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Bom de Veras Parte II Por:Antônio Morais

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Caravana Cariri Cangaço em visita ao Alto do Leitão,  local da morte de Lua Branca, o úlitmo irmão dos Marcelino

Certo dia, a noticia da aproximação dos marcelino deixou o delegado em panico. O negro Felizardo, sabedor da presença dos Marcelino, schou por bem demonstar sua proclamada valentia. Foi vingar o patrão. Tocaiado na ladeira do Caririzinho, aguardou a passagem do grupo. Manuel Marcelino, que havia estacionado ali, talvez para descanso, foi atingido por Felizardo que, imediatamente, correu a rua anunciando haver morto o famosa bandoleiro. Chegaram a comemorar o grande feito. Foi cachaça a bessa. O velho Ioiô vibrou com a noticia, enquanto Felizardo proclamava alto e em bom tom sua valentia e a gloria de havar morto o terrivel bandoleiro da fazenda Olho D'agua.

A amizade entre Antonio Taveira e Manuel Marcelino era grande e fraterna. Eram tambem compadres. Por isto, reuniu algumas pessoas e resolveu procurar, na mata, o amigo provavelmente baleado. Chegamos ao local e nada. Manchas de sangue, pelo chão,indicavam que a vitima havia penetrado numa vereda. Seguimos a pista. Aqui e acolá, folhas manchadas de sangue. Já a tarde fomos informados, por uma pessoa que regressava da feira de Jardim, que os Marcelino haviam subido a serra e Bom de Veras estava com uma das mãos na tipoio. A bala do rifle de felizardo apenas havia decepado o dedo polegar do famoso cangaceiro.

Na sua sede de vingança Bom de Veras voltou a Caririzinho. Como um tigre esfomeado, pegou Felizardo na garapa, quando este subia a ladeira tantas vezes aqui referida.

Bom dia, moleque.
É voce Manuel?
Está admirado?

Sim, mas sei que voce não vai matar-me. Sempre fomos bons amigos e mesmo meu padim Cico não deixa. Cala a boca, negro, não fale neste nome aqui. Deixa meu Padim no seu canto. O negocio é aqui entre nós dois. Mal encerrou a conversa, doze tiros de rifle papo-amarelo acoaram no silencio daquele pé-de-serra ermo, e o baque do corpo de felizardo anunciava o fim do famoso pistoleiro. Vencida a primeira etapa da vingança, Bom de Veras tomou a direção da serra e foi se incorporar-se ao grupo de Lampião. Dois longos anos se passaram sem nenhuma noticia dele.

Bom de Veras era um cabra disposto, inteligente e matreiro - disse Taveira. Era homem que se aconselhava ao Capitão Virgulino Ferreira na astucia e nos planos estrategicos de ação do grupo. Por isto estava se tornando uma ameaça a Lampião como chefe-supremo do famigerado e temivel agrupamento de cangaceiros. Por esta razão, se separaram. A decisão foi do proprio Virgulino, tomada em Poço Cercado. Corria o ano de 1926. Bom de Veras rumava tranquilo com destino a Caririzinho, com ele os manos João Vinte e Dois e Lua Branca e mais 4 ou 5 companheiros. era chegado o momento da vingança ao seu mais odiado inimigo: Ioiô Peixoto. na sua chegada ao distrito de Caririzinho matou Zé Pretinho, que levava carta de Nicanô Peixoto ao seu parente Ioiô, avisando da vinda de Bom de Veras. Mandou que o Zé Pretinho corresse e atirou pelas costas. Um irmão, um filho e o genro de ioiô foram, neste mesmo dia, vítimas da sanha criminosa do perigoso grupo.
Chegaram finalmente à rua, Ioiô não se encontrava em casa. Tinha ido ao bebedouro de gado, em cujo local foi travado o seguinte diálogo, após a resolução de Bom de Veras de que iria, como realmente fez, sozinho, o serviço. 

