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Pinto Madeira, nem herói nem vilão Por:Napoleão Tavares Neves

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Manoel Severo e Napoleão Tavares em convesa na bela Barbalha

Certa vez, em conversa com o Padre Antônio Gomes de Araújo, ícone da historiografia regional e meu velho mestre do saudoso “Ginásio do Crato”, a ele perguntei: “Afinal, Pinto Madeira era de Jardim ou de Barbalha?” A resposta veio taxativa: “Era de Barbalha, do sítio Coité, entre o Silvério e o Mondes, mas com atuação política, sobretudo a partir de Jardim, porque ali tinha ele uma alma irmã: o Padre Antônio Manoel de Sousa, ambos monarquistas ferrenhos.”

Esta digressão introdutória vem muito a propósito, sobretudo para provar que Pinto Madeira era polêmico até na sua naturalidade, sempre envolto em um halo de dubiedade até pelas elites intelectualizada do Cariri. Sim, porque a História de Barbalha prova que ele nascera no sítio Coité, nas vizinhanças do Distrito-Vila de Arajara cujo nome, em Tupi, significa “Terra onde nasceu o homem” e este homem é Pinto Madeira! Por outro lado, a rodovia asfáltica que liga Barbalha a Crato via Arajara, cortando ao meio o sítio Coité, é Rodovia Pinto Madeira.

Assim sendo, sou a favor da veracidade histórica desta segunda hipótese quanto ao seu nascimento, já que segundo o historiador Dr. Odálio Cardoso de Alencar, “História se faz com fatos e datas”. Ademais, a redoma geográfica formada pela Chapada do Araripe, fazia de Jardim o lugar estratégico para preparação das tropas pintistas que, em avantajado número de cerda de aproximadamente 2 mil homens armados de cacetes, recebiam na história Matriz de Santo Antônio de Jardim, as bênçãos da Igreja em uma Santa Missa celebrada pelo primeiro pároco, Padre Antônio Manoel de Sousa, por isto imortalizado como “O benze-cacetes”, recebendo publicamente o ânimo inicial de “guerra sagrada” de restauração do Trono do Brasil, pondo Jardim em destaque nacional na luta pela Monarquia do Brasil. (ao lado as Armas do Brasil Império, defendido por Pinto Madeira). Pela falta de armas de fogo, os revoltosos de Pinto Madeira eram armados de cacetes de madeira jucá ali encontrada, fazendo com que no Cariri em geral, cacete e jucá fossem sinônimos. Por outro lado, apesar de sua importância no Cariri, Pinto Madeira nunca foi devidamente estudado nem pela elite intelectualizada, permanecendo quase desconhecido da grande maioria, apesar de ser nome de rua em quase todas as cidades caririenses.

Pois bem, agora, em muito boa hora, vai sair de Jardim uma obra de fôlego que disseca a saciedade a vida atribulada de Pinto Madeira, pondo-a no seu devido lugar na historiografia regional: “Pinto Madeira, nem herói nem vilão”, da jovem e arguta historiadora jardinense, Nélcia Turbano de Santana. É um estudo sério, objetivo, judicioso e fundamentado, além de escrito em castiça linguagem, trazendo a lume toda a trajetória do irrequieto revolucionário que terminou por protagonizar o mais esdrúxulo julgamento da História do Brasil, no qual, quase no alvorecer da República, o condenado não teve sequer o primordial direito de defesa! Suas testemunhas sequer foram ouvidas!Pasmem! E qual seu horrendo crime? Crime de lesa Pátria? Não e Não! Crime de participação ativa, na linha de frente de tantos movimentos revolucionários, tendo Jardim como palco? Revoluções de 1817, 1824 e 1832? Não!

