O nome Triunfo

;
Diário de Viagem, A cidade.
Triunfo, Dia 26; 21h 00min

Danielle Esmeraldo e o Teleférico de Triunfo.

O município de Triunfo foi fundado pela Lei Provincial nº 930 de 02 de junho de 1870, sob a denominação de Baixa Verde, e estava vinculada à comarca de Vila Bela. A 13 de junho de 1884, Baixa Verde foi elevada à categoria de cidade. Administrativamente, o município é formado pelos distritos sede, Canaã e Iraguassu. Anualmente, Triunfo comemora sua emancipação política no dia 13 de junho. A padroeira da cidade é Nossa Senhora das Dores.






O nome de Triunfo, originou-se de uma luta entre a família dos Campos Velhos, da cidade de Flores, e os habitantes da povoação de Baixa Verde. Estes queriam o progresso da cidade e criaram uma feira. Com isso, os Campos Velhos não ficaram satisfeitos, tentando acabar com ela diversas vezes. Os habitantes de Baixa Verde lutarem pela sua independência e conseguiram. Dessa vitória surgiu o nome Triunfo.


Manoel Severo

Stella Maris, conforto e tranquilidade no alto da serra.

.
Diário de Viagem, Stella Maris 
 Triunfo Dia 26, 19h 45min

Pousada Stella Maris, marco de Triunfo

Triunfo é sinônimo de tranquilidade, paz, harmonia. Do alto da serra, temos uma infinidade de pousadas; uma em especial nos transporta em uma viagem no tunel do tempo. A Pousada do Centro Diocesano Stella Maris, antigo Seminário e Covento, com prédio inaugurado em 1939, onde antes funcionava o Colégio dos Maristas é simplesmente sensacional, o imóvel foi doado anos mais tarde pelo bispo de Pesqueira, Dom Adalberto Sobral para as irmãs vindas da Alemanha e reestruturado em 1946, dalí em diante passou a ser o Colégio Stella Maris e atualmente reestruturado e moderno, proporciona conforme e tranquilidade, sem perder o encanto e arquitetura de sua época.


Daniel, Danielle e Soraia

A vista para fora

A vista para dentro...

Recanto externo...

Recanto interno...

Danielle Esmeraldo
.

Enfim , Triunfo !

.
Diário de Viagem... Triunfo !
Dia 26, 18h 25min


Nosso primeiro destino rumo às terras pernambucanas, alagoanas, sergipanas e baianas, é o município de Triunfo, o ponto mais alto do estado de Pernambuco; 1.260 m no Pico do Papagaio, seu ponto mais alto. Aqui a beleza de seu patrimônio arquitetônico se une ao clima ameno, mesmo no verão, e a uma natureza privilegiada, fazendo da visita a essa maravilhosa cidade serrana, simplesmente encantadora.

Chegamos perto das 13 horas, acabamos por encontrar o confrade Ricardo Sabadia e família na acochegante Pousada Baixa Verde, onde almoçamos. De culinária ímpar, o tempero da Pousada nos remete à cozinha de nossas avós... Triunfo começa a fazer a diferença pela própria energia que emana da cidade e de seu povo. Cadeiras nas calçadas, pessoas sempre indo e vindo por entre as ruas de paralelepipedos; seu casario colorido e as antigas construções do século XIX, seculares e tradicionais conventos e igrejas, os mirantes, os engenhos, as cachoeiras, o teleférico, os Caretas com seus trajes extravagantes e tradicionais; tudo isso nos fazendo esquecer um pouco a correria dos centros urbanos.

Majestoso Teatro Guarany

Caretas; Patrimônio de Triunfo

Ricardo Sabadia e Manoel Severo

Autêntico queijo com melaço da Baixa Verde

O município Pernambucano de Triunfo, distante 399 km de Recife e a 236 Km de nosso Crato, possui uma altitude média de 1004m, a vegetação é completamente diferente de nosso sertão semi-árido, por isso passou a ser conhecida como “O Oásis no Sertão”, sem falar no famoso açude João Barbosa Sitônio localizado no bem no centro da cidade com o magnifico Cine Teatro Guarany, inaugurado em 1922 e construído com rocha e óleo de baleia para dar sustentabilidade aos três pavimentos do prédio que é uma das 20 Maravilhas de Pernambuco.

Até daqui a pouco...

Manoel Severo
.

Papai Noel do Sertão

.

Lá vem o Papai Noel do sertão montado num burrico a chupar umbu, lamber rapadura corajoso qui só!

Nunca vi num sertão tão quente a peste de um home vestido de vermelho, com uma barba qui parece branca mais num é! Oxente, a barba já avermelhou há muito tempo. Nestas estradas de chão não tem barba que sobreviva limpinha.

Tombém... , acredite meu irmão, este filho de uma égua é louco das ideia!O coitado do burrico tá com os caçuá cheio. O bichinho num ta agüentando não.

Valei-me minha Nossa Senhora, meu Santo Antonio, meu padim Padi Ciço! Deve de ser mirage, esse home de vermelho num ixiste....? O homem aperta os olhos, passa as mãos como a limpar as vistas. A criançada se junta. O avermelhado pára. O homem se assusta. O vermelhão desce do burrico apressado agarrando as calças que teimam em cair.

Segue mato adentro e some. Ninguém entende o acontecido. Oxente, to aqui a matutá os meus miolo. Cum certeza o vermelhão tá com uma dor de barriga lascada. Tava pálido o infeliz. Coitado, pensa que é fácil ser Papai Noel no sertão? Quanta ilusão! Até teve as boa intenção o cabra. O burrico arria as patas. O bicho tá cansado.  Dá dó. Colocam água. O animal parece agradecer.

Mas e o tal homem, cadê? A criançada fica na espera. Agoniam-se. De repente o tal home, o Noé que falam na televisão aparece só de ceroula e chapéu de vaqueiro na cabeça. Faz-se silêncio. As mulheres se escondem. A criançada se inquieta, cerca o homem e o burrico. O ex Noé começa a mexer nos caçuá a destribuir jenipapo, jerimum, farinha, feijão de corda, jaca, cajá e garapa de umbu pra quem quisesse.

