Lidia a Mais Bela das Cangaceiras

Imagem criada por IA

Diz a lenda — e no sertão a lenda costuma ter mais força que a certidão de nascimento — que a beleza de Lídia era uma afronta ao cenário árido do Cangaço. Enquanto a caatinga era feita de espinhos e cinza, ela era feita de curvas e viço. Baiana de dentes perfeitos e cabelos pretos como a asa da graúna, Lídia entrou no bando de Lampião aos dezoito anos, trazendo consigo uma alegria que parecia não caber na rotina de fugas e poeira. Ela era a companheira de Zé Baiano, o temido "Ferrador de Mulheres". Mas, no universo brutal do cangaço, a beleza não era um escudo; era, muitas vezes, uma sentença.

O Rosto que se Perdeu no Tempo

A busca por um retrato de Lídia tornou-se, para historiadores e curiosos, uma espécie de procura ao Santo Graal. Vasculham-se baús, interrogam-se descendentes, analisam-se negativos mofados, tudo na esperança de encontrar o brilho daquele olhar. O que temos, porém, é apenas um reflexo: a fotografia de sua irmã, Francelina Pereira de Souza. Dizem os antigos que eram idênticas, como se o destino tivesse preservado o rosto de uma para que pudéssemos imaginar a tragédia da outra. Mas a verdade é que a fotografia de Lídia foi revelada em sangue e enterrada em silêncio.

O Código de Honra e a Cova Rasa

A história de Lídia não termina com o clique de uma câmera, mas com o som seco de pauladas ao amanhecer. Acusada de traição, ela conheceu a face mais cruel do homem que dizia amá-la. Zé Baiano, carrasco e vítima de sua própria honra bárbara, desfigurou o rosto que o mundo tanto admirava. Ali, sob o sol que nascia para testemunhar o horror, a beleza foi sistematicamente apagada para cumprir o implacável Código de Honra do Cangaço. Diz o relato popular que, após o ato, o bruto chorou como criança. Enterrou-a em uma cova rasa, tentando esconder da terra o que ele mesmo tinha destruído. O choro de Zé Baiano é o paradoxo do sertão: a mão que fere é a mesma que lamenta a perda da flor que ela própria arrancou.

O Mito que o Baú Protege

Talvez seja melhor assim. Talvez o fato de não existir uma foto de Lídia seja a última proteção que o tempo lhe concedeu. Sem uma imagem real para limitar nossa imaginação, ela permanece sendo a "mais bela" de forma absoluta, intocada pelas marcas da velhice ou pela má qualidade de uma lente antiga. Lídia habita o campo do mito. Se a foto aparecesse hoje, provar sua autenticidade seria um desafio hercúleo. Mais do que isso: a realidade poderia empalidecer a lenda. Enquanto o retrato continuar guardado no "fundo do baú" da história — ou perdida para sempre na poeira do sertão e do tempo — Lídia continuará viva em cada descrição de sua beleza e em cada lamento sobre sua partida precoce. Ela é a face invisível do Cangaço. Aquela que foi bela demais para um mundo tão feio, e que, por isso, preferiu tornar-se apenas memória.

Créditos :A fotografia foi criada por IA a partir da original do rosto de Francelina Pereira de Souza e que está disponível na internet. A Crônica é de minha autoria.

Fonte: Grupo de Facebook Lampião, Cangaço e Nordeste.

Antônio Amaury: Quando a Memória não Morre Por Gilmar Teixeira


Há homens que partem e deixam silêncio. Outros partem e deixam caminhos. Antônio Amaury partiu deixando trilhas abertas no sertão da história, veredas firmes por onde seguirão, por muito tempo, aqueles que desejarem compreender o cangaço para além do mito, do exagero ou da caricatura. A notícia de sua morte não trouxe apenas tristeza; trouxe também a consciência de uma ausência imensa. O Brasil perde o maior pesquisador do cangaço, mas o Nordeste — mesmo aquele que não o viu nascer — perde um dos seus filhos mais devotados. Paulista de Araraquara, Amaury foi nordestino por escolha, por encanto e por pertencimento espiritual. Mudou-se para o sertão em alma, mesmo mantendo os pés fincados em São Paulo.

Não estudou o cangaço à distância. Foi ao chão rachado, às casas simples, às memórias guardadas no fundo dos olhos dos que viveram aquele tempo. Sentou-se para ouvir cangaceiros, soldados, coiteiros. Abriu a porta da própria casa para Dadá, ouviu o que muitos não tiveram paciência ou coragem de escutar. Colecionou relatos como quem recolhe fragmentos de uma verdade espalhada pelo tempo.

Antônio Amaury não pesquisava números frios; pesquisava gente. Gente marcada pela dureza da caatinga, pela violência da história, pela sobrevivência possível. Seu rigor científico caminhava lado a lado com o respeito humano. Talvez por isso fosse tão grande: porque nunca se colocou acima do sertão, mas dentro dele.

