Os Calos do Cangaço Por:Raul Meneleu



O incômodo chamado calo, que a dermatologia, indica ser uma área dura de pele que se tornou grossa e rígida, inicia como resposta a repetidos contatos e pressões. Na botânica, o termo também é utilizado com uma condição de rigidez em superfícies de plantas ou folhas. No ser humano. já que o contato repetido é necessário para a existência do calo, o local mais comum para ocorrência são nas mãos e pés. Os calos geralmente não são nocivos, mas podem ser a fonte de outros problemas. como a infecção.


Alguns adágios conhecidos são: 
"Quando o calo aperta, uns vão embora da festa, outros continuam a dançar descalços."
"Os Santos não têm calos. Se os tiver, deixam de sê-lo na primeira pisada."
"O calo só dói quando o sapato aperta."

Pois bem... voltando ao tema, na história do cangaço, também temos calos que machucam e têm que ser extirpados, pois podem ser realmente nocivos e fontes de infecção histórica. Para extirpa-los devemos usar um remédio chamado "Pesquisa".

Francisca e Raul Meneleu Mascarenhas em dia de Cariri Cangaço

Na Saga Cangaço, existem pessoas que querem tirar proveito dela, mas não exporem o que sabem, ou esconderem a verdade, fazendo de tudo, inclusive entrando com processos na Justiça Civil, no intuito de barrar o surgimento de verdades escondidas. Lógico que não conseguem fazer isso por conta dos pleitos terem sidos considerados Inconstitucionais. Por exemplo; o caso da tentativa de proibição do livro "Lampião - O mata sete",  obra lançada em 2011 que também fala do suposto adultério de Maria Bonita, embora o foco fosse a homossexualidade de Lampião.


Após anos impedida de ir à venda, teve a autorização para a comercialização. O Tribunal de Justiça de Sergipe entendeu que o cangaceiro é uma figura pública e que isso significa abrir mão de uma parcela de sua privacidade, além de citar o direito à liberdade de expressão do autor. A família de Lampião entrou com um processo porque se sentiu ofendida com a insinuação de que Lampião era homossexual e que Maria Bonita era adúltera. 

Ora, não podemos tirar o direito da família em agir assim. Todo o direito teria e tem, de insurgir-se contra qualquer investida de denegrir-se as figuras de seus parentes. No entanto, não foi a família que deu uma contribuição maior para rebater essas "ofensas" do autor, onde em seu livro, aborda um tema que nenhum estudioso ou pesquisador do cangaço ouviu falar, mas foram, os pesquisadores e escritores independentes que o fizeram, onde em nossos grupos de discussão, fizemos artigos combatentes para desconstruir as afirmativas de tal livro. 
Archimedes Marques, Raul Meneleu e Manoel Severo


Inclusive tivemos um dos maiores estudiosos do cangaço em Sergipe, o Dr. Archimedes Marques, Delegado da Polícia Civil de Sergipe, que lançou seu livro contestação "Lampião Contra o Mata Sete" contrapor-se ao livro do ex-Juiz Dr. Pedro de Moraes que em reportagem no G1 Globo disse que não esperava essa repercussão sobre seu livro. "O livro tem 300 páginas e foi escrito entre 1991 e 1997, período em que o juiz morava em Canindé do São Francisco. Segundo Pedro de Moraes, o objetivo foi desmistificar o Lampião herói, pois ele também seria um criminoso. “O Lampião herói foi criado pela esquerda intelectualizada após o Golpe Militar de 1964. Antes, ele era visto como um bandido e é sobre isso que meu livro trata. Não é uma biografia gay de Lampião, é uma biografia qualquer, além disso, eu nunca usei a expressão gay”, garante o autor." 


Esse foi um dos calos da Saga Cangaço, mas existem outros. Entre eles "Os Filhos de Lampião e Maria Bonita".

Os pesquisadores e historiadores debruçam-se por diversos anos nesse "CALO" que a família mais próxima de Lampião e Maria Bonita insiste em não colaborar para que essa verdade não seja exposta, fazendo que se crie conjecturas sobre esse óbice. Por que tentam esconder isso da história? Que valor moral ou até mesmo financeiro existe para se barrar todos os testemunhos de pessoas que viveram à época desses dois vultos históricos da saga nordestina?





Tomo emprestado de meu amigo João de Souza Lima, grande pesquisador e historiador da Saga Cangaço, seu artigo "Os Filhos do Rei do Cangaço" que faz parte de um de seus livros,  onde debulha tin-tin por tin-tin o grande achado seu, quando enveredou pelas caatingas do município de Paulo Afonso na Bahia, em busca da "verdade-calo":


"Enigmático é o mundo do cangaço, ainda mais pela forma e o tempo de seus participantes resguardarem seus acontecimentos. Os últimos remanescentes, só agora, quando beirando os cem anos de idade, estão revelando seus segredos. Por longos anos, os fatos vivenciados foram trancados nos baús do esquecimento e lacrados com a chave da fidelidade da palavra empenhada. O tempo cuidou de reparar as falhas do passado e se fazer sentir a urgência de registrar seus marcantes episódios. Grande prejuízo para a história recente do nosso país, seria a perda dos relatos desses homens e dessas mulheres que viveram nas Caatingas, as conseqüências de uma luta ainda tão marcante para nosso povo do Sertão Nordestino. 


Misteriosa obediência ao segredo carrega o sertanejo, como se fosse parte inseparável o segredo e a honra. Alicerço-me no depoimento de Firmina Maria da Conceição, “Dona Cabocla”, cozinheira e lavadeira do bando de Lampião, que prestes a completar 102 anos de idade, no próximo mês de maio, lamentou ter me contado sua vivência com o Rei do Cangaço, se arrependendo de ter relatado sua relação dos préstimos de serviços ao cangaceiro, achando que mesmo hoje, o segredo deveria ter ficado guardado, só o confidenciando por insistência da filha Maria. 


