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Porque Santinha? Por:Sabino Bassetti

Sabino Bassetti

Já a vários anos, diversos pesquisadores, historiadores e, principalmente a imprensa escrita, falada e televisada, vem chamando Maria Bonita por SANTINHA. Aqueles que realmente pesquisaram o assunto, sabem que isso não é verdade. O pesquisador Antonio Amaury, com certeza foi o estudioso no assunto que conversou com o maior número de ex cangaceiros, chegando o total por volta de 38 criaturas. Todos eles quando perguntados, disseram que jamais ouviram  qualquer pessoa chamar Maria por esse apelido. Disseram que Maria Bonita era chamada  por  Lampião, e por aqueles elementos mais chegados, simplesmente por MARIA. Que quando alguém da cabroeira se dirigia a ela a chamavam por D. MARIA, e quando se referiam a ela a chamavam por MARIA DO CAPITÃO. Quando dos acontecimentos de Angico que culminou com a morte de onze cangaceiros, foi encontrado num dos dedos de Maria, um pequeno anel que trazia gravado o nome SANTINHA. Isso não quer dizer que ela era chamada por esse vulgo, pois,  esse anel pode ter sido presente de pessoa amiga ou provavelmente  foi tomado de alguém, porém, foi o suficiente para que muitos entendessem que ela assim era chamada. Se na realidade Maria fosse chamada por Santinha, certamente aqueles que conviveram com ela no cangaço teriam tomado conhecimento. 
 
Abraço a todos.
 
Sabino Bassetti
Salto - SP

O Curioso mundo da moda...

Editorial: A Rainha do Cangaço

POR JULIA SALGUEIRO
Inspirada no sertão nordestino, a marca pernambucana 2 Primas apresenta A Rainha do Cangaço. O tricoline 100% algodão, a malha de algodão orgânico, a sarja com elastano (algodão) e 100% seda pura tingidos naturalmente a partir da botânica brasileira, inspiram texturas e até ilusão de ótica que remete à camurça, preservando o requinte da estação.
Maria Bonita, musa inspiradora, traduz o estilo da mulher guerreira, forte e determinada sob o olhar do cotidiano da mulher contemporânea, com o tempo completamente preenchido por atividades que exigem a criatividade para estar bem vestida em período integral, sem deixar de lado o romantismo.
O resultado são vestidos, saias, macacão, camisas e calças, tudo com uma pitada de originalidade nos detalhes que fazem a diferença nas mangas e nos bolsos, além de plissas e dos cortes geométricos das próprias peças. A referência às cartucheiras utilizadas pelo cangaço é outra particularidade que reserva a autenticidade.
Editorial: A Rainha do Cangaço
Fotos: Ronald Luv | Styling: Nestor Mádenes | Beleza: Téo Miranda | Modelo: Nayara Berenguer | Editoria: Julia Salgueiro | Edição e Arte: Raul Nigro
A marca 2 Primas, comandada por Patrícia Brito e Mayara Pimentel, é pioneira em Pernambuco a propagar o Lohas (“Estilos de Vida de Saúde e Sustentabilidade“, na sigla em inglês), que significa adotar parâmetros de produção de baixo impacto ambientale de responsabilidade social. Além da escolha de tecidos a partir de recursosecologicamente corretos e que enfatizam a durabilidade, também adotou o uso detingimento natural da botânica brasileira e a produção em parceria com cooperativas de mulheres da comunidade.
2 Primas – Celebre sua Beleza mais Consciente

(81) 3034.3779/ 9793.4224/ 9793.4241

contato@duasprimas.com
Av. Marechal Juarez Távora, 440/ loja 6
Galeria Siena Center, Setúbal. Recife – PE.

Agradecimentos a Patrícia Brito, Mayara Pimentel e Ariella Dias.

NOTA CARIRI CANGAÇO:  Navegando neste universo imensurável que é a rede mundial de computadores, nos deparamos com esse Editorial de Moda, com nossa Rainha do Cangaço como Musa inspiradora. Achamos incrivelmente belo e de um talento e sensibilidades incríveis, daí pensei em trazer a este blog e mostrar um pouco dessa arte aos amigos da família Cariri Cangaço; abraços a todos, Micheline Garcia: Assessoria de Mídias Digitais.

