Lampião em Dores Por:José Lima Santana

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Nossa Senhora das Dores - Sergipe, vista aérea.

Transcrevemos parte de espetacular artigo, publicado no Informativo Cultural Memórias Dorenses. nº 3, outubro de 2007. p. 10-12, tendo como autor José Lima Santana. O artigo será postado neste blog, em duas partes: Lampião em Dores e Segunda visita de Lampião a Dores. Santana é advogado, Mestre em Direito, professor da UFS, UNIT e FASE, membro da Academia Sergipana de Letras, sócio Efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe e sócio Honorário da Associação Sergipana de Imprensa. E, acima de tudo, dorense do João Ventura.

Em 07 de agosto, o Sergipe Jornal, que era ligado ao partido governista, como ja disse, noticiava em manchete de primeira página: “Lampião marcha para Sergipe”. E dizia: “Estamos informados de que o Exmo. Sr. Dr. Júlio Leite, digno chefe de Polícia do Estado, recebeu comunicação oficial do seu colega da Bahia de que o grupo do bandoleiro Lampião passara por Geremoabo com destino a Sergipe”. Em 17 do mesmo mês, o citado jornal dava a seguinte notícia: “O temível bandoleiro Lampião, segundo informações recebidas pelo Dr. Chefe de Polícia, encontra-se em Monte Alegre, distante seis léguas de Nossa Senhora da Glória. Existe força sergipana nas imediações do local, bem como noutros pontos da fronteira do Estado”.

Enfim, em 25 de novembro de 1929, Lampião entrou em Nossa Senhora das Dores, para uma “visita de cortesia”, entre as 14 e as 15 horas. Era o dia da feira semanal da cidade. Ao todo, o bando compunha-se de 9 cabras, além do chefe. Fora guiado por um vaqueiro que aprisionara. Segundo Pedro Vieira Teles o vaqueiro era conhecido em Dores, onde fazia suas compras habituais. Dirigiram-se, de pronto, para o quartel de polícia, onde dois praças não lhe opuseram resistência, e para a estação telegráfica, ali deixando um dos cabras.

De acordo com o depoimento prestado ao autor por Afonso Rodrigues Vieira (27.03.1903-20.10.1985), em 7 de maio de 1981, os cangaceiros dirigiram-se à Intendência Municipal, onde foram recebidos pelo Intendente Manoel Leônidas Bonfim. Lampião exigiu os nomes dos homens mais ricos para que eles fizessem uma “bolsa”. Pretendia arrecadar 50:000$000 (cinqüenta contos de réis). Recebendo os nomes solicitados, mandou chamar numa sala da própria Intendência, Cecílio Vieira (mas em seu lugar, pois ele estava doente, foi o seu filho Afonso, que prestara o depoimento), Otacílio Menezes, Francisco Pedro do Nascimento (Ioiô de Dominguinhos), Tertuliano Pereira de Azevedo e Plácido Almeida. O chefe do bando teria exigido dez contos de réis de cada um. Porém, após diversas argumentações, teria se contentado com 3 contos de réis por cabeça. Como exigisse mais dinheiro, segundo Afonso Vieira, o Intendente Manoel Leônidas Bonfim e o Padre João Marinho fizeram uma coleta, entre outras pessoas da cidade, para arrecadar mais dinheiro, a fim de completar a “bolsa” exigida, que teria sido negociada para 25:000$000 (vinte e cinco contos de réis), ou seja, a metade da quantia inicialmente exigida.

Praça do Comércio, em Dores. Foto de 1919

Alguns cabras apanharam meias na loja de Pedro Vieira Teles, o popular Mestre Pedrinho Alfaiate (04.10.1901-06.02.2000), desportista que sempre gozou do respeito de seus concidadãos, e cortes de tecido e frascos de perfume da loja de Manoel Leônidas, o Intendente, segundo depoimento do primeiro, prestado ao autor, em 25 de julho de 1993. Ainda pegaram outros produtos na casa comercial de “seu” Manoel José de Jesus, onde fizeram algazarras, até que Lampião os conteve. Não resta dúvida que ele era um chefe respeitado pelos seus.

De acordo com o Mestre Pedrinho, Lampião escreveu impropérios no rótulo de uma garrafa de vermute contra o Tenente Elesbão, que, como foi dito, comandava um grupo da Volante. O bando bebeu em demasia. Aliás, em entrevista ao Sergipe Jornal, publicada em 29 de novembro, o Cel. Vicente Figueiredo Porto, próspero fazendeiro local e sujeito destemido, se disse espantado com o consumo de bebidas alcoólicas pelo bando de celerados, naquela “visita”.

