São José de Belmonte Por:Valdir Nogueira

Matriz de São José de Belmonte

O que me contaram os mais velhos sobre nossa cidade? Cada geração tem de sua cidade, a memória de acontecimentos que são pontos de amarração de sua história. O caudal de lembranças, correndo sobre o mesmo leito, guarda episódios notáveis que já ouvimos muitas vezes de nossos avós. A passagem do cometa Halley com sua cauda luminosa varrendo o céu belmontense, a secular briga de Carvalho e Pereira, a gripe espanhola, o alvoroço do primeiro automóvel, a morte de Dandão Pereira, a invasão de Belmonte pelo famigerado Lampião, ... O vôo do primeiro avião sobre a cidade de Belmonte..., as festas de São José e do Coração de Jesus, as festas de partidos, os corsos do carnaval, os bailes do 1º de Maio no SOB...

Mas a memória rema contra a maré; o meio urbano afasta as pessoas que já não se visitam, faltam os companheiros que sustentavam as lembranças e já se dispersaram. Daí a importância da coletividade no suporte da memória. Quando as vozes das testemunhas se dispersam, se apagam, nós ficamos sem guia para percorrer os caminhos da nossa história mais recente: quem nos conduzirá em suas bifurcações e atalhos? Fica-nos a história oficial: em vez da envolvente trama tecida à nossa frente, só nos resta virar a página de um livro, unívoco testemunho do passado.

Texto: Valdir Nogueira - Fotografia: Henrique Santos.

Feminino Cangaço pelo Centro de Estudos Euclydes da Cunha

O Centro de Estudos Euclydes da Cunha apresenta o documentário “FEMININO CANGAÇO” dirigido por Lucas Viana e Manoel Neto,

O Documentário propõe uma reflexão crítica sobre a entrada das mulheres no cangaço, suas motivações, as superstições em torno delas, seus papeis dentro dos bandos, seus costumes, crenças e dramas pessoais. Trata-se de melhor compreender a importância das mulheres na construção do que hoje entendemos como o fenômeno do cangaço e as destacar como sujeitos ativos desta história, mulheres que transgrediram os valores sociais de sua época e cuja força
surpreende ainda nos dias atuais.

88 Anos do Fogo do Maranduba Por:Manoel Belarmino

Manoel Belarmino e Manoel Severo no Maranduba

Ontem, 9 de janeiro de 2020, completou-se 88 anos do grande combate das volantes com o grupo de cangaceiros comandado por Virgolino Ferreira da Silva, o Lampião, na Fazenda Maranduba dos Soares, no atual Município de Poço Redondo. O evento ficou conhecido como o Fogo do Maranduba. O Sítio e o Maranduba eram duas fazendas que, no tempo do Cangaço, pertenciam aos Soares, meus antepassados. O Fogo do Maranduba, ocorrido naquele dia 9 de janeiro de 1932 foi um dos três maiores combates do Cangaço com as volantes, assim como o combate de Serra Grande em Pernambuco e o combate de Serrote Preto em Alagoas.

Caravana Cariri Cangaço em grande visita a Maranduba

Lampião encontrava-se nas pias da Maranduba com a sua cabroeira, provavelmente no descanso de almoço. Ali foi cercado e atacado por duas tropas das volantes da polícia. Uma comandada pelo capitão Liberato de Carvalho da Serra Negra (que depois chegou à patente de general do Exército Brasileiro) e a outra comandada pelo nazareno de Nazaré do Pico, Manoel Neto. Lampião reagiu com os seus cangaceiros. O tiroteio iniciou ao meio dia se estendendo até por volta das cinco horas da tarde. Lampião sai vencedor mesmo com um número menor de cangaceiros e Liberato e Manoel Neto fogem. 

