Diante da ameaça, o presidente da República confiou às autoridades regionais a formação dos Batalhões Patrióticos, grupos armados para lutar a favor da nação e combater a Coluna Prestes. Na região do Cariri, o deputado Floro Bartolomeu — figura próxima do padre Cícero — se encarregou de pedir o reforço do bando de Lampião, com promessas de armamentos, dinheiro e uma patente militar. O título de capitão não teve validade oficial, mas passou a ser utilizado por Virgulino Ferreira a partir de então. No dia 4 de março, os cangaceiros chegaram a Juazeiro do Norte para atender ao chamado. Mas a Coluna Prestes desviou o caminho, e o combate nunca aconteceu. A estadia de Lampião na cidade rendeu sessões de fotografias, entrevistas para jornais e pelo menos um encontro entre ele e padre Cícero, de quem era devoto e admirador. O encontro entre as duas figuras já controversas para a época repercutiu com notícias nos jornais, charges e cordéis.
Em 1926, Lampião já havia estampado manchetes internacionais pela crueldade de seus crimes no cangaço. Líder do próprio bando desde 1922, ele inspirava temor na população e desafiava as polícias locais. O bando com 50 cangaceiros passou pela cidade de Barbalha na tarde do dia 4 de março. No entanto, a notícia do jornal “O Ceará” informava que a presença deles não trouxe tanto alarme. “Os bandoleiros se comportaram bem em Barbalha”, dizia o texto. Ao fim da breve visita, Lampião passou pelas lojas e bodegas para pagar as mercadorias compradas pelos seus companheiros antes de partirem para Juazeiro do Norte, a cidade vizinha. Lampião chegou naquela mesma noite a Juazeiro do Norte, sendo recebido por autoridades locais em uma fazenda do deputado Floro Bartolomeu. O político que havia convidado o bando estava ausente, pois tinha ido ao Rio de Janeiro para um tratamento de saúde. Após este primeiro momento, os cangaceiros são vistos pela população da cidade. Quem ajuda a recuperar essa história é o jornalista e escritor Robério Santos, que narra o episódio no livro “O Santo e o Cangaceiro”.
“E Lampião, com 49 homens naquela noite, por volta das 22 horas, entra no Juazeiro do Norte triunfante a cavalo. E nessa, ele vai para o centro da cidade, onde já estava tudo pronto para recebê-los”, relatou Robério Santos ao g1. Até o dia 7 de março, Lampião ficou hospedado em um sobrado do poeta João Mendes. Foi neste casarão que o cangaceiro recebeu a visita do padre Cícero. “Nesse dia 4, ele chega e praticamente não dorme à noite, de tantas pessoas visitando. Inclusive, o próprio padre Cícero vai até lá e pede pro Lampião não cometer nada, não fazer nada. Ele [Lampião] dá a palavra dele, não mexe com ninguém”, relata o escritor. A ausência de crimes com 50 cangaceiros na cidade é considerado um dos milagres do padre Cícero, como brinca Robério. Ele contextualiza que, no cangaço, havia uma forte ligação com os santos católicos. Lampião, por exemplo, era devoto do Sagrado Coração de Jesus e tinha um broche do padre Cícero nas vestimentas durante a visita ao Cariri.
O encontro dele com o 'padim' não foi fotografado. No entanto, os registros que chegaram aos dias atuais vêm de relatos das várias pessoas que estavam no sobrado. Conforme o escritor, este momento não foi realizado às escondidas. “Ele vai até lá em meio aos cangaceiros, onde eles se abaixam, beijam sua mão, tiram o chapéu e têm aquela devoção”, descreve. O sacerdote também falou sobre o encontro em entrevistas para os jornais da época. Segundo o padre Cícero, o momento foi de aconselhar Lampião a deixar o cangaço e se retirar para uma região onde ele não fosse conhecido, para que buscasse um trabalho honesto.
Fonte:https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2025/12/21/padre-cicero-e-lampiao-o-dia-em-que-os-personagens-lendarios-do-nordeste-se-encontraram-pessoalmente.ghtml


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