Os Últimos Dias do Rei do Cangaço Por:João de Sousa Lima


CONVITE
LANÇAMENTO DE DOCUMENTÁRIO

Tá chegando o dia da apresentação do documentário dos últimos dias do Rei do Cangaço Lampião em nossa cidade de Paulo Afonso - BA.

O documentário foi realizado pela TVE Alagoas e já passou por quase toda a região do São Francisco, mostrando a caminhada dos últimos dias do temido Rei do Cangaço Lampião e no dia 23 de fevereiro é o dia da nossa cidade Paulo Afonso - BA marcar presença e assistir esse grande trabalho.

O mesmo será exibido na Casa da Cultura a partir das 19:00 horas, onde contará com a presença do escritor e historiador João de Sousa Lima que irá falar um pouco sobre esse documentário.
Então se liga para não perder, e nem ficar de fora, pois o local infelizmente conta com cadeiras limitadas.

Os Vaga-lumes de Maria Bonita por: Raul Meneleu


Na história do Cangaço precisamos ter cuidados em fazermos afirmativas, pois as contradições que muitas vezes, senão em maioria, nunca foram propositais. Destaco o depoimento da cangaceira Sila, quando, contando que na noite anterior do fatídico dia da morte de Lampião e Maria Bonita, junto com mais nove cangaceiros, estava sentada em uma pedra, conversando com Maria e que viu lampejos que ela achava que poderiam ser fachos de lanternas, mas que fora dissuadida por Maria Bonita, que lhe dissera que eram apenas luzes dos vagalumes. Ela então talvez convencida naquela ocasião, que realmente eram lâmpadas de vagalumes, não ficou preocupada e nem disse isso ao seu companheiro Zé Sereno quando chegou em sua barraca. No depoimento ela diz que após o acontecido,  lembrando dessa conversa, esta lhe marcou a mente, que eram soldados fazendo o cerco ao Angico. Mas pergunto: que hora era  aquela da conversa, se o ataque se deu cedinho pela manhã e temos testemunhos de soldados, que disseram que às 3 horas da manhã, não tinham ainda atravessado o Rio São Francisco?

A mente humana pode ser convencida por algum fato lembrado, mas que necessariamente tal fato não se deu. Boa parte das lembranças do ser humano é falsa. Jamais aconteceu. Não passa de mentiras inventadas pelo cérebro, dizem os psicólogos. Parte das lembranças é pura imaginação. Isso porque a memória não é um registro da realidade – é uma interpretação construída pela mente. O nosso cérebro inventa o mundo, das cores que a gente vê às experiências que a gente vive. E edita essas informações antes de gravá-las.

Adília e Sila

Boa parte das lembranças é falsa. Jamais aconteceu. Não passa de mentiras inventadas pelo cérebro. Lembrar é imaginar, e imaginar é distorcer. Em uma reportagem de Gisela Blanco e Bruno Garattoni publicado na revista Super Interessante de julho de 2018, reportando sobre isso, mostra que essas lembranças sempre afloravam no consultório de algum psicólogo, depois de sessões de terapia com técnicas de hipnose e regressão e se descobriu muitos casos de falsas memórias, que haviam sido acidentalmente induzidas por psicólogos durante sessões de hipnose. É aquela história que de tanto se falar se acredita.

"É uma interpretação construída pela mente. O nosso cérebro inventa o mundo, das cores que a gente vê às experiências que a gente vive. E edita essas informações antes de gravá-las, explica o psicólogo cognitivo Martin Conway, da Universidade de Leeds. Cientistas da Universidade Harvard pediram a voluntários que se lembrassem de uma festa em que tinham estado. Em seguida, eles deviam imaginar uma festa que ainda não havia acontecido. Os pesquisadores monitoraram as cobaias durante todo o experimento e descobriram que, nos dois exercícios, sua atividade cerebral foi praticamente a mesma. Ou seja: os mecanismos que usamos para acessar nossas memórias são os mesmos que usamos para imaginar as coisas. Uma pessoa pode ter lembranças erradas ao ler o que está gravado corretamente na sua memória,


Vocês podem até se lembrar do principal, mas todo o resto será distorcido – com direito a várias informações criadas pelo cérebro. Já que a memória e a imaginação usam os mesmos mecanismos, a mente não vê problema em dar uma inventadinha para completar as lacunas.