Oito soldados das volantes morrem ali. Da tropa de Liberato da Serra Negra morreram Pedrinho de Paripiranga, Manoel Ventura, João de Anizia e Elias Marques. Da tropa de Manoel Neto, dos nazarenos, morreram ali entre os sete pés de umbuzeiro do Maranduba mais quatro soldados das volantes: Hercílio Nogueira, Adalgiso Nogueira, João Cavalcante e Antônio Benedito da Silva. Apenas dois cangaceiros da parte de Lampião foram mortos nesse combate, Sabonete e Caatingueira e o cangaceiro Quina-Quina ficou gravemente ferido, vindo a óbito dias depois do evento Fogo do Maranduba. Um trecho do folheto de cordel de minha autoria intitulado O Fogo do Maranduba:
....
"Com um número bem menor
De homens ali lutando
Na fazenda Maranduba
Lampião saiu ganhando
Matou oito policiais
E a volante recuando.

Liberato de Carvalho
Das volantes da Bahia
E o Tenente Mané Neto
De vergonha e de agonia
Fogem dali com as tropas
Naquele final de dia.

O fogo que aconteceu
Ali naquele lugar
Durante uma tarde inteira
Em combate sem parar
De O Fogo do Maranduba
Passou assim a se chamar."

Ivanildo Silveira e a conferencia sobre o Fogo do Maranduba
Toda vez que vou ao Maranduba ou quando escuto um mais velho contar sobre aquele combate, descubro um segredo ou algo que ainda não foi escrito. Vou guardando um a um. É de ficar arrepiado. Mas não vou revelar tudo agora, até porque não cabe em um pequeno texto como este, escrito para uma postagem na rede social.
Vejo que atualmente ainda há uma pequena mancha de caatinga original ali no Maranduba. E vejo também os Sete Pés de Umbuzeiros, um próximo do outro, vivos ainda, resistindo no tempo, como testemunhas daquele grande combate. Os umbuzeiros, todos os sete, serviram de trincheiras para os cangaceiros. Até recentemente naquele local, próximo dos umbuzeiros, eram encontradas cápsulas e balas ainda intactas. E ainda ali, não muito longe da Cruz dos Nazarenos, local onde foram enterrados os volantes (grande parte naturais da Vila de Nazaré do Pico-PE) e os dois cangaceiros, estão as pias (cavidades nas rochas) ainda armazenando quase 500 litros de água captados das chuvas.
Padre Agostinho do Cariri Cangaço e a benção na "Cruz dos Nazarenos"
Todos nós, os poço-redondenses, precisamos conhecer a nossa história, os nossos lugares históricos e de memória. Conhecer o Maranduba, em seus detalhes, in loco, como se deu o combate e as lendas que surgiram depois daquele combate, A Grota do Angico, a História do Quilombo Serra da Guia, a Pia das Panelas, o Riacho do Quatarvo, os nossos Sítios Paleontológicos, as pinturas ruprestes do Morro da Letra, as cachoeiras, os monolitos da Pedrata, as furnas da Serra da Guia, os achados arqueológicos, é importante para o fortalecimento das nossas raízes e da nossa cultura sertaneja.
Com frequência, pesquisadores, escritores, estudantes, professores e amantes da história do Nordeste, vêm ao Maranduba em busca de mais informações daquele grande combate que se enquadra nos três maiores combates entre cangaceiros e volantes da história do Cangaço.

Manoel Belarmino, pesquisador e escritor
Conselheiro Cariri Cangaço, Poço Redondo-SE
Janeiro de 2020 

Ioiô Maroto não foi Vingado por Lampião...



