O Exu da Caiçara, de Barbara, de Luiz e do Barão...

Quanta memória povoa o universo de nossas raízes e de nossa historia. Desde bem jovem me acostumei a ouvir os relatos e a lenda em que acabaria se tornando a primeira presa politica do Brasil: Bárbara de Alencar. Depois o nordeste encantador cantado pelo Mestre, grande Rei, o Lua Gonzaga, maior e mais precioso embaixador do sertão no planeta, viria a fazer parte de minha vida... Não mais que de repente nos encontramos em Exu, no alto da magnifica Chapada do Araripe, solo pernambucano, berço desses dois personagens emblemáticos e cheios de força: Bárbara de Alencar e Luiz Gonzaga.
Esse final de semana de 22 de abril, dentro do esforço de construção da Programação Final de nosso Cariri Cangaço Exu-Serrita 2017, partimos do centro da cidade por volta de 9 da manha deste sábado; eu, Ingrid Rebouças e Rodrigo Honorato; para a checagem geral e final de nossas visitas técnicas para o evento de julho.
Rodrigo Honorato e Manoel Severo na Fazenda Caiçara, berço de Bárbara de Alencar e Luiz Gonzaga
Museu de dona Bárbara

Acho que 13 km, talvez menos, nos separavam de nossa primeira parada: Fazenda Caiçara, berço exatamente desses dois grandes personagens da historia. Ali na casa grande da Fazenda Caiçara, nascia em 1760 a heroína Bárbara Pereira de Alencar e bem perto onde hoje temos o Museu Bárbara de Alencar, quase na cozinha da casa grande da Caiçara, vamos encontrar o "marco" da casa onde nasceu em 1912 o Rei do Baião. Ali também, na Caiçara viria a nascer em 1822, um sobrinho de dona Bárbara, Gualter Martiniano de Alencar, futuro Barão do Exu, que mais tarde iria se estabelecer na pomposa Fazenda Araripe, segunda parada de nossa caravana.
Rodrigo Honorato e Manoel Severo no marco da casa de Luiz Gonzaga

 Ingrid Rebouças e os caminhos da Caiçara de Bárbara e Gonzaga
"Meu nome é Luiz Gonzaga, não sei se sou fraco ou forte, só sei que, graças a Deus, té pra nascer tive sorte, apois nasci em Pernambuco, o famoso Leão do Norte.Nas terras do novo Exu, da fazenda Caiçara, em novecentos e doze, viu o mundo a minha cara.No dia de Santa Luzia, por isso é que sou Luiz, no mês que Cristo nasceu, por isso é que sou feliz."
Luiz Gonzaga.

Era sábado, o sol deste 22 de abril ensaiava ainda seus primeiros raios no meio daquela manha quase chuvosa... clima ameno, o sertão chovido e viçante, o verde da caatinga e o azul do céu tornavam o cenário precioso daquele pedaço de história do nordeste inesquecível. A fazenda Caiçara com toda sua historia e significados pareciam se tornar ainda mais gigantes diante de tanta beleza. A fazenda Caiçara, o Museu de dona Bárbara de Alencar e o Marco da casa onde nasceu Luiz Gonzaga serão algumas da maravilhosas visitas imperdíveis do Cariri Cangaço Exu 2017.

A fabulosa Fazenda Araripe... 


Apenas 800 metros separam a Fazenda Caiçara de outro cenário deslumbrante e cheio de história, a lendária Fazenda Araripe e sua vila. Aqui vamos nos defrontar com a pequena entrada da vila, onde desponta por entre casinhas de um lado e de outro a escolinha municipal Luiz Gonzaga; começávamos a voltar no tempo...

A estradinha de pouco mais de 600 metros nos levam ao núcleo principal da Fazenda Araripe, não sem antes passarmos em um ponto obrigatório de visita: A Casa de Januário. Aqui nessa casinha amarela morava Januário e Santana, pais do Rei do Baião, e foi aqui o cenário inspirador para a famosa música "Respeita Januário", quando o já famoso filho, retorna a casa paterna.

  Manoel Severo e Rodrigo Honorato: A Casa de Januário no Araripe: "Luiz respeita Januário"...
 A espetacular Casa do Barão do Exu

O núcleo da Fazenda Araripe é realmente impressionante. A beleza do lugar se une a seu enigmatístico significativo. A casa do Barão de Exu, datada do século XIX se destaca pela imponência e beleza, a igreja de São João Batista com seu piso de tijolo batido e seu teto inigualável, a casa dos Alencar, berço do clã da família que fundou o município de Exu, um conjunto verdadeiramente encantador.