Por tamanha devoção e fidelidade cresceu minha admiração e respeito a essa mulher que é hoje parte da nossa história recente. É este um dos mais sinceros e puros exemplos de lealdade. Por ser Lampião a figura central do cangaço, sendo o maior expoente desse capítulo da história, o estudo referente ao tema tem recaído sua maior parte sob seus rastros. Diante do mínimo vestígio de fundamento, nós nos defrontamos com a questão inevitável de transmiti-lo. Os caminhos trilhados buscam os fatos inéditos, seguindo uma infindável legião de admiradores e estudiosos ávidos a alcançarem os novos achados. Em busca deles tenho me dedicado a longos dez anos de uma extensa pesquisa. Nessa caminhada na busca de informações sobre a história de Lampião, neste longo trajeto, um dos fatos mais marcantes foi a descoberta de um filho de Lampião e Maria Bonita. Das quatro gestações da cangaceira, sabíamos apenas sobre Expedita Ferreira da Silva, ainda viva e residindo em Aracaju. Quando comecei a escrever o livro: “A Trajetória Guerreira de Maria Bonita, A Rainha do Cangaço”, sempre que perguntava aos meus entrevistados detalhes sobre os gêmeos Arlindo e Ananias, irmãos de Maria Bonita, ou obtinha o silêncio por resposta ou escutava um curto e desafiador resmungar: “Ananias não é irmão de Maria Bonita não!”. Tive que me desdobrar para conseguir alguém que me explicasse mais abertamente essa afirmativa. 

Durante dias busquei os informes dos familiares e amigos que conviveram com Maria Bonita nos conturbados dias do cangaço. Um dos primos de Maria, um senhor chamado Manuel Maria dos Santos, apelidado por “Seu Nequinho”, um ex-barqueiro acostumado a atravessar, junto com o pai, os cangaceiros que cruzavam o milenar Rio São Francisco, foi o primeiro a confidenciar: “Ananias é filho de Lampião e Maria Bonita! Aqui todo mundo sempre soube desse segredo. Agora, na época de Lampião, quem era doido de andar com uma conversa dessa?!” Seu Nequinho ainda indicou mais algumas fontes que poderiam atestar o que ele estava dizendo e fui buscar a comprovação. Dentre as pessoas que fizeram seus relatos (e os tenho todos filmados para futuras comprovações) pode-se encontrar Servina Oliveira de Sá (prima de Maria Bonita), Eribaldo Ferreira Oliveira (sobrinho de Maria Bonita), os irmãos Osvaldo, Olindina e Maria Martins de Sá (primos de Maria Bonita), Firmino Martins de Sá (foi casado com a prima e melhor amiga de Maria Bonita: Maria Rodrigues de Sá). 


Estes são alguns dos que confirmaram a história que se segue: Dona Maria Joaquina Conceição Oliveira, “Dona Déa”, mãe da Rainha do Cangaço, estava grávida e por coincidência Maria Bonita havia engravidado quase que na mesma época. Por questão de aproximadamente dois dias, as duas mulheres viram nascer seus rebentos. Mãe e filha gerando vidas e fazendo crescer sua descendência. Pelas dificuldades impostas pela luta travada nas caatingas, onde cangaceiro vivia permanentemente em fuga, lutando contra as perseguições da polícia, filho era um entrave, levando perigo aos componentes do grupo e sofrendo as conseqüências da vida atribulada. Os filhos nascidos no cangaço, sempre iam cair nos braços de alguma autoridade política ou religiosa e às vezes enviados aos simples catingueiros, quando dotados da extrema confiança do cangaceiro. Duro castigo para as mães que tinham que ver seus filhos serem criados por outras pessoas. Maria Bonita dera à luz. Lampião arquitetou deixar o filho com a sogra, para que ela criasse as crianças como se fossem gêmeas e assim aconteceu. O filho de Dona Déa ganhou o nome de Arlindo Gomes de Oliveira e o filho de Lampião e Maria Bonita foi batizado como Ananias Gomes Oliveira. Ananias ainda está vivo, residindo em São Paulo. Arlindo faleceu recentemente. Era fácil observar as diferenças entre os irmãos: Arlindo era baixo e claro, Ananias é alto e moreno, ganhando por sua cor escura, o apelido de “Pretão”. 

Dos depoimentos que se tem registro daquela época, o mais contundente é o deixado por José Mutti, major reformado do exército, que foi casado com Antonia Oliveira (irmã de Maria Bonita) e que escreveu o livro: Reminiscências de um ex-Comandante de Volante, que retrata com detalhes sobre a descoberta desse segredo, vejam a parte do capítulo que trata do mistério: “... ao chegar nos Picos do Tará, encontrei meus sogros arranchados numa frondosa quixabeira. Mandei construir dois quartos pra eles. encontrei duas crianças de dois anos cada. Tendo perguntado de quem eram filhos, dona Déa disse-me que eram mabaços (gêmeos) e eram seus filhos. As crianças eram completamente diferentes. O Arlindo sim, era parecido com a família, mas o Ananias era trigueiro (moreno escuro), não podia ser do mesmo casal José Filipe e Déa. Deu-me o estalo de ”Vieira”: será o Ananias, filho de Lampião e Maria? Comecei a perseguir a sogra: ‘Dona Déa, diga-me quem é o pai de Ananias, o Ananias não é filho da senhora e do José Filipe. Se a senhora disser de quem é filho o pretão (apelido do Ananias) eu guardo segredo até a morte’. 



Tanto persegui minha sogra para saber quem era o pai de Pretão, que um dia ela me disse “O Pretão é filho do homem” (a família de Maria Bonita tratava Lampião de “O HOMEM”), fiquei satisfeito e não falei mais no assunto”. Ai está desvendado mais um dos mistérios do cangaço e para registro histórico, vale salientar que Ananias concordou em fazer o exame de DNA, sendo coletado sangue de dona Mocinha (irmã de lampião), de Arlindo (o irmão que se diz gêmeo) e do irmão Ozéas Gomes. O desfecho está sendo aguardado porque vem sendo movido por meios judiciais uma vez que Expedita e Vera Ferreira (filha e neta de Lampião e Maria Bonita) se negaram a fazer os exames. Outro caso que foi bastante difundido foi o de João Peitudo - residente em Juazeiro do Norte (CE), onde veio a falecer - outro suposto filho dos Reis do Cangaço, mais um que tentou em vão se aproximar da família e não obteve resultados. Continuando no campo da pesquisa histórica, vasculhando as fontes que trazem alguma ligação com o cangaço, acabo de descobrir outro filho de Lampião, na cidade de Chorrochó, Bahia. Ele é da família dos famosos “Engrácias”, as primeiras pessoas que mantiveram contato com Lampião quando ele entrou no estado da Bahia, tendo vários membros dessa família seguido os cangaceiros. Alguns se tornaram famosos, como: Cirilo de Engrácia, Antônio de Engrácia, Zé Sereno, Zé Baiano, Arvoredo e Corisco. Da família dos “Engrácias” um dos grandes coiteiros de Lampião nessa região foi João Ramos de Souza, conhecido por todos como Joãozinho. 