Aquilo virou uma festa. Hum, oxe, tá vendo mirage! Esse é o verdadeiro Noé do sertão... visse!

FONTE: sanbahia.blogspot.com
espetacular página de Sandra Iannini
.

Um Feliz Natal Nordestino !

.

Queridos amigos do Cariri Cangaço, recebam nosso afetuoso abraço de Luz.
Feliz Natal!!!
Que o Deus Supremo abençoe a todos.

Manoel Severo


Natal Nordestino
Composição: Eliezer Setton

Eu pensei que todo mundo
Sem primeiro nem segundo
Fosse filho de Papai-do-Céu
Eu pensei de brincadeira
Numa vida de primeira
Onde eu tenha o que eu queira
De verdade em vez de no papel

Eu pensei e ainda penso
Que o amor e o bom senso
Vão reinar pra gente ser feliz
Eu pensei bem do meu jeito
Que eu também tenho direito
Ao Natal do meu país

Refrão:
Meu pinheiro é meu mandacaru
Com enfeites de algodão
Alpercata no terreiro
Os Reis Magos três vaqueiros
Aboiando no Sertão

Meu pinheiro é meu mandacaru
Cada um é nosso irmão
E o Natal, se verdadeiro,
Há de ter o ano inteiro
Paz na Terra aos bons de coração
E o Natal, se verdadeiro
Há de ter o ano inteiro
Paz na Terra aos bons de coração

Para saber mais sobre o forrozeiro alagoano Eliezer Setton clique aqui http://migre.me/395mi

..

Malas prontas para mais uma Caravana Cariri Cangaço

...

Passadas as festas de Natal, já estaremos de malas prontas para mais uma vez rever amigos e rememorar momentos inesquecíveis junto à família Cariri Cangaço. Neste próximo dia 25 de Dezembro, sábado próximo, estaremos partindo de nosso Ceará: Severo, Danielle, Aderbal e Maristela, Sabadia e família,  rumo as terras sertanejas de nossos irmãos pernambucanos, bahianos, sergipanos e alagoanos.

Serra Talhada, Triunfo, Nazaré, Floresta, Petrolândia, Paulo Afonso,
Delmiro Gouveia, Piranhas,
Poço Redondo...Buique

Estaremos primeiramente visitando Serra Talhada junto aos amigos, professor Alberto Lima, Anildomá Willians, Cléo, enfim. Dalí subiremos a serra da bela Triunfo e abraçaremos a amiga Diana Lopes e o grande Assis Timóteo, além de André Vasconcelos, quando teremos o privilégio de participar dos grandes festejos natalinos de Triunfo. Partiremos depois direto para a emblemática Nazaré do Pico, onde o Cariri Cangaço prestará uma homenagem ao Tenente João Gomes de Lira como também abraçaremos a família Nogueira e Flor; sem falar na visita ao centenário Luiz de Cazuza que receberá igualmente homenagem do Cariri Cangaço.

Seguiremos para a terra da Rainha do Cangaço, Paulo Afonso, ali, com o anfitrião João de Sousa Lima e mais os amigos Rubinho Lima, Gilmar Teixeira e Bin Laden, estaremos pisando em solo sagrado do universo do cangaço nordestino. De Paulo Afonso partiremos para Delmiro Gouveia e depois a sensacional Piranhas.

Em Piranhas, dia 28, já acertamos um grande encontro que será o dia inteiro.

Sairemos rumo a Grota do Angico, almoçaremos por lá e passaremos o dia inteiro colocando as conversas em dia. A Caravana Cariri Cangaço já tem confirmadas as presenças em Piranhas, além de Danielle, Aderbal e família e Ricardo Sabadia e família, os confrades: Caipirão de Poço Redondo, Alcino Costa; João de Sousa Lima, Rubinho Lima, Jadilson Ferraz, Gilmar Teixeira, Antônio Vilela,  além do anfitrião da bela cidade patrimônio nacional, Jairo Luiz e se tivermos sorte ainda teremos Inácio de Loyola e o grande Cacau.

De Piranhas, ponto final de nossa viagem retornaremos por Buique, para cumprimentar o ex-cangaceiro Candieiro. No mais é aguardar o dia chegar e matar a saudade dos amigos, sem esquecer é claro de deixar todos por dentro desse Diário de Bordo, através de nosso cariricangaco.com

Abraço fraterno a todos.

Manoel Severo

E daí...

Amigo Severo,quer dizer que vocês estarão em Piranhas no dia 28 ? Tudo indica que irei.Tenho que estar em Mossoró dia 30,pois tenho uma encomenda para o Kydelmir.Mas irei.
ANTONIO VILELA - GARANHUNS

Severo é um grande prazer tê-los em triunfo nos Festejos Natalinos, sejam Bem Vindos. Feliz Natal e Até mais vê...
DIANA LOPES - TRIUNFO

Prezado Manoel Severo,
Chegarei à Nazaré amanhã a noite e infelizmente volto para o Recife no dia 26. Mas de qualquer forma, desejo que você e os seus façam uma boa viagem e que sejam bem vindos à terrinha. Espero conhecê-lo em outra oportunidade. Se puder façam uma visita à Ulisses Flor (filho de tio Euclides Flor). Minha esposa (Nancy) vai estar por lá. Falarei com ela para levá-los até ele.Feliz Natal!!! Grande abraço.
HILDEBRANDO NETO - NAZARÉ DO PICO


Será uma satisfação fazer parte deste grupo, estou em Feira mas estarei aí para recebe-los e finalizar o trabalho de conclusão de minha filha com a galera daí(Jairo,Alcino,Inácio,etc), para a temática turismo no cangaço, ok, abraços a todos aí.
GILMAR TEIXEIRA - FEIRA DE SANTANA

Amigo Severo estou a sua inteira disposição e seja bem-vindo a nossa terra e região.
ALBERTO LIMA - SERRA TALHADA

Que boa notícia caro amigo Severo, inclusive estava com viagem marcada para o dia 28 e desmarquei somente para rever os amigos e colocar a prosa em dia.Abraços
JAIRO LUIZ - PIRANHAS

