O Ataque de Lampião a Sousa Por:Romero Cardoso

No mapa: Sousa, cenário de um dos ataques de maior repercussão do bando de Lampião

Distante de princesa, a cidade de Sousa vivia clima de ebulição. Disputas políticas resultaram em tragédias, como a que envolveu o embate no barracão do “Coronel” João Pereira, em Nazarezinho, então distrito sousense. Filho do “Coronel” João Pereira, de nome Francisco Pereira Dantas, sentiu o peso da moral sertaneja, desprezando conselhos do pai, o qual faleceu exigindo que não se vingassem. Assassinou o único sobrevivente dos que atacaram o velho patriarca em seu estabelecimento comercial.

Conversas a boca miúda diziam que os mandantes da morte do “Coronel” João Pereira eram pessoas importantes da sociedade sousense, como o destacado e influente cidadão de nome Otávio Mariz.Em um dia de feira em Sousa, Otávio Mariz notou animada conversa entre um bodegueiro de Nazarezinho, de nome Chico Lopes, e um cabra da inteira confiança de Chico Pereira, de nome Chico Américo. A duração da conversa despertou a desconfiança de Otávio Mariz. Nas bancas da feira procurou uma chibata para comprar, indo ao encontro dos dois palestrantes. Encontrou apenas Chico Lopes. Aplicou-lhe uma surra magistral e pediu-lhe para ir à fazenda Jacu, reduto dos Pereira Dantas em Nazarezinho, avisar a Chico Pereira que tinha outra prometida para ele.


Romero Cardoso

No Jacu, Chico Lopes detalhou todo acontecido. A família do “Coronel” assassinado perguntou-lhe o que ia fazer, tendo Chico Lopes respondido estar decidido ir até Princesa, conversar com Lampião sobre o melindroso e humilhante assunto. Havia um irmão de Chico Lopes que integrava o bando de Lampião há alguns anos. Isso facilitou a decisão do chefe supremo do cangaço em enviar dezessete homens de sua confiança para Nazarezinho. Antônio e Levino Ferreira, bem como Meia-Noite e Sabino Gório, também integravam o grupo que iria se responsabilizar pela mais aviltante ação cangaceira no Estado da Paraíba.

Notícias corriam céleres, dando conta dda aproximação do grupo cangaceiro. Em Sousa alguns aventavam a hipótese de organizar defesa, mas como não acreditaram na possibilidade de tamanha ousadia, relaxaram completamente. Ao chegar ao Jacu, os dezessete homens foram recepcionados efusivamente. O número final de bandidos prontos a atacar Sousa, aumentado com muitos da região, somava oitenta e quatro quadrilheiros dispostos.


Ângelo Osmiro, Jorge Remígio e Narciso Dias, na visita do Cariri Cangaço ao Jacu, fazenda do cel. João Pereira e seu filho; Chico Pereira.

Antes do amanhecer do dia 27 de julho de 1924, os bandidos cortaram a linha do telégrafo e invadiram Sousa, cuja maioria da população foi pega totalmente desprevenida. Pequena resistência partiu da residência de Otávio Mariz, principal alvo dos atacantes. Experiente e tarimbado sertanejo, Otávio Mariz escapuliu quando viu que não poderia resistir ao implacável ataque.

Tudo em Sousa virou alvo de saque, os cangaceiros roubaram o comércio, residências, tudo, prejuízo incalculável que marcou indelevelmente a história sousense.Feras endiabradas davam vazão a todos os instintos selvagens possíveis e imagináveis. O destacamento local, comandado pelo então Tenente Salgado, não conseguiu realizar qualquer ação de defesa em Sousa, verdadeiro suicídio se tivesse havido consumação.

Grupo composto de quase duas dezenas de bandidos, liderados por cangaceiro conhecido por “Paizinho”, teve como alvo principal a residência do juiz local, de nome Dr. Archimedes Soutto Mayor. “Paizinho” tinha queixas pessoais contra o magistrado, a quem acusava de tê-lo condenando injustamente. Retirado ainda com roupas de dormir, o Juiz foi submetido a todo tipo de suplicia e humilhação, sendo forçado a andar de cangalha e em posição vexatória pelas ruas de Sousa. O ato final seria o assassinato do magistrado, mas Chico Pereira interveio e evitou a consumação do ato extremo.