Entre as filhas desse coiteiro Lampião se engraçou da jovem Helena e com ela teve um caso, poucos dias depois a menina-moça apareceu grávida e o Rei do Cangaço para resguardar a honra da jovem e não desmoralizar a família que tanto lhe dava guarida, tomou uma rápida e sábia decisão: pagou uma alta quantia a um rapaz, Simão Alves dos Santos, para que ele casasse com Helena e assumisse a paternidade do filho do cangaceiro. Simão topou o acordo e assim foi feito, nascendo a criança no dia 13 de agosto de 1930, sendo batizada com o nome de José Alves dos Santos. O parto foi realizado por dona Lídia, mãe do cangaceiro Zé Sereno. Durante muito tempo as conversas sobre esse caso foram mantidas em segredo, temendo a população que Lampião fosse sabedor que a conversa havia se espalhado. Quando Lampião morreu e o cangaço se extinguiu, as brincadeiras começaram a surgir e os amigos de José Alves sempre o perturbavam relacionando-o como filho de Lampião. Os comentários tornaram-se freqüentes e as pessoas de mais idade sempre tocavam no assunto. José Alves dos Santos ainda encontra-se vivo e residindo em Chorrochó, nas mesmas terras onde seus pais o criaram. Estive recentemente com ele quando realizei extensa entrevista e ele concordou em fazer um exame de DNA para realmente comprovar o que os fatos indicam. Os testes estão em andamento e só o tempo dirá se ele é realmente mais um filho gerado nas caatingas do Sertão Nordestino, mais um rebento descendente de Lampião, mais um fruto evidenciado de um farto capítulo da nossa história recente, a história do Cangaço, capítulo ainda tão latente, tão presente nos carrascais do Sertão."

Como vemos, todos querem contribuir para o esclarecimento da verdade, menos a família mais próxima de Lampião e Maria Bonita. Por que fazem isso? Que interesses estão envolvidos? Será que tem relação com o financeiro? 

Esses dois temas, a homossexualidade de Lampião, plenamente rebatida por todos os pesquisadores, e os filhos dele espalhados por onde passou, podem ser considerados "calos do cangaço".


Raul Meneleu Mascarenhas
Pesquisador, Aracaju SE
Fonte:http://meneleu.blogspot.com.br/

Rumo a Paulo Afonso Por:Antônio Galdino

Antônio Galdino e João de Sousa Lima

O Cariri Cangaço, pelo rumo que ele está tomando "invadindo" as terras sertanejas para estudar o que chamei como tema: "Beatos, Coronéis e Cangaceiros", quando da realização do 1º Seminário do Centenário de Maria Bonita, aqui em Paulo Afonso, em 2009, 2010 e 2011, que tive a ousadia de fazer, enquanto Diretor do Departamento de Turismo (que deixei há vários anos) com a coordenação de João de Sousa Lima. Vejo, com alegria, que o tema, na época acanhado e com pouco apoio (como se vê até hoje), se alargou e saiu fincando raízes firmes por este Nordeste imenso. 

Que coisa boa acompanhar, mesmo à distância (nem tanta) o projeto Cariri Cangaço e vê-lo vingar nas terras cearenses, chegar a Pernambuco, entrar pelas Alagoas, bem pertinho de Paulo Afonso, mas ainda não se abancou por aqui, o que, como disse ao meu amigo João de Sousa Lima há uns tempos, já poderia ser associado ao encontro de Piranhas... o que fez agora o amigo Edvaldo Feitosa, de Água Branca. 



Que as histórias dos muitos cangaceiros, seus coiteiros e dos soldados das volantes, assim como as histórias de tantos coronéis desse sertão, lamentavelmente anarquisados no personagem do Sarué, da novela Velho Chico, inventado pela Globo, com seu cabelo acaju e suas roupas fantasiosas que estão longe da figura dos coronéis mostrados pela literatura brasileira -apresentados por Jorge Amado, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Raquel de Queiroz, Euclides da Cunha - e beatos e messiânicos como Padre Cícero, Antônio Conselheiro, Pedro Batista (de Santa Brígida), todos nordestinos, sertanejos, se não de nascimento, mas de sobrevivente destas terras. Parece atéo título de um livro - quem sabe... - "Coronéis, Beatos e Cangaceiros"... 

Sucesso em Piranhas, Água Branca e onde chegarem esse cavaleiros, desbravadores modernos do meu sertão de tantas histórias... Quem sabe, um dia, o CARIRI CANGAÇO se achegue por estas bandas, com as mesmas pompas e cerimônias e com a acolhida que sempre tem aonde chega... Grande abraço. 

Professor Antonio Galdino.
Editor da Folha Sertaneja
Paulo Afonso, BA

Eu Visto a Camisa do Cariri Cangaço Por:Geraldo Júnior



Faltam-me palavras para agradecer ao amigo e confrade Manoel Severo , em primeiro lugar pela amizade e consideração e em segundo lugar pelos presentes que foram por ele à mim enviados e que acabo de receber. 

Recebi uma camiseta com a Logomarca do CARIRI-CANGAÇO que é o maior evento existente comprometido com o tema Cangaço e um livro sensacional chamado “CONEXÕES NORDESTINAS” de autoria do escritor pernambucano Antônio Júnior que fala sobre os mitos e personalidades da Cultura Nordestina. 

Quero desejar ao amigo Manoel Severo todo sucesso possível na realização do CARIRI CANGAÇO – PIRANHAS/AL 2016 e parabeniza-lo pelo magnífico trabalho que vem fazendo ao longo dos anos à frente do maior evento sobre o Cangaço do planeta. 
Resta-me apenas te agradecer meu amigo Manoel Severo e saiba que literalmente eu visto a camisa do CARIRI-CANGAÇO. 
Um forte abraço do amigo...