Caro amigo Severo, Joãozinho já está na equipe, porém o restante irei convidar amanhã pra ver a possibilidade. Abraço
JOÃO DE SOUSA LIMA - PAULO AFONSO

A satisfação é minha, ainda mais com a notícia de que tão seleta caravana virá à Triunfo. Estamos à disposição. Até breve! Com um forte abraço,
ANDRÉ VASCONCELOS - TRIUNFO

Amigo Severo....Pode acumular também o retrato do matutinho no álbum desse dia 28, que tô dentro...Esse matamento de sodadi é nosso...Saudações Virtuais
RUBINHO LIMA - PAULO AFONSO

Severo, que notícia maravilhosa. Com fé em Deus no dia 28 estarei em Piranhas com vocês. Vou falar com Jairo sobre a viagem no dia 28 para Angico. Lembre-se que aqui estarei a sua disposição. Que Jesus esparrame suas bênçãos por sobre você, Dani e toda a sua linda e venturosa família durante o Natal, o Ano Novo, 2011 e por toda existência de pessoas tão amadas como vocês.
ALCINO ALVES COSTA - POÇO REDONDO

E a Caravana tá só começando...
.

Ainda os Sebastianistas Por:Marco Albertim

.

As cerimônias de casamento no Reino da Pedra Bonita terminavam com preces, cânticos e rezas. Todos deviam se retirar, com exceção da noiva, cuja virgindade seria removida pelo líder da comunidade, autoproclamado Rei. Na Pedra dos Sacrifícios, João Ferreira dos Santos presidia o sacrifício de homens, crianças e cães. O sangue, segundo o próprio, serviria para regar as pedras e os campos próximos. O propósito maior, porém, seria o resgate da alma de D. Sebastião, bem como a ressurreição de moços e o embranquecimento dos negros, tornando-os ricos, imortais e poderosos. Vê-se, aqui, a conotação racista de braços dados com aspirações de ascensão social.

Outro líder, João Antônio dos Santos, usava uma coroa de cipós de japecanga, fazia predições e exigindo que seus pés fossem beijados. Dizia ele que os cães imolados retornariam como dragões protetores da comunidade; já os sebastianistas sacrificados, ressuscitariam jovens, belos e ricos. O crescimento da comunidade assusta fazendeiros e autoridades. Os informes dando conta dos sacrifícios chegam ao município de Serra Talhada. O padre Francisco Correia, missionário idoso, de muito prestígio, é enviado ao local; consegue, então, demover João Antônio de seus propósitos messiânicos. Mas João Ferreira, cunhado de João Antônio dos Santos, retoma o apostolado, tomando para si sete mulheres, vez que a poligamia era consentida.

Do alto do Trono ou Púlpito, diz que D. Sebastião lhe aparecera, mostrando-se descontente com a fraqueza e incredulidade dos fiéis. Intensifica a pregação de sacrifícios humanos e de cães. Conforme a historiadora Maria Isaura Pereira de Queiroz – O messianismo no Brasil e no mundo -, grupos se deslocavam diariamente, “arrebanhando homens, mulheres, meninos e cães para o acampamento.” Estimulados pela bebida à base de jurema, exaltados, esperavam “o grande acontecimento.” Só os que gozavam da extrema confiança do rei, tinham permissão para esmolar nas fazendas, trazendo o sustento dos acampados.


Pregando a necessidade de aplacar a cólera de D. Sebastião, João Ferreira dirige, em 14 de maio de 1838, o mais conhecido dos sacrifícios. “Calcula-se que foram sacrificados 12 homens, 30 crianças e onze mulheres, inclusive Isabel, uma das mulheres de João Ferreira.”* A matança durou três dias. Três dias depois, Pedro Antônio dos Santos, irmão do fundador da Pedra Bonita, sobe ao Púlpito e anuncia que D. Sebastião se mostrara a ele na noite anterior, reclamando a presença do rei, única vítima que faltava para ocorrer o desencantamento. João Ferreira protesta, inda que arrastado e sacrificado. Pedro Antônio dos Santos considerava-se o verdadeiro herdeiro do Reino, e tivera duas irmãs sacrificadas na matança.

A notícia chega ao conhecimento de Manoel Pereira da Silva, dono da fazenda Belém e comissário de polícia em Serra Talhada. Da varanda de sua casa, ouve o relato apavorado do vaqueiro José Gomes Vieira. Diz primeiro que fora iludido pelo seu tio, José Joaquim Vieira, ao conduzi-lo para a Serra Formosa “para ver muitas coisas bonitas e ajudá-lo na defesa dos tesouros e do Reino descoberto...”** Acrescenta que, depois de beber muito vizinha, dissera que “El-Rei Dom Sebastião estava muito desgostoso e triste com seu povo.” Arrematando: “Porque são incrédulos! Porque são fracos! Porque são falsos! (...) E finalmente porque o perseguem, não regando o Campo Encantado e não lavando as duas torres da catedral de seu Reino com o sangue necessário para quebrar de uma vez este cruel Encantamento!” Àquela altura, o comissário já recebera missiva de Manoel Ledo de Lima, rico fazendeiro da região, informando-o da ocorrência. Era o temor de que a matança atingisse seus domínios.


Conduzido por José Gomes Vieira, sebastianista arrependido, o comissário põe-se à frente de um grupo armado. No dia 18 do mesmo mês, deparam-se com Pedro Antônio dos Santos. O Rei está acompanhado por um séquito de mulheres, meninos e homens armados de facas, facões e cacetes. “Não os tememos! Acudam-nos as tropas do nosso Reino! Viva El-Rei Dom Sebastião”***, grita Pedro Antônio, agitando a sua coroa e atirando-se furioso ao grupo invasor. Outros sebastianistas são dizimados por homens chefiados por Simplício Pereira da Silva, fazendeiro e um dos nove irmãos do comissário. Os sebastianistas que não morrem são levados para a cadeia do município de Flores. As mulheres são soltas, as crianças entregues a famílias dispostas a criá-las.

