As Havaianas de Alcino Por:Rangel Alves da Costa

Manoel Severo, Rangel Alves da Costa e as "Havaianas de Alcino" no
 Memorial Alcino Alves Costa em Poço Redondo, Sergipe

Alcino era um apaixonado pelo sertão, pelas histórias cangaceiras, pela música caipira, pela dupla Tonico e Tinoco, pela saga sertaneja e suas múltiplas feições, mas também por alpercatas havaianas. Sandália, chinelo, alpercata, ou qualquer outra denominação que se deseje dar, a verdade é que Alcino não tirava uma dos pés.
Seu costume e apego pelas havaianas era tamanho que não tirava elas dos pés por motivo algum, abrindo exceções somente quando, na condição de prefeito municipal, recebia autoridades políticas e governamentais em eventos oficiais ou se dirigia até o palácio do governo para tratar de assuntos referentes ao município. Ainda assim num desconforto danado.

O desconforto com os sapatos era visível. Alcino só faltava mesmo levar chinelo nos bolsos e calçá-los assim que saísse dos gabinetes. Andava troncho, pisando desconforme, à moda daqueles que usam sapatos apertados demais. E certamente, mesmo que folgados ou ajustados aos pés, tornavam-se apertados demais. Seus pés estavam acostumados mesmo com a liberdade.

Professor Pereira, Manoel Severo e Alcino Alves Costa

Muitas vezes, na capital sergipana e após o uso de sapatos em reuniões oficiais, chegava da rua e ultrapassava o portão em verdadeira correria. Nada de estar apertado e precisar ir ao banheiro, nada de outra motivação para aquela pressa toda, pois simplesmente sua vontade de se desafazer daquele couro e daquelas meias e calçar suas havaianas. Depois, confortado, chegava a sorrir sentindo seus pés em liberdade.

As havaianas eram, assim, sua companheira inseparável, desde o levantar ao deitar. Fazia seu uso em quase todas as situações. Bastava se imaginar calçando sapatos e já fazia cara feia, como se já estivesse sentindo seus pés doloridos e aprisionados. Era um prefeito de havaianas, um líder político de havaianas, um eterno caminhante de havaianas.

Alcino gostava de usar calça social, mas não camisa social. Mesmo de calça assim, nos pés sempre as havaianas. Acaso alguém avistasse ao longe uma pessoa de calça social, camisa fechada (geralmente listrada), cantarolando baixinho a cada passo, e de havaianas, podia saber que se tratava de Alcino.Certamente que havia motivações para que Alcino gostasse tanto de havaianas. E tudo pode ser explicado pelo próprio amor ao sertão. Seus pés ficavam mais rentes a terra que tanto amava, seus passos ficavam mais seguros por onde fosse, a leveza no passo permitia que caminhasse muito, que incessantemente seguisse. E ter os pés sujos da poeira sertaneja significava também ter sobre si a essência daquele seu mundo.


Alcino Alves Costa em entrevista a TV Diário no Cariri Cangaço 2009

A liberdade proporcionada pelas havaianas era a liberdade que Alcino tanto procurava em cada passo da vida. Talvez nem sentisse a borracha sob a pele. Talvez simplesmente sentisse a própria terra abaixo dos pés. E neste sentido dissesse a si mesmo que caminhava descalço e que o chão sertanejo fazia parte de sua própria pele.

Tão apaixonado era pelas havaianas que sequer se importava se já estivessem totalmente desgastadas e necessitando de outras. Enquanto filho, já o vi pedindo para que colocassem alguma presilha abaixo da correia que havia quebrado. Em instantes assim, logo outra era providenciada. E com as havaianas seguia até que alguém percebesse - nunca ele - que já estava imprestável ao uso.

O Memorial Alcino Alves Costa ainda guarda um exemplar dessa paixão de Alcino. Visitantes chegam e perguntam por que aquelas chinelas ali. A resposta é sempre a de que ele gostava de usar havaianas. Mas a resposta certa é outra: “Ali a simplicidade de um homem e o seu passo quase descalço pela sua amada terra sertão!”.


Rangel Alves da Costa, Escritor
Conselheiro do Cariri Cangaço - Poço Redondo,SE

Vila Nova de Pombal: O Inicio da Ocupação Portuguesa Por:José Tavares de Araujo Neto

