Trajeto de vida traçado com sangue...

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Olho no Olho...
Por Julio Cesar Ischiara!

Virgulino por Marcel Fukuwara


A Psicologia do Cangaço foi muito bem analisada por Juracy Marques no livro Maria Bonita: Diferentes contextos que envolvem a vida da Rainha do Cangaço, organizado juntamente com meu querido amigo João de Sousa Lima. Entretanto, a análise em questão é de base psicanalítica, para se conhecer razões de comportamento de um grupo ou categorias de grupos humanos como líder, liderado, opressor e oprimido, que é comum tanto para cangaceiros como para políticos, soldados, estudantes, trabalhadores, etc.

De forma alguma quero desmerecer a análise feita nesse livro, pois considero um trabalho perfeitamente realizado e embasado numa ciência que amo e pratico como profissional. Falar para um público leigo, numa análise psicanalítica, sobre libido, mecanismos de defesa, castração, idealização, etc., é um trabalho árduo, que Juracy Marques expôs com rara competência. Explica a devoção dos componentes do grupo ao seu líder Lampião, onde diz que há um desejo de ser igual a ele, atribuindo algumas características que não são reais, como se ele fosse um deus:“Diz que no caso da identificação, o ego se “enriquece”, pois supõe qualidades às características do objeto, do líder, apesar da sua condição de servidão. Já na idealização ele se “empobrece”, uma vez que se entrega totalmente a ele, idealiza coisas que não possuem existência real. Divinifica-o” (Lima, 2010:pg. 62 e 63). À análise psicanalítica de Juracy Marques, gostaria de acrescentar questões sociológicas que contribuíram na formação do grupo de Lampião e que são analisadas à luz das teorias psicológicas aplicadas, também, às questões grupais.

Julio ao lado de sua esposa, Juliana ischiara, em noite de Cariri Cangaço
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Virgulino Ferreira da Silva nasceu nos últimos anos (1898) do século XIX, em pleno sertão nordestino, filho de família religiosa e trabalhadora. Os valores morais de então eram sagrados e seguidos religiosamente, principalmente a honra, primeiro aos pais e à família. O nordeste brasileiro, em particular, vivia e vive até hoje, num patriarcado machista, onde as ordens do pai eram seguidas à risca, mas a mãe sempre tinha uma influência importante nos destinos familiares.

A formação moral de Virgulino Ferreira da Silva não foi diferente daquela dos meninos de sua idade, mas, por suas características físicas, habilidades e inteligência diferenciadas, destacou-se na destreza do trato de animais, no aproveitamento dos conhecimentos adquiridos em suas viagens como almocreve e, com o tempo, no manuseio de armas, sem contar o aprendizado de técnicas militares, destacando-se como líder. Existiam duas classes sociais, aquela que mandava e a outra que obedecia. Nessa dicotomia existencial, o tratamento dedicado à prole, também era diferente, pois os filhos dos poderosos tudo podiam e tudo lhes era permitido. Além disso, conviviam juntos, brincavam juntos e cresciam juntos. Entretanto, quando perto da vida adulta, tinham que cuidar de suas vidas, onde aqueles que serviam continuavam servindo ao senhor das terras ou seguiam outros caminhos e assim foi com Virgulino e Zé Saturnino.
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Enquanto o pai de Virgulino era pacifista e tudo fez para evitar que a família entrasse em conflitos, mudando-se com freqüência por ser vítima de perseguições, o pai de Zé Saturnino permitia e contribuía para que o filho tomasse as atitudes que queria, o que determinou o rumo da vida desses personagens.Como não se admitia “levar desaforo para casa”, as divergências eram resolvidas à base da força bruta e a coragem para tanto, ainda hoje, é buscada através da bebida e, quando a tarefa não era cumprida, ficava adormecida no íntimo do desrespeitado, crescendo sempre que alguém lembrava do desaforo recebido, donde sempre temos notícias de atos praticados por pessoas em estado de embriaguês. 
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A trajetória de crimes de Virgulino Ferreira da Silva teve motivações sociais e, não acredito que tenha sido por uma personalidade sociopática ou sádica como acreditam alguns, pois, o seu comportamento não se enquadra num diagnóstico psiquiátrico de psicopatia. Evidente que muitos de seus atos foram cruéis e alguns comportamentos podem ser descritos como diferentes, como a vaidade, a religiosidade exacerbada, o gosto por jóias e seu aguçado sexto-sentido, que são reflexos da pressão psicológica da responsabilidade de ser um grande líder, de protetor e cuidador de sua gente.

Não há um grande líder na história universal que não tenha sido excêntrico, apresentando gostos e comportamentos considerados estranhos para a maioria dos simples mortais. Primeiro por que sua condição de detentor do destino dos seus seguidores e do poder de decisão inquestionável de seus atos, a satisfação dos seus desejos não tem freio moral ou o superego atuante e, assim, seus desejos devem ser satisfeitos sem contestações. Há um dito popular que diz que “se você quer conhecer, realmente, uma pessoa, dê poder a ela”.
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Além disso, no caso de Virgulino, que se transforma no mito Lampião, os desejos e prazeres possíveis numa vida em fuga pelas caatingas nordestinas eram poucos e muitos dos atos mais perversos atribuídos a ele são questionados por grande parcela de estudiosos do cangaço. Um desses prazeres tem ligação direta com a entrada das mulheres no cangaço, onde entramos em outra perspectiva: a questão de gênero e da sexualidade. A vida das mulheres do sertão nordestino seguia a tradição judaico-cristã: cuidar dos afazeres domésticos, casar e ter filhos. Viviam sob as ordens do pai e, depois, dos maridos. Maria de Déa casa-se jovem e mantém um relacionamento tumultuado com seu marido, namorador e estéril. Possivelmente, o fato de não alcançar a maternidade, tenha contribuído para aumentar suas frustrações e diminuir o gosto pelo seu companheiro, facilitando sua vulnerabilidade às investidas amorosas de Lampião e à perspectiva de uma vida de emoções, riquezas e prazeres, presentes nas fantasias que o modo de vida no cangaço oferecia, não muito diferente nos dias de hoje, onde o sonho das meninas é de uma vida nas passarelas e nos palcos, atuando como modelos, atrizes, dançarinas ou cantoras, participando de festas e namorando com homens ricos e famosos.