 Caririzinho, nos dias atuais

Levanta cabra velho safado. Não diz que é valente... que briga.. que tem autoridade? Não diz que os Marcelinos são uns cagões? Eu sei que você não é capaz de fazer isso, Manuel, Você não é capaz de matar-me... Toda vida fomos amigos...Conversa, velho safado e frouxo... tres tiros de rifle puseram termo ao diálogo fatal. Contorcendo-se e se esvaindo em sangue, com tres balaços na testa, Ioiô Peixoto tombou as raizes de frondosa barauna, em cujo tronco ainda hoje existe, solitária e esquia uma enorme cruz.
A pagina 165 do livro da escritora Aglae Lima de Oliveira: Lampião, Cangaço e Nordeste - terceira Edição, lê-se o seguinte a respeito de Manuel Marcelino - o Bom de Veras: Manuel Marcelino, epoca 26 a 30. Era um negro malvado, Alto, cantador, considerado para o bando, cangaceiro de alto preço. Fumava cachimbo. Atirador afamado, excessivamente perverso, a ponto de beber o sague de suas vitimas. Tinha o proposito de nunca revelar a historia de sua vida.Foi baleado e morto em Mulungo, Estado das Alagoas, por ocasião de cerrado tiroteio que envolveu todo o grupo. Bom de veras atirava e rastejava em direção da tropa, quando caiu morto, no fim do combate.

Dois reparos devem ser feitos na informação acima: Segundo ouvimos de parentes e amigos, inclusive Antonio Taveira, Bom de Veras era um tipo alto e alourado, nunca um negro como foi dito. As circunstancias em que foi baleado e morto Manuel Marcelino - o Bom de veras, coincidem em parte com as publicadas pela escritora Aglae, todavia, o local não foi Mulungu, nas Alagoas, Bom de Veras foi morto na Fazenda de João Coelho, seu primeiro e unico patrão, na localidadede Minadouro, municipio de Serrita, Estado de Pernambuco. Asinformações colhidas pelo reporter de Região dão conta, ainda, de que Bom de Veras foi alvejado e morto pelos proprios companhaeiros, no cerrado tiroteio da Fazenda Minadouro, após cercada a casa de onde se encontrava e haver tentado uma fuga. Foi aí que, involuntariamente, um dos companheiro que atiravam contra a policia alvejou Bom de Veras, pelas costas. Esta, a verdade versão da morte do famoso e temivel Manuel Marcelino - O Bom de Veras.

Antônio Morais


Manuel Marcelino, o Bom de Veras. Parte I - Por:Antônio Morais

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Manuel Marcelino, o Bom de Veras, o homem a quem Lampião temeu. Hoje, divulgamos palpitante entrevista sobre um dos mais temíveis componentes do celebre grupo de Lampião: Manuel Marcelino - O Bom de Veras. O nosso entrevistado é o agricultor António Taveira, residente na cidade pernambucana de Sitio dos Moreira. Na linguagem simples de homem da roça, habituado as agrurias da vida, incapaz de recuar diante das mil dificuldades que lhe surgem no dia-a-dia penoso do sertão, Antonio Taveira falou a Revista Região. Com seus 76 anos, natural da cidade cearense de Barbalha, Taveira, durante duas horas, conversou com o reporter. Estavamos na Casa Paroquial da pequenina cidade de Sitio dos Moreiras, ao lado deste formidavel e integro Mons. João Cancio, atraves do qual conhecemos o nosso entrevistado. 

A pergunta inicial foi formulada pelo proprio Mons. Cancio: Seu Antonio, por que Manuel Marcelino entrou nessa vida de cangaceiro? 
A: Tudo começou por causa de uma simples faca que o velho Ioiô Peixoto mandou tomar de João Marcelino, irmão de Manuel. Nesse tempo, o velho Ioiô era delegado de policia de Caririzinho, hoje distrito de Sitio dos Moreira. Joao Marcelino, cujo nome de guerra, na epoca do cangaço, era João Vinte e Dois, estava jogando baralho com alguns amigos. Como é comum no sertão, João trazia a cintura uma faca, dessas fabricadas na Paraiba. Uma excelente faca. Ze Benedito, preposto do delegado, a mando deste, foi desarmar João Marcelino. A arma foi entregue sob protesto deste: O que, Zé Benedito, eu entregar minha faca? Isso não. É melhor entregar. Voce sabe: A policia não pode ficar desmoralizada. Com a aproximação do Delegado e de seus soldados, a faca foi entregue a autoridade. Mais tarde, João Marcelino, julgando-se desmoralizado, procurou o delegado Ioiô, com quem manteve o seguinte dialogo:

