Caravana Cariri Cangaço de Carnaval 2017


Quando nos referimos ao empreendimento Cariri Cangaço e ressaltamos que trata-se de uma extraordinária construção coletiva, muitos não conseguem perceber a intensidade desse significado e como foi, é e será vital para o desenvolvimento não só de nosso evento, mas do sentimento que norteia nossas ações. O Cariri Cangaço é mantido por um instituto cultural: Instituto Cariri do Brasil, com personalidade jurídica, uma diretoria executiva, responsável pela legalidade de sua institucionalidade; tem em seus Estatutos a prerrogativa de manter um Conselho Consultivo de até 50 componentes; hoje o Cariri Cangaço possui 30 Conselheiros; personalidades ligadas aos objetivos do instituto e que representam 8 estados da federação; e ainda um Curador, responsável pelas principais ações e representações da Marca Cariri Cangaço, são esses, unidos a uma Nação apaixonada pelo nosso chão que fazem tudo acontecer.

O período de carnaval se aproxima. Basicamente em função de nossas atividades profissionais nos impedirem de costumeiramente viajarmos de modo mais prolongado, acabamos aproveitando essas brechas do calendário para intensificarmos encontros e reuniões com confrades de todo o Brasil, na direção da construção da agenda Cariri Cangaço para os anos de 2017 e 2018.


Ingrid Rebouças e o Cariri Cangaço...

Desta vez estaremos saindo de Fortaleza nesta sexta-feira, dia 24 de fevereiro, direto para Floresta em Pernambuco, a parada técnica nos permitirá chegar a tempo em nosso primeiro compromisso de trabalho: Município de Água Branca nas Alagoas, terra de nosso Conselheiro Edvaldo Feitosa,e a seu lado e ainda dos Conselheiros, Celsinho Rodrigues, João de Sousa Lima,Manoel Serafim, Archimedes Marques e Antonio Vilela, seremos recebidos pelos senhores, prefeito; José Carlos e vice,o amigo Moita. A reunião será as 10h da manha do dia 25, na pauta o consorcio para a realização de mais um festejado Cariri Cangaço em uma das mais belas e aconchegantes cidades do sertão.

O período da tarde do sábado nos reserva uma outra importante agenda. No vizinho município alagoano de Delmiro Gouveia, a Secretária de Cultura, Patricia Brasil, ao lado do prefeito municipal, Padre Eraldo, recebe o Conselho do Cariri Cangaço para reunião de trabalho: A força da memoria e historia de Delmiro Gouveia chegando no Cariri Cangaço de forma magistral, consolidando de vez o estado de Alagoas como sede importante e vital do Cariri Cangaço. 


Alcino Alves Costa, Patrono do Conselho do Cariri Cangaço

No domingo de carnaval, dia 26, a "Lapinha do Sertão", a mais bela cidade ribeirinha do país; Piranhas, recebe a Caravana Cariri Cangaço para as onze da manha partir para o berço de nosso patrono: teremos a honra de visitar a emblemática Poço Redondo, berço do Caipira mais famoso do cangaço, Alcino Alves Costa e será em seu Memorial, as 11:30h da manha a primeira reunião do Conselho Cariri Cangaço, com a presença de Rangel Alves da Costa e do prefeito municipal Junior Chagas, além de outras personalidades da vida cultural de Poço Redondo. na pauta a possibilidade da chegada do Cariri Cangaço também de forma oficial em Poço Redondo. A noite novamente arrancharemos na espetacular Piranhas.




Segunda-feira de carnaval, dia 27, dia Sagrado ! Sairemos de Piranhas, passaremos em Petrolândia para abraçar o estimado Jadílson Ferraz e seguiremos para almoçar em Floresta, ali ao lado dos Conselheiros, tendo  a frente Manoel Serafim, e ainda confrades do GFEC; Marcos de Carmelita, Cristiano Ferraz, Amelia Araujo, Ana Gleide, Betinho Numeriano, Giovane Gomes de Sá, Denis Carvalho, Leo Gominho e muitos outros confrades, teremos a tarde uma grande reunião de trabalho para consolidação do segundo Cariri Cangaço em Floresta. O dia ainda marca reunião com o prefeito municipal de Floresta, Ricardo Ferraz.




A Terça-feira de carnaval, 28 de fevereiro, temos agenda semelhante na Vila mais famosa do cangaço. Nazaré recebe a Caravana Cariri Cangaço para a primeira reunião de nivelamento para a realização do Cariri Cangaço Centenário de Nazaré; dentro dos festejos preparados pela comunidade em celebração aos seus 100 anos de fundação. A família nazarena tendo a frente Rubelvan Lira promoverá esse encontro a partir das 10 da manha. A tarde partimos para a Fazenda São Miguel do inesquecível "Seu Luiz de Cazuza", em Serra Talhada em visita de cortesia e trabalho.


Helena Câncio, da Fundação Padre João Câncio

A quarta-feira de cinzas, dia 01 de Março, nos reserva ainda mais uma agenda importante de trabalho. Na cidade pernambucana de Salgueiro, estaremos sendo recebidos por Helena Câncio, presidente da Fundação Padre João Câncio; dentro do esforço de aproximação institucional e operacional entre a Fundação, que promove dentre outras iniciativas de sucesso, a festejada Missa do Vaqueiro, de Serrita; e o Cariri Cangaço. Haja fôlego... Mas sem dúvidas, um carnaval diferente com som do "baião " do Rei Luiz Gonzaga e cheiro de sertão. Nos aguardem , tudo o que aconteceu e acontecerá nesta agenda da Caravana Cariri Cangaço de Carnaval, acompanharemos através deste Blog. 