Pesquisador , escritor e Conselheiro Cariri Cangaço, Sousa Neto por ocasião do Cariri Cangaço São José de Belmonte.
Imagens Raul Meneleu
You Tube - canal Tv Maria Bonita

Virgulino Cartografado de Guerhansberg Tayllow, Saindo do Forno

Este livro foi resultado de uma dissertação de mestrado e investiga as relações de poder e os processos de territorializações que o cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, mais conhecido como Lampião (1898-1938), construiu por meio do estabelecimento de uma malha de protetores e coiteiros e em contraponto a uma rede de opositores, entre os anos de 1920 e 1928. Aqui o espaço do cangaço 'lampiônico' não é entendido como dado e preestabelecido, mas como resultado dos jogos de poder e das múltiplas relações que esse cangaceiro agenciou com sujeitos de destaque da política sertaneja dentro do contexto da chamada Primeira República.
O território é aqui percebido em sua dimensão processual, possibilitando interpretar as ações de Lampião como produtoras de múltiplos territórios, que ganharam configurações espaciais diversas, como: territórios em rede, territórios em zona ou territórios em movimento. Três tipos de fontes foram explorados nesta pesquisa: os jornais, que divulgaram notícias sobre Lampião, entre os anos de 1920-1928; os relatos policiais; e a bibliografia memorialística. Partindo da problematização dessas produções e do diálogo com a historiografia do tema, busco entender como se deram as múltiplas territorializações do cangaceiro Lampião.
O AUTOR: Mestre em História pelo Programa de Pós-graduação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Graduado em Licenciatura Plena em História pela Universidade Federal de Campina Grande, Centro de Formação de Professores. Pesquisa sobre as relações entre História e Memória e História e Espaço, com ênfase nas narrativas culturais sobre o Nordeste, sobretudo do Cangaço.
A presente obra tem 280 páginas. Peça o seu agora (Valor R$60,00), através do nosso sebista oficial, o professor Francisco Pereira Lima; Via e-mail franpelima@bol.com.br ou WhatsApp (83) 99911-8286.
Kiko Monteiro.

Jesuíno Brilhante, O Primeiro dos Grandes Cangaceiros, em Breve Por:Honorio de Medeiros


"O que levou alguns homens a não se conformarem com o papel que lhes foi destinado pelas circunstâncias e ousarem tomar seus destinos com as mãos e construírem suas próprias histórias? Como explicar a vida de alguns homens que parecem ter surgido do nada, de tempos em tempos, e adquirido brilho próprio, escrevendo páginas inigualáveis durante suas existências, quando comparadas com a dos seus contemporâneos? Homens ou mulheres que não esquecemos, como São Francisco de Assis e Hitler? Em uma escala menor, 
Padre Cícero do Juazeiro e Lampião?"

BREVE: 
"Jesuíno Brilhante, O Primeiro dos Grandes Cangaceiros". 
Abril de 2020.
Honório de Medeiros
Pesquisador e escritor, Natal - RN
Conselheiro Cariri Cangaço

Zé do Papel e Lampião Por:Archimedes Marques

Zé do Papel

Em meados de outubro de 1930 quando o bando de Lampião entrou na cidade de Aquidabã, em Sergipe, o ínfimo contingente policial fugiu às pressas deixando as pessoas totalmente desprotegidas e nas garras dos cangaceiros. Aquele era o retrato da força policial sergipana do governador Eronildes de Carvalho, filho de Antônio Caixeiro, sem dúvidas, dos maiores coiteiros que o famigerado Lampião teve na sua vida bandida por cerca de 20 anos no nordeste brasileiro.

Jose Custódio de Oliveira, o Zé do Papel, em virtude de ser uma pessoa aparentemente de classe privilegiada, de classe média para rica, um pecuarista e proprietário da Fazenda Pai Joaquim, fora abordado por Lampião e dentro da sua residência na cidade de Aquidabã, além de certa quantidade de dinheiro, fora encontrado dez balas de fuzil em uma cômoda, sendo daí interpelado para contar onde estava a arma, pois pela lógica, havendo munição haveria a consequente arma, oportunidade em que o trêmulo cidadão afirmou ter emprestado o mosquetão para o juiz de direito daquela comarca, Dr. Juarez Figueiredo.