Em Paulo Afonso, encontrou parceiros de caminhada. Com João de Sousa Lima e Luiz Ruben Bonfim, construiu laços que iam além dos livros. Eram amizades feitas de confiança, de longas conversas, de partilhas sinceras. Apresentou livros e aceitou ser apresentado. O maior escritor do cangaço nunca se vestiu de soberba; preferiu a humildade dos grandes mestres. Sua casa, sempre aberta, virou ponto de romaria intelectual. Pesquisadores, jornalistas, estudantes, cineastas: todos encontravam ali não apenas um acervo monumental, mas um homem disposto a ensinar, ouvir e orientar. Amaury era farol. E faróis não caminham, mas iluminam.

Hoje, o sertão perde uma voz, mas não perde a memória. Seus livros seguem como mapas seguros. Seu legado permanece como obrigação moral para quem estuda o tema: pesquisar com seriedade, escrever com honestidade, respeitar a história e as pessoas que a viveram. Antônio Amaury descansa. Mas o cangaço, graças a ele, jamais voltará a ser apenas sombra ou lenda. Ele deu nome, rosto, contexto e verdade a um dos capítulos mais complexos da história brasileira.

E há perdas que, paradoxalmente, confirmam a imortalidade. Amaury agora é tempo. É referência. É memória viva.

Gilmar Teixeira, Conselheiro Cariri Cangaço - Feira de Santana

Expedições Cariri Cangaço 2026 - Sousa, Uiraúna, Nazarezinho e Aparecida

Programação Oficial
Expedições Cariri Cangaço 2026
Sousa, Uiraúna, Nazarezinho e Aparecida
Paraíba - Nordeste do Brasil

05 fevereiro 2026 Quinta-feira
Uiraúna-PB
15h - Auditório da Escola Municipal Benevenuto Mariano
Rua Manoel Mariano, 177 - Centro Uiraúna

15h10 - Entrega de Comenda do Mérito Cultural Cariri Cangaço
Prefeita Municipal Leninha Romão

Conferência
"Os heróis da resistência de Uiraúna -A inteligência venceu o Cangaço"
Conselheiro Cariri Cangaço Dannylo Maia

16h Visita aos Cenários da Resistencia
Inauguração do Monumento da Chegada de Lampião à Rua da Proa
Rotatória - Rua Francisco Leão Veloso

16h20 Consagração de Lugar de Memória
Inauguração do Monumento aos Heróis da Resistência
Igreja Matriz Jesus, Maria e José

17h Visitas ao Sítio Canadá e fixação de Placas Comemorativas
Casarão do senhor Teodoro Figueiredo
Palavras pelo proprietário, senhor Teodoro Figueiredo

Casa Grande da Família Roque
Palavras por representante da Família Roque

18h Praça de Eventos Joca Claudino
Espaço Cultural - Vila do Artesão Josefa Maria da Conceição
Exposição e Peça Teatral "Os Heróis da Resistência"
Orquestra de Frevo de Uiraúna


06 fevereiro 2026 Sexta-feira
Sousa-PB
9h Saída para Rota "Caminhos da Invasão a Sousa"
Caminhada pelas ruas do centro da cidade, cenário da invasão do 
bando de Lampião em julho de 1924
Visitas conduzidas pelo pesquisador Gabriel Mariz
Consagração "Lugar de Memória"
Conselheiros Manoel Severo e Luma Hollanda

9h Concentração 
Largo da Estação Ferroviária
Cenário Histórico precioso para toda a região, o Largo da Estação Ferroviária; espaço restaurado e revitalizado; nos transporta no tempo, com o Museu do Ferroviário de Sousa, localizado nos antigos prédios da REFESA, e ao próprio passado da cidade de Sousa. 

10h  Visita Técnica 
Casarão do Coronel Emídio Sarmento
O Casarão do coronel Emídio Sarmento é um dos importantes representantes do patrimônio histórico e arquitetônico de Sousa; hoje é a sede do Memorial Coronel Emídio, uma das mais destacadas personalidades da historia politica e econômica da região, o Memorial nos traz a historia da família, através de seu Museu com acervo vasto.

10h15 Comenda de Mérito Cultural ao Memorial Coronel Emídio

10h45  Visita Técnica 
Casarão da Família Mariz
A família Mariz; um dos mais tradicionais nucleos familiares do nordeste; com raízes antigas em Sousa, com figuras históricas como o Padre Antônio Marques da Silva Guimarães, que foi o primeiro prefeito de Sousa em 1854 e mais recentemente o governador Antônio Mariz, encontra no Casarão da família Mariz; hoje sede da Fundação Antônio Mariz; um espaço precioso e fundamental para entendermos a história não só da família e seus destacados membros, mas e principalmente a própria política e desenvolvimento de Sousa e de toda Paraíba. 