Manoel Severo
Curador do Cariri Cangaço
23 de Fevereiro de 2017
Fortaleza, CE

O Cangaceiro Volta Seca: Verdade ou Mentira? Por:Roberio Santos


Mais um espetacular trabalho do pesquisador e escritor Robério Santos, de Itabaiana, trazendo à tela um dos mais controversos personagens da literatura cangaceira: Antonio dos Santos, vulgo Volta Seca... 

Verdade ou Mentira ?

Fonte: YouTube

João Peitudo por: Marcos Borges


João Ferreira da Silva; João Peitudo; suposto filho de Lampião. Aguçou-me de repente a vontade de escrever sobre esse personagem que ainda hoje assola o imaginário popular tendo em alguns caso uma defesa ferrenha a ponto de os argumentos não possuírem nenhum sentido. Lendo uma das melhores obras sobre o cangaço LAMPIÃO E O ESTADO MAIOR DO CANGAÇO; dos escritores cratenses Hilários Lucetti e Magerbio de Lucena, Pagina 182 que trata da morte de Ezequiel Ferreira e outros pormenores do irmão mais novo de Lampião, fala-se também da existência em Juazeiro do Norte da figura de João Peitudo.

No referido trabalho narra em suas linhas que o nosso personagem tinha realmente traços físicos com a família Ferreira do Pajeú das Flores com mais destaque ao suposto Pai. Porem, um pequeno fato tirou logo essa esperança do fato ser real; João Peitudo nasceu em 1942 nos Inhamus, no Ceara, quando se sabe que Virgulino teve seu encontro com a morte na madrugada de 28 de Julho de 1938.


Ivanildo Silveira, Marcos Borges e Lili Conceição

Mas ainda assim muitos dos defensores da paternidade se agarram a questão de que antigamente não se ligava em registrar o nascimento dos recém-nascidos com datas exatas, levando-se a crer que por descuido o mesmo teria sido registrado muito tempo após o nascimento. Os mitos são distorções de histórias verdadeira.


Então para terminar e acabar com as inúmeras manifestações daqueles que ainda se apegam a esse fato como um alicerce, foram realizados dois exames de DNA, onde se constatou que não era verdade. João Peitudo faleceu com 62 anos de idade, morte natural, no dia 26 de Junho de 2000, em Juazeiro do Norte.

Marcos Borges
Pesquisador, Caririaçu.CE

Viva Exu com Rafael Lima !

O Gonzaguiano Rafael Lima

Quando iniciamos a empreitada da construção do Cariri Cangaço Exu 2017, tínhamos a exata compreensão da grande responsabilidade. Em síntese unir temáticas tão significativas e vitais para a memoria e historia do nordeste seria um desafio ao qual decidimos nos dedicar. Foram cinco meses na primeira etapa do planejamento, agora cinco meses nos separam do solo sagrado do Exu, Pernambuco, e a família Cariri Cangaço Gonzaguiana só aumenta...

Para nossa satisfação mais um apaixonado pelo Rei do Baião, chega ao Cariri Cangaço Exu 2017; Rafael Lima, um dos mais entusiasmados e apaixonados defensores da cultura Gonzaguiana, curador do Museu da Expocrato, mantedor do Canal GONZAGUEAR no youtube.; onde se mostra tudo e um pouco mais sobre o rei do baião e ainda entrevista com personalidades do mundo de Gonzaga.

Rafael Lima, Paulo Vanderley e Din Alves, presenças marcantes no Cariri Cangaço Exu

Rafael Lima, além de abrilhantar o Cariri Cangaço Exu 2017 ainda estará lançando no evento o livro “O REI DO BAIÃO E A PRINCESA DO CARIRI”, um trabalho voltado a historia vivida de Luiz Gonzaga, na cidade que o fez cearense. Ele dizia: “Uma banda minha é pernambucana e a outra metade é cearense”. O Crato tem um papel muito importante em toda a carreira do Seu Luiz, e são esses momentos que serão compartilhados aos leitores desse trabalho, dedicado aos Gonzaguianos do Brasil.

"Essa é a segunda vez que tenho a honra de participar do Cariri Cangaço, e desta vez com maior estima por ser na terra do Rei do Baião, o qual devoto toda minha vida em cultura. De fato será um dos maiores eventos desse ano, pois unidos as maiores festas da região tenho a grata satisfação em dizer que Gonzaguianos, Vaqueiros e Cangaceiros, estarão juntos em nome de ícones da cultura nordestina" Confirma Rafael Lima.

Para o Curador do Cariri Cangaço, Manoel Severo "olhem a confirmação de Rafael, essa personalidade peculiar, com sua alegria e paixão contagiantes pelo grande Luiz Gonzaga, nos deixa honrado e muito feliz, realmente o Cariri Cangaço Exu 2017, veio para ficar."

Cariri Cangaço
16 de Fevereiro de 2017
Fortaleza,CE


Vem aí...

Briga dos Ferreiras no Tempo de Tropeiros

Foto da antiga Rio Branco, Atual Cidade de Arcoverde Pernambuco, Década de 1920, Vendo-se Os Almocreves que desempenharam importante papel para o desenvolvimento de (Rio Branco) atual Arcoverde
Contenda entre os Ferreira e os Bezerras de São José de Princesa
Segundo depoimentos do saudoso JOAQUIM BEZERRA LEITE (Joaquim de santo Bezerra), *10/05/1910 - +05/12/2005, pegos pelo autor desse blog, seu neto, o mesmo contava que os Bezerras e os Ferreiras, Virgulino Ferreira da Silva (Lampião) e seus irmãos, eram almocreves tangendo tropas de burros nas mesmas rotas comerciais no início do século 20. Viajavam com frequência para as cidades de Campina Grande na paraíba, Rio Branco, hoje Arcoverde em Pernambuco, Araripina no Pernambuco, Juazeiro no Ceará, entre outras cidades desses mesmos estados. 

