Há homens que partem e deixam silêncio. Outros partem e deixam caminhos. Antônio Amaury partiu deixando trilhas abertas no sertão da história, veredas firmes por onde seguirão, por muito tempo, aqueles que desejarem compreender o cangaço para além do mito, do exagero ou da caricatura. A notícia de sua morte não trouxe apenas tristeza; trouxe também a consciência de uma ausência imensa. O Brasil perde o maior pesquisador do cangaço, mas o Nordeste — mesmo aquele que não o viu nascer — perde um dos seus filhos mais devotados. Paulista de Araraquara, Amaury foi nordestino por escolha, por encanto e por pertencimento espiritual. Mudou-se para o sertão em alma, mesmo mantendo os pés fincados em São Paulo.
Não estudou o cangaço à distância. Foi ao chão rachado, às casas simples, às memórias guardadas no fundo dos olhos dos que viveram aquele tempo. Sentou-se para ouvir cangaceiros, soldados, coiteiros. Abriu a porta da própria casa para Dadá, ouviu o que muitos não tiveram paciência ou coragem de escutar. Colecionou relatos como quem recolhe fragmentos de uma verdade espalhada pelo tempo.
Antônio Amaury não pesquisava números frios; pesquisava gente. Gente marcada pela dureza da caatinga, pela violência da história, pela sobrevivência possível. Seu rigor científico caminhava lado a lado com o respeito humano. Talvez por isso fosse tão grande: porque nunca se colocou acima do sertão, mas dentro dele.
Em Paulo Afonso, encontrou parceiros de caminhada. Com João de Sousa Lima e Luiz Ruben Bonfim, construiu laços que iam além dos livros. Eram amizades feitas de confiança, de longas conversas, de partilhas sinceras. Apresentou livros e aceitou ser apresentado. O maior escritor do cangaço nunca se vestiu de soberba; preferiu a humildade dos grandes mestres. Sua casa, sempre aberta, virou ponto de romaria intelectual. Pesquisadores, jornalistas, estudantes, cineastas: todos encontravam ali não apenas um acervo monumental, mas um homem disposto a ensinar, ouvir e orientar. Amaury era farol. E faróis não caminham, mas iluminam.
Hoje, o sertão perde uma voz, mas não perde a memória. Seus livros seguem como mapas seguros. Seu legado permanece como obrigação moral para quem estuda o tema: pesquisar com seriedade, escrever com honestidade, respeitar a história e as pessoas que a viveram. Antônio Amaury descansa. Mas o cangaço, graças a ele, jamais voltará a ser apenas sombra ou lenda. Ele deu nome, rosto, contexto e verdade a um dos capítulos mais complexos da história brasileira.
E há perdas que, paradoxalmente, confirmam a imortalidade. Amaury agora é tempo. É referência. É memória viva.
Gilmar Teixeira, Conselheiro Cariri Cangaço - Feira de Santana
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