Jovem, com aproximadamente 20 anos de idade, pressionada pelas agruras advindas das pressões infligidas aos seus pais, por serem amigos dos cangaceiros, decide seguir com Lampião, mudando definitivamente as características do cangaço. O precedente levou, quase que imediatamente, outras 40 mulheres para o cangaço, tornando as investidas criminosas do grupo menos brutais, diminuindo, inclusive, a prática de estupros.


Segundo João de Sousa Lima, Maria de Déa tinha um temperamento que era de difícil convivência. Amorosa com alguns, perversa com outros, seu procedimento variava de acordo com seu humor, simpatia ou antipatia por alguém e, este comportamento, não é diferente de muitas pessoas, não sendo considerado, portanto, patológico. Reconhecidamente tratada como companheira de Lampião e alvo de críticas a respeito da sua entrada no bando, não seria aceitável ser vista como simples objeto dos prazeres do líder e com pouca autoridade, tanto entre as outras mulheres quanto aos subalternos masculinos e, sendo assim, seu comportamento trouxe seguidores e opositores.


Notadamente o cangaço tornou-se mais humanizado com a entrada das mulheres, entretanto, operacionalmente, as atividades continuaram as mesmas, exceto pelo fato de que os homens passaram a tomar mais cuidado em relação a elas, evitando alguns confrontos, desviando rotas para encontrar um coito seguro para os partos e a busca por tutores para seus filhos, aumentando as responsabilidades e os cuidados com a segurança. Portanto, a energia libidinal dos cangaceiros estava canalizada para suas mulheres, diminuindo assim, grande parte das perversidades cometidas com suas vítimas.


Poucas mulheres pegaram em armas para combater e raras foram aquelas que tiveram algum destaque nos bandos. Sendo assim, não podemos creditar que a motivação tenha sido a vida cangaceira, com suas grandes batalhas, fugas espetaculares e grandes caminhadas pelas caatingas secas e espinhentas, mas a vida que os cangaceiros ofereciam a elas, de amores, sexo, jóias, dinheiro e uma pseudo liberdade. Esse foi o grande atrativo e objeto da decisão da maioria dessas mulheres.

Embora muitos cangaceiros tenham perfil psicopático, como Corisco por exemplo, os grupos que se formaram à época, cangaceiros e volantes, tinham finalidades, objetivos bem definidos.


Os cangaceiros escolheram a vida de foras-da-lei, portanto, roubar, saquear e matar eram suas atividades/objetivos e, para tanto, deveriam ter condições de fugir e estratégias de combate. Matar, roubar e/ou morrer eram uma condição natural de vida, portanto, a truculência, violência, barbárie ou que nome se dê a isso, faz parte do pacote e torna os homens e mulheres mais embrutecidos. As volantes eram constituídas por policiais contratados e outros agregados, seja por vocação ou por necessidades financeiras ou sociais. O governo federal, à época, estava direcionando os recursos financeiros para o eixo São Paulo-Minas Gerais, deixando o nordeste brasileiro entregue à própria sorte, cortando recursos, paralisando obras e aumentando o desemprego, dando pouco ou nenhum suporte às forças policiais que não tinham treinamento ou qualquer critério para o alistamento.
 

Podemos considerar os nazarenos como exceção à regra, pois este grupo foi formado com um objetivo muito bem definido: combater Lampião por questão de honra. Sentiram-se ofendidos e queriam cobrar pelo que consideraram uma afronta aos seus brios. Eram corajosos e perseverantes em seus objetivos.

Enfim, quanto ao que havia de comum entre as três entidades vistas aqui, podemos citar o clima político local, com o mando e desmando dos coronéis e políticos, o flagelo climático gerador de fome, desemprego e submissão, o clima político nacional, onde o nordeste era visto como um fardo e, sendo assim, desprezado e abandonado e a cultura de então, onde as desavenças eram resolvidas com o preço da vida, na base da bala ou do punhal.


Particularmente não vejo outra perspectiva de vida para Virgulino, Maria de Déia e nazarenos, pois, o trajeto de vida desses protagonistas foi traçado com sangue e não gostaria de entrar na perspectiva judaico-cristã de dar a outra face diante de tantas desgraças e, além de tudo, a personalidade dessas pessoas era muito peculiar e, com certeza, não agüentariam uma vida de submissão aos poderosos de então e, quanto aos nazarenos, era uma questão de sobrevivência e de honra.


Meu amigo Severo, espero ter cumprido a missão que me foi confiada e lembro que muitos aspectos não foram analisados devido às diversas contradições em relação a alguns fatos acontecidos. Levei em consideração os relatos considerados verdadeiros pelos livros e discussões com os grandes mestres do cangaço. É fato que há muito a ser dito, sou iniciante nesse mundo apaixonante do estudo do cangaço e, portanto, passível de falhas que podem ser importantes nessa análise. Entretanto, que seja um pequeno marco para estudos mais profundos sobre essas grandes figuras da nossa história.

Um grande abraço amigos do Cariri Cangaço...


Julio Cesar Ischiara

Psicólogo-Quixadá-Ce.
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Vilson e Antônio da Piçarra Por: Manoel Severo


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Vilson e pesquisadores na fazenda Piçarra

Quando se pesquisa a história do cangaço na região do cariri; aqui no sul do estado do Ceará; pelas terras dos municípios de Porteiras, Jati, Jardim, Brejo Santo, Missão Velha, enfim; com certeza iremos nos defrontar com um dos personagens mais marcantes deste vasto e rico universo de nossa história, o senhor Antônio Leite Teixeira, ou simplesmente, Antônio da Piçarra.

