Quinco Vasques , o "Bravo Caririense" Parte I Por:Manoel Severo

Quinco Vasques ao centro de seus dez filhos na sede da fazenda Carnaúba dos Vasques

A região do cariri, no sul do Ceará, guarda além de uma beleza ímpar e inigualável, uma tradição e um conjunto de vultos históricos realmente marcantes; pela força de suas personalidades e pelo grau de bravura que imprimiram às suas trajetórias. Família inteiras ou simplesmente um ou outro personagem, despontam do cariri cearense para fazerem a história de nosso povo.

Um desses marcantes personagens sem dúvidas trata-se de Joaquim Vasques Landim; mais conhecido por Quinco Vasques. Patriarca de uma das mais tradicionais famílias de nosso cariri, do seio dos Terésios, de Santa Teresa, a família Vasques Landim, que protagonizou uma enormidade de episódios pitorescos e importantes dentro da história do coronelismo do sul do Ceará no inicio do século passado.

Um desses episódios que ficaria marcado no panteão caririense foi sem dúvidas o ataque de Quinco Vasques a cidade Lavras da Mangabeira, quando enfrentou o poderoso clã dos Augustos, tendo a frente a não menos emblemática Dona Fideralina. 

Era o mês de abril de 1910. A madrugada do dia 06 para o dia 07 guardava os preparativos para empreitada do bravo caririense rumo as terras da matriarca do clã lavrense dos Augustos. No poder em Lavras se encontrava o cel. Gustavo Augusto Lima, filho de Dona Fideralina. Quinco Vasques e seu grupo, cerca de cinquenta homens bem armados,  partiram da serra de São Pedro no atual município de Caririaçu, mas precisamente do sítio Bico da Arara. Ao longo do caminho outros homens se uniram à empreitada para a tomada de poder em Lavras, perfazendo um total estimado entre 150 a 200 homens em armas sob o comando de Quinco Vasques.


Cel. Gustavo Augusto Lima de Lavras da Mangabeira

O episódio em tela era mais um para ilustrar a verdadeira guerra que havia no sertão do cariri patrocinada pelos potentados locais em busca do poder de mando nos municípios do sertão sul do Ceará. Ocorrências da mesma natureza pontuaram por todo o inicio do século, quando em armas foram tomados e "retomados" o poder em quase todos os rincões caririenses, com destaques , dentre outros, para: Crato com a tomada do poder por parte do cel. Alves Pequeno derrubando o cel. Belém; em Missão Velha em princípio com o Cel. Santana e depois com o cel. Izaias Arruda, sem falar em nomes de destacados mandatários locais, como cel. Joca do Brejão em Barbalha, Totonho Leite em Aurora, Domingos Furtado em Milagres e Zé Inácio no Barro, dentre muitos outros, tendo por fim, provocado a polêmica reunião em 1911 em Juazeiro do Norte do "Pacto dos Coronéis", sob as benção de Padre Cícero e Floro Bartolomeu.

Voltando ao ataque de Quinco Vasques a Lavras no longínquo abril de 1910. As forças equivalentes em número de homens e em valentia e coragem de parte a parte, acabaram pendendo para os defensores de Lavras. A partir de pontos estratégicos dentro da cidade sitiada; como a própria "casa da rua" de Dona Fideralina; o coronel Gustavo Augusto Lima definiu a contenda vencendo os invasores sob o comando de Quinco Vasques.


Quinco Vasques 
Casa de Dona Fideralina no centro de Lavras: Dessas janelas foram rechaçados os homens de Quinco Vasques.

E recorrendo ao grande pesquisador, poeta e escritor Dimas Macedo por ocasião do Cariri Cangaço Lavras da Mangabeira em Maio de 2013: "Severo, destas janelas os homens do Coronel Gustavo rechaçaram os jagunços de Quinco Vasques"... E como já mencionei em outro artigo neste mesmo blog: - Me veio a cabeça esse verdadeiro "duelo de titãs", de um lado a força de todo um clã; dos Augustos de Dona Fidera e do outro a coragem e bravura de um homem da estirpe de um Quinco Vasques. 

Ao final da luta, os homens que não tombaram em combate e nem foram presos caíram no "oco do mundo". Quinco Vasques acabou preso pelos homens do cel. Gustavo Augusto Lima, entretanto após prestar depoimento acabou se safando da prisão pela força da influência notadamente do cel. Santana de Missão Velha e cel. Domingos Furtado de Milagres. 

Continua...

Manoel Severo - Cariri Cangaço

Fontes de Pesquisa: 
Venda Grande d'Aurora de João Calixto Junior;
Revista Itaytera em artigo de Joaryvar Macedo de 1964
Blog: http://familiavasqueslandim.blogspot.com.br/
Fotos: Família Vasques Landim

Delmiro e a Educação no Sertão Por:Edvaldo Nascimento


No dia 14 de fevereiro, quando o município de Delmiro Gouveia comemora 60 anos de emancipação, o professor Edvaldo Nascimento homenageia a cidade lançando o seu livro que fala sobre a educação no sertão de Alagoas. A obra, que traz como título “Delmiro Gouveia e a Educação na Pedra”, será mostrado aos delmirenses em noite de autógrafo na Escola Delmiro Gouveia. O lançamento reunirá a primeira edição, impressa pela Viva Editora, e a segunda, impressa pela Editora do Senado Federal, onde será distribuída a todos os professores presentes. 

No evento estarão reunidos amigos, representantes políticos e de diversos segmentos da cidade e do país, além de músicos e artistas, que farão apresentações para o público. Para o professor, o lançamento em Delmiro Gouveia será um misto de homenagem à cidade e celebração aos diversos amigos que conquistou ao longo dos seus 40 anos de vida.

Edvaldo Nascimento

“Para mim será uma honra poder lançar este livro em Delmiro Gouveia, a cidade que me acolheu e inspirou o meu trabalho exatamente na data em que a mesma comemora seus 60 anos. Desde já agradeço a todos que acreditaram nesta obra que é dedicada, acima de tudo, aos sertanejos. Este evento será um misto de festividade e celebração, onde estarei reunindo os diversos amigos que fiz durante os 40 anos de vida. Estou muito feliz em poder ter esta oportunidade”, frisou.