Mesa de abertura do Cariri Cangaço em Sousa, junho de 2013
Manoel Severo, Bismarck Oliveira e Jorge Remígio em Sousa

O magistrado, depois de tudo, no ensejo dos desdobramentos do audacioso ataque cangaceiro à cidade de Sousa, assumiu a responsabilidade de fazer merecida justiça contra àquelas feras que o atacaram.

A rede de informações montada por Lampião era impecável e precisa. Logo ele ficou sabendo dos estragos em Sousa e, principalmente, do que fizeram com o juiz. Rodopiava nos calcanhares, ainda sentindo dores terríveis, empunhando Parabellum e raciocinando sobre o futuro dali para frente. Homem de raciocínio rápido, Lampião sabia que em breve enfrentariam duras batalhas contra as forças volantes paraibanas, extremamente tolerantes devido ao respeito ao “Coronel” José Pereira Lima e a Marcolino Pereira Diniz.


Marcolino Diniz

Lampião estava certo. A providência inicial do recém instalado governo de João Suassuna foi a instalação do segundo batalhão da Polícia Militar Paraibana na cidade de Patos das Espinharas, com absoluto aval para dar caça ininterrupta aos cangaceiros. A responsabilidade pela iniciativa maior de efetivar a campanha paraibana contra o cangaço liderado por Lampião coube, naturalmente, ao “Coronel” José Pereira Lima.

Não obstante a proteção que Lampião desfrutou em Princesa, seria inadmissível que o chefe político das terras da lagoa da perdição tolerasse tamanha afronta, principalmente em razão da forma como o magistrado sousense foi humilhado pelos cangaceiros.


Lampião e Antônio Ferreira no ano de 1926

No ensejo da caçada movida contra os bandoleiros, há fato digno de registro, referente à resistência efetivada pelo cangaceiro Meia-Noite em uma casa de farinha no sítio Tataíra, fronteira entre os estados da Paraíba e de Pernambuco. Na companhia da esposa, Meia-Noite, embora a mulher não tenha participado do combate, enfrentou combinado de volantes, comandados pelo então Tenente Manuel Benício, e tropa de cachimbos (civis em armas) contratada pelo “Coronel” José Pereira. Meia-Noite lutou contra oitenta e dois homens, ferindo dezoito. Escapuliu do tiroteio, mas a esposa ficou no local em que se entrincheirara, sendo depois conduzida à cadeia de Princesa. No local, conforme Érico de Almeida, primeiro biógrafo de Lampião, autor do livro “Lampeão, sua história” (1926(1ª ed.), 1996( 2ª ed.), 1998(3ª ed) ), foram encontradas quatrocentas e noventa e duas balas de fuzil mauser DWN, modelo 1912.

Em seguida, devido às volantes paraibanas estarem assanhadas com a ordem capital de darem combates violentos aos cangaceiros, inúmeros enfrentamentos foram registrados, como a batalha do Tenório, no ano de 1925, quando Levino Ferreira foi assassinado pelo volante Belarmino Morais, comandado pelo então cabo José Guedes. Como forma de se vingar do “Coronel” José Pereira, a quem culpava pela morte do irmão, Lampião e seu bando invadiram humildes propriedades em princesa, como a do Caboré, assassinando diversas pessoas, incluindo entre essas um ancião de provecta idade de noventa e dois anos e um garoto de apenas doze anos.


Cel Zé Pereira de Princesa

O governo paraibano invocou o convênio anti-banditismo, firmado no ano de 1922 em Recife (PE), obtendo permissão para que suas forças de segurança pública em perseguição aos bandoleiros adentrassem os territórios de outros estados nordestinos. O grupo cangaceiro, em certa ocasião no ano de 1925, foi localizado na região de Serrote Preto. Desprezando as mais elementares táticas militares, os volantes paraibanos atacaram irresponsavelmente o valhacouto de Lampião. As estratégias guerrilheiras foram implementadas impecavelmente pelos cangaceiros, resultando em horrível carnificina, na qual pereceram os comandantes Tenentes Joaquim Adauto e Francisco de Oliveira, além de mais de uma dezena de soldados.

