicários.
À esquerda da entrada do casarão, existia um quarto grande, usado para orações, o qual era chamado por todos de o “quarto de São Pedro”, pois o fazendeiro Rogério era devoto do santo que a História diz ter sido o primeiro Papa. Nesse cômodo existia uma mesa de madeira, espécie de altar, forrada com elegante toalha de linho branco, que ia até o chão, e sobre ela vários santos e santas, dentre eles, uma bela imagem do santo pescador. O que pouca gente sabia, é que embaixo desse altar, ocultos pelo grande tecido, ficavam guardados dois rifles calibre 44.

Casarão da Fazenda Catolé, em Pesqueira, Pernambuco, que serviu de cenário no filme "O Cangaceiro", de 1997

Por ser aquele espaço um local sagrado da casa, ficou livre da sanha dos sicários, que reviraram tudo dentro da residência, à procura de objetos, joias, dinheiro e, claro, armas. No meio dos cabras, tinha um com um violão velho, com apenas três cordas. Enquanto a casa estava sendo saqueada, as mulheres foram obrigadas a cozinhar para o bando. Menos mal que a despensa estava abastecida, com produtos da própria fazenda e os comprados na feira de Pesqueira, que já naquela época, era realizada nas quartas-feiras.
A cozinha da casa era enorme, do dizer de Fred Brito, “daria para fazer um forró naquele espaço” e, foi justamente isso que os cangaceiros queriam. Com o precário instrumento, ligeirinho improvisaram um “baile”. Um dos salteadores pegou na mão da menina/moça Lenira, de apenas 17 anos, cantou uma quadra que dizia “não quero dengo/não quero choro/, quero a menina do cabelo loiro”, referindo-se a Lenira, e a chamou pra dançar. Sem receios, com coragem tirada não se sabe de onde, ela aceitou, mas o cangaceiro não quis dançar. Era um teste. O bandoleiro disse:
Eu peguei a sua mão e lhe chamei pra dançar, pensando que você não ia e, se dissesse que não dançava, eu ia fazer você dançar nua, aqui na vista da gente. Ia tirar a roupa e ia dançar nua.
Depois do ocorrido, Lenira disse que “se já estava pensando que morreria quando os cabras invadiram a casa, depois do susto que passou com a história da dança, achava que iria cair durinha ali mesmo”.
Logo que invadiu a casa, Virgínio Moderno disse a que vinha: queria três contos de réis do fazendeiro, para que, segundo ele, pudesse deixar Rogério, sua família e propriedade em paz. O grande problema é que o fazendeiro não dispunha, naquele momento, de avultada quantia em casa, então, os cangaceiros, ao deixar a fazenda, o levaram como refém. Só para se ter uma noção do que daria para comprar com tanto dinheiro, naqueles dias um saco com 50 quilos de farinha de mandioca estava custando 18$000 (dezoito mil réis), o feijão preto, saco de 60 quilos, 36$000. Com mesmo peso, o feijão mulatinho era vendido por 60$000 e o milho a 17$000.

Ruinas atuais do Casarão

Renato Brito, como já foi dito, era o filho mais velho de Rogério e Adelaide, e pediu permissão a Virgínio para selar um cavalo para seu pai ir montado, pois sabia que seu genitor não aguentaria o trupé da caminhada dos cabras. O argumento do primogênito, para o fazendeiro Rogério Brito ir montado, enquanto os cangaceiros iriam a pé, era que “se iam matar seu pai, que matassem logo, ou então permitissem ele ir a cavalo.” Com o consentimento de Moderno, o rapaz trouxe um animal de nome “Revoltoso”, para que o pai pudesse acompanhar a marcha do bando, perguntando em seguida ao chefe do bando, como faria para encontrá-los depois, para pagar o dinheiro do resgate. Virgínio respondeu:
Nós vamos para os lados de Boa Sorte (atual Venturosa). Você é um homem de fazenda, vai saber pegar o rastro de 13 pessoas e apenas um cavalo.
Depois da saída do grupo da Fazenda Catolé, levando seu proprietário como refém, Renato Brito foi até Pesqueira, distante quatro léguas da Catolé, arranjar o dinheiro do resgate com amigos. Fato curioso, é que os cabras do bando trocaram de roupa na fazenda, deixando para trás as vestes sujas de tantas andanças e combates, com algumas delas até manchadas de sangue, peças essas, que depois foram expostas nas Casas José Araújo, na cidade de Pesqueira.
Na terra do doce e da renda, Renato conseguiu o dinheiro com Severino do Leite, e célere, seguiu a pista do bando, encontrando-o no local Carrapateira, meia légua depois de Venturosa, sentido Garanhuns. No local, um fato inusitado aconteceu: ao receber o pacote de dinheiro, Moderno conferiu o valor e devolveu Rogério à família, dizendo que mesmo que seu filho não tivesse conseguido a quantia exigida, não matariam o fazendeiro, pois, segundo o cangaceiro, “um homem bom daqueles não se matava”. Especula-se que ou Virgínio costurou um acordo futuro, para proteção ou outro tipo de vantagem, ou durante a caminhada, o fazendeiro fez, na medida do possível, amizade com os cabras, pois, se sentiu tão à vontade, ao ponto de pedir a Virgínio um cachorro que acompanhava o bando, tendo Moderno dito que não dava “porque aquele cão pagava muitos dos cabras ruins sob seu comando”. Rogério e Renato Brito, pai e filho, voltaram para sua Catolé, em Pesqueira, depois das cinco da tarde daquele dia.

