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Maranduba Por:Alcino Alves Costa

Alcino Alves Costa

A monstruosa perversidade de Canindé chocou a gente sertaneja. A notícia se espalhou por todos os quadrantes nordestinos. Era necessário deter a opulência, a grandeza e o poder do invencível bandoleiro. Os horrores de Canindé teriam uma dura resposta. Ordens e mais ordens são, com urgência, expedidas. Rádios e telégrafos não param. Lampião sofrerá uma perseguição medonha. Será caçado como se fosse um cão danado.Alagoas exige rigor total em sua fronteira. A linha do São Francisco será severamente fiscalizada, guardadas pelas forças comandadas pelo renomado José Lucena de Albuquerque Maranhão, matador, no dia 29 de junho de 1920, de José Ferreira da Silva, o pai de Lampião.Da Bahia são transmitidas sérias ordens destinadas para Jeremoabo, ordenando ao seu numeroso contingente que marche rápido e urgente, para as terras sergipanas.Mané Neto, o pernambucano de Nazaré, à frente de seus nazarenos, abala-se de Jatobá com destino à zona de atuação dos cangaceiros, região que havia se tornado o novo mundo de lutas e tropelias do grande guerreiro do Pajeú.

Assim que deixa Canindé, Lampião, levado por pesados pressentimentos, resolve se homiziar nas fazendas e terras de Piduca Alexandre e João Maria, os potentados da Serra Negra e irmãos do famoso comandante das forças baianas Liberato Carvalho. Sabe Lampião que os acontecimentos de Canindé despertariam um ódio brutal e uma fúria intensa nas volantes e nas autoridades. Na beira do São Francisco os nazarenos vasculham portos, estradas e veredas. Os de Nazaré e Lampião são ferozes inimigos. 


A Cruz dos Nazarenos em Maranduba

Nazaré é o pequeno povoado de Pernambuco onde quase todos que ali viviam eram mortais desafetos dos Ferreira, do riacho São Domingos. Está na história à valentia e o destemor dos "cabras" da antiga fazenda Algodões, bravos sertanejos que tendo sobre seus destinos a inimizade sanguinária do maior dos cangaceiros souberam dignamente enfrentá-lo, mostrando que eram "casca do mesmo pau". Inimizade velha, antiga, nascida desde o tiroteio travado entre os três perigosos irmãos e os homens da antiga fazenda Algodões, com Odilon Flor à frente. Naquele combate Livino Ferreira foi baleado pelo soldado do destacamento João Agostinho e posteriormente preso, após ser encontrado na casa de Chico Eusébio. 

Nesta ocasião os nazarenos Cícero Leite e Arconso " irmão de Mané Neto " aconselharam que o melhor seria matar Livino, pois só assim evitavam problemas futuros com ele. Odilon Flor rejeitou a idéia, preferindo levar o irmão de Lampião até a cadeia de Nazaré. No outro dia o ferido foi levado para Floresta.Em 1923 entram para as forças repressivas os dois primeiros nazarenos: Manuel de Sousa Neto e Odilon Flor.Lampião, entre aborrecido e magoado, vê sua própria gente, aqueles que desde criança conhece, pegar nas armas do governo para persegui-lo. Em pouco tempo, quase toda família nazarena, representada pelos seus jovens, formava nas fileiras perseguidoras dos bandidos da Ingazeira.

Família de valentes: os Jurubeba, os Ferraz, os Nogueira, os Soriano, os Gomes e os Flor; destemida e desassombrada gente que fazia o chão caboclo de Pernambuco tremer sob a mira de suas armas. Todos eles, sertanejos valorosos que tudo fizeram para exterminar os temíveis e medonhos Ferreiras.


Maranduba

Os "cabras" da terra de Domingos Soriano passam a ser comandados por um dos seus próprios filhos, o lendário Mané Neto, filho de Gregório Nogueira e irmão de Afonso e Arconso. Mané Neto torna-se um feroz perseguidor de Lampião e seus asseclas e, quando recebe a noticia do dantesco episódio de Canindé, corre apressado para as terras alagoanas.Sabe o nazareno que seu grande desafeto não está nas Alagoas. O cordão repressivo esticado por Lucena, na linha do São Francisco, impedia completamente a passagem dos facinorosos para aquele Estado.A "força", que vinha de Jatobá, descansou em Pedra de Delmiro e dali seguiu para Piranhas. Era pensamento do bravo militar em dar um aperto em Joca Bernardes e Pedro de Cândido, dois famosos coiteiros que gozavam de muita intimidade junto aos bandoleiros.

Da Bahia viaja a volante comandada pelo tenente Liberato de Carvalho. Essa tropa não sabia nada sobre o ocorrido em Canindé. O destino dela era a fronteira desse Estado com Sergipe e o ponto visado era a fazenda onde residia o pai de Maria Bonita, a Malhada da Caiçara.Liberato havia recebido ordem de matar o pai da companheira de Lampião. Para sorte do inocente, cujo único pecado era ser genitor da famosa rainha do cangaço, o mesmo não se encontrava na fazenda. Estava no Estado de Alagoas visitando parentes em um lugarzinho bem perto de Arapiraca ou Porto Real do Colégio.Na Malhada da Caiçara, o irmão de João Maria é cientificado do terrível acontecido em Canindé, e para lá, imediatamente, se desloca.


Manoel Neto

O famoso militar baiano presta sua solidariedade ao derrotado tenente Matos. O clamor do povo era deveras sem igual. Maria Marques, Isaura e Anízia continuam a sofrer as dores dos suplícios recebidos. Canindé conhece os seus piores dias. O tenente, humilhado e derrotado, não tem forças para reagir. Jamais pensara em passar por tão dura prova. Jamais poderia imaginar que um matuto fosse capaz de impingir-lhe tão duro revés.Uma das supliciadas de Canindé (Maria Marques) é de Santa Brígida e parenta de alguns soldados da volante da Bahia. Os parentes, compadecidos e raivosos, jurando uma medonha vingança, procuram consolá-la. O "contratado" Elias é o mais furioso e o que fica mais tempo consolando sua patrícia, mas sem ter como minorar a dor que o ferimento causava na infeliz senhora.Liberato reúne seus homens e resolve seguir para Alagoas. Primeiro iriam até Pedra de Delmiro e do antigo reduto do cearense saberia que rumo tomar.Nada tinha a fazer no meio daquela gente ferida e apavorada. Restava, agora, encetar uma grande perseguição e procurar encurralar o bandido da Passagem das Pedras e sua turma sanguinária.Com sua gente abastecida, os bornais cheios de mercadorias do armazém do mestre Cícero, e depois de mais uma vez consolar o infeliz tenente, além de garantir ao povo que Lampião pagaria caro a sua ousadia, o oficial do exército dá sinal de partida. Sua volante, resoluta, disposta e destemida se encalça no rastro da nefasta caterva.

