Manoel Severo na Revista Cultura do SENAC

.
Trazemos hoje entrevista concedida pelo Curador do Cariri Cangaço, Manoel Severo, à Revista da Cultura Brasileira, do Centro Universitário SENAC, de São Paulo, às alunas Daniela Yui, Luciana Pestana ,Paula Gaspar e Tamara Lima.

Em entrevista à Revista da Cultura, Manoel Severo conta um pouco da História do fenômeno que foi o Cangaço.

RC - O que foi o Cangaço?
MS - O Cangaço se configura como um dos mais marcantes fenômenos ocorridos em nosso nordeste. De feições próprias, de caráter controverso, nos remete às mais contraditórias análises. Calcado e produzido pela sociedade rural da metade do século 19 e perdurando até os anos 40 do século passado, teve na ausência do estado e da lei, e em uma intrínseca relação de interesses e favores; seu sustentáculo mais forte. Caracterizado por grupos armados, a serviço ou não, de poderosos; se perpetuou nos sertões de sete dos nove estados do nordeste, a semear a violência, a crueldade, o seqüestro, a tortura, e mortes, muitas mortes. O cangaço teve seu apogeu com a figura mitológica de Virgulino Ferreira da Silva, pernambucano de Vila Bela, vulgo Lampião.

RC - Quando ocorreu o movimento cangaço?
MS - Podemos afirmar que existem características de "cangaço" desde o século 18, entretanto, é no chamado ciclo Lampiônico onde vamos encontrar seu apogeu, notadamente entre os anos de 1918 a 1940.

RC - Onde ocorreu o movimento?
MS - Da forma como o conhecemos, mais ligados ao ciclo do cangaceiro Lampião; vamos encontrar o cangaço acontecendo mais fortemente em sete dos nove estados do nordeste; Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia.

RC- Quais foram as causas que determinaram a ocorrência do movimento?
MS - Vamos encontrar a partir de vários autores, causas que remontam à época da colonização, uma vez que alguns entendem o cangaço como uma forte manifestação de inconformismo com a ausência do estado, as injustiças e as desigualdades, provocadas pelo pátrio poder e mais tarde pelo coronelismo, sistema de poder que vigorou entre a segunda metade do século 19 e a primeira metade do século 20; a posse da terra e a briga pelo poder político, poderiam está por trás de boa parte do que acabou considerando-se causa do cangaço. Entretanto, vamos encontrar também autores que entendem o cangaço, mais especificamente o praticado e inovado por Lampião, uma industria que se autoalimentava: De um lado os homens em armas, os cangaceiros; do outro, os mandatários, os coronéis, que se aproveitavam desses verdadeiros exércitos armados, sem lei e sem rei, para atender às suas necessidades.

RC - Quem exerceu a liderança do movimento?
MS - O mais notável de todos os líderes foi sem dúvida Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampíão, daí ter sido cantado em prosa e verso como o Rei do Cangaço. Também vamos encontrar outros cangaceiros de destaque como Antônio Silvino e Jesuíno Brilhante, ainda no grupo de Lampião teremos como sub chefes, figuras destacadas como Corisco, Zé Bahiano, Labareda, Azulão, Zé Sereno, Antônio Ingrácia, Luiz Pedro, Antônio Ferreira, dentre outros.

RC - Quais foram as principais características do movimento?
MS - A principal característica do movimento a meu ver, foi a violência. Homens destemidos e movidos pelo ódio, vingança e pelo dinheiro fácil.

RC - Como terminou (desfecho) o movimento?
MS - A partir de 1938 com a morte de seu principal líder, Lampíão; o cangaço começava a amargar seus últimos e derradeiros dias. Sem sua principal figura, os grupos acabaram se esfacelando, a grande maioria dos remanescentes se entregou, outros foram caçados até a morte e em maio de 1940, com a morte do cangaceiro Corisco, acabava o fenômeno do cangaço.

RC - O que o Cangaço representou para o Brasil?
MS - O cangaço representou na verdade uma página negra dentro da história do Brasil. Trouxe muito sofrimento para a população rural de nosso nordeste, notadamente formada por humildes e ordeiros sertanejos. Entretanto por ter suas raízes fincadas no âmago da sociedade de nosso sertão e por sua longevidade, principalmente a partir de Lampião, acabou influenciando sobremaneira em muitos aspectos da vida desse povo; a música, a dança, a comida, a medicina, a estética, as roupas, são exemplos da presença marcante do cangaço na cultura nordestina do Brasil. Por sua grande repercussão e por suas profundas ligações com a história de nosso povo nordestino, vamos encontrar no cangaço uma seara inesgotável para o universo da pesquisa e estudo, daí termos pesquisadores sérios, escritores criteriosos e eventos que buscam entender mais de perto o fenômeno, sem endeusar nem muito menos fazer apologia da violência. Foi com esse sentimento, por exemplo, que nasceu o Cariri Cangaço.

RC - Qual o papel de Lampião e Maria Bonita no movimento?
MS - Podemos dizer que se houveram ícones dentro do cangaço, esses seriam sem dúvidas Lampião e Maria Bonita, pois personificaram as figuras do casal líder. Trazendo o mito da paixão e do amor dentro da selvageria do cangaço.

RC - Em sua opinião, quais foram as principais mudanças na cultura do cangaço ao passar dos anos?
MS - A cultura do cangaço, como você coloca; eu poderia definir como a cultura do povo sertanejo, aquela que é da raiz de nosso sertão e suas mudanças veio naturalmente com a evolução das sociedades e as influências que essas mesmas sociedades sofreram ao longo do tempo. Mudanças em todos os aspectos, e aqui podemos ressaltar as questões ligadas a estética, as danças e a música.