Essa tendência é tão forte que a Justiça possui artifícios para se defender disso, e ver se os relatos de testemunhas estão contaminados pela imaginação. Além de propor situações que não aconteceram (como no caso do americano Paul Ingram), os interrogadores evitam perguntas indutivas (“ele estava usando um boné, certo?”) ou que envolvam raciocínio negativo (“isso não está certo, né?”), pois elas acabam levando o cérebro a distorcer as memórias. Mas não há uma maneira de determinar, cientificamente, se uma lembrança é real. Nem mesmo o detector de mentiras consegue desmascarar falsas memórias, e por um motivo simples. Sabe aquela máxima que diz: uma coisa não é mentira quando você acredita nela? Pois é.

Apesar de tudo isso, é difícil imaginar uma sociedade que não acreditasse na memória das pessoas. Não existiria verdade nem realidade coletiva, pois cada indivíduo viveria isolado em seu próprio mundo de lembranças. “A crença na memória é fundamental para várias instituições da sociedade, como a Justiça e as escolas”, afirma Schacter. Ainda bem. Pois, no futuro, nossas memórias serão totalmente diferentes."

Sila ao lado de seu companheiro Zé Sereno e seu bando

Então amigos, não era porque Sila estava mentido. Ela e Maria Bonita realmente conversaram naquela pedra e a lembrança que Sila teve quando algum tempo depois, alguns dias depois ou talvez meses, quando ela lembrou ficou gravado em sua mente que aquelas luzes de lanternas eram dos Soldados. Mas não poderia ser pois, a que horas elas estavam conversando em cima daquelas pedras? Era 3 horas da manhã? Eu duvido que isso se deu nessas horas entre 3 e 4 da manhã! Provavelmente deveria ser, essa conversa, antes de 22h.

Mas aí já entra da minha parte essa interrogação. Mas sinceramente acho muito difícil que essa conversa tenha se dado as 3 horas ou 4 horas da manhã pois os soldados ainda estavam atravessando o rio.

Raul Meneleu, pesquisador, Conselheiro Cariri Cangaço
30 de novembro 2018
http://meneleu.blogspot.com/

O Romance entre João Maria de Carvalho e Maria Déa, a Futura Maria Bonita Por:Rangel Alves da Costa

Conforme conhecimento geral, o chefe do clã dos Carvalho da Serra Negra, filho de Pedro Alexandre de Carvalho e Dona Guilhermina Maria da Conceição, o depois temido e reverenciado tenente João Maria de Carvalho (coronel por força do poder e da patente concedida pelos méritos da força e do mando), sempre se sobressaiu vitoriosamente aonde sua mão e seu passo puderam alcançar.
Agraciado pela família de nomeada por toda a Serra Negra e arredores, cada um dos filhos de Pedro Alexandre logo procurou tecer seu próprio destino. E eram muitos, nada menos que quatorze, sendo a metade de homens. Nas lidas da terra, na compra e venda de rebanhos, nos estudos, no tino da troca e da venda de mercadorias, no contexto local de poder, cada um foi garantindo seu lugar ao sol. E João Maria, antes de todo o poder alcançado, antes de se tornar tenente e coronel nordestino, antes de ser dono e rei de um mundo, foi um inquieto e irrequieto lutador. E, na luta, os muitos ofícios, desde o tangimento de gado ao comércio.
João Maria de Carvalho


Do seu tino de comerciante, eis que um dia, lá pelos fins dos anos 20, fincou pé nas bandas de Santa Brígida, não distante de sua Serra Negra, onde passou a comercializar, principalmente nos dias de feira, tecidos, chinelos e outros produtos de uso pessoal e do lar. E foi neste local que o moço garboso, já passado dos trinta anos e ostentando o poder da sedução, lançou o olhar sobre uma mulher que lhe pareceu de atração diferenciada. Naqueles sertões de mulheres tímidas e recatadas, um olhar mais penetrante logo despertava verdadeiro desejo.

Aquela que encontrou era como que uma flor dengosa, feminina demais em cada olhar e gesto, uma atriz de cinema naquele mundo carrasquento e embrutecido. Logo se encantou. No seu livro “Lampião Além da Versão - Mentiras e Mistérios de Angico, no capítulo “Maria Bonita, Rainha e Deusa do Cangaço”, Alcino Alves Costa narra como se deu tal episódio amoroso, e diz:

“Faz feira, com um comércio de tecidos, em Santa Brígida, um dos descendentes da tradicional família Carvalho, de Serra Negra. É ele um jovem moço que anos depois veio a se tornar no famoso e temido tenente João Maria de Carvalho."

