Glória Amedrontada Por:João de Sousa



João de Sousa Lima na foto com Alceu Valença e Jadilson Ferraz

Fazia poucos meses que Lampião havia rompido sua amizade com o Coronel Petro e como castigo pela suposta traição realizada pelo ilustre fazendeiro, incendiara algumas das suas fazendas, matando vários animais do seu criatório. A população de Glória não esqueceria tão cedo o duro castigo.

A cidade estava em festa. Uma linda lua cheia clareava a praça central, palco principal daquele festivo evento; Toda a circunvizinhança encontrava-se concentrada ali, abrilhantando o espetáculo. Manoel Luiz, Zé Inácio e seu filho Né eram os canoeiros responsáveis pela travessia que separava os estados de Pernambuco e Bahia. Depois de um dia cansativo, os canoeiros resolveram curtir a festa e atracando seus barcos; enquanto divertian-se, as velas descansavam nas águas calmas do "Velho Chico".


Imagem da Cidade de Glória no sertão baiano

Zé Nozinho e alguns amigos vieram de Tacaratú/Pe, com o desejo de participarem da badalada festa. Chegaram na estação Quixaba, sétima estação da estrada de ferro Paulo Afonso, arrendada à Great Western, ainda pelo lado Pernambucano (não confundir com o povoado Quixaba que fica do lado baiano e pertence à Glória) e depois de duas longas horas de espera, tiveram uma desastrosa idéia: Zé Nozinho combinou com os amigos, que dariam alguns tiros para cima com intuito de chamar a atenção dos canoeiros. O plano é acatado e todos disparam suas armas ao mesmo tempo. Do outro lado a população escuta o pipocar das balas deflagradas, um enorme silêncio apoderou-se daquele ambiente antes alegre e festivo. Um falso alarme é ouvido: São os cangaceiros! A praça da alegria transforma-se em um verdadeiro campo de guerra com um corre-corre desenfreado e gritos histéricos, gente pisoteada e crianças perdidas. A poeira turvou o colorido de uma feliz confraternização. Do outro lado do rio, Zé Nozinho e seus companheiros não imaginavam que havia acabado antecipadamente uma alegríssima festa. Enquanto isso, as velas das embarcações tremulavam nas areias prateadas do "Mar Doce do Sertão".

João de Sousa Lima
Fonte:joaodesousalima.blogspot.com

Feliz Natal a Família Cariri Cangaço Por:Professor Wescley Rodrigues



Professor Wescley, Nely Gonçalves e Ana Lúcia

Caros amigos do Cariri Cangaço,

Eis mais um natal! As cidades e casas enchem-se de luzes para comemorar o nascimento daquele que é a luz; só que muitas vezes esquecemos de preparar os nossos corações para que esse Menino Deus possa vir a nascer em nós.

É o momento propício de analisarmos a nossa trajetória, rever erros, iniciar a estruturação de metas, renovar as esperanças em um mundo melhor onde haja justiça, união, amor entre os homens, cumprindo todo o desejo utópico de “paz na terra aos homens de boa vontade”.

Gostaria de desejar a toda família do Cangaço os mais sinceros votos de um Natal do Senhor abençoado, que aquele que se fez homem possa fazer morada entre nós cobrindo-nos de sua proteção paternal.

Ao amigos Severo e Danielle, grandes entusiastas do Cariri Cangaço, que proporcionaram o encontro dessa família cangaceira, estendo os meus votos em especial.

Abraços!

Professor Wescley Rodrigues - Cajazeiras

O Homem que virava Lobisomem em Crato Por:Wilton Dedê






Ele existiu sim. Esse eu conhecí. Foi em meados de 1961 ou 1962, me foge a memória quando o ví pela primeira vez. Ele era um sujeito alto. Aliás, muito alto. Tinha lá seus metro e noventa. Caminhar lento e passos largos. Um típico modelo “etíope”. Tinha a pele enegrecida mais pelo sol que pela cor. Ele era um mulato escuro. Pouca barba e cavanhaque grisalho meio comprido e pontiagudo descendo queixo abaixo. Seus olhos eram caídos, meio mortos, avermelhados e um pouco escondidos pela aba de um chapéu de palha, de abas longas. Ele “tangia” porcos a caminho do matadouro do Crato toda sexta-feira pela manhã, por volta das sete horas. Era essa a hora em que eu saía para a escola. Talvez pela sua ocupação chamavam-no Miguel dos Porcos. Era esse o seu nome. O homem que virava lobisomem.

Quando o ví pela primeira vez, ele me pareceu uma pessoa boa, pacata, calma. Tinha uma voz grossa e rouca, falava lento e sempre me dava um sonooooro, rouco e leeeeento “Bom diiia meniiino”... Na realidade Eu o tinha como um “bom velhinho”.

Até que um dia presenciei uma conversa de algumas pessoas mais velhas.
-Ouví falar que o Miguel dos Porcos vira lobisomem. Será verdade essa história?
-Eu acho que é. Porque eu também já ouví essa mesma história. E dizem que é sempre nos dias de sexta-feira à meia noite. Ele desaparece de repente. E quando ele desaparece... depois da meia noite sempre aparece um lobisomem atormentando as pessoas e correndo atrás dos cachorro
-Dizem que ele batia na mãe dele sempre que bebia. Ela então lhe rogou uma praga. -Já sei. Que ele viraria lobisomem sempre que bebesse. Ele não acreditou e hoje paga o preço.
-É. Vira lobisomem debaixo da ponte do Rio das Piabas, na estrada do matadouro. Coitado.
Meu Deus do céu. Aquilo soou como uma bomba nos meus ouvidos. Eu não queria ter escutado. Não podia acreditar. Como pode um homem tão calmo virar bicho? Se transformar num lobisomem? Como pode acontecer?? Por que acontece isso?? E será que ele mata crianças??e agora???



