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João Gomes de Lira, que inspira e eleva ! Por:Aroldo Leão

João Gomes de Lira e Aroldo Leão

O cangaço, com suas expansões e reinvenções, possui seus mitos, contribui para um entendimento maior do Sertão, influi na dinâmica de nossas sensações e repercussões dos carrascais, dilui o tempo em nós mesmos, traz atemporalidades, constatações, dúvidas, conceitos, indeterminações. No chão adusto e aduno, aunado de macambiras e marmeleiros, cangaceiros percorriam distâncias variadas, corriam das Volantes, dos próprios fantasmas. Combatê-los, detê-los, vencê-los era tarefa indigesta, gesta de percepções inusitadas, atadas a senões e agouros, estouros de parabéluns e fuzis, vindouros momentos carregados de tensões e temeridades, distorções e desentendimentos. Os lutos, abruptos, eram comuns. Os vultos, em insultos variados, varriam veios e vaus, vociferavam, vinham de vinditas e vazios, vertiam escuridões e temores. Comungava-se de receios e aperreios, constatava-se a precariedade da justiça, o apego à terra do catingueiro, a falta de estradas, o ensino ainda por se tornar revelador, questionador. O Sertão era os grandes espaços, os traços de seus rios temporários, a mistura da lonjura com a dura realidade de uma época de textura obscura, insegura, saracura cantando e anunciando agruras, sepulturas. Viviam-se preocupações, ocupações determinadas pela ausência de perspectivas naquele mundo ressequido, colhido por solavancos e surpresas desiguais. Os cangaceiros atormentavam, fomentavam instabilidades, debilidades constantes. Errantes, penetrantes, farfalhantes, apareciam e teciam dores, clamores, suores enviesados. Conduziam-se ferindo corpos, percepções. Habitavam as descontinuidades, as perplexidades.

João Gomes de Lira, morto há poucos dias, possuía a memória de quem, sendo perseguidor de cangaceiros, compreendeu suas cruas insinuações, seus breus e alucinações. Nazareno, sereno, conversava compactuando de cadências e coerências, conservava concepções claras, conhecia a força dos umbuzeiros e facheiros, das umburanas e umburuçus, das quixabeiras e catingueiras no universo sertanejo. Penetrou, ainda jovem, na participação de lutas incansáveis, testemunhou a morte de parentes, combatentes valentes, vivenciou as circunstâncias alucinatórias e vexatórias do cangaço. Foi um guerreiro na busca de uma afirmação de seus propósitos e sonhos, conheceu o peso das fatalidades, o intrincado movimento dos cangaceiros no solo sagrado do Sertão. João Gomes some da face da terra, mas não de nossas almas, continua a espalhar sua canção de cordialidade e humildade, nos mostra que a vida, com sua fragilidade e efemeridade, constrói destinos nobres, abertos aos grandes voos, aos entoos das peiticas e das seriemas, às percepções gentis, unidas a singularidades e vastidões. Saber respeitá-lo, admirá-lo é, antes de tudo, uma forma de compactuar de sua sabedoria e comunhão com o cosmos, homem simples, filho do Sertão, de uma Nazaré que o viu nascer e percorrer caminhos que o tornaram tenaz, capaz de percorrer os carrascais atrás de bandoleiros e fluir na comunhão intrincada dos espinhos dos coroas-de-frade e xique-xiques. Tomba o grande lutador, a vida segue, os instantes consolidam os enigmas do Sertão, cantam os pássaros-carão e os joões-corta-pau, as baraúnas e aroeiras recriam lumes e larguezas, o cangaço trama suas histórias e infinitos, espaços e concepções.

Aroldo Ferreira Leão

NOTA CARIRI CANGAÇO: Aroldo Ferreira Leão é pesquisador de temas vinculados ao Sertão. Possui 130 livros publicados, tem participação em 22 antologias. É professor da UNIVASF (Universidade Federal do Vale do São Francisco). Ainda este ano estará publicando o livro Lampião: Um Estudo de Buscas e Essências. Mais informações sobre o autor estão na home-page: www.aroldoferreiraleao.com.br

Mais um adeus a João Gomes de Lira Por:Ana Lúcia

Professora Ana Lúcia e o grande João Gomes, em sua famosa cadeira de balanço na encardida Nazaré do Pico...

Uma pessoa especial.O céu agora recebe mais uma estrela para brilhar no seu infinito.João Gomes de Lira se foi, e com ele toda uma vida de história, história de luta, de coragem, de trabalho e amor a sua terra e a sua família. Eu tive o imenso prazer de conhecê-lo, de estar em sua casa por alguns dias tendo a honra de ajudar a preparar uma programação festiva pela passagem do seu aniversario que esperávamos com muita ansiedade, enfim.Foram momentos marcantes em que pude ver mediante seu comportamento diante das pessoas que o procuram, sua simplicidade, cordialidade, atenção e de uma extrema educação para com todos.

Sua memória e narrativa excepcional, de voz pausada, nos revelava um excelente historiador que era em seus muitos anos de pesquisas sobre o banditismo no sertão.O tenente João Gomes de Lira foi um dos valentes nazarenos que lutaram contra Lampião e seu bando por muitas vezes.Hoje, concluída sua missão aqui na terra, parte para os braços do Senhor para descansar o sono dos justos. Muito obrigada, tenente João Gomes de Lira, pelo seu carinho e sua amizade.

Ana Lúcia




Comunidade do Cangaço de Luto, morre João Gomes de Lira Por:Manoel Severo

Tenente João Gomes de Lira por ocasião de Homenagem recebida pelo Cariri Cangaço

Comunicamos a toda família Cariri Cangaço, que nesta manhã recebemos a notícia do falecimento na cidade do Recife na noite de ontem de um dos últimos e principais personagens vivos, desta grande saga que foi o ciclo do cangaço em nosso nordesre. Faleceu o amigo de todos, a pessoa gentil e amável que a todos recebia com ataenção e elegância, tenente João Gomes de Lira, da famosa Nazaré do Pico, Carqueja, no município de Floresta.

Nos deixa um dos mais valentes perseguidores de Virgulino Ferreira, membro de uma das famílias ilustres deste que se tornou o mais famoso berço de combatentes contra o cangaço. A toda sua família o nosso mais sincero sentimento de respeito e saudade a um grande nordestino, um grande pai de família e um grande policial, que dignificou o nome da corporação pelo exemplo de trabalho, dedicação e seriedade.

Nosso abraço.
Manoel Severo
Cariri Cangaço - GECC - SBEC