O Cangaço em Brejo dos Santos no Regime Monárquico - Parte I Por:Munganga Cultural

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Sempre foi de notória agitação o clima na região sul cearense. No Cariri, região que de certa forma, lhe corresponde, desde seus primórdios, registraram-se disputas e conflitos, a partir mesmo do período da posse da terra, na época das Sesmarias. Muito mais conturbado, todavia, surgiu o século 19. A seca de 1877, com seu cortejo de miséria, arruinou a província do Ceará. Milhares de retirantes percorriam as estradas em demanda de vilas e cidades onde imploravam a esmola para matar a fome.

No Cariri, a despeito de ser região privilegiada, a fome fazia devastações. Morriam, diariamente, no Crato, de 12 a 16 pessoas. Os famintos não tinham força para mendigar. Às vezes, antes de recolher a esmola, caiam agonizantes, com as feições convulsas, no transe derradeiro. No meio dessa calamidade, surgiam bandos de cangaceiros que se apoderavam dos bens alheios. Os próprios retirantes invadiam as propriedades em busca de alimento. Furto, roubo, tomada de presos, assassinatos, prostituição e morte por falta de pão, eis as consequências desse flagelo.

Vários grupos de cangaceiros andavam sobre o chão do povoado de Brejo dos Santos. O flagelo começou nos fins de 1874, com o bando de Inocêncio Pereira da Silva, vulgo Inocêncio Vermelho, foragido da vila de Misericórdia (atual Itaporanga), na província da Paraíba, onde assassinara Andrelino Araújo. Perseguidos por Antônio Tomás de Araújo Aquino, irmão da vítima, passavam-se os criminosos para a Comarca confinante de Jardim. Residiam, ora no Salgadinho, do termo de Milagres, ora na povoação de Brejo dos Santos, do termo de Jardim. Gozando da proteção do Juiz Municipal de Jardim, Dr. Antônio Augusto de Araújo Lima, Inocêncio chegou a exercer funções policiais contra criminosos desvalidos, em toda zona banhada pelo riacho dos Porcos.

Logo depois, fugido da cadeia de Crato, juntou-se ao grupo de Inocêncio Vermelho, o criminoso João Calangro, natural de Milagres, onde era conhecido por João Senhorinha. Seu verdadeiro nome, porém, era João de Sousa Calangro. Ele era de estatura baixa, sardento e de cabelos cor de fogo, e não deve ser confundido com o negro João Calangro, perverso cangaceiro de Antônio Quelé, abatido no dia 27 de novembro de 1910 por companheiros seus, nas proximidades de Jati, entre a ladeira do Pacífico e a fazenda Oitis.

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Com isso, os salteadores, transformados em agentes policiais, mantinham a ordem nos povoados e prendiam os criminosos desvalidos. O banditismo político chegava ao ponto de uma autoridade regeneradora encarecer ante o Governo Provincial, os serviços que Inocêncio Vermelho tinha prestado, e pedir, ao mesmo tempo, para o bandido, remuneração por iguais serviços, ou promover a sua livrança.
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A Comarca de Jardim tornava-se um viveiro de criminosos, no qual José Ataíde Siqueira (Zuza Ataíde), Inocêncio Vermelho, João Calangro, Barbosas, Brilhantes, Viriatos, Agostinho Pereira, Pedro Simplício, Carneiro, Manuel Tomás e outros representam o papel de peixe-rei, cuja força estava na razão das façanhas. Em junho de 1876, Inocêncio foi morto na região do Poço, por Sebastião Pelado, que agia a mandado de Antônio Tomás de Araújo Aquino, irmão de Andrelino de Araújo. Morto Inocêncio, João Calangro assumiu a chefia do grupo, ao qual se incorporou Antônio Vermelho, irmão de Inocêncio, a fim de liquidar Sebastião Pelado, que, por sua vez, formava outro grupo. 

A luta entre esses bandos rivais, cuja zona de operações se estendia ao território paraibano, atingiu seu clímax quando Dinamarico e José Pombo Roxo, do grupo de Pelado, eram mortos por João Calangro e Gato Brabo, e Manuel de Barros, do séquito de Calangro, foi morto por Pelado. Naqueles velhos tempos, o Brejo era o lugar preferido pelos bandoleiros que infestavam o Cariri, por motivo de suas condições naturais. No meado de 1876, procedente da vila de Várzea Alegre, ali se encostou o facínora Luís de Góis, acompanhado de Zuza Ataíde.

Dentro da povoação de Porteiras, os dois grupos se defrontavam e travavam forte tiroteio, morrendo na luta José Roberto, que ali se reunira com Pelado. O morto, famoso sicário, vivia sob a proteção do capitão José Mateus Pereira da Silva, morador na comarca de Vila Bela, da província de Pernambuco. O capitão José Mateus exigia de Sebastião Pelado a orelha de João Calangro, ameaçando-o de morte caso não se desincumbisse logo a tarefa. Para agravar ainda mais a situação dos habitantes da região, forças irregulares do capitão José Mateus chegaram ao Brejo, em perseguição ao grupo de Calangro. Num encontro entre os dois grupos, Sebastião Pelado recebia mortal ferimento, enquanto João Calangro, sabendo do estado do capitão José Mateus em Porteiras, ia até a povoação, no dia 02 de agosto de 1877, e lá diria-lhe toda sorte de impropérios e ameaças por espaço de dez horas.

O capitão José Mateus seguia com destino ao Pajeú, região baluarte dos Pereiras, e de lá trazia mais de cem homens, encontrando-se entre eles grande número de delinquentes. O 2° suplente de Juiz Municipal de Jardim, capitão Juvenal Simplício Pereira da Silva, sobrinho legítimo de José Mateus, assumia o exercício e autorizava a Força de Mateus a capturar João Calangro. A Força era divida em três grupos. Seguia um para Brejo dos Santos, outro para Missão Velha, e outro, comandado por Mateus e seus genros Galdino Alves de Araújo Maroto e Manuel Pereira da Silva, para Milagres.