João Antônio dos Santos, fundador da comunidade e primeiro Rei, é localizado em Minas Novas do Suruá, Minas Gerais. Vivia com a família. Na viagem para Serra Talhada, é morto. Suas orelhas são arrancadas como prova de sua morte. Para a tranquilidade dos proprietários.

FONTE: blogdocrato.blogspot.com
Cortesia Cacá Araujo
.

A Saga de Benjamim Abrahão Parte Final Por:Rostand Medeiros

.
O mito imortalizado por Benjamim...

Abrahão afirma textualmente que filmou e fotografou os grupos dos chefes Corisco, Luís Pedro, Português, Zé Sereno, Mané Moreno, Pancada, Canário e Gato. Praticamente ele teve a oportunidade de filmar todo o movimento de cangaceiros que gravitavam ao redor de Lampião. Apenas os instantâneos chegaram até os nossos dias. Em relação ao chefe cangaceiro Gato, Abrahão afirma que estava no combate ocorrido em Piranhas, dois meses antes da entrevista ao Diário de Pernambuco e que viu este cangaceiro ferido.

Segundo a sua narrativa, ele se encontrava a cerca de meia légua (três quilômetros) de Piranhas, atravessando o Rio São Francisco, quando se deu o tiroteio e logo seguiu em direção à refrega. Afirmou que “era uma oportunidade que não poderia deixar passar”. O primeiro combate entre os cangaceiros e os policiais ocorreu a cerca de 4 ou 5 léguas de distância da cidade, “no meio da caatinga bruta”. A tropa volante era comandada pelo tenente João Bezerra e neste combate foi ferida e capturada a companheira de Gato, conhecida como Inacinha. Este buscou apoio de Corisco e de outros cangaceiros que circulavam na região, para invadirem a cidade de Piranhas e tentaram resgatar a cangaceira ferida. Era por volta meio dia quando um grupo de 26 cangaceiros tentou realizar o ataque, mas a cidade recebeu seus “visitantes” com forte fuzilaria.

No momento em que Abrahão encontrou os cangaceiros estes já se retiravam de Piranhas. Afirma que viu o chefe Gato ainda ferido, deitado em um “sofá”. Comenta (certamente com exagero) que quando tentou entrar na cidade os defensores lhe tomaram como um cangaceiro e mandaram bala. Segundo o pesquisador paraibano Bismarck Martins de Oliveira (in “O cangaceirismo no Nordeste”, 2ª edição, págs. 228 e 229) o nome verdadeiro do cangaceiro Gato era Josias Vieira e era natural de Santana do Ipanema, Alagoas. Ele teria entrado no cangaço em 1922, tendo participado de inúmeras ações importantes ao lado de Lampião, era tido como um cangaceiro de extrema violência e periculosidade acentuada. Fez parte do bando de Corisco, mas depois decidiu montar seu próprio grupo. Já o pesquisador baiano Oleone Coelho Pontes (in “Lampião na Bahia”, 4 edição, pág. 329) informa que o combate se deu no dia 28 de outubro de 1936, que Gato chamou Corisco para tentaram entrar na cidade, mas a intenção era sequestrar a mulher de João Bezerra, Cira Britto Bezerra, filha do prefeito da cidade, a fim de vingar-se da captura da sua companheira.


Inacinha e Gato

Em relação à companheira de Lampião, de quem Abrahão em nenhum momento da reportagem declamou o nome com o qual ela seria imortalizada, ele praticamente se restringe a informar que a mesma, por razão de uma promessa, não trabalhava entre o sábado e a segunda feira. Mas Abrahão não diz qual seria este “trabalho” e a chamava de “Maria Oliveira”, ou “Maria do Capitão”.Mas aparentemente são os jornalistas da redação do Diário de Pernambuco que se impressionam com a morena baiana.

Na edição do dia 17 de fevereiro de 1937, uma quarta-feira, como sempre na primeira página e com amplo destaque, a jovem sertaneja aparece sentada ao lado de dois cachorros que pertenciam a Lampião, um dos quais se chamava “Ligeiro”, em uma pose que foi classificada como “cinematográfica de uma Greta Garbo”. Dizia que ela era a única pessoa com “ascendência moral sobre Lampião” e que chamava a atenção até mesmo pela simplicidade.



Para os jornalistas Abrahão descreveu que a companheira de Virgulino estava “com os cabelos alisados a banha cheirosa, meias de algodão, sapatos tresé e seu vestido azul claro de linho”. Estando correta a descrição do imigrante libanês sobre a vestimenta de “Maria do Capitão”, no meio daquela caatinga cheias de espinhos, esta fina indumentária servia apenas para rezar e bater fotografias.

Chama atenção a descrição da utilidade das mulheres do bando nos combates. Abrahão informou que elas “Abrem nas caatingas cerradas os caminhos que possam fugir os cangaceiros, ante a eminencia de se verem cercados”. Se a pose de “Maria do Capitão” na foto era simples, como o leitor deste artigo pode observar, a manchete chamava bastante atenção. Para Abrahão ela não trabalhava entre os sábados e as segundas feiras.

Os jornalistas passaram a comparar a companheira de Lampião com a francesa Jeanne-Antoinette Poisson, a Marquesa de Pompadour, ou como ficou mais conhecida Madame de Pompadour. Esta foi uma burguesa, nascida em Paris em 1721, que usou a sedução para conquistar um lugar entre os mais nobres e se tornar a principal amante do rei da França daquela época, Luís XV. Mas além de ser bela, sedutora e encantadora, era extremamente inteligente e se tornou decisiva na política francesa. Logo através de sua influência, conseguia audiências a embaixadores, tomava decisões sobre todas as questões ligadas à concessão de favores, de forma tão absoluta quanto qualquer monarca. A comparação entre a cortesã francesa e a cangaceira brasileira surgiu provavelmente após Abrahão comentar e ser publicado que “os asseclas de Lampião lhe rendem as mais servis homenagens, tudo fazendo para não cair no desagrado dessa Madame Pompadour do cangaço, senhora de baraço e cutelo dos sertões nordestinos”.