Napoleão Tavares entre os confrades por ocasião do Cariri Cangaço

O homem foi sumariamente fuzilado nos arredores da Vila Real do Crato, no lugar Barro Vermelho, pela morte do português, Joaquim Pinto Cidade, na batalha pintista do sítio Buriti, arredores de Barbalha, quando tantos atiraram, mas só a bala de Pinto Madeira foi considerada mortífera, em uma recuada época, quando não havia laudo cadavérico por aqui” Mais uma vez, Pasmem! Foi, não há como negar, uma sumária execução direcionada, encomendada, quando o Senador José Martiniano de Alencar, já ascendera ao elevado posto de Presidente do Ceará. E eles eram figadais adversários! Pois bem, o máximo que Pinto Madeira conseguiu foi que comutassem a sua sumária pena de morte para fuzilamento, em vez de enforcamento! E isto já nos seus derradeiros momentos de vida, quando “já fedia a cadáver”, segundo palavras textuais de um dos juízes!

Tudo isto e muito mais ainda, está no excelente livro “Pinto Madeira, nem herói nem vilão”, de Nélcia Turbano de Santana, jardinense até pelo histórico nome familiar. Esta oportuna obra merece ser publicada até pela Prefeitura Municipal de Jardim que tem à frente, pelo quarto mandato, um homem inteligente e de visão de futuro, médico Dr. Fernando Neves Pereira da Luz, por sinal, meu primo e afilhado.

Finalizando, devo dizer ainda que o substancioso trabalho de Nélcia Turbano de Santana mergulha fundo na História regional trazendo a lume até as condições econômicas da ambiência da época onde e quando tudo se deu. É, portanto, na minha visão, obra meritória, rara e única no gênero.

Napoleão Tavares Neves, médico e historiador.
Fonte: Blog do Crato
Postado por Armando Rafael 
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Martiniano, Tristão e Pinto Madeira, heróis da história do Cariri do Brasil...

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No primeiro quartel do século XIX, a Vila do Crato já se sobressaía entre as congêneres interioranas do Nordeste brasileiro. Residiam na vila, ou nas suas adjacências, famílias abastadas, possuidoras de patrimônio amealhado quase sempre, à custa das fainas agrícolas. Alguns jovens dessas famílias tinham o privilégio de aperfeiçoar seus conhecimentos em escolas da longínqua capital da Província de Pernambuco. Para lá se deslocavam, em longas e penosas viagens que duravam semanas. Sempre feitas em lombo de animais.

Alguns desses estudantes retornavam ao torrão natal impregnados de idéias libertárias, assimiladas nas sociedades secretas, existentes em Olinda e Recife. Sonhavam esses jovens com um Brasil independente da metrópole portuguesa. Alguns iam mais longe. Acalentavam o sonho de mudar a forma de governo, substituindo - num eventual Brasil soberano - a monarquia pela experiência republicana já testada nos Estados Unidos da América e França.

José Martiniano de Alencar

Esses sonhos libertários resultaram no primeiro confronto ideológico ocorrido no Cariri. Os liberais eram liderados pelo subdiácono José Martiniano de Alencar, estudante do Seminário de Olinda e adepto dos princípios republicanos e laicos da Revolução Francesa de 1789. Foi este jovem enviado pelos líderes da Revolução Pernambucana de 1817, para deflagrar o processo revolucionário no conservador Vale do Cariri. Num gesto audaz e corajoso, no dia 3 de maio de 1817, José Martiniano de Alencar proclamou do púlpito da Matriz do Crato a independência do Brasil, sob o regime republicano.

A contra-revolução veio rápida. Oito dias depois, Leandro Bezerra Monteiro, o mais importante proprietário rural do Cariri, dotado de profundas e arraigadas convicções católicas e monarquistas, pôs termo ao sonho do jovem José Martiniano de Alencar. Os revolucionários foram presos e enviados para as masmorras de Fortaleza e posteriormente para as de Salvador, na Bahia. Entre os prisioneiros estavam Tristão Gonçalves de Alencar Araripe e Dona Bárbara de Alencar, irmão e mãe de José Martiniano. Após sofrerem as agruras das prisões, por cerca de quatro anos, os revolucionários cratenses foram anistiados pela autoridade real. Por sua lealdade à Monarquia, Leandro Bezerra Monteiro, foi agraciado, pelo Imperador Dom Pedro I, com o posto de Brigadeiro, o primeiro a ser concedido no Brasil.