 “Delmiro Gouveia e a Educação na Pedra” é o resultado da dissertação de mestrado que Edvaldo defendeu em março de 2012, na Universidade Federal de Alagoas (UFAL), onde são analisados os processos educacionais implantados pelo industrial Delmiro Augusto da Cruz Gouveia no sertão. “É uma abordagem sobre educação no sertão dominado pelos coronéis da primeira república”, reforça o professor.


O livro esteve entre as obras lançadas na VI Bienal Internacional de Alagoas, em outubro de 2013, e reuniu um grande público. Representantes de diversos segmentos, de Maceió e do sertão, estiveram presentes prestigiando o evento.  Intelectuais, artistas, reitores, dirigentes partidários, empresários, representantes do poder público e do judiciário, estudantes e escritores foram saudar o autor.

Para Edvaldo ter um livro lançando durante a Bienal é uma honra. “Este evento tem reunido grandes autores brasileiros, além do considerável número de visitantes, tornando-se o maior evento literário de Alagoas sendo, portanto, uma honra para mim ter lançado meu livro neste evento. Fico feliz em ver a história de Delmiro sendo reconhecida e só tenho a agradecer aos amigos que estiveram comigo, celebrando mais este trabalho. Foi realmente uma grande satisfação”, disse.


O historiador participou ainda do lançamento da reedição do livro Fábrica da Pedra, de autoria do jornalista Pedro Motta Lima, (In memoriam), onde Edvaldo escreveu o posfácio. O evento, realizado no estande da Editora do Senado Federal, reuniu o presidente do Senado Renan Calheiros, o governador de Alagoas Teotônio Vilella, a antropóloga Luitgarde Oliveira Cavalcanti Barros, o neto de Pedro Motta Lima, e o neto do autor André Motta Lima, entre outros convidados.


O professor Edvaldo estuda o sertão de Alagoas e seus personagens há mais de 15 anos e é considerado um dos principais pesquisadores da vida e da obra de Delmiro Augusto da Cruz Gouveia, industrial nascido em Ipu, no Ceará, e que modernizou o Recife e viveu seus últimos quinze anos de vida no sertão alagoano, onde construiu a primeira Usina Hidrelétrica do Nordeste, Angiquinho (1913), implantou um Núcleo Fabril e uma Fábrica de Linhas (1914). 

Cariri Cangaço

As audácias de um Celerado Parte 2 Por:Manoel Neto

Manoel Neto

Ao posar em 1936, com todo o seu bando, incluindo as mulheres para as lentes de Benjamin Abrahão, nos legando imagens únicas, Virgolino Ferreira demonstrou que  apercebera-se da passagem dos anos, da aproximação  progressiva de certas modernidades, tendentes a torná-lo menos recluso, mais visível. O insulamento nas caatingas inóspitas, nos coitos reservados, afigurava-se cada dia mais complicado. Pesava, todavia, o fato do novo, conquanto, fascinante e facilitador de comodidades, não deixar de oferecer perigos, sendo por consequência um ente de dupla face. Luiz Bernardo Pericás escreve com lucidez sobre esta dicotomia lampiônica: “O que se pode perceber em certos momentos  em relação ao cangaço, é que havia uma revolta em seu duplo sentido; ou seja, uma volta, um retorno a certas práticas e valores arcaicos, assim como um estado de rebeldia. Tanto místicos como cangaceiros se defrontavam com um mundo em rápida transformação. [...] Por outro lado, paradoxalmente, também mostrarão interesse em se inserir no mundo moderno. Tentarão, de sua própria maneira, muito particular, fazer parte dele e ser aceitos pela modernidade”. (PERICÁS, pp.164-172)

Entendemos não ser uma característica exclusiva do cangaço essa convivência inquietante entre o novo e o moderno. Os sinais que apontam o final de um período, de uma era, carregam endogenamente os indicadores dos novos tempos que se anunciam irreversíveis nas conquistas das ciências, nos avanços da tecnologia e das relações sociais, com as inevitáveis inovações de hábitos e costumes. O mesmo Pericás complementa sua análise afirmando que “afinal de contas os tempos históricos se cruzam e sobrepõem. Nesse sentido arcaísmo e modernidade andavam juntos. [...] Lampião comprava ou se apropriava de tudo o que pudesse representar uma novidade para melhorar a vida do seu bando, fosse um produto essencial ou específico”(idem, p.172).


Não há dúvida, queremos crer, que períodos de transição geram sempre perplexidades, desafios e reações. Não há como negar, os cangaceiros estavam compreensivelmente incomodados com algumas mudanças, o que não os impediu de serem esteticamente renovadores em suas roupas e objetos vistosamente coloridos. Ao admitir a presença feminina de forma contínua nos bandos, romperam com longa tradição que vedava a incorporação das mulheres àquele ambiente. Quebraram tabus e desafiaram velhas superstições, conquanto, alguns deles se mostrassem refratários e temerosos das consequências. Nada mais natural.

Por menos não faziam as forças repressivas. Além de tratados de cooperação entre os estados, o que abria as fronteiras entre as regiões atingidas, os governos estaduais premidos pelas constantes notícias de saques, latrocínios, violências sexuais e outros ilícitos cometidos pelos bandoleiros, viram-se politicamente compelidos a enfrentar de maneira mais sistemática o problema que afligia milhares de pessoas. Superadas as dificuldades primeiras do Governo Provisório advindo de 1930 e, sedimentada a Nova Ordem, com a suplantação dos rebelados paulistas de 1932, a República decidiu finalmente voltar-se para o renitente problema do cangaço. Ao final dos anos 20 os tempos já estavam dificultosos para Lampião e seus seguidores, razão da sua fuga para Bahia em agosto de 1928, exaustos pela perseguição intermitente, notadamente da Polícia pernambucana. Em terras baianas e no vizinho Sergipe ele gozaria de certo conforto e tranquilidade, descansando na fase arroz doce, mas logo baianos e sergipanos conheceriam a salamanta.

A polícia baiana surpreendida nas primeiras escaramuças com o modo inusitado de lutar dos cangaceiros sofreu sensíveis perdas nos entreveros iniciais. Desconheciam as sutilezas na forma de combater dos homens vestidos de mescla e ornados de ouro. Balão, no registro civil Guilherme Alves, sobrevivente das escaramuças catingueiras resume brilhantemente esta maneira diferenciada de lutar “Soldado morria porque vinha de peito aberto. Cangaceiro não dá peito nem as costas, briga de quina. Um homem de quina é uma faca”. É de outro bandoleiro, conhecido como Guará, a síntese perfeita da tática de combate adotada pelos cangaceiros”: “A gente nesse mundo só vadeia quando pode”, ou seja, a briga só era topada quando havia possibilidade de êxito ou quando se afigurava inevitável. Texto letrado confirma a afirmativa do comandado de Virgolino: “Consciente de sua posição de mais fraco, Lampião, por isso mesmo, jamais abdicou da sua posição de mais astuto” (MATTA MACHADO, p. 62).