Não pudemos comprovar com exatidão, mas certamente esta é a uma das primeiras grandes reportagens sobre uma jovem sertaneja chamada Maria Gomes de Oliveira. Baiana nascida em 1901, no sítio Malhada da Caiçara, que um dia encantou o “Rei dos Cangaceiros” e seria conhecida em toda parte como Maria Bonita. Abrahão volta ao Recife e novas matérias são publicadas no Diário de Pernambuco, sempre com muito destaque e na primeira página. Elas informavam detalhes do encontro de Abrahão com os cangaceiros e que a sociedade pernambucana em breve teria a oportunidade de assistir nos cinemas da capital o “film” sobre Lampião.

Benjamim Abrahão aproveitava sua notoriedade...


Sobre o tamanho do rolo de filme e sua duração, não conseguimos apurar corretamente, pois o tamanho foi crescendo e diminuindo. Dependia do lugar, provavelmente do gosto dos editores, ou através de informações equivocadas de Benjamim Abrahão. Segundo o pesquisador Frederico Pernambucano de Mello (in “Guerreiros do sol, 2ª edição”, págs. 339), em dezembro de 1936 o libanês teria entregue a Ademar Albuquerque cerca de “quinhentos metros de filme”, mas em abril do ano seguinte os jornais cearenses noticiavam que havia “mais de mil metros”. Em Recife a película esticou mais ainda. No Diário de Pernambuco, na edição de 12 de fevereiro de 1937, Abrahão afirmava que o filme tinha “2.000 metros”, que seria exibido no Rio de Janeiro e anunciava que além do filme, seria publicado um livro “com a maior e mais completa reportagem sobre Lampião”.

Mas foi a mesma atenção dispensada pela imprensa que gradativamente foi lhe criando problemas. Os jornais mostravam com destaque a façanha de um simples imigrante libanês, que havia conseguido encontrar Lampião, filmá-lo tranquilamente com o seu bando, enquanto que as forças de segurança nunca davam cabo dos cangaceiros. No Rio de Janeiro, então capital do país, a revista “O Cruzeiro”, um dos principais veículos da imprensa brasileira da época, estampou no exemplar de 6 de março de 1937 uma manchete com cinco fotos do bando. De forma crítica afirmava que “onde os policiais falharam, Abrahão havia triunfado”. No dia 2 de julho de 1938, no mesmo Cinema Moderno que apresentou a película sobre o padre Cícero, ocorreu à única exibição conhecida do filme de Benjamin Abrahão. A fita cinematográfica foi assistida por autoridades que se revoltaram diante do destaque dado a Lampião e seus acompanhantes. Logo os membros do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), o órgão de censura do chamado Estado Novo, como ficou conhecida a ditadura comandada por Getúlio Vargas e implantada no ano anterior, apreenderam o filme. Benjamin Abrahão tentou reverter, sem sucesso, a situação. Ele fica em uma posição difícil e parte para o interior em busca de apoio.


Dadá, Corisco e Benjamim

Em 9 de maio de 1938, na então vila de Pau Ferro (atual município pernambucano de Itaíba), a cerca de 45 quilômetros de Águas Belas, Abrahão foi morto com 42 facadas por um homem que seria deficiente físico e que trabalhava como sapateiro. A razão foi uma vingança ocorrida pelo fato do libanês ter mantido relações com a mulher deste sapateiro. Entretanto, segundo as edições do Diário de Pernambuco de 10 e 19 de maio de 1938, ao comentar sobre a morte de Benjamin Abrahão, trazem algumas informações interessantes.

Foi divulgado que o inquérito realizado pelo delegado do 2º Distrito Policial de Águas Belas, concluiu que o assassino do imigrante libanês se chamava José Rodrigues Lins, conhecido como Zé de Ritinha ou Zé de Rita e que teria sido ajudado por uma mulher chamada Alayde Rodrigues de Siqueira. Mas as reportagens não especificavam maiores detalhes do ocorrido e nem o grau de participação desta mulher.Para muitos pesquisadores a verdadeira razão da morte de Abrahão teria sido as insistentes cobranças que ele fazia aos coronéis da região, sobre uma pretensa ajuda financeira prometida para a realização do filme. Aparentemente, diante das recursas, ele possivelmente teria feito algum tipo de ameaça e encontrou a morte.

Certamente que em meio a um momento político onde o poder do Estado Novo estava muito forte e centralizado, onde as velhas lideranças do sertão já não possuíam a mesma desenvoltura nos círculos do poder, onde a desconfiança e o temor de perda de prestígio e de força política eram evidentes, a figura de um imigrante que sabia de muita coisa, impertinentemente exigindo dinheiro, deveria ser uma fonte de preocupação. Seja qual for a verdadeira razão, percebemos que faltou a Benjamin Abrahão, mesmo depois de estar vivendo a cerca de vinte anos no Nordeste, uma maior percepção em relação as suas atitudes e o que elas poderiam gerar.


Rostand Medeitros

Pesquisador e Escritor
.

O Abraço Fraterno diante da dor de um Grande Amigo

.
.
Faleceu na noite deste último dia 19, domingo, no Hospital Wilson Rosado Mossoró, o senhor Francisco Honório de Medeiros, 83. "Seu Chico Honório" era pai de Honório de Medeiros, companheiro confrade de SBEC e Cariri Cangaço, um grande carater, um ser humano inigualável. O velório aconteceu na Capela de São Vicente e o sepultamento ocorreu na manhã de hoje, segunda,20, no Cemitério São Sebastião em Mossoró.

Ao Amigo Honório...

Um maravilhoso dia tive o privilégio de ler uma inesquecível Declaração de Amor, nascida apartir do mais sincero respeito e admiração de um grande filho a um grande pai, me encheu de felicidade.
Hoje, como você, já não tenho meu pai junto a mim, e também como você, não abri mão em nunhum momento de lhes dizer e fazer sentir o quanto eu o amava e o quanto ele foi; como o senhor Chico Honório:um homem de fé, simples e bom.

Receba o fraterno e sincero abraço de todos os que fazem
a família Cariri Cangaço

Manoel Severo, Danielle, Gabriel, Pedro, Sawanna, Emily e Manoelinha...