A futura rainha do cangaço inicia um romance com o prestimoso lojista que seria depois o grande patriarca daqueles sertões. Romance ardoroso. Altamente sigiloso. Tão sigiloso que ainda hoje é negado por seus familiares. 

Rangel Alves da Costa

Tempos aqueles em que uma mulher casada era uma preciosidade que só poderia ser alcançado dentro do maior segredo e debaixo de sete chaves.
Maria Déa se atira aos braços do amante. João Maria é exatamente o inverso do marido. É explosivo, ardente, carinhoso e arrojado, deixa a moça na mais completa felicidade.

O ardor dos encontros proibidos faz com que Maria cada vez mais se afaste do sapateiro. Já não partilhavam à mesma cama. As brigas a cada dia se multiplicavam. Impossível continuar vivendo aquela fracassada união. Só existia uma solução: a separação definitiva. Corre o ano de 1930.

Lampião reina absoluto por aquelas bandas baianas. É o nome que se fala, que se comenta. Eis que o grande bandoleiro aparece na Malhada da Caiçara.É carinhosamente recebido. Faz amizades. As visitas se tornam constantes. Todos comenta, o romance de Maria com o famoso rei dos cangaceiros.

Maria Bonita em foto do final da década de vinte (acervo de João de Sousa Lima)

Em uma manhã de fevereiro de 1931, Lampião a leva para sua companhia. A bela flor de Santa Brígida, que há anos vinha murchando na taperinha de Zé de Neném, ia, agora, florir a vida seca e encrespada de Virgulino Ferreira da Silva, passando a ser a deusa e rainha do cangaço”.

Tal história, ainda recentemente me foi asseverada por Orlando da Serra Negra, sobrinho-neto de João Maria, segundo o qual sempre ouviu histórias dando conta de que a relação entre o comerciante e a jovem esposa do sapateiro ia muito além da amizade. Costumeiramente, João Maria mandava entregar a Maria Déa cortes de panos, sandálias e perfumes. Entregar e nada cobrar, pois presentes especiais para uma pessoa de afinidade. Desse modo, difícil negar que antes dos braços do Capitão Lampião, a futura Maria Bonita lançou-se aos braços de um embrionário coronel sertanejo.

Que sina a desta mulher, a desta Maria. Saindo daquele mundo que não lhe cabia, por ela mesma rejeitar, e enveredando pelos caminhos onde um ex-amante era amigo e dava guarida ao seu capitão. De um lado o coronel, de outro o cangaceiro, e a beleza feminina a todos envolvendo e enfeitiçando. Que se diga, contudo, que a página de João Maria na vida de Maria, foi simplesmente rasgada após ela se tornar cangaceira e dona de Lampião. Ainda viviam no mesmo mundo, mas era como se aquele mundo não vivesse mais neles.


Rangel Alves da Costa. Pesquisador e Escritor
Conselheiro Cariri Cangaço

Instituto Cultural do Cariri na Festa dos 10 Anos de Cariri Cangaço




Atenção

O Conselho editorial da Revista Itaytera estará recebendo os artigos dos sócios até o dia 16 de março de 2019, quando tal prazo restará esgotado! Quem tiver interesse em publicar algo, deve seguir as seguintes exigências:

1- O texto deverá ser em fonte 12, times new roman, Word Windows 2010;
2- Espaçamento entre as linhas: 1,5;
3- O texto deverá vir corrigido pelo autor; 
4- Nesta edição, em decorrência das comemorações dos 10 anos do Cariri Cangaço, os temas relacionados ao banditismo social (lato sensu) terão predileção, bem como aqueles que façam menção ao Cariri cearense (mesorregião, conforme preconiza o Estatuto) ou as suas imediações;
5- O número máximo de laudas, para cada artigo, será de 5 a 7, mas, a depender da relevância do assunto (fato inédito, descoberta científica, etc.), o Conselho Editorial poderá abrir exceção, aceitando um número maior de laudas;
6- Os custos da publicação correrão por conta do Instituto;
7- Caso o número de artigos exceda o permitido (aproximadamente, 200 páginas), estes serão selecionados, seguindo alguns critérios (a importância do tema, a situação do sócio perante o ICC- anuidade-, a primazia do envio, bem como a observância dos outros requisitos acima citados);
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9- Os artigos deverão ser enviados para Heitor Feitosa Macêdo, através do email: heitorfeitosa82@hotmail.com;
10- Os sócios terão preferência na compra de páginas para propaganda comercial, etc.;
11- Os autores dos textos que não forem publicados receberão a justificativa fundamentada por parte do Conselho Editorial, no prazo de 15 dias após o término do recebimento.