Wilton Dedê, Kaika Luiz e Prefeito de Crato Samuel Araripe

A partir daquele dia o medo tomou conta de mim. Sempre que seguia o meu caminho em busca da escola nos dias de sexta-feira, eu evitava o caminho, ou o encontro com o homem que virava lobisomem. Passei a ter pesadelos terríveis. Contei a todos os meus amigos, que também passaram a ter medo de Miguel dos Porcos. Surgiram estórias e estórias e estórias de lobisomem, de crianças que foram engolidas vivas por um bicho, de papa-figo, de caipora, etc, etc. Foi o fim dos tempos. Nunca mais tivemos paz. Miguel dos Porcos por muito tempo permeou o universo dos nossos medos e pesadelos.

Aí veio o tempo e essa estória foi caindo no esquecimento dos que ficam adultos. Estórias de quando éramos crianças. No entanto, por curiosidade, um dia eu, conversando com um ex-magarefe, chefe de compras e responsável pela entrada de animais no antigo matadouro do Crato, tocamos em alguns nomes de antigos comerciantes de animais. Entre eles, lá estava Miguel dos Porcos.

Foi aí que me explicaram o motivo da fama de lobisomem. O Miguel dos Porcos era uma pessoa que vivia só. Não tinha família. Pelo menos que se saiba. Não tinha pai, irmãos, filhos, não tinha ninguém. Na sexta-feira, depois de negociados os porcos, o dinheiro arrecadado por Miguel tinha um único caminho: A bodega(pequena mercearia) que ficava em frente ao matadouro. Alí, todo o seu dinheiro era trocado por cachaça. Miguel bebia até o cair da noite.

O prédio do matadouro ficava fora da cidade. Entre o bairro do Pimenta(ultimo bairro) e o matadouro, se passava por um trecho de mato. Assim é que, no seu caminho de volta, já completamente “trêbado”, batia a velha rebordosa da solidão em que vivia.

Miguel dos Porcos começava então a chorar. E chorava alto. Choro leeeento, groooosooo, roooucoo, semelhante a uuurrrooo. Quase aos gritos, tomava então o rumo do mato. Fugia para que as pessoas não o vissem chorando suas mágoas, sua solidão talvez. Nessa hora, os transeuntes que ouviam aqueles lentos e roucos gemidos concluíam:
-Parece até que ele tá virando bicho...

O boca a boca se encarregou do resto. Falavam de um homem, negro, alto e feio, que nas noites de sexta-feira uivava dentro do mato. Principalmente em noites de lua cheia. Até chegarem à conclusão de que Miguel dos Porcos virava bicho, virava lobisomem na sexta-feira à noite foi um nada de tempo. Mas ele existiu sim. Eu o conheci.

Wilton Dedê - Crato



Alcino Costa e o esperado Lobisomem de Poço Redondo

NOTA DO CARIRI CANGAÇO - Quem, dentre todos nós, nascidos e apaixonados pelos rincões de nosso solo sagrado chamado Nordeste, não tem uma história como essa para contar. Incrível o tamanho da representatividade de toda essa memória folclórica, mística e cheia de fantasia, que povoaram nossa infância. Lembro-me bem de outra história, igualzinha a essa, contada em uma de nossas andanças ao Angico; nos relatada pelo querido mestre Alcino Costa, vamos pedir que ele nos envie para que possamos postar.

Os Maravilhosos e Incríveis Caretas Por:Manoel Severo




Este Cariri é realmente um oásis em termos de manifestações folclóricas, tradicionias e que nos provocam a reflexão da imensidade do valor de nossas origens, tradições e de todas as histórias que se somam e acabam por compor esta maravilhosa colcha de retalhos chamada cultura nordestina.

Uma das imagens mais marcantes que tive o privilégio de ver; aconteceu de maneira inesperada: Explico. Era a época da semana santa, neste ano de 2009,já trabalhavamos na construção do Cariri Cangaço. Estava dirigindo, vencendo os 550km do trajeto de Fortaleza a Crato, vinha pela rodovia "do algodão"; com mais de cinco horas de chão, me surpreendo lá pelas bandas do município de Farias Brito; meio que saindo em desabalada carreira de dentro do mato; um grupo verdadeiramente incrível.

Eram mais ou menos uns sete personagens; me pareceram homens e mulheres, havia até uma criança; o colorido das roupas, os "adereços", os penduricalhos e os muitos artefatos que carregavam me chocaram de uma maneira maravilhosa... Eram "Caretas" e apareceram como uma verdadeira "aparição", correndo, gritando, dançando, enfim. Passei pelo grupo mas não conseguia tirar o olho do retrovisor e até hoje a fortaleza daquelas máscaras não saem de minha cabeça.

Não foi por acaso que visitando este extraordinário mar de possibilidades que é a internet, me deparo com uma foto simplesmente sensacional de um grande fotógrafo de Crato: Pachelly Jamacaru. A referida foto de Pachelly, foto que ilustra essa postagem, nos traz exatamente os incríveis "Caretas"; claro que a foto de Pachelly não retrata o grupo que vi, mas de qualquer forma, também meio que de forma inesperada, como os havia encontrado, acabei prestando minha humilde homenagem a esta que é uma das mais marcantes manisfestações nordertinas: Os Caretas.