Na primeira edição do Cariri Cangaço, no ano de 2009, tivemos a grata oportunidade de levar nossos convidados a uma elucidativa visita técnica à famosa e emblemática fazenda Piçarra; por quase uma década um dos maiores coitos do Rei do Cangaço em terras cearenses. Seu Tôim da Piçarra, sertanejo de fibra, destemido e acima de tudo leal, acabou se tornando por contingencias do destino, um dos maiores coiteiros e amigos de Virgulino Ferreira da Silva, até os idos de 1928 quando do episódio do cerco e morte de Sabino Gomes pela volante de Arlindo Rocha e Manoel Neto, nas terras da Piçarra. 

 Jack de Witte, Manoel Severo, Bosco André e Vilson

"...muito se tem falado sobre o meu avô Antônio da Piçarra, mas poucos sabem da real e verdadeira história de sua ligação com Lampião..."

Neste último mês de Março tivemos a oportunidade de novamente; desta vez acompanhado dos confrades pesquisadores, José Cícero, Jack de Witte e Bosco André; visitar novamente a Piçarra; ali fomos recebidos pelo neto de seu Tôim da Piçarra, Vilson Santana que como das outras vezes, com uma dedicação e uma memória espetacular, nos brindou com a verdadeira "Saga de Antônio da Piçarra"; nos foi passado momentos marcantes da vida deste que, de uma hora para outra, passou de melhor amigo a maior inimigo de Lampião...

"...minha avó tinha fortes ligações com a família de José Saturnino de Vila Bela, no Pajeú e meu avô acabou tendo essa forte ligação com Virgulino, é a vida!"

Foram algumas horas de pura história e muitas revelações, uma delas para mim inteiramente nova: A ligação da esposa de seu Antônio da Piçarra com José Saturnino, outra grande revelação foram as lágrimas do sertanejo quando não pode evitar o cerco e o "fogo da Piçarra" contra seu amigo Lampião.


"...meu avô não pôde fazer nada, a volante estava em sua casa e mantinha sob ameaça sua esposa e filhos, não tinha saída, teve que levar os homens ao local onde estavam os cangaceiros..."

Vilson nos contou parte da vida deste grande personagem, o começo de sua amizade com Lampião, os episódios de quando os primos de Virgulino, da família Paulo, estiveram sob sua proteção na Piçarra, a chegada de Ezequiel e Virgínio, o cerco, o fogo e a morte de Sabino Gomes, o ódio de Lampião, os conselhos de Padre Cícero, a peitada de Lampião a Moreno para matar seu Antônio, etc.

 Vilson, José Cícero e Jack de Witte

"...foi aí que o tenente Arlindo Rocha falou: seu Toim eu até tenho paciência mas não sei se posso segurar Manel Neto; ali meu avô teve que entregar Lampião..."

Sem dúvidas tivemos uma manhã espetacular e ficou uma certeza: Vilson Santana será um dos Conferencistas do Cariri Cangaço 2011 com a "Saga de Antônio da Piçarra"  como também teremos a visita técnica a este cenário marcante da história do cangaço em nosso Cariri, no município de Porteiras, a Fazenda Piçarra.

Manoel Severo
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O famoso banco de Lampião

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Antônio da Piçarra e o famoso "banco de Lampião"

Um dos atrativos para quem visita a fazenda Piçarra, de seu Antônio da Piçarra, é sem dúvidas o famoso "banco de Lampião" , único objeto na casa da época do cangaço, quando por ali passavam os principais grupos de cangaceiros, "nele" costumava sentar Virgulino Ferreira da Silva em longas prosas com seu amigo e anfitrião Antônio da Piçarra.

"...Esse banco é mais velho que meu avô, foi feito em 1882, já vai completar 130 anos..."



O detalhe que virou personagem principal: O banco de Lampião e os pesquisadores, Jack de Witte e Bosco André.

Manoel Severo
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Luitgarde e a Derradeira Gesta Por: Revista Sinais

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Luitgarde Barros entre Padre Roserlandio e Aderbal Nogueira

Abaixo transcrevemos pequeno trecho de entrevista da pesquisadora e escritora Luitgarde Cavalcante Barros aos jornalistas Adélia Miglievich e Mauro Petersem Domingues, da Revista Sinais, da Universidade Federal do Espírito Santo.

Adélia – Sua tese que virou livro “A Derradeira Gesta - Lampião e Nazarenos Guerreando no Sertão” gerou grande polêmica, não? Em seu julgamento, na época e hoje, por que algumas pessoas não queriam que se maculasse “Lampião”? Para além dos interesses de alguns cineastas, por exemplo, que sociedade, a seu ver, está por trás da mitificação de uma personagem como Lampião?

Luitgarde – O tema violência, ontem como hoje, numa sociedade tão acintosamente desigualitária e injusta, gera polêmica. Se não, como explicar tanto cientista social e tantos políticos e jornalistas “tentando glorificar as ações de brutalidade explícita”, com a exposição de corpos de “bandidos eliminados pela lei, choque de ordem” etc., num país onde a Constituição Federal não institui a pena de morte? Quantos “trabalhadores cidadãos” (uso a expressão apenas porque são moradores de “cidades”) são assassinados ou vilipendiados nessas “campanhas”, em muito semelhantes à “Campanha de Canudos”? 