Heitor Feitosa Macêdo
Presidente do ICC- Instituto Cultural do Cariri


Cariri Cangaço
10 Anos
24 a 28 de Julho de 2019


A Gênese do Bando de Lampião Por:Geziel Moura

Não é novidade que Lampião e seus irmão, Antônio e Levino, tornaram-se cangaceiros antes da morte de sua mãe, Maria José Lopes, em 03/05/1921 e de seu pai José Ferreira dos santos em 18/05/1921, pois os irmãos Ferreiras participavam de grupo cangaceiro, desde agosto de 1920, aliás, a morte de Zé Ferreira se deu justamente, após assalto na cidade alagoana de Pariconha, que ensejou no deslocamento da policia, comandada pelo sargento José Lucena Maranhão, ao Sítio Fragoso, em Santa Cruz do Deserto, município de Mata Grande (AL), em busca dos irmãos Ferreira, e que resultou numa operação desastrosa, sendo mortos o dono do sítio, Sinhô Fragoso e Zé Ferreira, inocentemente.
Lampião e seus irmãos sempre operaram em grupo, antes de unir-se a Sinhô Pereira, eles andaram com Antônio Mathildes, Pirulito, Caneta, Carrossel, Meia Noite, além de Baliza e Gato (Não confundir com Santílio Barros) do grupo de Sinhô Pereira e os irmãos Porcinos (Antônio, Pedro, José, Cícero, Raymundo e Manoel) de Alagoas.


Quando Sinhô Pereira foi para Goiás, em agosto de 1922, Virgolino assumiu o grupo do ex-chefe, porém alguns componentes do grupo, vieram com ele e seus irmãos, dentre eles, os cangaceiros Meia Noite, Antônio Rosa, o Toinho do Gelo, eles aparecem na famosa foto flagrada na Fazenda Pedra, em Princesa (PB).
Geziel Moura, Pesquisador - Belém, Para

Em Julho, o Brasil Volta Seus Olhos para o Sul do Ceará...

Vem ai...

Cariri e Juazeiro!
Eu acho engraçado,
Já apartei o cadarço
Da botina pro roçado.
Eu vou bem disfarçado.
Eu tinha viagem planejada,
Já cancelei a minha jornada.
Eu desejo estar nesta estrada
Viajando a Juazeiro sem parada.
Dez anos de Cariri com aprendizado.
E eu tenho cinco de vivência enraizado,
Dentro da família com valor concretizado,
Eu desejo comemorar a data neste batizado.
Eu desejo encontrar a todos vocês lá em Juazeiro.
E esse movimento se tornou sentimento de romeiro.
Cariri Cangaço é cultura nordestina e ação de pioneiro.
Assim sendo: eu e você, vamos nos ver igual cangaceiro.
Rossi Magne. 
31/01/2019


Cariri Cangaço
10 Anos
24 a 28 de Julho de 2019
CEARÁ

Cangaceiro, Vítima da Justiça Por:Luiz da Câmara Cascudo

Luiz da Câmara Cascudo

“Aqui no Nordeste brasileiro nós sabemos que o cangaceiro não é uma formação espontânea do ambiente. Nem sobre ele influi a força decantadamente irresistível do fato econômico. Nas épocas de seca a fauna terrível prolifera, mas nenhum componente é criminoso primário. Os bandos têm sua gênese em reincidentes, trânsfugas ou evadidos. Nunca a sugestão criminosa levou um sertanejo ao cangaço. É cangaceiro o já criminoso. E criminoso de morte.

Depois de tanta discussão explicativa fica-se sem saber de que elementos estranhos sai o tipo hediondo, que outrora inda conservava o tradicional “panache” do heroísmo pessoal, do respeito às mulheres e aos velhos e da solidariedade instintiva à bravura. Nunca um cangaceiro digno desse nome matou um homem reconhecidamente bravo. Quase sempre ficavam amigos ou mutuamente se distanciavam.

Mas qual seria o fator psicológico na formação do cangaceiro? Para mim é a falta de Justiça, que no Brasil é corolário político. A vindita pessoal assume as formas sedutoras dum direito inalienável e sagrado. Impossível fazer crer a um sertanejo que o tiro com que ele abateu o assassino de seu pai deve levá-lo à cadeia e ao júri subsequente. Julga inicialmente um desrespeito a um movimento instintivamente lógico e que a Lei só deveria amparar e defender. Daí em diante surgirá o cangaceiro vítima de sua mentalidade. Ele descende em linha reta das “vendettas” e da pena do Talião.