Abalado com a perseguição tenaz que as volantes paraibanas realizavam, Lampião evitou a Paraíba, pois seus antigos protetores não estavam mais propensos a desafiar as ordens do governo paraibano, bem como a decisão irredutível do “Coronel” José Pereira Lima em buscar erradicar o cangaço liderado por Lampião, pelo menos em terras paraibanas.


Chico Pereira

Para Chico Pereira não houve outra saída, em razão da gravidade dos fatos ocorridos em Sousa, a não ser acompanhar o grupo de Lampião pelas adustas plagas sertanejas. Travou combate em Areias do Pelo Sinal, entre Princesa e o distrito de Alagoa Nova (Hoje Manaíra), depois, vítima de picada de cascavel, em território pernambucano, amargou provações inenarráveis.

O extenso processo elaborado pelo Dr. Archimedes Soutto Mayor mostrou-se simpático a Chico Pereira, eximindo-o de algumas culpas e louvando diversas interferências realizadas quando do ataque cangaceiro do dia 27 de julho de 1924 à cidade de Sousa.

Perseguido, embora tolerado discretamente, Chico Pereira era, no entanto, alvo de olhares vingativos, sobretudo em razão de suas práticas donjuanescas. Sedutor, Chico Pereira desafiava importante elemento da moral sertaneja. Ao que tudo indica, houve a sedução de uma sobrinha do governador norte-riograndense Juvenal Lamartine, em Serra Negra (RN).


Wescley Rodrigues na abertura do Cariri Cangaço em Sousa

Provavelmente houve um conluio entre Juvenal Lamartine e seu colega João Suassuna para eliminar Chico Pereira. João Suassuna, através de irmão de nome Antônio, empenhou a palavra sobre a total liberdade do homem que foi obrigado a se tornar cangaceiro devido à morte do pai, motivada pela política acirrada dos turbulentos anos da década de vinte do século passado.

Na festa da padroeira de Cajazeiras, no ano de 1928, Chico Pereira foi detido por oficiais da polícia militar paraibana. Manuel Arruda de Assis foi o responsável pela prisão. Conduzido a Pombal, onde tinha praticado crime, quando do cerco ao velho casarão de Antônio Mamede no sítio Pau Ferrado, Chico Pereira ia ser transferido para Princesa, onde havia assassinado soldado de nome Pierre. A escolta que o conduzia rumou em direção a Santa Luzia. Havia um crime atribuído a ele em Acari (RN), referente a um roubo praticado contra o velho “Coronel” Quincó da Ramada. Era parte do esquema estruturado por Juvenal Lamartine para liquidá-lo. Joaquim de Moura, famanaz executor de bandoleiros, foi o responsável pela morte de Chico Pereira.

O ataque do bando de Lampião à cidade de Sousa foi um dos mais ousado ato praticado pelos bandoleiros das caatingas, cuja marca indelével permaneceu por tempos e ainda resiste na memória de poucos que tiveram a infelicidade de presenciar a verdadeira baderna que os cangaceiros fizeram na simpática cidade sorriso no longínquo dia 27 de julho de 1924.

José Romero Araújo Cardoso
http://omundocomoelee.blogspot.com.br


José Romero Araújo Cardoso. Geógrafo. Professor Adjunto do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. Especialista em Geografia e Gestão Territorial (UFPB) e em Organização de Arquivos (UFPB). Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente (PRODEMA – UERN). Contato: romerocardoso@uol.com.br

Meu querido nordeste Por:Reclus De Plá e Sant'anna

Reclus  De Plá e Sant'anna

Meu prezado e querido Amigo Manoel Severo, Presidente do Conselho Curador ALCINO ALVES COSTA.
Com a satisfação de sempre estou me dirigindo a você e desta vez para expressar o meu profundo agradecimento por me haver concedido a honra e o prazer de participar do CARIRI CANGAÇO 2013.

Na feliz oportunidade reencontrei amigos como você, adquiri novos conhecimentos e ilustrei alguns que já  possuía a respeito do Cangaço e do meu querido Nordeste como um todo.
Assim é que, com a expressão do meu profundo agradecimento, peço que aceite também o meu cordial abraço.