Maria Bonita: a mulher e o nome Parte II Por:Frederico Pernambucano de Mello

Getúlio Vargas

O Estado Novo, de Getúlio Vargas, estava determinado a eliminar todos os “estadualismos anacrônicos” ainda ativos na periferia do Brasil. Os focos derradeiros de insurgência coletiva ligados ao mágico e ao heroico popular, a que a ditadura Vargas satanizava por igual, sob as denominações oficiais de “fanatismo” e de “banditismo”. Um ano antes, o melhor jornal do Nordeste no período, o Diário de Pernambuco, deixava patente esse luxo fora da lei, publicando foto de Maria Bonita em composição digna de François Boucher, sentada elegantemente em clareira da caatinga, vestido de domingo em linho azul claro pincelado de riscas – um tenue de ville, como requintou o repórter - cabelos assentados em “pastinha”, presos por broches de ouro, várias voltas ao pescoço do mesmo metal, tendo ao pé os cachorros famosos do marido, Guarani e Ligeiro, tudo sob a manchete explosiva: “Maria do Capitão – a Madame Pompadour do Cangaço”.

Não teria ido além dos 27 anos de vida a mais famosa vivandeira do Brasil, a quem a história acendeu uma vela no dia 8 de março último, julgando assinalar os cem anos de seu nascimento. Acendeu por engano, ao que se constata no momento, a data festejada parecendo não ser a verdadeira. No vazio de registro escrito, que persistiu até meses atrás, esse 8 de março teria prosperado com base no testemunho de parentes, fonte reconhecidamente precária quando se trata de datas. Para não falar do caráter confuso e pouco explicado desse testemunho. Contra o qual se insurge agora o resultado de levantamento feito há pouco no arquivo da Diocese de Jeremoabo, Bahia, pelo sociólogo Voldi Ribeiro, auxiliado pelo padre Celso Anunciação, que deu como resultado a descoberta do batistério da cangaceira-mor. Documento que a torna mais velha em pouco mais de um ano, vez que nascida aos 17 de janeiro de 1910, ao que reza o papel da sacristia amarelecido pelo tempo. Teria morrido, assim, com 28 anos e seis meses de idade, naquele 28 de julho de 1938, para os que apreciam as exatidões. E conseguido negar um pouquinho de idade para o marido famoso, como toda mulher que se preza...

Sociólogo Voldi Ribeiro e a nova data de nascimento da Maria mais famosa do sertão.

O pouco que se sabe de Maria Gomes Oliveira está aí. Resta a pergunta: e o apelido Maria Bonita - que engoliu inteiramente o nome de batismo e apelidos anteriores  nos meses finais da existência truncada - de onde teria vindo? Quem responde, afinal, pela cunhagem do cognome gigantesco, cada vez mais divulgado tanto nas letras científicas quanto nos escritos de arte, além de encerrar apelo poético à flor da pele?

É certo que a sujeição completa do nome pelo apelido se dá ainda em vida da Rainha do Cangaço, de maneira a não haver lugar para o Maria Gomes Oliveira, ou mesmo para cognomes anteriores, como Maria de Dona Déa, ou Maria de Déa de Zé Felipe, ou Maria do Capitão,  quando sobrevém a morte desta em 1938. A imprensa em peso, os jornais da região e do Sudeste, as agências de notícias de maior influência sobre a opinião pública do período, a exemplo da Nacional, da Meridional e da Estado, ignoram, em coro, o nome real em benefício do apelido sonoro que se impusera como um raio em apenas poucos meses. Um fenômeno de comunicação a ser compreendido. Vamos examiná-lo.