Arte de Carybé...

Este é o aspecto raro. O comum é o sertanejo matar o assassino que ficou impune e bazofiador. Neste particular a ideia de prisão é para ele insuportável e inadmissível. Surge, fatalmente, o cangaceiro. A desafronta constitui a característica inicial do “bravi”. Numa alta proporção de oitenta por cento o cangaceiro do Nordeste brasileiro apareceu num ato de vingança. E são estes justamente os grandes nomes que o sertão celebra num indisfarçado orgulho que não dista da possível imitação.

Adolfo Rosa quis uma prima e o tio mandou prendê-lo num tronco. Dois dias depois o tio estava morto e surgia Adolfo Velho Rosa Meia Noite, chefe de bando, invencível e afoito. É uma das figuras mais representativas do velho cangaceiro típico, generoso e cavalheiresco. Jesuíno Brilhante tornou-se cangaceiro defendendo os irmãos contra a Família Limão. Baixo, loiro, afável, risonho, Jesuíno é uma lembrança cada vez mais simpática para o sertão. E sua morte é guardada como a dum guerreiro:

Jesuíno já morreu
Acabou-se o valentão.
Morreu no campo da honra
Sem se entregar à prisão.

Antônio Silvino matou o que lhe matara o pai. Jesuíno, no ódio que tinha da Família Limão, declarou guerra a todos os limoeiros que encontrava. Destruía-os totalmente, mastigando os limões entre caretas vitoriosas. Antônio Silvino “acabou a raça” dos assassinos do pai.

Jesuino Brilhante

O horrendo Rio Preto, hercúleo e feroz, não seria abatido se não fosse vingança doméstica. Os Leites, ajudados por meu tio Antônio Justino, fizeram guerra de morte ao moleque demoníaco. Se a Justiça chamasse Leite ou o negro Romão (escravo alforriado por meu tio, e que matou Benedito, o herdeiro de Rio Preto) às contas, estes se tornariam infalivelmente cangaceiros.

Não é fenômeno peculiar à zona nordestina do Brasil. Em São Paulo há o caso do jovem Aníbal Vieira. Quatro empregados duma fazenda violentaram lhe uma irmã. Aníbal não “foi à Justiça”, que por retarda e tardonha desanima. Armou-se com seu pai e matou dois dos violentadores. Os dois restantes fugiram para Mato Grosso. Aníbal viajou para Mato Grosso e matou-os. Julgou-se de contas saldadas. Fora um justiceiro. Mas a Justiça não entendeu desta forma. Mandou prender Aníbal. A tropa de polícia que o perseguia encontrou-se com ele em Três Lagoas. Aníbal fez frente à força militar. Feriu dois soldados e fugiu. Aí estará o movimento inicial dum Dioguinho.”

Fonte: Diário Nacional, São Paulo, 03 de junho de 1930.

Toma Posse a Nova Diretoria da Associação Cultural Pedra do Reino Por:Gaby Leal


A noite de sexta (01) foi de celebração! Tomou posse a nova diretoria da Associação Cultural Pedra do Reino, formada pelo presidente Ernesto Sávio, a vice-presidente Nazaré Magalhães, os tesoureiros Caio Menezes e Ana Paula Novaes, os secretários Joelma Marques e Cícero Moraes, bem como os membros do Conselho Fiscal nas pessoas de Mestre Régis, Francisco Diogo (que passa a presidência para Ernesto), Charles Neves, Auxiliadora dos Santos e Zé Iran. Esses responderão pela ACPR durante o biênio 2019/2020.

O evento foi prestigiado por autoridades municipais, dentre elas, o prefeito Romonilson Mariano, sua esposa e Secretaria de Assistência Social, Heliany Pereira Mariano, o vice prefeito e um dos fundadores e primeiro presidente da Associação, Antônio de Alberto, sua esposa, Marta, o secretário de turismo, Jackson Berg, o presidente da Câmara, Nenga de Stomberg. Além dessas autoridades, registramos a presença do comandante da Polícia Militar de São José do Belmonte, tenente Pablo, e o presidente da CDL de Belmonte Anderson Eugênio.


A presença das autoridades demonstra o compromisso do Poder Público em irmanar esforços junto à ACPR com o fim de tornar a Cavalgada uma festa cada vez maior. Nós da ACPR firmanos nosso compromisso de auxiliar incansavelmente os trabalhos da nova diretoria.

