Academia Cearense de Cinema Recebe Cariri Cangaço

Régis Frota e Manoel Severo

A sede da Academia Cearense de Letras; Palácio da Luz; no centro histórico de Fortaleza acolheu a reunião mensal da Academia Cearense de Cinema na manha do último dia 20 de maio. Sob a presidência de Regis Frota a academia recebeu componentes do Cariri Cangaço. Na oportunidade o Curador do Cariri Cangaço, Manoel Severo, apresentou aos presentes o projeto do Cariri Cangaço, "é uma honra o Cariri Cangaço participar desta reunião solene da Academia Cearense de Cinema, penso que esse momento não é ocasional, sem dúvidas estaremos juntos em muitas iniciativas" revela Severo.

A apresentação do Cariri Cangaço para os membros da Academia Cearense de Cinema, a partir do contato do Conselheiro Aderbal Nogueira, foi pontuado pela palavra de seu curador Manoel Severo que dissertou sobre as origens do empreendimento, seu caráter histórico, científico e de integração regional; já presente em mais de 20 municípios em cinco estados nordestinos; os desafios e avanços que o Cariri Cangaço ao longo de seus oito anos de realização como também foi apresentada a agenda 2017, com os eventos em Exu e Serrita em Julho, em Piranhas, Água Branca e Delmiro Gouveia em Setembro e Floresta e Nazaré do Pico em Outubro.

Antônio Tomaz, Marcus Fernandes, Rodrigo Honorato, Manoel Severo, Alberto Teixeira, Ingrid Rebouças e Gentil Barreto
Rodrigo Honorato, José Gilson, Alberto Teixeira, Marcus Fernandes e Manoel Severo

A Academia Cearense de Cinema foi criada no último mês de janeiro, em reunião presidida pelo professor Régis Frota; reconhecidamente um expert em cinematografia; quando foi aprovado por unanimidade o estatuto da entidade que vai congregar cineastas, estudiosos e pesquisadores da Sétima Arte no Estado. A Academia conta com 40 membros e sua primeira diretoria está assim formada:Presidente – Régis Frota;Vice-presidente – Eduardo Rennó;1° Secretário – Marcus Fernandes;2° Secretário – Messias Adriano;1° Tesoureiro – Luís Fernando Pessoa de Andrade;2° Tesoureiro – José Gilson Bezerra de Menezes;Diretor de Relações Públicas – José Wilson Baltazar; Diretora Cultural – Fernanda Quinderé; Diretor de Publicações e Comunicação – Barros Alves.
Mesa solene da Academia Cearense de Cinema sob a presidência de Regis Frota
 Manoel Severo apresenta o Cariri Cangaço na Academia Cearense de Cinema

 Antônio Tomaz, Afranio Gomes e Manoel Severo
Marcus Fernandes autografando sua obra "Vinte e Dois contos de Severino"

Ao encontro estiveram presentes dentre outros, Regis Frota,  Eduardo Rennó, Marcus Fernandes, José Gilson, da diretoria da ACC, Manoel Severo, Ingrid Rebouças, Rodrigo Honorato, Alberto Teixeira, Antonio Tomaz, Afrânio Gomes, todos do Cariri Cangaço, além de Gentil Barreira, Alder Teixeira, dentre outros convidados.

Em nome da diretoria da Academia Cearense de Cinema, falou seu presidente, professor Regis Frota que ressaltou a importância de iniciativas como o Cariri Cangaço e provocou: "É necessário nos reunirmos, inclusive com a própria Academia Cearense de Letras, através do ministro Ubiratan Aguiar e fazermos uma parceria entre a Academia Cearense de Cinema, o Cariri Cangaço e a Academia Cearense de Letras na direção da interiorização de nossas ações".

 Gentil Barreira e Rodrigo Honorato
Ingrid Rebouças, Antonio Tomaz e Afranio Gomes
Antônio Tomaz, Marcus Fernandes, Rodrigo Honorato, Manoel Severo, Gentil Barreira e Ingrid Rebouças
Gentil Barreira e Manoel Severo

Para o Economista Alberto Teixeira "o Cariri Cangaço esta consolidado como uma das mais exitosas iniciativas do gênero, já coroado de sucesso nesses oito anos de existência, partindo de seu berço que é o Ceará e já presente em quase todo nordeste" . Já o renomado fotografo Gentil Barreira completa: "Acompanho o Cariri Cangaço, sou seu seguidor e agora só falta participar de um de seus encontros". Para o Secretário da Academia Cearense de Cinema, professor, pesquisador, poeta, compositor e músico Marcus Fernandes: "As palavras de Manoel Severo foram muito importantes na manha de hoje, só confirmam o que já conhecemos, o tamanho da preciosidade de nosso nordeste, maravilhoso, espetacular o trabalho do Cariri Cangaço".

Para o curador do Cariri Cangaço "a honra foi imensa em ter a oportunidade de estar presente e ser tão elegantemente acolhido pela Academia Cearense de Cinema, principalmente nas pessoas de seu presidente Regis Frota e do secretário Marcus Fernandes, foi uma manha realmente especial para nós do Cariri Cangaço"

Acompanhe tudo sobre a Academia Cearense de Cinema através de sua página na internet: http://accfortalezace.blogspot.com.br/

Cariri Cangaço
Academia Cearense de Cinema
Palacio da Luz, Fortaleza CE
20 de Maio de 2017

Tudo Pronto para o Lançamento da Programação do Cariri Cangaço Exu...