Aqui tudo nos remete a história dos Alencar, de Gonzaga e sua imensa repercussão na própria historia do nordeste. Na visita à igreja de São João Batista, ao lado da simpática Jamile Souza, entre uma revelação e outra, "víamos a hora" o Barão de Exu adentrar o solo sagrado da igreja, tamanha força e magnetismo do lugar.

 Ingrid Rebouças em terras da Araripe
 Igreja de São João Batista construída pelo Barão de Exu para pagar uma promessa



Jamile é filha de dona Raimunda Souza, neta de Jesus de Souza, primo de Januário. A igreja do Araripe, de São João Batista, desde seus avós é zelada por sua família. Jamile sempre com um sorriso aberto se emociona a cada visitante que busca conhecer a historia do lugar. Ali também mantemos contato com dona Amparo Alencar, "uma das maiores autoridades sobre a historia do clã Alencar" revela Rodrigo Honorato, quando tivemos a oportunidade de "beber da fonte" enquanto Dona Amparo se preparava para sair à feira da cidade de Exu.

 Amparo Alencar, Manoel Severo e Rodrigo Honorato
Guálter Martiniano de Alencar Araripe, primeiro e único barão de Exu foi coronel da Guarda Nacional além de deputado provincial do império, era filho de Luís Pereira de Alencar e de Ana Pereira de Carvalho, casou-se duas vezes, com Jacinta Xavier de Carvalho e com Alexandrina Ferreira Leite, mas não deixou descendência legítima. Era Sobrinho de Bárbara de Alencar, primo-irmão de Tristão Gonçalves e do senador José Martiniano de Alencar, pai do escritor José de Alencar e do Barão de Alencar.
 Manoel Severo e Jamile Souza, "guardiã da Igreja de São João Batista"
 Ingrid Rebouças e Rodrigo Honorato
 Ingrid Rebouças e Jamile Souza
 Mausoléu onde se encontram os restos mortais do Barão de Exu e de outros membros da família Alencar, entre eles Zito Alencar, ex-prefeito de Exu, morto no conflito familiar mais famoso do nordeste...

Alencar, outrora Alancar, Alanquar, Alamquer, Alenquer ligado a povoação portuguesa. Considera-se que o nome provém de Alan ( dos alanos) e Kerk ( templo ou igreja). Os Alanos eram povos nômades e guerreiros de origem árabe, da região do atual Irã, em virtude destas guerras acabaram dispersando-se por diversas regiões da África e Europa, e no Século V, d.C - chegaram a Portugal e fundaram pequenos povoados, entre eles a Freguesia de Alenquer ( nome adotado por Dorotéa de Alenquer = Alencar, mãe de Leonel de Alencar Rego, patriarca da Família Alencar no Brasil).

Tudo isso e muito mais no

Cariri Cangaço Exu
20 a 23 de Julho de 2017
EXU-SERRITA

Tudo Pronto para o Esperado Cariri Cangaço Exu 2017

Bibi Saraiva, Rodrigo Honorato e Manoel Severo

Novamente e pela quarta vez Exu recebe o Cariri Cangaço, dessa vez, na tarde-noite da última sexta-feira, 21 de abril, feriado de Tiradentes. Uma reunião de trabalho firmou os últimos detalhes para a Programação Final do Cariri Cangaço Exu 2017, reunindo os municípios de Exu e Serrita, num dos mais esperados encontros da marca Cariri Cangaço.

O encontrou reuniu o curador do Cariri Cangaço, Manoel Severo e os promotores do evento no município, Rodrigo Honorato, secretário de Turismo, Esporte e Cultura , representando a municipalidade e o pesquisador e escritor Bibi Saraiva, ícone cultural do município. “Neste momento estamos alinhando os últimos detalhes desse grande evento, sem dúvidas estaremos divulgando a programação completa já nos próximos dias, tudo está pronto para recebermos o Brasil aqui em Exu” revela Bibi Saraiva.