Posteriormente não só investimentos financeiros foram injetados na campanha, como também, recursos humanos adestrados a geografia dos combates – os conhecidos contratados e cachimbos – entre os quais rastejadores com conhecimento profundo do terreno a ser percorrido, além de equipamentos e material bélico mais moderno, introduzidos para facilitar a mobilidade dos efetivos policiais. Tantas eram as semelhanças entre os grupos, bandidos e volantes, no que concerne o trajar e o comportamento de muitos deles, que incontáveis vezes os próprios sertanejos tinham dificuldades em diferenciá-los. O terror, a intimidação, a tortura física e psicológica eram expedientes utilizados por ambas as facções. Ao meio, acuadas, centenas de famílias sertanejas, na sua imensa maioria remediadas, pobres e miseráveis, entregues a própria sorte. Vez por outra um coronel ou uma baronesa pagavam algum tributo.

Residência da Baronesa de Água Branca.
Lampião assaltou o  local em 1922, levando joias valiosas.  

Humberto de Campos, sempre imaginativo e noticioso, guardava na algibeira novas linhas sobre as andanças do mais famoso dos Ferreira de Vila Bela: “Agora, vem de Petrolina, nas margens do S. Francisco, a notícia de que Lampião instituiu em todo o Nordeste flagelado pela seca o voluntariado para composição e desenvolvimento de suas tropas. A diária é de 10$000, com cavalo, mulher e comida. Não dá casa porque seu quartel é o tempo, e tem por teto o firmamento beliscado de estrelas, e uma cama em cada pedra, e um armador de rede em cada árvore, e um banheiro fresco em cada riacho vadio”. (CAMPOS, p. 39).

A seca, esta nos parece a de 1932, varria inclemente todo o Nordeste. Repetia-se a macabra procissão humana a deambular sem eira nem beira, em busca de trabalho e alimento. O estro popular documentou o desenrolar do drama denunciando com veemência os alojamentos implantados no Ceará para onfinar os retirantes dispersos e famintos:           
                                                 
‘No Estado do Ceará
A exemplo do alemão
Houve por aqui também
Campo de concentração
Lá era pra matar judeu
Aqui o povo do sertão.

Na seca de trinta e dois
Criamos uns sete currais
Para evitar que famintos
Criassem problemas sociais
E pudessem invadir
Na capital seus mananciais”

No raciocínio do experiente cronista, ele que também exercera mandato parlamentar, esta trágica conjuntura conspirava a favor dos cangaceiros. Todavia, essa é matéria controversa. Se para alguns estudiosos os períodos de crise favorecem e incrementam as atividades dos grupos marginais atuantes no sertão, para outros nem sempre esta análise se ajusta aos números e aos fatos. Autor a quem já fizemos menções em capítulos anteriores deste trabalho, Luiz Bernardo Pericás argumenta: “É claro que fatores conjunturais nacionais e internacionais afetam a vida política, econômica e social de uma nação dentro de suas características particulares. [...]  O cangaço é uma modalidade que se originou muito antes de qualquer crise específica. Assim algumas crises podem ter aumentado as fileiras do cangaço. Mas  a crise em si não é o fator primordial para o surgimento e a existência desse fenômeno [...] Ainda há outro detalhe a destacar aqui. Uma parcela significativa da população pobre não entrava para o cangaço, mas os cangaceiros com seus grupos de bandoleiros já organizados, atacavam o povo humilde do sertão”. (PERICÁS, pp. 144, 150).

A escassez de chuvas, em períodos frequentes e prolongados, incide de forma diferenciada sobre os viventes dos sertões. Foi assim antes, nos tensos tempos do cangaço, das agitações sociais e políticas dos anos 30 do século XX e ainda hoje permanece sendo um flagelo para todos, porém, muito mais rigoroso na vida dos desvalidos. Certo é que a grande maioria e não somente parcela significativa dos sertanejos se manteve distante da marginalidade profissional, aliás, a professora Luitgarde Barros, afirma peremptoriamente isso, não somente em seus trabalhos, livros e artigos, como em suas inúmeras conferências e palestras por todo o Brasil. Ainda que não seja o fator mais crucial para a eclosão e desenvolvimento do cangaço no Nordeste, a seca tem considerável contributo para o agravamento do problema. Sabemos que a justiça, o amparo social efetivo, sistemático, o atendimento médico e a educação, a justa distribuição da terra, o trabalho rural reconhecido, respeitado e dignamente remunerado eram apenas quimeras na vida do homem pobre do campo, quadro que se agravava dramaticamente durante as longas estiagens, porquanto, a tudo isso se somava a fome e o desespero.

A violação reiterada dos seus direitos, a desonra familiar seguida da impunidade do agressor, muitas vezes oriundos das grandes propriedades, as querelas familiares e clânicas costumeiramente mal resolvidas com o beneficiamento dos apaniguados do poder, minavam a resistência física e insultavam moralmente as vítimas que entregues a própria sorte acabavam por ingressar no cangaço ou na Polícia, abandonando por completo a pacata existência até então desfrutada. 


Quanto a romântica e poética descrição da vida cangaceira feita por Campos, colocando-a num universo idílico, fica por conta da fértil imaginação do autor, pois o céu beliscado de estrelas e um banheiro fresco em cada riacho vazio, não correspondem a realidade de um cotidiano permeado de sobressaltos, fugas constantes e o desconforto das longas caminhadas, das noites mal dormidas, da entrega dos filhos paridos nos coitos ou mesmo entre cactos e bromélias, aos cuidados de terceiros, filhos perdidos para sempre, com algumas exceções, é claro.

Tomado pela ideia de uma adesão maciça de camponeses sequiosos não só de água, como também, de justiça, pão e trabalho, o jornalista especula que “em breve terá ele (Lampião) centenas, senão milhares de combatentes destemidos” (CAMPOS, p. 39), antevendo, não sem uma boa pitada de sarcasmo, os próximos passos de um Capitão Virgolino senhor de muita coragem e ousadia, de muitos rifles para a luta e de braços dados com a modernidade. “E agora é que vamos ver de quantas pedras se faz uma coluna. Lampião é insolente, arrogante, audacioso. Formado o seu exército de sertanejos aguerridos, não descansará. Investirá vilas e cidades. Tomará as vias férreas, movimentará locomotivas e automóveis, descerá para o litoral.
 