Reclus De Plá e Sant'anna
Duque de Caxias, Rio de Janeiro

Os Fuzilados do Leitão e o Cariri Cangaço 2013 Por:Manoel Severo

Alto do Leitão

Outro ponto alto desta edição do Cariri Cangaço 2013, foi sem dúvidas a visita ao cenário emblemático do monumento dos Fuzilados do Leitão em Barbalha; o famoso Alto do Leitão.  Ali, há poucos quilômetros do centro de uma das mais acolhedoras cidades do cariri, "à beira da Estrada Real" que ligava Barbalha a Crato, aconteceu a covarde chacina do grupo do cangaceiro Lua Branca, último dos irmãos Marcelinos, pelo Sargento José Antônio da policia do Ceará. 

O Massacre do Alto do Leitão foi sem dúvidas um dos mais marcantes episódios do cangaço na região do Cariri. No dia 05 de janeiro de 1928 o último dos irmãos Marcelinos; nesta época seus dois irmãos: Bom de Veras e João 22 já haviam sido eliminados; conhecido por Lua Branca, seria barbaramente assassinado pelo grupo do sargento José Antônio, quando supostamente eram transferidos pela "Estrada da Feira", de Barbalha para cadeia do Crato e dali para Fortaleza. 

 Lamartine Lima no Alto do Leitão no Cariri Cangaço 2013
 Zé Leite e Sitôe Luna recebem o Cariri Cangaço em Barbalha
Leandro Cardoso e a verdadeira história do Alto do Leitão

Na oportunidade o mais novo dos Marcelinos era morto, ao lado dos companheiros João e Joaquim Gomes, Pedro Miranda e Manoel Toalha. naquela dia os presos foram tirados da casa de detenção, cadeia de Barbalha com o destino ao Crato, o trajeto era feito por uma antiga estrada usada pelos almocreves que transportavam alimentos e outros gêneros oriundos da Serra do Araripe e das redondezas, para a feira do Crato. Cerca de alguns quilômetros do centro de Barbalha, o inesperado...

O sargento José Antônio e seus homens; ordenou que parassem e de posse de enxadas e pás começassem a cavar covas rasas à beira do caminho. O desespero e a coragem do grupo acabou tornando a chacina ainda mais dramática. Uns conseguiram com coragem cavar e esperar o desfecho provável... Outros não conseguiram e tentaram correr em fuga, todos tiveram o mesmo fim: Morte e sepultamento nas covas cavadas pelos próprios presos.  A antiga "Estrada da Feira" ainda guarda suas marcas  por entre as cercas e o que restou da caatinga bruta desses lados do sertão cearense.  No dia de nossa visita fomos ciceroneados pelo prefeito de Barbalha José Leite e pelo companheiro, secretário de cultura Sitôe Luna; mais uma vez o Cariri Cangaço testemunhava um dos mais marcantes episódios do cangaço em terras cearenses. 

 Manoel Severo e Napoleão Tavares Neves no Alto do Leitão

Ainda em 2009 quando estávamos construindo o primeiro Cariri Cangaço tive a honra de acompanhado do Mestre Napoleão Tavares Neves conhecer um pouco mais da história de Bom de Veras e seus irmãos e ainda em nossa primeira edição, naquele ano, tivemos a grande Conferência sobre o Alto do Leitão com o pesquisador e escritor José Peixoto Junior.

Manoel Severo
Cariri Cangaço 2013

Uma História de Amor e Fúria: Da Balaiada ao Cangaço Parte I Por:Verônica Kobs


Uma história de amor e fúria é um filme brasileiro de animação, dirigido por Luiz Bolognesi, que estreou em 2013. Nele, a História do Brasil é contada a partir das lutas e conflitos que construíram o país e que até hoje fazem parte da identidade nacional. O filme teve boa repercussão e foi indicado para o Annecy, festival que, com Uma história de amor e fúria, contou, pela primeira vez, com um representante brasileiro na competição.