Ao chegar à famosa povoação alagoana o comandante da força baiana é avisado da passagem de Mané Neto. Retorna, então, para a beira do São Francisco. O destino agora é Piranhas. No espigão da serra ribeirinha faz parada. Envia um mensageiro até a cidade das margens do "Velho Chico". A presença de Mané Neto naquela localidade é confirmada. Imediatamente entra em contato com o pernambucano e acordam em atravessar o rio e caçar Lampião e sua malta juntos.As duas volantes formam um conjunto de verdadeiras feras; verdadeiros titãs; verdadeiros gigantes. No entanto, embrutecidos pelos anos de luta e combate, os de Nazaré haviam adquirido muito mais experiência. Naquela altura de suas andanças eram considerados verdadeiros mestres na arte de guerrear. 


Visita da Caravana Cariri Cangaço à Maranduba

Os baianos, sem possuírem aquele traquejo, uma vez que há menos de cinco anos combatiam Lampião e seus sequazes, mesmo assim, suportavam todo peso da medonha jornada. Ali estavam, sob o comando de Liberato, afamados valentões da Bahia. Homens do quilate de Elias Marques e seu filho Procidônio, o bravo Leonídio, João Pintadinho e seu irmão Martim; ainda Antônio Bolachão, João Batista, os rastejadores Joaquim Lima e Barbosa e alguns outros destemidos "contratados".As volantes unificadas seguem para Sergipe. O povoado ribeirinho de Cajueiro é o primeiro a ser visitado. Lá e em seus arredores vive uma leva muito grande de perigosos coiteiros: os Félix, os Rosas, os vaqueiros de Antônio Caixeiro e os da Badia.

toda essa gente sabia do roteiro de Lampião e seu bando. Era uma verdade. Naquelas paragens da beira do lendário rio sertanejo, o grande bandoleiro se considerava em sua própria casa. Mesmo assim, naquela passagem não iria se demorar. Sabia que seria tenazmente perseguido e apesar dos insistentes pedidos de seus comandados que desejavam realizar um baile, na fazenda Santa Cruz não se demorou. Apressado, se embrenhou na mataria.A volante vinha célere em seus pisos.surge, então, um grave obstáculo no meio da tropa. Sério inconveniente que, como adiante se verá, se tornou em uma total e absoluta tragédia.Quais os problemas surgidos?os homens de Pernambuco, veteranos das caatingas, achavam que possuíam uma ascendência muito grande sobre os da Bahia. Estes, na verdade, inexperientes e sem o traquejo dos pernambucanos, eram, como aqueles, valentes ao extremo. Todos eles acostumados com o mundo bravio dos sertões, uma vez que também eram filhos daquelas terras de sofrimento. 

Orgulhosos, não aceitavam as provocações e nem os "dixotes" dos do sertão do Pajeú.As desavenças aumentaram. O nunca esperado aconteceu. Os comandantes das volantes tomaram posição, cada um em favor de seus comandados. A soberbia do vesgo de Nazaré criava, ainda mais, em Liberato e seus comandados reações que estavam beirando ao desprezo e ao ódio. Se o nazareno queria porque queria demonstrar ser ele e os seus os maiores, os melhores, os realmente valentes; o irmão de João Maria não fazia por menos; asseverava alto e bom som, que sua volante era a que possuía os homens mais valentes do Brasil e do mundo. A porfia se tornou tão severa que não se pensava mais em Lampião, o empenho agora consistia em quem era quem na caça ao lendário bandoleiro.O despeito e a vaidade dos dois comandantes foram à causa da perdição dessa numerosa tropa.


Aderbal Nogueira em uma das pias da Maranduba

Os perseguidores já ultrapassaram os difíceis carrascos das serras do São Francisco. Agora caminham pelas terras brancas de Poço Redondo. Passam pelas lagoas da Pedra e do Curral. A tarde descamba. O sol vai se escondendo no horizonte. A caterva se destina a fazenda de China, o Recurso.Lampião e seu bando estão nos arredores da Queimada Grande de Piduca Alexandre, um dos irmãos do comandante baiano que está no encalço da malta bandoleira.a  jornada está sendo muito forte. Cada componente de uma das volantes não quer, sob pretexto algum, demonstrar fraqueza ou cansaço. Na verdade, o esforço que estão fazendo está deixando a maioria dos soldados completamente sem forças e extenuados.A sede, a fome e o sol escaldante deixam todos relegados a verdadeiros trapos humanos. E era este inesperado fator a grande vantagem dos bandoleiros perseguidos.O sertão está encoberto pelo manto escuro da noite.

Os enfraquecidos e combalidos "macacos" já estão desanimados. Formam pequenos e separados grupos, uns bem distantes dos outros.A noite chega e chega com uma escuridão de azeviche. Impossível alguém conseguir caminhar em hora tão imprópria.Mas, os obstinados comandantes não param. Desprezando todas as normas militares, dominados pelo orgulho, prepotência e empáfia, são impedidos de raciocinar corretamente. Imperdoável atitude que arruinou as volantes, jogando seus componentes numa das maiores tragédias da campanha cangaceira, com muitos feridos e outros mortos.A ordem era mostrar força e coragem, nunca sinais de fraqueza.A noite deixa todos sem saber para que lado seguir. Escutam o tilintar de chocalhos. Conhecem profundamente as coisas sertanejas. Sabem que as campainhas estão no pescoço da "miunça" (cabras ou ovelhas) de alguma fazenda próxima. Caminham na direção dos guizos. Sabiam que se espantassem as criações, elas correriam para o chiqueiro da propriedade que pertenciam.Assim foi feito.

Tangidos pelos soldados os animais correm para a fazenda. A tropa se orienta pelo tilintar das sinetas. Horas depois desponta numa grande malhada. Estavam na afamada Queimada Grande.Os perseguidores estão vencidos pela sede e pela fome. Cansados e estropiados procuram o tão almejado e merecido descanso. Estão morrendo de sede. Saciar a feroz sede e a terrível fome que está destroçando os soldados é a principal e urgente prioridade dos comandantes.A água disponível é muito pouca. O vaqueiro e seus filhos se apressam em ir apanhá-la nas pias ali próximas. Potes e cabaças transportam o precioso liquido. A água é pouca. A soldadesca está morrendo de sede. velho vaqueiro é pai de Zé Joaquim, o rapaz que anos depois foi barbaramente assassinado pelo perverso Juriti. Antônio Joaquim oferece seus préstimos aos soldados, mas pouco conversa. Cumpre suas obrigações para com os militares sem, no entanto, demonstrar a menor alegria.Já é madrugada e ainda continua chegando "macaco". 