11h40  Visita Técnica 
Casarão do Juiz Archimedes Soutto Mayor
Dr. Archimedes Soutto Mayor, juiz de direito da cidade de Sousa em julho de 1924, uma das maiores vítimas da selvageria cangaceira por ocasião da invasão. o cangaceiro “Paizinho” tinha queixas pessoais contra o magistrado, a quem acusava de tê-lo condenando injustamente. Retirado ainda com roupas de dormir, o Juiz foi submetido a todo tipo de suplicia e humilhação, sendo forçado a andar de cangalha e em posição vexatória pelas ruas de Sousa. O ato final seria o assassinato do magistrado, mas Chico Pereira interveio e evitou a consumação do ato extremo. 

Almoço

15h Visita ao Parque dos Dinossauros

19h Fundação Antônio Mariz
 Dr. José Mariz, n° 20 – Centro – Sousa-PB

19h15 Comenda de Mérito Cultural 
Prefeito Helder Moreira Abrantes de Carvalho
José Célio de Figueiredo
Heitor de Sousa Camilo
Zé de Mariz
 
19h30 Conferência
"O Cenário Político e Econômico da Região de Sousa na época da Invasão"
Conselheiro Cariri Cangaço José Otavio Maia de Vasconcelos

20h10 Conferência
"A Invasão de Sousa pelo Bando de Lampião"
Conselheiro Cariri Cangaço Bismark Martins de Oliveira

20h40 Lançamento Cordel
"Lampião e o Dragão pelejando na lua cheia"
Jackson Queiroga


07 fevereiro 2026 - Manhã do sábado
Nazarezinho-PB
9h Saída para a Fazenda Jacu
Lendária Fazenda Jacu da família de Chico Pereira

9h30 Fazenda Jacu - Nazarezinho
Consagração e Consolidação como Lugar de Memória

11h Visita ao Centro de Nazarezinho - Rua Velha
Local da antiga "Bodega de seu João Pereira"
Fixação de Marco Histórico

11h15 Auditório da Escola Maria do Carmo Mendes Pedroza
Centro Nazarezinho

11h10 - Entrega de Comenda do Mérito Cultural Cariri Cangaço
Prefeito Municipal Marcelo Batista Vale
Primeira-Dama Andressa Roberto
Secretário de Cultura Sebastião Cordeiro Braga
Secretária de Ação Social Virgínia Leite
Francisco Ramon Batista Neves
Helena Maria Pereira
Iris Mendes Medeiros

Conferência
"Conhecendo o Cangaceiro Chico Pereira"
Conselheiro Cariri Cangaço Wescley Rodrigues Dutra

Lançamento
"A Saga do Sargento Clementino Quelé"
Conselheiro Cariri Cangaço José Tavares de Araújo Neto

Almoço

07 fevereiro 2026 - Tarde do sábado
Aparecida-PB
14h30 Saída para a Aparecida

15h30 - Fazenda Acauã
Visita Guiada por Laércio Filho
Conselheiro Cariri Cangaço Manuel Dantas Vilar Suassuna
Lugar de Memória Luma Hollanda
Lendária Fazenda Acauã, construída ainda no século XVIII, marcou a infância do Mestre Ariano Suassuna e foi palco de inúmeros eventos políticos marcantes ao longo de seus quase 300 anos. 

16h30 - Entrega de Comenda do Mérito Cultural Cariri Cangaço
Prefeito Municipal João Rabelo de Sá Neto
Secretário Laércio Filho
Escritor José Almeida Pereira
Manuel Dantas Vilar - Dantinhas
Conselheiro Cariri Cangaço Manuel Dantas Vilar Suassuna
Miguel Mourão

16h50 Conferência e Lançamento
"A Lendária Fazenda Acauã"
José Almeida Pereira

17h30 Conferência
"O Cangaço Lampiônico no Alto Sertão da Paraíba"
Fabiana Agra

18h10 Merenda Sertaneja

 18h30 Documentário
"A Pedra do Reino e o Sertão de Dom Pantero"
Manuel Dantas Vilar - Dantinhas

Roda de Conversa
Conselheiro Cariri Cangaço Valdir Nogueira
Conselheiro Cariri Cangaço Carlos Alberto Silva
Conselheiro Cariri Cangaço Kydelmir Dantas

Encerramento



Expedições Cariri Cangaço 2026
Sousa, Uiraúna, Nazarezinho e Aparecida
Paraíba - Nordeste do Brasil

Realização
Conselho Alcino Alves Costa - Cariri Cangaço

Apoio na Realização
Prefeitura Municipal de Sousa
Prefeitura Municipal de Uiraúna
Prefeitura Municipal de Nazarezinho
Prefeitura Municipal de Aparecida
Acauã Produções Culturais
Memorial Coronel Emídio
Fundação Antônio Mariz

Apoio Institucional
SBEC - Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço
 ABLAC - Academia Brasileira de Letras e Artes do Cangaço
ABRAES - Academia Brasileira de Estudos do Sertão Nordestino
GPEC - Grupo Paraibano de Estudos do Cangaço
GECC - Grupo de Estudos do Cangaço do Ceará
GECAPE - Grupo de Estudos do Cangaço de Pernambuco
GSEC - Grupo Sergipano de Estudos do Cangaço