Paulo Vanderley recebe o Cariri Cangaço

A tarde deste sábado, dia 20 de maio, aconteceu em Fortaleza mais um encontro preparativo para o Cariri Cangaço Exu 2017, que acontecera entre os dias 20 a 23 de Julho, tendo como cidades anfitriãs, Exu e Serrita, em Pernambuco. O encontro teve como anfitriões o pesquisador e colecionador "gonzaguiano" Paulo Vanderley e sua esposa Suzana Bats. Vanderley um apaixonado pela obra de Luiz Gonzaga desde a infância; "comecei a me interessar e colecionar coisas de Gonzaga desde os nove anos"; recebeu em sua casa o Curador do Cariri Cangaço, Manoel Severo, o Secretário de Cultura de Exu, Rodrigo Honorato, dentre outros convidados. 

Rodrigo Honorato, Paulo Vanderley e Manoel Severo
Manoel Severo e Amanda da "Missa do Vaqueiro"
Cristina Couto, Rodrigo Honorato, Afrânio e Antonio Tomaz

"O principal objetivo desta tarde é o de estreitar a relação entre Exu; de Luiz Gonzaga; com a visita em Fortaleza de Rodrigo Honorato e o Cariri Cangaço, através de todos nós que participamos do encontro, além da apresentação em primeira mão da programação final do Cariri Cangaço Exu que deverá ser oficialmente lançada na próxima quarta-feira, dia 24", revela Manoel Severo.

Participaram do encontro alem de Manoel Severo, Paulo Vanderley e Suzana Bats, os Conselheiros Cariri Cangaço, Aderbal Nogueira e Cristina Couto, os pesquisadores Afrânio Gomes e Antônio Tomaz, Ingrid Rebouças, Pedro Barbosa, Bruno Rocha, além de Amanda, representando a Missa do Vaqueiro de Serrita.

 Encontro preparatório para Exu...
Paulo Vanderley e Suzana Bats recebem o Cariri Cangaço
Manoel Severo e Cristina Couto

"Manoel Severo e o pessoal do Cariri Cangaço já esteve em Exu por várias vezes, daí era mais que oportuno retribuir as visitas e vir até Fortaleza, sede do Cariri Cangaço, dizer de nossa alegria e enorme compromisso na realização do Cariri Cangaço em nossa cidade. O prefeito Raimundinho Saraiva e toda a gestão estão dando o melhor para proporcionar um grande evento que sem dúvidas realizaremos todos juntos" reforça o secretário da cultura de Exu, Rodrigo Honorato.

Na oportunidade o Curador do Cariri Cangaço apresentou aos presentes uma prévia da programação geral do evento em julho. Foram apresentados os principais temas, os conferencistas, as homenagens, as visitas, as mesas de debate, enfim, traduzindo o esforço tanto da equipe do Cariri Cangaço, como da equipe municipal, tendo a frente o Secretário de Cultura Rodrigo Honorato e o pesquisador e escritor Bibi Saraiva.

Afranio Gomes, Cristina Couto, Antônio Tomaz e Aderbal Nogueira 
 Bruno Rocha, Pedro e Manoela Barbosa 
 Aderbal Nogueira
Aderbal Nogueira, Paulo Vanderley e Suzana Bats

"Serão quatro dias de intensas atividades nos municípios de Exu e Serrita, uma agenda realmente dinâmica onde dentre os principais convidados estarão Luiz Gonzaga e Bárbara de Alencar, sem falar no espetacular fogo da Ipueira dos Xavier, a incrível historia dos Sampaio-Alencar-Saraiva, além de lançamentos de obras literárias, vídeo documentário, inaugurações, lançamento de Academias Literárias e o encerramento com a maior festa do sertão que é a Missa do Vaqueiro de Serrita com a parceria da Fundação Padre João Câncio, não perdemos por esperar, nesta quarta-feira, dia 24, teremos a divulgação oficial" fala Pedro Barbosa do Instituto Cariri do Brasil.

Manoel Severo completa:"Ser recebido pelos queridos amigos Paulo e Suzana é realmente sensacional, a atenção, o carinho tão próprio do casal e além de todo esse acolhimento ainda sermos brindados com uma verdadeira aula sobre o inigualável Luiz Lua Gonzaga com um dos maiores Mestres do Brasil, sobre o assunto; Paulo Vanderley; é um privilégio imenso, e ainda por cima te-lo em nossa programação do Cariri Cangaço Exu junto com outras "feras gonzaguianas" como Kydelmir Dantas, Wilson Seraine, Reginaldo Silva, Mucio Procópio, Rafael Lima, José Nobre, Joquinha Gonzaga, enfim, nos enche de satisfação, na verdade teremos uma grande festa, avante".