DE ARRAIAL DO PIANCÓ À VILA NOVA DE POMBAL: O INÍCIO DA OCUPAÇÃO PORTUGUESA E A DESTERRITORIALIZAÇÃO 
DAS ÁREAS INDÍGENAS (1698-1772)
A Coroa Portuguesa enfrentava uma grande crise econômica, causada principalmente pelos holandeses, que após serem expulsos do Brasil iniciaram uma forte concorrência na produção de açúcar. No século XVII, a produção de açúcar, realizada principalmente no litoral do Nordeste, era a principal atividade econômica do Brasil Colonial, consequentemente, importante fonte de receita para o reino português. Visando enfrentar a concorrência dos holandeses, a Coroa Portuguesa determinou que a faixa litorânea fosse destinada exclusivamente à plantação de cana-de-açúcar, forçando os criadores de gado a se deslocaram para o inexplorado e hostil interior. Em 27 de julho de 1698, Teodósio de Oliveira Ledo, Capitão-mor das Cercanias do Piranhas, Piancó e Cariris, chega ao lugar denominada Piancó, e depois de provocar um massacre na aldeia dos índios da tribo Pegas, dar início a colonização portuguesa do lugar, que foi denominado Arraial de Nossa Senhora do Bom Sucesso do Piancó.
Em julho de 1709, temos o registro do primeiro sinal de resistência dos nativos, através de uma carta do Capitão-mor Teodósio de Oliveira Ledo ao Governador da Capitania de Pernambuco. Na missiva, o Capitão-mor informava que nos sertões do Piancó havia duas tribos da nação de Tapuia, chamados Pega e Corema, que inquietavam os moradores, e que os Pegas possuíam “cabo e mais de mil e tantos arcos”, o que dificultava a colonização e instalação de novos currais. Neste mesmo ano, o Rei de Portugal escreve ao governador da Capitania de Paraíba, determinando que mandasse o capitão-mor dos Sertões Teodósio de Oliveira Ledo, juntamente com os índios que tinha feito cativos, reprimir os índios hostis, que estavam provocando prejuízos na ribeira.
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 Igreja de Nossa Senhora do Rosário, no município de Pombal/PB, foi construída entre os anos de 1721 e 1723
A organização político-administrava do Arraial do Piancó tem início a partir de 1711, quando da sua elevação à categoria de Freguesia. A partir de então, a Freguesia de Nossa Senhora do Bom Sucesso do Piancó passa a ser governada por uma junta, dispondo de juiz ordinário, auxiliado por um escrivão/tabelião, ao tempo em que torna-se o centro da administração de toda a região, cujo domínio territorial se estendia desde o sertão do Cariri-Velho até a vila do Icó e sertão do Jaguaribe, na capitania do Ceará; aos limites do sertão do Pajeú, na de Pernambuco; até Jucurutu, na capitania do Rio Grande do Norte, abrangendo os sertões das ribeiras dos rios Piancó, Piranhas, do Peixe, Apodi, Seridó e Espinhara. Em 1721, é criado o Curato de Nossa Senhora do Bom Sucesso, com sede no Arraial do Piancó, ocasião em que e criado a criada Irmandade de Nossa Senhora do Bom Sucesso., que se incumbirá da Construção da Igreja Matriz. Em 04 de fevereiro do mesmo ano, o capitão-mor José Diniz Maciel assina o contrato destinado a Construção da Igreja de Nossa Senhora do Bom Sucesso, cuja obra é concluída em 1724.
Em 21 de setembro de 1725, o Governador da Capitania da Paraíba do Norte, João de Abreu Castelo Branco, por ordem do Rei de Portugal, D. João V, divide as Cercanias do Piranhas, do Piancó e dos Cariris em duas jurisdições. O Capitão-mor Teodósio de Oliveira Ledo fica responsável apenas pelas Cercanias do dos Cariris, enquanto que o Sargento-mor João de Miranda é promovido ao cargo de Capitão-mor das Cercanias do Piranhas e Piancó. O Capitão-mor João de Miranda, pessoa de extrema confiança da Casa da Torre dos D’Ávilas, havia participado como alferes da expedição comandada pelo Capitão-mor Teodósio de Oliveira Ledo em 27 de julho de 1698. A gestão do Capitão-mor João de Miranda, que se estendeu-se de 1725 até 1733, foi marcada por uma intensa onda de conflitos com os nativos. Alegando que as aldeias dos Pegas, Panatis, Icós e Coremas estavam mal situadas entre fazendas de gado, em 1730 ele propôs ao Bispo de Pernambuco, Frei José Fialho, as transferências para locais onde estas populações indígenas pudessem ser melhor assistidas e doutrinadas ao serviço de Deus.
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Tapuias
Os índios das tribos Pegas, Coremas, Panatis e Icozinhos foram os primeiros a sofrerem o impacto direto do processo de desterritorialização, principalmente por suas aldeias estarem situadas mais próximas à Freguesia do Piancó, em locais com disponibilidade de agua, terras férteis, propícias para implantação de novos currais. Após, o fatídico ataque ocorrido em 1698, os Pegas sobreviventes haviam se aldeado na ribeira do Piranhas, mais ao norte da região de onde foram enxotados; a aldeia dos Panatis se localizava ao sul, no lugar denominado Casa Forte, nas margens do Piancó, apenas meia légua da povoação, nome até hoje conservado; os Coremas também estavam estabelecidos nas margens do Piancó, no lugar denominado Boqueirão, onde hoje estar localizado o açude de Coremas; a aldeia dos Icós ficava nas margens do Rio do Peixe, entre terras de propriedade do poderoso Capitão-mor Jose Gomes de Sá, onde hoje estão localizados os municípios paraibanos de Sousa e Aparecida.
Em 1733, João de Miranda é sucedido pelo Capitão-mor Jose Gomes de Sá, abastado criador de gado, residente na Fazenda de Acauã, situada às margens do Rio do Peixe. Foi ele o construtor da Igreja e Casa da Grande, importante conjunto arquitetônico no estilo barroco, localizado no hoje município de Aparecida, considerado Patrimônio Arquitetônico e histórico do Estado da Paraíba. Juntamente com o Padre Bento Freire, ele é um dos fundadores do Povoado de Nossa Senhora dos Remédios do Jardim do Rio do Peixe, que mais tarde veio se transformar na cidade de Sousa/PB. Assim como seu antecessor, o Capitão-mor João de Miranda também impreendeu fortes pressões sobre os indígenas, pode-se afirmar, até com maior rigidez. A luta pela desapropriação das terras indígenas foi objetivo comum entre os dois mandatários, muito embora com motivações aparentemente diferentes. Enquanto João de Miranda, militar de carreira, buscava atender a satisfação da Coroa Portuguesa, José Gomes de Sá, igualmente português, buscava a tomada das terras indígenas em benefício próprio, com vistas a expansão das suas ambições pecuaristas.
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Este belo conjunto arquitetônico no estilo barroco encontra-se na Fazenda Acauã, município de Aparecida/PB. Foi construído pelo Capitão-mor José Gomes de Sousa, então proprietário e morador da Fazenda. 
Findado o seu triênio, em 1733, José Gomes de Sá repassou o cargo para o Capitão-mor Manoel Rabello de Figueiredo até 1740. Morador do Sítio São Pedro, na ribeira do Piancó, em 1738, ele reconheceu o direto de alforria dos escravos Bento Manoel e Pedro, em cumprimento ao que ordenou o falecido Bento Barreiro havia lavrado em seu testamento. Em 1740, foi o próprio Capitão-mor que alforriou a mulatinha Joana, filha de sua escrava Tereza, o que suscitou rumores de que o ele seria o pai da criança.
Diante dos constantes conflitos com os colonizadores, a situação dos Pegas descaminho para o insuportável, ao ponto de recorrerem à Coroa Portuguesa, em busca de um lugar onde pudessem viver em lugar tranquilos, criar seus animais e cultivar suas lavoras, longe da convivência com os brancos. Finalmente, em 1738 lhes foi concedida uma data de Sesmaria na Serra do Quixacó, hoje denominada Serra João do Vale, localizada entre as regiões de Catolé do Rocha/PB e Oeste Potiguar. Foi a terceira concessão de sesmaria a indígenas ocorrida na Capitania da Paraíba, precedido por doações aos Cariris, em 1714, e aos Xucurus, em 1718;
Não foi possível que se inicia em 1740, quando termina o mandato do Capitão-mor Manoel Rabello de Figueiredo que vai até 1746, quando, por infelicidades de todas as tribos, Jose Gomes de Sá retorna ao cargo de Capitão-mor, permanecendo até 1757.
O Capitão-mor Jose Gomes de Sousa mandou prender os índios da tribo Panati, que, em fileiras e amarrados pelo pescoço, foram conduzido até a igreja matriz, onde foram submetidos a humilhações, fome e sede. Depois foram levados a propriedade do Capitão-mor, onde realizaram serviços pesados, sem nenhum tipo de pagamento. O chefe da tribo denunciou ao Governador da Capitania de Pernambuco, a qual a Paraíba era subordinada, que um grupo de colonos, liderados pelo Capitão-mor José Gomes de Sá, estavam disseminando calúnias contra os indígenas, acusando-os de roubo de gado, com o propósito de expulsá-los do lugar e se apossar de suas terras. O Governador de Pernambuco ordenou que os Panatis permanecessem em suas terras. Em razão disso, os moradores planejaram uma vingança contra o líder, que em visita a povoação, foi provocado, depois agredido pelo por um homem de nome Teodósio Alves, que após aplicar-lhe “muitas bofetadas e pancadas”, mandou prendê-lo. Sem atendimento, o líder veio a falecer dentro da cadeia. Entretanto, laudo pericial, emitido pelas autoridades locais, indicou suicídio como o motivo do óbito. Dois anos depois da morte do líder Panati, que aconteceu em 1753, o índio Antônio Dias Cuió, da mesma tribo, foi barbaramente assassinado a tiros, sem motivos aparentes, mesmo assim, o juiz mandou soltar os acusados. Por determinação do Conselho Ultramarino, o ouvidor-geral Domingos Monteiro da Rocha instaurou processo no qual, três anos depois, foram responsabilizados o tenente Antônio da Silva, pela morte líder dos índios Panatis, e o morador Manoel Alves, pelo assassinato do índio Antônio Dias.
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Rodrigo Honorato, Manoel Severo, José Tavares e Ivanildo Silveira 
em dia de Cariri Cangaço
Em 1757, Francisco de Oliveira Ledo, filho do Capitão-mor Teodósio de Oliveira Ledo, que havia sucedido seu pai no Cargo de Capitão-mor das Cercanias dos Cariris, chega a Freguesia do Piancó, para comandar as Cercanias de Piranhas e Piancó, um território que há muito precisava de um desbravador experiente, por ser maior, menos explorados e considerado mais hostil. O novo Capitão-mor buscou uma relação amistosa com os nativos, principalmente com os Pegas, que tinham como missionário o Padre Antonio Saraiva da Silva, velho amigo da família. Em 1740, os Paiacus haviam expulsado os Pegas da Serra Quixacó, agora sua aldeia encontrava-se instalada na Serra Sepilhada, vizinha as terras do Padre Antonio Saraiva.
Como grande desbravador que o era, o Capitão-mor Francisco de Oliveira Ledo se destacou na luta em defesa preservação das fronteiras da a área de domínio. Em 1756, por questões fundiárias na chapada do Apodi, entrou em conflito com Joao Bezerra do Vale, influente sesmeiro muito ligado aos Govenadores das Capitanias da Paraíba e Rio Grande do Norte. O capitão-mor do Piancó comando uma expedição à área conflituoso, reforçada pelas milícias dos seus primos Capitão Francisco da Rocha Oliveira e o Capitão Manoel da Cruz Oliveira, proprietários das datas de fazendas Catolé e Brejo, que mais tarde deram origem as cidades paraibanas de Catolé do Rocha e Brejo do Cruz. Esta pendenga foi o estopim de um litígio territorial entre a Paraíba e o Rio Grande Norte que se prolongou até 1835.
O Capitão-mor Francisco de Oliveira Ledo exerceu o cargo até 1770, quando é afastado pelo ouvidor, provavelmente pior cometer alguma falha. Neste mesmo ano, o capitão-mor, Francisco de Oliveira Ledo, fora afastado pelo ouvidor por ter cometido algum tipo de crime. O capitão-mor do Rio do Peixe João Dantas Rothea reclama ao Governador de Pernambuco que quem dever assumir o posto é o capitão Antônio Gonçalves Reis Lisboa e não o coronel da cavalaria, embora este tenha maior patente, pois o capitão não é subalterno a oficial nenhum, já que pertence ao regime do povo.
Em 4 de maio de 1772, por determinação da Coroa Portuguesa, a Freguesia de Nossa Senhora do Bom Sucesso do Piancó e elevada a condição de vila, recebendo o nome de Vila Nova de Pombal. Francisco de Arruda Câmara, morador da Fazenda Várzea da Tapuia, localizada na Serra de Patu, deste termo, é escolhido o Capitão-mor para a Administrar a vila e toda suas cercanias, dando início a uma nova fase da história da organização político-administrava do lugar.