 Ponto a ponto a programação final do Cariri Cangaço Exu é finalizada

Manoel Severo completa: “Todos os pontos da programação; envolvendo os temas, os palestrantes, as visitas, a infraestrutura, a logística, enfim, foram alinhados de forma definitiva, amanha estaremos no município de Serrita e também na Ipueira dos Xavier para acertarmos os detalhes finais. Os nossos esforços são na direção de proporcionar um Cariri Cangaço inesquecível tanto para quem virá de todo o Brasil como para as famílias de Exu e Serrita, esse é o nosso compromisso”. 

Rodrigo Honorato, secretário municipal de Turismo, Esporte e Cultura de Exu ressalta o total apoio da municipalidade: ”Exu está de braços abertos para receber o Cariri Cangaço, o prefeito Raimundinho Saraiva e toda a equipe do governo está comprometida em realizar esse grande evento, dando o melhor para receber nossos convidados, será um evento inesquecível, Exu se sente honrada em esta recebendo e promovendo um dos mais respeitados eventos do nordeste, que é o Cariri Cangaço".

 Rodrigo Honorato, Cláudia Pereira e Manoel Severo
Estátua de Luiz Gonzaga, magnifica obra que será inaugurada durante o Cariri Cangaço Exu em julho de 2017

Um dos pontos altos da programação do Cariri Cangaço Exu será a inauguração da estátua do Rei do Baião, Luiz Gonzaga. A obra magnifica atualmente em estágio de finalização está localizada às margens da Rodovia Asa Branca , em frente ao Parque Aza Branca. Rodrigo Honorato assegura: "O prefeito Raimundinho Saraiva esta reunindo todos os esforços e com certeza essa grande obra será entrega ao Brasil dentro do Cariri Cangaço Exu em julho".

Os encontros de trabalho prosseguiriam por toda a noite ainda em Exu por ocasião da Mostra de Cinema do Araripe na praça da Matriz de Exu como também durante as visitas técnicas da manha do dia 22, nas fazendas Caiçara e Araripe e ainda em Serrita e Ipueira dos Xavier.

Mostra de Cinema na Praça...

Ainda na noite da sexta-feira, dia 21, Exu recebia o 1º Curta no Araripe Mostra de Cinema. Tendo a frente Bibi Saraiva o evento com o apoio do governo do estado de Pernambuco e da Prefeitura Municipal tendo a praça da Matrix e com a presença de grande público, dentre artistas, personalidades da vida cultural da cidade e da região, exibiu 3 curtas de inteira produção exuense.

  Secretário Rodrigo Honorato e Bibi Saraiva na Mostra de Cinema na praço
Um dos pontos altos da noite foi a apresentação do curta metragem "Dona Barbara do Araripe" 

Manoel Severo, curador do Cariri Cangaço, falou em nome da Curadoria do evento para os presentes à Mostra, ressaltando a importância do fortalecimento e do resgate da historia e da cultural local, além da grande integração regional promovida pelo Cariri Cangaço. "Gostaria de parabenizar a Bibi Saraiva, a Rodrigo Honorato, a Raimundinho Saraiva, enfim a toda família Exuense por esse manancial tão extraordinário que vocês possuem aqui, sem dúvidas vamos realizar grandes parcerias!" Diz Manoel Severo.
 
 Helenilda Moreira, Manoel Severo e Carminda
 Bibi Saraiva e Manoel Severo

Cariri Cangaço
Exu, 21 de Abril de 2017

O Império dos Rifles no Cariri Cangaço Exu 2017


Considerado pelo jornal New York Times dos Estados Unidos como a mais longa, sangrenta e famosa luta familiar da América do Sul, a “síndrome de Exu”, “hecatombe de Exu” ou simplesmente “Guerra de Exu”, protagonizada pelas famílias Alencar, Sampaio e Saraiva e seus agregados, surgiu durante as primeiras lutas nativistas no interior do Nordeste em um duelo travado pelo general Sampaio, governador das Armas do Ceará e Bárbara Pereira de Alencar, cognominada heroína da Revolução Pernambucana de 1817. 

Esse histórico pugilato, se estendeu até meados da década de 80, ganhando notoriedade no meio do jornalismo policial mundial, graças à intervenção de Luiz Gonzaga, o mais famoso sanfoneiro do Nordeste, natural de Exu. Embora seja o 5º livro publicado sobre essa contenda, “Império dos Rifles”, de autoria do escritor Francisco Robério Saraiva Fontes (Bibi), lançado pela Editora Multifocos, do Rio de Janeiro é sem dúvida o mais detalhado, se aproximando nitidamente do que ocorreu no vasto território violento de Exu e fora dele. 