Manoel Neto
Centro de Estudos Euclydes da Cunha – CEEC
UNEB - Bahia

Mentiras e Mistérios de Angico Por:Aderbal Nogueira

Antônio Amaury, Aderbal Nogueira e Sabino Bassetti: Mentiras e Mistérios no Cariri Cangaço 2011 em Crato, Ceará.

Meus amigos, os depoimentos do vídeo abaixo, servem para elucidar ou complicar mais ainda a vida de quem pesquisa o cangaço. Lampião, armas, João Bezerra, traição, veneno, etc. Não quero aqui fazer inimizades por registrar o pensamento dos colegas pesquisadores, pois acho que cada um tem o direito de pensar como quiser. Se todos pensássemos igual o que iríamos discutir? Que sentido teria a história? A história é feita das controvérsias. Respeito todos os pensamentos e não perco amizade nenhuma por conta disso. Confira clicando no link abaixo:

http://youtu.be/NTXy2ynWFHE

Abraço.
 
Aderbal Nogueira
Sócio da SBEC, Diretor do GECC
Conselheiro Cariri Cangaço
 

Lampião e seus Cabras: Representações do Cangaço na Cultura Popular Por: Caio Cesar


Os estudos sobre o cangaço estão presentes nas diversas áreas da pesquisa histórica, uma vez que essa temática foi e continua sendo um ponto de discussão sobre o qual emergem diversos questionamentos que contribuem para a produção de pesquisas acadêmicas e profissionais.
Do ponto de vista da historiografia, muitos estudos referentes ao cangaço já foram produzidos, o que corrobora a importância de tal assunto para a história regional e nacional. A maioria dos estudos realizados se debruça sobre o movimento em questão, bem como o resultado material de suas ações pelos sertões do nordeste brasileiro. Porém, cabe salientar que a presença o cangaço tem sua importância reconhecida não apenas devido às proporções que o movimento tomou ao longo de décadas. Uma das marcas deixadas pelo cangaço foi a forte influência nas formas de representação cultural.
O movimento do cangaço tem uma presença marcante em diversos segmentos da cultura popular do Nordeste brasileiro. As influências podem ser facilmente percebidas, merecendo destaque a literatura pela vasta produção sobre o assunto. Mas essas influências não estão restritas ao campo da literatura, elas também aparecem com bastante solidez no teatro, na música, nos grupos de bacamarteiros, na culinária, no artesanato, no cinema, enfim, numa série de manifestações que retratam o cotidiano popular.
O artesanato regional é um forte repositório dos elementos figurativos e representativos do movimento. Em qualquer ponto turístico da Bahia ao Ceará é possível encontrar diversas lembrançinhas que remetem a figura dos cangaceiros. Outro repositório são as feiras livres, que vendem a céu aberto vários utensílios típicos da época e que remonta ao período do banditismo social e a ação dos cangaceiros nos sertões como os típicos chapéus e sandálias em couro, armas brancas como facas e facões, lamparinas, esteiras, chapéus de palha, enfim, uma série de elementos que eram utilizados no dia-a-dia por Lampião e seu bando.
Uma das maiores formas de representação e difusão do cotidiano do cangaço são as quadrilhas juninas, desde aquelas que apresentam o casal de cangaceiros Lampião e Maria Bonita, até as que trazem no nome a referência ao cangaço. Um dos refrões mais conhecidos do grande público: “Acorda Maria Bonita! Levanta vem fazer o café, que o dia já vem raiando e a polícia já ta de pé.” é presença garantida na maioria das quadrilhas juninas, e mostra como era o dia-a-dia de um grupo de cangaceiros: acordar cedo, preparar algo para comer e logo em seguida sair em fuga para escapar das forças volantes.


A existência dos elementos representativos do cangaço na cultura popular como observamos, é uma realidade que a todo tempo se mostra presente no nosso dia-a-dia. Por vezes, é comum que esses detalhes passem despercebidos aos nossos olhos, mas basta observar ao nosso redor e veremos que ainda se mantém viva as tradições e as memórias de Lampião e seus cabras em na região, e cabe a pesquisa histórica e principalmente as futuras gerações preservar esse patrimônio tão rico e memorável que são as tradições, as representações, enfim, a cultura popular, maior marca da identidade de um povo.
Caio César Santos Gomes - Graduado em História pela Universidade Tiradentes (UNIT); Pós-graduando em Ensino de História pela Faculdade São Luís de França (FSLF)
Fonte:http://meuartigo.brasilescola.com

A Visita de Candeeiro a Fortaleza Por:Aderbal Nogueira

Candeeiro, Aderbal Nogueira e dona Linda, esposa de Candeeiro

Amigos, em 2001, Manoel Dantas de Loyola, ou o Candeeiro, ex-cangaceiro do grupo de Lampião quis retornar a Fortaleza. Eliza , sua filha, me ligou às 8 h da noite dizendo que o pai queria rever os locais que aqui ele esteve na época que seguiu para o Amazonas para ser soldado da borracha, em 1943.

No outro dia às 15h eu estava em Buique junto com Paulo Gastão para atender a seu pedido. Visitou os lugares onde ficou alojado para seguir como soldado da borracha e conheceu um pouco de Fortaleza. Passou 5 dias aqui em minha casa onde pude levá-lo para conhecer Christiano Câmara, outro amigo querido.

Abaixo segue o link de um pequeno vídeo com imagens dessa visita que junto com outros personagens vai fazer parte de um grande projeto que está em andamento.


Abraço 
Aderbal Nogueira
Documentarista, sócio da SBEC
Diretor do GECC e Conselheiro Cariri Cangaço

NOTA CARIRI CANGAÇO: Aproveitando o recado e a memória de nosso estimado amigo Aderbal Nogueira, convidamos a todos para também acompanhar um pouco da visita que a Caravana Cariri Cangaço realizou a Buique e a Candeeiro em Fevereiro de 2012, vale a pena conferir clicando no link abaixo: 

http://cariricangaco.blogspot.com.br/2012/02/candeeiro-e-caravana-cariri-cangaco.html

Nesta Terça : Reunião GECC - Cariri Cangaço


Convidamos a todos os confrades para nesta terça-feira, dia 04 de fevereiro, a partir das 19 horas, participar de mais uma Reunião do GECC Grupo de Estudos do Cangaço do Ceará e  Cariri Cangaço.

