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Palavras Tristes do Capitão Por: Rangel Alves Costa


Naquele ano de 38, quando o Capitão Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, deixou as terras hostis e solitárias das alagoas, e veio cortando caatinga, se entricheirando e combatendo à própria sombra, e a força das volantes por trás de toda moita, pisou nas fronteiras do estado de Sergipe. Adentrou pelas suas veredas para prestar contas ao destino. Estava um homem gritando por dentro e que precisava ouvir a si mesmo.Quando pisou no sertão sergipano, o Capitão da caatinga e sol, nem imaginava que ali seria sua última pousada em vida; seus últimos dias na terra aos seus pés estremecida pelo mistério da vida e da morte. 

Não imaginava que brevemente seria tocaiado e morto, seria vítima da volante no seu eterno encalço, seria vítima do próprio contexto que criou e como ninguém soube representar. Se não imaginava que isso viesse a acontecer, tinha certeza de que nas terras sergipanas, naquele local escolhido para descansar, poderia refletir sobre o seu futuro, sobre o destino que queria para si dali por diante. Se nada pudesse ser feito, ao menos que os dias e as noites fossem menos assombrosas. Ora, já estava com quase quinhentos anos, pois cada ano que se passa combatendo por entre mandacarus, quixabeiras e xiquexiques, é como se fosse vinte anos na vida de um homem. O corpo estropia, as forças vão sumindo, os objetivos deixam de ter validade. 

Apenas a vida passa a valer alguma coisa. Mas estava velho demais, com 40 anos, mas um corpo alquebrado de mais de quinhentos anos.Já conhecia bem a região. Volta e meia estava de retorno ao lugar. Gostava de beira de rio, pois numa hora de fuga é mais fácil encontrar caminho pela terra e pelas águas. Ademais, a Grota do Angico, ali nas beiradas do São Francisco, era o local mais apropriada para que ele e sua Maria Bonita, bem como os demais cangaceiros que se faziam presentes no bando, se acomodassem à vontade, vez que já conheciam bem aquelas camas de pedras e aqueles candeeiros enluarados.


De um lado o rio, entre eles as margens de mata rasteira, de outro lado as caatingas e as serras e ainda no alto a esperança pela proteção de Deus.Na Grota havia o lugar reservado para o Capitão e sua bem amada, dentro da fenda aberta em plena rocha. Ali cabia os dois e seus apetrechos. Os outros cangaceiros, homens e mulheres, se arranjavam como podiam ao redor; os casados com suas esposas e os solteiros em grupos separados. Estrategicamente separados para ter ampla visão do lugar e vigiar qualquer suspeita da aproximação do inimigo. O inimigo estava por perto sempre; sempre à espreita.No dia 27 de julho, desde que levantou cedinho, fez suas fervorosas orações e tomou pé da situação. O Capitão passou a carregar pelo resto do dia uma vontade danada de se separar por instantes do bando, e até de sua Maria Bonita. 

Sua vontade era sentar em alguma pedra, montanha ou barranco para pensar sobre a vida, refletir sobre sua pessoa, pensar em seu destino, prestar contas a si mesmo de um montão de coisas que há muito vinham se espalhando pelo seu inconformado espírito.Nesse tormento, ao entardecer desse dia, se afastou do grupo, pediu que ninguém o acompanhasse nem fosse até lá importunar onde quer que estivesse. Foi pra beira do rio. Caminhou até onde a alpercata molhava. Tocou as águas com a mão. Depois se benzeu, lavou os óculos há muito enuviados, molhou o rosto de água, recuou um pouco e foi sentar bem no local onde havia uma pedra grande, de onde passou a olhar o horizonte e tudo ao redor como jamais havia feito em qualquer outro instante da vida.A cor bonita do entardecer refletia no rosto do Capitão dando-lhe ainda mais majestade, mais brilho, mais veracidade. 


Contudo, no seu olhar e seu íntimo era um homem cansado e cheio de dúvidas, pensando em como dar um basta naquilo tudo para se tornar gente novamente. Isso era o que pensava dele, como um bicho feroz, mas naquele instante um frágil ser humano com sua lágrima e sua voz solitária:"Tenho fé no Senhor, meu Deus, que tanto tem perdoado pelo que tenho feito e os outros inventado que fiz. De qualquer modo, perdoai por tudo, meu Deus, pois sou apenas um homem com o destino traçado para viver no sofrimento. Tenho mulher e esposa que não posso colocar numa casa para viver; tenho filhos que não posso ter ao meu lado para uma brincadeira e um cafuné. Tenho amigos que não posso prosear ao entardecer na sombra de uma árvore, sentado num banquinho e vendo calmamente a vida passar. O pior, santo Deus, é que tenho uma vida que não posso viver. 