Mais de quinhentos anos de História são distribuídos em confrontos que constituem o eixo da narrativa. No Brasil Colônia, europeus e tribos indígenas encenam conquistas e derrotas que resultam de enfrentamentos sucessivos. O segundo momento remonta à época da escravatura, com destaque ao movimento da Balaiada, protagonizado pelos militares comandados pelo Barão de Caxias e pelos revoltosos[1]. Na metade do filme, os períodos da ditadura e da pós-ditadura apresentam novo confronto, entre as sociedades civil e militar. Finalmente, depois de contemplar tipos distintos de lutas e combates, em tempos também diferentes (o passado remoto e o passado recente), o filme cria um mundo no futuro, mais especificamente no ano de 2096, com algumas grandes transformações possibilitadas pelo avanço tecnológico, como ocorre em qualquer filme de ficção científica. Nessa sociedade “provável”, água é ouro e, por isso, torna-se o principal motivo das lutas pelo poder.



Boa parte da crítica reclamou da História longa e condensada demais e não viu com bons olhos o tratamento maniqueísta dado à trajetória do protagonista: “(...) o primeiro aspecto a ser discutido é a simplificação brutal da história do Brasil como uma sucessão de confrontos sangrentos entre opressores e oprimidos” (COUTO, 2013). É isso. O personagem principal é sempre o mesmo (pelo menos em essência). Ele morre e renasce, para participar de novas lutas, derrotas e conquistas. O personagem é um só, que se transmuta de guerreiro tupinambá a líder dos revoltosos, na Balaiada, a guerrilheiro na ditadura e, depois, a jornalista do futuro. O filme de animação tem, de fato, essa característica de suprarrealidade, em que é possível um personagem nascer e morrer diversas vezes, para completar seu destino de revolução e de amor por Janaína. Além disso, não se pode desprezar o fato de que parte da história se passa em um futuro distante, o que ajuda a encarar grandes saltos no tempo e na História do Brasil e o atavismo do personagem principal como verossímeis, no contexto da animação e da ficção científica.
O destino do personagem é longo e se renova a cada vida, a cada sociedade e a cada conflito que se estabelece. 

Entretanto, o lugar dele é sempre entre aqueles que lutam por liberdade, pelos direitos e por melhores condições de vida e de trabalho, em oposição ao poder hegemônico. Nesse aspecto, voltamos à Balaiada, que, no filme, é mostrado de forma menos redutora, sem o ranço didático próprio dos livros de História. Em Uma história de amor e fúria, não só são revistos os papéis daqueles que tomaram a frente do movimento. A animação mostra também a relação legítima que existe entre a Balaiada e o Cangaço:

Essa nossa guerra é apenas uma data nos livros de História. Ninguém conta que Caninana, Sete Estrelas e Raio escaparam e ficaram vagando pelos sertões e aí nasceu o Cangaço. Foi o jeito que a turma que não é de abaixar a cabeça achou pra continuar lutando. (UMA HISTÓRIA, 2013)


Essa passagem opõe-se claramente ao discurso histórico “chapa-branca”, quando caracteriza a Balaiada apenas como uma data e quando denuncia a omissão que se faz da relação que existe entre a luta dos balaios e o início do Cangaço. Outro dado relevante é o elogio que se faz à tenacidade e ao desejo de justiça daqueles que participaram dos dois movimentos.



A referência é rápida, mas uma cena consolida a relação entre os dois movimentos. Quando o líder Manoel dos Anjos é morto, transforma-se em um pássaro. Sua imagem, após levar o tiro, de braços abertos e prestes a cair, já sugere isso. Seus braços parecem asas e se abrem como se ele fosse alçar voo. De fato, os militares, no lugar do corpo, veem apenas a ave, que voa sobre os companheiros que conseguiram fugir. A cena, então, passa a focalizar o grupo de cangaceiros em primeiro plano.

Em entrevista à Revista de Cinema, o diretor do filme explicou por que escolheu a Balaiada como um dos episódios históricos que compõem a animação: “(...) ficamos em dúvida entre a Balaiada, a Revolta dos Malês e a Cabanagem. Escolhemos a Balaiada porque foi nesse momento que nasceu o cangaço e o exército brasileiro” (SCHENKER, 2013). 