RC - Na Literatura de Cordel, na maioria das vezes o cangaceiro é retratado como herói. Na sua visão o cangaceiro era o herói ou o bandido? Explique?
MS - Cangaceiro é história. Com certeza homens que viviam fora da lei, e por mais que possamos procurar justificativas para suas atrocidades, em minha humilde opinião não poderíamos considerá-los heróis. A literatura de cordel, um dos mais fantásticos patrimônios da cultura nordestina, se configurou como o maior divulgador do cangaço; nas feiras, nas beiras de coxias, nas bodegas, nos mercados, enfim; e assim acabou contribuindo sobremaneira para a perpetuação do mito.

RC - Qual o Cordel que mais expressa o verdadeiro Cangaço?
MS - São tantos os valorosos e talentosos artistas do cordel e são tantas obras maravilhosas tendo como pano de fundo o cangaço que não poderia e nem saberia indicar uma somente.


Manoel Severo Gurgel Barbosa, empresário, Pesquisador do Cangaço, Membro do Conselho Consultor da SBEC - Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço, Membro do GECC - Grupo de Estudos do Cangaço do Ceará, Produtor e Curador do Cariri Cangaço e do site cariricangaco.com
.

Cariri Cangaço e GECC em mais um encontro na Saraiva MegaStore

.
Ângelo Osmiro, Manoel Severo e Juliana Ischiara

Aconteceu na noite da última terça-feira, mais um encontro Cariri Cangaço/GECC na Saraiva MegaStore do Shopping Iguatemi em Fortaleza. Contando com  a participação significativa de sócios e amigos, a reunião foi marcada pela apresentação das últimas novidades relacionadas ao Cariri Cangaço 2011 e os preparativos preliminares para a Assembléia Extraordinária do GECC a se realizar dentro do evento, na cidade de Crato.

Dentre as novidades apresentadas pelo Curador do Cariri Cangaço, Manoel Severo; estão as confirmações, até o dia 31 de maio; de 118 pesquisadores de todo o Brasil, que estarão participando do seminário em sua terceira edição. A realização de quatro exposições de fotografias sobre a temática, o lançamento de uma mini-série e de mais sete livros envolvendo cangaço e nordeste. Manoel Severo afirmou que até o dia 30 de junho teremos a programação final do Cariri Cangaço 2011, que se realiza entre os dias 20 e 25 de setembro, no Cariri do Brasil, nas cidades de Crato, Juazeiro do Norte, Barbalha, Missão Velha, Aurora e Barro.

Leo Kaswiner, Aldo Anísio e Dario Castro Alves

 Edilson Junior, Afrânio e Tomaz Cisne

Vicente Alencar e Leo Kaswiner

Representantes do GECC confirmaram os primeiros passos da Comissão responsável pela apresentação dos Estaturos da entidade que deverá ser aprovado também durante o Cariri Cangaço. O pré projeto de Estatuto está a cargo dos confrades, Alfredo Bonessi e Pedro Luiz Camelo. De acordo com Ângelo Osmiro, "será de extrema importância termos a eleição de nossa diretoria e a aprovação de nossos estatutos dentro do Cariri Cangaço".

Cel.Gutemberg Andrade, estudo sobre Laurentino

Alfredo Bonessi e os Estatutos do GECC

Tomaz, Júlio César e Juliana Ischiara

Além das presenças dos fotógrafos Leo Kaswiner e Dário Castro Alves que terão um momento especial para apresentar seus trabalhos dentro do Cariri Cangaço, tivemos a presença dentre outros, do produtor cultural AldoAnísio, da "Sedição de Juazeiro", confirmando o lançamento da mini-série ainda em Julho e  também dentro do Cariri Cangaço no mês de Setembro. Um dos pontos altos da noite foi a apresentação do trabalho do Coronel Gutemberg Andrade, sobre o tenente Laurentino, um dos heróis da resistência de Mossoró. Júlio e Juliana Ischiara, Afrãnio e Tomaz Cisne, Edilson Junior, Ângelo Osmiro, Vicente Alencar, dentre outros, formaram o grupo presente.

Assessoria de Comunicação Cariri Cangaço/GECC
.

Massilon se chamava Massilon? Por:Honório de Medeiros

.
“Benevides”, “Massilon” ou “Massilon Leite”, assim o denominou Raul Fernandes. “Benevides”, “Massilon Leite”, mas também “Massilon Diógenes”, em Raimundo Nonato. “Massilon Leite”, o “Benevides”, para Frederico Pernambucano de Mello. “Antônio Leite”, depois “Massilon”, segundo Hilário Lucetti e Magérbio de Lucena.
 
Qual era o verdadeiro nome de Massilon?

Tomado pela curiosidade digitei “Massilon” no “Google”. Surgiram muitas menções. Nenhuma alusiva ao cangaceiro. Uma delas chamou minha atenção: Jean Baptiste Massillon, 1663-1742. Sacerdote católico, nasceu em Hyères a 24 de junho de 1663. Inicialmente foi encaminhado para a área do direito, revelando-se, contudo, sua vocação para o sacerdócio. Ordenou-se padre e como excelente orador, ensinou retórica em colégios do sul da França. Foi em 1691 que se tornou famoso, após proceder a oração fúnebre do arcebispo de Vienne e dois anos depois do arcebispo de Lyon. Foi para um mosteiro, objetivando ali viver. Mas, em 1696 foi chamado a Paris para dirigir o Seminário de Saint Magloire. Foi pregador do Advento na corte em 1699 e das Quaresmas de 1701 e 1704, consolidando ainda mais sua fama de orador. Em 1709 ele profere a oração fúnebre do príncipe de Conti, em 1711 a do Grande Delfim. Em 1714, a de Luís XIV. Nomeado bispo de Clermont, em Auvergne, três anos depois, haveria de proferir célebres sermões perante Luís XV. Posteriormente, tais sermões seriam reunidos para compor a obra Pequena Quaresma.
 