Jose Tavares de Araújo Neto
Pesquisador, Pombal - PB

O Fogo das Guaribas e o triste fim de Nêgo Marrocos Por:Bruno Yacub

Herlon Fernandes e Bruno Yacub

Em 1927, Macapá, hoje Jati, era distrito de Jardim, que ainda englobava Baixio do Couro, hoje Penaforte. Assim, Jardim era um município de extensa área territorial. Havia em Macapá um jovem cobrador de impostos da renda estadual, muito popular, liderança emergente no Município, já incômodo para as velhas raposas políticas de Jardim: seu nome era Antônio Marrocos de Carvalho.
As circunstancias do assassinato do líder político Antônio Marrocos de Carvalho caracterizavam, a exemplo de tantas outras ocorrências funestas, a época sombria do apogeu do coronelismo. A morte comovente desse cidadão, concomitante à chacina dos homens do Salvaterra e o cerco a Chico Chicote, mostrava como o regime de dominação dos poderosos sul-cearenses, nos derradeiros anos da década de 1920, prosseguia desenvolto, alardeando o prestígio soberbo do bacamarte, que se disparava pelo banditismo político, da polícia e o banditismo dos homens do cangaço.
Àquele tempo, o mais torvo plano foi concertado entre potentados do extremo sul cearense e a polícia militar, para a eliminação de vidas humanas. O desgraçado projeto resultaria, realmente, em várias mortes. E a polícia militar far-se-ia, marcadamente, responsável por um dos capítulos mais sombrios da sua crônica e escreveria uma das páginas mais negras da história do banditismo nos sertões nordestinos.

Os dias eram para o Ceará, principalmente para o Cariri, de perseguições políticas, insegurança e intranquilidade.