Cariri Cangaço
Fortaleza, 20 de Maio de 2017


A Renúnica de Durval Rosa Por:Rangel Alves da Costa

Rangel Alves da Costa e Manoel Severo

Durval Rodrigues Rosa foi umas das maiores expressões da política do sertão sergipano, principalmente em Poço Redondo, onde o grupo político sob o seu comando saiu vencedor em diversos pleitos eleitorais, elegendo não só a si mesmo por duas vezes (1963/64 - 1977/1982 ) como a seus filhos João Rodrigues Sobrinho, mais conhecido como João de Durval (1971/72), e Ivan Rodrigues Rosa (1993/1996), além de ter participado vitoriosamente de outros pleitos. Seu Durval, como mais conhecido, faleceu aos 83 anos em 28/09/2003, ainda sob o manto da respeitabilidade enquanto forte liderança política. Poucos sabem, contudo, que o filho de Dona Guilhermina e de Seu Cândido teve ameaçado até de ser preso quando eleito pela primeira vez em Poço Redondo. Em plena gestão da administração municipal, e de repente as transformações políticas ocorridas no Brasil a partir do Golpe Militar de 64 o atingiram injustamente.

Seu Durval, homem sempre respeitado, de palavra, de extrema honradez pessoal e política, vitorioso na terceira eleição realizada no município, teve que ceder ao império arrogante e insensato das botinas dos generais. Contudo, de modo diferente do que costumeiramente se comenta, não teve seu mandado cassado pelos generais, e sim renunciou, embora forçadamente, ao que lhe fora conferido pelo voto popular. Ora, a polícia da ditadura estava em Poço Redondo pressionando, forçando a essa tomada de decisão.

Durval Rosa

Cassado teria sido se a governança municipal lhe tivesse sido retirada por ato de lei, a partir de ato emanado do governo militar. Contudo, o que ocorreu foi uma renúncia forçada ao exercício de prefeito sob pena de ser preso. Ou deixava a governança municipal ou seria acusado “seja lá do que fosse” e levado à prisão pelos generais. Bem ao modo do que ocorreu com o governador Seixas Dória e os deputados Baltazar Santos, Viana de Assis, Cleto Maia e Nivaldo Santos. 

Com efeito, a 31 de março de 64 o Brasil passou ao crivo do regime militar, com a deposição do presidente João Goulart e a tomada do poder pelos generais. Tinha início o período conhecido “anos de chumbo” e que perduraria por vinte e um anos, até 1985. A partir daí, principalmente através do Ato Institucional nº 1 (AI-1, que dava poderes absolutos ao novo governo revolucionário para cassar os direitos e mandatos políticos daqueles que não fossem simpatizantes ao regime instalado), iniciou-se uma série de perseguições políticas em todas as esferas.

Seu Durval havia sido eleito legitimamente no pleito realizado em 03 de outubro de 1962, tendo como adversários Joaquim Fernandes de Barros (candidato do então prefeito Eliezer Joaquim de Santana) e Francisco Néri de Araújo (Chico de Lulu). Eleito pelo PSD, vindo do mesmo grupo do recém-assassinado Zé de Julião, assumiu os destinos do município a 1º de janeiro de janeiro de 1963 e o seu mandato deveria durar quatro anos. Contudo, sua gestão duraria apenas um ano e meio, pois teve de renunciar no dia 12 de junho de 1964.

Zé de Julião

Em Sergipe, diversos mandatos foram tomados “à força”, desde o governador a deputados. Também prefeitos foram depostos, como Geraldo Maia, de Propriá; Pascoal Nabuco, de Estância; José Figueiredo, de Capela; José Carlos Torres de Souza, de Neópolis; e Epaminondas Martins, de Amparo de São Francisco. E no sertão sergipano dois prefeitos não foram depostos, porém tiveram de renunciar: Durval Rodrigues Rosa, de Poço Redondo; e Francisco Machado Costa (Chiquinho Lameu), de Canindé de São Francisco.

Verdade é que na noite de 12 de junho de 1964, forças policiais dos generais revolucionários marcaram reunião na Câmara de Vereadores de Poço Redondo. A polícia da ditadura já sabia o que aconteceria ainda naquela noite, pois ali estavam exatamente para tratar do novo prefeito que assumiria os destinos do município. Igualmente sabiam que o prefeito Durval Rodrigue Rosa logo faria chegar à presidência da câmara sua carta de renúncia. E assim aconteceu. Totalmente pressionado, ameaçado de prisão se não renunciasse, Seu Durval não teve outra saída. Eleito ainda naquela noite presidente da câmara, Cândido Luis de Sá, Seu Candinho, ato contínuo se tornou prefeito municipal, sob as bênçãos dos generais.

Mas por que Seu Durval teve que ceder aos generais e renunciar ao mandato? Formalmente, ele não havia sido acusado de subversão à ordem pública ou de propagação de ideias comunistas, então por que foi forçado a renunciar? Os fatos nunca foram devidamente esclarecidos, pois as atitudes dos generais nunca eram justificadas com precisão. Intui-se, contudo, que a conduta política de Seu Durval incomodava o regime. Os generais não queriam no poder um homem que fazia, ao seu modo, um socialismo sertanejo através do atendimento às demandas mais populares, e cuja voz destemida, e sempre ouvida, poderia pregar contra o regime ditatorial em vigência.