Lampião e Juriti

Um grupo confirmou que na Lagoa do Vestido e na Lagoa do Cocho ficaram vários companheiros arreados, por não suportarem a sede. Providências teriam que ser tomadas para acabar com o tormento dos companheiros.Os soldados são da Bahia, seu comandante ordena que João Pintadinho e seu irmão Martim sigam imediatamente, acompanhados de um dos filhos de Antônio Joaquim (Manoel) e levem água para os sedentos.O que a tropa não havia percebido era que a sisudez do vaqueiro tinha um motivo altamente justificável; Lampião e sua malta haviam deixado a fazenda naquela tardinha e, com toda certeza, estavam pernoitando pelas redondezas.Levado por um misterioso pressentimento, Lampião, em vez de pernoitar na grande fazenda de Piduca, que seria a opção coerente e certa, prefere viajar um pouco mais e ir dormir na fazenda Santo Antônio, há uma légua acima da Queimada Grande.À noite a "força" chega à fazenda do homem da Serra Negra.O combate será iminente. Soldado e bandido estão praticamente juntos.O relacionamento entre as volantes continua lastimável. Os dois comandantes, em vez de procurar acabar com o problema, deixam de lado os seus deveres e responsabilidades, desprezando a condição de chefes daqueles servidores da lei e da ordem; para, ainda mais, através de suas desmedidas vaidades, aumentarem a animosidade existente entre seus homens, esquecendo que aquela dura missão que lhes fora confiada tinha como especial finalidade o extermínio do flagelo, da peste que destruía tudo, o cangaço.

A porfia dos pernambucanos com os baianos havia se tornado num perigoso e grave problema. As volantes eram compostas de homens geniosos e soberbos. Todos, encaprichados, não queriam "dar o braço a torcer", não permitindo que um se mostrasse mais valente, mais forte, ou ainda, mais capaz do que o outro.A vaidade, o capricho e a soberbia foram alguns dos maiores males da gente sertaneja.Naquela mesma noite, mesmo com seus homens cansados e estropiados, Mané Neto, querendo se mostrar o homem de ferro, de sem igual resistência, que tanto alardeava, fez questão que seus comandados seguissem em frente, sem considerar a dramática situação que todos se encontravam. A ordem do militar de Pernambuco era uma afronta, um acinte a dignidade humana; seus comandados e os da Bahia estavam estropiados, esfolados e cansados da penosa caminhada. A noite é avançada. Por que seguir mais além?A ordem teve que ser comprida. A tropa nazarena seguiu em frente, foram dormir na fazenda Poço do Mulungu. Bem perto, menos de meia légua, do local onde Lampião e seu bando dormiam.Cedinho, ainda madrugada, os baianos despertam e viajam. Com eles à vontade de alcançar os pernambucanos ainda pela manhã.

Os baianos estão animados, alegres e descontraídos. À noite de descanso havia ajudado bastante. João Batista, zombando de Mané Neto, imita o seu caminhar desmantelado, defeito adquirido desde o combate da Serra Grande quando saiu baleado nas pernas.No Poço do Mulungu as volantes voltam a ficar juntas. Experientes, começam a sentir um clima de combate. Algo estranho, misterioso e diferente paira no ar. Todos se voltam para os perigos de um tiroteio. A iminente batalha forma uma cadeia de união que até então faltava entre eles. Só agora percebem que estão expostos e sujeitos aos mesmos perigos. A qualquer instante estarão enfrentando a cangaceirada, razão mais do que suficiente para que se unam e se preparem para a terrível luta que os espera.Ainda cedo chegam ao Santo Antônio. É o local aonde a cabroeira dormiu.Madrugadores, os cangaceiros haviam se retirado. Deixam uma verdadeira rodagem. Não se preocupam em esconder a trilha. Não se tem mais dúvida, o tiroteio será sem tardança.Apesar do descanso da noite a soldadesca ainda sofre com os rigores da fortíssima caminhada que estava encetando. Um grande número de soldados, principalmente os da Bahia, está destroçado, sem nenhuma condição física. Muitos deles já haviam atingido o limite máximo de suas resistências, estavam enfraquecidos e combalidos, por conseguinte não tinham condições de acompanhar o ritmo avassalador dos nazarenos que, doidos para se confrontarem com o grande inimigo, se distanciavam cada vez mais dos baianos.



Liberato percebe que seus comandados não estão suportando aquela duríssima jornada e, preocupado, ver seus soldados dispersos e muito afastados uns dos outros. Procurou agrupá-los; porém, temendo a reação de seu colega que bem poderia imaginar que tudo não passava de uma manobra para não enfrentar o rei dos cangaceiros, resolveu silenciar e deixar tudo correr conforme o momento se apresentasse. Jamais daria lugar para o nazareno pensar que ele e os seus teriam medo de enfrentar os facinorosos comandados pelo capitão do cangaço.A trilha é fácil, muito clara. Os bandidos caminham na direção dos cerrados de cipó de leite da Maranduba, braba caatinga de Poço Redondo.Os "fechados" da Maranduba eram, e ainda são, uns dos mais falados daquela região sertaneja de Sergipe. Mataria grossa: o cipó de leite, o bom nome, o angico, a aroeira, a braúna, a barriguda, a umburana, a quixabeira e o umbuzeiro fazem daqueles desertos, moradia do gato, da ema, do caititu, do tatu-bola e do peba. Baixadas e grotões onde só vaqueiros campeões corriam atrás de bois; corredores famosos como os Soares, o maioral Milinho; João Preto, os Teobaldo, os da Cuiabá e os de João Maria: Adolfo e Manezinho Cego, o famoso Manezinho de Rosara.Bem próximo, naquele emaranhado quase que intransponível de caatinga, está o coito de Lampião. É naquele local que as mulheres cangaceiras esperam seus homens que retornam de mais uma de suas costumeiras razias

.Os soldados vão chegando.Chegam numas pias. Espantados, vêem pingos d"água que caem da madeira que cobre a fonte de pedras. À hora havia chegado. Os bandidos estavam nos arredores acoitados.Ao redor do lajedo apenas uns quinze homens das volantes. O grosso da tropa está atrasado. Alguns soldados estão na casa velha da Maranduba e outros ainda nem lá chegaram. Mané Neto, louco por uma desforra, resolve não esperar os retardatários, segue em frente, sabe que os homens de Lampião estão bem próximos, ali naquela mataria.No entanto, não sabe o valente militar que a natureza havia presenteado aquela parte da caatinga com um extraordinário anel, formado por um maravilhoso circulo. Sete umbuzeiros circundam belamente as pias. É uma paisagem de raríssima beleza. É nesse anel modelado por sete umbuzeiros que Lampião se refugia com sua cabroeira.Havia chegado naquele mesmo instante. Coisa pra menos de meia hora. Demorara-se um pouco nas pias e agora espalhava seus homens pelas sombras dos umbuzeiros.A alegria é geral. Abraços e vivas faz a felicidade de todos. Os bandidos formam uma só família. Vivem irmanados pela dor e pelo sofrimento.