Em 1719 a Academia Francesa o recebe. Daí, até o dia da sua morte, em Beauregard a 18 de setembro de 1742 ele não mais sairia de sua diocese. Representante clássico do moralismo, seus sermões foram muito apreciados por Voltaire e outros iluministas, como modelos de estilo e pela ausência de religiosidade dogmática.

Não custa nada imaginar um sacerdote, talvez europeu, talvez não, mas conhecedor dos sermões de Massilon, o francês, sugerindo aos pais batizar seu primogênito com o nome do grande orador sacro. Aliás, quando em Patos, em busca das origens do cangaceiro, fiquei espantado: no livro de registro civil no qual constavam os nascimentos abrangendo o período que começava em 1880 e ia até 1920, havia quatro Massilons! Nenhum, entretanto, era o nosso, por que os nomes dos seus pais não batiam com os nomes dos pais de Massilon Leite.

Em Julho de 2006, quando da última visita à Dna. Maria do Céu Leite, filha de Anézio Leite, irmão caçula de Massilon, conheci Luciano Pinheiro, idealizador e “tocador” da Rádio Mandacaru, em Luis Gomes. Fomos procurá-lo por ser ele amigo do jornalista Franklin Jorge, que me acompanhava naquele momento, desde outra época. Contei-lhe acerca da minha busca. Ele me disse que no Fórum de Luis Gomes existia o inventário por morte do pai de Massilon. Luciano se deparara com o inventário ao arrumar os processos do Fórum quando era estagiário. Não acreditei. Pedi a Luciano que me arranjasse o mais rápido que pudesse uma cópia, se possível em ambiente virtual. E ele me arranjou. No inventário, na página 3, está a relação dos irmãos de Massilon, segundo declaração da inventariante, sua mãe. Massilon, não, MACILON LEITE DE OLIVEIRA.

Mesmo assim, não há por que não continuar chamando-o de Massilon. Inclusive por que não há como saber se, na realidade, o Escrivão não se enganou na hora de escrever o nome do filho mais velho do inventariado. Por esta e em respeito à história, continuemos com Massilon, embora sabendo que seu nome completo e verdadeiro era MACILON LEITE DE OLIVEIRA.


Honório de Medeiros
.

Aurora, cenário marcante do Cariri Cangaço 2011 Por:Manoel Severo

.
Bosco André, José Cícero, Manoel Severo e Sousa Neto

Reunião de trabalho marcou a confirmação do município de Aurora como um dos principais anfitriões do Cariri Cangaço 2011. O encontro entre a Curadoria do evento e representantes do município aconteceu na sede da Secretaria da Cultura de Aurora, sob o comando do pesquisador, escritor e poeta, José Cícero. Ao encontro compareceram, além de Manoel Severo, curador do Cariri Cangaço, os pesquisadores Bosco André e Sousa Neto.

 
Caravana Cariri Cangaço visita a lendária Estação da RVC, onde tombou baleado, Izaias Arruda

O secretário de cultura de Aurora, pesquisador do cangaço José Cícero, que na oportunidade representou o prefeito municipal Adailton Macedo, asseverou "a grande satisfação do município em acolher pelo segundo ano consecutivo o Cariri Cangaço e afirmou que a cidade já se prepara para receber o grande público que com certeza estará participando do evento."

Para o pesquisador Bosco André, a "presença de Aurora se configura como um dos pontos centrais do Cariri Cangaço, uma vez que foi cenário e palco de um dos episódios mais fortes da vida de Lampião, que foi a traição de Izaias Arruda". Já Sousa Neto considera que é "muito importante essa conjunção de esforços dos municípios do cariri, como Aurora, Barro, Missão Velha, Barbalha, Crato e Juazeiro, para fortalecer a memória e a história de uma época tão importante.

NOTA CARIRI CANGAÇO: Aurora receberá a segunda nloite solene do Cariri Cangaço 2011, precedido de visita técnica o município recebe a caravana de convidados e o público em geral, na noite de quarta-feira, dia 21 de setembro.
.

Aspectos Históricos e Literários do Cangaço Por:Leandro Cardoso Fernades

.
A palavra Cangaço – à parte de também nomear o bagaço das vinícolas – vem representar a vida nômade dos bandoleiros nordestinos, que, por alusão à canga do boi, carregavam em torno de si os apetrechos necessários à sua sobrevivência. Ao observador incauto, parece designar apenas salteadores sanguinários, criminosos que não mereceriam mais que a inclusão no rol de bandidos comuns. Mas, ao melhorarmos o foco, percebemos que a análise correta deste fenômeno ultrapassa o simples confronto entre mocinhos e bandidos.

Mesa de Trabalho do Seminário Brasil, brasis, na ABL

O Cangaço começou a aparecer nos documentos oficiais em meados do século XIX, a partir de registros sobre o célebre José Gomes, o Cabeleira, que vivera no século anterior. Mas não começou aí. Seus rastros vêm da aurora da nossa colonização, e para segui-los é preciso evitar os vieses frequentes dos nossos registros históricos, quase sempre favoráveis ao colonizador em detrimento de quem resistisse ao afã dominador. Daí a profusão de qualificações depreciativas para os insurretos, geralmente descritos como bandidos, facínoras e revoltosos, na clara intenção de criminalizá-los. Um sofisma largamente difundido é a colocação do Cangaço como “revolta” pontual de limites definidos no interior nordestino. No entanto, devemos levar em conta aspectos peculiares de cada região, com seus catalisadores históricos, que apontam para uma escala cromática de cangaços, Brasil afora.

Precisamos recontar nossa História e ouvir aqueles que sucumbiram no violento choque da nossa formação. São os esquecidos da História. Deixemos, então, que eles no apontem onde está a forja do cangaceiro.