Homenagem do Cariri Cangaço a
"Seu Chico Honório", na foto ao lado da netinha Bárbara,
 e a Declaração de Amor


"Para Seu Chico Honório.

Quando meu pai finalmente concordou em receber o título de cidadão mossoroense impôs uma condição: se tivesse que falar eu o faria em seu lugar. Aceitei por que tinha consciência que sua humildade não lhe permitiria ocupar, deliberadamente, o centro das atenções. Depois, ao longo das minhas caminhadas diárias, enquanto não chegava o dia da cerimônia, compus vários discursos. Em um, eu começava falando de sua infância difícil, sem a presença do pai, tendo que tanger jumentos que conduziam água dos barreiros para as casas a troco de quase nada; em outro eu concluía comentando sua velhice serena, tocada pela melancolia que a doença de sua companheira de toda uma vida suscitara. Nada me agradava. Sentia que mesmo com toda a minha experiência, estava tão emocionalmente envolvido com o tema do discurso que não conseguiria realizar meu intento de ser fiel ao perfil que desejava projetar.

Não adiantaria, naquele momento, seguir o conselho antigo e precioso: “fale com o coração”. Ao contrário, pensava com meus próprios botões, “preciso é de razão.” Finalmente lembrei-me de perguntar a mim mesmo o que, em sua existência mossoroense, chamara a atenção daqueles que o homenageavam. A resposta era fácil: sua fé, que o transfigurara e o colocara distante de nós, católicos reticentes ou descuidados, por que lhe trouxera a brandura de coração e aquele olhar compassivo de quem, por tudo compreender, é capaz de sempre perdoar. Os anos, então, passaram ante os olhos da minha mente e eu recordei e pensei em transmitir para quem quisesse ouvir imagens esmaecidas de há muito tempo atrás, que mostravam uma família unida em torno do terço puxado diariamente por meu pai; as missas dominicais para as quais nos levava em nossas melhores roupas; as longas e confortantes conversas presenciadas de longe e pouco compreendidas, entre ele e quem o procurava – e eram muitos; o convívio com os companheiros de fé quando a Igreja os chamava; os últimos anos, ajudando a celebrar a Santa Missa e ministrando a Eucaristia na pequena Capela de São Vicente; a entrega amorosa e paciente à missão de cuidar da degradação física e mental do grande amor de sua vida...

Então seria por esse caminho. Eu não precisaria contar de uma paixão que lhe acalentara a meninice desde quando, para ganhar uns cobres a mais, cantava repentes na feira de São João do Sabugi – a viola. Não precisaria lembrar sua viagem solitária, a cavalo, nos idos dos anos 40, da mesma São João à Alexandria, em busca de dias melhores; não precisaria falar de seus anos na Estrada de Ferro, onde fora chefe de trem; não precisaria lembrar sua luta – já maduro – para concluir o curso técnico de contabilidade, nem dos anos vividos à sombra do radicalismo político de Mossoró, que tanto nos fizera sofrer. Principalmente não precisaria dizer como lhe calaram a viola por não compreenderem o valor de sua arte, nem de sua resignação, tudo aceitando por amor à família.

Talvez, no final, eu resolvesse dizer quanto nós, seus filhos, somos felizes em tê-lo como pai; quanto nosso caráter foi moldado pelo seu exemplo e quanto nos orgulhamos de perceber, na cidade que escolheu para casar, ter e criar seus filhos, o reconhecimento de seus pares a um homem de fé, simples e bom. Não foi necessário, graças a Deus. Outro falou pelos demais. Como nada disse naquele dia, e acho que falaria mais para ele que para os outros que ali estavam, resolvi publicar este artigo.

Para que ele saiba.

Honório de Medeiros, em 05 de fevereiro de 2010
honoriodemedeiros.blogspot.com"

Ele saberá...Ele sempre soube...




Por Causa da Mulher... Por: Carlos Elydio

.
Olho no Olho...
.
.
Dr. Carlos Elydio...
Como vê a questão de gênero dentro do Cangaço?
Que nuances passaram despercebidas pelas abordagens
 tradicionais até hoje publicadas?
O que mudou com a entrada das mulheres?
Era inevitável esse fato?
Foi preponderante e decisivo para o fim do cangaço?

Doutor Carlos Elydio Araujo

Caros confrades e amigos... Em princípio é dizer de minha grande felicidade e honra em fazer parte da família Cariri Cangaço e participar humildemente deste novo e desafiador espaço virtual de nosso blog que é o OLHO NO OLHO, a partir das provocações de Severo vou expor aqui minhas elucubrações, auxiliado nos dados históricos pelo meu pai, o Antonio Amaury. Primeiramente faz-se necessário, ainda que de forma sucinta e breve, esclarecermos ao grande público o que, em poucas palavras, é a questão de gênero.

Tomo a referência de gênero como as diferenças entre o masculino e o feminino, não se tratando aqui do sexo, mas, como no entendimento das ciências sociais, os papéis construídos socialmente nos quais percebemos caracteres aceitos, no consenso de um determinado grupo social, como feminino ou masculino, independente do sexo do indivíduo. Tendo esclarecido este pormenor, penso deixar mais fácil discorrer um pouco sobre como se davam estas construções dentro das hostes cangaceiras.

É sabido que, antes de 1930, nunca os cangaceiros haviam recebido a presença feminina (no sentido biológico da palavra) em seus bandos. O primeiro a quebrar esta conduta foi o próprio Rei do Cangaço, Lampião, ao chamar para junto de si Maria de Déa. E, justamente na mesma situação, outra mulher, cunhada de Maria (irmã de seu ex-marido), foi admitida para acompanhar outro cangaceiro, Labareda. Esse foi um dos marcos da história do cangaço, deixando-nos a possibilidade de definir jocosamente a história dele como AM e DM (antes das mulheres e depois das mulheres). Para perceberem-se as mudanças acarretadas por este evento, é necessário saber da organização dos grupos AM.