Tal fato, provavelmente incutiu na mente de Lampião que a arma fora passada ao juiz, justamente para que ele se defendesse do seu bando, daí, enraivecido com o fato, o chefe do cangaço, irracional e impiedosamente arrastou Zé do Papel ruas acima e em frente a um armazém próximo da praça principal da cidade decepou à golpe de faca a sua orelha, depois do bando ter praticado saques no comércio local e tantos outros crimes de torturas contra pessoas amedrontadas, dentre os quais o assassinato de um débil mental de nome Souza de Manoel do Norte, mais conhecido por Abestalhado, que se fez de corajoso na sua insanidade sacando um pequeno canivete com o qual cortava fumo de corda para fazer seu cigarro de palha e com tal arma teria desafiado os cangaceiros. Diante do fato, o sanguinário Zé Baiano partiu em verdadeira fúria contra o pobre do doido ceifando a sua vida a golpes do seu longo e afilhadismo punhal de 70 centímetros, em luta totalmente desigual de um ínfimo canivete em mãos de um doente mental contra um longo punhal em mãos de um feroz e impiedoso cangaceiro. Não satisfeito com o bárbaro assassinato, Zé Baiano abriu a barriga da pobre vítima para retirar gordura e untar as suas armas de fogo. Tal pratica era useira e vezeira quando os cangaceiros eliminavam as suas vítimas e queriam impressionar a população para serem mais respeitados ainda do que já eram.

Eronildes de Carvalho

Consta que Zé do Papel na agonia de sentir o sangue escorrendo pescoço abaixo ainda foi obrigado a beber um litro de cachaça que ao mesmo tempo era usada para estancar o seu ferimento e aliviar a sua dor. Em meio a esse místico de humilhação, crueldade, sangue e cachaça o endiabrado cangaceiro Zé Baiano pegou o roceiro Eduardo Melo e após espancá-lo com o coice do seu fuzil, também cortou a sua orelha seguindo o exemplo do seu chefe. Zé do Papel ainda viveu por muito tempo e viu o cangaço se acabar e seu carrasco morrer, entretanto, o Eduardo Melo não teve a mesma sorte e faleceu cerca de um mês depois da perversidade sofrida.

Assim, Aquidabã viveu o maior dia de terror da sua história. Assim Aquidabã fora vítima das atrocidades dos cangaceiros e para sempre pelos seus sucessores moradores aquele dia será lembrado. Assim, Aquidabã fora vítima também do próprio Estado que deveria ser o protetor do povo, mas que estava ausente. Ausente pela covardia dos seus policiais que fugiram mato adentro sem esboçarem reação alguma. Ausente pela pouca ou nenhuma vontade política de verdadeiramente se combater o cangaço nas nossas terras.

De tudo isso, por incrível que pareça, a Justiça de Aquidabã, sequer abriu Processo Criminal contra Lampião e seu bando. Teria o juiz Juarez Figueiredo, o mesmo que estava com o fuzil emprestado de Zé do Papel, responsável indireto pela decepação da sua orelha se acovardado para não providenciar qualquer procedimento judicial contra Lampião?...
Por outro lado, em igual modo de impunidade falando, dizem " e a história de certo modo comprova " que a polícia de Sergipe era uma polícia de "faz de conta": Fazia de conta que caçava Lampião, e, Lampião por sua vez, fazia de conta que era caçado.

Archimedes Marques, pesquisador e escritor
Presidente da Academia Brasileira de Letras e Artes do Cangaço
Conselheiro Cariri Cangaço, Aracaju-SE

Palestra: "A construção da imagem pública de Lampião" Por:Wescley Rodrigues

Fonte: You Tube - Canal Aderbal Nogueira

Em novembro a cidade paraibana de Campina Grande promoveu sob o comando do pesquisador João Dantas o espetacular Campina Cangaço, reunindo alguns dos maiores nomes da pesquisa da temática no Brasil. Hoje Trazemos a palestra do pesquisador paraibano Wescley Rodrigues; Membro da SBEC e ABLAC; Conselheiro do Cariri Cangaço: A construção da imagem pública de Lampião.