Renato Cassimiro, Manoel Severo, Melquiades Pinto Paiva e Luitgarde Barros

Por trás de grupos de facínoras armados matando e vendendo droga, estão as “corporações empresariais e partidárias” que vivem do sangue de quem trabalha. No tempo de Lampião, era a mesma coisa. Ele era a encarnação, a realidade dantesca e grotescamente ornamentada da violência institucionalizada de um “país rural”, como hoje as máscaras, roupas de malha, disfarces mil e “representações” múltiplas dos bandidos são a realidade materialmente vivida pelas vítimas, ou vendida como ficção nos enlatados de TV. Eles encarnam a violência indescritível do mundo neoliberal, com donos de fábricas de armas vendendo a governos genocidas, o extermínio de povos, para que os “empresários” e as “corporações” desfrutem dos recursos naturais de qualquer país, submetendo seu povo a condições de miserabilidade reeditadas das primeiras formas de colonização. A tecnologia da destruição humana é o maior cabedal da civilização do século XXI...

...como o extermínio pelo cangaço se realizava com as “armas mais modernas do Brasil”, repassadas para Lampião, a preços de “monopólio comercial”, por seus protetores – grandes industriais, juízes, desembargadores, autoridades policiais, governadores e grandes fazendeiros e comerciantes. 

Os cineastas usam a liberdade de criação ficcional, enquanto os que desfrutam de fortunas herdadas de protetores de cangaceiro – Leia-se Indústria do cangaço – escondem a origem suja de sua riqueza.

Para ver a entrevista da Professora Luitgarde em sua íntegra, visitar o link abaixo:

Produção Cariri Cangaço
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Sinho Pereira, uma vida de aventura! Por:Ivanildo Silveira

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Sinhô Pereira
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Vejam abaixo a famosa entrevista que o cangaceiro Sinhô Pereira, chefe de Lampião, concedeu ao senhor Luiz de Lorena, na cidade de Vila Bela, atual Serra Talhada, em 1971, quando de seu retorno, 50 anos depois de sua ida para Goiás. Seu nome na pia batismal deve-se ao fato de ter nascido no dia de São Sebastião, 20 de Janeiro de 1896.

SEBASTIÃO PEREIRA DA SILVA (SINHÔ PEREIRA) nasceu
em Vila Bela, em meio a  uma áspera guerra entre as famílias Pereira (a sua) e Carvalho. Foi chefe de cangaceiros e das suas mãos LAMPIÃO recebeu o bando.  Sinhô Pereira foi embora para Goiás no ano de 1922 e só voltou beber das águas límpidas e saborosas do Pajeu no ano de 1971 (mês de junho), quando veio visitar a família em Serra Talhada/PE.

Naquela ocasião Luiz Lorena e Sá, da família Pereira , travou o seguinte diálogo com seu brioso parente, que fora no passado o braço armado do clã :

Lorena - Qual o momento que marcou sua vida de maneira indelével ?
Sinhô - Foram tantos os momentos dramáticos no meu trajeto que seria impossível escolher um.

Lorena - Qual seu dia de maior alegria?
Sinhô - Chegar a Serra Talhada 50 anos depois e ser recebido por
todos os parentes com carinho que me dispensaram, foi na verdade motivo de muita alegria.Lorena - Qual seu dia de maior tristeza ?
Sinhô - Estando eu
em Lagoa Grande, distrito de Presidente Olegário/MG, recebi a noticia do falecimento de Luiz Padre, em Anápolis, Goiás. Nem ao sepultamento compareci.


Lorena - Você tem alguma grata satisfação do seu tempo de guerrilheiro ?
Sinhô - Não. Nasci para ser cidadão, casar-se e constituir família. Fui namorado da moça mais bonita do Pajeu.

Lorena - Por que se envolveu nessa tragédia ?
Sinhô - A impunidade
em Vila Bella teve seu auge em minha juventude; do assassinato de seu Né - meu irmão - nem inquérito policial foi aberto.
Lorena - Você reconhece o que seus contemporâneos dizem sobre o seu espírito guerreiro e de ser você o mais valente entre esses ?
Sinhô - havia homens valentes até quase a loucura, entretanto, brigavam para matar. Na hora de morrer, até fugiam do campo de luta. Naquelas circunstâncias matar ou morrer para mim, seria a mesma coisa; daí a diferença.

Lorena - Desses confrontos, qual o que você teve mais proveito ?
Sinhô - A família Pereira (minha família) vivia atormentada em face de minhas ações. Era imperativo mudar a face da história.

Lorena - Quais os fatos que mais perturbavam você ?
Sinhô - Vários. No começo tudo o que eu fazia errado dava certo. Com o passar do tempo tudo o que eu fazia certo dava errado.

Lorena - Entre estes, você poderia destacar um ?
Sinhô - Sim. A morte de João Bezerra,
em Bom Nome. Na forma como eu procedi, acelerou minha decisão. O meu estado de espírito estava de tal forma desajustada que já não tinha condição de conduzir as ações do grupo que comandava.Lorena - Em que circunstância Lampião apareceu em sua vida ?
Sinhô - Ele e os irmãos chegaram de Alagoas depois do assassinato
do pai, dispostos a confrontar com José Saturnino, seu inimigo comum.Não tinham condições financeiras nem experiências. Procuraram-me e participaram com muita bravura de alguns combates.

Sinho Pereira

Lorena - Por que Virgolino Ferreira da Silva ganhou o apelido de Lampião ?
Sinhô - Num combate, a noite, na fazenda Quixaba, o nosso companheiro Dê Araújo comentou que a boca do rifle de Virgolino mais parecia um lampião. Eu reclamei, dizendo que munição era adquirida a duras penas. Desse episódio resultou o Lampião que aterrorizou o Nordeste.Lorena - Você não quis Lampião em sua viagem para Goiás ?
Sinhô - Ao despedir-me dele na Fazenda Preá, no município de Serrita/PE, pedi para não molestar ninguém da família Pereira. Ele prometeu e cumpriu. Não quis, entretanto, seguir viagem comigo.

Lorena - Depois de instalado em Goiás você convidou Lampião para ir morar naquela região ?
Sinhô - Sim. Quintas (meu irmão) foi o portador da carta. Ele respondeu verbalmente, dizendo que não aceitava o convite para não me criar embaraços.