Em 15 de agosto de 1877, o grupo comandado por Mateus assassinava a Manuel Valentim e espancava barbaramente a Trajano de tal, pelo simples fato de agasalharem o grupo de Calangro. A Força pernambucana, a pretexto de perseguir Calangro, praticava uma série de delitos. O tenente Alfredo da Costa Weyne, que se achava em Milagres, deliberava por cobrança a tais atrocidades. Aceitava, porém, a sugestão do Dr. Antônio Augusto de Araújo Lima, que julgava mais acertado enviar Balduíno Leão, amigo de Galdino Maroto, a fim de encontrar uma solução honrosa.

Balduíno, amigavelmente, conseguia que dez homens de Mateus se incorporassem à Força de Weyne, o que ocorria no sítio Bela Vista, distante meia légua de Milagres. De volta de sua excursão, os Mateus chegavam a Milagres no dia 23 de agosto, em número de 40, depois de serem cometido as maiores violências contra sertanejos indefesos. A permissão dada ao capitão Mateus, para, com Força irregular, perseguir os Calangros, criava péssimo precedente e aumentava a insegurança individual na região. Os grupos de Mateus preocupavam sobremaneira as autoridades cearenses. Um dos grupos tinha por comandante a José Rodrigues e o outro a Vila Nova, ambos conhecidos assassinos. 
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No dia 29 de agosto, o tenente Weyne recebia requisição dos Juízes de Direito de Barbalha e Crato, cujas cidades estavam ameaçadas de ser assaltadas por mencionados grupos. A exemplo dos bandos de Mateus formavam-se outros grupos que se diziam gente do aludido Capitão, mas que visavam ao roubo e ao furto. O sul cearense vivia dias incertos. Além dos Calangros, operavam os Viriatos na Boa Esperança e os Barbosas no Salgadinho. 

À parte, mas sob os comandos de João Calangro, havia surgido, em Milagres, o grupo dos Quirinos, chefiados por três irmãos, o mais velho dos quais se chamava Quirino. Agiam também, sob a proteção de Calangro, Jesuíno Brilhante (Jesuíno Brilhante de Melo Calado) e Gato Brabo, os dois últimos também no comando de grupos. Por conveniência, esses bandos agiam separadamente. Havia, entre eles, porém, um “tratado de aliança defensiva e ofensiva de sorte que, quando receavam alguma conspiração, reuniam-se imediatamente, tomando João Calangro o comando gera”. João Calangro acabara por expulsar os Mateus do Ceará. As populações caririenses responsabilizaram o capitão Mateus pela quase extinção de gados. E com isso, passavam a confiar em João Calangro.

Essa confiança “subiu ao ponto de desejar-se pelos povoados, sobretudo em dias de feira, a presença de João Calangro para garantia daquilo que cada um trazia ao mercado publico. Ultimamente povoados, senhores de engenhos e fazendeiros disputavam, como ainda disputam, à porfia, a sua presença sempre que sabem que se aproxima algum grupo de malfazejos, ou temem qualquer assalto. Por isso ele foi obrigado a aumentar o número de seus policiais... E desse modo nulificou-se entre nós completamente a autoridade publica que foi substituída por João Calangro, que entende que a ele e tão somente a ele, o Cariri deve não ter sofrido maiores desgraças” (em “Cearense”, edição de 11 de outubro de 1877). 
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Entrada da "Gruta de João Calango"
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Correspondências de Barbalha publicadas em Cearense diziam que a cidade estava "sendo garantida pelo grupo do célebre João Calangro, protegido pelas autoridades". Compunha-se o grupo de 22 homens "que trajava a casimira, notando que quase todos os outros são subordinados, pelo fará 100 homens a qualquer hora". Um dos correspondentes concluía: "Hoje é perigoso ser rico, pois o povo pobre (os bandidos) lhes hão declarado guerra de extermínio" (em Cearense, 24.02 e 17.03.1878). No Cariri, os particulares garantiam o direito de propriedade com armas nas mãos. Em Barbalha, as casas Sampaio, Santiago e outras estavam convertidas em quartéis.  

Em Constituição, de 17 de fevereiro de 1878, publicava carta de Missão Velha, na qual o correspondente afirmava que os ladrões de gado aumentavam dia a dia, e que a cadeia estava cheia deles. Carta de Barbalha, publicada na mesma edição, comunicava que o gado, a cana e a mandioca não podiam mais produzir, "porque o furto é por demais". E finalizava: "A seca é a causa de tudo".

Aliás, por toda a Província flagelada pela seca, o direito de propriedade recebia tremendos impactos. O gado, retirado para o Piauí, ao voltar para o Ceará, na Serra Grande, não conseguia atravessar a linha de salteadores. No centro da Província, outros bandos de salteadores "acometem a propriedade com a maior ostentação, dir-se-á que se proclamou entre nós o comunismo". Na vila de União, o célebre José Rodrigues, à frente de um bando, assaltava os carros nas estradas, tomava os víveres e os distribuía "como se fosse coisa sua" (em Cearense, de 22 e 27.02 e 01.03.1878).

Continua...

Memórias Sangradas Por: Ricardo Beliel


Bom de prosa, Zé de Olindo nos diz "Zé Sereno e Sila se casaram na Serra Negra e depois se entregaram apoiados por meu pai Antonio Olindo. Corisco quis se entregar para meu tio João Maria, mas preferiu fugir e Zé Rufino, que era da Serra Negra saiu na perseguição. Os cangaceiros aqui não ficaram na cadeia. Foram para a casa de Chico Capitão, que era comerciante de peles, porque tinham medo de vingança, mas viviam nas ruas. Soltos. Era muita curiosidade da gente. Todo mundo queria ver como eles eram. Curiosidade e um pouquinho de medo. Mas Cajazeira e Diferente fugiram. O Cajazeira, que era filho de um coiteiro, o Julião, depois foi candidato a prefeito de Poço Redondo, apoiado por meu tio, mas perdeu e depois roubou as urnas. Para se vingar do prefeito, o Artur, contratou dois pistoleiros, mas quando ele tratou com os dois, o Eron e o Alfredão, eles já estavam entabulados com o outro lado e mataram ele. Cajazeira tinha sobrevivido ao Angico e era casado com Enedina, que morreu no cerco. Depois ele se casou com a irmã dela".