Antônio Marrocos


Antônio Marrocos foi surpreendido, certa noite, pela visita de Lampião, levado à sua casa por Manuel (Né) Pereira, que exercia cargo de subdelegado daquele povoado. Como é sabido, Lampião era ligado à família Pereira por forte amizade. Fiel à tradição sertaneja e por ser parente e amigo de Né Pereira, Marrocos recebeu a visita com bastante cordialidade. A partir de então, tendo fracassado em duas emboscadas contra Marrocos, no caminho entre Macapá e Jardim, os seus adversários políticos denunciaram-no ao Chefe de Polícia como coiteiro de Lampião, razão pela qual ele passou a ser fortemente perseguido.

Meses depois, novamente à meia-noite, Né Pereira bateu à porta de Marrocos. Ao abri-la, verificou a presença de Virgulino. Sem convidá-los a entrar, Marrocos explicou-lhes o que lhe vinha ocorrendo. A seguir, dirigindo-se a Lampião, sugeriu-lhe que, embora contasse com sua atenção, não voltasse a visitá-lo, afim de não confirmar as acusações que lhe estavam sendo feitas pelos chefes situacionistas de Jardim.
Em resposta, Lampião pediu-lhe que telegrafasse ao Chefe de Polícia comunicando que ele, naquela noite, passava em Macapá com destino ao Cariri. Tal sugestão foi ratificada na manhã do dia seguinte, quando Marrocos, dirigindo-se a Brejo dos Santos (atual Brejo Santo), de onde enviaria o despacho, passou pelo grupo estacionado no local Barra-de-Aço, a 01 km de Macapá.

Apesar de tudo isso, quando o tenente José Bezerra chegou a Macapá, no rumo de Brejo dos Santos, foi à casa de Antônio Marrocos e sugeriu-lhe que, para desmentir as acusações de que estava sendo alvo, deveria unir-se à sua tropa na perseguição ao bando de Virgulino.

Logo de início, alegando de tratar-se de uma calúnia já desmentida, Marrocos recusou a sugestão. Mas, após prolongada polêmica, para não demonstrar covardia, ele resolveu incorporar-se à volante. Com isso, no dia 28 de janeiro de 1927, procedente de Jardim, chegava a Brejo dos Santos uma volante policial sob o comando do Primeiro-Tenente José Gonçalves Bezerra, com o objetivo – segundo era comentado e confirmado pelo citado oficial – de perseguir e combater o grupo de Lampião.
Reafirmando sua falsa missão de dar cabo ao Rei do Cangaço, o tenente José Gonçalves Bezerra saiu de Brejo dos Santos na madrugada de terça-feira, 1° de fevereiro de 1927, comandando uma volante com 70 praças, como auxiliar o Sargento-Tenente Veríssimo Alves Gondim e como guia e agregado à tropa, voluntariamente, João Gomes de Lucena, sobrinho de Chico Chicote, filho do então prefeito de Milagres e ex-prefeito de Brejo dos Santos, coronel Manoel Inácio de Lucena e sobrinho do então prefeito de Brejo dos Santos, o coronel Joaquim Inácio de Lucena, conhecido como Quinco Chicote, além de cabras do coronel Nozinho Cardoso.
Logo após a chacina dos homens do Salvaterra e a fim de não provocar reação em Guaribas e concluir o plano elaborado para eliminar Antônio Marrocos, o tenente José Bezerra, antes de lá chegar, manteve longa conversa com Marrocos, manifestando a certa altura, o desejo de conhecer o mencionado sítio e travar relações amistosas com seu proprietário. A seguir, referindo-se à sua missão e expondo razões de ordem tática, pediu-lhe que fizesse um desenho da casa-grande, das habitações vizinhas e das elevações e depressões do terreno em seu redor. E para que Marrocos não pusesse em dúvida suas intenções, afirmou-lhe que deixaria a tropa distante do sítio e somente ele, o tenente Veríssimo, o sargento Antônio Gouveia (Antônio Pereira de Lima) e o corneteiro Louro Galo Velho iriam à residência de Chico Chicote, tendo à frente o próprio Marrocos, a fim de não haver desconfiança e possível reação à sua presença ali.


Ruínas da Casa de Chico Chicote


Amigo de Chico Chicote, de quem havia recebido, uma semana antes, um rifle de presente, que conduzia a tiracolo, Marrocos traçou a lápis, num pedaço de papel de embrulho, um ligeiro croqui de Guaribas. A casa-grande da fazenda Guaribas, município de Porteiras, era uma verdadeira fortaleza, aboletada numa dobra da Serra do Araripe, ao lado do povoado Simão, e meio a uma plantação de café, com muitas fruteiras. As paredes tinham quase meio metro de largura, feitas de tijolos dobrados, com buracos abertos por todos os lados (chamados “torneiras”), por onde os atiradores poderiam mirar e fulminar eventuais invasores. Com efeito, pelas 07 horas da manhã, ao aproximar-se do sítio, a tropa fez alto e Zé Bezerra pôs em execução o que havia planejado com o seu colega Veríssimo (Esses detalhes foram dados pelo cabo Pedro Alves à viúva de Marrocos, Mundinha (Raimunda) Piancó, bem como outros pormenores sobre o seu fuzilamento).Percebida a aproximação do reduzido grupo, umas das mulheres que faziam colheita de café, naturalmente para esclarecer Chico Chicote e outras pessoas que se achavam com ele, disse em voz alta: É o Nêgo Marrocos!

Imediatamente, o tenente Veríssimo disparou um tiro de revolver nas costas de Antônio Marrocos, que tombou de frente, abaixo de um pé-de-café, atingido no pulmão direito, vindo a falecer três horas depois. 

Naquele momento o segundo “acerto” da empreitada seria efetivado (o primeiro acerto foi a chacina de Antônio Gomes Grangeiro, seu sobrinho João Grangeiro (Louro Grangeiro) e dois moradores, Aprígio Temóteo e Barros e Raimundo Madeiro Barros (Mundeiro). Quando foram prepararo sepultamento de Antônio Marrocos, Mundinha Piancó, viúva de Marrocos estranhou que, embora ele estivesse de frente com a casa-grande das Guaribas, o tiro que o vitimou entrou pelas costas.

Monumento a Antonio Gomes Granjeiro


Confirmando as suspeitas sobre a causa de fuzilamento, o coronel Francisco de Sá Roriz, a Mundinha, ao visita-la em Macapá, que os situacionistas de Jardim haviam subornado Veríssimo com Cinco Contos de Réis para eliminar Marrocos. Para termos uma noção hipotética, 01 Conto de Réis (Mil Mirréis), equivale hoje a R$ 123.000,00 (cento e vinte e três mil reais).