NOTA DO CARIRI CANGAÇO: No município de Jardim, também no cariri cearense vamos encontrar  na Festa dos Caretas de Jardim, uma das mais tradicionais e antigas de toda a região, com origem remontando o final do século XIX. Sempre na semana santa, a brincadeira dos caretas nos traz uma mistura mágica entre o sagrado e o profano. Vale a pena conferir.


Renato Casimiro e o Desafio do Memorial



Professor Renato Casimiro

Caro amigo Severo,

A ingratidão é sempre um pecado dos mais capitais. Então, me perdoe não ter agradecido a tempo a sua gentileza de fazer o registro sobre minha investidura no Memorial. Fiquei muito feliz que isto tenha sido objeto da satisfação da SBEC - Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço; a quem me coloco inteiramente ao dispor.

Cordialmente,

Renato Casimiro

NOTA CARIRI CANGAÇO: Estimado amigo Renato Casimiro, sentimo-nos honrados e nos associamos ao sentimento de todo o povo de nosso Juazeiro do Norte; que sem dúvidas vibra com seu novo desafio; presidir a Fundação Memorial Padre Cícero. Bola branca ao prefeito Manoel Santana.Sucesso.



Matriarcas do Ceará -Parte I Dona Fideralina Texto:Raquel de Queiroz




Em uma conversa sobre mulheres, feminismo e literatura chegamos às matriarcas nordestinas. Partimos da ideia tradicional da "mulher brasileira",figura poderosa, sedutora e dona de uma linguagem corporal que desafiaria os modelos clássicos da mulher oprimida dos países metropolitanos. É uma imagem que, apesar de não corresponder necessariamente à realidade da vida social brasileira, não deixa de ter uma imensa força simbólica no nosso imaginário cultural. Procuramos então suspender qualquer juizo de valor sobre a justeza da idéia que se faz sobre a "mulher brasileira" e pensar qual seria a versão nacional correspondente à mulher européia da era vitoriana. Foi neste ponto que vieram à tona,de forma quase inesperada, os feitos e as figuras de personagens com D. Federalina de Lavras, D. Barbara de Alencar ou a mais obscura Marica Macedo até hoje lembradas e recriadas nas histórias da região do Cariri. Foram elas matriarcas semi-lendárias, proprietárias de terra e gado no interior do sertão longe das pretenções fidalgas das Casas Grandes da zona açucareira. Levavam uma vida rústica relativamente distante dos padrôes culturais europeus que, na época, moldavam as sociedades do litoral nordestino. No sertão, exerciam grande poder de liderança, tendo controle total de seus feudos regionais.

Tá aqui que Dona Federalina mandou ...

Dona Federalina reuniu no Sítio do Tatu os cem cabras que havia conseguido juntar com a ajuda de outros coronéis da região. Deu ordens para que seguissem rumo a Princesa, na Paraíba. O grupo de cangaceiros iria vingar a morte de seu nego, Ildefonso Lacerda Leite, médico que logo após formado pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, começou a exercer a profissãoem Princesa, terra de seu pai, Luís Leônidas Lacerda Leite (Legítimo Ladrão de Lavras - diz o povo), marido de Joana Augusto Leite, filha de Federalina.
Lá, Ildefonso casou-se com Dulce Campos, filha de um chefe político do município, coronel Erasmo Alves Campos. Com esse casamento, o Doutor precipitava a própria sorte. Manoel Florentino desejava ter Dulce por esposa. Enraivado vendo-a casar-se com o forasteiro Ildefonso resolveu vingar-se. Junta-se a José Policarpo, ex-aluno do Seminário da Paraíba, ligado ao vigário de Princesa, Manoel Raimundo Donato Pito. O vigário se opunha ao doutor, acusando-o de ateu. Em 6 de janeiro, feriado do Dia de Reis, Florentino e Policarpo mataram, com uma punhalada no peito e um tiro no coração, o nego de Federalina. O moço ia à farmácia providenciar remédios para acudir aos antojos da mulher. Após o crime tentaram os criminosos enterrar o cadáver. Mas, por imperícia, deixaram o corpo com os pés de fora.

Vingança pior aguardava a dupla de assassinos. A velha Fidera despachara o seu estranho exército com a incumbência de lhe trazer as orelhas de cada um dos assassinos do neto. Não era à toa que se dizia nas Lavras que a velha do Tatu rezava toda noite num rosário feito das orelhas de seus inimigos mortos: queria aumentar a coleção.

Esse crime de Princesa, ocorrido em 1903, marca o início da projeção de dona Federalina para além dos sertões do Cariri, e a extensão da sua influência junto ao governo do Estado. Nascida em 1832, em Lavras, batizou-se por Federalina, graças aos entusiasmos republicanos, provocados pelos movimentos revolucionários no Nordeste no Levante de 1817 e na Confederação do Equador em 1824. Familiarizou-se desde cedo com o poder. Era a mais velha de doze irmãos; o pai, chefe político na região de Lavras, João Carlos Augusto, descendia de família poderosa. Teve ele por padrinho de batismo o então presidente da Província do Ceará, João Carlos Augusto de Oyenhausen e Gravemburg, marquês de Aracati, em cuja homenagem recebeu o nome.


Sítio do Tatu - Lavras da Mangabeira

A mãe de Federalina também se envolvia com política. Isabel Rita de São José, a velha Zabilinha, era neta de Francisco Xavier, segundo capitão-mor e comandante geral da vila de Lavras, sesmeiro da ribeira do rio Salgado, proprietário de grandes extensões de terra.