João Capoeira, irmão de Enedina e de Estela, a segunda mulher de Cajazeira, tinha agrado por Zé de Julião, como era conhecido Cajazeira entre os seus, e nos conta em sua pequena casa de dois cômodos em Poço Redondo, amparando seus 106 anos num pau de muleta, que "todo mundo aqui queria que ele fosse prefeito, mas o governo não aceitou não. O Eronides, que foi governador lá na capital, queria outro. Ele pelejou, mas não teve jeito". Julião, um bem sucedido dono de fazendas e pai de seu cunhado, tentou de tudo para tirar da cabeça do filho, Zé, o desejo de se aventurar na companhia dos cangaceiros. "Minha família era pobre e o Zé era fazendeiro. Nós morava na fazenda deles, de nome Jiquiri. O pai dele dava tudo para o filho não entrar nessa vida de bandido, pediu para ele escolher uma das quatro fazendas e até uma casa em Aracaju, em todo canto, mas não teve jeito. Terminou de fazer o casamento com minha irmã e os dois foram pros lados dos cangaceiros. Ela morreu no fogo, mais Lampeão. Lampeão não era conforme o povo dizia. Era um hominho, respeitador de todo mundo". Seu João Capoeira não seguiu os passos e percalços de Enedina, ainda muito jovem preferiu dar ouvidos às palavras de sua irmã mais velha, "não caia nisso não. É só pra nós que já estamos perdidos, pois que cangaceiro é comida de bala".

"Depoimentos de Zé de Olindo, em Jeremoabo, e João Capoeira, em Poço Redondo, Sergipe" Trecho do livro Memórias Sangradas, a ser lançado, sobre a saga dos cangaceiros nos anos 20 e 30.Foto e texto de Ricardo Beliel.



Comentários do Conselheiro Cariri Cangaço, pesquisador e escritor de Poço Redondo, Sergipe, Rangel Alves da Costa:"Alguns equívocos cometidos por Seu Zé de Olindo. Julião de Nascimento, o pai de Zé de Julião (Cajazeira), não pode ser visto propriamente como coiteiro. Ele era fazendeiro, proprietário de muitas terras, e mais voltado para os seus negócios do que para o cangaço. Aliás, seu filho Zé entrou para o cangaço exatamente pelas extorsões feitas pela volante contra seu pai, bem como todos os tipos de agressões praticadas contra os humildes sertanejos. Como não podia revidar ou vingar as barbaridades da volante, então resolveu se juntar ao bando de Lampião. Outro erro também com relação ao roubo das urnas. Numa eleição fraudulenta, Zé de Julião perdeu a primeira eleição que disputou (também a primeira de Poço Redondo). Mas na segunda, ante as falcatruas eleitoreiras já planejadas em seu desfavor, então roubou as urnas pouco após o início da votação. Daí ser errôneo afirmar que perdeu também essa segunda eleição disputada. O candidato opositor foi proclamado vencedor tempos após e sem que nenhum voto tivesse sido contado. Esse foi o único episódio que levou Zé de Julião à penitenciária. Não foi preso após o fim do cangaço, ainda que tivesse sido duramente perseguido (era protegido pelo Coronel João Maria de Carvalho, da Serra Negra), mas pelo roubo das urnas. Tem-se, assim, meu caro Beliel, que tal registro possui alguns testemunhos que necessitam de outro olhar à realidade histórica. Abraço e obrigado pela lembrança em me marcar. Aguardando o amigo em Poço Redondo, no Memorial Alcino Alves Costa.


Comentário de Ricardo Beliel: "Oi querido Rangel Alves da Costa. Minha admiração por você e seu trabalho aí em Poço Redondo em manter viva essa memória da época do cangaço e da região. Por esse motivo o marquei para que pudesse acrescentar seu conhecimento à esses depoimentos. O senhor Zé de Olindo é sobrinho do coronel João Maria e do Liberato de Carvalho. Como ele diz, a eleição em Poço Redondo tinha interesses da família Carvalho, que apoiaram Zé de Julião. Nesse depoimento ele não menciona se houve uma ou duas eleições, apenas que "foi candidato a prefeito de Poço Redondo, apoiado por meu tio, mas perdeu e depois roubou as urnas". Um fato verídico. Mas é curioso como se refere a esse episódio, principalmente sobre a contratação dos pistoleiros. Você tem como confirmar essa informação? Na época em que foram presos os cangaceiros em Jeremoabo ele já tinha idade para ser um bom testemunho. Principalmente porque os cangaceiros ficaram na cidade em contato com a população. Alguns deles se entregaram na região de Serra Negra onde era a base da família Carvalho. Sobre a entrada de Zé de Julião no cangaço, as palavras são do senhor João Capoeira, você o conhece, que era irmão de Enedina e cunhado do Zé. Ele não dá os motivos sociais dessa decisão, apenas que o pai tentou convence-lo a não entrar no bando de Lampião. Seu João deveria ter a mesma idade de Zé, seu cunhado, e conviveu bem com todos eles. Ao chamar o fazendeiro Julião de "coiteiro" o senhor Zé de Olindo pode estar apenas adjetivando o personagem em vez de afirmar que isso era verdade. Veja que essa declaração está nas aspas da fala dele, não me cabe censurá-lo ou corrigi-lo, pois é assim que ele vê e se expressa sobre esse assunto. Eu apenas evito incluir no texto absurdos e mentiras descaradas dadas em minhas entrevistas. Quanto às interpretações dos personagens, tenho que respeitá-los. No livro há bastante texto com a contextualização histórica e por essas informações eu me responsabilizo, quanto aos depoimentos, há algumas contradições, pequenas, mas que revelam um pouco mais sobre eles próprios que estão falando. A História é sempre contraditória, mas a experiência humana é única e é disso que trato no livro. Aproveito para sugerir que eu possa enviar trechos do texto que se referem à sua região e possamos trocar informações para enriquecê-lo. O que acha?