TJunta de Pernambuco, durante a Confederação do Equador

Em 1824, eclode nova revolução republicana em Pernambuco denominada Confederação do Equador (Bandeira em foto abaixo). Esse movimento uniu lideranças das províncias de Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte; descontentes com a Constituição outorgada pelo primeiro imperador brasileiro, Dom Pedro I. O movimento repercute intensamente no Crato.Tristão Gonçalves de Alencar Araripe aderiu, com todo entusiasmo e idealismo, à Confederação do Equador. Em 26 de agosto daquele ano, foi ele aclamado pelos rebeldes republicanos como Presidente do Ceará. Entretanto a reação do Governo Imperial foi implacável. As instruções para debelar o movimento eram assim sintetizadas: (...) não admitir concessão ou capitulação, pois a rebeldes não se deve dar quartel. Debelado o movimento restou a Tristão Araripe duas alternativas: exilar-se no exterior ou morrer lutando. Escolheu a última opção.

Tristão colecionou vários inimigos. Dentre eles o proprietário rural, José Leão da Cunha Pereira. Esse utilizou um capanga, Venceslau Alves de Almeida, para pôr fim à vida do herói da Confederação do Equador no Ceará. Tristão Araripe faleceu, em 31 de outubro de 1825, combatendo o grupo armado de José Leão, na localidade de Santa Rosa.

O Cariri continuou, durante algum tempo, dividido entre simpatizantes da ideologia republicana e adeptos da Monarquia. O confronto dessas idéias foi motivo de contendas as mais variadas. Joaquim Pinto Madeira era o que poderíamos chamar de caudilho. Rico proprietário rural e chefe político da Vila de Jardim, era por índole um afeiçoado às coisas da Monarquia. Foi fundador da sociedade secreta Trono do Altar, que defendia a monarquia absoluta.

Tristão Gonçalves de Alencar Araripe

Joaquim Pinto Madeira lutou ativamente contra os promotores dos movimentos libertário-republicanos da Revolução Pernambucana de 1817 e da Confederação do Equador de 1824. Após a derrota da família Alencar, em 1817, coube a Pinto Madeira, à época ocupando o posto de Capitão de Ordenança, conduzir até a cidade de Icó os 20 malogrados presos políticos. Provavelmente, durante o percurso, esses prisioneiros sofreram humilhações por parte do caudilho. O que era esperado, face ao temperamento belicoso de Pinto Madeira.

Em 1831 o imperador Dom Pedro I abdica do trono brasileiro e volta para Portugal, onde toma o nome de Dom Pedro IV. Os adversários de Pinto Madeira aproveitaram esse acontecimento para dele se vingar. Acuado, o caudilho, com a ajuda do vigário de Jardim, Padre Antônio Manuel de Sousa, armou cerca de dois mil homens, a maioria com rudimentares espingardas, e invadiu o Crato, em 1832, para dar caça aos seus inimigos liberais.

Dizem que de tanto abençoar as espingardas dos jagunços e, na falta destas, dar bênçãos a cacetes (pequenos bastões de madeira) o Padre Antônio Manuel de Sousa ficou conhecido como "Padre Benze-Cacetes". Pinto Madeira e o Vigário Manuel foram vitoriosos no Crato, mas logo começaram a sofrer reveses. Terminaram por se render ao General Pedro Labatut, um mercenário francês que atuava no Brasil, desde as lutas pela independência. Presos, ambos foram enviados para Recife e depois para o Maranhão. Pinto Madeira retornou preso ao Crato, em 1834, onde, num júri parcial - composto por antigos inimigos seus - foi condenado à forca, sentença posteriormente comutada para fuzilamento, em face do réu ter alegado sua patente militar de Coronel.

Morreu virilmente Pinto Madeira. Conta a tradição, ouvida por mim desde menino, que momentos antes do fuzilamento, ofereceu-lhe um lenço, para que vedasse os olhos, um dos seus mais implacáveis inimigos. Recusou o condenado a oferta (...) Durante anos a fio, fez-lhe promessas o rude povo do sertão, considerando-o um mártir, isto é um santo.


Irineu Pinheiro
FONTE:www.crato.ce.gov.br
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