Se o pai, João Carlos Augusto, era afilhado do presidente da Província, o batismo de Federalina já é prenúncio de sua força de vontade, de seu desprezo por regras estabelecidas, de seu temperamento forte, de só fazer o que desejava. O padrinho da filha podia não ser de igual importância, mas em compensação o celebrante da cerimônia foi o padre Verdeixa, figura antológica e curiosíssima dos sertões nordestinos. Pai de família, era o Padre Verdeixa nascido no Crato, ou em Goiana, ou em Olinda; foi vigário de Lavras de 1830 a 1832. Mestre em ações indecorosas, fazia propostas imorais às noivas dos casamentos que celebrava. Foi mesmo espancado por um noivo que não pôde suportar os excessos do padre.

Quando João Carlos Augusto morreu, aos 56 anos, vítima de um atentado político, Federalina, já estava casada; sendo a mais velha de três irmãos fracos e de oito irmãs que não viam a mulher em posição de mando, assumiu o poder como herança maior.
Casara-se nova, aos 15, 16 anos, com Ildefonso Correa Lima, major da Guarda Nacional, nascido em Várzea Alegre, distrito de Lavras; filho do tenente Raimundo Duarte Bezerra e de Ana Correa Lima, donos de muitas fazendas. Recém-casada, Federalina já tinha fama de mandona, tanto que a família do marido não aprovou a união. Eram contra, não queriam ver Ildefonso submisso à mulher. Mas não foi uma submissão duradoura. Ele morreu ainda jovem, aos 42 anos, depois de ser presidente da Câmara de Levras. Deixou uma dúzia de filhos e um certo poder político que logo foi assumido pela mulher.

Herdeira de dois grandes chefes, acostumada ao poderio, não admitia oposição. Sendo preciso, esqueceria a religião e lutaria até contra a Igreja. Monsenhor Miceno Clodoaldo Linhares, vigário em Lavras por 49 anos, de 1879 a 1925, que ousou opor-se a Federalina, provou-lhe o ódio. Era conhecido pela sua retidão de caráter, pela facilidade para o discurso, tinha a admiração do clero. Mas tinha uma mancha na vida. Quando jovem, tivera uma filha em Tauá. Federalina levou a peito tornar público o erro do vigário. Monsenhor Miceno, ao partir de Lavras, profetizou que as crianças daquela época veriam a queda de Federalina. Errou: passou-se muito tempo até o dia em que ela, ou os seus, não conseguiram eleger o prefeito. Mesmo o sucessor de Monsenhor Miceno, Padre Raimundo Augusto Bezerra, sobrinho-neto de Federalina e líder oposicionista, sofreu muito nas mãos de Fidera. As piores calúnias foram levantadas contra ele.


Mas Federalina não tinha inimigos só entre os estranhos, a família também a enfrentava. Seu filho, Honório Correa Lima, foi uma das vítimas da ira materna. Após certo tempo na prefeitura de Lavras, foi eleito deputado, tendo que permanecer longo tempo em Fortaleza. E Honório acreditava estar perdendo suas bases políticas com as longas estadas na capital. Assim, com o prestígio conseguido junto ao presidente da província, articula, à revelia da mãe, sua nomeação para retornar à prefeitura de Lavras. Para isso seria necessária a deposição do prefeito Manuel José de Barros, homem da confiança de Federalina.


                        Gustavo Augusto Lima              Honório Correia Lima

Estava criada a confusão. A velha, com o orgulho ferido e influenciada por um outro filho, Gustavo Augusto, tenta primeiro convencer Honório a abdicar do cargo. Apela para os nove meses em que o carregou na barriga. O argumento não surtiu efeito. Honório respondeu que, se o problema era o tempo de gestação, poderiam fazer um trato: ela que afinasse a cabeça para lhe entrar pela "traseira", e ele a carregaria durante nove meses sem reclamação.

Mas Fidera era incansável. Teimou em convencer o filho até o dia em que ele tomou de um rifle e apontou para a barriga da mãe. Essa afronta, somada à morte de Ernesto Rolim, cabra de confiança da velha, atribuída a Honório, e às ameaças de Honório ao irmão Joaquinzinho, a quem proibiu de aparecer na casa da mãe, por acreditar que fosse ele a origem das atitudes da velha, levaram-na a reunir um bando de cabras com os coronéis mais fortes do sertão: Domingos Furtado de Milagres, Sant'Anna de Missão Velha, e Eliera Cruz.

Esses jagunços, em grande parte recrutados no Sertão de Pernambuco, - Serra do Araripe, região do Riacho do Navio, Pajeú de Flores -, (que viria a ser o berço de Lampião), eram homens que faziam do cangaço sua vida, e foram os responsáveis pela deposição do "Torto", apelido de Honório, que era caolho. Escorraçaram-no de Lavras, com mulher e filhos; mudou-se para Fortaleza, e posteriormente para Caririaçu. É a primeira vez em que a misericórdia dá mostras de existir em Federalina. Em casos de deposição, matava-se o deposto. Mas, na deposição de Honório, os homens tiveram ordem expressa de não acertar sequer um tiro no Prefeito. A velha Fidera avisou que quem o fizesse pagaria com a própria vida. Ninguém desobedeceu.

