90 Anos do Fogo das Guaribas

Munganga Cultural e a Homenagem ao Fogo das Guaribas

Recontar a Tragédia de Guaribas, conforme o jornalista Otacílio Anselmo batizou esse episódio da história do Cariri, em grandioso levantamento histórico para a Revista Itaytera (1972), é um desafio doce. Essa história me acompanha desde menino, quando passava minhas férias no sítio Cancelas dos meus avós, nas cercanias de Porteiras, onde acredito ter ouvido pela primeira vez a respeito. 

Deve ter sido uma dessas conversas, ao pé de um alpendre, depois de um café ou chá de cidreira, quando os mais velhos gostavam de relembrar histórias do Cangaço, dos tempos em que a ordem se criava com o temor, imposto com sangue. A prosa sobre as trinta e tantas horas de tiros, trocados entre Chico Chicote e os cerca de trezentos homens armados e articulados para dar-lhe um fim, era melhor que novela! Certas coisas os velhos falavam baixinho, segredando alguns pormenores que podiam ofender além dos mortos.

Quem era, afinal, Chico Chicote, além daquele homem valente, intransigente? Quais foram seus crimes e suas virtudes? E por que tanta gente queria sua morte? Mais tarde, na adolescência, deparei-me com a história escrita, pelo renomado e acima citado historiador, em reprodução da separata da Revista Itaytera, a compor o livro sobre a história de Brejo Santo, organizado por Fernando Nóbrega e Francisco Leite de Lucena.


Herlon Gomes e Napoleão Tavares Neves

Algumas dúvidas sobre aquele derramamento de sangue ainda pairavam... Nessa mesma época, conheci Bruno Yacub. Tínhamos cerca de quatorze anos. Bruno me contou, certa vez, que essa história de Guaribas para ele era cinematográfica e que sempre instigara seu imaginário. Muitas afinidades nos uniram, em música, teatro. Em uma brincadeira, eu, Bruno e Cleodon criamos, em 2008, A MUNGANGA, um coletivo para se fomentar a cultura e o resgate histórico em Brejo Santo.

Para brindar os dez anos do nosso coletivo, após visitarmos as ruínas de Guaribas, resolvemos que essa história precisava de uma homenagem! Pomo-nos a  mergulhar numa vasta bibliografia e entrevistar algumas fontes indiretas, mas bem próximas de quem esteve naquele fogo cruzado. Resolvemos montar esse quebra-cabeça, esse faroeste envolvendo um coronel brejossantense, que incomodou Lampião, as forças políticas do Cariri Oriental, homens de poder, de modo que um grande plano foi armado a fim de liquidá-lo.


Bruno Yacub e Herlon Gomes no marco Cariri Cangaço nas Guaribas

A fórmula escrita não será de linguagem acadêmica, nem se presta a ser uma versão definitiva sobre os fatos. Explorarei, no mundo literário, as vagas deixadas pela história, nas profundezas da onisciência de um narrador que conhece tudo sobre o personagem central da trama, mas não conhece todas as armadilhas de seus inimigos.

"Uma trama à Agatha Christie, 
a dama do crime." 

A valentia de Chico Chicote e suas formas não muito aristocráticas de resolver seus problemas renderam-lhe uma senda de inimigos, com os quais precisava conviver em sociedade. Seus adversários eram poderosos político-economicamente. Um consórcio articulou-se para eliminá-lo. Subornaram uma força policial do estado do Ceará, sob a chancela do Estado, a fim de que se executasse o falso objetivo de caçar o Rei do Cangaço, ao argumento de que ele estaria escondido na casa de Chico Chicote, nas Guaribas. 


Ricardo Lucena, neto de Chico Chicote, Herlon e Bruno Yacub

No fatídico dia 02 de Fevereiro de 1927, dia de Nossa Senhora das Candeias, santa de Devoção de Chico Chicote, ele foi  assassinado. A Fazenda de Guaribas foi atacada por forças policiais dos estados do Ceará, Pernambuco e Paraíba e outros civis que, somados, ultrapassavam trezentos homens. De dentro da casa, Chico Chicote, com a ajuda de dois capangas, resistiram armados por cerca de 31 horas de tiros. No recinto estavam, ainda, sua esposa Geracina, a filha Zefinha, de vinte anos, e mais duas filhas de seis e sete anos, todas tiveram suas vidas poupadas.

A história deixou alguns rastros do sangrento plano, fazendo ruir a tentativa de tornar legítima a morte de Chico Chicote, ao justificá-la sob o pretexto de que ele estaria mancomunado com Lampião, nos desmandos realizados pelos sertões. Desses rastros, um dia se soube de um telegrama, transmitido no início de 1927, pelo então prefeito de Milagres, solicitando uma intervenção do Governador do Estado sobre as atitudes do irmão.

Não faltaram testemunhas idôneas também a comprovar a impossibilidade de Chico Chicote ter dado guarida a Lampião, pois era pública e notória a antipatia do primeiro contra o segundo, não obstante as forças políticas daquela época tivessem, em debalde, buscado realizar a diplomacia entre os valentões. Muitos outros detalhes eu vou guardar para contar... Como se vê, o acontecido é solo fértil para preencher com as sementes das licenças literárias...



Bruno tem sido meu pesquisador sobre os fatos, meu contraponto, com quem compartilho de conjecturas. Quando encontro uma incongruência, lá vai ele em busca de um norte, ou me surge com outro labirinto... Até o final do ano queremos terminar este trabalho e entregá-lo especialmente às cidades de Porteiras e Brejo Santo.

Para lançar a pedra angular dessa construção, na manhã deste sábado, 20 de Janeiro de 2018, Bruno fez a aposição de uma placa comemorativa dos 90 anos dessa história, na Caldeira do Inferno, que tem sido, durante anos, o nosso escritório de boemia, onde travamos tantos debates sobre os mais variados assuntos.

Agradecemos, desde já, o apoio recebido pela Secretaria de Cultura de Porteiras, da Prefeitura Municipal de Brejo Santo, do Cariri Cangaço e de todas as pessoas que visitamos a fim de esclarecermos os fatos, especialmente Djalma Lucena, Ricardo Lucena e Napoleão Tavares Neves. Brejo Santo tem história para mil e uma noites! Precisamos contá-las e recontá-las.

Hérlon Fernandes Gomes
Porto Velho, Rondônia, 19 de Janeiro de 2018.
A Munganga Promoção Cultural
O Brejo é Isso!
Fonte:http://blogdemateussilva.blogspot.com.br

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