Todos os cangaceiros, como é sabido, são oriundos de diversas classes sociais que compunham a sociedade do Nordeste de então. Imersos em seus valores patriarcais, observavam na vida cotidiana a divisão de tarefas, os costumes e a rotina ordinárias de então. Basicamente, as mulheres (biologicamente falando) como responsáveis pelos afazeres domésticos, da ordem dos cuidados com a alimentação, vestimentas, limpeza da casa, enfim, nada de muito diverso do que se conhecia em outros lares do país de então. É bom dizer que, no caso das famílias da zona rural, muitas delas ainda labutavam junto dos homens, dentro de suas possibilidades físicas, em uma ou outra atividade ligada à produção agrária. Conforme as posses da família, algumas tantas ficavam na governança de seus lares e administração dos quefazeres domésticos. Esse era o traço típico de então.

Nesta época, a sociedade em geral, e em especial os grotões mais afastados dos grandes centros, tinha muito forte em suas raízes, um "modus operandi" delineado pelos traços do patriarcado. Porém, quando falamos em patriarcado, é quase que unânime a referência de uma sociedade moldada a partir dos valores do masculino, associados ao homem (aqui, no sentido biológico). Mas, salta-nos aos olhos, em um breve levantamento dos fatos que antecederam o ingresso de algumas potestades neste universo bandoleiro, bem como noutros tantos casos em outras organizações sociais, a presença marcante de Matriarcas, cujas influências determinariam algumas biografias notáveis. Para citar, ainda que brevemente, vejamos:

Virgolino Ferreira, o Lampião, tinha em seu pai o papel de um apaziguador (segundo referência de seus conterrâneos e contemporâneos), enquanto sua mãe, esta sim, insuflava nos filhos o desejo de vingança e providências para que se salvaguardasse a honra familiar ainda que as custas da violência.

Conta-se que, ao entrarem em casa, os filhos eram chamados pelo pai para que deixassem suas armas de lado, e que, ao sairem pela cozinha, a mãe lhas entregava.

Caso similar se dá na família de Luiz Padre, primo de Sinhô Pereira (o afamado preceptor de Lampião no mundo do cangaço que, em 1969, nos contou estes pormenores em entrevista a meu pai, a quem recorro hoje), cuja mãe Dona Francisca Pereira (dona Chiquinha) textualmente solicitou aos homens da família (Né Dadu, Manuel e Pedro Pereira) que lavassem a honra dos Pereira as custas do sangue de um dos Carvalho, em represália à morte de seu marido Padre Pereira. Aliás, o ingresso de Maria Déa, nos grupos cangaceiros, deveu-se, em muito, ao apoio de sua mãe, para que essa assim procedesse, tendo em vistas os interesses pessoais na pessoa afamada e cheia de fortuna do Rei do Cangaço.

Carlos Elydio e Antônio Amaury: Filho e Pai...

Ainda podemos citar a ascendência de Dadá sobre seu marido, Corisco, bem como alguns tantos episódios em que as mulheres cangaceiras, através de suas palavras, conseguiram amanhar ou mesmo modificar os rumos das intenções de seus companheiros. E são muitos casos para se expor aqui, em poucas linhas, apesar de estes aspectos ficarem obscuros à margem da história, por não ser dada a atenção devida a estes pormenores, ficando, por assim dizer, como uma maldição (ou seja... mal ditos pela história).O que podemos inferir, destes poucos casos citados, dentre outros tantos, inclusive de outras esferas da sociedade, não só nordestina como de todo o mundo, é que a característica criativa, geracional mesmo, tida como do princípio feminino, ainda que não tenham sido levadas a cabo pelas referidas mulheres, encontram nelas a sua origem, levando-nos a, sob um olhar transcendente, percebê-las como verdadeiras “traidoras” da “tradição” patriarcal (ou seja, da ordem estabelecida). Isto bem nos faz lembrar da velha frase, segundo a qual, por trás de todo grande homem existe sempre uma grande mulher.

Mas, para além destas considerações históricas, ligadas a estes estudos cangaceiros, vale uma citação de uma outra estória, na verdade, um mito, que, como todo mito, usa de uma linguagem poética para contar através de símbolos, um aspecto da Verdade que permeia o ser humano. É o caso de Adão e Eva, que, conclamados a observarem as regras de Deus, infligem estas a partir da sugestão da serpente, acarretando a expulsão dos dois do Paraíso. E o que este mito diz a nós? Vejamos. Para compreender os mitos, é necessário que se entenda a sua linguagem que, grosso modo, é metafórica. Utiliza-se de símbolos para traduzir o que seja a Verdade, intangível de outra forma, abrindo leques de possibilidades de novas compreensões a cada nova leitura. Basicamente o mito nos remete à idéia da saída do homem do estado instintual (o paraíso e a ignorância do bem e do mal) para o estado consciêncial, ao conhecer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, o que lhe põe na condição de exercer seu livre arbítrio (portanto, senhor de sua vida, e sujeito co-criador, ou seja... a imagem e semelhança de Deus). A serpente representa a energia amorfa que, no caso, propulsiona o desejo da mulher Eva. Esta, sugerindo a Adão, instiga-o a agir contra a lei divina, que bem representa a tradição do patriarcado. Nestes termos, a mulher representa a “traição” à “tradição”, ou seja, através do feminino é que se dá a renovação da humanidade. E aqui, portanto, penso deixar claro que a “traição” deixa de ser algo condenável para ser algo, inclusive, desejável, não sem as custas do sofrimento do abandono da inércia da “tradição”.

Isto posto, e voltando aos grupos de cangaceiros AM, é bom que se diga que as atividades tidas como femininas tinham de ser cumpridas por quem quer que fizesse parte dos grupos. Alguém deveria cozinhar, lavar ou mesmo reparar algum dano nos tecidos de suas vestimentas. E assim as coisas se organizavam dentro do grupo, obedecendo a uma escala determinada, os homens se revezavam nas atividades de cozinhar e, se necessário, reparar suas vestimentas. E já que não havia um lar para cuidar, as atividades do gênero feminino estavam restritas a estas. Vemos então que os homens cangaceiros exerciam os papéis de ambos os gêneros (aliás, como todos nós podemos potencialmente fazer, com maior ou menor talento para um ou outro destes aspectos).