Alcino Alves Costa
Fonte:revistacaninde.blogspot

NOTA CARIRI CANGAÇO: Nossa visita à Maranduba em 2011 foi sem dúvidas muito marcante, não só por estarmos pisando um dos solos mais emblemáticos de toda a saga cangaceira de Virgulino Ferreira, mas principalmente por ter sido nossa última grande caminhada ao lado do Mestre Alcino Alves Costa pelas terras de nosso Sertão Alegre.

De Luz, o matador de Juriti Por:Alcino Alves Costa

Alcino Costa ao lado de Jozé Cícero e Bosco André

Em nossos livros “Lampião além da versão” e “O Sertão de Lampião”, existe em cada um deles um capítulo discorrendo sobre a vida e morte de Deluz e de Juriti, este assassinado cruelmente pelo famoso e temido sargento, então delegado de Canindé de São Francisco. No “O Sertão de Lampião”, a página 269, está o capítulo “A morte do sargento Deluz” e no “Lampião além da versão, a página 345, está o capítulo “Juriti: perverso na vida, valente na morte”.
Amâncio Ferreira da Silva era o verdadeiro nome do sargento Deluz. Nascido no dia 11 de agosto de 1905, este pernambucano ainda muito jovem arribou para o Estado de Sergipe, indo prestar os seus serviços na polícia militar sergipana. Os tempos tenebrosos do banditismo levaram Deluz para o último porto navegável do Velho Chico, o arruado do Canindé Velho de Baixo. Por ser um militar extremamente genioso, violento e perverso, ganha notoriedade em toda linha do São Francisco e pelas bibocas das caatingas do sertão. Dos tempos do cangaço ficou na história, e está registrada no livro “Lampião em Sergipe”, o espancamento injusto que ele deu no pai de Adília e Delicado, o velho João Mulatinho, deixando-o para sempre aleijado. 
 
No pós-cangaço, sem jamais sair de Canindé, também ficaram na história aquelas versões de que os assaltantes de Propriá quando presos eram entregues a Deluz e ele ao transportá-los em canoas que faziam o trajeto Propriá/Canindé, prendia as mãos dos prisioneiros e amarrava uma pedra nos pés dos mesmos jogando-os dentro do rio. Um de seus maiores prazeres era caçar ex-cangaceiro para matá-los sem perdão e sem piedade. Foi o que fez com Juriti, prendendo-o na fazenda Pedra D`água e o assassinando de maneira vil e abjeta jogando-o em uma fogueira nas proximidades da fazenda Cuiabá. Foi em virtude de desavenças com o seu sogro, o pai de Dalva, sua esposa, que naquele dia 30 de setembro de 1952, quando viajava de sua fazenda Araticum para o Canindé Velho de Baixo, se viu tocaiado e morto com vários tiros. Morte atribuída ao velho pai de Dalva, o senhor João Marinho, proprietário da famosa fazenda Brejo, no hoje município de Canindé de São Francisco.

Diz à história que João Marinho foi o mandante, chegando até ser preso; e seu genro João Maria Valadão, casado com Mariinha, irmã de Dalva, portanto cunhado de Deluz, ainda vivo até a feitura desse artigo, com seus 96 anos de idade, completados no mês de dezembro de 2011, foi quem tocaiou e matou o célebre militar e delegado que aterrorizou Canindé e o Sertão do São Francisco.
  
Foi o sargento Deluz o matador de Manoel Pereira de Azevedo, o perverso e famoso Juriti. Manoel Pereira de Azevedo era um baiano lá das bandas do Salgado do Melão. Um dia arribou de seu inóspito sertão e viajou para as terras do Sertão do São Francisco, indo ser cangaceiro de Lampião, recebendo o nome de guerra de Juriti.

Este cangaceiro possuía uma aparência física impressionante. O seu porte atlético abismava as mocinhas sertanejas que se derramavam em desejos para receber os seus carinhos e o seu amor. Contrapondo a toda essa atração que despertava nas jovens, Juriti carregava em seu sentimento e em sua alma um extremado pendor para brutais violências; cangaceiro de atitudes monstruosas sentia especial prazer em torturar e assassinar com requintes animalescos as infelizes vítimas que caiam em suas mãos, como aconteceu com José Machado Feitosa, o rapaz de Poço Redondo que ele após torturá-lo medonhamente, o assassinou com uma punhalada em seu pescoço. 
 
Cangaceiro Juriti, na foto ao centro

Em pouco tempo Juriti angariou extraordinária fama. A fama de ser um cangaceiro que deixava as mocinhas sertanejas loucas de paixão e a fama de ser um assecla perverso ao extremo. Uma menina-moça, chamada Maria, filha de Manoel Jerônimo e Àurea, irmã de Delfina da Pedra D`água, deixou-o alucinado. Aquela ardente paixão foi recíproca. E o jamais imaginado pelos seus pais aconteceu. A menina de Mané de Aura deixou seu lar, seus pais e se jogou no mundo. Os seus sonhos e a sua ilusão era passar a viver nos braços do tão falado e comentado cabra de Lampião.

Na Grota de Angico vamos encontrar Juriti e Maria vivendo aquele instante de suprema agonia. Lampião, Maria Bonita e seus companheiros foram abraçados pela morte. Sem o grande chefe o viver cangaceiro não era possível. Os bandos espalhados pelas caatingas foram se desfazendo. Alguns fugiram e outros se entregaram as autoridades de Alagoas e Bahia.

Juriti seguiu o mesmo caminho de muitos. Após enviar a sua Maria para a proteção do pai e a ajuda do amigo Rosalvo Marinho que a levaram para Jeremoabo, onde ela foi recebida e bem tratada pelo capitão Aníbal Ferreira que deixando o papai surpreso e feliz liberou a sua filha para que com ele retornasse para sua casa e para o aconchego de sua família. Ainda mais. Solicitou a ajuda de Maria, do pai e de Rosalvo Marinho para que ambos fizessem com que Juriti e seus companheiros também viessem se entregar.

Juriti e Borboleta são convencidos pelo amigo da Pedra D`água e também seguem para Jeremoabo onde se entregam ao capitão Aníbal. Recebem o mesmo presente que Maria recebeu. São liberados. Borboleta joga-se na “lapa do mundo” e nunca mais se soube notícias dele. Talvez não esquecendo a sua Maria, Juriti se demora alguns dias no Canindé Velho de Baixo, porém no início de 1939 viaja para Salvador a capital baiana.

Em Salvador consegue trabalhar como vigia de um fábrica. Em 1941 é despedido do trabalho e retorna para o sertão de Sergipe. É seu desejo visitar os amigos da Pedra D`água, obter notícias de sua antiga companheira e seguir viagem para o Salgado do Melão, a sua terra de nascimento. Chegou ao último porto do Baixo São Francisco em uma quarta-feira e seguiu para a fazenda de Rosalvo Marinho, onde se “arranchou” e dormiu.