Mundinha Piancó ficou viúva aos 26 anos e com 06 filhos para criar. Faleceu aos 92 anos no estado de São Paulo. A perversidade insana dos velhacos tenentes José Gonçalves Bezerra e Veríssimo Alves Gondim estremunharam, mais ainda, a aversão popular à polícia. O tempo, contudo, se encarregaria de revidar, nas pessoas deles, as mortes bárbaras de Antônio Marrocos, Antônio Grangeiro, Chico Chicote e dos demais que foram trucidados covardemente na hecatombe do começo de fevereiro de 1927.

Decorrido um decênio, na verdade, aos 10 de maio de 1937, José Bezerra, já com a patente de Capitão, seria trucidado, no Cariri ou, mais precisamente no sítio Conceição, próximo às comunidades Mata dos Cavalos e Curral do Meio, no município de Crato, por ocasião de luta com fanáticos remanescentes do beato José Lourenço Gomes da Silva, dentre os quais morreram alguns. A golpes de facões, roçadeiras, foices, cacetes e a tiros de espingardas e pistolas, tombaram o sanguinário oficial, um filho (1º Sargento Anacleto Gonçalves Bezerra), um genro e mais dois policiais subalternos. Dentre os comandados, outros saíram feridos. Mesmo assim, à morte do Capitão seguiu-se o bombardeio na Serra do Araripe, autorizado pelo Ministro da Guerra, General Eurico Gaspar Dutra. Entre 700 a 1.000 pessoas foram mortas. E, assim, se findava um dos maiores bandidos-autoridades de que já se teve notícia no Ceará.



Um lustro antes do capitão José Bezerra, já havia embarcado seu comparsa, tenente Veríssimo Alves Gondim. Em Lavras da Mangabeira, metera-se o tenente Veríssimo a afrontar e humilhar o coronel Raimundo Augusto Lima, filho do coronel Gustavo Augusto Lima e neto de Fideralina Augusto Lima, destronado pela Revolução de 30. Lá chegara, inclusive, com ordem de, a todo custo, conduzi-lo, algemado, a Fortaleza. A vingança, porém, não tardaria muito.

Com efeito, aos 26 de junho de 1932, o oficial era alvejado, nas costas, pela arma do coronel, tal como fizera ele próprio a Antônio Marrocos, minutos antes do Fogo das Guaribas, havia cinco anos. Pôde, ainda, o militar moribundo balbuciar: “Que homem falso!” Estas palavras doridas, que tão bem se ajustavam a seu autor, o malogrado tenente Veríssimo, muito antes, poderiam ter sido articuladas pelo desventurado Marrocos, também, no lance derradeiro. E quem sabe se as não teriam pronunciado? Quem sabe?
Bastante comentado, na época, o assassinato do tenente Veríssimo Alves Gondim. Sob os céus de Lavras da Mangabeira, todavia, nada de novo acontecera, senão a repetição da história.
Bruno Yacub Sampaio Cabral
A Munganga Promoção Cultural

O Brejo é Isso!

Naquela Mesa está faltando Paulo Mariano Por:Emmanuel Arruda

"Aquela mesa tá faltando ele e a saudade dele tá doendo em mim"
A mesa da comunhão da vida, da amizade ou do conhecimento não será a mesma sem Paulo Mariano. Quanta falta nos faz. Que lacuna imensa ele nos deixa. Não foi a toa que escolhi para título desse texto a letra da música de Sérgio Bittencourt imortalizada na voz de Nelson Gonçalves, "Naquela mesa". É assim, igual a música, sentado a mesa, que tenho as melhores lembranças dele e que ouvi e aprendi sobre assuntos diversos.
Podia ser a mesa de sua casa, ao som dos pássaros, comendo o doce de leite carrasquento ou o "doce de Emmanuel", como ele chamava e anotava na lista da feira. Eram sempre momentos de alegria e, fosse onde fosse, sua energia preenchia o ambiente.
Podia ser uma mesa de bar onde ele se tornava o centro das atenções e soltava piadas, gracejos e lorotas, além de muitas histórias. Fazia-nos rir e enchia tudo de alegria. Não importava a qualidade do lugar, tira gosto ou bebida. Valia a pena ouvi-lo.
Paulo Mariano e Emmanuel Arruda, em primeiro plano
Podia ser uma mesa de palestra ou lançamento de um livro. Paulo tinha o dom da palavra e o verbo fluía fácil. Dono de uma memória impressionante. Lembrava tudo com precisão. Defendia como ninguém a cultura e a história de sua terra natal, Princesa, assunto recorrente em 90% das conversas. A cidade perdeu seu defensor mais apaixonado. Um homem que se tornou grande não pelo que tinha ou cargos que ocupou. Ele era grande por ter construído, fora do padrão, sua própria história, sua coerência, sua honestidade e o amor com que defendia as causas que abraçava.
Conselheiro Cariri Cangaço Narciso Dias passa às mãos de Paulo Mariano o Diploma do Cariri Cangaço, em Princesa Isabel no Cariri Cangaço Princesa 2015
Podia ser uma mesa de restaurante, igual a foto que ilustra este texto. Feito no Mercado da Torre. Nosso ponto de encontro aos sábados. Local de compartilhar histórias e estórias. Sempre sob a maestria de Paulo, nosso último comunista.
De agora em diante toda mesa terá um lugar vazio. Sua ausência será sentida e sua história sempre lembrada. Cada amigo ou princesense ao sentar a mesa, seja do bar, seja de casa ou de um evento cultural vai lembrar Paulo Mariano e sua vida dedicada a seu torrão natal.
Hoje aquela mesa está faltando ele e, para não doer tanto, vou imaginar que esteja em outra entre as que citei, espalhando suas histórias e defendendo seus ideais.Foi só um desencontro!
Emmanuel Arruda, Princesa Isabel-PB
08 de Dezembro de 2018; Conselheiro Cariri Cangaço