Fonte:Facebook Ricardo Beliel

Brejo dos Santos e "Seu" Antonio da Piçarra - Documentário Por:Munganga Produções Culturais

Fonte: YouTube

Documentário sobre o maior coiteiro do Rei do Cangaço em terras cearenses. Antônio Teixeira Leite, mais conhecido como Antônio da Piçarra. Em seu sítio Piçarra, em Porteiras - CE, aconteceu o famoso episódio do cangaço denominado o "Fogo da Piçarra" em 27 de março de 1928 e a morte do cabra Sabino das Abóboras, homem de confiança de Lampião, onde em março de 1926 teria recebido a patente de Segundo-Tenente do Batalhão Patriótico de Juazeiro.
Esse registro pertence aos descendentes de Antonio da Piçarra, gentilmente nos cedido pelo pesquisador e escritor Luís Bento de Sousa, o Luís Carolino, de Jati - CE. A primeira parte deste documentário foi dirigido por Rosemberg Caryri;
Apresentação: Tom Cavalcante
Música: Pingo de Fortaleza
Narração: Tom Barros

Almoço Literário Discute Antônio Conselheiro no Cariri Cangaço

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Dando continuidade ao segundo dia de Cariri Cangaço Quixeramobim, a próxima parada seria a Fazenda Barro Doce, a cerca de 15 quilômetros do centro da cidade; na rodovia CE 060 que liga aos municípios de Pedra Branca e Senador Pompeu, no sertão central cearense. A caravana Cariri Cangaço foi recepcionada pelo talento da espetacular música de David Einstein, interprete e musico e pelo percussionista "Geleia", para logo em seguida sermos presenteados pelo maravilhoso baião e o forró pé de serra com a talentosa e encantadora Cecília do Acordeon.
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 "Geleia" e David Einstein
Cecília do Acordeon
Manoel Severo e Wescley Rodrigues
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A temperatura do nosso sertão, em boa parte de nossa região nordestina, está sempre variando entre o quente e o fervendo, mas Quixeramobim nos permitiu um tempo ameno com direito a chuva leve e refrescante além de um surpreendente arco-iris, como que selando a harmonia e a celebração da cultura nordestina ! Na programação um almoço tipicamente sertanejo: O feijão de corda e o feijão verde, a carne seca, a galinha caipira, carneiro guisado e um inigualável pirão, vatapá , arroz, saladas, tudo com  ingredientes de forte vínculo regional marcaram o segundo dia de Cariri Cangaço. 
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O verdadeiro tempero do sertão no Almoço Literário do Cariri Cangaço Quixeramobim
 Paulo de Tarso, Manoel Serafim, José Irari, Jorge Figueiredo
 Carlos Alberto, Quirino Silva, Mucio Procópio e Ângelo Osmiro
 Afranio Gomes, Tomaz Cisne, Edilane, Beto e Kévyla Sousa
Lili Conceição, Célia Maria, Quirino Silva, Ângela e Luiz Ruben
Archimedes Marques e Damata Costa
Célia Maria, Professor Domingos, Francine e Quirino Silva 
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Em seguida ao almoço com sabor de sertão, trouxemos muita literatura, conhecimento e debate tendo como tema central: Antônio Vicente Mendes Maciel - Antônio Conselheiro. A bancada de conferencistas do almoço literário, sob a mediação do advogado Pedro Igor Azevedo, iniciou com a pesquisadora e professora Goreth Pimentel de Quixeramobim, que apresentou reflexões sobre o tema "O que ficou de Antônio Conselheiro e Canudos no Imaginário Popular de Quixeramobim”.  Goreth Pimentel que é filha de Quixeramobim, é especialista em História pela Universidade Estadual do Ceará (UECE) / Faculdade de Educação Ciências e Letras do Sertão Central (Feclesc), ressaltou: " Está sendo desenvolvido no município iniciativas exitosas como o movimento Conselheiro Vivo, que se constitui um trabalho permanente de construção e revisão da imagem de Antonio Conselheiro, fazendo justiça ao líder sertanejo, tão confundido pela historiografia oficial, diminuindo e denegrindo a imagem dos líderes populares quando eles desagradam os seus interesses. O Cariri Cangaço se une de forma maravilhosa a esse sentimento e trabalho feito aqui em Quixeramobim." 
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 Neto Camorim, Pedro Igor e Goreth Pimentel
Pedro Igor, Goreth Pimentel e Damata Costa
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Sobre o tema a professora Goreth Pimentel comenta ,"o que ficou de Antônio Conselheiro e Canudos no imaginário popular de Quixeramobim", um trabalho desenvolvido ainda na metade da década de 1990 e orientado pelo professor Luiz Osvaldo Moreira Santiago, traz à tona a memória do povo de Quixeramobim sobre o conterrâneo Antônio Conselheiro e denuncia o impacto do silêncio, do esquecimento, da visão distorcida e até do preconceito, semeados pela historiografia oficial. 
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Antônio Vicente Mendes Maciel é o verdadeiro nome do beato Antônio Conselheiro. Ele nasceu aos 13 de março de 1830, na Vila do Campo Maior, hoje Quixeramobim. Morreu no dia 22 de setembro de 1897, no arraial de Canudos, um vilarejo no sertão da Bahia, numa sangrenta batalha contra as tropas do exército da República. Com seu carisma e pregações messiânicas, Conselheiro atraiu milhares de seguidores, entre lavradores retirantes da seca, índios e escravos recém-libertos, unidos na crença numa salvação milagrosa que os pouparia do dos flagelos do clima e da exclusão econômica e social. O movimento foi duramente reprimido e a imagem de Conselheiro, para confundir a opinião pública, foi retratada como um louco, fanático religioso e contrarrevolucionário monarquista perigoso.
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Professor Neto Camorim