Capitania de São José do Piauí, sertão de dentro, por volta do ano 1700. O colonizador europeu avança palmo a palmo no território antes ocupado pelos nativos, enxotando-os para o norte e para o Maranhão. A cada légua avançada, ficam atrás novos currais e arremedos de vilarejos.

Francisco Dias D’Ávila e seus agregados põe abaixo a aldeia dos índios Aranis, próximo à freguesia de São Antônio do Surubim, onde hoje está a cidade de Campo Maior, Piauí. Deste cruel massacre, escapam dois curumins: uma menina de 13 anos e seu irmão de 12 anos, a quem foi dado o nome cristão de Manuel, e o apelido de Mandu. O menino foi enviado a um aldeamento jesuíta, o Boqueirão dos Cariris, situado a 60 léguas do Recife. Alguns anos depois, o índio Mandu, retorna ao Piauí, na tentativa de reencontrar sua irmã. Ao sabê-la morta pelas mãos do português, decide pegar nas armas e formar um bando com remanescentes de várias tribos, algumas inclusive inimigas entre si. Passa a ser chamado de Mandu Ladino, graças à eficiência em ludibriar os portugueses e índios “preados” postos no seu encalço. Contra Mandu e seus índios “corsários”, como eram conhecidos, vieram de São Luiz, forças volantes de El-Rei, que terminam por matar o chefe índio depois de quase 10 anos de guerrilhas.



Nesta síntese biográfica de Mandu Ladino, um dos esquecidos da nossa História, está a infância do cangaceiro. O clavinote genocida do colonizador e o peso de suas botas a esmagar qualquer resistência à expansão de seus domínios. Além do índio, vergaram sob a dominação o negro, o sertanejo, todos eles empurrados para a sombra do vulcão adormecido da revolta e do inconformismo latente, que o Prof. Frederico Pernambucano de Mello brilhantemente chamou de “irredentismo”. Muitas das manifestações de violência popular, ao longo da História trazem na verdade esse eco antigo dos nossos índios sublevados, nossos negros e caboclos sem cabresto. De quando em vez, esse vulcão dos rancores explodia em revoltas como a de Mandu Ladino; como o Quilombo dos Palmares; as lutas pela Independência do Brasil; a mal-contada Balaidada, e, finalmente, o cangaço, com as suas variadas nuances.

O cangaceiro, portanto, é produto dessa sociedade arcaica, onde mais sobressaía quem se impusesse pelas armas e pela valentia. Segundo a análise de Frederico Pernambucano de Mello, na sua obra Guerreiros do Sol, estas condições eram “fundamentais para se dobrar as resistências do índio e do animal bravio como condição para o assentamento das fazendas de criar”. Ou seja, durante quatro séculos, fomentou-se a cultura da violência, onde o indivíduo é senhor do seu destino e deveria traçá-lo a talhos de facão. O Código Penal sempre foi surra, bala e punhal. Era muito mais fácil, para o sertanejo, a justiça direta guiada pelo revide e pela autodefesa. A outra, a dos tribunais das capitais, não era uma alternativa. Muitos foram empurrados para a garganta do Cangaço por terem reagido violentamente, de modo moralmente aceitável em sua aldeia, mas reprovável aos olhos da civilização litorânea. Houve ainda aqueles que abraçaram a espingarda por não ter outra opção de subsistência. Gustavo Barroso recolheu uma quadrinha, que traduz muito bem o modus vivendi no sertão de outrora, e que diz o seguinte:

“Meu pai fez diversas mortes/porém não era bandido/matava em defesa própria/quando se via agredido/pois nunca guardou desfeita/e morreu por atrevido”.

No sertão, o Cangaço encontrou não só o ambiente social para prosperar, mas também o ambiente físico. Como disse Euclides da Cunha: “a Geografia prefigura a História”; e a caatinga foi o mais forte aliado do cangaceiro contra a repressão, pela quase intransponibilidade de seus espinheiros e arbustos, o que minava o vigor dos perseguidores. E Lampião soube tirar proveito disso. De 1928 para trás, na primeira metade da sua vida de guerreiro, vivia nas caatingas brabas do Pajeú pernambucano e da Floresta do Navio, que lhe serviam de refúgio. Mas, quando necessitava de refrigério, corria à fronteira com o Ceará, e regalava-se na paradisíaca Chapada do Araripe, no verdejante Vale do Cariri Cearense. Já na fase pós 1928, na Bahia, vivia circundando o Raso da Catarina, a maior extensão de caatinga do Brasil, dela usufruindo quando precisava impor as agruras do terreno às Forças Volantes. Mas quando necessitava de refrigério, recorria à beleza do Vale do Rio São Francisco, onde a região limítrofe entre Bahia-Sergipe-Alagoas, com seus potentados e coiteiros, lhe fornecia ampla e organizada rede de apoio. 
Lampião, por mérito particular, aperfeiçoou e modernizou o cangaço! Ao contrário do que muita gente pensa, era um sujeito calmo, circunspecto, educado, avesso a farras, profícuo em fazer amizades, inclusive com autoridades. Fazia-se, às vezes de coronel itinerante, manifestando explicitamente o gosto por sofisticações, como fotografias, whisky, filmes, ao tempo em que, paradoxalmente, repudiava, por instinto de sobrevivência, o progresso das rodagens e dos trilhos que começavam furar os carrascais.

À parte do cuidado com a segurança individual e coletiva, os cangaceiros preocupavam-se em larga medida com o apuro da indumentária, usando-a inteligentemente a seu favor. O traje não tinha por objetivo a camuflagem na caatinga. Bem longe disso: passava pela imposição da personagem perante os interlocutores. O fardamento exuberante era motivo de orgulho para o portador, que além das cores vibrantes das jabiracas e bornais, exagerava em perfumes sobre o corpo suado.