Aldo Lopes e Paulo Mariano em Princesa Isabel

O pesquisador, historiador, memorialista e escritor Paulo Mariano, filho do município de Princesa Isabel, faleceu na madrugada do último dia 21 de novembro de 2018.
NOTA DE PESAR DA PREFEITURA DE PRINCESA ISABEL
PREFEITURA DECRETA LUTO OFICIAL DE 3 DIAS EM RAZÃO DO FALECIMENTO DE PAULO MARIANO
Responsável pela visão social e formação política de muitos jovens princesenses que sempre acompanharam os seus discursos revolucionários, Paulo Mariano foi pioneiro em contar a história de Princesa quando, ainda em 1991, lançou o livro “Princesa antes e depois de 30”, destrinchando fatos que ocorreram antes e depois da famosa revolução que colocou Princesa nas páginas de jornais e revistas do Brasil e do mundo.Pai exemplar, homem íntegro, ético, militante e lutador incansável, Paulo sempre se preocupou com a humanidade, sendo solidário, principalmente, com aqueles que se encontravam à margem, excluídos, que não eram enxergados por quase ninguém. Nascido em 04 de março de 1934, filho de um pequeno proprietário rural e de uma dona de casa, Joaquim Mariano e Lindaura Cordeiro Florentino, Paulo Mariano cursou o primário na escola da professora Maria Alice Maia e no colégio Monte Carmelo, em Princesa, e no Cristo Rei, em Pesqueira-PE. Completou a Instrução Básica Aeroterrestre qualificando-se Paraquedista Militar no Rio de Janeiro. Escreveu crônicas e contos em jornais e revistas da Paraíba. Publicou, em 1994, o livro de contos “Achados de Perdição” e participou da Revista da Literatura Brasileira LB-39, editada em São Paulo, com o conto “A Fugitiva”.Princesa perde hoje um de seus filhos mais ilustres, mas o seu nome se perpetuará junto com a história de Princesa, pois foi ele um grande e excelente colaborador da disseminação de nossa história. Um memorialista que não sairá de nossa memória jamais.
A prefeitura decretou luto oficial de 03 dias. 

A Explosiva e Elucidativa Entrevista do Cangaceiro Raimundo Morais Por:José Tavares de Araujo Neto


Preso em Missão Velha/CE e recambiado para a cadeia da capital cearense, em agosto de 1928, o cangaceiro Raimundo Morais relatou sua participação em marcantes fatos da história do cangaço, citando importantes companheiros de luta, a exemplo de Sebastião (Sinhô) Pereira, Luiz Padre e Lampião e a relação de importantes figurões da política cearense, paraibana e pernambucana, como o major José Ignácio, do Barro; o coronel José Pereira, de Princesa; Yoyô Maroto (Crispim Pereira de Araújo), de Belmonte; dentre outros.
A reportagem foi publicada, em 01 de setembro de 1928, no Jornal “O Ceará”, de Fortaleza. Abaixo transcrevo a matéria integralmente, alterando apenas a ortografia da época para a dos dias atuais.
“Entre os cangaceiros que se encontram na cadeia pública desta capital, presos pela polícia cearense, depois que o dr. Mozart Catunda Gondim assumiu a direção da Secretaria da Polícia e Segurança Pública, figura Raimundo Maximiano de Morais, que conta 28 anos de idade, de cor morena, baixo, natural de Brejo dos Santos. Gaba-se Raimundo Maximiano de Morais de ter vivido doze anos na espingarda no meio dos mais temíveis cangaceiros, como José Ignácio, do Barro; Sebastião Pereira, Lampião, Luiz Padre, Gitirana e muitos outros. Inicialmente disse-nos Morais que fosse contar toda a sua vida de cangaceiro, levaria muitos dias.



Por isso, concordou conosco em fazer uma narrativa completa, mas desprezando certos pormenores que julga sem importância. Viveu em Brejo do Cruz até 1914, em companha de seu pai José Maximiano de Morais, a quem ajudava numa loja de que o mesmo era proprietário. No fim daquele ano, quando contava apenas 14 anos de idade, abandonou a casa do seu pai a fim de ganhar a vida sozinho, passando a trabalhar para Chico Chicote, político influente, que pouco dias depois convidou-o a tomar parte do assalto armado a Porteiras. Com extraordinária satisfação, Morais aceitou o convite e seguiu no meio de numeroso grupo para o ataque àquela vila, que caiu em poder de Chico Chicote. Durante a luta, Morais portou-se com tal valentia, que passou a ser alvo de elogios do chefe do bando e dos seus companheiros, o que encheu de orgulho e o animou a prosseguir na vida do cangaço. Pouco depois dessa façanha, quando se encontrava no sitio Guaribas, de propriedade de Chico Chicote, tomou, por duas vezes, parte na defesa daquela propriedade, atacada por forças do governo.
Serenadas as cousas em Guaribas, foram dispensados os serviços de todos os cabras, tendo Morais seguido com diversos deles com destino a Brejo dos Santos, onde foram cercados por uma numerosa força policial, que conseguiu capturar um. Morais conseguiu não ser apanhado e fugiu para São José de Piranhas, Paraíba, onde, não sendo conhecido, pôde empregar-se como lavrador no sítio Picadas, de propriedade do Major Andrade. Passou seis meses trabalhando naquele sítio, mas tinha saudade da vida do cangaço, e, por isso, voltou a Brejo dos Santos, sendo, logo após a sua chegada ali, cercado por uma força policial. Graças ao auxilio que lhe prestou um seu irmão, pôde fugir, indo ter ao sítio Barro, de propriedade do coronel José Ignácio, homem rico, de Milagres. Durante um ano, pouco mais ou menos, esteve trabalhando como agricultor naquele sitio, mas, em certo dia, José Ignácio chamou-o, dando-lhe um rifle e farta munição para, em companhia de outros “rapazes”, ir fazer um serviço.


Fazenda do Major Zé Inácio, no Barro
Tratava-se nada mais, nada menos, de liquidar João Flandeiro, inimigo de José Ignácio. O grupo era chefiado por Sebastião Pereira e, entre outros cangaceiros, contava Tiburtino Ignácio, Ponto Fino, Deodato, Patrício, João de Genoveva e José Pedro. Cerca de 5 horas da manhã, o grupo cercou o sítio Pitombeiras, distante uma légua do Barro, propriedade e residência de João Flandeiro, começando, então, violento tiroteio, que durou até as 9 horas da manhã, quando a família do atacado, obteve permissão para sair de casa. João Flandeiro, apesar de ferido, resistiu ainda 15 minutos de fogo, mas, afinal, abriu a porta para entregar-se, sendo crivado de balas. Imediatamente, os assaltantes atearam fogo na propriedade. Terminado o “serviço”, o grupo voltou ao sítio Barro, ficando José Ignácio muito satisfeito quando soube que o seu inimigo tinha morrido e que a sua propriedade fora incendiada.
Dois meses mais tarde, fazendo parte de um grupo de 12 homens, em que figuravam Luiz Padre, Sebastião Pereira, Mourão, Gitirana, José Dedé, João Dedé, Vicente Marinho, José Marinho e Cambirimba, dirigiu-se Morais para o Pajeú, em Pernambuco, onde morava uma filha de José Ignácio. Ali, no povoado Queixadas, mataram, depois de renhida luta, o Antonio da Imburana, que havia assassinado Manoel Pereira Dadir, irmão de Sebastião Pereira. Cometido esse crime e sendo perseguido pela polícia pernambucana, o grupo voltou ara o sitio Barro, fazendo, em caminho, vários saques.