Virgínio, no centro, ao lado de Durvinha

Sobre essa passagem do cunhado de Lampião por Pesqueira, o Diário de Pernambuco publicou no dia 7 daquele mês a seguinte nota:
BANDIDOS NO LUGAREJO IPANEMA.
O COMANDANTE DE UMA DAS FORÇAS VOLANTES TELEGRAFA A SECRETARIA DE SEGURANÇA.

Ontem, à noite, a Secretária de Segurança recebeu telegrama do comandante de uma volante em Pesqueira. Informava que alguns bandidos passavam pelo lugarejo denominado Ipanema. A volante saiu em seu encalço, travando ligeiro tiroteio. Os cangaceiros, porém, fugiram em debandada. A polícia não sabe si se trata de Lampião ou do grupo de Virgínio.
No dia 9 o mesmo jornal publicou:
OS BANDIDOS EM PESQUEIRA
UM TELEGRAMA DO PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO COMERCIAL
Recebemos ontem de Pesqueira o seguinte telegrama: “PESQUEIRA, 7 – Confirmando meu telegrama publicado nesse jornal sobre a passagem de um grupo de cangaceiros neste município, foi atacada, ontem, a fazenda Catolé, distante apenas 15 quilômetros desta cidade. Foi sequestrado pelos assaltantes o proprietário da mesma fazenda sr. Rogério Brito, para cujo resgate exigiram três contos de réis. (a) Antônio Araújo, presidente da Associação Comercial”.
Seis décadas depois da invasão da Catolé, um número bem maior de cangaceiros esteve na propriedade, com direito a cavalos, tiros e mortes, mas tudo isso de mentirinha, é claro, pois na verdade, o que aconteceu naquela propriedade, foram gravações de cenas da refilmagem do filme “O Cangaceiro”, de Lima Barreto, de 1953. Na nova versão, que estreou nos cinemas de todo Brasil em 1997, o ator Paulo Gorgulho, fazia o papel do Capitão Galdido, e Luíza Tomé, viveu Maria Bonita. O elenco ainda contava com o experiente Joffre Soares, Ingra Liberato, Jece Valadão, Othon Bastos, o sanfoneiro Dominguinhos, dentre outros. A bela casa da Fazenda Catolé nem de perto se parece com as dos tempos de Rogério Brito, muito menos da época que o filme “O Cangaceiro” teve algumas cenas gravadas lá, o que não faz tanto tempo. Recentemente (2020) um youtuber da cidade de Pesqueira esteve no local e mostrou que o que fora um imponente casarão, hoje está em ruínas.

Junior Almeida, pesquisador e escritor  - Capoeiras -PE

Conselheiro Cariri Cangaço

*Fontes: Fred Brito, Canal Raniery Mendonça, no Youtube, Blog Pesqueira Lendária e Eterna e Jornal Diário de Pernambuco.
**Fotos: Cangaceiro Moderno, fonte Blog do Mendes; Casarão da Fazenda Catolé, fonte Blog Pesqueira Lendária e Eterna; Print do filme O Cangaceiro, de 1997; Ruínas do casarão, fonte Canal Raniery Mendonça, no Youtube; Fazendeiro Rogério Brito

Carybé Retrata o Cangaço Por: Beto Rueda

O grande artista plástico Hector Julio Páride Bernabó(Carybé), retratou o cangaço em várias formas de sua expressão artística, contribuindo para o enriquecimento e divulgação do tema.