Fonte:Matriarcas do Ceará
Rachel de Queiroz & Eloisa Buarque de Hollanda
www.pacc.ufrj.br
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Missão Velha, o passado e o presente Por:Honório de Medeiros

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Coronel Isaias Arruda (foto cedida por Célia Magalhães)

A memória de Isaías Arruda insiste em vencer o tempo e a apatia geral do brasileiro com sua história, e aos poucos se transforma em mito na cidade que tomou pelas armas e onde exerceu seu poder de senhor feudal até a morte viesse buscá-lo da mesma forma como viveu: violentamente.
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Continuo relatando para Antônio Gomes o resultado da viagem ao Cariri. “Estamos em Missão Velha”, continuo. “Enquanto vagávamos no entorno da pequena praça principal fomos abordados e depois apadrinhados por Esly Almeida Melo, da velha aristocracia rural caririense e sua tradicional atenção sertaneja.
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Seu Esly, aposentado, filhos criados e no mundo, descia ou subia – depende do referencial – a pé, limpo, perfumado, barba feira, cabelos na brilhantina, bem vestido, em busca da Matriz para ‘puxar um terço’. Simpático, conversador, piadista, tornou-se nosso cicerone e historiador informal e foi o maior responsável pela obtenção, quase milagrosa, através das mãos da professora e escritora Célia Magalhães, de uma fotografia dos anos 20 onde Isaías Arruda, ao lado de vários outros, todos de paletó claro, diferencia-se pela altura, a trigueirice e o porte altivo. Ali estava aquele que foi, juntamente com Massilon Leite, o responsável pela invasão de Mossoró por Lampião.
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Célia Magalhães é bem jovem, foi Secretária de Educação de Missão Velha e escreveu acerca dos ex-prefeitos da cidade. Ela e seu Esly levam-nos até a senhorial residência de Luís Jucá Arraes Maia, primo de ex-governador de Pernambuco já falecido, Miguel Arraes. Luis Maia é considerado o “intelectual” de Missão Velha. Já quase não fala e anda em decorrência de uma trombose. Mostra-nos sua coleção de selos e moedas antigas avaliada, por baixo, em mais de seiscentos mil reais. Já foi procurado por colecionadores do mundo inteiro. Enquanto ele se comunica precariamente com o Professor Pereira, que nos acompanha desde Cajazeiras, tento invadir com o olhar curioso os segredos daquela casa mais que centenária, ilhada por construções muito antigas – sobrados geminados com janelas avarandadas que se abrem afastando-se cada banda para um lado, e separadas da rua por uma grade de proteção de ferro batido ornamentada com flores-de-lis estilizadas. Não consigo. O sertanejo abre todas as portas de sua casa aos estranhos bem recomendados, mas conservam fechados, a sete chaves, as portas de sua intimidade
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Prefeito de Missão Velha, Washington Fechine, a lado de Aderbal e Severo
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Mesmo assim posso compreender até fisicamente a dor da castelã quando me fala que há mais de quarenta anos está desterrada ali, em Missão Velha, longe da família, dos filhos, do bulício da cidade grande, do mar, de tudo quanto ama, pois há o dever de ir, até o fim, no compromisso que assumiu ao pé do altar. ‘A pior fase’, disse-me ela, ‘foram os três anos que passei enterrada no sítio.’ Como não ser capaz de compreender essa sensação que acomete aqueles que condenados ao ritmo lento da cidade pequena – cinza vida cinza – anseia pela febril velocidade da cidade grande?
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O verde do Cariri, um verde que se destaca pelo imenso contraste com o semi-árido dos carrascais, poeira, sol-a-pino, grotões que havíamos deixado um pouco antes... A mansão feudal de Isaías Arruda, na qual há, inclusive, sala-de-armas e passagem subterrânea. A estação de trem, palco de tantos episódios históricos. Em uma delas, similar, em Aurora, Isaías tombou ferido de morte após levar, sem reagir, vários tiros desfechados por inimigos políticos seus. O prédio da Prefeitura por ele construída. A misteriosa história acontecida na casa onde hoje funciona a Secretaria de Educação.
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.Profesor Lemuel, Dr. Honório de Medeiros e Severo
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Os escombros de um passado já longínquo, mas presente, ainda recendendo a pólvora, sangue, baraço e cutelo da aristocracia rural sertaneja firmada em um ancestral código de honra. Os ‘cabras’, os jagunços, os cangaceiros. A Igreja legitimadora e terrena, profana, com seus representantes abençoadores de bastardos e assassinos, semeadores de filhos e ilusões, testemunha engajada da vilania com a qual o povo, deserdado de clima, de poder, de bondade, carrega consigo, como última esperança, o paraíso que lhe foi prometido e do qual não se sabe se realmente vai ser entregue.”
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Honório de Medeiros
Fonte:honoriodemedeiros.blogspot.com
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NOTA CARIRI CANGAÇO: Missão Velha, a porta de entrada de nosso Cariri, foi uma das anfitriãs do Cariri Cangaço, o apoio fundamental dos amigos Washington Fechine, Moreira Paz, Amélia Linard e sua estimada família, Bosco André e o encansável Rodrigo Torres; nos enchem de gratidão e a certeza que em 2010 estaremos novamente juntos.
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Autoritarismo x Capitalismo no Tempo do Cangaço, Por: Carlos Eduardo Gomes