Apesar de breve, a associação entre balaios e cangaceiros é bastante salutar, porque contesta a “versão oficial” dos fatos e porque demonstra uma luta sem interrupções; ela apenas se renova. Astolfo Serra (citado por Sousa (2013)), em seus estudos sobre a Balaiada, também faz referência a nomes que, depois, voltariam a ser mencionados em textos sobre o Cangaço:

Ao contrário do que se pensa, na Balaiada, conheceu-se um incontável contingente de rebelados, muitos hoje não são nem conhecidos. Apreciando essas informações, faço uso do Pe. Astolfo Serra que afirmou (1948, p. 166):

“Novos chefes se apresentam com suas comitivas de rebeldes. (...). Designam-se mutuamente por nomes simbólicos e são Relâmpago, Corisco, Raio, Caninana, Sete Estrelas, Teteu, Andorinha, Tigre, etc. – toda uma série de homens rudes e sequiosos de aventuras e de vinditas”.(SOUSA, 2013)

Muito mais do que o fato de a Balaiada ter sido o movimento precursor do Cangaço, é preciso pensar sobre as relações de diferenças e semelhanças que existem entre eles. A continuidade é inegável, mas a recontextualização garantiu as idiossincrasias responsáveis pela evolução da luta.


No campo das diferenças, deve-se ressaltar, fundamentalmente, que o Cangaço não foi um movimento pontual, tal como a Balaiada. O Cangaço foi um movimento de maior amplitude geográfica, de maior duração[1] e mais complexo. Por esses motivos, compreende inúmeros aspectos, até mesmo divergentes, em algumas situações. Prova disso era a relação oscilante de Lampião com as autoridades[2]. Os interesses mudavam e exigiam novos acordos. Alguns fazendeiros e proprietários de terra davam guarida aos cangaceiros em troca da proteção[3]. Do mesmo modo, o Cangaço, apesar de ser oficialmente combatido pela Polícia e pelo Governo, servia de grupo de auxílio emergencial para manter a ordem e combater os inimigos, em ocasiões extraoficiais. Esse poder de negociação de Lampião, aliado à necessidade de adaptação constante, foi considerado o principal estratagema para a sobrevivência dos homens e para a longevidade do movimento. Fazia-se uso da política do favor, que “ponto por ponto, pratica a dependência da pessoa [...]” (SCHWARZ, 2000, p. 17). 

Em se tratando de dependência, é imperativo que exista uma hierarquia, como explica Roberto Schwarz: “O favor é, portanto, o mecanismo através do qual se reproduz uma das grandes classes da sociedade, envolvendo também outra, a dos que têm” (SCHWARZ, 2000, p. 16). O inusitado é que o dominante e o dominado alternavam os papéis: ora os governantes e os proprietários de terra davam e os cangaceiros recebiam, ora o bando de Lampião assumia o poder, para dar aquilo que era caro ao governo e aos latifundiários. Estabelecia-se, assim, uma relação de equilíbrio, que previa troca e negociação constantes. Além disso, muitos estudiosos mencionam a importância da mobilidade do bando, impedindo que fosse alvo fácil durante as diligências.

No que diz respeito às semelhanças, elas estão, em sentido amplo, na relação de submissão do povo em relação ao poder oficial e, depois, no movimento de sublevação como flagrante reação popular aos desmandos dos governantes. Ainda nesse aspecto mais geral, merecem destaque a consolidação de um poder paralelo, extraoficial, e a resistência (que, aliás, tornou-se uma característica emblemática e inerente à identidade do negro e do sertanejo, que protagonizaram os dois movimentos em questão). No que diz respeito à Balaiada no filme, temos o seguinte comentário: 

A visão mais interessante refere-se à figura histórica de Duque de Caxias, patrono do exército brasileiro, e que foi transformado em estátuas e logradouros por aí, mas no filme é o responsável pelo fim de um movimento popular, a Balaiada. O movimento é retratado na segunda parte do filme, e as figuras de herói (Duque de Caxias) e vilão (o Balaio, líder do movimento) são questionadas. (PASTORELLO, 2013)


Continua...

Verônica Daniel Kobs
Professora de Imagem e Literatura e de Literatura e Estudos Culturais, 
no Mestrado em Teoria Literária da Uniandrade (Curitiba-PR). 

Saudações do Cangaceiro Carioca !


Prezado Severo e amigos do Cariri Cangaço, uso nosso canal de comunicação para desejar a todos Boas Festas, muita saúde, paz, prosperidade no ano novo que se aproxima. E sempre.
Lamentavelmente não pude comparecer ao evento de 2013 (minha primeira falta). Como meu avô ensinou:  primeiro a obrigação, depois a devocão. Sou obediente e fiquei preso no trabalho. 