Numa dessas viagens entre 1915 e 1918, ele não sabia precisar o ano, num acampamento de estrada para tropeiros que existiam as margens das estradas dessas rotas, houve uma contenda entre os Bezerras, ANTONIO BEZERRA LEITE o Patriarca e seus filhos com os Ferreiras, VIRGULINO FERREIRA DA SILVA (Lampião) e seus irmãos. No calor da contenda um dos irmãos de Virgulino ameaçou puxar da cintura uma pistola semi automática da época de fabricação americana que davam o nome de "FN". Entretanto os Bezerras não se amedrontaram e da mesma forma os filhos do Patriarca ANTONIO BEZERRA LEITE, e seus funcionários que também andavam armados com pistolas semelhantes, também foram aos cabos das suas respectivas pistolas. 

Mas com a interveniência do Patriarca ANTONIO BEZERRA LEITE e de VIRGULINO FERREIRA DA SILVA, os ânimos foram acalmados e a contenda que poderia ter tido um final sangrento teve um final ameno. Algum tempo depois, VIRGULINO FERREIRA DA SILVA por razões que todos conhecem entrou para o cangaço em 1918, e os Bezerras por essa razão, sempre que sabiam que Lampião se encontrava numa determinada rota, evitavam viajar naquela direção, a fim de não dar de encontro com aquele que havia se tornado o terror do nordeste.


Anos mais tarde no final da década de 20, numa determinada festa da Padroeira Nossa Senhora da Conceição em 08 de dezembro, ao final da tarde com os festejos acontecendo em frente da igreja de São José, o velho Patriarca ANTONIO BEZERRA, se encontrava na sua residência no alto dos Bezerras. Quando de repente chegaram Lampião e doze homens fortemente armados, na sua porta. Não tendo nada mais a dizer ou fazer, o velho Patriarca os cumprimentou e os convidou a entrar na sua casa. 

Lampião entrou sozinho e deixou os cabras no terreiro em frente a casa. Dentro de casa e acomodados, o velho Patriarca temeroso, indagou a Lampião o motivo da sua visita e ainda, se o fosse acertar aquela contenda de então que ocorrera no acampamento de almocreve, ele nada podia fazer, a não ser dizer a ele que os seus filhos se encontravam nos festejos em frente da igreja e se o seu intento fosse esse, poderia descer aos festejos e ali concretizar o que ele havia ido fazer ali. Pois o velho Patriarca achava que Lampião havia ido a São José para matar os seus filhos. 

Lampião imediatamente tratou de desfazer essa ideia na cabeça do velho Patriarca e finalizou que aquilo que havia acontecido tinha ficado no passado e que o motivo da sua estada ali era pra fazer uma visita a um velho amigo das estradas empoeiradas. Assim sendo, naquele dia acabou o temor do velho Patriarca e seus filhos em relação a VIRGULINO FERREIRA DA SILVA, vulgo "Lampião"
Por: Charles Bezerra Cabral
francisco.charles@ipa.br
87-9921.1000
Do blog: Charles Cabral
Postagem - JOSE JOÃO DE SOUSA - FACEBOOK

Juliana Pereira e o Cariri Cangaço na Festa de Exu 2017


Passo a passo vamos construindo a realidade que será o Grande Cariri Cangaço Exu; origem e berço de Luiz Lua Gonzaga. Estamos todos comprometidos em reunir um time de peso; pesquisadores apaixonados não só pela Imensurável Obra de "Seu Luiz" , mas por tudo o que ele representa. Hoje temos a satisfação de trazer a confirmação para o rol das personalidades que estarão conosco em Exu, a advogada, pesquisadora gonzaguiana, Conselheira Cariri Cangaço, Juliana Pereira.

“Lá no meu pé de serra, deixei ficar meu coração..., ai que saudades tenho, eu vou voltar pro meu sertão...” Este foi o “dia do fico” para nação nordestina no que concerne a ocupação do espaço cultural no cenário nacional...

A cultura nordestina, o sertão, o modo de viver, ver e sentir dos nordestinos, assim como o espaço regional, a diversidade climática, festas, alegrias e tristezas, secas e chuvas, oração e desespero, cabra valente e cabra frouxo, mulher séria e homem trabalhador, elementos caracterizadores da nação nordestina, passou a se fazer presente na obra poética e musical de Luiz Gonzaga", exalta Juliana Pereira.

Juliana Pereira, uma sertaneja genuína...

Uma mulher de fibra, genuinamente nordestina e do sertão. Assim poderíamos começar a conceituar a doutora Juliana Pereira. Suas convicções são defendidas a "sangue e ferro", opiniões e posicionamentos fortes, polêmicos, abalizados, lúcidos, de quem fez a opção de amar de maneira incondicional o nosso sertão. Juliana tem dentre as suas paixões o cangaço e Luiz Lua Gonzaga.

"A introdução do Nordeste no universo sulista, de forma mais intensiva, deve-se a Luiz Gonzaga e, embora não tenha sido ele o primeiro, foi, sem sombra de dúvida, o mais completo, abrindo as porteiras do sertão nordestino para o resto do país, transformando-se em porta-voz de um povo que, até então, ainda era considerado como nortista", aponta Juliana Pereira.
Dominguinhos e Juliana Pereira
O Curador do Cariri Cangaço, Manoel Severo ressalta a confirmação de mais um grande nome para o Cariri Cangaço Exu,"sem dúvidas como já havia comentado antes, as confirmações de nomes de peso, personalidades expressivas da pesquisa e do estudo da obra de Luiz Gonzaga nos enche de entusiasmo diante da grande festa que será o Cariri Cangaço Exu, hoje temos mais uma confirmação, a estimada pesquisadora Juliana Pereira o que nos enche de satisfação".