Para que não reste dúvida sobre a absorção repentina das designações anteriores pelo novo apelido, oferecemos abaixo a transcrição literal do telegrama histórico do tenente João Bezerra da Silva, o vitorioso do combate do Angico, dirigido ao coronel Teodoreto Camargo do Nascimento, comandante-geral do Regimento Policial Militar do Estado de Alagoas, e passado no mesmo dia do acontecimento extraordinário, não custa repetir, 28 de julho de 1938, em que o apelido Maria Bonita brilha isolado, com a suficiência das denominações já consagradas:  
                     
                Piranhas -  n.  31  –   Pls.  81  –  Data   28  –  Hora  14  
                Cmte Teodoreto – Maceió
                Rejubilado vitória nossa força vg cumpre-me cientificar
                vossoria que hoje vg  conjuntamente volantes aspirante
                Ferreira  sargento Aniceto  vg  cercamos  Lampeão  no
                lugar  Angico no Estado Sergipe  vg o  tiroteio resultou
                morte nove bandidos duas bandidas inclusive Lampeão
                vg  Angelo Roque  vg  Luiz Pedro  vg  Maria Bonita  vg
                os quais  foram reconhecidos pt  Da volante   aspirante
                Ferreira  houve  baixa um  soldado  saindo outro ferido
                pt Tambem  me  encontro ferido pt  Saudações  Tenente
                João Bezerra – comte volante

Não é outro o emprego que vamos encontrar no folheto A morte de Lampeão, de João Martins de Athayde, escrito em cima do acontecimento e vendido às grosas para todo o Nordeste, segundo nos revelou o antropólogo Valdemar Valente, frequentador da oficinazinha acanhada do poeta, nos estreitos da Rua Velha. Vejamos dois dos versos com que Athayde faz a crônica, a bem dizer instantânea, da morte da companheira de Lampião:

                                      A tal Maria Bonita,
                                      Amante de Lampião,
                                      Sua cabeça está inteira,
                                      Mostrando grande inchação,
                                      Mas assim mesmo se via,
                                      Uns traços da simpatia
                                      Da cabocla do sertão.

                                      Morreu Maria Bonita:
                                      Que Deus tenha compaixão,
                                      Perdoando os grandes crimes
                                      Que ela fez pelo sertão,
                                      Nos livre de outra desdita,
                                      Que outra Maria Bonita
                                      Não surja mais neste chão.

Vamos finalmente à revelação sobre a origem do apelido, em que o mérito da descoberta fica todo para o acaso, ao historiador se reservando somente o exame rigoroso da informação oral recebida, segundo a praxe da disciplina. Conversando em 1983 com o jornalista Ivanildo Souto Cunha, muito relacionado no Recife da época e homem sempre disposto a ajudar os amigos, ouvimos dele que era sobrinho do também jornalista e escritor  Melchiades da Rocha, natural de Sertãozinho, hoje Major Isidoro, no Estado de Alagoas. E que este, bem acima dos oitenta anos de idade, morava no Rio de Janeiro,  pouco saindo do apartamento que tinha no Flamengo, por ter a esposa perdido a vista.

Jornalista Melchiades da Rocha ao lado de Noratinho, da volante do fatídico cerco a Angico

Ao longo dos anos 30, Melchiades tinha sido um dos bons repórteres investigativos do jornal A Noite e da excelente revista semanal conexa a este, A Noite Ilustrada, do Rio de Janeiro, veículos de uma empresa de prestígio em todo o continente, que se manteve pujante até ser encampada pela ditadura de Getúlio Vargas, o chamado Estado Novo, em 1940, sob a alegação cavilosa de que o governo precisava de um jornal na situação de guerra que se abria na Europa.

Cortando a história para o que nos interessa, esclarecemos que Melchiades foi o primeiro repórter da grande imprensa brasileira a chegar à grota do Angico naquele final de julho de 1938, poucos dias passados apenas da morte de Lampião. Cadáveres ainda insepultos no leito de pedras do riacho do Ouro Fino, enegrecidos por um tapete de urubus ocupadíssimos. A viagem aérea, feita no trimotor Tupã, do Condor Syndicat alemão, se cumprira em dezesseis horas, computadas as escalas entre o Rio de Janeiro e Maceió. Com o que juntou na aventura de 1938, e mais o fundo de recordações sertanejas que tinha tido o cuidado de manter vivas desde quando deixara a terra natal em anos verdes, Melchiades publicou um livro muito interessante dois anos depois, a que deu o título de Bandoleiros das caatingas, no gênero que Danton Jobim viria a batizar de “reportagem retrospectiva”.