Wescley Rodrigues
Conselheiro do Cariri Cangaço

Sertões do Nordeste Por:Heitor Macedo


Não sou historiador, pois não sou formado em história. Não sou memorialista, porque não escrevo minhas memórias. Também não sou literato nem escritor propriamente dito, posto que não tenho o objetivo de cultuar as letras e a ficção. Por conhecer um pouco fontes bibliograficas e documentais, já fui considerado por alguns como "empirista", ou seja, aquele que adquire o conhecimento por meio da experiência pessoal. Igualmente, não concordei com essa tentativa de classificação de pessoa tão esquisita que sou. Na verdade, fico confortável em dizer que sou apenas um curioso que pesquisa e compartilha o que encontra pelos becos obscuros do tempo, onde dorme a maior parte dos fatos humanos. 

Gurgel Feitosa, Heitor Macedo, Manoel Severo e Calixto Junior

Minha proposta é alcançar o autoconhecimento com liberdade, sem as amarras dos modelos formais de educação, por sinal, muito eurocêntricos. Conhecimento não é propriedade privada de ninguém, mas pode e deve pertencer a todos. Nesta obra, de minha autoria, publicada em 2015, defendi a valorização da visão do sertão pelos sertanejos. Alguns não deram muita importância por não terem entendido o título, por acreditarem que sertão é apenas aquele lugar seco, lá no semiárido. Ledo engano, pois o sertão brasileiro de que falo é o território criado pelo branco invasor, lá pelos idos de 1500, e que coincidia com espaço que ainda não havia sido "conquistado" aos índios, o que não era litoral, o que não era "civilizado", o interior. Então, aí está minha pequena contribuição, disponibilizada gratuitamente. Para baixar, é só acessar o link do Cariri das Antigas, do amigo Roberto Júnior. Obs: digitalização feita por Reginaldo Zurlo.


Heitor Feitosa Macedo
Crato, Ceara
10 de janeiro de 2020

Palestra "As Mulheres no Cangaço" Por:João de Sousa Lima

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Fonte: You Tube - Canal Aderbal Nogueira
  
Em novembro a cidade paraibana de Campina Grande promoveu sob o comando do pesquisador João Dantas o espetacular Campina Cangaço, reunindo alguns dos maiores nomes da pesquisa da temática no Brasil. Hoje Trazemos a palestra do pesquisador e escritor pernambucano, radicado em Paulo Afonso, João de Sousa Lima; presidente do Instituto Geográfico e Histórico de Paulo Afonso e Conselheiro do Cariri Cangaço: As Mulheres no Cangaço.

João de Sousa Lima nasceu em São José do Egito, Pernambuco, no dia 20 de dezembro de 1964. Chegou a Paulo Afonso em janeiro de 1970, com poucos anos de nascido e tornou-se filho adotivo das doces e amáveis terras baianas. É filho de Raimundo José de Lima e Rosália de Sousa Lima. Tem três irmãos: José de Sousa Lima, Manuel José de Lima e Maria Bernadete Lima Santos. Pai de duas princesas: Stéfany da Silva Sousa Lima e Letícia da Silva Sousa Lima. Serviu ao Exército Brasileiro em 1983, na 1ª Cia. de Infantaria, em Paulo Afonso, Soldado “Sousa Lima”, nº 145, do 2º Pelotão de Fuzileiros. Em 2016 foi Agraciado com o Título de Amigo da 1ª Companhia de Infantaria pelo Major Barroso Magno e com o Diploma de Amigo da 6ª Região Militar, pelo General Joarez Alves. Em 2016 foi agraciado por unanimidade pela Câmara de Vereadores com o Título de Cidadão de Paulo Afonso. Em 2019 recebeu o Título de Cidadão Honorário de Piranhas, pelo Decreto Legislativo 002/2019. Licenciado em História e Escritor, hoje autor de 20 livros. 