Em seguida o pesquisador e professor Neto Camorim, também de Quixeramobim, apresentou "Os Caminhos de Conselheiro”, resultado de muitas de suas peregrinações pelos caminhos percorridos por Antônio Conselheiro; "rasgando" os sertões nordestinos a partir de Quixeramobim no Ceará até a mítica Canudos, no sertão baiano
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Francisco Chagas da Silva Neto, conhecido por Neto Camorim em função do nome do avô paterno que se chamava Manuel Camorim, é um dos fundadores do IPHANAC; parceiro do Cariri Cangaço Quixeramobim; e conta que sua primeira visita a Canudos foi em 2007 mas só a partir de 2012 participa ativamente da “Romaria de Canudos” ao lado de outros entusiastas do tema, todos de Quixeramobim e região. 
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Neto Camorim, Pedro Igor, Goreth Pimentel e Damata Costa
Arraial de Canudos 
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“Desde muito tempo refletia o porque dessas duas cidades que possuem tanto em comum não se aproximarem e pensarem ações conjuntas sobre conselheiro; quero ressaltar, que foi Zé Celso quem já na época dos “Sertões” fazia essa indagação”e continua Camorim, "aí então em 2012 junto com alguns amigos resolvemos ir todo ano a Canudos e participar da Romaria, quando ao mesmo tempo possuíamos o desejo de  incentivar a aproximação de Canudos a Quixeramobim. Como consequência a aproximação aconteceu e se em outubro vamos a Canudos, em março o pessoal de Canudos vem a Quixeramobim".
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Por fim o pesquisador João da Mata Costa, de Natal trouxe: "Santo Antônio dos Mares e o Rio Grande do Norte". João da Mata Costa, conhecido por Damata Costa. Possui mestrado em Geofísica pela Universidade de São Paulo e doutorado em Física pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, é professor da UFRN, além das experiências na área de Geofísica Astronomia, atua ainda nas temáticas: Historia e Filosofia da Ciência, Divulgação Científica e Cultural, Astronomia entre outros.
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Pedro Igor, Goreth Pimentel e Damata Costa
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Damata apresentou aos convidados do Cariri Cangaço reflexões sobre o episódio da participação do estado do Rio Grande do Norte na guerra de Canudos: " A grande família Wanderley forma um clã de ilustres poetas, médicos, teatrólogos, jornalistas e grandes intelectuais norte-rio-grandense. Manoel Segundo Wanderley (1860- 1909) faz parte dessa família e faleceu no dia 14 de janeiro de 1909, ano da morte do escritor Euclydes da Cunha. O grande poeta Segundo Wanderley escreveu o belo poema "Na Brecha" em homenagem aos bravos soldados do 34º Batalhão de Infantaria, convocados para preservar a república e libertar a nação do fanatismo e banditismo associados ao grupo liderado pelo beato Antonio Conselheiro, em Canudos. 
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Ruinas da Capela do Bom Jesus em Canudos, após o massacre de 1897
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E continua Damata: "integrava esse Batalhão o cabo do Exercito Francisco Dias de Andrade, conhecido como Chico de Jino nascido na cidade de Arez – RN (1879 –1960). O 34º B. I. saiu de Natal em 29 de março de 1897 no vapor Uma até Recife. Lá se uniu ao 40º Batalhão do Pará e ao 35º do Piauí, compondo a Quinta Brigada. O 34º B. I. integrou a Quarta Expedição que finalmente conseguiu derrotar Canudos. Segundo Sales, desse Batalhão morreram 41 soldados. A guerra acabou em Outubro com o massacre final e queima de todo Arraial. Os soldados do Batalhão do qual fazia parte Chico de Jino só regressaria ao lar em Dezembro de 1897."
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Preservar a República recém instalada contra um bando de fanáticos … Infelizmente era essa a visão distorcida disseminada pelos meios de comunicação e pelo escritor Euclydes da Cunha. Canudos foi a maior guerra civil do Brasil e dizimou milhares de inocentes, mulheres, crianças e soldados por três vezes derrotados pelos destemidos seguidores de Antonio Conselheiro. Uma guerra de canhões e metralhadoras contra facões e carabinas.O poema “ Na Brecha” foi lido em Natal com muito fervor patriótico na despedida dos soldados para combater o mal:“Soldado chegou a hora / De triunfar ou morrer… / Se é grande o vosso heroísmo / Maior é o vosso dever! / … “
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Pedro Igor e Francine Maria
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O encerramento do almoço literário do Cariri Cangaço Quixeramobim em seu segundo dia reservou a apresentação do cordel sobre a vida de Antônio Conselheiro de autoria do grande poeta Geraldo Amâncio e declamado por Francine Maria, que intercalou ao pandeiro, com uma composição de João Cabral de Melo Neto, "Morte e Vida Severina".   
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Louro Teles, Célia Maria, Francine Maria e Quirino Silva
 Paulo de Tarso, Elane Marques e Linda Lemos
Wescley Rodrigues, Cristina Couto e Divonildo Sobreira
 Afranio Oliveira, Aderbal Nogueira, Ana Lucia, Vera e Archimedes Marques
Manoel Belarmino, Maria Oliveira, Rose Souza e Rai Arts
Fátima Lemos, Linda Lemos e Divonildo Sobreira
Goreth Pimentel, Célia Maria, Carlos Alberto Carneiro, Lili e Quirino Silva

Segundo Dia Cariri Cangaço Quixeramobim
Almoço Literário na Fazenda Barro Doce
13 horas do dia 25 de Maio de 2019
Fotos de Louro Teles