Rangel Alves da Costa,
Pesquisador,Escritor e Poeta; Poço Redondo, SE
blograngel-sertao.blogspot.com

Lampião em Umarizal Por:Rivanildo Alexandrino

Massilon Leite

Há exatos 90 anos, Umarizal foi saqueada por um bando de cangaceiros. 11 de maio de 1927, aos primeiros raios do sol escaldante, um grupo de cangaceiros aproximava-se sorrateiramente do pequeno vilarejo de Gavião; nome primitivo da cidade de Umarizal, que depois foi chamada de Divinopoles e posteriormente, recebeu a denominação atual. O bando era formado por cerca de vinte homens, e o seu chefe era nada menos que o famoso cangaceiro Massilon Leite, que no dia anterior havia atacado a cidade de Apodi, e um mês depois, estaria integrado ao bando de Lampião no famoso ataque à cidade de Mossoró. Próximo ao povoado, o chefe interrogou uma mulher que lavava roupas numa casa um pouco afastada de Gavião:
- Ali na rua tem “macaco” do governo?

- O que é macaco do governo? – inquiriu a mulher!
- É polícia!
- Tem não senhor! Só esses que estão chegando agora! 
( pensava que os cangaceiros eram soldados ).
- Esses não são macacos! São meus cabras!
- E quem é o senhor?
- Sou “Lampião”! ( mentiu ).

A mulher, que ao ouvir o nome de Lampião, ficou trêmula de medo, logo foi tranquilizada pelo chefe dos bandidos que disse que não a fariam mal. Depois de saciarem a sede, os cangaceiros preparam-se pra invadirem o lugarejo. Para isso, Massilon usou inteligente estratagema, mandou que dois dos seus homens tirassem seus apetrechos característicos do cangaço e adentrassem no arruado, um corria a pé na frente, e o outro, montado em um burro em perseguição ao mesmo, gritava: - Pega ladrão! Pega ladrão!!

E assim, chegaram em frente a matriz, onde os moradores aglomeraram-se para assistir a estranha cena. Aproveitando a situação, os cangaceiros entram de súbito em Gavião, cercaram e renderam todos que estavam no centro do lugar.Rendidos os habitantes, começaram a onda de saque. O comerciante José Abílio de Souza Martins foi um dos mais prejudicados. Teve seu estabelecimento comercial invadido e saqueado pelos cangaceiros que subtraíram grande quantidade de mercadorias e certa soma em dinheiro.


A fotografia abaixo foi feita em Limoeiro do Norte, em 16 de junho de 1927, pouco mais de um mês do ataque a Gavião. Na foto, Massilon está assinalado com o número 7 e Lampião com o número 5


O coronel Cristino Leite, chefe político local, foi da mesma forma, preso e obrigado a pagar por sua liberdade. No entanto, pediu ao chefe que não molestassem os moradores, que o mesmo faria uma cota com a população pra arrecadar dinheiro e lhe entregar.
O chefe da horda assassina, exigiu 10 contos de réis, valor exorbitante para os padrões do lugar naquela época. Mas depois de feita a arrecadação, tudo que conseguiu-se foi a quantia de 2 contos e algumas armas. O próprio Massilon sabia que o valor que tinha pedido era muito elevado, sendo assim, aceitou de imediato a quantia que conseguiram.
Os cangaceiros ainda organizaram alegre baile no grupo escolar, mas como o chefe deu a palavra ao coronel Cristino Leite que respeitaria os moradores, as mulheres não foram obrigadas a participar, e os cabras dançaram uns com os outros ao som de um fole e sob efeito de bebidas alcoólicas. Já na parte da tarde os cangaceiros deixavam Gavião e seguiram em direção ao povoado de Itaú, que da mesma forma foi saqueada.


Rivanildo Alexandrino, Pesquisador.

O Cangaço e a Maçonaria Por:Alfredo Bonessi


O Cangaço encontrou em Virgulino Ferreira a maior liderança de grupo, superando em muito outros chefes que o antecederam, nas mais variadas formas de agir do bando de cangaceiros. Pelo que se apurou em pesquisas, por estudantes do cangaço, os irmãos Ferreira se desentenderam com um vizinho por questões da invasão de animais em roçados  – e  a situação evoluiu aponto de um grupo emboscar o outro, causando ferimentos em alguns e prisão para outros.Enquanto esse vizinho entrava para a polícia, os Irmãos Ferreira entravam para um grupo de salteadores.
Nessa época, já era publico e notório o espírito de desordeiros que alimentava a índole dos Ferreiras – comportamento no modo de vida que nunca se alterou, e que acabou por  eliminar da vida sertaneja  os irmãos Ferreira, não sem antes arrastar para a vida de crimes e para a morte seu irmão mais novo Ezequiel Ferreira e seu cunhado Virgínio.   
Essa atitude ocasionou também  a morte da mãe, por exaustão e desgosto,  e do pai deles, assassinado covardemente por uma volante comandada pelo Aspirante Lucena, que mais tarde foi o responsável pelo fim do cangaço no sertão, graças a estratégia adotada de informação, contra-informação, e pelo elevado movimento e circulação de volantes pelas áreas de atuação dos bandos de cangaceiros.