O sargento Deluz foi avisado da inesperada presença de Juriti na casa de seu cunhado Rosalvo Marinho. O sentimento impiedoso do militar não perdoava ex-cangaceiro. Juriti teria que pagar todos os crimes praticados durante sua vida no cangaço, e ele seria o juiz que iria condená-lo a morte.

Assim foi feito. A quinta-feira amanheceu e ainda muito cedo o café foi servido. Juriti conversa animado com seu amigo Rosalvo. Deluz e seus “rapazes” haviam cercado a casa. Surpreso, Juriti se vê na mira das armas dos atacantes e é imediatamente preso. Sorrindo, Deluz diz: “Mais qui surpresa! Nunca pensei qui Juriti fosse um pásso tom manso, tom faci de ser agarrado. Teje preso cabra. Eu num quero cangaceiro perto de mim não”.

Juriti se recompõe da surpresa e desafia Deluz, dizendo: “Deluz, você é covardi. Eu sei quem você é. Um covardi. Mostri qui é homi e mi sorte. Só assim você vai ficar sabeno quem sou eu. Vamu, mi sorti, covardi. Você é um covardi”. Amarrado a uma corda, Deluz transporta Juriti na direção de Canindé. Ao chegar a uma localidade chamada Roça da Velhinha, nas proximidades da fazenda Cuiabá, o sargento, friamente, ordena que se faça uma fogueira e quando as labaredas começam a lamber a caatinga e torrar a mataria e o chão daquele triste cenário da vida sertaneja, Juriti é jogado, sem dó e sem piedade no meio do fogaréu. Em poucos minutos o corpo do antigo cangaceiro havia se transformado em um monte de cinzas. Ficando, por várias décadas, como testemunha daquele medonho momento os botões da braguilha da calça de Juriti, além do negrume deixado pelo fogo no local do monstruoso assassinato do antigo Manoel Pereira de Azevedo, do Salgado do Melão.

Saudações cangaceiras!

Alcino Alves Costa
O Caipira do Poço Redondo
Sócio da SBEC - Conselheiro Cariri Cangaço

Padre Cícero Por:Alcino Alves Costa

Alcino Alves Costa em dia de Cariri Cangaço em Juazeiro do Padre Cícero

No meu entender, um vaqueiro da história, um daqueles rastejadores das coisas de nossos sertões e de seu povo, tem que envidar todos os meios possíveis e imagináveis para não ser tendencioso em seus trabalhos literários, já que a história não é, nunca foi e não será teoria e sim, fatos acontecidos e registrados nas mais diversas versões, mas, infelizmente, tenho que reconhecer uma verdade absoluta. Em relação à vida e o viver do padre Cícero eu sou tendencioso. A realidade é que não tenho nenhuma condição de discorrer sobre esse tão apaixonante assunto. Por quê? Além da escassez de conhecimento sobre a história do notável criador do Juazeiro, o meu sentimento e o meu espírito não encontra nenhuma deficiência que possa desqualificar a quase que divina grandeza desse verdadeiro santo sertanejo. Portanto sou suspeito.

Tenho orgulho e prazer em idolatrar os padres Ibiapina, Damião, Donizete, Frei Galvão e o próprio padre Cícero. Mas, vejam a ironia do destino. Desde os tempos fulgurantes da Teologia da Libertação, quando alguns teólogos em seus brados inflamados e cheios de ódio para com aqueles que possuíam terra e gado, procuravam jogar família contra família, sociedade contra sociedade, povo contra povo, eu me afastei por completo da igreja. Deixando a igreja de lado, por não aceitar e nem acreditar naquele novo proceder dos representantes do catolicismo. E assim, não aceitando aquela nova posição da igreja, procurei refúgio e consolo espiritual nas palavras de Alan Kardec e Bezerra de Menezes, porém sem deixar em nenhum instante de minha vida de me valer de Nossa Amada Mãe Santíssima e de nosso Amado Mestre e Senhor Jesus Cristo.

Voltando ao Padre Cícero o assunto em pauta é: ele protegia cangaceiro? Ele protegia Lampião? Claro! O Padre Cícero protegia cangaceiros. Protegia Lampião. Sob qual fundamento e baseado em que eu faço essa afirmação? Ora, meus amigos, o padre Cícero nasceu e carregou por toda encosta de sua vida a sublimação do amor em toda a sua abrangência. Ele amava todos. O rico, o pobre, o preto o branco, o letrado o analfabeto, o caboclo o praciante, também o ladrão e o criminoso, o bandido e o malfeitor. Esses eram a sua grande preocupação. Aqueles que ele orava todos os dias para tirá-los do abismo do crime. Enfim, a todo ser humano, a todos os filhos de Deus, fosse cangaceiro ou qualquer desvalido da sorte; também os grandes e famosos cangaceiros foram por ele amados, dentre eles Sinhô Pereira, Luís Padre e o próprio Lampião.


Alcino Costa, João de Sousa, Ângelo Osmiro e Ivanildo Silveira, no Museu vivo de Padre Cícero, em Juazeiro do Norte, no Cariri Cangaço

Se em março de 1926, o padre Cícero recebeu ou não Lampião em sua residência ou em qualquer outra localidade, não deslustra a sua excelsa vida. Mesmo porque, o padre Cícero jamais iria se recusar em receber quem lhe procurasse.Aliás, nos registros históricos do célebre escritor Nertan Macedo, o filho do Crato diz nas páginas 136 e 137 de seu livro “Lampião”:“(...) Já muito alquebrado e, como de hábito, sentado a segurar velho e nodoso cajado, estava o Padre, em casa, quando a beata Mocinha irrompeu quarto adentro, comunicando”:

- Meu padrinho, aconteceu uma desgraça!
- Que desgraça, criatura? - perguntou o Padre.
- Lampião está aqui!
- Mas quem mandou esse homem entrar no Juazeiro? - insistiu o ancião.
E, chamando um dos seus caseiros, ordenou:
- Diga a Lampião que venha cá! Quero saber com ordem de quem ele veio ao Juazeiro!
Ai Lampião, na companhia de alguns cabras, compareceu à presença do Padre Cícero.
Este o recebeu em casa, cajado na mão, sentado na cama.
- Meu padrinho... - foi balbuciando, cheio de humildade, o Capitão, ajoelhando-se com os cabras.
Mas a palavra do patriarca saiu cortante:
- Cale a boca, Lampião! Você é um condenado! Você vai pro inferno pelos seus crimes praticados! Faça como Sinhô Pereira e Luís Padre: vá pra Goiás...
- Mas, meu padrinho, eu não posso atravessar tanto sertão a pé, numa viagem desta...
- Cale a boca, Lampião! - repetiu duramente o Padre, reiterando-lhe a exortação de que o Capitão abandonasse o cangaço e fosse embora para Goiás, como já havia feito os outros chefes de bando, Sinhô Pereira 
e Luís Padre...