Mesmo distante acompanhei a cobertura bem completa  nos blogs Cariri Cangaço e  Lampião Aceso. Ficava trocando de estação para ver qual a melhor cobertura. Empatou. O próximo... eu perco o trabalho, mas não perco a festa. Preciso exercitar a parte nordestina do meu espirito, até já me adaptei a dormir na rede. Aliás, tenho que elogiar as redes trançadas do nosso amigo Thomaz Cisne, que estão virando moda aqui no Rio.
 Quem vê quer uma também.
Meu abraço a todos. Feliz 2014,

Carlos Eduardo
Rio de Janeiro


A Revolta de Princesa em Debate na noite de hoje do GECC

Grupo de Marcolino Diniz: Revolta de Princesa

Um dos episódios mais marcantes da história do estado da Paraíba estará em pauta para debate na noite desta terça-feira na reunião mensal do GECC e Cariri Cangaço; A Revolta de Princesa e a relação do Cel. Zé Pereira com Virgulino Lampião. O encontro acontece hoje, logo mais as 19 horas no Auditório da ABO - Associação Brasileira de Odontologia , à rua Gonçalves Ledo, 1630, em Fortaleza, Ceará.

A revolta de Princesa, sem dúvidas trata-se de um dos mais intrigantes e graves episódios da república velha em nosso nordeste, antes mesmo da revolução de 1930. O conflito originado a partir de interesses comerciais contrariados entre a alta elite algodoeira e da pecuária do estado paraibano e o novo mandatário eleito João Pessoa.

Cel Zé Pereira na época da Revolta de Princesa

Dentre essa mesma elite se encontrava o emblemático coronel José Pereira Lima, conhecido protetor de cangaceiros e maior líder político do oeste paraibano, que no conflito contava com o apoio dos governadores de Pernambuco e do Rio Grande do Norte; durante o conflito Zé Pereira declarou Princesa "Território Livre" , com direito inclusive a bandeira. para saber mais sobre esse momento histórico da Paraíba, você é nosso convidado para logo mais participar da noite GECC - Cariri Cangaço.

GECC - CARIRI CANGAÇO
Hoje, Terça-Feira, dia 03 de Dezembro
19 horas - Auditório da ABO
Rua Gonçalves Ledo, 1630
Fortaleza - Ceará

A Lendária Fazenda Piçarra no Cariri Cangaço 2013 Por:Manoel Severo

Antônio da Piçarra

Nesta edição do Cariri Cangaço, mais uma vez ; como em nossa primeira edição tivemos a permissão de visitar um dos mais importantes cenários do cangaço em nosso Ceará. Por volta das três da tarde do dia 19 de setembro, com o sol escaldante do cariri cearense a nos "torrar" completamente, chegamos a Fazenda Piçarra, no município de Porteiras, encravado no sopé da Chapada do Araripe e quase fronteira com o estado de Pernambuco. Na Piçarra fomos recebido pelos anfitrião Vilson da Piçarra, neto, porém criado por um dos mais marcantes personagens do cangaço no cariri, senhor Antônio da Piçarra.

A visita técnica constava de visitação a todos os cenários onde aconteceram o cerco e morte de Sabino Gomes em 1928 como também uma "roda de conversa" sobre a história da Piçarra e a polêmica relação de Seu Toim da Piçarra com o cangaço e com seu líder maior Virgulino Ferreira.


Ticiano Linard, Manoel Severo e Vilson da Piçarra

Por mais de 40 minutos Vilson da Piçarra se valendo de uma memória espetacular e de uma vida inteira ao lado do pai/avô que a ele tudo contava, nos brindou com um dos momentos mais interessantes do Cariri Cangaço, com destaque para o tiroteio onde acabou perdendo a vida um dos mais destacados sub-chefes do bando, Sabino Gomes. Nesta tarde tivemos na Piçarra as presenças ilustres de duas netas de Sabino Gomes: Dra Francisquinha e dona Maria José. 