"A chegada do Cariri Cangaço a Exu é algo extraordinário, me sinto feliz uma, duas, três, mil vezes por participar desse momento por demais significativo, sem dúvidas será um evento inesquecível, e nossa responsabilidade só aumenta, mas isso é maravilhoso, assim vamos colaborando com a perpetuação dessa memória sem igual", finaliza Juliana Pereira.
Cariri Cangaço, 13 de Fevereiro de 2017

Vem aí...

Lampião, Corisco e os Nazarenos Por:Raul Meneleu

Sub grupo de Corisco

No ano de 1931 Lampião já usava sua mais contundente forma de estratégia para deixar seus inimigos em confusão, a divisão do bando, comandados por homens traquejados na luta de guerrilha e que eram a nata do cangaço junto com ele; Corisco, Mariano, Zé Baiano e Labareda.

Lampião está cada vez mais belicoso e destrói em vingança muitas fazendas do coronel Petronilo de Alcântara Reis, - aquele que recebera o cangaceiro em suas terras, de ‘olho interesseiro’ no dinheiro que trazia - por conta da traição que este lhe fizera, quando para justificar-se do coito que dera aos cangaceiros perante as autoridades baianas, sugeriu que o governo da Bahia voltasse a permitir as volantes nazarenas - que o mesmo tinha proibido de entrar em território baiano, por causa da forma de agir quando agredia e torturava os sertanejos procurando pistas de Lampião.

Diante desses ataques e mortes, os grandes fazendeiros fazem pressão e o governo baiano atende o pleito e permite a volta das tropas do Estado de Pernambuco. A primeira volante a entrar em território baiano é comandada pelo tenente Manoel de Souza Neto com seu sargento David Jurubeba, e formada por jovens guerreiros; inicia-se a caçada ao Rei dos Cangaceiros, desta feita, por homens comprometidos em juramentos de vingança pelos malfeitos praticados por Lampião, às famílias nazarenas, aliados ao espírito de justiça.

Nazareno, Manoel Neto

Ávidos para encontrar e destruir Lampião, a volante cruza o rio São Francisco e inicia sua missão penetrando nas terras devolutas do Raso da Catarina, onde até os mais calejados sertanejos tinham receio de entrar, e no dia seis de setembro de 1931, a pequena força já dá combate aos grupos de Lampião e Corisco na fazenda Aroeira, não muito distante da atual cidade de Paulo Afonso.

Em seu livro CORISCO A Sombra de Lampião*, o autor Sérgio Augusto de S. Dantas conta que entrevistou um dos participantes desse embate, João Gomes de Lira, que recordava bem esse dia, quando em entrevista lhe disse:

"A tropa da qual eu fazia parte estava arranchada na Aroeira, descansando da longa viagem. Ninguém percebeu quando lampião se aproximou e ficou com alguns homens por trás de uma cerca da fazenda. Em dado momento, David Jurubeba se dirigiu a umas fruteiras que tinha ali por perto. Quando David chegou perto das árvores, e começou a olhar se tinha frutos, Lampião já estava deitado no chão, preparado para atirar".

Inicia-se o embate, e só mesmo a sorte do sargento David Jurubeba faz que o tiro não o atinja, pois Lampião era exímio de pontaria. Não deve ter sido um combate prolongado, Lampião estava apenas com o subgrupo de Corisco e como era de costume, quando notava que estava em desvantagem, sumia e deixavam seus combatentes atirando a esmo. Nisso Corisco em sua fuga, aproxima-se de onde o tenente Manoel Neto encontrava-se, mais abaixo do local do embate e não percebe de imediato sua presença. Um soldado ver e logo atrás atira e dá início a um segundo combate. Após os primeiros disparos, as provocações de costume:

-Estou brigando com quem? Grita Corisco.
-Com a volante do tenente Manoel Neto. E quem é você, cabra de peia? - indaga o oficial.
-Sou Corisco, bando de macaco safado. Se prepare para correr, tenente filho de uma puta!

Por certo a resposta a esse impropério não ficou de graça.
Identificados os contendores, a briga continua. O tenente atira e avança, enquanto o cangaceiro responde aos disparos, a curta distância. 
Corisco como era de seu feitio, grita, insulta, com agilidade dá pulos para os lados e gira em torno de si mesmo. Era mesmo um demônio que assustava aqueles que não estavam preparados para a luta. Em pouco o silêncio se instala. A tropa pernambucana fica brigando sozinha. Corisco, como do nada, desaparece em meio à caatinga.

Era mesmo a sombra de Lampião.

Raul Meneleu Mascarenhas, pesquisador e escritor
Conselheiro Cariri Cangaço - 
Fonte:http://meneleu.blogspot.com.br/

Wilson Seraine Chega ao Cariri Cangaço Exu em Julho

Professor Wilson Seraine

O mais importante quando nos debruçamos sobre um Projeto, um Empreendimento, uma Realização, é, além do planejamento sério, dedicado, responsável, trabalho árduo, é também sem dúvidas externar o nosso verdadeiro sentimento. O Cariri Cangaço chega a Exu, terra e berço do Grande Luiz Gonzaga. Em Exu, no lado pernambucano da magnifica Chapada do Araripe, estamos realizando entre os dias 20 e 23 de Julho mais um grande evento com a marca e mais que isso, com o sentimento que norteia o Cariri Cangaço: Paixão pela memória e história do sertão.