Esse registro da história atesta muito bem o tamanho descomunal da injustiça que se faz com o santo dos romeiros. Aqueles que não têm compromisso com as possíveis verdades da história não se cansam de registrar apenas aquilo que seja do seu agrado e que seja de sua vontade.
Queiram ou não, o padre Cícero foi um homem que tinha o seu espírito e o seu sentimento muito além das coisas terrenas. Porém, não poderia ser diferente, ele era um ser humano, alguém que também pecava e viveu suas provações. Todavia, nenhuma dessas provações, nenhum de seus pecados, nenhuma posição política alcançada, nem o seu desmedido amor pelo seu Juazeiro, que é sem dúvida alguma o seu maior milagre, nem sua luta em favor de seus amados romeiros desvirtuaram o seu sublime amor pelos preceitos divinos. Numa prova que o seu espírito estava além, muito além, do viver terreno e das vicissitudes da terra.


Beata Mocinha e Padre Cícero: Museu vivo no Horto, Juazeiro do Norte

Portanto, minha querida família sertaneja, desde aquele venturoso dia 24 de março de 1844, quando na então Vila Real do Crato, uma criancinha nasceu de Joaquim Romão Batista e dona Joaquina Vicência Romana, alcunhada carinhosamente de dona Quinô, era também o nascimento de uma nova era, a era comandada por um homem que só queria para a sua gente, para seu povo, para o seu amado cariri e seu amado sertão, PAZ E AMOR.

Saudações cangaceiras
Alcino Alves Costa
O Caipira de Poço Redondo
Conselheiro Cariri Cangaço, Sócio da SBEC

Alcino Alves Costa e a Caravana Cariri Cangaço Por:Manoel Severo

João de Sousa, Manoel Severo, Lívio Ferraz, Alcino Costa, Archimedes Marques e Antônio Vilela; em Piranhas

Aqueles que acompanham com certa constância as informações sobre o universo da pesquisa e estudo da temática cangaço sabem da grande luta travada pelo escritor Alcino Alves Costa para recuperar sua saúde. Nos últimos  anos Alcino vem cotidianamente se submetendo a um conjunto de exames e tratamentos com a bravura de um forte. Homem de fibra, o Caipira de Poço Redondo possui quatro grandes paixões: A família, o Poço Redondo, o Sertão Alegre e o Cangaço.

Alcino Costa é referencia e exemplo para todos nós...

O contato com as coisas do sertão é como o ar que respira

fazenda Angico; palco de sua mais celebrada obra: Mistérios e Mentiras

Por qualquer uma dessas paixões o velho Decano é capaz de tudo, e foi com a vitalidade de um menino, mesmo enfrentando as limitações de  sua enfermidade, que Alcino veio ao encontro da Caravana Cariri Cangaço-GECC; sempre disposto, alegre, falante e principalmente cheio de amor para viver novamente momentos pelos quais dedicou boa parte de sua vida.

Grande amigo e Mestre, Alcino Alves Costa, Decano Caipira de Poço Redondo, mais uma vez você surpreende a todos e nos mostra o quanto é importante acreditar e fazer as coisas com amor e dedicação. Obrigado por ser exemplo e referência para todos nós.

Manoel Severo

Encontro de Gigantes Por:Alcino Alves Costa



Outrora, Poço Redondo era um arruado pertencente ao vasto município de Porto da Folha. Com sua emancipação em 25 de novembro de 1953 quase todas as fazendas nascidas nos escondidos daquelas brenhas caatingueiras passaram a pertencer ao novo município. Dentre elas uma fazenda chamada Pia Nova. Nos idos do cangaço o proprietário da Pia Nova era um caboclo de “boa cepa”, “raiz de braúna”, verdadeira “madeira de lei”, “homem atutanado”, sertanejo de “peso e medida”, chamado Torquato José dos Santos.

Já caindo para a idade seu Torquato cuidava com esmerado carinho e zelo de sua terrinha, de sua família, especialmente de sua numerosa filharada. No meio dela um rapazinho saindo da puberdade, chamado João. Este jovem caboclo carregava orgulhosamente o nome de seu pai junto ao seu nome de batismo. Vindo, com o passar dos anos, a se tornar no célebre João Torquato, o homem que derrotou Corisco, o “Diabo Louro”, na famosa medição de força acontecida na fazenda Queimada de Luís.  


Zé Sereno à esquerda e Mané Moreno à direita 

O sofrimento, dores e provações de João Torquato começaram acontecer naquele entardecer do triste dia 02 de maio de 1937, quando chegou a sua casa um bando de malvados cangaceiros comandados por Zé Sereno e Mané Moreno.Numa atitude injusta e perversa, os cruéis cangaceiros assassinam o velho Torquato e seu genro Firmino. Medonha tragédia que destroçou a vida de João e todos da família. Desatinado com tamanha injustiça, João Torquato só pensava em vingar a morte do papai amado e de seu cunhado Firmino. Só lhe restava uma alternativa. Mesmo sabendo que sua mãe iria acrescentar ainda mais as suas dores e sofrimentos se decidiu por procurar uma das “forças do governo” que combatiam Lampião e nela se engajar. Só assim teria oportunidade de caçar e se vingar dos monstros que tiraram a vida de seu pai.

Foi o que fez. Procurou a volante comandada pelo famoso Zé Rufino e nela deu início a uma nova e inesperada etapa de sua vida; a vida de caçar cangaceiro. Pouco se demora sob o comando de Zé Rufino. O seu destino é a volante do temido Antônio Recruta, onde perseguiu cangaceiro por longo tempo. Nesta volante, João Torquato participou de vários confrontos com os cangaceiros. 


Um deles, no entanto, se tornou célebre. Aquele em que sozinho enfrentou a cabroeira de Corisco, baleando-o e tirando a vida dos cangaceiros Guerreiro e Roxinho.

Como se sabe Corisco, após a morte de Lampião, ficou “atuleimado” e “atarantado” da cabeça, sem tino e sem razão. Ensandecido, cometeu diversas atrocidades, dentre elas as monstruosas execuções e degolamento de Domingos Ventura e mais cinco pessoas da família do vaqueiro da fazenda Patos, nas Alagoas, e como requinte final, após cortar as cabeças de suas desventuradas vítimas, as enviou para a cidade de Piranhas, aonde foram entregues ao prefeito João Correia Britto. O mesmo acontecendo, já em Sergipe, na fazenda Chafardona, em Monte Alegre de Sergipe, quando em mais um ato brutal assassinou Sinhozinho de Néu Militão, cortou a sua cabeça colocando-a em uma gamela e a enviando para o então povoado de Monte Alegre, por um rapaz chamado Santo e entregá-la ao cabo Nicolau que ali destacava.