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Lívio, Carlos Elydio, Valdir, Vilela, Amaury, Carlos Eduardo e Severo
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Por volta de 1936 o turco Benjamim Abrahão, teve a brilhante idéia de registrar em imagens o cotidiano do bando de Virgulino Ferreira da Silva, o conhecido cangaceiro Lampião. Pesquisadores do assunto acreditam, que naquele momento esse senhor tentava obter lucro com a venda dessas imagens, uma coisa que muita gente não vê com bons olhos, classificam esse desejo de resultados materiais como ambição, uma condição vista por grande parte da sociedade como negativa. Abrahão, quando teve a idéia de filmar o grupo e saiu em busca de financiamento e apoio técnico para seu projeto, talvez não estivesse consciente de criar um registro para a história, certamente não queria ameaçar o Governo Federal, no entanto, teve seu material confiscado pela censura do regime autoritário de Getúlio Vargas, que sentiu-se desafiado pelo atrevido imigrante e seu filme.
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Benjamim Abrahão
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Apesar da violência aplicada pelo censor, aquilo que inicialmente era uma tentativa de fazer dinheiro e ganhar notoriedade, um legitimo direito da livre iniciativa, acabou virando uma preciosidade histórica, por serem as únicas imagens em movimento de Lampião e seu bando, registrando sua indumentária, pequenos hábitos, e características. A censura da época considerava estar agindo em defesa do interesse nacional, os tecnocratas usando do autoritarismo concedido pelo regime daquele tempo, apreenderam e ocultaram essas fitas sem nenhuma preocupação com a preservação desse material. Sem nem se dar conta que estariam subtraindo da história regional e do Brasil, um registro tão importante. Pensavam apenas nos resultados imediatos, preservar o poder e o controle de qualquer forma.
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Banjamim Abrahão e o Rei dos Cangaceiros, 1936
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Os pesquisadores da história de Lampião, podem agradecer a ambição de Benjamim Abrahão, representante nesta circunstância, do capitalismo tão criticado, por terem a chance de ver um pequeno trecho recuperado de sua obra e com isso conferir informações que poderiam ser consideradas imprecisas na ausência do filme. Dá para imaginar como seria bom termos o trabalho completo?
Quem julgava estar agindo com nobreza nesta ocasião eram os censores, no entanto, hoje a história não avalia tão bem o ato do autoritário regime nacionalista contra o aventureiro do cinema, o especulador.
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A censura não é uma coisa do passado, infelizmente continua presente, muitas vezes disfarçada, aniquilando idéias e diminuindo a importância daquilo que os donos do poder não consideram útil. A autoridade do líder deve ser conquistada sabendo ouvir, ponderar e decidir. A liberdade de opinar e agir dentro das normas estabelecidas é fundamental para garantir o desenvolvimento. É preciso entender que a criatividade e o progresso são frutos da liberdade de dizer o que pensa, de criar, as vezes o que a princípio não parece tão útil, mas se o homem não ousar ficaremos condenados ao que temos hoje.
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Dona Fátima, Carlos Eduardo, Pereira, Peixoto Junior, Paulo Brito, Severo e Napoleão Tavares Neves
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Adam Smith escreveu no "A Teoria" a famosa observação que ele repetiria mais tarde no "Riqueza das Nações": que os homens interesseiros, egoístas, são freqüentemente "levados por uma mão invisível sem que o saibam, sem que tenham essa intenção, a promover o interesse da sociedade". Isto porque, havendo liberdade, o lucro dependerá da livre concorrência em apresentar ao público aquilo que o público espera de melhor.
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Carlos Eduardo Gomes
Sócio da SBEC
Rio de Janeiro-RJ
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Caminhos Femininos Por: Vilma Maciel

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Antonio Vilela, Ângelo Osmiro, Vilma Maciel e Kiko (Lampião Aceso)
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Casal Dani e Severo, e amigos do Cariri Cangaço!
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Um Feliz Natal e um ano novo cheio de Luz, Paz e Felicidades! São os votos sinceros da amiga. Aproveitando o ensejo, gostaria de comunicar que estou com o lançamento do meu novo livro: CAMINHOS FEMININOS, uma leitura de gênero interessante para ambos.
Para adquirir acesse:www.biblioteca24x7.com.br procure em Lançamentos, palavra chave, mulher.
Atenciosamente,
Vilma Maciel - Juazeiro do Norte
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O Terrível Ataque de Maranduba-Sergipe Por:Paulo Moura

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Paulo Moura, Cleonice, Ivanildo e Anildomá
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Mais uma das refregas verificadas entre cangaceiros e volantes que figuram entre um dos maiores combates, no qual Lampião e seu bando foram os protagonistas, foi o de Maranduba/SE, ocorrido em Janeiro de 1932. Mais uma vez a estrela do cangaceiro e sua sagacidade brilharam mais alto e o bando de Virgulino destroçou física e moralmente as duas forças volantes, uma de Pernambuco, a de Mané Neto, outra, do Capitão Liberato de Carvalho, da Bahia. Este combate vitimou os cangaceiros: Sabonete, Quina Quina e Catingueira; e os soldados: Elias Marques, da volante baiana. Edelgicio Novais, Ercílio Novais, Sgt. Joao Cavalcanti, Antonio Benedito, Pedrinho e Manoel Ventura, estes da parte dos Nazarenos, do estado de Pernambuco, em 8 ou 9 de janeiro de 1932.