Os temas: As brigas entre os Alencar, Saraiva e Sampaio, o Fogo da Ipueira dos Xavier, a inigualável Bárbara de Alencar e sem dúvidas o maior de todos os ícones da cultura nordestina: Luiz Gonzaga. E para continuar perpetuando a figura e a obra de "Seu Luiz" o Cariri Cangaço começa a formar um grande time. Depois de Kydelmir Dantas, Joquinha Gonzaga e Paulo Vanderlei, mais um grande nome: Wilson Seraine da Silva Filho.

Seraine e o Espaço Luiz Gonzaga

O grande Seraine; professor de física, radialista, empresário e colecionador; radicado em Teresina, Piauí, é sem dúvidas um dos mais destacados e respeitados pesquisadores da vida e obra de Gonzaga, paixão à qual se dedica há quase vinte anos, montando em sua residencia uma coleção invejável de objetos ligados ao Rei do Baião, é o Espaço Cultural Luiz Gonzaga. Seraine também mantém o festejado programa de rádio "A Hora do Rei do Baião" na FM Cultura de Teresina e realiza anualmente a Procissão da Sanfona, sempre em 2 de agosto, data que em celebra a morte de Luiz Gonzaga e é o Presidente da I Colônia Gonzaguena do Brasil.

O Cariri Cangaço Exu acontece entre os dias 20 e 23 de Julho de 2017, tendo como anfitriões os municípios de Exu e Serrita, em Pernambuco. Para o Curador do Cariri Cangaço, Manoel Severo, "estamos realmente comprometidos em realizar um evento único. O compromisso de toda a equipe organizadora, Bibi Saraiva, Rodrigo Honorato, Helenilda Moreira, enfim; o apoio dos grupos de estudos: SBEC, GECC, GPEC e GFEC, e a montagem de um grande time a começar com Kydelmir Dantas, Paulo Vanderlei, Joquinha e agora Seraine, dentre muito outros que estaremos confirmando ao longo deste mês, farão do Cariri Cangaço Exu um evento sensacional".

Cariri Cangaço
08 de Fevereiro de 2017
Fortaleza, CE

Vem aí...

A Rua dos Coiteiros Por:Sálvio Siqueira

Junior Almeida, Manoel Severo, Sálvio Siqueira e Ana Gleide no lançamento de As Cruzes do Cangaço em Floresta.
Naquele tempo, para sobreviver às inúmeras perseguições das volantes, Lampião arquitetou uma enorme e eficiente ‘malha’, rede, de colaboradores. Essa rede se fazia necessário para aquisição de material bélico, alimentação, vestimentas e, o mais importante, informações. Que, vira e mexe, O “Rei dos Cangaceiros” usava os ‘informantes’ para passarem a ‘desinformação’. Uma espécie de espionagem e contra espionagem na caatinga sertaneja.
O roceiro tinha que ser coiteiro, não simplesmente por ser. Havia o medo do que poderia lhe ocorrer, assim como a sua família, se se recusa ser colaborador. Tinha lá suas vantagens em ser colaborador do ‘Capitão’. A vida não era, e não é fácil para quem vive exclusivamente dos produtos retirados das pequenas propriedades. Pior ainda, quando o mesmo com sua família, era morador de uma fazenda. Às vezes o dono sabia, consentia e mandava seu ‘morador’ acolher e alimentar os grupos quando por suas terras passavam. Outra era só o colaborador quem sabia da passagem e estada deles naquelas brenhas. 

A partir do momento em que ele matava a sede e a fome de algum cangaceiro, leva ou trazia algum recado, passava a ser colaborador, mesmo que nunca mais se repetisse esses atos. Aí vinha a dureza imposta por aqueles que os perseguiam, por ele ter dado água aos cangaceiros, eram, quando descobertos, presos, maltratados e até assassinados. No entanto, haviam aqueles que colaboravam por recompensas em dinheiro, favores e proteção, dependendo da sua colocação na pirâmide de colaboradores, se estavam na base, no meio ou no topo da mesma.
Certa feita, uma volante comandada pelo Anspeçada Sinhozinho, Manoel Gomes de Sá, rastreava os sinais deixados por dois cangaceiros, que tinham estuprado uma mulher em uma fazenda da região, no leito e margens de um riacho temporário no sertão do Pajeú. Próximo às margens dos riachos e rios, era o local preferido onde os sertanejos procuravam levantarem suas taperas para morarem. Entretidos em decifrar e seguir o que os sinais ‘diziam’, os homens da volante nem percebem que estavam bem perto de uma casa.
Na casa, os dois foragidos, cangaceiros Zé Marinheiro e Sabiá, tinham matado sua sede e estavam a prosear embaixo de uma latada, quando, de repente, o dono da casa e sua esposa avisam aos dois da aproximação de soldados. Acredito que os cangaceiros que ali estavam, pensaram serem poucos os homens em seus rastros, pois um deles, Zé Marinho, faz pontaria e abre fogo contra aquele que estava na linha de tiro.
O som do disparo, repentino àquelas horas e naquele silêncio da mata, não deixa os soldados atinarem o ponto correto de onde tinha partido o mesmo. O tiro teve endereço certo. Acertou o ouvido do militar e esse morre mesmo antes de chocar-se contra o solo seco do sertão. Demorados alguns instantes, a volante, já consciente do que ocorrera, manda bala em direção oposta de onde viera o disparo.

Embaixo da latada onde estavam os cangaceiros, havia um pilão de madeira, e após matar o soldado, é exatamente onde o cangaceiro Zé Marinheiro se protege dos disparos dos soldados, os quais retiram lascas da madeira e fazem o cabra escutar o zunido do projétil tomando outra direção, ou mesmo aquelas que penetram e se alojam no velho objeto de pilar milho e outras culturas.