 Ilustração da publicação Infanto-juvenil de Eliana Carneiro

Quem disse que o meu viver é vida, matando pra não morrer, correndo de um lado pra outro, fugindo da própria sombra e sem ter paz e sossego em tempo algum e em lugar algum? Quem sou, senão um homem entristecido que não pode chorar uma só lágrima? Troco tudo que tenho, o que conquistei e o que inventaram pra mim, por uma vida digna, por um instante de paz e sossego. Trocaria minha patente de Capitão, minha coragem, minha fama, minha revolta, tudo que tenho, por qualquer coisa que me fizesse viver como pessoa comum... "Por trás das lentes dos óculos do Capitão, os olhos molhados deixaram uma lágrima escorrer. E ele continuava falando sozinho, conversando com seu pensamento: "Jamais hei de dizer meu Deus, meu Deus, porque me abandonou. Isso não, meu Senhor, pois se estou ainda vivo é graça a sua grande bondade. Mas poderia ter sorte melhor, isso sim. Como diz a bíblia, que proveito tira o homem de todo o trabalho com que se afadiga debaixo do sol? Todas as coisas se afadigam, mais do que se pode dizer. A vista não se farta de ver, o ouvido nunca se sacia de ouvir. Não há nada de novo debaixo do sol. 

O que sou, então, senão um Capitão afadigado e cansado demais de viver debaixo dessa lua e desse sol. Mostre-me um caminho, meu Deus, pois o Capitão Lampião só pensa em ter uma chance de ser novamente Virgulino e viver feliz ao lado de sua Maria...".Ouviu passos e se virou rapidamente. Era Maria Bonita que vinha chegando. "Venha cá Maria, sente aqui". E foi a única vez que Maria Bonita viu Lampião chorando.No dia seguinte, logo ao madrugar os dois seriam mortos. A sina cangaceira estava terminada. Foi-se o triste Capitão.

Rangel Alves Costa - Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com 

O guerreirto do sol na sua maior luta. Por:Rangel Alves da Costa

Alcino Alves Costa ao lado Kydelmir Dantas

Nos últimos tempos, o mundo cangaceirista tem andado preocupado com a saúde do velho guerreiro do sol, hábil pesquisador e expoente das vinditas bandoleiras, principalmente da tocaia onde ainda se entrincheira o fenômeno cangaço. Fale sobre Alcino, o mossoroense José Mendes Pereira me pediu ainda ontem.

Conforto Mendes e outros amigos que se avolumam pelas terras nordestinas. Historiadores de cerco, cangaceiristas de rastro e sede, pesquisadores famintos pela verdade e conversê intrigante, afirmando que o homem, mesmo que ainda esteja em plena recuperação de duas cirurgias quase que seqüenciadas, continua na sua gruta nordestina de sempre: Poço Redondo.

E o melhor, fazendo o que a história lhe incumbiu de cavar e o sertão lhe implorou como filho: ouvindo, assuntando, perguntando, tirando conclusões e esboçando sua síntese fenomenológica nos livros que incessantemente escreve. Pois continua com sede de escrever o danado do Alcino, abrindo velhos baús e tirando de lá preciosidades que o mundo sertanejo precisa conhecer sobre si mesmo.

Amaury, Lívio Ferraz, Manoel Severo, Sousa Neto e Alcino Alves Costa

Nem bem fez o lançamento do livro “Lampião em Sergipe”, no dia 19 de outubro em Aracaju, na última segunda-feira, dia 07, aproveitou que veio fazer exames médicos e já apareceu em casa com a prova de um novo livro, este intitulado “João dos Santos - O Caçador de Curituba”.

Não obstante tamanha força e obstinação, os problemas de saúde surgidos foram realmente preocupantes, dado o quadro clínico e a complexidade do primeiro procedimento cirúrgico. Depois da recuperação desta, teve ainda que se submeter recentemente a outro procedimento mais simples, porém ainda relacionado ao anterior. Dessa vez deixou o hospital em dois dias e no dia seguinte já estava avexado, totalmente agoniado para voltar ao seu Poço Redondo. E assim o fez.