Corisco

Foi logo após esse crime que Corisco se deslocou até as caatingas da linha divisória entre Sergipe e Bahia.  Existem duas versões sobre o local em que aconteceu o extraordinário combate travado por João Torquato e Corisco.
O notável historiador Antônio Amaury, em seu livro “Gente de Lampião: Dadá e Corisco”, no capítulo “Agonia do cangaço”, páginas 113, 114 e 115, seguindo as acreditáveis informações de Dadá, diz que este confronto entre Corisco e João Torquato, aconteceu na fazenda “Lagoa da Serra”, residência do coiteiro Geraldo. Ocorre que João Torquato afirmava convicto que o seu embate com Corisco se deu em uma fazendinha abandonada chamada “Queimada de Luís”. Está em muitos livros a história deste confronto. Como se sabe o cangaceiro Guerreiro foi morto pelas balas do fuzil de João Torquato quando caminhava ao lado de Dadá e Roxinho pela malhada da fazendinha.

Imaginando que Guerreiro fosse Corisco, João Torquato faz pontaria em seu corpanzil e dispara a sua mortífera arma. O bandido tomba gravemente ferido. Não é Corisco é o cangaceiro Guerreiro. Corisco e os que lhe acompanhavam pensaram ser uma volante. A cabroeira corre e se ampara no paredão de um tanque. Prepara-se para enfrentar os agressores. Assim pensando, Corisco grita raivoso: “Macacos covardes! Venham! Vamu brigar. Vocês tão pegados é com Corisco” - jamais poderia imaginar que estava sendo atacado apenas por um soldado.

João se surpreendeu ao ouvir aquela possante voz. Pensava que o bandido que havia derrubado na malhada da fazenda fosse justamente Corisco, mas estava enganado. Os cangaceiros estão amparados no paredão do tanque. No outro lado do paredão está João Torquato que os enfrenta como desmedida coragem. Troca tiros com os bandidos. De repente divisa um cangaceiro que como se fosse uma cobra – e cobra ele era – se arrasta cautelosamente a sua procura. Sem perda de tempo o “contratado” dispara seu fuzil e o assecla despenca, rolando em sua direção. O “cabra” é muito jovem. Mais parece um menino. É Roxinho, o mesmo que estava ao lado de Guerreiro e Dadá na malhada da fazenda.


Grupo de Corisco

O menino é valente. Tenta pegar a sua arma que havia escapado de suas mãos. Não consegue. João Torquato com o coice de seu fuzil esbagaça a sua cabeça.Temendo o cerco da volante, assim imaginava Corisco, o mesmo e sua Dadá deixam o paredão do tanque e procuram a proteção da caatinga. João Torquato grita para o “Diabo Louro”:


 “Tá correndo covarde? Num diz que é valente, cabra frouxo. Num corra! Vamu brigar”.         

O famoso alagoano escuta as palavras desafiadoras do soldado. É um valente. Vira-se para enfrentar a volante. Surpreso se depara apenas com um inimigo. Cadê os outros? Fica a se indagar por segundos. É a sua perdição. João Torquato aproveita aquela momentânea indecisão e dispara a sua arma. Naquele dia o filho de seu Torquato estava totalmente protegido pela sorte. Uma bala atingiu justamente os dois braços de Corisco deixando-o fora de combate.

O balaço fez com que o fuzil do companheiro de Dadá caísse por terra. Sem forças para segurá-lo o cangaceiro se desespera e procura se proteger na mataria. Percebendo a situação do famoso bandoleiro, João Torquato grita desafiador: “Não corra covarde. Espere pra morrer”. Mesmo com os braços destroçados Corisco pára. Mostra o quanto é valente. Sabe que irá morrer, mas morrerá como um verdadeiro homem. João Torquato aponta-lhe a sua mortífera arma. Será o fim de um dos mais famosos companheiros de Lampião.


Dadá e Corisco

É neste instante tão decisivo que entra em cena a figura de Dadá. Sem temer o inimigo o enfrenta com inusitada coragem. Nele atira, fazendo-o desviar a sua atenção em Corisco e ter que trocar tiros com ela. Dadá não pára de atirar. Atira no feroz inimigo e empurra Corisco na direção de uma baixada protetora ali nas proximidades. As balas de sua arma se acabam. Eis que numa atitude gigantesca e inesperada, a companheira de Corisco o defende jogando pedras em João Torquato, o homem dos olhos grandes e “abotecados” como ela dizia.

Continua empurrando o companheiro. Escorrega e cai. O vingador da morte do pai sorriu. Apontou-lhe o seu fuzil. Iria matá-la sem piedade. Errou o alvo. Com raiva se prepara para o segundo tiro. Percebe então que a sua arma estava sem munição. Enfia uma das mãos no bornal. Tem que recarregar rapidamente o seu fuzil. Ao retirar a mão do bornal com as balas o nunca esperado aconteceu. Seus companheiros vinham chegando e sem medir as consequências atiraram justamente em João Torquato ferindo-o na mão que ele segurava as balas.Os pedidos que naquela agonia Dadá rogava a Nossa Senhora foram atendidos. Na confusão que reinou no meio dos da volante, Corisco e sua valente companheira conseguiram se salvar. Como se sabe, Corisco deixou esse mundo no dia 25 de maio de 1940, assassinado pelas armas de Zé Rufino. Baleada, Dadá teve a sua perna amputada.

João Torquato deixou à volante e retornou a sua amada Pia Nova, onde viveu até o final de seus dias.Em 1958 vamos encontrá-lo ao lado de Zé de Julião. Havia se tornado um de seus fiéis aliados, naquela famosa disputa política entre o antigo cangaceiro Cajazeira e o seu oponente Artur Moreira de Sá, quando os dois eram candidatos a prefeito de Poço Redondo.


Desesperado com a monstruosa perseguição que lhe movia o governador do Estado, Zé de Julião roubou a urna no dia da eleição, ou seja, em 03 de outubro de 1958, e João Torquato ali estava de arma em punho, pronto para matar ou morrer defendendo um dos antigos “cabras” de Lampião, cangaceiros que ele tanto odiava. Para conhecer mais detalhes sobre essa história de sofrimento do povo sertanejo de Poço Redondo, em especial da família Torquato, leia-se os capítulos “Combate da Arara – morte de Zepelim”, página 249; “Os cangaceiros se vingam e matam Torquato e Firmino”, página 259; “A traição se consuma”, página 261; “Um milagre salva a volante”, página 265; e “A vingança de João Torquato, o filho de Torquato e o tiroteio com Corisco”, página 273, da terceira edição do livro “Lampião além da versão – mentiras e mistérios de Angico”, que se encontra a venda com Pereira, em Cajazeira, na Paraíba.