Bibi Saraiva recebe o Cariri Cangaço em Exu

O primeiro livro sobre a “guerra de Exu” é de autoria Dr. Abdias Pires de Almeida, a época juiz de Direito da comarca de Exu e foi publicado em 1951. Aí vieram os seguintes: Almir Arnaldo de Alencar, em 1988; Ronildo Maia Leite em 1997, vencedor do Prêmio Esso de jornalismo e por fim, “Guerra de Exu” do jornalista paulistano Jorge Palermo. O livro “Império dos Rifles” já comercializado pela Editora Multifocos terá lançamento nacional no próximo dia 21 de Julho no grande evento que será o Cariri Cangaço Exu 2017. O livro poderá ser adquirido através do E-mail: imperiodosrifles@yahoo.com.br
Fonte:http://www.cineclubeararipe.com/

Império dos Rifles
Lançamento Nacional
Cariri Cangaço Exu
20 a 23 de Julho 2017

Os Micos do Cangaço Por:Junior Almeida


A palavra “macaco” era usada pejorativamente pelos cangaceiros para se referir aos seus inimigos os policiais volantes. O termo é bem antigo, pois, Doutor Oliveira Xavier nos diz em seu livro, “Beatos e Cangaceiros,” de 1920, que na luta armada que ficou conhecida na história como a “Sedição do Juazeiro”, seis anos antes, os cabras que guerreavam já usavam tal expressão. A língua formal diz que “mico” é um macaco de pequeno porte e cauda longa, soinho ou sagui. Esse pequeno animal nada tem haver com os militares, porém, na gíria, mico é uma situação vexatória, que causa vergonha, constrangimento. Alguns que usam tal expressão vão além quando a situação é de constrangimento extremo, ao invés de falarem que pagaram um mico, dizem que pagaram um “King Kong”, numa alusão ao macaco gigante do cinema.


O cangaço, assim como toda história, também teve seus micos. Situações tão absurdas que nem toda criatividade hollywoodiana seria capaz de criar os enormes “macacos” acontecidos nos sertões nordestinos. Podemos até achar graça em alguns micos da saga cangaceira, mas, é impossível sorrir diante das situações vexatórias e surreais que levaram milhares de pessoas ao sofrimento e muitas vezes à morte. 

O que dizer da “brilhante” ideia dada por um leitor de um jornal, de usar um avião para exterminar Lampião e seu bando? Esse mico até que dá pra dar boas risadas, assim como se pode mangar muito do doido de pedra, o tenente Casaca de Couro, que prometeu capturar o Rei do Cangaço e o entregar amarrado às autoridades. O tagarela recifense, Augusto Gouveia, achava que tudo que via nos jornais sobre as ações de Lampião era exagero, balela, era corpo mole dos sertanejos. Parece que como hoje, desde os tempos do cangaço, algumas pessoas por morarem em grandes cidades, acham que os “matutos” do interior, não sabem de nada.



Pois bem, o senhor Augusto Gouveia pediu ao chefe de polícia de Pernambuco, Eurico de Souza Leão, apoio para a sua empreitada, que era trazer Lampião no laço, assim como um boi brabo. Doutor Eurico, mediante a insistência do sujeito lhe nomeou tenente e o enviou para o Sertão, sob comando do major Teophanes Ferraz. Por só viver usando paletó, os sertanejos logo o apelidaram de “Casaca de Couro” ou “Casaca Preta.” O militar comissionado que tanto se pabulava não passou nem no primeiro teste de fogo. Ao encontrar-se com Lampião em Calumbi Pernambuco, deu uma carreira tão grande com medo de Virgulino e seus cabras, que ainda hoje deve estar correndo em meio à caatinga sertaneja. 

Outras patacoadas que nos conta a história foram os sangrentos fogos da Serra Grande, município de Serra Talhada, Pernambuco, em novembro de 1926 e da Fazenda Maranduba em Poço Redondo, Sergipe, em janeiro de 1932. Nesses combates atitudes precipitadas e imprudentes de comandantes de tropas contribuíram em muito para manchar de vermelho o solo nordestino. Na peleja perto de Vila Bela os volantes caíram numa emboscada bisonha. Ao invés de se precaverem e darem a volta na serra para tentar pegar os cangaceiros de surpresa, decidiram utilizar o caminho preparado pra eles por Lampião. Pareciam bois indo pra sangra. 