Visitamos a pia onde o tenente Mané Neto fez pouso e descobriu dali, onde estava o bando de cangaceiros, embaixo de alguns umbuzeiros, árvore frondosa e de bom fruto, que formava um semicírculo, envolvendo esta Pia. O que o tenente não contava era com a vasta experiência do rei do cangaço que havia espalhado seu grupo em torno dos sete umbuzeiros que fazem essa meia lua em torno da pia. Na refrega as forças se atrapalharam culminando com o azar de a força retardatária, a da Bahia, atirar contra a Pernambucana, que já estava no campo de luta. A volante estacionada se viu, então, envolvida entre dois fogos, o dos bandidos e o dos próprios companheiros. Esse combate, pelo menos em Sergipe, foi considerado o mais violento, tanto em numero de mortos quanto em desgaste moral, inclusive para a volante Pernambucana, que era composta pelos Nazarenos e que, nessa luta perderam praticamente uma família inteira.
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Paulo Moura
Recife- PE
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Gato, o mais cruel dos cangaceiros Por:João de Sousa Lima

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João de Sousa Lima, entre Ivanildo Silveira e Rubinho Lima
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Santílio Barros era o verdadeiro nome do cangaceiro Gato e não se tem na história do cangaço, outro homem que tenha sido tão sanguinário, perverso e frio como foi este cangaceiro. Era filho de Ana (Aninha Bola) e Fabiano, um dos sobreviventes da guerra de Canudos, seguidor do reverenciado beato Antonio Conselheiro. Era índio da tribo Pankararé.
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Alem de Gato, duas irmãs sua foram pro bando: Julinha, amante de Mané Revoltoso e Rosalina Maria da Conceição, companheira de Francisco do Nascimento, o cangaceiro Mourão. Mourão mesmo sendo cunhado e primo de Gato, acabou sendo morto por ele, depois que Mourão e Mormaço acabaram uma festa, acontecida no Brejo do Burgo, onde deram alguns tiros colocando a população em pavorosa fuga, Gato sendo cobrado por Lampião que pediu providências por ser o pessoal de sua família, perseguiu e matou os dois companheiros, enquanto eles pegavam água em um barreiro, em um dos coitos no Raso da Catarina. Mourão deixou Rosalina grávida e desta gravidez, nasceu Hercílio Ribeiro do Nascimento, ainda vivo e residindo no Brejo do Burgo.
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Gato por pouco não matou sua própria mãe por esta ter feito comentários sobre as constantes passagens dos cangaceiros por sua casa. Gato foi até a casa da mãe com a finalidade de corta sua língua, quando foi dissuadido por alguns familiares do macabro intento, mostrando pra mãe dois facões e dizendo: Este aqui é o cala boca corno e este é o bateu cagou!
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Sandro Leonel, Wilton Dedê, João de Sousa e Ivanildo Silveira
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Gato ainda matou sete pessoas de sua família, em represália a um sumiço de bodes e cabras que estava acontecendo e sendo creditado a Lampião. O cangaceiro perseguiu os envolvidos e encontrando em uma casa de farinha, Calixto Rufino Barbosa e Brás, ceifando a vida dos dois e seguindo até a casa de Valério, na fazenda Cerquinha, onde assassinou Luiz Major e os dois filhos Silvino e Antônio e o sobrinho Inocêncio. Um duro castigo para um pago sem provas.
Gato foi casado com Antônia Pereira da Silva (ainda viva, com 104 anos), também índia Pankararé como seu marido. O casamento aconteceu “Nas Caraíbas”, fazenda de Sinhá, no Brejo do Burgo.

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Antonia Pereira da Silva, uma das esposas de Gato
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Gato carregou a outra prima Inacinha e na justificativa de permanecer com as duas primas, teve seu projeto descartado por Antônia, espancando-a. Antônia contou a Lampião o acontecido e no outro dia, fugiu pra casa de um tio que morava na beira do Rio São Francisco, onde ficou por muito tempo escondida.
Gato encontrou a morte depois do ataque a cidade de Piranhas, em Alagoas. Fato acontecido depois da prisão de sua amada Inacinha, realizada pelo tenente João Bezerra. Inacinha estava grávida e neste combate saiu ferida. O tiro entrando nas nádegas e saindo no abdômen. Por muita sorte a criança não foi ferida. Gato pede ajuda a Corisco e este organiza o ataque à cidade Alagoana. No trajeto, Gato sai disseminando a morte. A data se tornaria, para algumas famílias, uma lembrança dolorosa. Era 29 de outubro de 1936. Dentre os mortos feitos por Gato, estavam Abílio, Messias, Manuel Lelinho e Antônio Tirana. Sendo refém de Gato, o jovem João Seixas Brito, que seria sangrado alguns minutos depois, quando jurou que não havia policiais na cidade e ao romper o som dos primeiros disparos, ocasionados pelos poucos moradores que se negaram a fugir, abandonando a cidade, o rapazinho de 15 anos de idade foi barbaramente assassinado.
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Inacinha, à direita (foto de Benjamim Abraão)
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Assim que os cangaceiros entraram na cidade, o delegado Cipriano Pereira e mais oito soldados fugiram deixando os moradores desguarnecidos. Os populares tiveram que suprir a falta dos “Homens da Lei”. Formaram-se poucos grupos de resistência e entre alguns dos habitantes que lutaram estava Cira Brito, esposa do tenente João Bezerra. No cemitério estava Joãozinho Carão e mais alguns companheiros e em um dos sobrados, estavam Chiquinho Rodrigues e Joãozinho Marcelino.
Chiquinho Rodrigues portava um rifle cruzeta e tinha um estoque de 260 cartuchos, dos quais deflagrou 170.Existe uma polêmica em razão do tiro que atingiu o cangaceiro Gato. Uns dizem que o autor do foi Chiquinho Rodrigues, outros creditam o certeiro disparo, a Joãozinho Carão. A verdade é que gato saiu baleado e morreu três dias depois do confronto, acabando-se assim um dos mais cruéis homens que engrossaram as fileiras do cangaço.
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João de Sousa Lima
Sócio da SBEC
Paulo Afonso-BA
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Napoleão Apresenta Peixoto Junior