Era esse homem baixinho, animado como um esquilo, que tínhamos diante de nós naquele começo de manhã da primavera carioca de 1983. Uma fonte de primeira ordem, a se confirmar pela meticulosidade do conhecimento especializado que despejou sem parar na primeira hora de conversa. De monólogo, para ser preciso, em que aprendemos muito.


Num dado momento, levanta-se depressa, vai ao quarto e volta com uma fotografia do que poderíamos chamar de salão da grota do Angico, onde ficava a barraca do chefe e de sua mulher, debaixo de uma craibeira que não existe mais. No meio da cena, caída de barriga no chão e já sem a cabeça, cortada antes mesmo de se extinguir inteiramente o combate, aparecia o cadáver de Maria Bonita, metido em vestido bem curto.

“Está vendo, Frederico, mandei fazer essa chapa para mostrar o quanto ela era bem-feita, mesmo tendo seios pequenos e nádega um pouco batida”, agitou-se o velho jornalista, devolvido à emoção de quase sessenta anos passados. Foi quando respirou fundo e lançou a pergunta: “Você sabe como apareceu esse apelido Maria Bonita?”. E emendou, diante do nosso queixo caído: “Não apareceu no sertão, não. Foi coisa de repórteres daqui do Rio de Janeiro, mesmo. Eu  estava entre eles”. Um romance de sucesso, do começo do século, requentado em filme de longa-metragem lançado poucos meses antes do desmantelamento do bando de Lampião, eis a origem de tudo, corria a explicar.

Começava a ser revelado o mistério de tantos anos. Esclarecido principalmente o fenômeno de comunicação que impusera o apelido aos meios jornalísticos de modo completo e em apenas poucos dias. Um conluio tácito entre jornalistas jovens, sem propósito definido, salvo o de simplificar a informação nas redações, a vincular algumas das cabeças mais ativas da imprensa brasileira do período, nucleada no Rio de Janeiro. De volta ao Recife, cuidamos de examinar as pistas deixadas por Melchiades.

Afrânio Peixoto


O romance Maria Bonita, aparecido em 1914, reforçara a fama repentina do baiano Júlio Afrânio Peixoto, tornando-o conhecido nacionalmente. Era de Lençóis, na região das Lavras Diamantinas, do ano de 1876, vindo a se criar em Canavieiras, às margens do rio Pardo. Em Salvador, muito cedo Afrânio Peixoto se fizera médico, romancista, dramaturgo,  ensaísta, historiador,  professor, crítico literário, chegando a deputado federal por seu Estado. Morava no Rio de Janeiro desde a virada do século XIX para o XX, onde a Academia Brasileira de Letras irá buscá-lo  para fazer dele nada menos que o sucessor de Euclides da Cunha na cadeira de número sete, no ano de 1910.

Homem requintado no que escreveu, para bem compor o romance de estreia, A Esfinge, lançado em 1911, sentira a necessidade de conhecer pessoalmente o Egito, demorando-se  ali por semanas, sem perder a oportunidade de um olhar de estudos sobre os altos e baixos da Grécia. Ao morrer, em 1947, deixando obra extensa nas letras artísticas e científicas, o romance que nos interessa aqui, o Maria Bonita, tinha merecido ao menos oito edições oficiais ao longo de quatro décadas. E Maria Bonita dera nome a muita mocinha registrada em cartório no começo do século passado.



Bornal  e vestido que pertenciam a Rainha do Cangaço, tomado por morte, em 1938 - da  coleção pessoal do autor.

Como produção simbolista, a história da matutinha emigrada com a família dos sertões secos de Condeúbas para os brejos de Canavieiras consegue chegar aos anos 30 e 40 com apelo de leitura, depois de sobreviver às bordoadas da crítica moderna do meado dos anos 20. Não surpreende. Para além dos elementos regionais plantados meticulosamente na trama, a essência do romance nos põe diante de alguma coisa muito maior, resultante da transposição para o interior do Nordeste do mito universal da Helena de Troia. A mulher pura de pensamento e de conduta, que padece pela vida afora o ônus de uma beleza que enlouquece os homens, sem conseguir evitar que as maiores desgraças se abatam sobre as pessoas que lhe são mais caras.