Geraldo Antônio de Souza Júnior
Administrador do Grupo O Cangaço/Facebook

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Cariri Cangaço:Piranhas e Água Branca


Cariri Cangaço Piranhas 2016
28 a 30 de Julho
Piranhas e Água Branca
Alagoas 
BRASIL

Chico Pereira Personagem Múltiplo Por: Guerhansberger Tayllor

Guerhansberger Tayllor e Narciso Dias

Partindo da ideia de que a história é ciência e que a memória seria uma das suas matrizes, Le Goff (1992) aponta que a memória faz parte do jogo do poder que autoriza manipulações conscientes ou inconscientes, que obedece aos interesses individuais ou coletivos. Já a história, como todas as ciências, tem como compromisso a busca por verdades, bem como a desconstrução dos discursos memorialísticos. Como historiador, através deste trabalho, busco compreender como foram fabricadas as memórias sobre o cangaceiro Chico Pereira, investigando quais os interesses que estavam em jogo no seu processo de construção.  
Entendendo Chico Pereira como um personagem múltiplo e que sobre o seu corpo se inscreveram inúmeros significados dito pelos outros, penso como esses sentidos forjaram e definiram memórias sobre esse cangaceiro. Para tanto, trabalho o conceito de capitalização dos corpos, desenvolvido por Michel de Certeau, em seu livro a “Escrita da História”. Isso implica no investimento de significados que empreendem verdades sobre o que é dito sobre os corpos dos outros (nesse caso, o de Chico Pereira) instituindo memórias. Michel de Certeau apresenta esse conceito quando discute a conquista da América pelo europeu, quando este escreve a história a partir do lugar do vencedor, o Ocidente, a partir do gesto de silenciar o outro.   
  Assim sendo, colonizar o corpo do outro é habitá-lo, no sentido de dominá-lo através de valores do “eu”. 7 Foi por meio das inscrições sobre o corpo de Chico Pereira que suas memórias foram fabricadas a partir de signos interessados, com vontades de mobilizar verdades, seja como sendo um corpo incriminado pelos jornais e processos criminais (trabalhados no primeiro capítulo), seja como o injustiçado e vítima do seu meio social construído pelos signos do seu filho no livro Vingança, não (desenvolvido nos dois últimos capítulos). 


Michel de Certeau  

Este trabalho de caráter historiográfico propõe pensar como a escrita do livro Vingança, não constituiu uma inscrição memorialística para decodificar o corpo do cangaceiro Chico Pereira. Através do conceito de lugar social de produção, busco problematizar os discursos interessados da escrita da história na construção de memórias que estabeleceram lembranças e esquecimentos para se entender a história de Chico Pereira. Antes de apresentar os capítulos, gostaria de confidenciar para o amigo (a) leitor (a), que o título deste trabalho Nas redes das memórias: as múltiplas faces do cangaceiro Chico Pereira carrega um rastro biográfico deste jovem historiador.  

Nas redes das memórias porque, na infância, lembro-me quando meus pais saíam de casa para trabalhar e eu corria para a casa de minha avó paterna (Luiza, a quem carinhosamente chamo de “Pris”). Ela, afetivamente como sempre, estendia a rede no alpendre da casa, convidando-me para dormir. No vai e vem da rede, ouvia “estórias” que ela contava sobre um livro que havia lido nos tempos de professora. Este livro se chama Vingança, não. Lembro que minha avó falava em um tal de Chico Pereira e eu a perguntava: “– Quem foi Chico Pereira, vó?” Ela respondia: “– Foi um cangaceiro, meu filho. Mas que não fazia mal a ninguém. Foi um jovem injustiçado. Mataram o pai dele, e ele teve que se vingar”. 


Cariri Cangaço em Visita a Fazenda Jacu, de Chico Pereira

As forças das minhas escolhas e do destino me trouxeram até a escrita deste trabalho, aqui estou tentando me aventurar pelas redes das memórias interessadas, que produziram múltiplas faces para o cangaceiro Chico Pereira. Esse título foi também uma forma de homenagear a minha querida avó Luiza. Só agora posso tentar esboçar uma resposta à pergunta que fazia na rede das memórias da minha “Pris”: – Quem foi Chico Pereira, vó? Para tanto, gostaria de convidar o amigo leitor para conhecer como montei essa resposta nos três capítulos apresentados a seguir.  

No primeiro capítulo, procuro compreender como o cangaço passou a ser objeto de estudo da escrita da história e como seus primeiros escritos tecem memórias sobre esse fenômeno e os seus sujeitos. Para isso, uso os livros: O Cabeleira (1876), de Franklin Távora; Heróis e bandidos: os cangaceiros do Nordeste (1917), de Gustavo Barroso; Lampeão: sua história (1926), de Érico de Almeida; e Lampião (1933), de Ranulfo Prata. Esses dois últimos forjaram uma memória negativada sobre os corpos dos cangaceiros. Partindo disso, problematizo a construção de uma “memória maldita” sobre o corpo do cangaceiro Chico Pereira, que foi empreendida pelos discursos interessados dos jornais e dos processos criminais. 

No segundo capítulo, busco problematizar a reconstrução memorialística sobre Chico Pereira, mobilizada pela publicação do livro Vingança, não; escrito pelo seu filho sacerdote, Francisco Pereira Nóbrega. Usando o conceito de lugar social de produção, desenvolvido por Michel de Certeau, almejo entender como o discurso lançado pelo livro parte de um lugar que condicionou as escolhas feitas pelo autor para reescrever a história do seu genitor. No segundo momento, analiso as condições e possibilidades que proporcionaram a escrita do livro Vingança, não; ser aceita dentro da ordem discursiva de seu tempo. 

No último capítulo, proponho uma análise do livro Vingança, não, pensando como o filho reescreveu a trajetória do pai no cangaço. Para depois, apresentar como a escrita da história desse personagem se apropriou das memórias trabalhadas até aqui, ao tomar Chico Pereira como objeto de estudo. Em outras palavras, qual memória foi lembrada ou esquecida pelos pesquisadores? A “maldita”? Ou a redentora escrita pelo autor de Vingança, não? A partir de agora, espero apresentar ao amigo leitor o que concebo com as múltiplas faces do cangaceiro Chico Pereira. 