João de Sousa Lima
Conselheiro do Cariri Cangaço

O Andarilho! Por:Fabiano Piuba

Alemberg Quindins, Manoel Severo e Fabiano Piúba

O leitor é um andarilho. Está sempre em movimento enquanto ler. Um caminhante que faz o caminho ao caminhar. Como uma Alice no bosque ou um Teseu no labirinto de Creta. Quem entra num livro pode não sair mais o mesmo. A leitura é uma viagem de formação. Uma experiência de transformação. Quem lê realiza travessias e encontros com o outro, com o mundo e consigo mesmo.
Mas o bom leitor é aquele que lê com o corpo inteiro. Com a boca e o nariz, com os olhos e os ouvidos, com as mãos e os pés, com o ventre e o coração os sentimentos das palavras, das cores e dos sons.

por Fabiano dos Santos Piúba

O médico e o cangaceiro? Por:Archimedes Marques

Dr Archimedes Ferrão Marques

A minha avó Helena Motta Marques, quando ainda com vida e lúcida, contava uma história ocorrida em Nazaré das Farinhas, cidade do sertão da Bahia, na madrugada do dia 27 de maio de 1929, época em que ela e o meu avô Archimedes Ferrão Marques, então médico, naquele município residiram por alguns anos.

O meu avô que era médico daqueles que de tudo fazia para ajudar as pessoas, além de ter um cargo estadual como sanitarista possuía também uma farmácia tipo drogaria onde atendia aos doentes e ali mesmo quase sempre manipulava e vendia os remédios que ele próprio receitava. A farmácia que servia de aprendizado e de complemento de renda familiar lhe dava outros bens de consumo, além da satisfação de curar doentes e salvar vidas, vez que, quando os seus pacientes não podiam pagar com dinheiro, presenteavam-no com galinhas, patos, cabritos, porcos e outros animais. Assim eles viveram uma vida dura e simples em Nazaré das Farinhas naquele tempo de muito trabalho, mas também de boas realizações e excelentes lições de vida.

O meu avô Archimedes era muito caridoso e atendia qualquer um a qualquer hora, independente da pessoa ter ou não como pagar pela consulta ou pelo medicamento utilizado. Bastava bater na porta da sua casa que ficava anexa a sua farmácia, que ele medicava, fazia curativos, pequenas intervenções cirúrgicas, engessamento em traumatismo de pernas e braços e até partos realizava com o maior prazer possível. Era médico por vocação, amava a sua profissão e tentava seguir fielmente o Juramento de Hipócrates.

Elane Marques, Manoel Severo e Archimedes Marques, em dia de Cariri Cangaço

Naquele dia, mais de perto na calada da madrugada, em meados das primeiras horas, chegaram a sua casa dois homens montados a cavalo, um deles com um dente bastante inflamado e "urrando" de dor, querendo a qualquer custo que ele o arrancasse e lhe livrasse daquele atroz sofrimento. Não bastaram as desculpas do meu avô em dizer que somente poderia aliviar a sua dor, pois não era dentista e sim um médico e, além disso, nunca tinha arrancado um dente na sua vida, além de não possuir os instrumentos pertinentes necessários para uma perigosa extração como aquela demonstrava ser.

O homem desesperado puxou de um punhal dizendo que se ele não arrancasse o seu dente seria sangrado ali mesmo sem dó ou piedade. Diante do novo "argumento" não restou outra alternativa senão cumprir a vontade do bandido. Aflita e trêmula de medo a minha avó logo foi buscar um alicate comum na caixa de ferramentas e o colocou para esterilizar em água fervente, enquanto o meu avô aplicava injeção de morfina na boca inchada do intransigente paciente e depois de muito suor, desespero, gemidos e luta do alicate com a boca, o dente do cidadão finalmente foi extraído. Em seguida o meu avô fez uma boa limpeza em toda a boca infeccionada do paciente, aplicando-lhe uma injeção antibiótica e, recomendando por fim, além da higiene necessária, repouso absoluto nos dois dias seguintes.