A povoação do Jacarandá, entregue à vida simples do trato do cacau, da piaçava e dos diamantes, sendo  arrastada pelo destino de tragédia da Maria Bonita de Afrânio Peixoto, e findando por ser destruída ao modo de uma Troia cabocla fiel ao destino da original, pintada por Homero em alguns dos cantos mais inspirados da  Ilíada. 

Está aí a história de Maria Gonçalves, a Maria Bonita da ficção brasileira, que findaria por batizar a outra Maria, a Gomes Oliveira, a Maria real da tragédia do cangaço. Para o que há de ter conspirado o retorno do nome à evidência, na circunstância do lançamento ruidoso da versão cinematográfica do livro, ocorrida em agosto de 1937, no Cinema Palácio, na Cinelândia, coração artístico do Rio de Janeiro à época.

Desde o mês de janeiro, a imprensa alimentava a curiosidade do público com flashes sucessivos a respeito do longa-metragem. Ao longo do ano, a nossa melhor revista especializada, a Cinearte, do Rio de Janeiro, traria matérias em cada uma de suas edições mensais, cobrindo os acontecimentos de antes e depois do lançamento. Fechada a ficha técnica, apressara-se em trazê-la ao público, nomeando o produtor, André Guiomard; o diretor, o fotógrafo de cinema francês Julien Mandel, assistido pelo pernambucano José Carlos Burle; o sonorizador, Moacir Fenelon; os dois galãs, Vítor Macedo e Plínio Monteiro; os atores Henrique Batista, Lila Olive, Júlio Zauro, Marques Filho, Ricardino Farias, Mário Gomes, Sérgio Schnoor, dentre outros; os dois compositores e cantores, ambos nordestinos, Augusto Calheiros, o Patativa do Norte, e Manezinho Araújo, o Rei da Embolada, trazendo para a película o prestígio de que desfrutavam no rádio. Por fim, a atriz do papel-título, a Maria Bonita do cinema, Eliana Angel, pseudônimo de Suely Bello.

Resta dizer que o projeto do filme sobre o romance de Afrânio Peixoto fora registrado, ainda nos anos 20, por certa Brazilian Southern Cross Productions, de Hollywood, com quem os realizadores de 1937 se entenderam, e que as locações foram feitas em Barra Mansa, Rio de Janeiro.Está aí o modo como foi batizada para a história a mulher de guerra mais representada simbolicamente pelo povo brasileiro até hoje. Ao contrário do que se deu com o vulgo de seu companheiro, o Lampião gigantesco, que parte da cultura popular sertaneja para ganhar o mundo, o apelido Maria Bonita nasce da cultura urbana, erudita e consagrada das academias - se bem que do esforço incessante destas por sintonizar com o Brasil em estado puro das periferias regionais – para somente depois invadir o sertão, já ganha a batalha pela opinião pública do Sudeste. Uma engenhosa viagem de volta que se cumpre, além de tudo, ao feitio do paradoxo que tanto encantava Oscar Wilde: a vida imitando a arte

Frederico Pernambucano de Mello
Historiador, Academia Pernambucana de Letras
Palestra lida no Museu do Estado de Pernambuco, Recife, a 14 de dezembro de 2011

NOTA CARIRI CANGAÇO: Gostaríamos de dizer de nossa felicidade em contar com a presença do pesquisador e historiador Frederico Pernambucano de Mello, em nossa página do cariricangaco.com ; sua gentileza em nos encaminhar a presente matéria como também algumas das fotografias que a ilustram são motivo de satisfação à toda familia Cariri Cangaço.

Maria Bonita: a mulher e o nome Parte I Por:Frederico Pernambucano de Mello



Em agosto de 1928, fechando a cortina sobre ciclo de correrias que ocupara uma década inteira, todo ele desenvolvido nas porções rurais de cinco Estados do Nordeste situados ao norte do rio São Francisco, Lampião invade a Bahia. Bando reduzido em face de perseguição sistemática movida nos três anos derradeiros por forças volantes do seu Pernambuco de berço, ao menos por um tempo, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Alagoas e o próprio Pernambuco irão respirar a salvo daquele exército de chapéu de couro que transitava a cavalo pela estrada real, não por veredas, muito bem armado de fuzis e mosquetões militares de último modelo, ordens transmitidas ao toque de clarim, efetivo beirando os duzentos homens.