Lampião e família em foto de 1926 e Juazeiro do Norte
Por um erro de alguns escritores, primitivos no tema cangaço, acreditou-se que Virgulino Ferreira entrou para a vida do cangaço para vingar a morte do pai – isso não é verdade. A rigor nunca Virgulino vingou alguém, nem mesmo seus chefes de grupo quando esses foram mortos por civis ou pelas mãos da policia. O que se viu na sua vida de crime foram mortes movidas por desobediências no cumprimento de suas ordens, como foi o caso dos trabalhadores da rodovia,  e a marcação a ferro nos rosto e nas partes íntimas das mulheres de alguns militares, por estarem de vestidos curtos e cabelos cortados.
O fato é que o cangaço era meio de vida para Virgulino Ferreira, diferente do cangaço por justiça de Antonio Silvino e do cangaço por vingança de Sinhô Pereira. Para isso Virgulino se impôs no sertão como um  indivíduo cruel, estando em mando acima dos poderosos coronéis da região, sendo até enganado por alguns, como foram os casos do coronel Zé Pereira de Princesa e do coronel Izaias Arruda, que ficou com mais de sessenta contos de réis do cangaceiro, e que o enviou para uma viagem sem volta até Mossoró, e que na volta o cercou com fogo no mato e mais de quatrocentos soldados da policia de tocaia.
Ao contrário do que muita gente pensa, Virgulino teve vida boa no cangaço, no interior das fazendas, ao redor das fogueiras, nas comidas gostosas feitas pelas mulheres dos fazendeiros,  ao som fanhoso do ronco dos foles, bebericando bebidas finas, tomando banho de perfumes, comercializando armas e munições entre os seus, pedindo dinheiro aos poderosos, sequestrando pessoas influentes, assaltando  cidades e vilas, atemorizando os comerciantes e forçando mulheres a praticarem sexo  com ele e com o grupo.



Lampião reinou absoluto  pelo sertão por longo tempo, e não se deu conta do número de estradas de rodagem que aumentavam dia-a-dia, das estações de rádio que se fechavam ao redor dele, do grande números de pessoas contrarias ao seu movimento, porque os cangaceiros atrapalhavam o comércio, e ainda,  pelo crescente  número de informantes aliciados pela  polícia e decididas a trabalharem para ela, e como principal fator,  a inclusão de sertanejos como parte integrante das volantes, quer como graduados, quer como guia e rastejadores, que conheciam bem o terreno e sabiam das artimanhas de  viver e combater nas caatingas.
Assim sendo a vida de Lampião estava por um fio naqueles meses de 1938, até que por um emaranhado de situações, fatos, iniciativas e  decisões, o destino aplicou um golpe derradeiro em Virgulino e seu estado maior do cangaço, no amanhecer de 28 de julho de 1938, quando a volante do tenente João Bezerra o cercou na grota de Angicos e abriu fogo contra os cangaceiros que estavam acabando de acordar.
Muito tempo depois alguns estudiosos do assunto tentaram justificar a morte de Lampião, criando diversas teses sobre o fato acontecido, como envenenamento, traição, e outros culparam o sobrenatural para o fato dos cangaceiros terem sido pego de surpresas e não esboçarem nenhuma reação e serem mortos com tanta facilidade.



O fato é que Lampião foi negligente em sua segurança quando ocupou esse local, um buraco que só tinha uma saída. Além do erro de ficar muito próximo de Piranhas, sede de volantes, e de Santana de Ipanema, local onde era o centro de movimentação da força. Apesar de chegar aos seus ouvidos, pelos informantes,  na tarde de quarta-feira,  que a policia tinha tomado  um determinado destino, bem ao contrário do seu esconderijo, fato esse que fez com que relaxasse na vigilância  e na segurança do acampamento.
Entendemos que o trabalho de Pedro de Candido e de seu irmão Durval  foi fundamental  para o êxito da operação policial, porque guiaram a volante, a noite e sobre as encostas do monte das Perdidas, ao lado do monte Angicos, tendo pela frente o monte das Imburanas, fator esse  primordial para o silencio  e eficácia de  toda a operação.
Se os cangaceiros operassem como uma força de combate imbuída de exterminar  a policia – mas esse não era o seu objetivo – nesse dia do combate de Angicos, poderiam ter se reunido fora do cerco e voltado ao campo da luta e dizimado o grupo de policiais que, descuidados, tratavam de disputar entre si a posse dos bens e do dinheiro dos cangaceiros mortos.
O resultado desse fato foi o fim do cangaço, muitos comerciantes que deviam dinheiro de agiotagem aos cangaceiros tiveram suas dívidas quitadas, muitos soldados da volante ficaram ricos e importantes, alguns deles se tornaram fazendeiros, um deles viajou até para a França, o assunto Angicos correu o Brasil de ponta a ponta e foi notícia até no exterior.


Volante de Joao Bezerra que deu cabo de Lampião em Angico, foto:Piranhas em 1938
Hoje, estudantes procuram uma causa para a existência do cangaço, mas não a encontram. Se Virgulino tinha um sonho, uma meta, um objetivo, um ideal, ninguém ficou sabendo, nem mesmo a sua companheira, que nesse dia e noite, derradeiros, brigou muito com ele -  sua voz triste e cansada ainda ressoa pelas pedreiras de Angicos:
“dexa essa vida, homi”.
A sublime Ordem Maçônica... 