Segundo Frederico Bezerra Maciel, nesse fogo morreram 26 volantes e 38 ficaram feridos, dentre eles os célebres Arlindo Rocha e Mané Neto. A tragédia só não foi maior por que Antônio Ferreira, irmão de Virgulino, durante o intenso combate foi aboiar acompanhando o cangaceiro Genésio, que “tangia o gado” pra morte, quando foi atingido por uma saraivada de tiros de metralhadora. Nesse momento alguns volantes se salvaram. Uns por serem socorridos por colegas e outros saindo em disparada em meio à caatinga, deixando para trás equipamentos, armas e munições. Existe a versão que a morte de Antônio Ferreira na Fazenda Poço do Ferro, do coronel Anjo da Gia, foi em decorrência desse ferimento, sendo a versão de um “sucesso” que envolveu Luiz Pedro, mentirosa. 



No fogo da Maranduba pode-se dizer que no mínimo os comandantes das volantes foram irresponsáveis, por levar muitos dos seus comandados à morte, por falta de estratégia e principalmente por falta de humildade. O número da força era muito superior ao de cangaceiros, eram três militares para cada sicário e mesmo assim a volante se mal. Alcindo Costa conta em seu livro, “Mentiras e Mistérios de Angicos,” que existia uma disputa da volante de Nazaré, comandada por Mané Neto, com a da Bahia, que tinha o tenente Liberato de Carvalho como comandante. 

Cada militar que quisesse ser mais valente do que o outro, disputa essa que chegou até os comandantes das tropas. Antes de partirem para Maranduba, nenhum comandante deu descanso aos seus homens, mesmo tendo eles vindo de exaustiva jornada. O escritor de Poço Redondo diz ainda que os comandantes desprezaram todas as normas militares, por orgulho, prepotência e empáfia, e sentencia que “o despeito e a vaidade dos dois comandantes, foram a causa da perdição da numerosa tropa.” 

O tiroteio durou do meio dia ao por do sol. Lampião durante todo o combate nunca se viu apertado, mesmo tendo perdido três cabras, teve sempre a situação na mão. Destroçou boa parte da volante, que ficou no meio do fogo cruzado, inclusive em meio de um “fogo amigo”. A de se pensar: estando as volantes descansadas e não tendo seus comandantes orgulhos comportamentos, teria tido o fogo da Maranduba o mesmo desfecho? 

Os casos absurdos descritos neste texto são apenas alguns que vieram à mente, mas, o que considero a maior besteira da história do cangaço, o mico dos micos, o chipanzé, o orangotango ou mesmo King Kong de toda a saga, foi sem dúvida a “brilhante” ideia de tirar os sertanejos de suas casas para acabar com o cangaço. Só rindo para não chorar. Será mesmo que passou na cabeça de alguém que a ideia do interventor baiano Juracy Magalhães e o capitão João Miguel, nome esse que virou sinônimo de coisa ruim, de fome, de seca, daria certo? Pela ideia do volante sim, pois ele achava que todo sertanejo era um potencial coiteiro, e sem coiteiros o cangaço não sobreviveria. Santa inocência. 


Milhares de sertanejos foram expulsos de casa debaixo de ameaças. Deixaram tudo pra trás, entregue a própria sorte. As estradas do Sertão se encheram de miseráveis maltrapilhos, cidades sem a menor infra estrutura receberam esse povo faminto, sem trabalho, sem dinheiro, jogado à própria sorte. Como não poderia deixar de ser, a grande besteira dos mandatários da Bahia não deu certo, servindo de mangação dos cabras.

Quem não achou graça nenhuma foi o povo simples, sempre lascado no meio de cangaceiros e a força volante. Quatro meses passados, e os sobreviventes dessa triste decisão, voltaram às suas casas, muitas delas saqueadas, invadidas pelo mato e animais selvagens. As poucas criações tinham morrido com a seca ou tinham fugido. Outras foram roubadas por cangaceiros ou volantes, com a facilidade de os donos não estarem em casa.

Quem pagou o prejuízo desse povo? Ninguém é claro. E os que morreram de fome, quantos foram? Quantos perderam a terra por dela terem se ausentado? Isso tudo por conta de irresponsáveis almofadinhas que não conheciam a realidade dos sertanejos e com suas idéias mirabolantes. Esses mesmo sem puxar o gatilho, mataram muitos.