Continua...

Guerhansberger Tayllor
Pesquisador de Lastro, PB
Parte de Monografia:
"Nas Redes das Memórias:As múltiplas faces do Cangaceiro Chico Pereira"

O que você está lendo agora? Por:Junior Almeida



Carlos Alberto, José Tavares e Junior Almeida em dia de Cariri Cangaço
Sei que aqui a maioria não dispensa uma boa leitura. Tiro por mim e meu povo. Eu quando vou pra um Cariri Cangaço, volto em média com 10 livros sobre o tema pra ler. Leio outros temas também, é verdade, mas a maioria dentro da literatura nordestina. Raramente fujo do Nordeste, sua histórias e seus personagens.
Isso falando em livros, pois artigos, reportagens, crônicas e causos na internet, sobre vários assuntos, eu leio quase tudo. Não dispenso os blogs LAMPIÃO ACESO, CARIRI CANGAÇO e outros especializados no tema. No facebook, dentro de OFÍCIO DAS ESPINGARDAS, LAMPIÃO CANGAÇO E NORDESTE, O CANGAÇO E CANGACEIROS, eu leio tudo. Quem publicar nesses grupos, pode ficar sossegado, pois pelo menos um leitor tem. Eu.
Terminei esses dias de ler um livro sobre o Rei do Baião, de nome "O Sanfoneiro do Riacho da Brígida", do paraibano Sinval Sá, e atualmente leio "Água Branca, do meu amigo Edvaldo Feitosa, minha esposa Ranaise Almeida está lendo além das coisas na área da educação, "Cangaceiros e Fanáticos", de Rui Facó, pois já a "contaminei" pelo gosto desse tipo de leitura. Como ela trabalha com educação no campo, ler cangaço até a ajuda. 

Minha filha Yasmim Almeida também gosta de ler, coisas pra idade dela é verdade. Atualmente está devorando "As Crônicas de Narnia". Eu antes de dormir, tenho outra leitura de cabeceira e não é livro. Eu me delicio todas as noites com as aventuras da Turma da Mônica, do incrível Maurício de Souza. Não tem coisa melhor pra desestressar, volto a ser criança. De todos os personagens da Turma, eu gosto do Zé Lelé, o primo Lelé da Cuca do Chico Bento.
Me veio esses dias a curiosidade de saber o que os amigos que gostam de cangaço, assim como eu, leem. Será que só cangaço, ou como eu gastam seu tempo com algum besteirol? A pergunta é: O QUE VOCÊS ESTÃO LENDO ATUALMENTE?
Junior Almeida
Pesquisador e Escritor; Capoeiras PE

Que venha Água Branca... Por: Edvaldo Feitosa


É com muita satisfação que o INSTITUTO CARIRI DO BRASIL e a PREFEITURA MUNICIPAL DE ÁGUA BRANCA, apresentam O SEMINÁRIO 1° EDIÇÃO DO CARIRI CANGAÇO EM ÁGUA BRANCA. 


O Cariri Cangaço é um evento de cunho turístico-cultural e histórico científico que reúne os maiores pesquisadores e historiadores das temáticas; cangaço, coronelismo, misticismo e correlatos ao sertão e ao nordeste do Brasil, configurando-se em seu sétimo ano de realização, e com maior e mais respeitado evento do gênero no país. Atualmente está presente em 24 municípios de cinco estados do Nordeste; Ceará, Paraíba, Pernambuco, Alagoas e Sergipe; Tendo realizado 93 conferências, 112 visitas técnicas e reunindo um público de mais de 30 mil pessoas em todas as suas edições. Configura-se como o maior exemplo do gênero no Brasil. No próximo dia 29 de julho o Cariri Cangaço realizará na cidade de Água Branca, no Estado de Alagoas, mais uma festejada edição; quando reunirá mais de 300 pesquisadores de todo o Brasil; tendo como objetivo primordial o debate aprofundado e sério sobre um dos episódios mais marcantes de nosso sertão: O Cangaço na vida do Nordeste.

Água Branca, em ti! Água Branca nos corações de cada um de nós. Esse é o nosso povo! Essa é a nossa História! Uma História de valores no contexto cultural, social e político. A 1ª edição do Cariri Cangaço em Água Branca, nos leva a escrever uma nova página dessa História. Nos leva a construir nesse universo de valores culturais a sua identidade e a sua memória social. Tema este, "O Cangaço", objeto de várias monografias apresentada nas Universidades deste País para a obtenção do Grau de Bacharel em História.

Edvaldo Feitosa
Comissão Organizadora em Água Branca

Despedida de Conselheiro Por:Múcio Procópio

Camilo Lemos e Mucio Procópio

"Quando amanhã vieres me encontrarão inerte, aconselho a todos os meus amigos, vão fugindo, para vocês ainda é cedo, aceitem o conselho que vos dou, levem com vocês o meu bom Antônio Beatinho, desapareço deste mundo com alegria no coração, sei também que para meus amigos não haverá salvação, o fim da guerra é um ato perigoso, o Oscar não vos perdoará, fujam o quanto antes, errante o meu povo, digo, o resto do meu povo, que se da guerra escapar não encontrará tão cedo, nem ao menos um lugar para repousar. Canudos ficará aniquilado e alguém que um dia aqui passar não terá lugar para um descanso".


A principal fonte sobre a despedida (acima) está no livro ANTÔNIO CONSELHEIRO E CANUDOS, de Ataliba Nogueira, Editora Atlas, Paginas 195/7, nos capítulos 624 a 628. Existem várias versões, mas a original é a do Ataliba pois foram extraídas do escritos do Conselheiro, conforme cópias, escritas do próprio punho. Uma beleza pode ver. Esta publicada aqui eu ganhei de um aluno que gosta do tema e me presenteou. Está um pouco modificada e fica a dúvida quando ele,já doente, falava da necessidade de saírem, conforme o testemunho de vários sobreviventes entre eles Antônio e Honório Vilanova , dos últimos a debandar. Vejamos o Conselheiro falece dia 22.09.1897. e o cerco total se completa no dia 24.09.1987. Se todas as informações forem verdadeiras, eles saíram na última noite antes do cerco. Mas, o que todos falaram coincide com os escritos da carta pois, ele pedia que eles fugissem para poder contar a história do Belo Monte e se todos ficassem jamais se saberia o que ali tinha ocorrido. E se não saíssem o Oscar mataria todos, como realmente aconteceu com os que resistiram e os quatro últimos entraram na história descrita por Euclides da Cunha em Os Sertões. II - No livro Universos em confronto Canudos X Bello Monte, de Ségio Guerra Ed. UNEB - 2000, Pag. 178/179, Consta a despedida original. III - Livro Memorial de Vilanova Memorial de Vilanova - Nertan Macedo - Edição RENES/PRÓ MEMÓRIA INL - 1983 - RIO - RJ- PAG. 63/4 .