Só retornou a Aracaju ao anoitecer do domingo porque era o jeito, eis que na segunda-feira teria que retirar os pontos. E só vem à capital se for amarrado, como se diz por aqui. Se não surgir algo que realmente reclame a sua presença, podem ter certeza que somente será encontrado no seu sertão, caminhando por aquelas ruas, ouvindo suas músicas sertanejas, escrevendo sobre as diabruras de tantos guerreiros, tecendo em páginas o perfil do sertão, do seu povo e sua história.

Rubinho Lima, Alcino Alves Costa e Antônio Tomaz

Mas com relação à plena recuperação, somente os desígnios divinos e o tempo dirão. Eu, que sou filho, não sou mais menino, que dirá aquela raiz vingada no ano 40 no terreno fértil de Dona Emeliana e Seu Ermerindo? Infelizmente, as doenças aproveitam a idade, o desgaste do corpo e as atribulações vividas por cada um para se instalar no organismo. Mas também eis o sal da vida, uma forma de se lutar mais ainda para se vencer essas visitas inesperadas.

Só Deus sabe como ele se sente por dentro. Mas não pela doença que quis testar sua resistência, e sim a cada vez que recebe o conforto de um amigo, sente a preocupação de um irmão nordestino, sabe dos muitos que realmente oraram e continuam em preces pela sua plena recuperação. Nunca foi de chorar, mas como meninão sertanejo, tenho certeza que lacrimeja internamente toda vez que recebe um telefonema de um cangaceirista de proa, um e-mail de um pesquisador angustiado, uma carta de um sertanejo, uma visita.

Enquanto filho, resta-me agradecer a preocupação verdadeiramente devocionária demonstrada por todos; do Cariri ao Mossoró, do Pernambuco a Bahia, cortando essas fronteiras nordestinas e do Brasil, apenas dizendo que se um dia a pedra, o rochedo, for transformada em pó, ainda não será tão breve o momento de ver a ventania levar tais resquícios.

Se um dia houver um encontro marcado entre Alcino e Lampião, certamente que o Capitão haverá ainda de esperar muito. Mas por consolo deste, o velho rochedo sertanejo continuará escrevendo sua história com a fidedignidade daqueles que sempre tiveram compromisso com a verdade.
  Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com

Rangel Alves da Costa,

As oito irmãs do cangaceiro Zabelê Por: Rangel Alves da Costa

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Rangel Alves da Costa

Nem posso dizer que o texto que segue é fruto de construção literária, da minha verve prosista, pois tudo, como se verá, é tão verdadeiro quanto o sangue que corre pelas minhas veias, afluente que é do caudaloso rio familiar do cangaceiro Zabelê e suas sete irmãs.

Manoel Marques da Silva, mais tarde apelidado como Zabelê no bando de Lampião (Alguns afirmam a existência de outro ou até outros Zabelês), era filho único de Antônio Marques da Silva e Maria Madalena de Santana, a Mãe Véia. Suas irmãs, em número de oito, eram Emeliana, Conceição, Osana, Isabel, Rosinha, Mãezinha, Mariquinha e Cordélia. Assim, meus bisavôs paternos Antônio Marques e Mãe Véia fizeram nascer numerosa prole, talvez pensando em formar descendência familiar forte num pequeno lugarejo lá pelas bandas mais esturricadas do sertão sergipano. Nessa época Poço Redondo fazia parte do município de Porto da Folha.

Pois bem. Nove filhos nasceram, porém sendo apenas um homem em meio a tantas mulheres. E quando mais tarde o único herdeiro dos Marques - por circunstâncias que somente a predisposição do momento, o modismo cangaceirista e o destino podem explicar – resolve fazer parte do bando do Capitão Virgulino e deixa a segurança do lar para viver as incertezas sangrentas das caatingas, os seus pais passam a amargar a dor da ausência e os temores em ter dentro de casa seis filhas para criar. Ora, no sertão é dito como certo que casa que tem filho homem marmanjo algum quer dar uma de gavião para querer beliscar irmã dos outros. Se o menino Manoel Marques estivesse em casa os pais das oito mocinhas não ficariam tão preocupados. O perigo aumentava quando se sabia que as meninas da época eram apaixonadas pelos cabras de Lampião e inexplicavelmente atraídas para a vida em perigo. Mas o menino resolveu se unir a Lampião e seus comandados e não teve jeito mesmo. Já no bando, então batizado como Zabelê, nome de pássaro errante pelos sertões nordestinos, foi se afastando cada vez mais da família, com quase nenhuma notícia nem sinal de que voltaria um dia para molhar os olhos de todo mundo. A esperança do retorno, desesperançada...