Gaby Leal
São José de Belmonte

Já o Milagre foi Milagre! Por:Professor Laílson Gurgel

Padre Cícero e Benjamim Abraão

Ao adentrar na política, meio escuso, verdade, o Padre Cícero estava, ainda obediente ao seu propósito, reservar o Juazeiro aos carentes de tudo e de todos. Ele tinha sim, várias propriedades, direcionadas ao plantio de mandioca e outras vocações agrícolas para salvaguardar os carentes da fome, e ter uma renda, não era no sistema de arrendamento! Dr. Floro apareceu no momento e hora certa, sozinho o Padre Cícero não conseguiria preservar o território. Popular como foi em vida, sabidões tiraram proveitos, Benjamim Abraão, principalmente. 


Ele acolhia crianças desamparadas, dando-as dignidade. Sua viagem a Roma foi sob ajuda financeira, inclusive passando "aperreios" na cidade eterna por falta de dinheiro. Já o milagre, 
foi um milagre. 

Milagre é qualquer manifestação que não pode ser explicada pela ciência. José Marrocos não provocou o fenômeno com substâncias, ficaria muito claro e evidente a fraude. Quem indicou a primeira comissão foi a própria cúpula da igreja dando parecer favorável. 


Lailson Gurgel, Heitor Macedo, Manoel Severo e Calixto Júnior

Lampião levou armas, munição, dinheiro e a falsa patente, tudo articulado por Dr. Floro ou Benjamim Abraão, a batata esquentou nas mãos de padre Cícero. O bando sai de Juazeiro com o objetivo alcançado, promessa é promessa... ou aconteceria uma carnificina, tudo controlado e a cidade permaneceria tranquila. Ficaria ao cargo do Estado o seu papel de combater o crime... como? Se a corrupção impera!! Latifundiários e, até corporações, vinculados na proteção do bandoleiro. 

Laílson Gurgel
Pesquisador, Juazeiro do Norte, CE


E vem aí
Cariri Cangaço
10 Anos
24 a 28 de Julho de 2019
CEARÁ

A Cruz e o Rilfe, Padre Cícero, Lampião e o Poder Por:Urbano Silva


Figuras emblemáticas do panorama social do nordeste, personagens envoltos em lendas, misticismos, folclore, fantasias e realidades das mais diversas, Cícero e Virgulino - o padre e o cangaceiro - estão alçados à condição de mitos nordestinos. Há três décadas juntando literatura, imagens e percorrendo cidades, bibliotecas e museus com o tema dos referidos personagens, gostaria de expor nesse artigo um extrato da visão que tenho sobre eles, moldado na imparcialidade, historiografia e vontade de compartilhar pesquisas.

Autores da grandeza de Nertan Macedo, Francisco Nóbrega, Pereira Gondim, Amália Xavier, Luitgarde Cavalcanti, Lira Neto e outros publicaram valiosos trabalhos sobre o tema. E claro, são referências universais de pesquisa. Um dos pontos nevrálgicos da biografia de Cícero, é o cruzamento da sua aura religiosa com a de líder político. Um dos autores atribui a ele a seguinte frase: o que Deus rejeita, o diabo não enjeita. Se a igreja não me quer, a política me convida.


Professor Urbano em participação no Cariri Cangaço em Juazeiro do Norte, 
no Horto do Padre Cícero

A base política do padre é sólida, formatada pela ambição do Floro Bartolomeu, médico e articulador político, que soube como ninguém ler a força do carisma do sacerdote, acrescentado doses de vaidades que os firmariam no poder social.


Em 1911 o padre funda a cidade de Juazeiro, em 1914 derruba o governador do Estado, em 1926 frente a frente estiveram Cícero e Lampião, projeto oriundo do Presidente da República Arthur Bernardes, via deputado federal Floro e o prestígio quase divino do padre, que assinou a convocação. Uma patente que não teve validade, mas rendeu frutos de armas e munições, matéria-prima valiosa para o vaidoso cangaceiro, capitão Virgulino Lampião! A missão? Abater a tiros Carlos Prestes, líder do comunismo que tanto incomoda os latifundiários e mais abastados.


Pesquisadores favorecem a tese de santificação do padre, a partir do robusto trabalho de acolhimento aos menos favorecidos. Mas esses mesmos estudiosos se omitem em aprofundar-se na revelação do perfil sacerdotal que moldou para si um pedestal e o sustentou no poder e suas benesses até os dias de hoje, 85 anos depois do seu falecimento. Política não é lugar para ingênuos, santinhos ou aprendizes de samaritanos. O padre lançou mão de um misticismo, estudioso que era a partir de sua vasta biblioteca, e esse misticismo iluminou a sua face religiosa, que reverberou em votos e força eleitoral. Inteligentíssimo, montou o seu próprio ministério, com pessoas dentro de sua própria residência, para que ele pudesse monitorar cada passo, cada palavra, cada ato dos seus auxiliares.