Com o ingresso das mulheres para os grupos de cangaceiros, pouca coisa mudou na organização destes.

Os homens continuaram a cozinhar. Eventualmente faziam seus reparos em suas roupas. Já às mulheres foi delegado o papel único e exclusivo de parceiras sexuais, amantes de seus companheiros. Eventualmente costuravam alguma roupa e, pelo que nos consta, por um capricho de Dadá, durante uma gravidez em que ficou acoitada no Raso da Catarina, durante o ano de 1934, passaram a adornar com bordados e outros apliques os "uniformes" dos cangaceiros. E somente estes eram os papéis desempenhados pelas mulheres nos grupos. Não procede a idéia de que as mulheres, mesmo portando armas para defesa pessoal, tivessem conduta guerreira. Antes, pelo contrário, quando da eminência de algum confronto, eram apartadas do grupo, acoitadas em local seguro, protegidas por alguns cabras do grupo. Vale ressaltar que, única excessão a esta regra é o caso digno de nota da cangaceira Dadá, que, por ter seu companheiro Corisco alvejado e inutilizado no uso de seus braços (isto mesmo... os dois de uma mesma feita), viu-se a cangaceira na contingência de defendê-lo através do uso de armas longas.

Muitos falam que este é o primeiro momento em que as mulheres acompanharam seus parceiros nas andanças, porém, em outros momentos da história do cangaço, anterior a Lampião, há referências como a da esposa de um cangaceiro, Adolfo Meia Noite, que o acompanhava sem, porém, (e que isto fique bem claro) viesse a ser tida como cangaceira. Alguns historiadores julgam que este fato, o ineditismo desta forma de conduta, derivou-se de um exemplo, tido e visto pelos cangaceiros quando da marcha da Coluna Prestes, em 1926. É fato que haviam mulheres que acompanhavam os revoltosos em suas andanças pelo país afora. Essa ilação, porém, não encontra eco na lógica, uma vez que a distância entre um episódio e outro é de quatro anos e, para além disto, a motivação de uns e outros eram de ordens completamente distintas e, mais ainda, dentro do próprio universo cangaceiro, como dissemos acima, já havia tido caso de mulher acompanhando um cangaceiro.

Tania Alves e Nelson Xavier

A diferenciação fica mais clara ao se saber que houve sim uma afeição e interesse recíproco entre Lampião e Maria. No caso dos integrantes da Coluna Prestes a questão é bem outra, sendo que as vivandeiras, as mulheres que seguiam a Coluna em funções diversas, atuavam diferentes papéis, tais como enfermeiras, namoradas, amantes. Há uma idéia de que as mulheres tenham sido o motivo da derrocada do cangaço. Mas, caso analisemos isto sob a ótica da razão, veremos que tal idéia não procede. É bem verdade que os cangaceiros diminuíram seus confrontos após este fato, evitando, o quanto podiam, os embates com as forças oficiais. Também é fato que as mulheres, ao engravidarem, eram apartadas do grupo quando se avizinhava o momento de dar a luz e observar o resguardo, entregando as crianças para coiteiros ou pessoas de sua confiança para a criação das mesmas, já que não havia possibilidades dos grupos seguirem com os pequenos. Mais uma vez, vemos como o papel do feminino dentro dos bandos ficava restrito a poucas possibilidades (para não dizer a quase somente uma possibilidade... a de parceira sexual e afetiva).

Mas, voltando à questão da presença feminina como fator determinante da queda do cangaço, consideramos como improcedente tal assertiva, uma vez que o fenômeno perdurou por pelo menos 10 anos mais (tomando como término do cangaço a morte de Corisco), ou seja, o intervalo de tempo entre um evento e outro é grande demais para estabelecer este nexo. A idéia que subjaz a estas justificativas é a mesma que sustenta a necessidade da concentração de um time de futebol, como se o sexo fosse uma fonte dispersora de energias, ou, no caso específico dos bandoleiros, como sendo os cuidados dispensados para com as mulheres de um efeito fragilizador da organização masculina. Porém, como dissemos, a presença feminina teve o condão de diminuir o número de confrontos dos bandidos, e isto pode ser visto como algo que, antes de tudo, poupava os grupos cangaceiros de se colocarem em risco. Pessoalmente, chego às seguintes conclusões:

A história pode ser atuada e assinada por homens (ou pelo princípio masculino), mas, invariavelmente, a as inovações que propulsionam a evolução da marcha humana advém do espírito feminino que sobre esses atua, sendo que os papéis podem ser exercidos concomitantemente pelos indivíduos, independente de seu sexo biológico. Quanto a este fato ser inevitável (o da entrada das mulheres nos grupos cangaceiros) ou não, penso que a resposta a esta questão seja de ordem muito subjetiva, uma vez que alguns optaram por terem companheiras e outros, execravam esta idéia (como o próprio cangaceiro Balão). O fato é que elas entraram e ficaram por 10 anos junto de seus parceiros. Quanto a possibilidade de este ser um fator determinante para o fim do cangaço, creio ter deixado bem claro acima a minha opinião sobre isto. Claro... São elucubrações, próprias para divagações que tenho o prazer de aqui compartilhar com os pacientes amigos, cabendo a cada um de nós verificar na nossa própria história, o que nos diz a nossa porção mulher sobre o curso de nossa vida pessoal e mesmo das nossas histórias inscritas na sociedade. Este autoconhecimento pode nos redimir e, quiçá, nos libertar de teias fortemente tecidas por causa da mulher! E, para ilustrar e fechar este palavrório um tanto chato, rememoro a bela letra de Gilberto Gil:


 " Um dia vivi a ilusão de que ser homem bastaria
Que o mundo masculino tudo me daria
Do que eu quisesse ter
Que nada, minha porção mulher que até então se resguardara
É a porção melhor que trago em mim agora
É o que me faz viver
Quem dera pudesse todo homem compreender, ó mãe, quem dera
Ser o verão no apogeu da primavera
E só por ela ser
Quem sabe o super-homem venha nos restituir a glória
Mudando como um Deus o curso da história
Por causa da mulher"

Seu amigo,
Carlos Elydio
São Paulo
.