Nascido em 7 de fevereiro de 1911, na pequena cidade de Lanús, subúrbio de Buenos Aires, o pintor viveu em Gênova e Roma (Itália) dos 6 meses aos 8 anos. Em 1919, veio morar no Brasil onde completou os estudos secundários no Rio de Janeiro e estudou na Escola Nacional de Belas Artes. Em 1927, retornou para a Argentina, onde trabalhou em diversos jornais, até que o periódico "Prégon" o contratou para viajar por vários países fazendo e enviando desenhos e reportagens de onde passasse. Com isso, Carybé começou a ter contato com várias culturas e diferentes formas de expressão artística, que influenciaram o seu trabalho como pintor. Em uma dessas viagens conheceu Salvador, onde começou a ter contato com a cultura baiana.


Até meados dos anos 40, Carybé viveu entre vários países, mas sempre retornando ao Brasil. Neste período, trabalhou como ilustrador de obras literárias e traduziu o livro Macunaíma, de Mário de Andrade, para o espanhol, neste mesmo ano ele conquista o Primeiro Prêmio da Câmara Argentina del Libro por sua ilustração do livro Juvenília, de Miguel Cané, ícone da literatura argentina. Em 1943, fez sua primeira exposição individual e ilustrou o livro "Macumba", Relatos de la Tierra Verde", de Bernardo Kordan.


Em 1946, casou-se com Nancy, na província argentina de Salta, com quem teve dois filhos, o artista plástico Ramiro e a bióloga Solange. Após várias viagens para Salvador, em 1950 foi morar definitivamente na capital baiana, onde, através de uma carta de recomendação de Rubem Braga, foi contratado para fazer murais em prédios e obras públicas.

Durante os quase 50 anos em que viveu na Bahia, Carybé desenvolveu uma profunda relação com a cultura e com os artistas de Salvador. As manifestações culturais locais, como o candomblé, a capoeira e o samba de roda, passaram a marcar a sua obra. Ao lado de outros artistas plásticos, como Jenner Augusto, Mário Cravo e Genaro de Carvalho, participou ativamente do movimento de renovação das artes plásticas no Estado.


Bastante eclético, Carybé experimentou ao longo de sua vida grande parte das técnicas artísticas conhecidas, como aquarelas, desenhos, esculturas, talhas, cerâmicas, entre outros. Além desses trabalhos, destacou-se também na criação de diversos murais pelo mundo, entre eles, um no Aeroporto de Nova York.

Em 1955 ele obtém o prêmio de melhor desenhista na III Bienal de São Paulo. Sua obra atinge o montante de cinco mil produções, dentre pinturas, desenhos, esculturas e delineamentos iniciais de alguns trabalhos. Suas ilustrações enriquecem publicações de famosos literatos, entre eles Jorge Amado e Gabriel García Márquez.

Em 1957, o artista naturalizou-se brasileiro. Entre seus grandes amigos no país, destacou-se o escritor Jorge Amado, que escreveu, em sua homenagem, "O Capeta Carybé". Na obra, o artista foi definido como "feito de enganos, confusões, histórias absurdas, aparentes contradições, e, ao mesmo tempo, é a própria simplicidade". Carybé fez desenhos em inúmeras obras de Amado, além de ilustrar trabalhos para livros de outros autores de grande expressão, como Mário de Andrade, Gabriel García Márquez e Pierre Verger.


O artista também escreveu livros como "Olha o Boi" e foi co-autor da obra "Bahia, Boa Terra Bahia", com Jorge Amado. Em 1981, após 30 anos de pesquisa, publicou a Iconografia dos Deuses Africanos no Candomblé da Bahia. Realizou também roteiros gráficos, direção artística e figurinos para teatro e cinema. Foi diretor artítico, figurinista e figurante no filme O Cangaceiro de Lima Barreto onde desenhou mais de mil e seiscentas cenas do filme, quase quadro a quadro.