Para aquele que era conhecido como um homem valente e matador de Lampião, acostumado com a vida sertaneja cheia de imprevistos e  surpresas, o convite para ingresso na Ordem Sublime lhe causou uma certa inquietação. Seu padrinho o alertou sobre isso: era preciso ter muita coragem, determinação, paciência, porque o trabalho era exaustivo, longo, cheio de altos e baixos – era necessário ter uma vontade firme - uma vontade de vencer -  que superava todas as provas existentes na  vida mundana.
Além das provas porque tinha que passar, dos juramentos de fidelidade, no trabalho cansativo nas pedreiras, lapidando a pedra bruta, também era necessário empreender várias viagens, por lugares incertos, sob tempestades e relâmpagos, em mares tenebrosos, em busca da verdade e da fé, para que o mundo fosse melhor e mais justo. Depois que as pedras estivessem polidas, poderia ser construído o templo de Salomão – um templo de virtude e de sabedoria.
Na construção do templo empregaria as ferramentas do pedreiro, seria então um pedreiro livre: a régua, o esquadro, o compasso, o nível, o prumo, e o malho seriam os seus instrumentos de aperfeiçoamento social da pedra bruta. Quando a pedra bruta estivesse polida, seria um mestre no uso desses instrumentos.



Era preciso também deixar a vida mundana e vestido de noivo casar com a nova vida – e assim teria que passar também por um prova difícil ao se fazer o balanço da vida, uma verdadeira reflexão, dentro do porão da consciência, onde teria que fazer um testamento, conhecer  de perto o alimento da terra,  e tomar conhecimento do livro máximo de todas as religiões. Depois enfrentaria de igual para igual, o senhor dos mundos, na pessoa de um bode preto, no fundo de sua consciência – vencido esse bode preto, venceria o mundo.
A impressão que teve o nosso corajoso candidato era que não estava mais vestido, que seria um simples condenado, que encapuzado e descalço seguiria para um  patíbulo. Antes de mais nada, teria que vencer o luxo e as vaidades e se desapegar dos bens mundanos.
O tempo passou e o novo candidato se houve com muita coragem e valentia. Venceu as tenebrosas viagens, quase naufragou nas durezas da vida, passou por inúmeras tempestades e relâmpagos, trabalhou duro nas pedreiras, conseguiu deixar polida a pedra bruta, subiu pela escada da virtude, do conhecimento,  do mérito,  e tornou-se um nobre cavaleiro da rosa e da cruz – hoje mora no oriente eterno, junto com os seus irmãos.
Alfredo Bonessi , pesquisador

SBEC Prepara os Festejos de 90 Anos Resistência de Mossoró ao bando de Lampião.


A SBEC-Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço, realizou na última quinta-feira, 11-05-2017, no escritório do Presidente da Comissão Organizadora das Festividades dos 90 Anos da Resistência de Mossoró ao Bando de Lampião, Dr Francisco Marcos de Araújo, reunião de trabalho para definir a agenda e programação do evento. 

Dos três principais eventos que irão fazer parte das comemorações dos 90 anos da expulsão de Lampião, já estão decididas as seguintes providências: 1.JÚRI SIMULADO DO JARARACA - O organizador e Presidente do referido júri, Juiz Breno Valério Fausto de Medeiros apresentou as seguintes sugestões - Início do Júri: 8 horas- Data: Dia 9 de junho (sexta-feira)- Local: Sala do Júri do Fórum Silveira Martins - Fórum novo, na Avenida Jorge Coelho, ao lado da UFERSA. Os estudantes participantes receberão Certificado de Participação, expedido por Universidade, valendo 5 horas-aula. 2. CONCURSO DE PINTURA com tema cangaço ( II Salão Dorian Gray de Arte Potiguar-Cangaço ), patrocinado e organizado pela Professora Isaura Amélia de Sousa Rosado encontra-se com as seguintes providências em andamento-Inscrições: cerca de 100 artistas já estão inscritos e 200 quadros prontos para a exposição. Premiação: os autores dos 10 melhores quadros escolhidos, receberão cada um, setecentos reais, totalizando 7 mil reais,  que serão doados pela Professora Isaura Amélia. Local da exposição dos quadros do concurso- Antigo Fórum Silveira Martins, localizado na Av. Rio Branco, em frente ao Memorial da Resistência.

Foto da reunião da SBEC, realizada hoje, quinta-feira, dia 11-05-2017, para tratar da programação das Festividades dos 90 anos da Resistência de Mossoró ao bando de Lampião.

Ficou definido ainda: 3. LANÇAMENTO DA REVISTA OESTE,  DO ICOP,  com conteúdo sobre o cangaço, que está sendo editada pelo escritor Cláuder Arcanjo, já está sendo  revisada e será lançada na Sessão Solene e 4. A SESSÃO SOLENE será realizada no Auditório do antigo Fórum Silveira Martins, na Av. Rio Branco, ao lado do espaço onde vai ocorrer a Exposição de Pintura com tema sobre cangaço. A referida Sessão constará do Lançamento da Revista Oeste, do ICOP-Instituto Cultural do Oeste Potiguar,  com conteúdo sobre cangaço, pelo Dr. Clauder Arcanjo; de um relato sobre as conclusões do Júri Simulado do Jararaca, feito pelo organizador e presidente do referido júri, Dr. Breno Valério e do anúncio dos artistas plásticos laureados no concurso de pintura sobre o cangaço, que  serão revelados pela organizadora do concurso, Professora Isaura Amélia.  