Auditório Sede da ABO  
Associação Brasileira de Odontologia
Rua Gonçalves Ledo, 1630  
Bairro Joaquim Távora
Fortaleza, Ceará

Ângelo Osmiro
Presidente do GECC
Manoel Severo
Cariri Cangaço

Ensinar, aprender e reportar os territórios do cangaço Artigo por:Josias Silvano de Barros


O fundo maniqueísta primitivo das antigas obras literárias sobre o cangaço e a candidez “matuta” dos artistas populares do Nordeste transformou o cangaceirismo numa fantasia, contada e/ou ensinada como uma lenda. Por um lado, a história de Lampião foi reportada e associada ao imaginário popular, na construção do “super-herói” – tirar do rico para dar ao pobre. Numa outra esfera, a imagem de Lampião foi associada ao bandido cruel, sanguinário e assassino de crianças, dentro outros adjetivos. Neste caso, procuraremos analisar a complexidade que a figura de Lampião assume no contexto territorial do Nordeste brasileiro, sob o âmbito do surrealismo da Literatura de Cordel (utilizamos neste ensaio um total de seis cordéis). Nosso método de trabalho está alicerçado à luz do método de Análise de discurso, haja vista que se trata de um método que tem por base a análise da linguagem. De acordo com Orlandi (2004), a linguagem não é só usada com o objetivo de comunicar e informar literalmente as informações, ela funciona na relação com o político, com a subjetividade, com a ideologia. Assim, interpretamos que a literatura de cordel é uma tradução dos saberes de um povo. A própria memória humana, daí tais narrativas serem carregadas de significados.

O banditismo social do interior do Nordeste brasileiro, caracterizado pelos cangaceiros, tornou-se um marco sócio/cultural para a história da região. Os cordelistas foram os maiores divulgadores das façanhas dos cangaceiros, com ênfase no personagem Lampião. De acordo com barros (2008), o principal intuito destes artistas populares era levar a informação de forma divertida e diferenciada (tirando da alma a arte para perpetuar a sabedoria popular) para milhares de sertanejos que dispunham apenas de conversas entre vizinhos para se manterem informados. Ou seja, faziam o papel de repórteres/jornalistas, com narrativas apoiadas em suas seus imaginários, em suas condições sociais, de forma a endeusar ou endiabrar a figura do rei do cangaço.
O personagem Lampião cumpre o papel de bandido e/ou justiceiro que povoou o sertão nordestino de 1922 a 1938. Época em que a escolha pela vida de bandoleiro podia ocorrer a partir de uma ofensa vingada e seguida de perseguição policial. O isolamento do vingador, nestes casos, seria fatal. Era hora de buscar se fortalecer junto a um protetor respeitado e, assim, a opção mais concreta era “cair no cangaço” e fazer parte de um bando. A partir deste momento, sua vida seguiria um trajeto aventureiro, ousado, incerto, perigoso para si e para quem fosse considerado seu inimigo.

Segundo Barros (2008), Lampião continua vivo na memória dos literatos. Para o nordestino pobre é um herói, e continuará a sê-lo, o paladino da justiça, o simplesmente, o Robin Hood da Caatinga sertaneja. Certamente, o “bandido não só é um homem, como também um símbolo”. (HOBSBAWM, 1975 p.128). Símbolo distorcido de uma reação a uma situação real, lances de coragem, ações e grande estratégia, revelavam enorme inteligência. Ele vivenciou sua condição de lenda em plena juventude.
Diante do exposto, buscamos no surrealismo da Literatura de Cordel uma resposta para a complexidade que a figura de Lampião assume no contexto do Nordeste a partir das diferentes narrativas desencadeadas pelos artistas populares do Nordeste (neste caso, o cordelista) como forma de veiculação das notícias corriqueiras. Portanto, procuraremos compreender a concepção da literatura de cordel, enquanto narrativa de comunicação, assim comoidentificar os arquétipos do exorcismo do cangaço que conferiu ao cangaceiro a estátua de herói/bandido épico que transformou em ícone a imagem de Lampião.
Neste viés, procuraremos desenvolver uma maior reflexão, através de fatos políticos, econômicos e sociais, os valores culturais que alimentam na imaginação popular do ator/cordelista – na antologia do mito do cangaço –, a construção de uma representação simbólico/maniqueista e/ou dualista do personagem Lampião.

Breves considerações teóricas...
Entre as diferentes manifestações culturais e históricas da região nordestina, está a literatura de cordel, que propaga os aspectos folclóricos, na medida em que expõe diversos costumes, personagens (sejam eles imaginários ou reais), crenças, fábulas, histórias e tradições. E, para tanto, se utiliza de uma linguagem variada. Em alguns casos, utilizando-se do humor e da sátira, para expor seus objetivos. Isto é, para abordar diversas temáticas do cotidiano das pessoas (SILVA et al..., 2010, p.7).
Nosso estudo está relacionado à complexidade que a figura do personagem Lampião assume no contexto social do Nordeste brasileiro, à luz da Literatura de Cordel. Neste caso, nos pautaremos em alguns discursos da literatura popular para tentar compreender a epopeia do cangaço enquanto narrativa de comunicação. Para tanto, nos respaldaremos nos artistas populares, em especial aqui, o cordelista – aquele que escreve a Literatura de Cordel – para nos aproximarmos dos arquétipos do exorcismo do cangaço que conferiu a Lampião a estátua de herói/bandido, ou seja, um ícone nacional.