Cangaceiro, de Sávio Queiroz

Diz Ranulfo Prata que vendo os cabras “algumas moças bonitas, pedem ao chefe para armar um baile” (Ob. cit., p. 85). Mas o escrivão (que era Cotias), pai de algumas das moças, alarmou-se com a notícia e pediu ao cangaceiro mor que não consentisse na realização do baile. Afirma o Cel. Figueiredo que ele próprio intercedera para que o tal baile não se realizasse. Já o Mestre Pedrinho relatou que o cabra que propôs o baile foi Volta Seca, que era uma espécie de mascote do bando, pois contava com apenas 14 ou 15 anos de idade. E segundo o depoente, Lampião determinou que Volta Seca entrasse na “marinete” de “seu” Jóia e dali não saísse, recusando a proposta do baile. Esse baile, se realizado, teria sido uma perdição para as moças. Ora se teria.

Consta que Lampião distribuiu bolachão e moedas entre os meninos que fizeram aglomeração em torno dele, conforme depoimento prestado ao autor por Otoniel Soares dos Santos, nascido a 15 de setembro de 1916, e ainda vivo, aos 91 anos de idade, na data da elaboração deste artigo. Otoniel, então com treze anos, estava no meio daqueles meninos. Afonso Vieira afirmou que os bolachões saíram da padaria de Álvaro Brito, então deputado estadual.

Lampião foi para Capela no automóvel de Otacílio Menezes, enquanto o bando seguiu no ônibus de Joel Barreto de Souza (“seu” Jóia, avô, dentre outros, do professor Ari Barreto). Dito ônibus era, na verdade, uma improvisação sobre o chassis de um caminhão Ford, modelo 1924, que fazia a linha regular entre Dores e Capela, após a inauguração da estrada de rodagem entre as duas cidades, em 1926, como afirmou, no depoimento referido, Pedro Vieira Teles. Alguns autores falam em dois (FERREIRA et AMAURY, 1999, p.175), três (MACIEL, 1987, p. 38; FERREIRA et AMAURY, 1997, p. 135) e até quatro veículos (CHANDLER, 1980, p. 136; FONTES, 1996, p. 122-123). Mas é corrente em Dores que foram dois, como já relatado.

O Cel. Figueiredo escoltou-os, montado no seu cavalo, até a saída da cidade, como disse Otoniel Soares dos Santos. Isto, contudo, o próprio coronel não relatou em sua entrevista. Nem precisava. Afinal, é curioso que ele não estava no rol dos homens ricos que “contribuíram” para formar a “bolsa” exigida pelo cangaceiro.

JOSE LIMA SANTANA
Cortesia nos enviada pelo amigo João Paulo
Projeto Memórias- Dores / Sergipe
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2 comentários:

Xico Turco disse...

Quero dizer do primor do texto do professor Jose Lima Santana, essa passagem de Lampião por Dores com essa riqueza de detalhes, parabens amigos.

Francisco Turco

José Mendes Pereira disse...

Ao ler esta maravilhosa informação sobre a passagem de Lampião e seu bando a Dores, entendo que o seu maior objetivo era dinheiro. Entrou no lugar como um homem que não fazia desordem. Acatou o pedido do escrivão, o Cotias, para não aceitar a realização do baile, e com certeza fez algo admirável.
O medo do Cotias era a desmoralização que poderia acontecer contra as donzelas, principalmente as suas filhas que seriam as primeiras vítimas. Ver-se que Lampião dominava o seu bando de acordo com as suas ordens. Quando as coisas caminhavam contrárias as suas vontades, aí a coisa pegava.
Imagine um bando de homens embriagado dentro de uma festa, poderoso, perverso, misturado com moças lindas e quase todas virgens. É claro que muitos cangaceiros fizeram desordens pelos sertões do nordeste, e a polícia via na figura de Lampião. Mas não podemos santificá-lo. Quando ele se encontrava no meio do grupo, as desordens praticadas pelos asseclas eram autorizadas por ele.
Valeu José Lima Santana! Uma história bem narrada, e com certeza, fatos colhidos de pessoas de responsabilidade.

José Mendes Pereira – Mossoró-RN.