O Sertão de Marica Lessa no Segundo dia de Cariri Cangaço Quixeramobim

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O segundo dia de Cariri Cangaço Quixeramobim 2019 marcou a visita da caravana de pesquisadores ao "Sertão de dona Marica Lessa". A região da Canafístula; cerca de 22 quilômetros do centro , na rodovia que liga Quixeramobim ao município de Madalena; nos esperava por volta das nove e meia da manhã e um sertão alegre, ainda com as chuvas do final de maio, proporcionava um cenário deslumbrante da zona rural de Quixeramobim. Era o dia 25 de maio quando a caravana Cariri Cangaço chegou a Escola de Ensino Fundamental Damião Carneiro.
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Aílton Siqueira, Manoel Severo, Pedro Victor, Diretora Jacqueline e Pedro Igor: Escola Damião Carneiro recebe Cariri Cangaço Quixeramobim
 Professores, alunos e pais recepcionam o Cariri Cangaço
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A surpresa foi geral quando ao desembarcarmos dos ônibus fomos recebidos por toda a comunidade escolar da Canafístula; a diretora da Escola Damião Carneiro, professora Jacqueline, os professores e principalmente as crianças e seus pais, aguardavam o Cariri Cangaço para uma grande celebração das coisas e memórias do sertão. A mesa foi formada pelo curador do Cariri Cangaço, Manoel Severo Barbosa, pelo presidente da Comissão Local, poeta Bruno Paulino, pelo secretário de cultura de Exu, Conselheiro Rodrigo Honorato, pela diretora da escola, professora Jacqueline  e pelos conferencistas, Carlos Alberto Silva de Natal e Carlos Alberto Carneiro, de Quixeramobim.
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 Carlos Alberto Silva, Rodrigo Honorato, Bruno Paulino, Manoel Severo, 
Carlos Alberto Carneiro e Diretora Jacqueline
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A manhã de Cariri Cangaço na terra da Marica Lessa iniciou com a apresentação dentro do painel "Ciclo do Gado" do cordel "O Rabicho da Geralda" pela artista mirim, Francine Maria. O Rabicho da Geralda, foi coletado pelo romancista José de Alencar e publicado em 1874 no jornal Globo do Rio de Janeiro, e posteriormente, na presente versão, por Silvio Romero em Contos Populares do Brasil, em 1954.
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"Preciso confessar uma coisa, colocamos a Francine na programação e só lembrei de passar o Rabicho da Geralda para que pudesse decorar há uma semana do evento e qual não foi minha surpresa em ver que Francine não só decorou como encantou a todos, realmente um momento espetacular" revela Manoel Severo. Já Bruno Paulino "O Rabicho da Geralda é sensacional, inaugura de forma magistral esse festejado ciclo do gado e o mais legal é que a narração do romance se dá a partir do próprio boi, isso é muito legal". 
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Francine Maria e o "Rabicho da Geralda"
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"Um dos aspectos mais característicos do romantismo foi a valorização da cultura popular, que motivou escritores de diferentes países a compilar fábulas, contos e poemas transmitidos através dos tempos pela tradição oral. No Brasil, esse interesse deu lugar a uma importante pesquisa de José de Alencar sobre o cancioneiro popular cearense, romanticamente interpretado como uma espécie de repositório da nacionalidade: “É na trovas populares”, diz ele, “que sente-se mais viva a ingênua alma de uma nação”.1 Redigido na forma de quatro cartas enviadas a Joaquim Serra, esse estudo foi publicado no jornal O globo nos dias 7, 9, 10 e 17 de dezembro de 1874, e posteriormente editado nas Obras completas do romancista organizada por Afrânio Coutinho para a Editora Aguilar, onde aparece com o título de O nosso cancioneiro. Nas cartas, José de Alencar examina as cantigas populares do Ceará, detendo-se sobre dois poemas dedicados ao que Câmara Cascudo chamou de “ciclo do gado”.2 Com o auxílio de Capistrano de Abreu, na época um jovem de 21 anos de idade, Alencar obteve uma lição da cantiga d’O Rabicho da Geralda, e confrontando-a com as quatro versões incompletas e truncadas que já possuía, lançou-se ao trabalho de reconstituí-la. É a versão restaurada dessa cantiga que, juntamente do Boi Espácio, absorve suas considerações sobre o cancioneiro cearense.
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Carlos Alberto Carneiro, Francine Maria e seu presente: 
A obra do escritor Marum Simão
Múcio Procópio
Pedro Lucas Feitosa, Suely e Cecília do Acordeon
Poeta e escritor Elton da Nana e a pequena Bibi
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Ali, no pátio espetacularmente decorado pelos professores e alunos, aconteceram as tres primeiras conferências da manhã, todas tendo como personagem principal a figura mítica e controversa da sertaneja Marica Lessa, ou; Maria Francisca de Paula Lessa; acusada de tramar o assassinato de seu marido e imortalizada a partir o romance ficcional do grande cearense Oliveira Paiva, "Dona Guidinha do Poço".
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Mas quem é Marica Lessa ?
A menina Maria Francisca, nasceu em janeiro de 1804, unica filha mulher do casal Francisca Maria de Paula e do Capitão-Mor José dos Santos Lessa. Com uma infância normal por entre a sociedade rural da época, costumava brincar e se sobressair entre os quatro irmãos homens e tinha sua vida juvenil entre a fazenda de seu rico pai e a vila de Quixeramobim. Por seu comportamento e personalidade forte, era muitas vezes considerada muito "avançada"para uma moça de sua época. em 1827 a jovem Marica, então com 23 anos seria desposada pelo pernambucano Domingos Victor de Abreu e Vasconcelos. Como dizíamos no inicio e segundo relatos a jovem Marica Lessa possuía uma personalidade muito forte e naturalmente acabaria se tornando o homem da casa, diante do papel de figurante do esposo Domingos Vasconcelos que apesar disso acabaria sendo o sucessor do sogro, Capitão-Mor José dos Santos Lessa "na vida pública de Quixeramobim como Juiz de paz, vereador, presidente da câmara, suplente de juiz municipal, coronel da guarda nacional, quando se encontrava ausente o presidente local, Cônego Antônio Pinto de Mendonça." como ressalta Jaqueline Cordeiro.o
Voltemos no tempo e ao casamento que aparentemente corria sob as bençãos dos céus... Vamos recorrer ao texto de Jaqueline Cordeiro: "Aconteceu que, após muitos anos de casados, um dia apareceu na fazenda um sobrinho do esposo; senhorinho Antônio da Silva Pereira; foragido da justiça de sua terra, onde fora denunciado como cúmplice da morte de seu padrasto. O tio o acolheu em sua casa, deu-lhe todo apoio e através da política, procurou livrá-lo do processo." Na verdade enquanto se esquivava da justiça,  senhorinho acabou se fixando em Quixeramobim e assumiu o labor de comerciante para depois fixar-se em uma das fazendas do tio. O fato é que o mesmo acabou sendo absolvido pela justiça e por consequência houve grande celebração por parte da família, principalmente por parte da "tia afim" Marica que naquela época que se mostrava muito interessada em tudo que dissesse respeito ao sobrinho do marido...
Continua...
Carlos Alberto Silva, de Natal-RN
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Manoel Severo apresentou as boas vindas a todos que lotavam o pátio da escola Damião Carneiro e disse da grande emoção do Cariri Cangaço em ser "recepcionado com tanto carinho pela comunidade escolar da Canafístula" para logo em seguida passar a palavra para o primeiro conferencista da manha, pesquisador Carlos Alberto Silva, de Natal, que em sua apresentação traçou o perfil do sertão nordestino desde a época da colônia, passando pelo ciclo do gado e chegando até o século XIX, ambiente berço tanto de Antonio Conselheiro como de dona Marica Lessa, numa contextualização preciosa para entendermos os acontecimentos e suas repercussões de forma mais lúcida.
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Rodrigo Honorato, Bruno Paulino, Manoel Severo e Carlos Alberto Carneiro
Bruno Paulino, Manoel Severo e Carlos Alberto Carneiro