Bem, Ioiô, pode ficar com a faca e fazer dela o que quiser. Não me interessa mais recebe-la. Já fui desmoralizado. Deixe de conversa mole. Voce é pagão. Converse pouco. Livra de apanhar. Apanhar? Sim. Voce sabe que tenho autoridade. Está bem. Mas voce vai ver. A conversa encerrou aí. João Marcelino dirige-se imediatamente a casa do Velho Daozinho Lopes, com quem trocou duas novilhas por um rifle papo-amarelo.Atendendo a uma pergunta do reporter, Antonio Taveira esclareceu que os Marcelinos eram filhos de Antonio Marcelino e Dona Nenen. Toda Familia ali morava na propriedade de nome Olho Dagua, a eles pertencente. 


Manuel Marcelino, o Bom de Veras, era vaqueiro de João Coelho no minadouro. É Taveira quem fala, retomando o fio da narração: Cedinho ainda, na Fazenda Minadouro, tipo alto, alourado e robusto, celava o cavalo para as costumeiras andanças pelo campo, no trato do gado. Com a aproximação inesperada do irmão, perguntou: O que houve, João? Voce por aqui tão cedo? Fui desmoralizado pelo o velho Ioiô. Contou toda historia da faca, no fim da qual o irmão pergunta indignado: Mas o velho Ioiô fez isso com voce? Realmente estamos desmoralizados, mas, nós vinga. A seguir retirou a sela e amarrou o animal num mourão. A decisão era irreversivel. Bom de Veras, em companhia do irmão foi a casa do Dino, agricultor residente nas proximidades, a quem comprou um rifle papo-amarelo e muita munição. Colocou a cartucheira à cintura e, em seguida, deu tres pulos mortais, um para frente, outro para traz e um terceiro para o lado, Isto ele costumava fazer para divertir o povo nas festas do Padroeiro. Finda a acrobacia, exclamou Bom de Veras: Fui vaqueiro... Agora sou cangaceiro. Penetrando numa vereda, desapareceu junto com o irmão. Durante oito dias ninguem teve noticias deles.

Certa noite, conta Taveira - "estando na minha casa, ouvi barulhos nas proximidades. A criação, assustada, denunciava algo de anormal. Saí. Eram os irmãos Marcelino. Ao ver-me, Manuel perguntou pelo velho Ioiô. Respondi-lhe que estava na rua. Sairam. Minutos depois, ouvi tiros. Disse para minha mulher maria: Os meninos estão matando o velho Ioiô. Desta feita, entretanto, não mataram o Delegado: deram-lhe a maior surra da paroquia. Cheio de escoreações, o velho IoIô foi curtir em casa a grande surra dos Marcelino. Passado o efeito daquele episodio, Ioiô Peixoto, contratou um pistoleiro. Negro forte e perverso, de nome Felizardo, passou a ser o mais comentado protetor do Delegado de Caririzinho. Quando tomava seus pileques, era verdadeira onça, a ponto de arrancar, com as unhas, carne do proprio rosto, num sadismo assustador e repugnante. Era uma fera esse Felizardo.

Continua...

Andanças e Lembranças.
Antônio Morais
postado no blog do Sanharol
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A fuga de Venãncio do bando de Lampião Parte II Por:Antonio Morais

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Tempos depois, em conversa com Venancio, disse Mario que, ao ouvir o grito de Sabino previnindo-o para que nada dissesse a policia, teve vontade de correr, mas temeu um tiro nas costas. O grito de sabino foi, de inicio, interpretado como uma ordem para voltar. Venancio fala da existencia, no grupo, de um cangaceiro chamado Criança, que tinha 14 anos de idade, e usava rifle de seis tiros.