Através do cordel, o poeta põe em relevo desde as agruras do povo nordestino, que se materializam através da fome, de tensões sociais, de pobreza e de dificuldades de condições sociais, até a riqueza artística e cultural, imanentes ao povo da região. Mesmo diante das adversidades, o poeta de cordel não perde de vista sua sensibilidade poética, o que lhe permite inventar e reinventar, no texto cordelino, o que percebe no mundo social e o que compreende dele, de modo a levar ao seu público os dilemas que nele existem, sem, no entanto, deixar de imprimir aos versos uma beleza estética (ARAÚJO, 2007, p. 23-24).
Diante da materialidade dos folhetos de cordéis identificamos um discurso representativo dos temas mais vivenciados pelos atores nordestinos. “Ela reflete as vivências, a imaginação, a fé, a devoção do povo nordestino e, por conseguinte, possibilita a investigação dos mais diversos processos culturais” (SILVA,etal..., 2010, p.6). Haja vista que nos estudos sobre o cordel cada procura traz marcas da época em que se foi feito.
Desde o ciclo do cangaceiro transformado em herói ou com a sua revolta justificada, até a atual substituição das aventuras daqueles personagens “por estórias de sertanejos valentes, ao mesmo tempo que os reis foram transformados em fazendeiros ou senhores de engenho” e os encontros com a polícia “em luta com vigias e capangas”, há indícios de uma reação, que situa – “contra a aplicação da justiça no interior brasileiro” e contra a polícia, “às vezes com métodos muito mais nocivos do que dos próprios cangaceiros” (BELTRÃO, 2001, p. 153-154).
Desta feita, a poesia do cordel é contada em forma de verso, porém com toda uma ideologia simbólica da tradução de um território secularmente reconhecido pelos desacertos sociais, pelas secas permanentes, pelas peculiaridades locais e pelo dualismo social, o território nordestino. De acordo com Silva (2008), o cordel seria uma forma de tradução da vida e dos valores nordestinos, ou melhor: as vozes e (inter) discursos que constituem as representações sociais do Nordeste.
A comunicabilidade dos folhetos agregava pessoas e, com isso, eram disseminadas informações sobre uma variedade de assuntos. O cordel, além de ser utilizado como deleite, funcionava, sobretudo, como uma forma de ensinar para o povo um conhecimento que provinha dele mesmo (ARAÚJO, 2007, p.26).
Os cordéis, folhetos e livretos possuem uma carga simbólica que nos remetem a uma visão positivista do Nordeste do Brasil. Ao mesmo tempo, as características de tais traduções culturais estão relacionadas a uma tradição oral, em que a sua forma escrita busca preservar a oralidade do povo sertanejo, devido ao fato do cordel ser feito não apenas para ser lido, mas sim para ser ouvido, e construído por quem produz do povo e para o povo.


Atuando na vida cultural nordestina, o poeta de cordel expressa, em seus folhetos, sua sensibilidade diante do mundo. Ele também imprime, nesses poemas, de forma crítica ou mesmo conservadora, características próprias de seu fazer poético. Um fazer calcado em experiências de vida, que se materializam nos textos e nos versos, através da representação, interpretação e compreensão do cotidiano de homens e mulheres comuns (ARAÚJO, 2007, p.23).
Neste caso, compreendemos o cordel como a conectividade para a rede da memória, reflexo da escolha coletiva, como também narrativas de reportagens de época, protagonizadas por um poder paralelo ao Estado, o poder dos cangaceiros. Portanto, o cordel seria o elemento representativo da cultura popular nordestina, já que, em nosso caso, temos uma ideia baseada na subjetividade e na identidade do narrador, o cordelista, que reportou as aventuras do cangaceiro Lampião num complexo dualismo de imagem social (vingador/justiceiro, herói/bandido), diante da condição teatral do palco místico chamado sertão.
Considerações finais...
Os cordelistas imortalizaram a figura de Lampião, tornando-o “herói” nacional. Quase que unanimemente todos os cordelistas escreviam sobre a vida dos cangaceiros, o que até os dias atuais ainda acontece. E foi na antologia do cangaço que Lampião “se tornou rei absoluto e que lhe forneceu o passaporte para a imortalidade pelas vias da história, da literatura e do folclórico” (MELLO, 1993, p. 96).
Os folhetos, pertencentes à literatura de cordel, são o jornal, o romance do trabalhador da zona rural... narram feitos de heróis ladinos...falam de sertanejos valentes e da vida de cangaceiros célebres, contam estórias de Trancoso, apresentam romances de amor de final feliz, registram acontecimentos importantes da região...neles estão registrados as impressões do povo a respeito de acontecimentos sucedidos no município, no Estado, em todo país...a maneira de ver e analisar os fatos sociais, políticos, religiosos da gente rude...denunciando costumes, preferências e julgamentos (BELTRÃO, 2001, p. 155). Neste viés, a literatura de cordel consiste num recurso de comunicação popular, uma vez que aborda fatos do dia a dia das pessoas e, sobretudo, retrata aspectos culturais de determinada região. “O poeta-jornalista resume, sintetiza, com o mesmo objetivo: tornar acessível à compreensão da massa rude um tema difícil que, na linguagem oficial, ficaria ignorado” (BELTRÃO, 2001, p. 159). Portanto, de acordo com Silva (2008), no âmbito discursivo, as condições de produção envolvem uma conjuntura social, cultural, política, histórica e ideológica; na situação enunciativa, implicam um sujeito que fala ao outro, via cordel.
Segundo Araújo (2007), “nas complexas redes de relações sociais e culturais tecidas no cotidiano, os saberes e as práticas produzidos pelos sujeitos sociais encontram no cordel sua visibilidade, pois essa forma de poesia narrativa em verso fala, quase sempre, das pessoas ordinárias, comuns e de suas vivências” (ARAÚJO, 2007, p. 30). O cordel, representação do Nordeste, fala de sua gente, de seu sofrimento, de suas humilhações, de seus sonhos... há muito tem influenciado romancistas brasileiros, a exemplo de José Lins do Rego, “Cangaceiros” (1953); de Graciliano Ramos, “Vidas Secas” (2000), e Ariano Suassuna, “A Pedra do Reino” (2005).