Para os baianos do nordeste do Estado e, logo depois, para os sergipanos da fronteira, o forasteiro não era um desconhecido. A fama atravessara o rio havia alguns anos. Uma fantasmagoria só, no juízo do barranqueiro do rio e do residente do miolo da caatinga, o perfil daquele caboclo alto, seco, acorcundado ao peso dos bornais, cego do olho direito, óculos de professor no rosto estreito, a se deslocar em movimento de pêndulo acentuado, por ter de sacudir o pé – também o direito - baleado nos longes de 1924, moedas de ouro faiscando ao sol, costuradas por todo o equipamento. Uma figura inesquecível ao primeiro encontro, até por conta da mistura forte de perfume francês com o suor de muitos dias...


A poesia de gesta, cantada nas feiras pelo repentista, viola ao peito, ou pelo cego rabequeiro de ponta de rua, rivalizando com o folheto de cordel cuspido da prensa oportunista do poeta letrado, havia muito fizera de Lampião uma celebridade para além do sertão e do Nordeste: desde 1926, os jornais do Rio de Janeiro se ocupavam das  façanhas do bando em registros recorrentes. Como irá fazer o The New York Times entre os anos de 1930 e 1938. Outro tanto ficando para o semanário Paris-Soir.


Frederico Pernambucano de Mello

Passados meses da travessia, meava o ano de 1929 quando o bando chega num final de tarde à sitioca da Malhada da Caiçara, vindo de mais uma visita de negócios a coiteiros protetores no Sítio do Tará, tudo do município de Jeremoabo, nos sertões da Bahia. Apressado, o chefe risca a burra de sela no terreiro da casa, levantando poeira, apeia e manda a cabroeira botar abaixo para um descanso. Como não costumasse andar à toa, já estava informado de que o casal Zé de Felipe e Maria de Déa - como eram conhecidos José Gomes Oliveira e Maria Joaquina da Conceição - residia ali em meio a uma filharada que se contava pelos dedos de ambas as mãos. Costume da terra e do tempo. Pela parte de cima da porta de duas folhas, Dona Déa vê o forasteiro crescer à sua frente e lhe dar as horas, emendando com perguntas apressadas: “Tem água, tem queijo, tem farinha, tem rapadura, tem café?”

- Tem de um tudo, Seu Capitão Virgulino, pode tomar chegada. Esteja a gosto com seus rapazes.

Lampião tomará não somente chegada como saída, dali a dois meses de muitas visitas e de conversas intermináveis com uma Dona Déa metida na pele de alcoviteira eficiente, levando na garupa a segunda das filhas do casal, Maria, de sobrenome Gomes  Oliveira, nos dezoito anos de brejeirice, casada de pouco, sem sucesso, com parente obscuro, José Miguel da Silva, o Zé de Neném. Um sapateiro de profissão, incapaz de cair na admiração da esposa, e de dar calor àquele corpo alvo, de formas cheias, pernas torneadas com perfeição, cabelos castanhos, finos e longos, testa alta, nariz afilado. Bonita, divertida – adorava dançar – e prendada: boa na agulha e nas linhas.

Da primeira troca de palavras com o cangaceiro e futuro marido, Maria ouve deste que precisava bordar três lenços. E se surpreende com a delicadeza de espírito daquele espantalho dos sertões. Logo se inteira de que o chefe de cangaço dominava tão bem a arte de matar gente quanto a da costura, em pano e em couro, e a do bordado. Ninguém superava Lampião na máquina Singer de mesa. Um arcaísmo sertanejo, esse da costura em mãos de homem, antes que um traço de efeminação. Boa higiene mental, em todo caso. O dia inteiro a girar o veio da máquina de costura faz esquecer os problemas. As angústias de um cotidiano de violência indissociável da idéia de cangaço. De uma concepção de vida que se baseou invariavelmente na dominação pelo terror. Mas nada impedia o chefe de se fiar nas mãos hábeis de terceiros, andasse avexado, olho no relógio, em meio a alguma missão. Encomendava, nessas horas, especificando com minúcia, e exigia perfeição no resultado, sujeito caprichoso em todas as atividades a que se dedicou na existência de quarenta anos. Alfaiate de couro na adolescência, vaqueiro do gadinho da família, amansador de burro brabo por toda a ribeira do Pajeú, tropeiro pelos quatro cantos do Nordeste, em tudo o Virgulino dos anos verdes deixara nome no sertão.