Alcino Alves Costa, o Decano
Caipira de Poço Redondo
Sócio da SBEC, Conselheiro Cariri Cangaço


Alcino estará presente na Caravana Cariri Cangaço-GECC, Desafio de Carnaval.

Existia amor no Cangaço ? Por: Alcino Alves Costa

Alcino Alves Costa

Na verdade o viver cangaceiro, especialmente da mulher, seria mais correto dizer - da menina-moça – aquelas juvenis sertanejas, que num instante de total infelicidade deixou a sua humilde, porém aconchegante residência, abandonando seu lar, deixando seus pais na mais completa agonia e desespero, para seguir a triste vida bandoleira, todas elas inebriadas pela ilusão do cangaço, é um capítulo extraordinário na história cangaceira.

Por que a caboclinha dos cafundós das caatingas, sem nenhum traquejo e nenhuma experiência de vida, se bandeou para o cangaço? Qual foi essa ilusão? Segundo informações abalizadas e confiáveis de um dos grandes rastejadores de cangaceiros, o nosso Aderbal Nogueira, levado por suas diversas e proveitosas entrevistas, gravadas em vídeos, de um número elevado de cangaceiros e cangaceiras, elas atestam com convicção que essa decisão, segundo informes de Sila, Adília e Aristéia não significava a existência de amor entre os cangaceiros e suas parceiras e sim “A ILUSÃO DO CANGAÇO”. Respeito profundamente o trabalho meticuloso e confiável deste querido vaqueiro da história. Aderbal nasceu com o estigma da decência e da dignidade. No entanto, não concordo em nosso companheiro generalizar os casais cangaceiros afirmando que não existia amor entre o homem e a mulher que vivia a vida errante e sofredora do cangaço.

Adília e Sila, em plena caatinga

É certo que Adília dizia de seu sofrimento em relação ao seu viver ao lado de Canário, um homem, segundo as suas palavras, extremamente ciumento, tendo um ciúme doentio de Juriti, portanto a sua vida na companhia de Rocha se tornou um inferno. Mas, é bom que se esclareça que Adília era namorada de Canário bem antes dele ir ser cangaceiro e ela o acompanhou de sua livre e espontânea vontade. Qual o motivo de seu ingresso no cangaço? “ILUSÃO DO CANGAÇO” ou amor?

Quanto a Sila, uma mocinha admirada em Poço Redondo, tida e havida como a melhor dançarina nos bailes e forrós; vivendo na casa de seus padrinhos China e Mariêta, ao lado das filhas deste ilustre casal de Poço Redondo, Dosa e Tila, não tinha nenhuma necessidade de ir para o cangaço para ficar ao lado de Zé Sereno que nem sequer foi seu namorado. Zé Sereno não obrigou ela acompanhá-lo, ela foi porque quis e, esta sim, talvez, pela “ILUSÃO DO CANGAÇO”.

Estes exemplos não significam que não existia amor no cangaço. Existia sim senhor. Existia amor em sua maior profundidade. Eis alguns exemplos: No Congresso sobre o cangaço que aconteceu em Brasília em uma conversa que eu tive com Durvinha, e ela estava ao lado de Moreno, ela me disse toda emocionada que o homem da vida dela, aquele que realmente ela havia amado, teria sido Virgínio. Lembro-me que Moreno balançou a cabeça e disse: “Esse era um homi de verdade”.

Moreno e Durvinha

Em seus inúmeros depoimentos Dadá fazia questão de mostrar ao mundo o seu imenso amor por Corisco, apesar dela ter sido inicialmente estuprada por ele. Zé de Julião, o cangaceiro Cajazeira e sua bela Enedina sentiam um pelo outro um amor profundo. Rosinha, a companheira de Mariano amava loucamente o seu homem. Após a morte de seu companheiro no Cangaleixo, pela volante de Zé Rufino, Rosinha só tinha um desejo na vida: deixar o cangaço e retornar ao seio de sua família e receber o carinho e o amor de seus pais. No entanto, este desejo não foi alcançado em virtude de ter sido assassinada a mando de Lampião que não aceitava a saída de cangaceiro ou cangaceira de seu bando.

Luís Pedro e Neném se amavam profundamente. Após a morte de Neném na fazenda Mocambo, em Sergipe, o seu companheiro que tanto a amava caiu em um desespero total. Em que pese as loucas e ensandecidas versões dando conta de que Maria Bonita traía Lampião, a cristalina verdade era que Maria Bonita amava com todas as forças de seu sentimento o seu notável companheiro.

É evidente que com o passar dos dias, meses e anos, alguns casais, especialmente as mulheres deixaram de amar, ou talvez, desejar o seu homem e dominadas pela volúpia do sexo se apaixonaram e desejaram outros homens, caso de Lídia, a baianinha do Raso da Catarina, que se apaixonou pelo cangaceiro Bem-te-vi, tendo com ele vários encontros amorosos, até ser flagrada pelo “cabra” Coqueiro e assassinada a pauladas por Zé Baiano.

Inacinha

Maria de Pancada era uma mulher de desejos sexuais irrefreáveis, daquelas que um homem não conseguia saciá-la. Portanto, não estava no cangaço apenas pela “ILUSÃO DO CANGAÇO”, mas também para cumprir o seu desejo louco de fazer sexo. A cangaceira Lili também carregou em sua vida a sina do sexo. Após ser companheira de Lavandeira e de Mané Moreno, a caboclinha do Juá, lá na vastidão do Raso da Catarina, se acamaradou com o temido cangaceiro Moita Braba. Mesmo assim, sabendo que seu companheiro era portador de uma periculosidade extremada, Lili não temeu em coabitar com o cangaceiro Pó-Corante. Eis que um dia ao retornar de mais uma razia, ao chegar ao coito, Moita Braba encontrou a sua Lili nos braços de Pó-Corante. O desalmado cangaceiro não pestanejou, puxou sua arma e disparou vários tiros em sua infeliz e traidora companheira, matando-a instantaneamente.

A infidelidade dessas cangaceiras, incluindo também Cristina de Português, e talvez Dulce que traiu Criança após os dois deixarem o cangaço, não significa que não existisse amor entre as outras cangaceiras. Dentro de um universo de pouco mais, pouco menos de 30 mocinhas que seguiram os bandos cangaceiros, apenas essas citadas não respeitaram e traíram os seus companheiros. Todavia, não se tem nenhuma dúvida de que as mocinhas, quase que em sua totalidade, que se jogaram nos braços dos cangaceiros, elas foram por amor e continuaram amando os seus homens.       
Quem conhece a história desses casais que embelezaram e humanizaram o cangaço, tem que reconhecer que existia amor e muito amor na vida cangaceira.

Saudações cangaceiras,

Alcino Alves Costa, o Decano
O Caipira de Poço Redondo
Sócio da SBEC e Conselheiro Cariri Cangaço