Lorena - Você recebeu o convite de alguém para atacar Antônio da Umburana em Queixada (Mirandiba) ?
Sinhô - Não. Tudo aconteceu por minha conta e risco.

Lorena - E o seu problema com Isnero Ignácio, como aconteceu ?
Sinhô - Naquele tempo chegou para se agrupar comigo o meu parente Luiz Pereira Nunes (Luiz do Triângulo) acompanhado dos primos Chiquito e Teotônio do Silveira, valente ao extremo. Depois de várias refregas, explicou-me que estavam comigo por que foram escorraçados da sua propriedade na região de Santa Rita pelo primo Isnero Ignácio. Estavam se preparando para desforra e esperava o meu apoio.

Lorena - Qual foi sua reação ?
Sinhô - Ponderei que já bastavam as inimizades já existentes e que Sinharinha, mãe de Isnero, era filha de tia Donana, figura considerada sagrada pela minha mãe.

Lorena - E Luiz do Triângulo, como reagiu ?
Sinhô - Ficou contrariado, sem aceitar minhas ponderações. Entretanto, concordou que eu fosse com Luiz Padre pedir a interferência de Antonio Inácio de Medeiros também primo de Isnero, Sr. Sebastião Inácio de Oliveira, concordou. Isnero e mãe Sinharinha foram radicais, não aceitaram qualquer forma de reconciliação, inclusive proibiram o parente Luiz do Triângulo de voltar a sua propriedade.

Lorena - E daí, o que aconteceu ?
Sinhô - Foi uma estupidez o que fizemos. Ateamos fogo na Fazenda Santa Rita, deixando em cinzas o roçado, o canavial, o engenho, os currais e a casa da fazenda.

Lorena - Dos oficiais da policia militar que o combateram, qual o de maior respeito ?
Sinhô - O capitão José Caetano era um bravo. Intrépido e leal no mais duro da refrega.

Lorena - Qual o combate mais dramático que você participou ?
Sinhô - Foi na Serra da Forquilha, numa semana em que estávamos repousando. Éramos doze homens, cercados num casebre, por cento e vinte policiais. Sem outra alternativa bradamos para que segurassem as armas porque iríamos para a luta de corpo-a-corpo e de corpo a punhal.

Lorena - O que aconteceu ?
Sinhô - O que aconteceu? Saltamos e fugimos ilesos.
Lorena - Por que a idéia de avisar aos sitiantes, nessa e em outras oportunidades, que continuariam a luta, mas, na verdade, abandonavam o refúgio ?
Sinhô - Enquanto aqueles procuravam entrincheirar-se, nós fugíamos.

Lorena - Você viajou para o Planalto Central desprovido de recursos financeiros ?
Sinhô - Não. Isidoro Conrado e Né da Carnaúba financiaram a nossa viagem com dinheiro que compraríamos duzentos bois.

Lorena - Em Dianópolis, onde se instalaram, tudo correu bem ?
Sinhô - Vivemos uma epopéia mais dramática do que aqui, expressar numa entrevista nem vale a pena...

Lorena - Por que essa expressão! "minhas navegações" quando sabemos que navegar é próprio do oceano ?
Sinhô - Ouvíamos dizer que o mar é uma imensidão de água, e como a extensão de nossa desgraça não tinha limites, usávamos a expressão "nossas navegações".

Lorena - É verdade que você anteviu a genialidade de LAMPIÃO ?
Sinhô - Dos homens que deixei em armas no Pajeu, só Virgolino podia chegar à celebridade. Os demais eram formiga sem formigueiro. Minha profecia foi cabalmente comprovada. Lampião nada aprendeu comigo. Já nasceu sabendo".
 

Sinhô Pereira faleceu numa manhã no dia 21-08-1979 , em Lagoa Grande - Estado de Minas Gerais -, deixando para trás uma vida e uma história marcadas de angústia, dores e vontade de viver feliz com sua família e amigos.

Sinhô Pereira era uma baraúna ! ( Luiz Lorena )

Fotos: Algumas foram cortesia do Museu do cangaço/Serra Talhada-PE e amigo SOUSA NETO.
 
Ao elaboramos essa matéria, contamos com a colaboração dos amigos: Kiko Monteiro (Lampião aceso) ; Sousa Neto/Barro-CE, além da Prefeitura de Lagoa Grande/MG (Site) E do escritor LUIZ LORENA/Serra Talhada/PE (saudosa memória) .
Um abraço a todos
IVANILDO ALVES SILVEIRA
Colecionador do cangaço
Membro da SBEC
Natal/RN
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Guardiões da memória do cangaço Por: Wescley Rodrigues

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 Wescley Rodrigues ao lado dos amigos Kiko Monteiro, Juliana Ischiara e Narciso Dias, em noite de Cariri Cangaço

Meus nobres amigos e confrades, saudações cangaceiras!
Depois de quase três anos de muito trabalho, pesquisas e dores de cabeça, consegui concluir a minha dissertação de mestrado intitulada: 
“Nas Trilhas do Rei do Cangaço e de suas Representações (1922-1927)”,
defendida pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal da Paraíba.
Após esse longo período, é oportuno fazer um balaço do quanto foi gratificante a produção/construção desse trabalho, apesar de todos os percalços da pesquisa, as inconstâncias, pressões e medos os quais se abateram sobre mim. Um ponto bastante positivo, que sem sombra de dúvida ficará marcado nas minhas lembranças, diz respeito aos inúmeros amigos que cruzaram no meu caminho e fizeram o diferencial. Como costumo dizer, e expressei na minha dissertação, esse trabalho foi feito por muitas mãos, mãos amigas, guerreiras e solidárias que me ajudaram por meio do acesso a documentos, livros, sugestões, críticas, não sendo um trabalho somente meu, mas em parte o mérito também pertence a eles(as). Resta-me, então agradecer a toda essa família que gentilmente me acolheu e me enriqueceu como pesquisador, historiador e pessoa. As marcas deixadas por vocês na minha vida são indeléveis; o respeito e admiração serão uma constante. Poucos fenômenos da nossa história têm tantas pessoas dedicadas em guardar a memória dos feitos, acontecimentos e fatos, sendo que, eu considero a SBEC e seus membros como verdadeiros guardiões da memória do cangaço, tendo cada pesquisador as suas peculiaridades, especificidades, méritos e limitações.
Muito obrigado por tudo, por terem entrado comigo nessas “íngremes trilhas do Rei do Cangaço” e terem carinhosamente me acolhido nessa família ímpar.