Junior Almeida
Pesquisador e escritor do Cariri Cangaço
Capoeiras, PE

Dom Quintino e Luiz Gonzaga...


Zona rural de Dom Quintino; distrito a 25 km do centro de Crato, rua da Antena, numero 69. O inusitado habita esse endereço. O sonho de um menino do sertão se manifesta dentro de uma pequena casinha de taipa e se mostra para o mundo. Falo de um pequeno sertanejo chamado Pedro Lucas Feitosa de 11 anos, fundador do Museu do Luiz Gonzaga.

Pedrinho, neto de seu Antonio Feitosa e dona Salete, se descobriu apaixonado pelo Rei do Baião desde os cinco anos de idade quando surpreendia a todos cantarolando Gonzaga. O menino que passou a ser criado pelos avós, logo acabou contagiando a família e ganhou o compromisso do avô de visitar o berço de Luiz Gonzaga: Exu. No ano de 2013, Pedro Lucas , chegava a Exu pela primeira vez e totalmente encantado resolveu criar um Museu de "seu Luiz" em sua querida Dom Quintino, o local escolhido: A casinha de taipa da bisavó, exatamente vizinha à casa de seu Antonio.

Dona Salete, seu Antonio, Caio, Manoel Severo,Pedrinho e Kydelmir Dantas 

Ingrid Rebouças e Pedro Lucas


Logo que chegamos a Dom Quintino, todas as pessoas a quem nos dirigimos orientavam de como chegar ao Museu de Pedrinho. Entra aqui, sai ali, sobe a ladeira e depois de algumas "placas" de cartolina e madeirite chegamos ao lugar. Pedro Lucas não estava em casa mas seu Antônio, o "guardião" do Museu logo se apresentou e mandou chamar o menino que chegou animado a cumprimentar cada um de nossa caravana: Eu, Kydelmir, Ingrid e Nerizangela.

Quando entramos no Museu, seu Antonio foi logo cuidando do "fundo musical", um vinil de Luiz Gonzaga inundava todos os cômodos da casa com "Nem se despediu de mim" em um sistema de som criado pelo próprio Pedrinho; sensacional ! Aqui encontramos cerca de 250 peças devidamente dispostas em todos os locais com destaque para os discos, fotos, artefatos de toda natureza que possuem ligação com o sertão e com o Rei do Baião. Seu Antonio explica:"Quando as pessoas souberam do museu ai começaram a fazer doação e depois muitos pesquisadores de Luiz Gonzaga começaram a trazer presentes para o Museu do Pedro".

 Cariri Cangaço no Museu de Luiz Gonzaga em Dom Quintino, no Crato
Manoel Severo e Antônio Feitosa

Pedro Lucas afirma que a iniciativa não vai parar na infância. Ele que ser um museólogo quando crescer. Conciliará a profissão com a sanfona, diz, instrumento que tem o sonho de aprender a tocar, como o ídolo Luiz Gonzaga.

Pedro Lucas Feitosa
 Mais de 250 peças compôem o Museu de Luiz Gonzaga, do Pedrinho 
 O pequeno Caio ao lado de Ingrid Rebouças, Kydelmir Dantas e Nerizangela 

A dedicação de Pedrinho encontra coro na família, seu Antonio , o pai-avô também já ensaia muito conhecimento sobre o Rei do Baião, dona Salete a mãe-avó, fica "só de longe" mas não dispersa um segundo si quer  nas coisas de Pedrinho e dos convidados, muitos deles ilustres que se deslocam do Brasil inteiro para conhecer a iniciativa. Além deles ainda vamos encontrar o mais fiel colaborador: Caio, um outro abnegado mantenedor do Museu, esse com apenas 7 anos, auxilia em tudo, filme, grava, arruma as coisas e o Pedro e ainda toca Zambumba !!!! Bem essa é a historia espetacular de Pedro Lucas Feitosa e seu Museu de Luiz Gonzaga em Dom Quintino, Crato, Ceará; Pedrinho e sua família estarão em julho realizando outro grande sonho: Participar de um Cariri Cangaço, e desta vez na terra berço de seu ídolo, Exu de Luiz Gonzaga. Avante,

Manoel Severo
Curador do Cariri Cangaço
Crato, Ceara