Vendo o companheiro tombado, seus companheiros procuram cercar o local o mais fechado e rápido que poderiam. Aquele que matara seu companheiro não podia escapar da sua sentença. E acocham cada vez mais o círculo da morte. Vendo que estavam cercados, os dois cabras pulam para dentro da casa do roceiro, e, de lá, dão combate a volante.
Essa casa era d’um caboclo trabalhador, conhecido como Garapu. Casado com dona Carmina, geraram oito herdeiros. Quando os cangaceiros adentram na casa, sua companheira procura proteger sete, de seus filhos, colocando-os em lugar seguro. O caboclo tinha algum dinheiro, provavelmente ganho dos cangaceiros, pega seu ‘tesouro’ e o coloca entre uma telha e outra. Essa ação não passa despercebida por sua esposa, que naquela hora, lembra-se de seu primogênito que tinha ido fazer compras na vizinhança. O filho mais velho daquele casal estava mais perto do que ela, sua mãe, imaginava. Viajando montado em uma burra, já na volta de sua viagem, escuta o tiroteio vindo das bandas de sua casa. Salta do animal e procura uma moita como esconderijo, vendo o que se passava com sua família.

Soldados atacam, cangaceiros se defendem. Num momento infeliz, o comandante da volante passa diante de uma das janelas da casa, e, nessa estava o cangaceiro Sabiá, que sem demora, faz mira e abre fogo contra ele. O tiro e certeiro, levando a mais uma baixa na volante. Após a morte do comandante, vários de seus comandados não conseguem segurar o fogo. Dentre eles, estava o soldado Zé Tinteiro, valente e destemido, segura seu fuzil e combate os inimigos com maior afinco.
Outro volante, Zé Freire, homem de um Santo Protetor fora do comum, estava tiroteando contra Zé Marinheiro. Esse, salta por sobre a porta de baixo, as portas da maioria das casas do sertão rural e mesmo nas cidades, naquela época, eram em duas partes e de madeira, e avança, ficando a centímetros de Zé Freire. Aponta a arma e aperta o gatilho. À bala impina, a espoleta não ‘quebra’, a arma não dispara. Zé Freire, quase que encosta a boca do fuzil na cabeça do cabra e faz fogo, estourando o crânio de Zé Marinheiro.
Seu companheiro, o cangaceiro Sabiá, continua a combater os soldados, virado numa fera ferida. Numa tentativa de louco, salta para fora da casa e nesse momento e atingido na barriga e em uma das pernas. Continuando a combater os soldados bolando pelo terreiro da casa. Até que os dois valentes volantes se aproximam e matam o terrível cangaceiro.
Após abater os cangaceiros, a tropa aproxima-se da casa e o soldado Zé Freire grita para que o dono saia para o terreiro... para morrer.
“(...) o soldado Zé Freire, revoltado com a morte do Aspençada Sinhozinho Gomes e dos outros dois companheiros, gritou para Garapu, dizendo: – Saia pra fora, Garapu. Você tá sabendo que vai morrer (...).” (“AS CRUZES DO CANGAÇO – Os fatos e personagens de Floresta-PE” – SÁ, Marcos Antônio de. e FERRAZ, Cristiano Luiz Feitosa. Floresta, PE. 2016)

O coiteiro sabia sim sua sentença. Sabia que por ajudar bandidos seria condenado a morte certa. Estando dentro de um quarto, com sua esposa e os sete filhos, Garapu despede-se deles, saca de uma faca peixeira e parte de encontro a morte. Desfere um golpe em direção ao soldado que havia lhe inquirido, errando o alvo. O soldado Zé Feire, afasta-se para um lado e mata a tiros de revólver o coiteiro.

“(...) Com a morte de Garapu, Carmina teve que lutar sozinha para criar os filhos, lavando roupas de vizinhos, costurando e cuidando da lavoura(...).” (Ob. Ct.)
Dona Carmina, na época do tiroteio em sua casa, estava grávida. Alguns meses depois, pariu uma menina a qual deu o nome de Nair Carmina da Silva. Logicamente, essa, nunca soube o que é ter um pai, seus afagos e conselhos.
Os corpos dos militares mortos são levados pelo restante da tropa para seu QG. O corpo do caboclo Garapu e dos dois cangaceiros, Zé Marinheiro e Sabiá, são enterrados em uma vala comum bem próximo a casa.
As notícias voam com o vento. E aquela história da morte do caboclo Garapu se espalhou por toda a região do vale do Pajeú. Outros coiteiros, temendo a mesma sina, arrumam suas tralhas em cima de carro de bois, no lombo de animais e dão no pé. Na cidade de Floresta, PE, na rua Theófhanes Ferraz Torres, os fazendeiros “Manoel Januário, Rosendo Januário e Elói Januário", colaboradores de Lampião, estabelecem residência. A partir daí, essa rua passa a ser conhecida como “A Rua dos Coiteiros”, até os dias de hoje.

Sálvio Siqueira, pesquisador do Cangaço.
Grupo Ofício das Espingardas

Fonte (“AS CRUZES DO CANGAÇO – Os fatos e personagens de Floresta-PE” – SÁ, Marcos Antônio de Sá - Marcos De Carmelita e FERRAZ, Cristiano Luiz Feitosa -Cristiano Ferraz. Floresta, PE. 2016)Foto Ob. Ct.