Contrastando com esse apuro estético, estava sua atuação sempre pelo recuo, pela imposição do terror, em guerrilha onipresente pela divisão do grupo em subgrupos. As Forças Volantes, até pela gravitação em torno dos cangaceiros, e necessidade de adaptação, foram progressivamente trocando o uniforme cáqui da Força Pública pelos chapéus de meia-lua, enfeites e longos punhais. Exerciam seu poderio militar às custas da arbitrariedade e da imposição do medo, de maneira semelhante à atuação dos cangaceiros. Muitas vezes, a única coisa que os diferenciava era o lado que ocupavam na contenda.



O Cangaço latu sensu, deixou representantes em diversas regiões fora daquela associada a atuação de Lampião, como no caso de Lucas da Feira (Feira de Santana, Bahia), o Raimundo “Cara Preta” (na lutas da Balaiada, Piauí e Maranhão), Silvino Jaques (interior do Mato Grosso), Antonio Dó (sertão de Minas Gerais), dentre outros.Aliás, falando em Antonio Dó...Aqui abro espaço para os jagunços tão magnificamente perfilados por Guimarães Rosa, na obra “Grande Sertão: Veredas”, como Medeiro Vaz, Hermógenes, Zé Bebélo, Joca Ramiro. Todos eles legítimos capitães de cangaço. O termo jagunço lhes foi emprestado por que assim eram eles conhecidos nos vastos campos gerais. Mas, indiscutivelmente, eram capitães de cangaço. Jagunço por conceito é aquele que vive exclusivamente pelas armas, mas a serviço de um potentado, ou seja: sem bando independente, tendo como única ocupação o conflito armado. O cangaceiro manso é aquele que se aparta de suas obrigações de vaqueiro ou de lavrador para resolver uma contenda, retornando, posteriormente, às suas atividades pacíficas. Já o cangaceiro volante é o tipo imortalizado por Antônio Silvino, que, nômade, troca de nome e passa a viver debaixo do cangaço. Lampião foi cangaceiro manso até os acontecimentos que culminaram com a morte de seus pais; a partir daí, cangaceiro volante, e – diga-se de passagem – o mais bem sucedido. A ele se aplica um verso do poeta condoreiro do Cariri cearense, Barbosa de Freitas: “as águias nascem pequenas/mas quando lhes crescem as penas/sabem bem alto voar”. E Lampião voou alto. Com ele, o Cangaço alcançou seu apogeu, nos anos 20, mas também recebeu seu tiro de misericórdia, na madrugada de 28 de julho de 1938, em Angico, Sergipe. Mas não morreu aí. Estrebuchou até maio de 1940, com a morte de Corisco, o Diabo Loiro.

Um dos responsáveis pelo mitificação de Lampião foi a Literatura de Cordel, herança da Península Ibérica. De Portugal, as “Folhas Soltas”; da Espanha, “Los Pliegos Sueltos”; e da França a “Literature de Colportage”, cuja influência foi espalhada aqui pelos colonizadores. Os versos, feitos preferencialmente em sextilhas, septilhas e décimas, eram muito agradáveis de ler, ouvir e cantar. As estrofes caíam celeremente no gosto e na memória do povo, tornando-se uma espécie de noticiário da oralidade do meio em que viviam. O jornal, que em Portugal ocupou completamente o espaço do Folheto, aqui no Brasil não logrou tal êxito, por ser quase inacessível ao sertanejo, fato que ainda hoje se observa. Geralmente, o jornal retratava um cangaceiro criminalizado e um sertão com o rótulo do atraso. Já o cordel exibia um cangaceiro heroico, guerreiro, astuto e superpoderoso, cujo escudo ético servia aos sertanejos de maneira geral.


É da época dos primeiros folhetos impressos, ou seja, meados de 1870, que os romances da literatura dita culta recebem as cores do sertão. Cito aqui duas obras da vanguarda desse período. O primeiro, publicado em 1876, do cearense Franklin Távora é “O Cabeleira”, romance histórico com sugestões regionalistas, mas não dissociado do melodrama de folhetim. É o marco literário inicial do Cangaço, sendo Távora um grande entusiasta das tradições e tipos legendários do Nordeste.

A segunda é pouco conhecida do público e da crítica, mas não menos importante. É o primeiro dos nossos romances a ter a seca como palco dramático do enredo. Segundo a professora Maria Gomes Figueiredo, do Departamento de Letras da Universidade Federal do Piauí é “o primeiro romance de fundo essencialmente regionalista, que focaliza de forma realista o drama da seca no sertão do Piauí”. Trata-se de “Ataliba, O Vaqueiro” do piauiense Francisco Gil Castelo Branco, lançado em 1878 como folhetim no Diário de Notícias e posteriormente publicado pela Tipografia Cosmopolita do Rio de Janeiro, em 1880. Este livro, tal qual João Batista, que veio preparar os caminhos do Senhor, é o bom augúrio dos excelentes trabalhos que estavam por vir. “Luzia-Homem”, de Domingos Olímpio, publicado em 1903; “A Bagaceira” de José Américo de Almeida, publicado em 1928; os clássicos “O Quinze”, de Raquel de Queiroz, de 1930 e “Vidas Secas” de Graciliano Ramos, de 1938. Aliás, neste mesmo ano, Graciliano publicou um artigo no Jornal de Alagoas, onde relata uma visita que fizera a Antonio Silvino, na companhia de José Lins do Rego. Fica patente a surpresa de Graciliano ao encontrar um Silvino diferente do que sempre imaginara: era branco, olhos claros, bem apessoado, educado, inteligente... ou seja, bem distante da imagem sugerida do Capitão-de-Cangaço sanguinário, fruto da degeneração racial, lombrosiano, incapaz do convívio social normal. José Lins do Rego, por sua vez, já conhecia o ex-cangaceiro da infância no engenho do avô. Dessas memórias ele retirou os clássicos de seus clássicos: “Pedra Bonita”, “Menino de Engenho”, “Fogo Morto” e “Cangaceiros”, todos contemplando a figura do capitão-de-cangaço e as agruras do sertão.