Um abraço fraterno e fiquem com Deus!
Prof. Wescley Rodrigues
Brasília - DF
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Barbalha é escolhida pelo PNUD

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O município de Barbalha, na região do Cariri, foi escolhido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) para participar do Projeto de Fortalecimento de Capacidades para o Desenvolvimento Humano Local. As Nações Unidas irão investir US$ 1,8 milhão em quatro municípios brasileiros. Além de Barbalha, participam do projeto Abaetetuba (PA), Jaguarão (RS) e Marliéria (MG). Segundo a representante do PNUD e coordenadora do programa, Ieva Larazeviciute, que esteve na Secretaria das Cidades no início de abril, ainda não está definido quanto será aplicado em cada cidade.

A Secretaria das Cidades do Ceará será o órgão responsável no estado pela execução do projeto. A ideia é criar uma feira que reúna os projetos exitosos de outros estados e até de outros países para servir de exemplo e para serem adequados à realidade local. Além de gestores públicos e estudantes, a também poderá atrair turistas e investidores do Ceará e de estados vizinhos. A programação da feira e o perfil do evento serão discutidos por um grupo de trabalho formado pela Secretaria das Cidades. Segundo Liliana Oliveira, técnica da Secretaria, Barbalha já é beneficiada por um projeto voltado para o turismo e o desenvolvimento humano. O PNUD atua no Brasil em parceria com a Confederação Nacional dos Municípios (CNM).

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O dinheiro disponibilizado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) será usado para capacitar funcionários das prefeituras, do setor privado e do terceiro setor a elaborar e por em prática políticas e projetos que contribuam para melhorias socioeconômicas inclusivas e sustentáveis na cidade. A escolha dos municípios respeitou os critérios principalmente voltados para o desenvolvimento das potencialidades humanas locais, prevendo uma continuidade após o término do programa. Além de Barbalha, os três municípios contemplados com o projeto de Fortalecimento de Capacidades para o Desenvolvimento Humano Local: Abaetetuba (PA), Jaguarão (RS) e Marliéria (MG).

O projeto Cidades do Ceará - Cariri Central - está sendo realizado pela Secretaria das Cidades para promover o desenvolvimento econômico, melhorar a infraestrutura urbana e ampliar as capacidades institucionais dos municípios para a gestão regional do Cariri. Serão investidos no projeto US$ 66 milhões, sendo US$ 46 milhões financiados pelo Banco Mundial (BIRD) e R$ 16 milhões de contrapartida do Governo do Estado do Ceará. As ações estão baseadas em cinco importantes eixos estruturadores: turismo ecológico e de esportes e aventura (Flona e APA do Araripe); religioso (romarias); cultural (bandas cabaçais, artesanato, festas e feiras regionais); científico (Geopark, Museu de Paleontologia); e de eventos e negócios. O projeto irá executar obras que são consideradas estruturantes para o desenvolvimento das nove cidades do Cariri Central.
Fotografias: Pachelly Jamacaru.
FONTE: www.blogdocrato.com
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Para poetas, cordelistas e afins ! Por: Rosário e Dalinha

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Olá amigos confrades e blogueiros poéticos, estamos organizando uma ciranda falando do CORDEL VELHO & CORDEL NOVO! Por favor, mandem suas SETILHAS, que postaremos com muita alegria. O cordel hoje está mais em foco de que nunca e precisamos aproveitar este momento. Na verdade, sempre estivemos caminhando, isto desde nossos idos tempos lá das arábias, europa, america latina e nós = BRASIL. Aqui, ele ganhou fisionomia e carteira de identidade própria, etc... e tal... Há realmente, muito o que falar desse nosso favorito gênero literário, que acabou por influenciar todos os nossos mais ilustres literátos.

VAMOS LÁ??? Estamos esperando por você!!!
Beijos, Rosário e Dalinha
ACESSE AS ÚLTIMAS NOVIDADES EM:
Cordelteca - Memória da Literatura de Cordel
O cordel na internet

Lampião pelo outro lado da luneta Parte I Por:José Cícero

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José Cícero e Dihelson Mendonça

Não há como, mesmo que quiséssemos tirar o grande mérito de Lampião – rei do cangaço, de homem ousado, corajoso, inteligente, perspicaz negociador,  estrategista e profundo  conhecedor dos meandros da caatinga sertaneja. Quem ainda insistir neste propósito de querer ofuscar sua sapiência neste aspecto, mesmo  sabendo destas filigranas pertencentes ao vilabelense Virgulino;  uma coisa é certa: Ou age de má-fé ou no mínimo não teve a capacidade necessária para assimilar no  devido grau os verdadeiros conhecimentos dos fatos e feitos relacionados à palpitante  história de sangue, suor e lágrimas de Lampião e os seus comandados. 

Um verdadeiro exército cangaceirista, que por  quase  duas décadas, pontuou  de grandes acontecimentos os imensos rincões de boa parte dos mais importantes  estados nordestinos. Contudo, para os que procuraram  ir além do que dizem friamente os livros, isto é,  lê-lo em sua autêntica psicologia de homem do sertão. Ainda, muito mais por dentro do que por fora, a partir das suas atitudes, gestos e ações amiúde hão de perceber forçosamente que o título de  rei do cangaço, não lhe foi dado à toa e, tampouco em vão.