Múcio Procópio
Pesquisador, Conselheiro Cariri Cangaço
Natal RN

Preconceito Por:José Bezerra Lima Irmão


Querido amigo Manoel Severo Barbosa, diletos companheiros do Cariri Cangaço. Li recentemente uma mensagem do companheiro Marcos Damasceno, em que ele assinala um preconceito que foi inoculado em nossas mentes desde a época da colonização. “Durante séculos, a maioria do povo, sem saber ou sabendo, tem vergonha de sua origem (de vaqueiro, de índio, de sertanejo)”. 

As considerações feitas pelo eminente Marcos Damasceno são simplesmente magistrais. Temos de fato esse cacoete de, sem saber ou sabendo, nos envergonharmos de nossas origens, quando elas não são douradas. Nos esboços genealógicos, ninguém destaca ser descendente de índio, negro, vaqueiro – o que todo mundo destaca é seus vínculos com figuras ilustres ou potentados. 

Como Damasceno registra com toda propriedade, adota-se desse modo a visão do colonizador, que depois se tornou o coronel, o chefe político. Quando negamos ou omitimos nossa origem, perdemos nossa identidade, abandonamos nossa cultura, perdemos nossa identidade. O Cariri Cangaço é um movimento cultural que mergulha fundo em busca do resgate de aspectos da verdadeira alma nordestina. O estudo do cangaço não visa a endeusar ou condenar bandidos. O cangaço foi um fenômeno social que merece ser estudado com respeito. Precisamos fazer isso antes que seja tarde. As fontes primárias estão desaparecendo. Um abraço a todos. Nos veremos em Piranhas.

José Bezerra Lima Irmão
Pesquisador e Escritor, Salvador BA

O Pagador de Promessas e o Movimento Popular em Monte Santo Por:José Gonçalves


Em 1987, foi gravada na Bahia a minissérie da rede Globo,“O pagador de promessas”. Escrita por Dias Gomes e dirigida por Tizuka Yamasaki, a obra foi rodada em duas fases: primeiro em Monte Santo, depois em Salvador. A peça já havia sido filmada nos anos sessenta (1962), quando ganhou a Palma de Ouro, no Festival de Cannes, na França, uma das mais prestigiadas premiações do cinema mundial.
A trama, protagonizada por modestos trabalhadores rurais, inicia no interior da Bahia e termina na capital do estado, onde finalmente ocorre seu desfecho. O pano de fundo é o da religiosidade popular, que permeia do início ao fim o comportamento dos personagens. O personagem principal, Zé do Burro, faz uma promessa à Santa Bárbara, a fim de que Nicolau, seu burro de estimação, seja curado de um grave ferimento provocado durante uma tempestade. Graça alcançada, lá se vai o devotado lavrador cumprir sua longa e amarga penitência.


Portando enorme e pesada cruz, e acompanhado de sua fiel companheira, Rosa, “o pagador de promessas” sai do seu pequeno torrão e segue em direção a Salvador, à procura da igreja de Santa Bárbara, santa esta cujo correspondente no Candomblé é Yansã, a deusa das tempestades. Chegando ao local da promessa, depara-se o personagem com um cenário completamente hostil à sua presença; longe do seu ambiente familiar, como se fora um corpo estranho em meio à vasta multidão, torna-se logo vítima da curiosidade pública, da perseguição policial e, por último, da intransigência da igreja. Há também, por outro lado, aqueles que o veem ora como um líder revolucionário – na defesa da reforma agrária – ora como um defensor fervoroso da causa do Candomblé.
Acusado da prática de sincretismo religioso, Zé (como Rosa prefere chamá-lo), é impedido de adentrar o interior do templo, o que o deixa por demais enfurecido. Num ímpeto de indignação, tenta em vão arrebentar as portas, e é contido pela polícia com quem trava violento confronto. Acuado de todos os lados, mas irredutível no seu propósito, é assassinado nas escadarias da igreja, sob o olhar espantado de populares e seguidores das religiões afrodescendentes. Morre sem conseguir cumprir a promessa que fizera à santa do milagre.


Para a gravação da minissérie da Globo, novos elementos foram acrescentados ao texto original, de modo a adequá-lo ao contexto sertanejo. O autor, velho conhecedor dos conflitos sociais, já tendo tratado do assunto em obras como “Roque Santeiro” e “O Bem Amado”, foi buscar no sertão da Bahia, em Monte Santo, os elementos de que precisava para recompor seu apreciável drama.
Inspira-se ele na experiência de luta social levada a cabo pelo padre Enoque Oliveira, chegado a Monte Santo em 1981. Luta social que consistiu em amplo e vigoroso trabalho de articulação popular, incluindo desde trabalhadores rurais até jovens, crianças e mulheres. O contexto era o dos movimentos populares, destacando-se as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), a luta pela terra, a reconquista de sindicatos livres, a redemocratização do país. Movimentos populares que, no caso específico de Monte Santo, despertaram a ira das forças reacionárias, fazendo desencadear violenta onda de perseguição contra as atividades da igreja, tendo como alvo principal a figura do sacerdote, que acabaria preso em 1985.