O tema Cangaço nunca envelheceu. Contaminou gerações de escritores, vários romancistas e poetas, alguns polivalentes, inclusive derivando seu talento para a dramaturgia, como Rachel de Queiroz, com a peça “Lampeão”, publicada em 1953 e Ariano Suassuna, com o fantástico “Auto da Compadecida”, publicada em 1955. Não poderia deixar de citar aqui um dos retratos mais realistas da violência rural na nossa Literatura de ficção, embora baseado em fatos reais, que é “O Tronco” do goiano Bernardo Élis. Obra de fôlego, que mostra em cores a convulsão instalada na pequena Vila do Duro, sufocada e impotente entre os desmandos do coronel e a arbitrariedade da Polícia Militar.

O “O Cabeleira”, citado há pouco, também foi ponto de partida para outra vertente literária, que não o da ficção regionalista. Trata-se da literatura histórica específica que nasceu do resgate da tradição oral, e adornou-se de ensaios sociológicos, antropológicos e psicológicos a cerca do tema. Cronologicamente, citaria o trabalho do cearense Gustavo Barroso, notadamente “Terra de Sol”, de 1912, e “Almas de Lama e de Aço”, de 1930; e as duas biografias publicadas em vida de Lampião, a primeira por Érico de Almeida, em 1926; e a segunda pelo médico Ranulpho Prata, em 1933, ambas com o título de “Lampeão”.

Dos trabalhos contemporâneos referenciais, citaria “Assim Morreu Lampião”, do paulista Antonio Amaury Correa de Araújo, publicado em 1971, onde o autor passou o pente fino sobre os acontecimentos do dia em que Lampião foi morto, e colocou-os em ordem cronológica, a partir de depoimentos de cangaceiros, soldados e coiteiros que participaram do epílogo de Lampião. Também da lavra de Antonio Amaury, “Lampião: As Mulheres e O Cangaço”, publicado em 1984, e que foi o primeiro trabalho dedicado ao universo feminino no Cangaço.

Mas ainda havia uma lacuna. Faltava um ensaio sobre a violência rural brasileira, que se esquivasse da visão simplista e fatalista, então vigente. A lacuna foi preenchida pelo livro “Guerreiros do Sol”, de Frederico Pernambucano de Mello, historiador social de sede matada nas fontes da escola gilbertiana. É um trabalho maduro sobre as bases sociológicas do Cangaço, e que foi complementado pelo recentemente publicado: “Estrelas de Couro: A Estética do Cangaço”, este último o mais completo trabalho de análise e documentação sobre uma personagem da nossa história, no caso o cangaceiro.

Dito isto, termino por aqui parafraseando Guimarães Rosa:

Cangaço está em toda parte! Também aqui na Casa de Machado de Assis, neste importante encontro. Afinal de contas, cultura e educação são nosso oxigênio.

Sem as duas, apenas vegetamos. E em tempos de poluição cultural e educação rarefeita, o brasileiro está apático, sem interesse pelos problemas do seu país. Tem se preocupado, quando muito, com os desfechos dos programas televisivos de confinamento e com o dia-a-dia das celebridades. Vale a pena, então, puxarmos as máscaras de oxigênio e fazer ver a esse povo que a cor da nossa identidade é reflexo do colorido das penas do índio Mandu Ladino e dos enfeites dos chapéus dos cangaceiros.

Muito obrigado.

Leandro Cardoso Fernandes

NOTA CARIRI CANGAÇO: É com muita satisfação que postamos a espetacular conferência do Doutor Leandro Cardoso Fernandes, por ocasião do Seminário Brasil, brasis, nos salões da ABL - Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro, no último mês de Maio.
.

Circulo da Mãe de Deus....Daniel Abreu

.

Sem dúvidas mais uma grande produção com  a marca da FGF Tv, está para chegar. O longa metragem "O Círculo da Mãe de Deus", ficção sob a direção de Daniel Abreu e que tem em seu elenco, como protagonista infantil, o magistral Mafuz...ou Gulherme Mafuz Nogueira, com certeza tem tudo para ser um dos grandes lançamentos de 2012. Guilherme é filho dos queridos amigos Aderbal Nogueira e Maristela Mafuz. O talento do garoto é inegável, agora é esperar e conferir.

 
 
 
O talento do diretor Daniel Abreu e o pequeno Guilherme; o pai fica por tras das câmeras para o filho brilhar diante delas...vem aí o Círculo da Mãe de Deus.
.

João de Sousa Lima lança 2ª Edição de A Trajetória Guerreira de Maria Bonita

.

Maria Gomes de Oliveira foi uma mulher polêmica. De temperamento forte, foi pioneira no seu métier. Isso lhe trouxe fama e uma série de histórias controversas, além de um apelido que assustava as pessoas: Maria Bonita. Neste ano, a mulher de Lampião teria completado cem anos, se viva, no dia da mulher, 8 de março. Aproveitando a data, João de Sousa Lima, pesquisador do cangaço, já organizou um evento sobre a primeira mulher a ser cangaceira, e agora lança a segunda edição de seu “A trajetória guerreira de Maria Bonita, a rainha do cangaço”.
 
João, que tem outros livros sobre o assunto, diz que o livro “narra a vida de Maria Bonita, desde seu nascimento até a morte na Grota do Angico”. Segundo o escritor, a obra passa “por histórias acontecidas na infância, no casamento atribulado com o sapateiro José Miguel, ‘o Zé de Nenê’, os bailes na juventude e a apresentação pelo um tio ao Rei do cangaço”. O pesquisador afirma que Maria Bonita entrou no cangaço com 18 anos, “no finalzinho de 29” e morreu menos de nove anos depois, em 28 de julho de 1938, junto com Lampião e mais nove cangaceiros na Grota do Angico, em Poço Redondo, Sergipe.