Maria não se faz de rogada. Toma a encomenda e corresponde no prazo, caindo no agrado do novo amor. Que teve de romper com a tradição do cangaço para aceitá-la no seio do grupo. Rechaçar as recomendações de seu primeiro mestre de guerrilha móvel, o cangaceiro Sinhô Pereira, neto do Barão do Pajeú e nome celebrado nas armas, que não admitia a presença feminina nos bandos. Uma perdição, trovejava do alto de ascetismo tornado proverbial o professor de cangaço de Lampião, no que por anos se alongou em  sentença irrecorrível entre cangaceiros.

Ao ceder à novidade imposta pelo amor, Lampião não apenas dava rumo diferente ao cangaço: sem o saber, perfilava a vida da espingarda, de existência secular na caatinga, na tradição de presença feminina que faz parte da história militar brasileira desde as guerras coloniais. Há registros dessa presença na Primeira Batalha dos Montes Guararapes, de 1648, às mulheres cabendo o “amasso do pão” na cozinha móvel do exército holandês.

Outro tanto na Guerra do Paraguai, de 1864, em que se afirma a saga da vivandeira, cantada em prosa e verso ao final do conflito, por conta do heroísmo de acompanhar o homem amado ao campo de batalha, credenciando-se à gratidão dos nossos Voluntários da Pátria e despertando as lágrimas da opinião pública do Sudeste nos primórdios da afirmação da imprensa periódica em nosso país. O mesmo se pode dizer da Guerra de Canudos, de 1897, nos sertões da Bahia, em que a mulher precisou enrijecer-se em amazona para fazer frente à agressividade da jagunça de arma na mão. A Coluna Prestes arma o cenário seguinte em que a vivandeira abrirá espaço em nossa história - às cotoveladas, como sempre - entortando as normas vigentes à época. Por mais que fizesse – dirá um Luiz Carlos Prestes risonho, em entrevista a Nelson Werneck Sodré cinquenta anos depois – não conseguiria evitar a presença das mulheres na Coluna.

Integrantes da Coluna Prestes

É sabido que o Rei do Cangaço observou atentamente a passagem dos revoltosos de Prestes pelo sertão de Pernambuco, em dias de fevereiro de 1926. Invicta, depois de tantos combates pelo Brasil afora, só um tolo desprezaria as lições que vinham da flor do Exército Brasileiro, que de outro recheio não se integrava a Coluna rebelde. De maneira que as lições de 1926 devem ter vindo à mente do apaixonado de 1929 como um conforto providencial, não é demais supor.

Maria abriu a porteira do cangaço para a entrada de um sem-número de mulheres, algumas rivalizando na fama com a “baianinha” de Lampião. Uma Dadá, de Corisco, por exemplo, das primeiras a chegar - menina de treze anos, como tantas outras - uma Cila, de Zé Sereno, ou ainda a Neném, de Salamanta, o poderoso lugar-tenente do bando.

De 1929 a 1932, nada de jornadear com os maridos: reclusão amena em casa de coiteiros de confiança. Por mais de ano, foi o Raso da Catarina a servir de refúgio - um deserto impenetrável a se perder de vista no nordeste da Bahia - recomendadas a índios quase puros, os pancararés. Raptada por Corisco quase menina, Dadá nos contou ter chegado ao primeiro esconderijo com as bonecas de pano debaixo do braço.

Passados os meses de desmontagem da repressão policial, por conta das revoluções de 1930 e 1932 terem drenado as forças para o litoral, Lampião dá o aviso de que as mulheres teriam que passar a viver em cima das alpercatas, o chapéu por telheiro. A adaptação não se mostra difícil. Andar a pé era a regra no sertão velho, sem poupar as mulheres. E havia compensações. Arejavam-se os cenários. Novos conhecimentos. Alguns destes valiosos, como a convivência com a elite sertaneja, com as esposas e as filhas de coronéis poderosos, chefes políticos de prestígio no governo, cúmplices sem remorso do cangaço. Sócios deste, em muitos casos.