Floro Bartolomeu e Padre Cícero

Beata Mocinha, sua governanta, criada pelo padre desde os 11 anos de idade. Uma filha adotiva e obediente.
Maria de Araújo, a moça do fenômeno (não vejo como milagre) da hóstia, criada por familiares dele desde a infância, ela mesma se denominando “a noiva de Cristo” e a fantasia que expelia o sangue do próprio Jesus, interpretação sem nenhuma base teológica. Se era sangue humano? Ponto final, nenhuma relação com o Divino ser. Resume-se a um fenômeno biológico do próprio corpo, ou algo mais simplório. Foi espetacularizado e tomou dimensões inimagináveis de popularidade e santificação ou veneração popular. Atingiu plenamente os objetivos. Para a beata, significou sua sentença de polêmicas, castigos e morte. Para o padre, acusações e expulsão de sua própria igreja. Até o Papa soube.

Tereza, ex-escrava, residiu com o padre e foi serviçal até o fim dos dias.
Floro Bartolomeu, único da corte com curso superior, político maquiavélico, vaidoso, sedento de poder, manipulador, usou o carisma do padre e lhe formatou a identidade política. O carisma de um somado com a ambição do outro e ambos se beneficiaram das coisas boas do poder. Não há ingenuidades nessa relação.

Beata Maria de Araujo

Benjamin Abrão, mercenário, ambicioso, vaidoso, namorador, quantos detalhes e segredos da corte levou para a sepultura, e jamais saberemos? Como secretário do padre, falava em nome dele e o cargo lhe abriu todas as portas, até as confidências do destemido Rei do Cangaço, a quem fotografou, filmou e fez marketing de aspirinas e jornal. Ousadia da peste! Apresentado como “conterrâneo de Jesus” o que nunca foi, pois era libanês, território há centenas de quilômetros onde o Cristo nasceu...mas uma mentirinha assim, que mal faz? Impressionar os devotos era a primazia, e ninguém questionaria o padre, sua corte, nem se preocupariam com os detalhes geográficos.

José Teles Marrocos, o primo legítimo do padre, ex-seminarista, filho de um padre com uma beata, homem de uma cultura primorosa, professor, conhecedor de química (tipos sanguíneos, plasmas, glóbulos, hemácias, bicarbonato etc) era seu material de estudo e experimentações. Parente que vivia o dia a dia do primo famoso...e morreu subitamente, quando medicado de um diagnóstico banal, por dr. Floro Bartolomeu!

Lampião visitou o reino encantado do Juazeiro em março de 1926, história cheia de detalhes. E lá reuniu a família, dialogou com o padre (encontro histórico) e seguiu seu destino bandoleiro. Foi essa a única visita? Desconfio que não. Foi a única pública, é possível ter havido outras, afinal, o rei do cangaço tinha uma veneração pelo religioso e um débito de gratidão pelo acolhimento de seus familiares, como Maria Queiroz Ferreira, dona Mocinha, que faleceu aos 102 anos de idade, já no século XXI.

Lampião e a clássica fotografia ao lado da família por ocasião de sua visita 
a Juazeiro do Norte em Março de 1926

A causa política do sacerdote teve seu próprio exército recrutado por aventureiros dos sertões, numa variação de 450 até pouco mais de 1.000 homens. Força paramilitar, um crime aos olhos da lei, que o enquadraria como milícia armada nos dias de hoje. Sem estar em combates por causas políticas, eram esses mesmos homens que soltavam os rifles e punhais e empunhavam a cruz e os rosários, varando madrugadas em preces e ladainhas. Também compunham o exército de agricultores que davam “dias de serviços gratuitos” nas lavouras e engenhos do padre, produtor de excelentes rapaduras, distribuídas em vários estados nordestinos.

Casamentos, só com a análise prévia do sacerdote. Negros com brancos? Negativa na certa. Pobres com ricos? Nenhuma chance. Onde ficava o amor do casal? Embaixo da autoridade de Cícero, senhor absoluto no seu reino cearense.