É a reforma agrária um dos temas centrais da edição global de “O pagador de promessas”; tema, aliás, muito em voga no momento em que se deu a gravação da peça, já que eleito como uma das prioridades do governo do então presidente José Sarney. Pela primeira vez, depois do golpe de 64, o assunto entrava na agenda oficial, ganhando até um ministério – o ministério da Reforma Agrária. A questão, todavia, não passava da pura retórica, sendo a realidade do campo completamente diferente daquela apregoada pelos propagandistas da “nova república”. Nos rincões do Brasil o que se viam eram os conflitos de terra, que acabavam, não raro, em mortes e derramamento de sangue.
Assim, mesclando ficção e realidade, a minissérie destaca a luta pela terra, caracterizada por conflitos constantes entre posseiros e proprietários rurais. Padre Eloy (Osmar Prado) é o líder religioso, comprometido com a causa dos injustiçados e a principal referência no tocante à luta pela posse da terra. Sua prédica, sedimentada na realidade social que o cerca, tem como foco principal a libertação dos pobres e oprimidos.

https://zinebrasil.wordpress.com/2009/05/15/p-de-promessas-hq/
Durante uma reunião com lavradores na casa paroquial, ele denuncia o sistema opressor que nega o direito à terra e à vida: “o que eu procuro é dar a vocês consciência dos seus direitos. E é por isso que eles querem tapar a minha boca. Mas não adianta. Porque se entre 10 crianças que eu batizo oito morrem de fome antes de completar um ano de idade, a gente tem que denunciar. E se essas duas que ficam não vão ter escola pra estudar, nem um pedaço de terra pra trabalhar, a gente tem que denunciar. A terra é um bem de Deus e a vida é um bem de Deus. Todo homem tem direito a um pedaço de terra e a uma vida decente”.
Em estreita sintonia com a memória regional, busca Eloy inspiração noutro líder popular, Antônio Conselheiro, o fundador do arraial santo de Canudos. Em sermão na igreja matriz, durante os festejos de Todos os Santos, enquanto é insultado pelos representantes do poder local, ele evoca a figura do beato cearense: “há quase cem anos, bem perto daqui, em Canudos, um homem chamado Antônio Conselheiro e seus seguidores ocuparam terras que passaram a cultivar dividindo a colheita entre si. O movimento comunitário de Canudos provocou a ira dos senhores de terra que conseguiram mobilizar a polícia e o exército para destruir a comunidade. Canudos virou cinzas, degolaram até o último sobrevivente. Mas como disse o grande Euclides da Cunha, ‘Canudos não se rendeu’. É neste exemplo que nós temos que nos inspirar”.
Em torno de padre Eloy atuam lideranças camponesas, como Romualdo (Arildo Deda), Lula (Diogo Vilela) e Zé do Burro (José Mayer), que depois partirá para Salvador, carregando sua pesada cruz. São eles os responsáveis por soprar o “vento da meia-noite”, o fantasma aterrador que tanto irrita o fazendeiro Sebastião Gadelha (Carlos Eduardo Dolabela), dono das terras que há em toda aquela redondeza. A ação consiste na derrubada das cercas e na ocupação das terras por parte dos camponeses. Das mesmas terras que um dia pertenceram a eles (camponeses) e aos seus familiares e que agora se encontram em poder do truculento latifundiário.


O conflito se estabelece e, mesmo diante das ameaças do grileiro, os posseiros não desistem da luta. A questão atinge seu ponto crítico no momento em que se dá o assassinato de padre Eloy, a mando do poderoso Sebastião Gadelha.
A figuração foi composta por moradores da localidade e reuniu pessoas dos mais diferentes segmentos sociais, como romeiros, feirantes, artistas, trabalhadores rurais, lideranças comunitárias, dentre outros.
Projetada em 12 capítulos, a produção, que foi exibida no ano seguinte, acabaria vítima do golpe da censura (da própria Globo), sendo reduzida a oito capítulos. As abordagens mais contundentes acerca da reforma agrária e dos conflitos políticos não foram até hoje ao ar, limitando-se a emissora em dispor tais conteúdos em sistemas de mídia de leitura digital.
“O pagador de promessas” é, sem dúvida, um marco da teledramaturgia brasileira. Com a inteligência e maestria dos seus idealizadores, a fita articula de maneira cativante os mais diferentes elementos do cotidiano brasileiro (em especial do universo sertanejo), que vão desde os conflitos sociais, até as manifestações de fé expressas por meio da religiosidade popular.

José Gonçalves; Poeta e cronista
jotagoncalves_66@yahoo.com.br

Lampião o Metamorfo Por:Raul Meneleu

Raul Meneleu e Manoel Severo

Segundo a mitologia, Metamorfos são seres que se transformam no que querem. Começam humanos, mas mais tarde aprendem a mudar sua forma, apenas observando quem querem ser. Metamorfose, também conhecida como transformação, é uma mudança na forma ou no formato de uma pessoa, especialmente uma mudança da forma humana, de forma animal ou uma mudança na forma de aparição de uma pessoa para outra. 

Quando um Metamorfo toma a forma da pessoa que escolheu para se transformar, eles literalmente mudam a sua pele, dentes e unhas. Quando eles mudam para a pessoa que desejaram, eles acessam os pensamentos dessa pessoa que estão imitando. A única coisa que pode matar um Metamorfo é prata, bala ou lâmina no coração.

Todos metamorfos descedem de um Alfa. Existem muitas lendas sobre ele , e sem duvida é o primeiro e o mais poderoso,  capaz de transformar sem de forma imediata sem perda de pele. Seu intelecto , força , resistência e reflexos são bem maiores , sendo que ele tambem tem um vínculo psiquico com todos os seres, sendo capaz ate de sentir sua localização.



Lampião, podemos dizer, que tinha as características de um Ser Metamorfo. Se formos analisar sua vida, podemos encontrar diversos motivos para avaliarmos assim. Até mesmo podemos dizer que ele quando quis morrer, não o fez pelas próprias mãos e sim, pelo raciocínio lógico imposto por ele próprio, para isso. Deixou-se apanhar, relaxando a guarda do grupo, e com cerca de 40 (quarenta) anos, estava farto de viver e planejou sua morte como se planeja algo corriqueiro. Deixou-se abater e como um rei faraônico, levando para a sua sepultura, concubinas e servos seus. Que outra forma podemos explicar Angico?
Sua metamorfose iniciou muito cedo, ainda menino, quando se destacava na escola como um jovem de inteligência maior que a dos outros.