A Saga de Chico Chicote e o Fogo das Guaribas Por:Manoel Severo


Todos que pesquisam o fenômeno do cangaço, dedicam boa parte de suas vidas à intermináveis andanças nordeste à dentro e a fora; depoimentos, lembranças, mistérios, risos, lágrimas e muitas histórias, acabam sendo fundamentais na construção da memória daquele que foi um dos mais marcantes períodos de nosso sertão. Emoções se repetem a cada nova empreitada, amigos se reúnem, planejam, estudam, especulam, se cercam de cuidado, zelo e determinação, ao final: Fragmentos da história da vida de um tempo e de um lugar, começam a se formar.

Hoje trazemos mais uma vez um dos episódios mais marcantes da historiografia do cangaço...Uma das maiores tragédias acontecidas no sertão do Cariri foi sem dúvidas a que tombou um dos homens mais destemidos e valentes de toda região: Francisco Pereira de Lucena, o famoso Chico Chicote. Nascido em 7 de janeiro de 1879, filho mais jovem do Capitão Francisco Pereira de Lucena , se destacava dos demais irmãos pela rebeldia e total desapego á autoridade constituída. Homem de reconhecida força física, chamava a atenção por sua altura e feições alvas, e ainda, pela maneira de falar: falava sempre muito alto, quase aos gritos . Era uma figura singular e que só com o fato de sua presença, já incutia medo às pessoas.

Chico Chicote era tido como desordeiro contumaz; quando bebia quase sempre acabava se envolvendo em problemas. Por seu temperamento difícil ,já tinha sobre seus ombros vários crimes e um número sem fim de inimigos. Dentre esses se destacava a família Salviano, mentora da tragédia de Guaribas.Entre Chico Chicote e Lampião sempre houve um respeito mútuo , apesar da distância; Lampião que até ali não tinha inimigos no estado do Ceará, acabou sendo o álibi perfeito para o início da trama que daria cabo a vida de Chico Chicote.

Flagrantes de Visitas do Cariri Cangaço a Guaribas de Chico Chicote

Virgulino sempre que passava pelas terras do cariri cearense, vinha pelos lados de Jati, Porteiras, Brejo dos Santos , Jardim e Missão Velha, para as paragens do poderoso Cel Santana, da fazenda Serra do Mato. Em uma dessas oportunidades seus cabras acabaram matando e se alimentando de animais do rebanho do também coronel Pedro Martins de Oliveira Rocha, da fazenda Cacimbas de Brejo dos Santos. Diante do acontecido o líder cangaceiro mandou informar ao referido coronel que o autor do morticínio de seus animais teriam sido homens de Chico Chicote e não de seu bando.

Ato contínuo o Coronel Pedro Martins mandou chamar  à sua fazenda , Chico Chicote, que refutou as acusações, desmascarando a acusação infundada lhe imputada por Lampião. A partir dali nascia mais um inimigo de Virgulino Ferreira; o primeiro em terras do cariri cearense. 

Mesmo depois do incidente; pelo menos por duas vezes os coronéis do cariri tentaram a aproximação de Chico Chicote e Lampião; uma das vezes o próprio coronel Pedro Martins através de seu genro, Antonio Xavier, quis promover este encontro na fazenda Crioulo, também em Brejo dos Santos, Chico Chicote lá não apareceu. A outra oportunidade foi na Fazenda Serra do Mato do Coronel Santana, quando ao saber que ali se encontrava Sabino Gomes, Chico Chicote não desceu nem de seu cavalo. Era do conhecimento de todos a rixa entre os dois; entretanto foi a partir dessa rixa que se arquitetou o trágico fim de Chico Chicote.


Quando nos aprofundamos no episódio da morte de Chico Chicote, começamos a desvendar os meandros da  selvagem política dos primeiros anos da república velha. Na verdade uma espetacular trama envolvendo correntes políticas de alguns das principais cidades do cariri, viriam trazer um tempero especial ao combate de Guaribas. Explico: O irmão de Chico Chicote, era o prefeito de Brejo Santo, Quinco Chicote, e por muitas vezes precisou usar toda a força política e ainda amargar alguns desabores em função da ação truculenta do irmão rebelde. Em determinado momento lideranças de Brejo Santo enviaram telegrama ao Presidente do Ceará; Moreira da Rocha; com queixas contra Chico Chicote, e pediam providências às forças do estado. Ato contínuo o mandatário maior do estado designou a volante do tenente José Bezerra, estacionada em Jardim, para atender ao pleito lhe enviado.

Monumento em memória de Antônio Gomes Granjeiro

Na verdade começava ali o esboço de uma das maiores atrocidades da história do cariri. É importante mostrar outros personagens; ou, vítimas; desse bem tramado plano. Primeiro vamos nos deter em Antônio Gomes Granjeiro, de tradicional família sertaneja e amigo fiel de Chico Chicote; sua propriedade, o sítio Salvaterra; seria  a primeira parada da volante assassina de José Bezerra. O Tenente havia partido de Brejo Santo dizendo aos quatro ventos que iria em perseguição a Lampião, que de fato se encontrava ali perto, também na Serra do Araripe; Entretanto naquela madrugada do dia 1 de fevereiro de 1927, a volante seguiu direto para o sítio Salvaterra, com o intuito de efetivar o primeiro "acerto" daquela fatídica empreitada: Matar Antônio Gomes Granjeiro; crime encomendado pela família Salviano, inimiga de Chico Chicote e que se encontrava sob a proteção do poderoso Zé Pereira de Princesa.

Cercaram a casa de Antônio Gomes Granjeiro pouco antes do alvorecer, dali levaram o dono da propriedade e mais os companheiros, Louro, Joaquim de Barros e Aprígio, todos violentamente mortos, degolados e queimados, a poucos quilômetros de Guaribas. A primeira etapa da empreitada a que foi contratado Zé Bezerra, estava cumprida.