Rodrigo Honorato, Manoel Severo, José Tavares e Ivanildo Silveira em Noite de 
Cariri Cangaço em Exu, 2017

Depois de alguns meses de repouso, Morais entrou num grupo de 45 homens, organizado por José Ignácio e do qual fazia parte Lampião, para atacar o padre Lacerda, Em Coité. Pelas 9 horas da manhã o numeroso bando, que se encontrava bem armado e municiado, atacou a vila de Coité, ocupando, no primeiro embate, três casas. A população ofereceu heroica resistência, que durou de 9 horas da manhã a 6 e meia da tarde, quando os assaltantes foram obrigados a recuar, indo até a fazenda do coronel Antonio Cartaxo, em Maurity, o qual, sabendo da aproximação dos bandoleiros, abandonou a sua propriedade, que foi saqueada e depredada.
De acordo com as recomendações de José Ignácio, o grupo, ao retirar-se de Coité, deveria atacar Milagres, mas achando-se essa localidade bem guarnecida. Lampião tentou atrair a atenção da força policial para fora daquele município, para o que fingiu a fazenda Queimada, próximo a Maurity. No momento em que efetuava o assalto a Queimadas, o bando foi surpreendido por uma força de 12 praças, comandada pelo Sargento Gouveia, que recuou três vezes. No último ataque do sargento Gouveia, o grupo decidiu retira-se em direção a Conceição de Piancó. Durante a luta, morreram dois soldados e os cangaceiros perderam “Pitombeira”, ficando ferido o bandido “Lavandeira”, que foi levado para a casa do velho “Baptista dos Valões”, tio de Sebastião Pereira e de Luiz Pedro. De Conceição do Piancó, os bandoleiros dirigiram-se para o povoado Cristóvão, do município de Belmonte, em Pernambuco, onde foram homiziados por Yoyô Maroto, que lhes forneceu munição.


Sinho Pereira (sentado) e Luiz Padre
Após esses acontecimentos, voltaram todos ao “Barro”, de José Ignácio, que mostrou a Morais um telegrama que lhe fora enviado pelo deputado Floro Bartolomeu, aconselhando-o a abandonar a vida de cangaço, visto como pretendia fazê-lo prefeito de Milagres, Em virtude deste conselho, José Ignácio resolveu dispensar o grupo, mandando-o para o Pajeú das Flores.
Os bandoleiros não quiseram ir para aquela localidade pernambucana, e rumaram a Patos e dali a Vila Bela, onde se acoitaram no sitio Abóboras, de propriedade do coronel Marçal Diniz. Numa dessas viagens, o grupo dividiu-se e seis homens dirigiram-se a Olho D’água, tendo um encontro com a força cearense comandada pelo capitão José de Santos Carneiro. Os seis cangaceiros perderam as montarias e refugiaram-se em Patos, onde se encontrava Lampião.
Desse encontro nasceu o receio de que a força cearense atacasse Patos, razão porque o dr. Marcolino Diniz, que protegia os bandoleiros, pediu auxílio do coronel José Pereira, de Princesa, que lhe remeteu mais de 100 homens armados. Enquanto enviava esse reforço de cabras, o coronel José Pereira foi ao encontro da força cearense, avistando-se com a mesma nas proximidades de Patos. O coronel José Pereira procurou convencer ao capitão Carneiro que não havia cangaceiros naquele município, mas o aludido oficial, com cerca de 80 praças, foi até Patos, não encontrando, ali, nenhum bandoleiro, pois, de acordo com os planos do coronel José Pereira, foram escondidos todos os “rapazes”. Foi isso uma felicidade para a força cearense, porquanto estava combinado se tentasse a mesma efetuar qualquer prisão seria repelida pelos cangaceiros, em número, então, superior a 200. No dia imediato, o capitão Carneiro se retirou de Patos. Lampião, à frente de 30 homens, dirigiu-se para o Pajeú das Flores, não sendo acompanhado de Morais que, com dois bandoleiros, voltou ao Ceará.
Durante dois anos, Morais viveu como bodegueiro, mas, vez por outra, realizava, “expedições” de cangaço por conta própria. Numa dessas “expedições”, chefiou um grupo composto de Antonio Padeiro, Lavandeira e dos Mateus, com os quais atacou José Amaro, no município de Aurora, saqueando totalmente a casa deste. Esta façanha custou-lhe nova perseguição da polícia, o que determinou sua fuga para o Pajeú, onde encontrou a proteção de Yoyô Maroto. Este, pouco meses depois, recebia Lampião em sua fazenda, passando Morais a “agir”, juntamente com o temível chefe bandoleiro.



Retirando-se Lampião, Morais não o quis seguir, e, com Lavandeira, passou a roubar entre Cristóvão, Belmonte e Poço dos Paus. Depois de várias peripécias, Morais foi acusado da morte de Vicente Quilarino, pelo que teve de fugir, vindo para Gameleiras, no Ceará, onde foi contratado para, em companhia dos Marcelinos, perseguir Horácio Novaes. Demorou em Gameleira, mas, ali, se viu perseguido por Júlio Pereira, por não querer trabalhar com ele em furtos de gado. Júlio Pereira, com diversas homens, atacou-o no dia 12 de maio de 1926, mas não conseguiu matá-lo.
Morais foi para Olho D’água do Santo, em Brejo dos Santos, onde pediu a proteção do coronel Joaquim de Lucena, conhecido por Quinca Chicote, prefeito municipal, que prometeu acoitá-lo, dando-lhe uma casa. Depois de pouco dias, o mesmo coronel Quina Chicote mandou mata-lo por um grupo de que faziam parre João Chicote, Antonio e Pedro Granjeiro, Manoel Salgueiro e Ferrugem. Morais entrincheirou-se em casa e resistiu ao ataque desde 10 horas da noite até 8 e meia da manhã seguinte, quando recebeu duas balas na perna direita.
Além desses ferimentos, a sua munição acabou-se, não podendo mais resistir. O primeiro a entrar em sua casa foi o Manoel Salgueiro, a quem Morais comunicou que estava ferido. Minutos depois, penetravam na casa mãos trê4s cangaceiros que queriam matar Morais, que apelou para Salgueiro, mostrando que era covardia assassinar e homem ferido e sem armas. Manoel Salgueiro ficou ao lado de Morais, não consentido que lhe tirassem a vida. Ferrugem e os outros insistiram em dar cabo do ferido, mas Salgueiro botou bala na agulha do rifle e tomou posição, disposto a defender a vida do homem, que tinha ido matar. Ferrugem e os outros cangaceiros não quiseram entrar em luta com Salgueiro, retirando-se da casa resmungando.
Morais foi levado para Brejo dos Santos, onde, depois da amputação da perna direita, acima do joelho, foi recolhido a cadeia. Passados alguns meses, Morais foi posto em liberdade, seguindo para Missão Velha, onde encontrou a proteção de Izaías Arruda, que lhe deu cama e mesa. Passou a viver tranquilamente em Missão Velha, mas, ultimamente, quando menos esperava, foi preso e removido para esta capital.
Terminado a sua história, Raimundo disse que fazer um pedido: Tem muitos inimigos na Paraíba que desejam sua remoção para aquele Estado, a fim de assassiná-lo, e por esse motivo queria que intercedesse junto ao dr. secretário da Polícia e Segurança Pública a fim de conservá-lo preso no Ceará, onde tem de responder por diversos crimes, inclusive a morte de João Fladeiro, em Milagres, a mandado de José Ignácio, e a morte de dois soldados da Polícia cearense.”