Cangaceiro por André Neves

Nesse desvão de mundo, naquele mundão de meu Deus, onde a sorte morava ao lado morte, sustentar família era um sacrifício. Se Manoel tivesse aqui era tudo muito diferente, muito mais alegria, muito mais encorajamento pra gente viver essas durezas dos homens e da terra, além de que certamente esses cabras não estavam noite em dia em minha porta com enxerimento pras minhas meninas. Certamente era isso que Mãe Véia murmurava enquanto batia o café no pilão ou ralava o milho para o cuscuz. Mãe Véia tinha razão, pois por ali mais tarde foram aparecendo um tal de Ermerindo, um citadino chamado Aloísio, um militar chamado Rios, sertanejos como Timbé e Bastião e outros, cada um levando na mão uma flor do campo e roubando os corações das filhas de Antônio Marques.

Mas o que fazer se Manoel não estava ali para olhar bem nos olhos desse magote enxerido, medir de cima a baixo, e dizer se prestava ou não? Mas o destino não anda na contramão. Zabelê estava vivendo sua vocação catingueira, enquanto suas irmãs Emeliana, Conceição, Osana, Isabel, Mãezinha, Rosinha, Cordélia e Mariquinha buscavam a formação de novos laços familiares. Assim, como disse acima, sou filho desse contexto, pois minha avó paterna, Emeliana Marques, casou com um rapaz das bandas de Carira, de nome Ermerindo Alves Costa, fazendo nascer dessa união também sete filhos, dentre eles o ex-prefeito de Poço Redondo e escritor Alcino Alves Costa, meu pai.

Meu tio passarinho, Zabelê com asa e bico e plumagem, depois que saiu de casa voou para sempre. Nunca mais colocou os pés na morada para rever a família, nunca mais mandou um recado dizendo que um dia voltaria, nunca mais pousou na mangueira do quintal ao entardecer. Seu Antônio Marques e Mãe Véia morreram sem o prazer da volta do filho homem. Contudo, mesmo sem visitar familiares nem adentrar novamente à velha casa para beber um copo d’água sequer, Zabelê de vez em quando estava por perto, voando baixo na região de Poço Redondo. Fazendo parte do bando do Capitão, assim que o homem se amoitava pelas redondezas ele fazia parte da comitiva.

No dia 28 de julho de 1938, quando na madrugada sertaneja a volante alagoana fez o cerco e matou Lampião, Maria Bonita e mais nove cangaceiros, na Gruta do Angico, terras de Poço Redondo, Zabelê só se salvou por milagre. Junto com Pitombeira arribou no meio do mundo. Contam que quando a saraivada de balas começou a riscar por todo lugar, Zabelê passarinho voou bem alto, sumiu numa nuvem e se escondeu. E parece que se escondeu tão bem escondido nessa nuvem que de lá ninguém mais o viu, principalmente a família. Até hoje as irmãs que ainda estão vivas, como minha avó Emeliana e minhas tias Cordélia, Mariquinha e Mãezinha, choram quando lembram ou ouvem falar do irmão passarinho.

Elas mesmas avoaram muitas vezes por aí em busca do irmão. Há alguns anos, ainda quando estavam com vigor físico que permitia que fizessem longas viagens, bastava que ouvissem um rumor que o irmão poderia estar em algum lugar e lá iam elas em caminhonete, cortando os caminhos quase sem destino. E assim voaram pelos céus de Minas Gerais, Pernambuco e Bahia, dentre outros lugares, mas nada de encontrar nem uma pena do passarinho. A única certeza é que ele voou pra bem longe. E certamente hoje o meu tio faz ninho no céu.

Rangel Alves -Poeta e cronista

e-mail: rangel_adv1@hotmail.com

blograngel-sertao.blogspot.com
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