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O segundo conferencista da manhã foi o pesquisador Carlos Alberto Carneiro, de Quixeramobim, mas radicado em Fortaleza. Como ele mesmo se intitula, "pesquisador de Marica Lessa", Carlos Alberto Carneiro apresentou a biografia e os principais episódios da vida da sertaneja da Canafístula e o resultado de sua pesquisa ampla nos periódicos da época, nos cartórios e no arquivo público de Fortaleza e comenta: "Toda a documentação estava em sacos que são usados para cereais e haviam muitos e muitos, mas venho me dedicando a essa pesquisa e ainda não acabei de analisar em sua totalidade os documentos referentes a Quixeramobim". Carlos Alberto Carneiro apresentou ainda na mesma manhã uma exposição de fotografias importantes ligadas a região e à personagem.
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"Quando o sobrinho do marido; Senhorinho;  possuía a casa comercial na vila, Marica Lessa tornou-se sua principal freguesa, depois quando o rapaz se interessou pela filha do juiz, ela não gostou, e através de críticas ferozes, procurou desfazer o namoro. Convidava-o frequentemente para passeios, festas nas fazendas vizinhas e outros eventos, com a finalidade de tê-lo sempre ao seu lado. Em pouco tempo o pessoal da fazenda passou a fazer comentários maldosos, mas o jovem não dava mais atenção ao tio que lhe dera a mão. Este, assistia a tudo impassível e parecia não acreditar no romance da esposa com o sobrinho. Só veio a ter certeza quando um dia no campo, viu e ouviu um grupo comentando sobre o caso à beira de uma cacimba. Foi a certeza do fato, e tão fraco era Domingos, que pensou em suicídio em vez de reagir forte e decidido contra os adúlteros. Teve porem, mais tarde, a altivez de expulsar o sobrinho de casa."
A Fazenda já não era um ambiente harmonioso, Marica Lessa parecia não temer o conhecimento de todos sobre o caso com o sobrinho do Marido ou mesmo a humilhação a esse submetido. O Cel. Domingos Victor, acabou a Fortaleza se dá com seu chefe politico Senador Thomaz Pompeu de Souza Brasil, queria proteção para sua vida diante do quadro que se desenhava em Quixeramobim. No retorno fixou residencia na cidade não mais voltando para a fazenda." 
"Enquanto isso, Marica Lessa planejava uma maneira de matar o marido, seu primeiro pensamento foi contratar os serviços de um protegido seu acusado de matar a esposa por ciúmes, expôs seu plano ao criminoso e entregou-lhe um punhal que foi de seu avô, o assassino prometeu executar o plano, mas fraquejou, pois o Cel. Domingos Victor jamais havia lhe feito mal algum, devolveu então, o punhal e o dinheiro a Marica Lessa. Marica tinha fama de caridosa e benfeitora, e assim, tinha na sua fazenda um retirante da seca de 1845, de nome Antônio Silveira da Natividade, que se tornou seu amigo e compadre. Vendo-a enfurecida com o fracasso do primeiro mandante, este se ofereceu para executar o plano, porém, não iria fazê-lo pessoalmente, mandou então, Marica chamar um escravo conhecido por Corumbé, que aceitou a missão. Seguiram os dois a cavalo para a vila, ficando Antônio Silveira na casa de uma protegida de Marica, enquanto Corumbé seguiu para a casa do Cel. Domingos Victor, que estava na sala, diante de um espelho aparando a barba, ao vê-lo, vira-se o Coronel para guardar a tesoura na gaveta quando Corumbé o apunhala pelas costas. Tendo morte quase imediata, teve ainda tempo de gritar para a cozinheira da casa, apavorada, esta grita por socorro, logo aparecendo várias pessoas, inclusive o vigário, que retirou o punhal da vítima e o ouviu dizer o nome de seu homicida, antes de morrer.
Não foi difícil prender Corumbé, que todo vestido com roupa de couro, tinha dificuldade para se locomover, e preso, logo confessou o crime, dizendo que Marica Lessa havia sido a mandante. Quando a notícia de sua prisão se espalhou pela cidade, Silveira tratou logo de fugir e nunca mais foi encontrado pela polícia. O sepultamento do Cel. Domingos Victor foi realizado naquele mesmo dia, 20 de setembro de 1853, uma terça-feira."Continua...
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Bruno Paulino
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O poeta e escritor Bruno Paulino foi o terceiro conferencista deste segundo dia de Cariri Cangaço, em sua apresentação Bruno Paulino comentou de sua profunda afinidade com a personagem de Marica Lessa, "quando era criança meu avô Luis Paulino foi quem primeiro me contou sobre “a história da mulher que mandou matar o marido” como ficou conhecida no imaginário dos rincões de Quixeramobim a tragédia greco-sertaneja ocorrida em 1853 envolvendo a matriarca e eterna personagem do sertão Maria Francisca de Paula Lessa e seu marido o cel. Victor de Abreu Vasconcelos. O coronel fora a assinado em seu lar, pelo escravo Corumbé, supostamente a mando de Marica Lessa."
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Rodrigo Honorato, Bruno Paulino e Manoel Severo
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Bruno Paulino apresentou uma reflexão sobre a obra do grande romancista cearense Manuel de Oliveira Paula, Dona Guidinha do Poço , "O historiador Ismael Pordeus, natural de Quixeramobim, trouxe a luz em 1961, o festejado estudo À margem de Dona Guidinha do Poço: história romanceada, história documentada, em que comprovava que a ficção de Oliveira Paiva teria sido inspirada no caso real de Marica Lessa. Desse modo os nomes Marica Lessa e Guidinha do Poço são hoje indissociáveis na memória social de Quixeramobim, num entrelaçamento perfeito entre ficção e história, embora não esqueçamos o alerta do escritor Milan Kundera: o romance não tem compromisso com a realidade. Nesse sentido outra lenda que muito se divulgou e que ainda hoje encontra eco foi que Marica Lessa teria mandado construir – destinando a maior parte dos recursos – o prédio de Câmara e Cadeia e teria sido ela a primeira prisioneira do recinto. Esse fato é refutado por quase todos os historiadores que consultei, mas lembro de vovô me contá-lo como verdade absoluta."