Ao fornecer meios para a interpretação e compreensão da sociedade, o cordel tem representado não só o Nordeste, mas também, o Brasil, através dos conteúdos que tematiza. Têm sido múltiplos os caminhos dos folhetos de cordel, porque elaboram desde histórias fantasiosas, passando por aquelas em que os poetas populares ainda se pautam numa visão mais conservadora da sociedade e da cultura, até outras que apresentam uma postura mais crítica do mundo e da vida (ARAÚJO, 2007, p. 214).
Numa esfera mais ampla, podemos interpretar que Lampião continua vivo na memória dos literatos. Para o nordestino pobre é um herói, e continuará a sê-lo, o paladino da justiça, ou metaforicamente, o Robin Hood da Caatinga sertaneja, já que nos discursos da literatura popular há a possibilidade de interpretação do surrealismo as situações reais. Portanto, de acordo com Beltrão (2001), o Rei – personagem todo poderoso, senhor de riquezas e terras, comandantes de exércitos e distribuidor de benesses e castigos é substituído pelo “coronel do sertão”.
É o surrealismo, o mito e a lenda do cordel que constituem a dimensão sócio/cultural da força da literatura regionalista (BARRO, 2008). Assim, o personagem Lampião assume relevante papel no marketing de representação do cangaço, nos relatos dos cordelistas. Não obstante, a literatura de cordel seria a tradução dos saberes do povo. Seria a própria memória humana, daí tais narrativas atravessarem o tempo e o espaço e nos trazerem hoje, revestidos de representações e territorialidades, em pleno século XXI, valores de uma realidade dos fins do século XIX e início do XX.
Lampião vivenciou sua condição de lenda em plena juventude.
Josias Silvano de Barros é geógrafo e estudante de Comunicação Social, Gurinhém/PB                                  Artigo apresentado no 8º Seminário “Os Festejos Juninos no contexto da Folkcomunicação e da Cultura Popular”, Campina Grande (PB), 2011, na modalidade Comunicação Científica
Fonte:http://www.observatoriodaimprensa.com.br

O Ceará de Nogueira Accioly: O poder em Fortaleza Parte 3 Por:Manoel Severo

Passeata das Crianças: Revolta Urbana de 1912 pelas ruas de Fortaleza

Voltemos a janeiro de 1912, mês em que se consagraria o movimento de derrubada da oligarquia acciolina, comandada por vinte anos (1892 a 1912) com punhos de aço pelo senador e presidente do Ceará, Nogueira Accioly, cabe um capítulo interessante para comentarmos a base de apoio de Accioly na capital cearense: Interventor Guilherme Rocha.

Interventor Guilherme Rocha

Guilherme Rocha era natural de Fortaleza, coronel da Guarda Nacional, chegou a ser presidente da Câmara Municipal e vice-presidente do estado do Ceará; por todo o período em que Nogueira Accioly mandava no estado, Guilherme Rocha se manteve no poder, inclusive se perpetuando como interventor da capital entre os de 1892 a 1912, exato período da absoluta supremacia acciolina do Ceará.

Se por um lado o governo de Accioly foi marcado por desmandos e descasos de toda sorte, a passagem de Guilherme Rocha pelo governo de Fortaleza foi marcado por um conjunto de obras físicas que se consagraram até os dias de hoje. A preocupação do interventor em embelezar a cidade acabou proporcionando a construção de prédios públicos e praças que marcariam a capital cearense por muito tempo, como os jardins das praças do Ferreira, Sé, Coração de Jesus e do Carmo, igrejas com o "Pequeno Grande" e do "Carmo" sem falar no majestoso e famoso Teatro José de Alencar, na antiga praça Marques de Herval, hoje praça José de Alencar. Dizia-se que o governante queria imprimir um "jeito europeu" de viver, na capital cearense.

Teatro José de Alencar, uma das fantásticas obras de Guilherme Rocha

Apesar de nomeado intendente já na época da república (1892) , Guilherme Rocha, copiando seu chefe político; Nogueira Accioly; também teve sua vida pública iniciada bem antes, quando no império já era Cônsul da Bélgica, além de vereador e presidente da câmara municipal .  Com a proclamação da república assumiu o cargo de agente do Loyde Brasileiro em Fortaleza além de Comandante Superior da Guarda Nacional, sendo um dos sustentáculos do Partido Republicano Federal liderado por Accioly, que haveria de eleger toda a bancada para a Câmara dos Deputados e Assembléia Legislativa.  


Fuga de Nogueira Accioly após levante de 1912

Ao final dos três dias em que a capital cearense tornou um verdadeiro campo de batalha, de 21 a 24 de janeiro de 1912,  dois dos principais alvos dos oposicionistas foram as casa de Nogueira Accioly ; localizada na esquina das ruas 24 de maio e Tv Municipal (hoje rua Guilherme Rocha) ; e a do intendente da capital, Guilherme Rocha que ficava na praça do Liceu. Ambas foram incendiadas pela população enfurecida.

Guilherme Rocha caiu junto com seu líder Nogueira Accioly em Janeiro de 1912, caia ali o mais longo governo que a capital cearense iria conhecer: 20 anos. Guilherme Rocha, nascido em 1846 viria a morrer 16 anos após a revolta de 1912, em Fortaleza em julho de 1928.

Continua...

Manoel Severo
Cariri Cangaço

Perfil de Joaryvar Macedo Por:Dimas Macedo

Joaryvar Macedo

Falar da personalidade e, principalmente, da obra literária e historiográfica de Joaryvar Macedo constitui tarefa que dignifica e ao mesmo tempo põe em desafio a argúcia do intérprete, vez que estamos a tratar de um homem de letras que “notabilizou-se como um dos mais autênticos pesquisadores da história do seu Estado”.  

Considerado por Raimundo Girão como sendo “o mais abalizado historiador do sul do Ceará”, Joaryvar Macedo nasceu no Sítio Calabaço, a oito quilômetros da cidade de Lavras, aos 20 de maio de 1937, sendo filho de Antônio Lobo de Macedo, poeta popular e político influente em seu município, e de Maria Torquato Gonçalves de Macedo.

Na terra natal estudou as primeiras letras com as professoras Teresita Bezerra, Irony Gonçalves, Adelice Macedo e Nícia Augusto Gonçalves, entre outras. Posteriormente, foi aluno do Seminário Diocesano do Crato e do Seminário Arquidiocesano de Fortaleza, cursando inclusive Teologia nos Seminários Arquiepiscopais de Olinda, Recife e João Pessoa. Em 1965, ingressou na Faculdade de Filosofia do Crato, por onde se licenciou em Letras, colando grau aos 7 de dezembro de 1968, sendo na oportunidade orador oficial da turma, possuindo ainda curso de pós-graduação em Metodologia do Ensino Superior pela Universidade Católica de Salvador.


Depois de formado, abraçou a carreira do magistério, principalmente como professor da Faculdade de Filosofia de Crato e de vários estabelecimentos de ensino de Juazeiro do Norte. Ensaísta e historiador, em 1974 fundou o Instituto Cultural do Vale Caririense, que dirigiu por mais de uma década e do qual foi aclamado presidente perpétuo, dedicando-se, como pesquisador, aos estudos da formação étnica, histórica e cultural do Cariri.