Momentos depois da saida de Mario de São, um dos cangaceiros, eram 46 ao todo, trouxe preso o velhoLucio, em cuja casa Venancio se hospedara. Levado a presença de Sabino, declarou haver mandado um menino buscar o cavalo que, segundo informação em poder do bando, era gordo, descansado e ligeiro. Sabino, ao ouvir de Lucio a conversa da ida do menino, chamou-o de velho safado e mentiroso, dizendo-lhe qinda que fosse logo ver o animal, sob de levar umas chibatadas na cara.

Vamos, Seu Lucio, ver o cavalo do homem - disse Venancio, temendo pela sorte do amigo. Em companhia de um cangaceiro indicado por Sabino, seguiram os dois com a missão de trazer o animal. O local não ficava muito longe dfe onde o grupo se encontrava. O cabra que nos acompanhou - explica - era um tipo alto, delgado e vestia uma tunica de oficial da policia. Ia a cavalo, enquanto nós iamos a pé. Quando subimos, a capoeira era grande. Depois vinha o carrasco. Aqui e acolá uma moita no meio da caatinga. Foi aí que me veio a ideia salvadora: Olhei para o cangaceiro e disse: moço, alem do cavalo que seu Sabino mandou ver para o capitão, existe outro mais adiant, tambem bom e descansado. "Se estiver mentindo cabra safado eu te mato". Venancio jogava a ultima cartada com a historia de um cavalo que só existia em sua imaginação. Mas como evitar que o cangaceiro fosse atélá? Parecia impossivel. Veio-lhe a vontade de segurar no cabeçote dp animal do cangaceiro e derruba-lo da sela e depois fugir. Mas o bando estava perto.

Minutos depois chegava o menino com o cavalo, comprovando que de fato o velho Lucio havia falado a verdade. Empolgado com a beleza do animal, após ouvir a expressão: Este é o cavalo que o capitão preferiu, o cabra mandou Venancio ver o cavalo imaginario, levando o outro pela corda para mostrar ao chefe. Um episodio acorrido antes da decisão do cangaceiro: Venancio olha para o velho Lucio e diz baixinho: Seu Lucio, eu vou fugir. Eu não volto mais aqui. Daqui não vai escapar ninguem. Venancio, não faça isso, que eles me matam. Cala a boca que o cabra vem aí.

Voltando a falar sobre a fuga, disse Venancio: Enquanto o cabra ia seguindo com o cavalo eu ia andando de costas, em sentido contrario. Vendo que ele não olhava, fui pulando de moita em moita, pois conhecia a serra como a palma da minha mão, até que alcancei o carrasco. Nem vaqueiro bom me pegava. O coração batia como se quisesse saltar. Aqui e acolá era surpreendido com barulho no mato e me escondia pensandoserem os bandidos. Eram reses pastando.

As duas da tarde alcancei a estrada que demandava a Jardim. A essa altura já me encontrava a salvo do famigerado grupo. Mesmo assim me assustava com qualquer barulho. Só penetrei na estrada bem perto da cidade. O itinerario maior foi vencido dentro domato bravo, cansado, suado, com fome e com medo.

Mario de São percorreu todocomercio de jardim e não canseguiu reunir os cinco contos de reis. Era muito dinheiro para aquela epoca. Apelando para familiares de Vieira que moravam proximo da cidade, completou a importancia do resgate, que não foi entregue, pois, ao chegar em Caririzinho, o grupo já havia batido em retirada, depois do insucesso do cerco de Ipueiras dos Xavier. No meio do caminho, Lampião, duplamente revoltado - os cinco contos de reis não recebidos e o malogro de Ipueiras, matou perversamente o fazendeiro Pedro Vieira, que não teve, como os seus companheiros, inclusive o velhoLucio, a sorte de escapar com vida da furia insopitavel do famoso Rei do Cangaço - Capitão Virgulino Ferreira da Silva.

Antônio Morais
Blog do Sanharol
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NOTA CARIRI CANGAÇO: O companheiro Antônio Morais é uma figura inigualável; um dos melhores contadores de história que conheço; conduz como ninguém um dos blogs mais simpáticos de nossa região, o "blog do sanharol", nitidamente uma grande sala de estar onde se reunem os muitos filhos, amigos e admiradores da emblemática Várzea Alegre. Ao amigo Morais, o abraço da família Cariri Cangaço.
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