Em virtude de seus trabalhos voltados para a cultura afro-brasileira, enfocando seus ritos e orixás, principalmente em princípios dos anos 70, ele conquistou um importante título de honra do Candomblé, o obá de Xangô. Parte de sua produção encontra-se hoje no Museu Afro-Brasileiro de Salvador, englobando 27 painéis simbolizando os orixás baianos, produzidos em madeira de cedro.

Por quase toda a sua vida, o pintor acreditou que o seu apelido Carybé provinha de um pássaro da fauna brasileira. Somente muitos anos depois, através do amigo Rubem Braga, descobriu que a sua alcunha significava "mingau ralo", o que lhe rendeu diversas brincadeiras.Freqüentador do terreiro de candomblé Ilê Axé Opô Afonjá, Carybé morreu aos 86 anos, no dia 1° de outubro de 1997, em Salvador, durante uma cerimônia no próprio terreiro. O artista deixou como legado mais de 5.000 trabalhos, entre pinturas, desenhos, esculturas e esboços.

Por Beto Rueda

REFERÊNCIA:
ARTISTAS, Arte. Biografia de Carybé e suas obras. < https://arteeartistas.com.br/biografia-de-carybe-e-sua-obra>. Acesso em 29 mar.202

O Coito Perfeito (e Sangrento) Por Rangel Alves da Costa

No mundo cangaceiro, era no coito que a cangaceirama se escondia, repousava ou se entrincheirava até novamente arribar seu destino. Quando o repouso era só de passagem, qualquer sombreado de umbuzeiro servia, mas não quando havia pernoite ou descanso mais demorado. Então, o local de estadia tinha que ser bem escolhido e oferecer meios de proteção contra as surpresas inimigas. Imaginava-se que do local estratégico, não só fosse dificultada a chegada de estranhos como fosse possível avistar qualquer movimentação suspeita ao redor e até mais adiante.

Angico, o mais famoso dos coitos, depois se mostrou como de péssima escolha aos cangaceiros. Ao invés de acoitados e protegidos, ficaram entrincheirados entre serras e montes, e ao largo da beirada de um rio, à mercê do ataque dos soldados e seus comandantes conhecedores da região. Quando a soldadesca chegou já não havia o que fazer. Era como um ninho de passarinhos cercado por gaviões. Não muito distante de Angico, ainda dentro dos sertões sergipanos de Poço Redondo, há um coito que se pode chamar de perfeito: o Coito da Pia das Panelas, na região da Comunidade Areias.

Em meio à caatinga, tufos de mato, arvoredos sertanejos e mandacarus e xiquexiques, uma colcha de pedras grandes se estende quase nos escondidos. Entre as pedras, fendas e buracos desigualam o colchão pedregoso. Por cima, verdadeiros buracos foram sendo escavados pela própria natureza e onde muita água é juntada em tempo de chuvarada. São as chamadas pias. Algumas delas cabem até mais de uma pessoa. Assim, um local perfeito para um coito cangaceiro, pois em meio à vegetação fechada e espinhenta, do alto é possível avistar as distâncias, entre as fendas é possível posicionamento para ataques, e as pias servindo como verdadeiras trincheiras para defesa e contra-ataque.

Por isso mesmo que o Coito da Pia das Panelas era um dos preferidos da cangaceirama quando de passagem pela região. E não há notícia de nenhum ataque das volantes na localidade. Mas, por outro lado, há notícias de terríveis acontecimentos no coito, e envolvendo os próprios cangaceiros e outros sertanejos. Nada menos que cinco mortes no coito e ao redor: Lídia de Zé Baiano, morta pelo próprio companheiro; Coqueiro, o delator da traição de Lídia; Zé Vaqueiro e Preta de Virgem. A quinta morte foi a de Rosinha, logo adiante. Do alto do coito se avista o Riacho Quatarvo, alguns passos mais abaixo, onde a companheira de Mariano foi morta, a mando de Lampião, pelas mãos de Zé Sereno, Juriti, Balão e Vila Nova. Quem conhece o passado da região e o que por ali ocorreu nos tempos cangaceiros, é como se os vultos ainda rondassem e os gritos ainda ecoassem por todo lugar. O sangue um dia jorrado ainda está por ali, as ossadas também. Fantasmas da história que ainda assombram. Num coito perfeito, um leito carrasquento de mortes.

Rangel Alves da Costa, pesquisador e escritor

Conselheiro Cariri Cangaço - Poço Redondo-SE