A COMISSÃO DE DIVULGAÇÃO elegeu seu Presidente, Jornalista Ivanaldo Xavier, que irá reunir os membros da comissão, para planejar o esquema de divulgação das festividades. Esta reunião foi presidida pelo Dr. Marcos Araújo, presidente da Comissão Organizadora das Festividades e contou com as presenças do Presidente da SBEC, Professor Benedito Vasconcelos Mendes, Dr. Breno Valério, Professora Isaura Amélia, Professora Taniamá Vieira da Silva Barreto, Professora Susana Goretti Lima  Leite, Jornalista Ivanaldo Xavier, Prof. Josué de Oliveira Moreira, Gualter Alencar do Couto e Raimundo Antônio de Sousa Lopes (Raí). Está sendo discutida a possibilidade da inclusão na programação, de uma Cavalgada, saindo no dia 8 de junho da cidade de Patu e chegando no dia 11 de junho ( domingo ) em Mossoró. Seria o início das festividades. Esta possibilidade está sendo estudada pela Professora Isaura Amélia. Um dos organizadores desta Cavalgada , empresário Bruno Almeida, da cidade de Messias Targino entrou em contato com o Prof. Benedito, oferecendo esta parceria .

Benedito Vasconcelos Mendes
Presidente da SBEC

Nas Trilhas do Cangaço de Floresta Por:Marcos de Carmelita


Temos a grande responsabilidade de perpetuar nossa memoria, consolidando a historia de nossas origens, nosso lugar, nossa identidade. Floresta: Um dos mais tradicionais municípios do sertão pernambucano... Sua força e sua tradição remontam os tempos de sua fundação. Ali, berço dos mais ferrenhos perseguidores de Lampião, perpetua sua historia ao longo dos anos, principalmente na luta contra o banditismo rural.

No último domingo de abril, dia 30, o pesquisador e escritor Marcos de Carmelita, do Cariri Cangaço e do GFEC - Grupo Florestano de Estudos do Cangaço, numa iniciativa vitoriosa comandou grupo de jovens florestanos,ao lado do pesquisador Giovane Gomes,  às Trilhas do Cangaço; principais locais de passagem do cangaço em território florestano. "A iniciativa se justifica como um indutor importante para que cada dia, mais e mais florestanos conheçam a verdadeira historia de nossa terra, e me surpreendi com o acolhimento das pessoas, interessadas em participar da trilha" revela Marcos de Carmelita. 

O novo "xodó" do Cariri Cangaço, a pequena Alícia ao lado de Marcos de Carmelita e grupo nas Trilhas do Cangaço em Floresta.

O principal ponto da visita guiada foi ao local da passagem e o massacre do cangaceiro Moreno na Varjota que ocorreu em 23 de abril de 1938, na fazenda Morro Preto. Ali , o grupelho do cangaceiro Moreno capturou Luiz Ferraz, Manoel Caetano e Américo de Cirilo. Por todo o trajeto a surpresa foi a presença sensacional da cangaceirinha Alicia de apenas cinco anos, o novo xodó do Cariri Cangaço. "Ela andou cerca de cinco quilômetros e não reclamou e ainda mandou um recado para o nosso comandante Manoel Severo Barbosa"Revela Marcos de Carmelita. Outra visita foi à Fazenda Pai Mané também em Floresta - PE, ali foi onde o cangaceiro Moreno assassinou a pauladas, Manoel Caetano e Américo de Cirilo, também no dia 23 de abril de 1938. 


Na cruz da captura de Luiz Ferraz, Manoel Caetano e Américo de Cirilo, 
na fazenda Morro Preto, Varjota.

O GFEC, ao lado do Cariri Cangaço estarão realizando outras iniciativas do mesmo gênero, com o objetivo de mostrar, principalmente às gerações mais novas, a real historia do cangaço em Floresta. "Marcos de Carmelita novamente nos surpreende com essa iniciativa, sem dúvidas, espetacular. É uma forma maravilhosa de difundir a historia, reconta-la de forma responsável e ainda, uma forma de preparar a cidade para nosso grande Cariri Cangaço Floresta 2017, quem for vivo verá." Fala Manoel Severo, curador do Cariri Cangaço.

Cariri Cangaço Floresta
Centenário de Nazaré
12 a 15 de Outubro de 2017

Maria Bonita, Bela, Recatada e não do Lar Por:Raul Meneleu


A polêmica frase "Bela, recatada e 'do lar' nos diz que "...são palavras muito específicas e que objetificam as mulheres."A autora (1) dessa frase faz comentários e diz que BELA, simbolicamente, toda mulher tem de ser bonita. Esse valor é algo muito forte tanto na sociedade ocidental quanto na oriental. Não importa o que aconteça, mesmo que a mulher tenha acabado de ter um filho, tem de estar com a barriga sarada duas semanas depois. 

O recatada e o 'do lar' vêm de encontro ao 'bela' para formar a imagem de mulher perfeita, que sabe se colocar no lugar dela e é submissa ao marido. É aquela velha história de que atrás de um grande homem sempre há uma mulher. Essa escolha de palavras segundo ela, foi muito infeliz. "Não me espanta a repercussão negativa que o perfil teve, embora no Brasil, ainda exista aquela imagem de que uma mulher foi estuprada porque estava de roupa curta", arremata.