Mais uma vítima seria assassinada covardemente pelas costas nesta manhã tenebrosa de fevereiro, no cariri cearense. Antônio Marrocos (foto ao lado), o Nêgo Marrocos, era cobrador de impostos em Macapá, atual Jati, na época município de Jardim. Ali mantinha antiga rixa com lideranças políticas locais que aproveitaram a oportunidade para também "peitarem" o tenente Zé Bezerra e acabar com a vida do referido inimigo. Depois de passarem no Salvaterra, foram a casa de Marrocos e praticamente o induziram a acompanhar a malta "oficial" até a propriedade de Chico Chicote, uma vez que o mesmo mantinha boas relações com Marrocos. Era o começo da manhã daquele dia e ao se aproximarem de Guaribas, Zé Bezerra deixou o grosso da tropa, composta por cerca de 70 homens e partiu junto com Marrocos, o tenente Veríssimo e com o sargento Antônio Gouveia e ainda o corneteiro Louro, de encontro a Guaribas.

Quando os moradores de Chico Chicote avistaram o pequeno grupo, avisaram ao patrão: "É o Nêgo Marrocos!" Naquele momento o segundo "acerto" da empreitada seria efetivado: O tenente Veríssimo imediatamente disparou um tiro de revolver nas costas de Antônio Marrocos, que ainda permaneceu vivo por algumas horas no cenário do grande combate. Ao ouvir aquele primeiro tiro, Chico Chicote voltou rapidamente com os seus para dentro de casa; começava ali um dos mais ferozes combates da era do cangaço, em terras cearenses.

 Guaribas, testemunha muda da selvageria do sertão...

A manhã daquele primeiro de fevereiro de 27, avançava nas Guaribas. A força comandada pelo tenente José Gonçalves Bezerra, após o assassinato do grupo de Antônio Gomes Granjeiro em Salvaterra e Antônio Marrocos no terreiro de Chico Chicote, iniciava um dos mais terríveis cercos da história do cangaço.

De dentro de casa, acompanhado apenas pela esposa, Dona Geracina, da filha Josefa, do filho Vicente Inácio, e os cabras Sebastião Cancão e Mané Caipora; Chico Chicote numa das resistências mais célebres do sertão, sustenta uma verdadeira chuva de bala de seus oponentes, que mantinham Guaribas quase que totalmente cercada.

O tenente Zé Bezerra ordena avançar e antes mesmo que o corneteiro Louro pudesse fazer soar o instrumento, foi mortalmente atingido por um balaço vindo da arma de Sebastião Cancão. A fuzilaria se fazia ouvir por todos os recantos daquele sovaco de serra; Lampião estacionado a poucas léguas dali, no local chamado Malhada Funda, na serra do Araripe, ouviu o combate, mas não daria retaguarda a um inimigo confesso: Chico Chicote.

 Cariri Cangaço em Guaribas...

A refrega continuava feroz, de dentro da casa a reação dos sitiados era impressionante, chegando a dá a impressão que havia um verdadeiro exercito na defesa; dona Geracina e a filha Josefa se desdobravam na refrigeração e carregamento das armas; do lado de fora, dois moradores de Chico Chicote, Zé Francisco e Fiapo; chegavam e davam uma retaguarda, atacando a força volante pelos flancos e conseguindo algumas baixas na tropa de Zé Bezerra.

Na vila de Porteiras a repercussão do cerco a Guaribas já havia chegado. Os muitos amigos de Chico Chicote se organizaram para auxiliar na defesa do lugar, achavam que o mesmo estava sendo atacado por Lampião e seus homens e partiram para as Guaribas para atacar o cangaceiro. Eram dez horas da manhã quando o grupo partiu de Porteiras, entre os cerca de 50 homens sob o comando do cabo Cesário,dentre esses, um grande amigo de Chico Chicote, Antônio da Piçarra.

O grupo de Porteiras sustentava o fogo na defesa de Chico Chicote, pelas quatro da tarde o fogo recuou um pouco e Antônio da Piçarra chamou Chico Chicote para romper o cerco e vir se refugiar ao lado da tropa, no que foi rechaçado pelo sitiado, ele ficaria ali até a morte.

Uma hora depois, outro componente do plano , se evidenciaria. Chegava no campo de batalha a volante pernambucana de Arlindo Rocha e  a volante paraibana do tenente João Costa; a esses se somavam homens do poderoso Zé Pereira (foto ao lado), comandados por Sinhô Salviano, terrível inimigo de Chico Chicote e protegido do coronel de Princesa. Com a chegada do reforço das volantes o fogo intensificou, já eram mais de 10 horas de combate ferrenho, àquele momento o grupo de Porteiras percebeu que combatia forças policiais e não o bando de Lampião, supostamente atacante das Guaribas; ali, o grupo recuou e acabou deixando Chico Chicote entregue a seu próprio destino.

Depois de um fogo cerrado de 31 horas de bala e com apenas Manel Caipora, Sebastião Cancão e Vicente Chicote, cai a resistência de Chico Chicote que é encontrado morto, ainda em posição de tiro. Virgulino a tudo ouviu, pois estava a pouco menos de uma légua do acontecido, mas não participou: “Se fosse amigo ia da uma retaguarda...” teria afirmado o rei dos cangaceiros.

Manoel Severo
Curador do Cariri Cangaço
Fontes - Revista Itaytera  Volume 16 - Otacílio Anselmo; Cordel - A Tragédia das Guaribas, Maria do Rosário Lustosa da Cruz; entrevista Memorialista Napoleão Tavares Neves.