"É um romance modelar do realismo brasileiro. Compromissado com a realidade, ele mostra uma história que realmente aconteceu, mudando os nomes dos personagens e acrescentando alguns detalhes ficcionais e ilustrativos. Depois há a coragem do autor em introduzir na sua linguagem o rico latifúndio linguístico regional. O falar da região aparece como forma de trazer não só o homem mas principalmente sua fala para dentro do enredo. Além disso há outra realidade cruciante no romance, que ainda hoje se faz presente na região do semiárido nordestino que é a seca."
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...O que restou da Casa Grande de dona Marica Lessa
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Atualmente a outrora Casa Grande de dona Marica Lessa guarda apenas resquícios do que foi no passado o casarão dos Lessa na vila da Canafístula Velha... Apenas tijolos e pedaços pequenos de porcelana denotam a memória e a história da sertaneja... além dos tanques onde os serviçais da fazenda utilizavam para o curtume. Mesmo em tempos de chuva percebe-se o clima árido sertanejo com a vegetação rala mas viçosa da caatinga nordestina. Ali nasceu, viveu e saiu para morrer Marica Lessa.
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"Crime consumado, o Cel. Miguel Alves de Melo Câmara, delegado da cidade foi até a Canafístula e acabou prendendo dona Marica, que ao lado de seu amante senhorinho, chegariam a cadeia pública no final da tarde, há quem diga que dona Marica Lessa foi uma das principais colaboradoras na construção da cadeia; sendo depois uma de suas prisioneiras ao lado do amante e de Corumbé, o executor; era o dia 21 de  setembro de 1853. "Processados, eles foram pronunciados no dia 28 de outubro daquele mesmo ano e no dia 8 de novembro, eles davam entrada na cadeia pública de Fortaleza." Marica Lessa aos 52 anos seria condenada a 30 anos de prisão em julgamento de outubro de 1855 ; já senhorinho Antônio da Silva Pereira  havia sido condenado a 4 anos de prisão em 19 de abril do mesmo ano, já o executor Corumbá foi julgado em 1864 sendo condenado e tendo sua perpetua no presídio de Fernando de Noronha. "Acredita-se que tanto Marica Lessa quanto senhorinho, foram defendidos pelos melhores profissionais da época. Logo após o crime , ela foi se desfazendo de suas propriedades para arcar com as despesas de advogados e outros gastos com a justiça, e em pouco tempo nada mais restava do que herdara de seu pai. Logo após o julgamento teve uma grande decepção, pois o senhorinho Antônio da Silva Pereira, conseguiu da justiça imperial, o direito de cumprir sua pena na prisão de Belém, no Pará. Maria Lessa sempre se disse inocente, e ao ser solta, semi enlouquecida e sem recursos, perambulou pelas ruas de Fortaleza até morrer como indigente."
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Escola Damião Carneiro recebe Diploma em memória de Marica Lessa
Coronel Marcel Leal e o presente ao Cantinho da Leitura
Diretora da Escola Damião Carneiro, professora Jacqueline
Célia Maria, Ângelo Osmiro e Quirino Silva
Aderbal Nogueira
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Um dos momentos importantes da manhã Cariri Cangaço foi a entrega do Diploma de reconhecimento à Personagem de dona Marica Lessa; a Guidinha do Poço ; por parte do Conselho Alcino Alves Costa às mãos da diretora da Escola Damião Carneiro, professora Jacqueline.  
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 Poeta Paulo de Tarso e o lançamento do cordel Marica Lessa
Paulo de Tarso e Manoel Severo
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Ao final da manhã o publico presente acompanhou o lançamento do cordel "Dona Marica Lessa" do poeta cordelista Paulo de Tarso - O Poeta de Tauá, que apresentou outros de seus festejados trabalhos, sempre destacando e resgatando a força da cultura nordestina e sertaneja. A  escola Damião Carneiro ainda haveria de proporcionar uma "merenda sertaneja" a todos os convidados do Cariri Cangaço presentes à Canafístula de Quixeramobim.
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Louro Teles e Heldemar Garcia
Lisbela Pandini
Padre Agostinho e as bençãos ao Cariri Cangaço Quixeramobim
Maria Oliveira, Rai Arts, Manoel Severo, Rose, Belarmino e Zélia: 
Caravana de Poço Redondo
Professor Ciro Barbosa, Pedro Igor, Manoel Severo, Pedro Victor, 
Carlos Alberto Carneiro e Professora Goreth Pimentel
Aílton Siqueira e Pedro Victor
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Segundo Dia de Cariri Cangaço Quixeramobim
Escola Damião Carneiro , Canafístula; Quixeramobim-Ceara
9 horas do dia 25 de Maio de 2019
Fotos de Louro Teles e Ingrid Rebouças