No feminismo, o que se prega é que cada mulher pode fazer o que quiser. Se quer parar de trabalhar para cuidar dos filhos? Ok. Se quer casar com um homem mais velho? Ok. "Ela tem direito de ser quem quiser, mas não se pode criar uma simbologia de que a mulher perfeita deve seguir esses parâmetros."


Em uma sociedade escravagista como a nossa sempre foi perfil da mulher ser uma senhora de engenho, bonita, escolhida para casar, recatada, pois era preciso ser do lar, pois era onde as mulheres ficavam limitadas nessa época. O livro Bonita Maria do Capitão (2) conta a história de mais uma mulher que se viu coagida por uma sociedade impositiva que fazia as mulheres serem "Belas, recatadas e preparadas para lar." - Maria Bonita preferiu sair do lar imposto pela sociedade, para fazer de seu lar, o mundo encantado do sertão.

Maria Bonita, mesmo sendo uma mulher pobre, não muito culta, e como quase todas as mulheres sertanejas daquela época, estava sendo preparada por seus pais para serem recatadas donas de casa, cuidar do marido e dos filhos. Mas algo aconteceu em sua vida que a retirou desse marasmo imposto por uma sociedade que olhava para as mulheres serem exclusivamente 'do lar'.

Mas essa Maria não se deixou dominar por isso e sem saber que passaria a ser famosa, "...abandona o anonimato para pertencer à história do mundo.""No caso de Maria Bonita é diferente. Essa "Maria fez de si a própria entrega para a história. Ela deixa de ser uma promessa e concretiza-se em senhora de seu destino ao tomar a decisão de abandonar sua família para viver ao lado do mítico cangaceiro Lampião. Essa Maria é a do Capitão."

Jose Tavares , Raul Meneleu e Petrucio Rodrigues em dia de Cariri Cangaço

Não sei por que Joaquim Góis, ex-volante em seu livro intitulado Lampião: O último cangaceiro, que teve a oportunidade de conhecer Maria Bonita em sua casa, onde morava com seu primeiro marido, resolveu descrever a aparência física dela antes dela ser a companheira de Lampião! Lógico que devemos entender que aqui se aplica o velho ditado que diz que “não existe gente feia” pois a beleza ou feiura estão nos “olhos” daquele que ver.

Mas segundo ele, ao entrar na tenda do sapateiro Zé de Nenê, com o propósito de fazer algumas encomendas, notou uma mulher acabrunhada e sem beleza e escreveu que "... ao seu lado uma cabocla apagada, rosto de linhas inseguras, olhar vago e fugidio, corpo solto no desalinho e no mau gosto de um vestido barato, de chita ordinária, marcado de cores berrantes, costurado à moda de como costuram as mulheres de fim de rua das cidades pequenas. Pés grandes, esparramados dentro de duas sandálias grosseiras, e rosto comprido, moles, desbotadas; mãos de unhas sujas, mãos pequenas, descuidadas; duas argolas vermelhas de ouro duvidoso caíam-lhe das orelhas; cabelo de um castanho fosco, penteados em um volumoso cocó, bem aprumado, um pouco acima da nuca; pescoço curto, queixo atrevido, boca carnuda escondendo desejos; lábios corados como uma fruta entreaberta, pedindo caricias; seios bambos, caídos; quadris batidos; pernas fortes, semblante sem a beleza de um sorriso meigo, quase duro na sua expressão [...]. De mulheres vulgares como Maria de Déa, está cheio este sertãozão de meu Deus"(GÓES, 1966, p. 212). 

Benjamim Abraão, responsável pelas principais fotografias de Maria Bonita

O que fez Góes mostrar uma pessoa que todos tinham como sendo uma bela mulher, dessa forma? Lembremos-nos que “não existe gente feia” e que talvez naquele momento em que Góis entrou no recinto, Maria estivesse abatida talvez por uma situação de constrangimento e cansada pela vivência com o sapateiro, em constantes discussões, tivesse relaxado na indumentária e no semblante.

Vemos e podemos assimilar, que essa palavras, talvez até um pouco desconfortáveis, foi a visão momentânea do autor. Tudo bem que as sertanejas se arrumavam bem melhor aos domingos de Missa ou festinhas de largo ou algum outro evento. Mas se me permitem eu digo que foi uma maldade muito grande de Góes, retratar Maria Déa dessa forma.

Em reportagem do Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, edição de 8 de abril de 1967 o jornalista Luis Carlos Rollemberg Dantas em reportagem sobre o livro de Góis, diz que além de "liquidar com as intenções de determinadas publicações que procuram mostrar Lampião como herói" também mostra "... Maria Bonita, figura transfigurada pela lenda, e restabelecida convincentemente na realidade" como se Góis retratasse Maria Bonita convincentemente como feia e desengonçada, e isso fosse a realidade. 

Para contrapor essa ideia vejam essa foto (acima) tirada enquanto Maria estava "no lar" - antes de entrar no cangaço. Uma bonita sertaneja com penteado simples e vestido comum, mas que realçava a beleza dessa mulher. Uma beleza que talvez não aparecesse em instantes de desconforto com a vida sem atrativos que levava. Segundo as autoras do livro Bonita Maria do Capitão, o "... que se pode crer é que ela apresentava uma aparência comum, sem atrativos físicos que a colocassem em algum patamar de beleza."

Raul Meneleu
Pesquisador, Aracaju-Sergipe
Conselheiro Cariri Cangaço