Com a palavra Vilson da Piçarra: "Sabino Gomes com certeza era um dos cangaceiros mais destacados do grupo de Virgulino; criado sob as bençãos do clã paraibano de Marcolino Diniz, se uniu a Lampião logo após ao episódio do ataque a Sousa, fato esse que veio a antecipar o afastamento do líder cangaceiro ao poderoso coronel Zé Pereira, de Princesa, cunhado de Marcolino Diniz. Em pouco tempo, por sua ferocidade e destemor, Sabino já ocupava lugar de destaque dentre o estado maior do cangaço e se colocava ao lado de Antonio Ferreira e Luiz Pedro, como os lugares tenentes do grande Virgulino Lampião.

Maria José e Dra. Francisquinha, netas de Sabino Gomes, morto na Piçarra

Foi presença marcante em todos os combates desde então, tendo também escrito seu nome em investidas ousadas, sem  a presença do chefe maior, como foi o caso do próprio ataque a Souza e também a Cajazeiras. Em Mossoró esteve ao lado de Virgulino e Massilon arquitetando o ataque e propenso saque a metrópole potiguar do oeste. Quase um ano após a saga do desastre da empreitada de Mossoró; Lampião se dirige com poucos homens ao cariri cearense, novamente entra em terras alencarinas pelos lados de Macapá; atual Jati; dali parte célere para um de seus coitos mais seguros: A Piçarra de "Seu Antonio".

Era o mês de março de 1928; arranchados no parede de um barreiro da fazenda, incumbiram seu fiel amigo e protetor Antônio da Piçarra de algumas encomendas, entre elas; armas e munição, no que ficou acertado que seria entregue dentro de um dia.

O destino guardava para todos esses personagens um desfecho cruel, que marcaria eternamente a relação de seu Antônio da Piçarra e o Capitão Lampião. A volante pernambucana de Arlindo Rocha juntamente com Manel Neto, no encalço dos bandidos, chega à Piçarra. Não havia como evitar! Seu Antônio foi obrigado a guiar os homens de Arlindo Rocha até o coito de Lampião.

Seguindo por duas veredas, uma mais acima e outra mais abaixo, circundando a parede do barreiro, as forças se aproximavam sorrateiramente do coito; chovia e a noite escura ajudava a empreitada de aproximação. No coito já incomodados com a demora de seu Antônio, os liderados de Lampião resolvem ir até a proximidade da casa saber a razão da demora.

Lamartine Lima, Luitgarde Barros, Leandro Cardoso e Manoel Severo em visita a Piçarra

Sabino se distancia do grupo e ao tentar saltar sobre uma passagem de cerca é iluminado por um relâmpago, era tarde! Foi avistado e rapidamente alvejado pelos homens de Arlindo Rocha. Retrocede e é carregado temerosamente pelos companheiros cangaceiros. A volante se adianta e apesar de intenso tiroteio não consegue empreender a perseguição.

Piçarra ficaria marcada por aquele episódio, a noite em que seria morto Sabino Gomes, um  dos mais ferozes cangaceiros da era Lampiônica. A partir daquele dia Lampião engrossava o rol de nomes que clamavam por vingança, e o alvo seria a partir dali: Antônio da Piçarra." Conclui Vilson da Piçarra, neste que foi um dos momentos mais importantes do Cariri Cangaço 2013.

Manoel Severo
Cariri Cangaço 2013

E a lição poética do sertão...Por:Carlos Elydio

Carlos Elydio e Wescley Rodrigues no Cariri Cangaço 2013.

E esta foi uma das lições poéticas que tive nessa última viagem ao Juazeiro do Padre Cícero quando, um amigo queridíssimo, ao comentar a falta de elegância e hombridade de uns poucos, que não lidando bem com seus sentimentos de inveja e baixa autoestima, começaram a lançar suas peçonhas pelos bastidores. 

DA SAGRADA ESCRITURA DOS VIOLEIROS…

A defesa é natural:
cada qual para o que nasce,
cada qual com sua classe,
seus estilos de agradar.
Um nasce para trabalhar,
outro nasce para briga,
outro vive de intriga,
E outro de negociar.
Outro vive de enganar -
o mundo só presta assim:
é um bom outro ruim,
e eu não tenho jeito pra dar.
Pra acabar de completar:
Quem tem o mel, dá o mel.
Quem tem o fel. dá o fel.
Quem nada tem, nada dá.

Zé Ramalho

Carlos Elydio
São Paulo - SP