Por mais impactante que seja, a revelação dos bastidores do poder, seja ele religioso, político, militar etc, é necessária para entendermos a psique que acontece quando vontades se tornam leis, opiniões são irredutíveis, dinheiro é identidade, e dominar vidas de súditos satisfaz tanto quanto se banquetear nas sombras do poder, geradoras de vaidades, autos satisfação e prestígio na forma de respeito, admiração e submissão dos pares que manipulam os destinos sociais.
Quando os súditos os adoram, os personagens transpõem os tempos.
Morre o homem, se eterniza o mito.

Viva a cultura nordestina!
Prof. José Urbano
Caruaru, Pernambuco


E vem aí
Cariri Cangaço
10 Anos
24 a 28 de Julho de 2019
CEARÁ

Uma Lembrança de Ariano Suassuna Por:Bruno Paulino



Um dia eu conheci o escritor Ariano Suassuna e conversei com ele. Não foi por muito tempo, mas valeu o papo. Foi quando o vate visitou Quixeramobim no final do ano da graça de 2011. Fico pensando hoje que poderia ter tirado uma foto para registrar aquele momento. Mas ele estava tão emocionado por adentrar a casa em que nasceu Antônio Conselheiro que respeitosamente hesitei. Acho que fui também tomado por aquele sentimento catártico. 
                                   
"Suassuna lacrimejava em silêncio."

Depois ele comentou com todo mundo que ali o rodeava que o livro Os Sertões foi um componente fundamental de sua formação intelectual. Que foi lendo Euclides da Cunha que se deparou pela primeira vez num livro com a gente simples e a paisagem que conhecia. E que aquela saga de Antônio Conselheiro e sua gente – que teve início ali naquela casa – era também a história dele. Era a história de todo o sertão. Era um Brasil que não se conhecia. Era o Brasil Real. Não o Brasil Oficial. Impossível não se emocionar com depoimento tão vivo e espontâneo.

Ariano recebe do Cariri Cangaço comenda de 
"Personalidade Eterna do Sertão"

Recordo que ao tomar posse na Academia Brasileira de Letras, Ariano Suassuna discursou: “Euclides da Cunha, mesmo ofuscado, ao se ver diante do povo brasileiro real, pôde tomar seu lado – e o grande livro que é Os Sertões resultou do choque experimentado ante aquele Brasil brutal, mas verdadeiro, que ele via pela primeira vez em Canudos e que amou com seu sangue e seu coração, se bem que nunca o tenha compreendido inteiramente com sua cabeça, meio deformada pela falsa ciência européia que o Brasil venerava, e ainda venera, como dogma.”

Bruno Paulino, Manoel Severo e Anapuena Ravena

Apaixonado pela saga do beato Antônio Conselheiro, Ariano dedicou-lhe o Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta e andava pelos vários cantos do país com a relíquia de um cartucho de bala em seu bolso, artefato que foi encontrado nos arredores do dizimado arraial de Belo Monte, e que gentilmente um morador da atual cidade de Canudos na Bahia lhe presenteou. O escritor exibia a cápsula durante suas palestras e falava das medonhas disparidades entre o Brasil Real e o Brasil Oficial, citando e explorando o pensamento antes desenvolvido por Machado de Assis. Dizia que bastava estudar sobre Canudos para entender toda história do Brasil.

“Em Canudos, a bandeira dos seguidores de Antônio Conselheiro era a do Divino Espírito Santo – a bandeira do nosso povo, pobre, negro, índio, e mestiço. Povo que o Brasil Oficial, o dos brancos e poderosos, mais uma vez (e como já se sucedera em Palmares e no Contestado), iria esmagar e sufocar, confrontando-se ali, no caso, duas visões opostas de justiça”, escreveu certa vez Suassuna ao inaugurar no Recife um teatro que nominou de Arraial em homenagem aos seguidores do Beato nascido em Quixeramobim. Nem sei por qual motivo hoje dei para lembrar esse dia. Porém, nunca esquecerei uma frase que disse pessoalmente a mim quando tive a oportunidade de trocar algumas palavras com ele: 

“Tenho muita inveja de você rapaz que nasceu nessa terra que pariu um dos maiores revolucionários que esse mundo conheceu que foi o bom peregrino Antônio Conselheiro. Cuide com seus amigos para que essa história não caia no esquecimento por aqui.”.

Disse isso me deixando atordoado e sem saber o que responder naquele momento.

Bruno Paulino é cronista e aprendiz de poeta
Quixeramobim, Ceara
Fonte:blogs.opovo.com.br


E Vem aí...
Cariri Cangaço
Antônio, O Conselheiro do Brasil
Quixeramobim - Maio de 2019