Quem teve a infinda paciência de ler  com afinco e denodo todos os sérios narradores e pesquisadores da grande saga lampiônica, certamente se aperceberam que ali estava mais que um cangaceiro revoltado contra a sua  sorte. Ali estava mais que um facínora, na expressão mais lídima do termo. Ou mesmo uma boa-índole, sofredor, bandido ou herói.  Posto que não será possível construir o perfil de Lampião numa direção meramente linear.  Porque Lampião é uma cocha de retalho que ainda está sendo(até hoje) montada aos poucos, pacientemente, há várias mãos. Lampião por tudo isso é atemporal...


Todavia, quem procurou entendê-lo nas minúcias das descrições mais  verdadeiras, talvez deva ter se deparado com um simples homem sertanejo muito parecido com todos os demais. Quiçá diferente mais pela decisão ousada que tomou para si do que por qualquer outra coisa. Um homem profundamente identificado com os seus irmãos de sangue,  de agruras, desesperanças e sofrimento, por quem os exageros fizeram com que muito de nós o visse até hoje de certo modo enviesado, pelo avesso do avesso. Um pária de certo modo(até) deslumbrado diante da opção que fez pela vida de violência que de certo modo quis retribuir à guisa de vingança e troco aos poderosos do seu tempo. Ou quem sabe, na  ânsia louca de sobreviver como  que a nado,  ao oceano de injustiças e dificuldades outras  em que se transformaram os sertões do Nordeste para o todo e sempre, desde que Virgulino veio ao mundo pela primeira vez.  

Vaqueiro-almocreve que por este penoso ofício se tornara um especialista  em sobreviver e vencer  as mais distantes e inóspitas lonjuras da caatinga em sua geografia mais dantesca, espalhadas sobre as almas cangaceiras em léguas tiranas. Numa época das mais difíceis  em que os sertões não passavam de uma verdadeira nação dos esquecidos. Onde a lei quando muito, pertencia aos coronéis do latifúndio. Em muitos casos, bandidos piores travestidos de cordeiros. Razão de toda sorte de injustiça e sofrimento a se abater por sobre os pobres e miseráveis filhos da terra, em cuja legião também  fazia parte o então ilustre desconhecido Virgulino Ferreira da Silva. Aquele que mais tarde pelos seus feitos, ganharia a histórica alcunha de Lampião, reio do cangaço e até mesmo, a discutível patente de capitão abiscoitada um dia no Juazeiro do padre Cícero.

José Cícero
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Lampião pelo outro lado da luneta Parte II Por: José Cícero

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José Cícero e Paulo Gastão
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Há quem diga que Lampião só triunfara por tanto tempo devido a sua rede de coiteiros e facilitadores. Ora, mais que estratégia mais inteligente e perspicaz do que esta? Que sacada mais providencial do que a tessitura desta rede de “amigos”, dispersa pelos grotões dos sertões semi-árido adentro?Lampião soube avaliar o exato valor de cada homem do seu tempo. Soube mexer com  a fome de ganância e de poder de cada indivíduo que cruzou o seu caminho. Negociou bem... Por isso galvanizou até mesmo as atenções  dos poderosos, cujo segredo até hoje, manteve-se guardado a sete chaves.

Ora, que idéia mais admirável do que a de procurar agradar os que tinham verdadeira fome por dinheiro e ouro? Toda a fortuna que captava independente do seu modus operandi era também de certa forma  direcionada(uma cifra considerável) aos que sustentavam aquela formidável e necessária rede de proteção. Tal rede  se estendia desde o mais prosaico  cangaceiros do seu próprio bando indo até o guia ocasional, o coiteiro, o coronel, o soldado e até mesmo o chefe maior de algumas volantes. O cangaço, em especial a partir de Lampião, se transformaria num imenso e lucrativo negócio.

E como até hoje, os grandes negócios têm sempre os seus grandes investidores. Na época do cangaço lampiônica a coisa não era diferente. Era de fato uma imensa rede de apoiadores interesseiros. Gente em alguns casos, de índole bem pior do que as que compunham a legião sanguinária  de Lampião e os seus subgrupos. Obviamente que tudo isso só poderia ser construído com a mais nobre e fina das inteligências.  E, diga-se de passagem, que todo homem inteligência é, necessariamente, um homem admirável e perigoso. Alguém desconfiado da sua própria sombra.  Um ser da mais absoluta exceção, até mesmo nos dias atuais. Sejamos igualmente inteligentes agora, quando estudamos a história de Lampião. Haveremos  desse modo,  de descobrir coisas  novas e  até mesmo de aprender muito com ele (o Lampião). E por que não?

Nesta perspectiva de lançar luz sobre esta suposta rede de  apoiadores é que estamos pesquisando fatos bizarros, carregados de estranhamentos, onde possivelmente há fortes indícios de que houve sim a possibilidade de facilitação das volantes para com os cabras de Lampião.   A exemplo do que aconteceu nos curiosos confrontos das volantes com o bando de Lampião na Serra Grande, na Macambira, no sítio Ribeiros de Aurora e, muito especialmente, no chamado fogo da Ipueiras também ocorrido na fazenda do célebre coronel Izaías Arruda de Aurora.

Fazenda Ipueiras de Izaias Arruda em momento do Cariri Cangaço 2010

Em alguns deles a desproporção era simplesmente absurda, ou seja, 40 soldados para 01 cangaceiro e mesmo assim, Lampião furava o cerco saindo relativamente incólume(sic). O mais curioso é que ainda hoje a  maioria esmagadora dos que há muito pesquisam o cangaço e a história de Lampião  mantém-se enganados. Acreditando piamente apenas na grande sorte de Virgulino ( quem sabe na sua alma de corpo fechado), além da incomensurável capacidade de “preá” do mato. Haveremos, precisamente  de nos posicionar muito além deste convencionalismo cômodo demais para  uma história tão fantástica e mirabolante como a do cangaço em geral  e a de Lampião em particular.