João de Sousa Lima
 
Durante esse período, ela, junto com o grupo de cangaceiros, é associada a situações escabrosas, como assassinatos e torturas cheias de crueldade, como se pode ver na reportagem da RHBN de maio, “Fascinantes facínoras”. Por outro lado, há muita gente que a considera um ícone. João tenta fugir da polêmica ao explicar que o mais importante é recontar a história, independentemente dos julgamentos: “Maria Bonita e por consequência a história do cangaço tem que ser passada pelo contexto histórico acontecido no Nordeste brasileiro.”

Revista de História: Como Maria Bonita conheceu Lampião?
João de Sousa Lima: Ela conheceu Lampião em 1929. Foi apresentada pelo tio Odilon Café e estava separada do antigo marido havia 15 dias. Com o cangaceiro, teve quatro filhos: dois abortos, a Expedita e o Ananias, o qual morreu no ano passado tentando provar esta paternidade - o resultado do DNA corre em segredo de justiça
 
RHBN: Heroína ou bandida? É possível responder a essa questão?
JSL: Maria Bonita se tornou um nome mais conhecido por ser a mulher do comandante supremo do cangaço. Maria Bonita, e por consequência a história do cangaço, tem que ser passada pelo contexto histórico acontecido no Nordeste brasileiro. A questão de bandido ou herói tem dividido opiniões, porém o mais importante é o registro dos fatos acontecidos, não podemos julgar a história de um povo, de uma raça, de uma comunidade. Toda a história desde a criação é repleta de momentos sangrentos, de guerras e de lutas. Precisamos levar para as gerações vindouras esses fatos, sem nada alterar ou modificar como fazem os historiadores irresponsáveis. A polícia, que era quem devia proteger a população, o sertanejo, foi muito pior que os homens e mulheres que viviam à margem da lei. A polícia matou mais, estuprou mais, roubou mais. Muitos desses crimes foram creditados aos cangaceiros. É importante que escritores e estudiosos do tema saibam manter a imparcialidade na hora de retratar os casos e deixem que a história e o tempo decidam essas questões polêmicas e que não cabem no olhar individual de algum analista.

A outra Maria Déa; de Paulo Afonso
 
RHBN: Por que a rainha do cangaço se transformou em uma espécie de ícone do movimento feminista brasileiro?
JSL: Ela não se tornou símbolo do feminismo brasileiro, ela se tornou sinônimo de mulher corajosa, decidida, que rompeu parâmetros de uma época para seguir um grupo comandado por um homem que vivia à margem da lei. Pode ter se tornado exemplo para algumas outras mulheres, porém não foi intencional, ela foi para o cangaço apenas por ter se apaixonado por Lampião.
 
RHBN: Você poderia descrever, em poucas palavras, a personalidade de Maria Bonita?
JSL: Maria Bonita era uma mulher corajosa, decidida, acima de tudo apaixonada pelo homem que ela decidiu seguir. Foi menina, criança, amiga, companheira e mãe. Tomou banho de chuva, se molhou em biqueiras e barreiros, fez bonecas de pano e de milho, correu, caiu levantou, amou, sofreu, sorriu, chorou, colheu flores, sentiu o calor causticante do sertão, divisou o verde em certos momentos, foi amada, ferida, feliz e sofrida, foi mulher sertaneja, de brio, forte, serena, severa, amamentou, partiu, voltou, tombou crivada de balas, uma mulher comum, porém com uma história diferenciada de todas as outras de sua época e de seu convívio
 
.

Vem aí o XIII Fórum do Cangaço

.
.
Caros Sócios e amigos,

Lembrando que o XIII Fórum do Cangaço terá inicio no próximo dia 13 de junho.Por conta da paralização das atividades na Universidade do Estado do Rio Grande do Norte - UERN o evento foi transferido para a Universidade Federal Rural do Semi Árido - UFERSA.

Sugerimos aos colegas que virão participar do evento que façam suas reservas no Hotel Valley.
Fone: 84-3315-1950
Email: hotelvalley@hotmail.com
Site: http://www.hotelvalley.com.br/
Contato: Pascaly

Lemuel Rodrigues
Presidente SBEC
.

Adília a cangaceira que eu conheci Por: Rangel Alves da Costa

Conheci Adília dentro da minha casa, no convívio cotidiano com minha família em Poço Redondo. Lembro como se fosse hoje da morena trigueira, chegando ao escurecido, alta, esguia, esbelta, de rosto alongado, queixo fino e olhos negros sempre brilhantes, cabelos também negros e aquele jeito simples de mãe de família que nem de longe parecia aquela mesma Adília que ainda mocinha, quase menina, entrou para o bando do Capitão Virgulino; a mulher/menina companheira do cangaceiro Canário.


Nesta clássica foto, temos Adília, vista do lado direito de Zé Sereno.


Pena que a historiografia, os estudiosos e pesquisadores tratam os seus personagens com a frieza da conveniência, muitas vezes traçando um painel muito diferente daquilo que a pessoa pesquisada realmente foi. Pedindo desculpas aos cangaceiristas (a moda é cangaceirólogo, vixe Maria!) das academias, não tenho dúvidas em afirmar que Adília, mesmo durante as batalhas sangrentas, sempre foi muito mais aquela menina meiga e pacata do Alto de João Paulo, do que uma sedenta e furiosa figura de arma em punho.