Era muito ágil, dificilmente foi acertado por um tiro ou golpe; poucas vezes o foi. Tinha a capacidade de saber se a pessoa que falava mentia ou tentava o enganar, assim como metamorfos leem a mente de outras pessoas. Era impenetrável mantendo o bloqueio em sua mente contra qualquer um que tentasse decifrar seus pensamentos. Atraia suas vitimas, com ardis e usava seu poder de metamorfose para viajar sem ser notado. Alguns diziam que fazia isso em forma de animal, como uma coruja, um lobo e ate morcegos. Usava óculos sem ter necessidade de lentes corretivas. O jornal O Povo de Fortaleza, de 5 de agosto de 1928, descreve esses óculos "com vidros esfumaçados, engastados em tartaruga e ouro, com o fim de encobrir um extenso leucoma da córnea do olho direito" - tudo bem que fosse isso,  mas podemos pensar que era para esconder as mutações que seus olhos realizavam, deformando-se pavorosamente ao olhar para as pessoas e essas não desmaiassem de pavor. 
Raul Meneleu e João de Sousa Lima
Seu corpo esquelético sofria mutações e deformações, como a cor da pele, pés e mãos. Lampião foi aquele que Elise Grunspan-Jasmin disse que era "guerreiro valoroso, e não um homem alquebrado, que sobrevive apesar dos ferimentos". Temos vários relatos de "repentes" que Lampião tinha, inclusive criar uma mística qualidade de prever algo ou receber avisos de forças estranhas.

Em seu livro, "Lampião: o homem que amava as mulheres : o imaginário do cangaço" Daniel Soares Lins diz que "ao pesquisador do imaginário enveredar tanto no campo dos discursos quanto na estrutura das práticas históricas, buscando encontrar nos "fatos históricos" os "resíduos" colados aos personagens. O sonho, a quimera, a mística, a paixão, o "tempo mágico" e os rituais deveriam ser compreendidos como práticas racionais, respondendo, contudo, a uma outra ordem simbólica, a uma outra organização dos signos e dos imaginários."


Continuando com Daniel Soares Lins, que diz "...em síntese, ao contrário do historiador que não "ama os acontecimentos", o estudioso do imaginário reivindica, de certa maneira, sua vinculação ao campo das temporalidades e dos acontecimentos, da cultura e da subjetividade." Isso é importante na criação do misticismo que envolveu Lampião, pois muitas estórias foram contadas e muitas foram também inventadas, por aqueles que o admiravam.

A esse respeito, o tenente João Gomes de Lira, ex-oficial das Forças Volantes, contou que um colibri um dia se chocou com a aba do chapéu de Lampião que viu nisso um mau presságio e teria dito a seus companheiros que era preciso retroceder. No dia seguinte ele teve a confirmação de que uma Força Volante lhe tinha preparado uma cilada naquele local. Sabendo que se tratava de nazarenos, ele teria feito o seguinte comentário: "Se tivesse passado por lá, teriam acabado comigo" (Pedro Tinoco, "A Superstição Ronda o Cangaço", Jornal do Commercio, 8/7/1997, p. 2).


Numa entrevista que concedeu ao Diário de Pernambuco, João Bezerra (foto acima), o militar que cercou e matou Lampião e Maria Bonita, juntamente com alguns cangaceiros, evoca o recurso aos sonhos, ao sobrenatural e às premonições entre as Forças Volantes antes de iniciar um combate contra Lampião, tanto este lhes parecia ser dotado de uma dimensão sobrenatural. 

"Às vezes, noite alta, ouvia-se um rumor, o chefe da volante percorria os subordinados um a um, no escuro, passando a mão pelo rosto para conhecer seus cabras, temendo pela vida de todos, isolados na caatinga bravia, longe de homens mais humanos. Na perseguição de cangaceiros. rastejavam horas seguidas. arrastando a barriga contra a aspereza da terra, olho atento e ouvido apurado, esperando a qualquer momento o soar da fuzilaria, rezando com medo de ensopar a terra com seu sangue já que a chuva não a queria molhar..." - (Afranio Mello, "Como Correu Sertão a dentro a Noticia da Morte de Lampeão". Diário de Pernambuco 5/8/1938, p. 5). 

Só também um homem que acreditasse no sobrenatural, e usando os desígnios que o destino lhe pusera nas mãos, poderia acabar com Lampião e isso com o consentimento de uma autoridade superior. A única coisa que pode matar um Metamorfo é prata, bala ou lâmina no coração e isso, em sentido figurado, o militar João Bezerra recebeu dessas entidades superiores, quando acabou com Lampião.


A Saga Cangaço é muito rica e enseja inclusive a nós viajarmos nas ondas desse grande mar que se chama imaginação. A clarividência de Lampião, esse seu terceiro olho com sua capacidade de "ver" ou de "sentir" o perigo que o ameaçava, não era a única arma mágica de que dispunha para escapar aos seus inimigos. Lampião teria também o dom da invisibilidade, graças a proteções sobre-naturais, às orações fortes que trazia consigo e que podia invocar em situações extremas. E apenas essas proteções, essas entidades escondidas sobre o manto do destino, poderiam retirar dele e dá-la para outro homem, que pela força de leis que não conhecemos, foi dada ao militar João Bezerra.

Mãos compridas, que semelham garras; os dedos cheios de anéis de brilhantes, falsos e verdadeiros; ao pescoço, vasto e vistoso lenço de cores berrantes, preso no alto por valioso anel de Doutor em Direito; sobre o peito, medalhas do Padre Cícero, escapulários e saquinhos de rezas fortes; chapéu de cangaceiro, tipicamente adornado de correias e metal branco; ensimesmado toda vez que defronta uma turba de curiosos, folgazão quando entre poucos estranhos ou no meio de seus comparsas; não se esquecendo dum guarda-costa vigilante, à direita, sempre que desconhecidos o rodeiam; paletó e camisa de riscado claro, calças de brim escuro; alpercatas reluzentes de ilhoses amarelos; a tiracolo, dois pesados embornais de balas e bugigangas, protegidos por uma coberta e xale finos; tórax guarnecido por três cartucheiras bem providas; ágil como um felino, mas aparentando constante estropiamento e exaustão; às mãos o fuzil e à cinta duas pistolas “Parabelum” e um punhal de setenta e oito centímetros de lâmina: esse era Virgolino Ferreira da Silva – O LAMPIÃO – duende das estradas, assombração das matas e caatingas!

Raul Meneleu Mascarenhas
Pesquisador Aracaju-SE