Sendo admirável “a extensão de sua cultura e a perseverança de suas linhas de pesquisa, qualidades que escondia atrás de uma personalidade simples e de aparência tímida”, como bem acentuou o escritor Murilo Martins, o certo é que Joaryvar Macedo, “revelando uma excepcional tendência para a pesquisa histórica, sua atuação nessa área logo se mostrou tão ampla e profunda, que se passou a ver na projeção do seu trabalho um desdobramento da escola instaurada por Irineu Pinheiro e padre Antônio Gomes de Araújo, fixando-se neste último a sua linha de ação”, consoante a observação de F. S. Nascimento.

Sobre a evidência de ser Joaryvar Macedo o representante mais legítimo e o mais profundo continuador da escola histórica do Cariri, em 1984, no meu livro Leitura e Conjuntura, eu já havia afirmado o seguinte com relação à sua envergadura de intelectual: “Joaryvar Macedo é um escritor inquieto, porém um homem polidamente tratável. É valor maior das letras sul-cearenses no momento atual, porque, quem começar a leitura da história da Região Caririense pelas obras de Irineu Pinheiro, e resvalar pelos ensinamentos do padre Antônio Gomes de Araújo, terá fatalmente que ancorar nos seus trabalhos históricos sobre a conquista, o povoamento e a formação étnica e social do ubertoso vale”.


Manoel Severo e Dimas Macedo no Cariri Cangaço Lavras da Mangabeira


Além de farta produção em jornais e revistas do Ceará e de outros Estados, publicou Joaryvar Macedo os seguintes livros: Caderno de Loucuras – 1965; Discurso de Orador Oficial da Turma (1968); Apresentação de Fagundes Varela (1971); Os Augustos (1971); Otacílio Macedo (1972); Um Bravo Caririense (1974); O Poeta Lobo Manso (1975); Templos, Engenhos, Fazendas, Sítios e Lugares (1975); A Estirpe da Santa Teresa (1976); Pedro Bandeira, Príncipe dos Poetas Populares (1976); Fagundes Varela e Outros Rabiscos (1978); Influência de Portugal na Formação Étnica e Social do Cariri (1978); Origens de Juazeiro do Norte (1978); Presença Inconcursa de Norte-Rio-Grandenses na Colonização do Cariri (1979); Composições Poéticas de Hermes Carleial (1979); O Contingente Paraibano na Colonização do Cariri (1980); Autores Caririenses (1981); Lavras da Mangabeira – dos Primórdios a Vila (1981); Alencar Peixoto, Um Clássico (1981); Pernambuco nas Origens do Cariri (1981); Orações Acadêmicas (1983); O Talento Poético de Alencar e Outros Estudos (1984); São Vicente das Lavras (1984); Um Vernaculista e um Poeta (1985); Povoamento e Povoadores do Cariri Cearense (1985); Discursos Acadêmicos (1986); Lavras da Mangabeira (1986); Temas Históricos Regionais (1986); Ocorrências e Personagens (1987); Antônio Lobo de Macedo: o Homem e o Poeta (1988); Império do Bacamarte (1990); Ensaios e Perfis (2001); e Na Esfera das Letras (2010).

Da bibliografia acima, dois livros tão-somente seriam suficientes para dignificar a reputação de Joaryvar Macedo como um dos nossos grandes historiadores. Trata-se de A Estirpe da Santa Teresa e de Império do Bacamarte, sem a necessidade de outros comentários, bastando mencionar que, com essa última obra, Joaryvar Macedo “estabeleceria um novo marco na historiografia política no nosso Estado, oferecendo aos cientistas dessa área e aos estudiosos dessa temática sociológica o mais completo ensaio do gênero até hoje escrito no Nordeste brasileiro”, ainda segundo F. S. Nascimento.

Joaryvar Macedo consolidou sua formação cultural estabelecido numa região e tratando quase que exclusivamente da temática histórica do Cariri, o que não o impediu de ter “uma visão histórica do Brasil através da região em que viveu”. Transferindo-se para Fortaleza, em 1983, desempenhou, inicialmente, o cargo de Assessor do Presidente do Conselho de Educação do Ceará. Em seguida, viria a exercer as funções de Secretário de Cultura e Desporto do Estado do Ceará e as de Presidente do Conselho Estadual de Cultura, tendo sido eleito, em 1986, para a Academia Cearense de Letras, e, posteriormente, para o quadro dos sócios efetivos do Instituto do Ceará.

Região do Cariri, sul do estado do Ceará

Professor da Universidade Regional do Cariri – URCA e chefe do seu Escritório em Fortaleza, Joaryvar Macedo foi ainda membro do Conselho Estadual de Educação. Foi, outrossim, um dos raros escritores cearenses a ser agraciado, pelo Governo do Estado, com a Medalha José de Alencar, honraria máxima a que um intelectual pode aspirar na Terra de Iracema. Sócio efetivo, correspondente ou honorário de várias instituições culturais, nacionais e internacionais, e detentor de vários tributos e comendas, Jorayvar Macedo faleceu em Fortaleza, aos 29 de janeiro de 1991, constituindo a sua morte uma das perdas de monta para a nossa cultura literária e historiográfica.

Em vida, foi Joaryvar Macedo a própria história do Cariri se movimentando, expressando-se em gestos e palavras, dimensionando-se nas páginas dos livros e opúsculos que nos legou e nos trabalhos esparsos respingados na imprensa caririense e na Revista do Instituto do Ceará, cujas páginas enriqueceu com a percuciência das suas observações. “Homem calmo, de sólida cultura, não sabe fazer alarde pessoal dos seus conhecimentos. É valor autêntico da cultura caririense que começa a espraiar-se por aí afora”. Dele disse o saudoso escritor J.de Figueiredo Filho quando, em data solene para a história das letras sul-cearenses, o recebeu como membro efetivo do Instituto Cultural do Cariri.

Sem nenhuma dúvida, foi Joaryvar Macedo uma das personalidades mais ilustres das letras cearenses e um dos mais eruditos historiadores do Ceará, cuja formação histórica pesquisou com a argúcia e o devotamento de um beneditino. Em todos os seus trabalhos de pesquisa Joaryvar Macedo primou por um estilo eloquente. E sempre que expendiu juízos em torno de fatos históricos ele o fez com a melhor clareza de raciocínio. A sua linguagem literária revela-se, em todo o seu percurso, recheada de filamentos retóricos, demonstrando-nos o seu autor possuir a dotação de um clássico, sendo ele um moderno.

Dimas Macedo
Fonte: http://dimasmacedo.blogspot.com.br/