Com o pouco que convivi com ela posso afirmar isso, pois é impossível que aquela doçura de mulher tivesse mudado repentinamente seu comportamento após a morte de Lampião (28 de julho de 1938, na Gruta do Angico, em Poço Redondo), sem ter sido sempre, em qualquer lugar e circunstância, a dedicada mãe de família e alegre amiga, sem jamais deixar transparecer resquícios da vida passada, mágoas ou ressentimentos.

Adília e Sila

Nascida Maria Adília de Jesus, entrou para o cangaço com menos de dezesseis, influenciada pelo grande amor de sua vida, o conterrâneo e também cangaceiro Canário. Como a sua família não aceitava o namoro, a menina prometeu ao namorado que iria com ele até o inferno se fosse preciso. Se não foram para as agonias dos subterrâneos de Hades chegaram bem perto disso, pois a vida no cangaço teve na dor e no sofrimento algumas de suas principais características.

Como afirmado anteriormente, lembro como se fosse hoje. Meu pai, Alcino Alves Costa, prefeito à época, a casa da Rua de Baixo sempre cheia de familiares e amigos, no entra e sai de pessoas uma destas sempre se demorava mais ali, ficava horas e até o dia inteiro ajudando minha mãe D. Peta. Era a ex-cangaceira tomada de amizade à nossa família, numa consideração que de repente eu já estava chamando ela também de mãe.

Falando e sorrindo com suas duas covinhas no rosto, mandava que eu sentasse no seu colo e começava a fazer cafuné e contar histórias, mas coisas muito diferentes do que poderia muito bem falar. Mas o menino nada tinha a ver com sua vida cangaceira, nem ela gostava de revirar baús curtidos pelo resto do embornal. E contava que era uma vez, e dizia que um dia, mas tudo bonito e sem sofrimentos, balas e mortes no meio.

E foi num desses momentos de intenso convívio que um dia descobri em Adília um pequeno detalhe que jamais esquecerei e que me uniu cada vez mais a ela, num amor de filho e mãe. Eis que atirado pelo chão e ela sentada, enxerguei na sua perna, não lembro bem se direita ou esquerda, já próximo ao pé, uma parte mais funda na pele, que chegava adentrar o osso. Era como se a perna tivesse sido fortemente ferida naquele ponto e que, depois da ferida curada, ficou uma visível cova.

Rangel Alves Costa

Perguntava o que tinha sido aquilo e num sorriso bonito dizia sempre que já tinha nascido com aquela barroquinha na perna, porém talvez recordando a cada momento a saraivada e a bala da volante atingindo o local e os instantes seguintes de dor e desespero. Mesmo que pensar nisso ainda lhe doesse no espírito, respondia com o sorriso e deixava que brincasse com aquela marca na pele e osso das durezas da vida cangaceira.

Nossa amizade ficou tão fortalecida depois dessa descoberta que nem se importava quando eu mandava ela sentar no chão e estirar a perna para que eu colocasse água na barroquinha. E veja o que menino faz: enchia e sugava a água na perna da ex-cangaceira. Assim, muitas vezes brinquei com aquela marca e bebi água dali sem saber que a minha boca experimentava o verdadeiro sertão. Era uma cacimba cangaceira!

Depois fui crescendo e a sede da meninice foi indo embora. Pensei que havia crescido e nunca mais atravessei o riachinho e fui ao Alto de João Paulo ao menos visitar Adília na sua casa simples e aconchegante. Morando na capital, soube de sua morte em março de 2002, aos 82 anos.

Fui ingrato Adília, perdoa-me. Só quando a gente tem sede é que lembra que existe água...
 
Poeta e cronista

e-mail: rangel_adv1@hotmail.com

blograngel-sertao.blogspot.com
.

Saraiva recebe noite Cariri Cangaço - GECC

.
Atenção !!!

Hoje, logo mais ás 19 horas.
Noite Cariri Cangaço-GECC na
Saraiva Mega Store.

"Reunião do Grupo de Estudos do Cangaço do Ceará e Cariri Cangaço"


 
Nesta terça-feira; 07 de junho, às 19 H
Livraria Saraiva - Shopping Iguatemi
Fortaleza
.

Caravana Cariri Cangaço visita Museu do Cangaço

.

O Museu do Cangaço de Serra Talhada, recebeu a visita da Caravana Cariri Cangaço. Fomos recebidos pelo amigo Anildomá Willians e Cleonice Maria, atual presidenta da Fundação Cabras de Lampião. O Museu do Cangaço tem localização priveligiada, logo na entrada da cidade e nos proporciona entrar em contato com a incrível história do cangaço nordestino, com destaque para um nos filhos mais famosos do lugar: Virgulino Ferreira da Silva. Participaram da visita os confrades Bosco André, José Cícero e ainda Jack de Witte.

Manoel Severo, Jack de Witte, Anildomá, Bosco e Zé Cícero

Com um acervo ímpar, o Museu do Cangaço de Serra Talhada, sob o comando da Fundação Cabras de Lampião, dos amigos Anildomá e Cleonice Maria, nos remetem a um passado enigmático e cheio de emoção, coragem e dor; documentos, fotografias, música, vídeos, objetos pessoais, manchetes de jornais, uma vasta e significativa coleção de exemplares da literatura sobre o tema; acabam tornando o Museu do Cangaço de Serra Talhada uma visita obrigatória para todos que desejam se aproximar um pouco mais da história do cangaço nordestino.

Bosco André e Anildomá Willians
Museu do Cangaço em Serra Talhada

A história e a memória de nossa gente e de nossa terra se perpetuam a partir de iniciativas como o Museu do Cangaço, que a exemplo de outros espaços, se configuram como expoentes fortes e decisivos para o verdadeiro legado que precisamos deixar para os que estão vindo. Grande abraço aos amigos da simpática e acolhedora Serra Talhada, a inesquecível e famosa Vila Bela, de Virgulino e seus irmãos...

Manoel Severo