Benjamin Abrahão e o Rei do Cangaço


Da convivência resultará o aprimoramento da estética presente em trajes e equipamentos, beirando o abuso no final da década. E o aburguesamento de maneiras. A máquina de costura, o gramofone, a lanterna elétrica portátil - e logo, sem ter de pedir licença, a filmadora alemã em 35 mm e a câmera fotográfica, pelas mãos do sírio Benjamin Abrahão - chegam ao centro da caatinga, amenizando os esconderijos mais seguros, levados pelos coiteiros. É o tempo dos bailes perfumados a Fleurs d’Amour, da casa Roger & Gallet, ou Atkinsons, da Royal Briar. Do brandy Macieira, do Old Tom Gin e do uísque White Horse, este último, privativo do chefe Lampião, talento reconhecido na logística de um bando a que não costumava faltar coisa alguma.


Há ocasos que se mostram portentosos. O do cangaço foi um destes. Porque, em 1938, tudo aquilo vinha abaixo pelas balas da volante do tenente João Bezerra, na grota do Angico, próxima à margem sergipana do rio São Francisco.
Continua...

Frederico Pernambucano de Mello
Historiador, Academia Pernambucana de Letras
Palestra lida no Museu do Estado de Pernambuco, Recife, a 14 de dezembro de 2011

Qual a origem do nome Maria Bonita ?


Recado de Frederico a Bonessi...
Caro Bonessi, Invoco os seus poderes de comunicador extraordinário, em favor da difusão do convite anexo. O diferencial da palestra é que, nesta, irei revelar a origem do apelido Maria Bonita, segundo colhi do velho jornalista Melchiades da Rocha, em 1983, no Rio de Janeiro, sendo ele o primeiro repórter da grande imprensa brasileira a chegar à grota do Angico em 1938, a serviço do jornal carioca A Noite e da revista A Noite Ilustrada. Agradeço a colaboração.
Abraço cordial

Frederico Pernambucano de Melo

NOTA CARIRI CANGAÇO: Mestre Frederico, tomamos também para nós a missão do companheiro Bonessi, grande abraço de respeito e carinho.


A Maria Bonita de Dalinha Catunda.

.
Dalinha Catunda e Rosário Pinto, as criadoras do "cordel de saias"

Olá, Manoel Severo, sou apaixonada pelas histórias do cangaço e mais tenho aprendido visitando seu espaço. Estou enviando estes versos que fiz para Maria Bonita e gostaria de compartilhar com a família Cariri Cangaço.
Rainha do Cangaço

Maria Déa Nasceu
No dia oito de março,
Não era igual às outras,
E um dia sem embaraço,
Juntou-se a Lampião,
E foi viver no cangaço.

Virou Maria Bonita,
Parceira de Lampião
Deixou a vida pacata
Para viver sua paixão
Entregou a Virgulino
Sem medo seu coração.

Saiu pelas caatingas
Fazendo vadiação.
Era mulher corajosa,
Usava arma na mão.
Foi rainha do cangaço,
Seu rei era lampião.

Em meio à violência,
Teve fim aquele amor.
Lampião foi alvejado
Num combate de horror,
Tantos tiros pipocaram
Que o lampião apagou.

Maria vendo a desgraça,
Correu para socorrer.
Mas também foi baleada
E acabou por morrer,
Nos braços de lampião
Seu eterno bem-querer.

Virgulino e seu bando
Tiveram um triste final
Após a morte, degolados
Num macabro ritual
E o fim de Maria Bonita,
Não deixou de ser igual.

Salve Maria Bonita,
E sua cumplicidade.
Mulher de atitude
Buscando felicidade.
Amou e foi amada,
Apesar da brutalidade. 

Dalinha Catunda

NOTA CARIRI CANGAÇO: Dalinha Catunda juntamente com a cordelista Rosário Pinto são as responsáveis pelo espetacular blog "cordel de saia"; hoje Dalinha, de forma muito gentil e amável, nos presenteia com seu talento homenageando a Rainha do Cangaço. Convido a todos a visitarem e se deliciarem com o blog das amigas  Dalinha e Rosário : 

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