O homem agradecido e aliviado, em demonstração de possuir algum sentimento, tirou um anel de ouro de um dos seus dedos e o deu como paga ou presente para o meu avô que então mais à vontade, criou coragem para perguntar pelos nomes deles, obtendo a resposta do outro cidadão acompanhante, que os seus nomes não lhe interessava e se ele tivesse juízo que ficasse calado sobre o ocorrido para não ter um dia a sua garganta cortada. Em seguida montaram nos seus cavalos e desapareceram no escuro da noite para sempre.


Por via das dúvidas, diante do iminente perigo da ameaça e com receio dos homens voltarem em vingança caso fossem denunciados e presos, os meus avós preferiram guardar segredo dos fatos durante o tempo em que naquela cidade permaneceram, não prestando queixa à Polícia nem tampouco comentando com vizinhos e amigos sobre o desespero e terror pelos quais passaram naquela noite.

Diz o velho ditado que não há um mal que não traga um bem. Assim, a lição e o exemplo vividos pelo casal que inclusive já tinha filhos menores, serviram para que o meu avô adquirisse os instrumentos dentários essenciais e passasse também a extrair dentes, sendo então, mais uma fonte de satisfação e caridade aos mais necessitados que passavam pela angustia dessa insuportável dor, além do somatório próprio da renda familiar, vez que no município não existia um dentista sequer. Contava a minha avó que por vezes a fila para extrair dentes era bem maior do que as consultas médicas tradicionais realizadas pelo meu avô Archimedes.

Quanto aos dois desconhecidos que a minha avó dizia ser de compleição física sertaneja e rude, de cor morena queimada pelo sol e que usavam roupas grosseiras com bornais de couro e outros apetrechos, nunca souberam de quem se tratavam. Teriam sido cangaceiros desgarrados de algum grupo de Lampião ou teriam sido criminosos outros procurados pela Polícia?... Como não há nenhum registro de ataque ou presença de cangaceiros no município de Nazaré das Farinhas é mais provável a segunda opção.

Archimedes Ferrão Marques.

Nasceu em 2 de julho de 1892, em Salvador/BA, filho de Ernesto dos Santos Marques e Ana Ferrão Moniz Marques. Formou-se pela Faculdade de Medicina da Bahia em 1917, defendendo a tese "Raspagem Uterina". Iniciou suas atividades médicas em 1918, combatendo a epidemia de varíola que grassava em todo o interior da Bahia, sendo em razão disso nomeado Inspetor Sanitário do 10º Distrito da Bahia e membro da Comissão Sanitária Federal de Combate à Febre Amarela. Em seguida, ainda em Salvador, foi transferido para o serviço de Saneamento Rural, onde fez carreira como médico, subinspetor, inspetor e chefe de distrito e zona até dezembro de 1930. Nomeado Sanitarista do Ministério da Saúde, atuou na Delegacia Federal de Saúde da 5ª Região da Bahia. Transferiu-se para Recife, onde atuou na Delegacia Federal de Saúde e Inspetoria de Saúde dos Portos, durante a 2ª Guerra Mundial. Em 1945 é designado para a Delegacia de Saúde da 6ª Região, em Aracaju. Cumulativamente exerceu o cargo de médico da Caixa de Aposentadorias e Pensões da Leste Brasileira. Atuou como clínico e obstetra. Faleceu em 17 de março de 1968, em Salvador/BA, com 76 anos.

Archimedes Marques, pesquisador e escritor
Presidente da Academia Brasileira de Letras e Artes do Cangaço
Conselheiro Cariri Cangaço - Aracaju-Sergipe
Fonte:http://www.cangacoemfoco.jex.com.br em 23 de Março de 2011