A propósito, o que dizer da íntima relação de proximidade que havia entre Lampião e o seu coiteiro-mor do Cariri cearense Izaías Arruda. E deste, ser parente do major Moisés Leite de Figueiredo, não por acaso comandante maior de todas as volantes quando da perseguição do bando lampiônico quando da saída às pressas de Mossoró?  Por que o major  comandava de longe? Por que se esforçara tanto junto ao governador Moreira da Rocha para dispensar  as volantes dos demais estados quando estavam tão perto de cercar o bando de Lampião cansado, reduzido, sem munição  e famélico?

 A Marcha para Mossoró por Franklin Serrão.

O que está por trás do suposto cerco da fazenda Ipueiras em Aurora?  Como se deu na verdade a famigerada tentativa de envenenamento de Lampião? O que disse o vaqueiro Miguel Saraiva encarregado de preparar a comida?  O que Zé Cardoso dissera depois? Em que circunstância se deu a história traição do coronel Izaías Arruda? E como ocorreu na verdade o incêndio no algodoal da Ipueiras? Por que deixaram o corredor do lado do açude velho, para que o bando fugisse? Por que o major solicitara tão poucos soldados? Por que preferiu os cabras(jagunços) do próprio bando do coronel? Onde foi parar o dinheiro que Lampião trazia consigo até o coito da serra dos Cantins, Coxá, Diamante em Aurora. O que falou Zé Gonçalves acerca destes fatos? Por que este discordara do seu antigo chefe?  Quais foram as autoridades que frequentemente visitaram Lampião quando da sua parada(coito)  em Aurora, esperando Izaías voltar da capital?

Existiu mesmo  a traição? Houve uma tentativa de queima de arquivo? Lampião sabia demais... Tudo não passara de uma grande farsa? Tudo isso haveremos de narrar  em  -  “LAMPIÃO: Antes e Depois de Mossoró”. O cerco da Ipueiras e a suposta traição do coronel Izaías Arruda de Aurora. Enfim, fatos e acontecimentos na sua versão inédita, uma vez que os que pesquisaram e escreveram até agora a história de Lampião, por algum motivo deixaram de assinalar  os acontecimentos da perseguição de Lampião quando da sua marcha dentro do território aurorense em 1927. Tudo isso após a malograda tentativa de invasão da cidade norte-riograndense, cuja trama foi toda ela planejada  na Ipueiras  de Aurora.

José Cícero
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Vem aí a segunda edição do Dicionário da Diversidade Cultural Pernambucana

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Prezado Manoel Severo,  Tudo bem, cabra quente? Infelizmente não tive a oportunidade de bater um papo contigo por esses dias, pois passaste pelo Museu do Cangaço, em Serra Talhada, dias antes da minha presença por lá. Foi uma pena!!!!!

Já iniciamos o lançamento da segunda edição do Dicionário da Diversidade Cultural Pernambucana ou Dicionário de Marcena, como muitos já chamam, numa edição popular para baratear mais o preço do livro. O primeiro lançamento da segunda edição será na UFPE, em abril próximo!!!     
Espero poder revê-lo em breve!

Grande abraço,
Adriano Marcena.

NOTA CARIRI CANGAÇO: Quem não conhece o trabalho desse grande profissional que é Adriano Marcena precisa urgentemente adquirir essa que considero uma das maiores obras literárias, de natureza cultural, da atualidade. Marcena; parabens meu caro amigo, com certeza teremos o sucesso continuado desta segunda edição e já te digo que te aguardamos no Cariri Cangaço, quando setembro chegar.
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Um centenário a cada dia! Por:João de Sousa Lima

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Agora que tudo passou, que um prenúncio de resfriado foi curado e o que parecia ser o desejo de um eterno sono fez meu corpo descansado e revigorado, senti saudades da minha turma, dos meus amigos, das vozes que as vezes ecoavam sonoras e em conjunto, confundindo a atenção de quem tentava prestar atenção. Hoje senti saudades dos meus amigos, dos que compartilharam comigo, o centenário de Maria Bonita.

Hoje eu desejei que todos os anos houvesse um centenário da Rainha do Cangaço, só pra poder ficar pertinho dos que amo e admiro, ouvindo as vozes confusas, abraçando meus amigos, respondendo as perguntas, falando de coisas, curtindo os sorrisos, olhando os sérios e não menos amados, hoje eu queria poder abraçar Paulo Gastão, Juliana Schiara, Ângelo Osmiro, Nely, Josué, Alcino, Severo, Bosco André, Zé Cícero, Luiz Alberto, Júlio César, Kiko Monteiro, Aderbal, Sabino, Jack, Megalle, Dr. Leandro, Souza Neto, Pedro Luíz, Francisquinha, Pereira, Jairo, Cacau, Melinna, Jairo, Seraine, Vilela, Silvinha, Afrânio, Tomaz, Ana Lúcia, Padre Celso, Glória Lira, Edson Barreto, Galdino, Dackson, Paulinha, Janinho.

Foto de Driele Mutti

É bem verdade que saudade não mata... ...mas que maltrata, fere, corroi, espinha.... ...isso pode ter certeza! Queria que todos os anos houvesse um centenário de Maria Bonita, mas como isso só acontece de cem em cem anos, terei que inventar algo só pra poder tê-los aqui, em um futuro bem mais próximo, enquanto vou sentindo saudades vou tendo ideias e juro encontrá-los bem rápido, o duro é ter que esperar o Cariri Cangaço, devia ter um Cariri Cangaço todo mês.... ...Severo, ôôô Seveeero, adianta o Cariri pra maio e depois faremos outro na data que você marcou.

João de Sousa Lima
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