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Poeta Vaqueiro José Peixoto Júnior
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Abaixo transcrevemos o texto de saudação feito pelo confrade e mestre, Napoleão Tavares Neves, apresentando o novo acadêmico do Instituto Cultural do Cariri - ICC, querido amigo José Peixoto Junior, escritor, poeta e vaqueiro, na noite do 22 de setembro, em Crato, oportunidade em que era lançada a segunda edição de seu festejado "Bom de Veras e seus Irmãos". À solenidade de posse de Peixoto Junior em uma das cadeiras do ICC, justamente na noite que antecedeu a abertura do Cariri Cangaço, contou com a presença de muitos confrades da SBEC.
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Paulo Brito, Manoel Severo e Napoleão Tavares Neves

Deputado Federal José Arnon e convidados do ICC
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Paulo Gastão, Lemuel, Emanuel Braz, Wilton Dede e Kaika Luiz

Bom Deveras e Seus Irmãos - Por:Napoleão Tavares Neves

No dia 05 de Novembro de 1943, indo a cavalo de Porteiras para o Crato, para o exame de admissão ao Ginásio, na “Estrada da Feira” que ligava Barbalha a Crato, passando no Alto do Leitão, o meu pajem naquela viagem, Antonio Farosa, mostrou-me cruzes toscas abandonadas no matagal, exclamando: “Eis ai as cruzes dos cangaceiros Marcelinos. Quando você for homem, procures saber essa história e vai ver como era o cariri em 1928”. Aquilo ficou na minha mente!
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19 anos depois, o destino me trouxe para Barbalha, como jovem médico. Certo dia, tomei a minha Belina amarela e com René Grangeiro, sai em busca daquelas cruzes que tanta curiosidade me causou nos doces tempos de menino. De pergunta em pergunta, de informação em informação, eis que chegamos ao Alto do Leitão. Em uma casa isolada no meio da capoeira, divisei um homem que trabalhava de foice. Interpelei-o para informar-me onde ficavam as cruzes dos cangaceiros Marcelinos. Resposta: “Fica daqui a uns 500 metros de mata e o senhor não vai conseguir chegar lá, a menos que seja a pés”. Topei o desafio e paguei ao rurícola que comigo conversava para abrir uma picada até as cruzes. Senti um grande impacto ao visualizar cruzes toscas, com a madeira já corroída pelo tempo e pelo cupim. Imaginei o desespero daquela gente humilde cavando o chão duro as suas próprias sepulturas! Teria havido algum diálogo entre eles? O que teriam imaginado? Lá no aceiro do mato vi mais uma cruz, a 5ª cruz, encimando um montículo de pedra tosca. Era, certamente, a cruz de Manoel Toalha, um jovem aparvalhado que, na hora da execução, correu em busca do mato e foi alvejado pelas costas! Crime inominável! Manoel Toalha era um pobre vendedor de pão que cobria a cabeça com uma toalha para proteger-se do sol. Jamais portou uma arma e apenas levava os bilhetes dos cangaceiros para os coronéis da região pedindo dinheiro e ele o fazia apenas para ganhar alguns míseros trocados! Repito: crime inominável que só a polícia do Ceará de então, ousaria praticar! Com certeza, cangaceiro seria mais nobre!
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Sai dali ao cair da tarde pensando naquela tragédia que nem a imprensa noticiou, certamente por ser mais uma “queima de arquivo humano” no conluio que juntava coronéis-policia-cangaceiro. Terra de ninguém era o sertão de então!
Pois bem, o tempo foi passando e em janeiro de 1989, recebi um livro que me esclareceu todo o drama dos Marcelinos: “Bom Deveras E Seus Irmãos”, do poeta-vaqueiro, José Peixoto Junior, caririense do pé da Serra de Caririzinho. A sua leitura me empolgou tanto que li todo o livro em uma só noite! Livro referencial da história cangaceira do sertão.
Vasado em português castiço, “Bom Deveras” traz o dialeto do sertão na sua magnífica expressividade, fazendo de José Peixoto Junior o Guimarães Rosa do Cariri, indiferente à crítica. Homem telúrico, José Peixoto Junior ama o Cariri com todas as fibras do seu coração, mesmo agora, sendo bacharel em Direito em Brasília. E a leitura deste livro impar que detalha a saga dos Marcelinos foi, como que, a cabeça de ponte que criou e solidificou uma fraterna amizade entre o autor e leitor.
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Por ocasião do evento Cariri Cangaço está sendo lançada nova edição de Bom Deveras e por um capricho do destino, eis que meu arguto autor me encomenda a “Orelha” do livro. É por isso que aqui estou aplaudindo a nova edição de “Bom Deveras e Seus Irmãos”, livro maiúsculo, cujas letras estão ensopadas do sangue de inocentes sertanejos, todos de menor, imberbes e somente um, “Lua Branca”, era um cangaceiro, ainda sem crimes.
Esta 2ª edição deste livro é um imperativo da sua procura por todos aqueles que querem saber da triste saga dos Cangaceiros Marcelinos que, ocasionalmente, engrossavam o bando de Lampião na suas andanças pelo Cariri. Vale a pena a sua leitura porque é um livro bom deveras para todos os gostos. É meu livro de cabeceira! É livro bom, livro fácil, livro atraente, com as cores vivas do sertão e cheiro de terra molhada nas manhãs invernosas.

Napoleão Tavares Neves
Médico, Pesquisador e Escritor.
Barbalha - Ceará
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NOTA CARIRI CANGAÇO: O texto acima também foi publicado no Jornal da SBEC, comemorativo ao lançamento do Cariri Cangaço.

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