Jose Tavares de Araujo Neto
Pesquisador, Pombal-PB

Sousa Neto e família de Luiz Padre no Cariri Cangaço de Barro,CE

Um Adendo do grande pesquisador Sousa Neto, de Barro: "Moraes não fugiu. Após alguns meses de detenção ele foi solto e ainda cometeu outros crimes. Só deixou a vida bandoleira após o tiroteio em que foi alvejado na perna. Eu disse antes que Raimundo Moraes (Mundinho) teria fugido para o Piauí, cometi um engano, outro importante cangaceiro de José Inácio e Sinhô Pereira, Raimundo Tabaqueiro fugiu para o Piauí e desapareceu.Vou narrar nos comentários os últimos dias de Raimundo Moraes. Aproveito para lhe parabenizar pela narrativa transcrita do Jornal O Ceará. Um abraço.

"Em maio de 1926, no lugar Olho D’água dos Santos, doze civis cercaram Raimundo Morais (Mundinho), bandido errante que pertencera aos grupos de Sinhô Pereira e Lampião. Mundinho, que era natural de Brejo Santo, foi ferido na perna mas resistiu durante 10 horas. Conduzido à cidade, onde foi alvo da curiosidade dos antigos companheiros de infância, o bandoleiro submeteu-se à uma dura operação efetuada por Dr. Caminha, que lhe amputou a perna com facas e serrote de açougue. Após aquele martírio, Mundinho solicitou um confessor. Pe. Nonato ouviu-lhe por mais de uma hora. De resto, solicitário e ébrio inveterado, veio a falecer na mais negra miséria em 1955.Antes de morrer Raimundo Morais acedeu em narrar episódios de sua vida pregressa. Em dado momento quando se referia a seu batismo de fogo no grupo de Sinho Pereira (combate da Carnaúba-Pajeú) o ex-bandido expandiu-se num pranto convulsivo sem mais poder pronunciar uma só palavra".

Sousa Neto
Fonte - Revista Itaytera

Lampião e Maria Bonita – Uma história de amor e balas Por:Wagner Barreira


Em Lampião e Maria Bonita – Uma história de amor e balas, o jornalista Wagner Barreira apresenta a biografia de um dos casais mais emblemáticos da história do Brasil. Para compor a obra e reunir informações detalhadas de cada um dos personagens,  ele realizou uma pesquisa minuciosa no nordeste, incluindo diversas entrevistas, entre elas uma com a neta do casal e com outros biógrafos de Lampião e Maria Bonita. O livro traz curiosidades e reconstrói algumas das cenas mais simbólicas da época, como o assassinato do casal e membros do bando.

Autor da principal entrevista concedida pelo cangaceiro em toda a vida, o médico Octacílio Macedo descreve Lampião como “um homem calmo e decidido e que falava sem se perturbar, pesando as palavras”. Publicada no jornal O Ceará, Macedo conta que, durante a entrevista, ele atirava moedas pela janela para as crianças na rua e dizia que seu método era baseado em pedir dinheiro aos ricos e tomar à força dos que lhe negavam auxílio, mas que não era um homem de posses. Lampião afirmava que o que adquiria com a vida de bandoleiro mal cobria seus gastos com despesas pessoais, como aquisição de armas, e ressaltava que dispendia boa parte do que conseguia em esmolas aos necessitados.

O livro retrata os momentos mais importantes e lendários vividos pelo pelo Rei do Cangaço e pelo casal. Wagner dedica dois capítulos do livro à história de Maria Bonita, incluindo impressões que coletou em suas pesquisas pelo nordeste e em relatos de outros jornalistas. A relação da companheira de Lampião com as outras cangaceiras e cangaceiros, sua personalidade única, versões distintas sobre a origem de seu apelido – que divide os pesquisadores do cangaço – são alguns dos temas explorados na obra.     

Jornalista e escritor Wagner Barreira

Considerada ficção coletiva,  a saga de Lampião é contada há quase um século por autores e narradores que não raro moldam a História às suas necessidades, convicções e ambições.  Há variações nos perfis retratados de  Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, “que vai do herói sertanejo que combateu as desigualdades, passa pelo homem de negócios que transformou o cangaço em meio de vida, e chega ao assassino sanguinário, ao  bandido sem escrúpulos”.  Todas estas maneiras justas e possíveis de falar da complexidade de um sujeito que foi tudo isso e muito mais.

SOBRE O AUTOR
Wagner Gutierrez Barreira nasceu em São Paulo em 1962. Jornalista, trabalhou em Veja, O Estado de S. Paulo, TV Cultura e revista Aventuras na História. Também foi diretor editorial de mídias digitais na Editora Abril e professor de Técnicas de Reportagem e Teoria do Jornalismo na Pontifícia Universidade Católica Paulista. Vive em São Paulo e tem três filhos.

Comunicação: Tatiana Dias
Editora Planeta
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Os Homens que Mataram o Facínora Por:Cangaçologia

Entrevista com o escritor e pesquisador Moacir Assunção.
Autor do renomado livro "Os homens que mataram o facínora".
Maravilhoso Cangaçologia do grande
Geraldo Antônio de Souza Junior