A Valentia de Zé Menino - Memórias do Cangaço Por:Valdir José Nogueira

Capela do povoado de São Francisco, local de batismo de Virgulino Ferreira da Silva, o famoso cangaceiro Lampião. Hoje, a vila e a capela estão debaixo de vários metros cúbicos de água, submersas pela barragem de Serrinha construída na década de 90.

Em 10 de julho de 1890, o Governo Provisório do Estado de Pernambuco, usando da atribuição que lhe confere o Decreto nº 7, de 20 de novembro de 1889, resolve criar a Comarca de Belmonte, com sede na povoação de São Francisco, a qual se comporá da Freguesia de Belmonte e do distrito policial da Penha, da Comarca de Floresta. Fizeram-se as necessárias comunicações. Vila histórica, secular, antigo distrito de Serra Talhada, possui ligação muito forte com o município de Belmonte por ter sido sede de sua Comarca em 1890, e por ter sido sede também do 2º Distrito de São José de Belmonte no ano de 1895, durante a gestão do Prefeito, o Cel. José Pereira de Aguiar.

Vinda do primeiro quartel do século XIX, de uma fazenda de igual nome, fundada pelo capitão Francisco Pereira da Silva, a Vila de São Francisco, hoje extinta, existiu como um dos distritos mais prósperos de Serra Talhada, antiga Vila Bela, com grande tino para o comércio. A vila chegou a ter uma feira por semana, onde boa parte dos moradores da região convergia para o lugar para fazer compras e comercializar seus produtos.

Palco de tantas lutas entre Pereiras e Carvalhos, ai entraram em cena: Né Pereira ou Né Dadu, Sinhô Pereira, Luiz Padre, os Futuqué, e outros mais. Porém, é oportuno lembrar de um dos mais curiosos personagens dessa movimentada fase da tradicional peleja entre os velhos clãs do Pajeú: Zé Menino, irmão de Né Dadu e de Sinhô Pereira, o qual era paralítico e vivia sentado em um couro-de-boi, todavia, valente feito uma fera acuada.


Certa vez, em São Francisco, quando a vila foi invadida por 300 homens armados dos Futuqué (os Carvalhos),para acabar com a raça dos Pereira ali existente, o tiroteio teve duração de um dia e meio. Na defesa, dentro do casarão da família, estavam Né Dadu, seus irmãos (inclusive Zé Manino), seus primos (os Valões) e alguns agregados, ao todo apenas 24 ou 25 pessoas. Isso para enfrentar 300 homens fortemente armados. A salvação deles todos estava na coragem de cada um. Durante certa hora, Né Dadu mandou a tropa preparar os punhais, para morrerem todos num corpo a corpo verdadeiramente suicida. Em auxílio dos acuados, corre o coronel Manoel Pereira Lins (Né da Carnaúba), com sua gente, mas a situação ainda era bastante crítica para os Pereira. E somente quando surge em campo o cel. Antônio Pereira (filho do Barão do Pajeú), seguido por 19 capangas, fazendo um alarde da gota serena, é que os Futuqué das Piranhas, Umburanas e Várzea do Ú, pensando ser um exército que se aproximava, dão de ré e desistem da luta, por enquanto apenas.

Durante todo o tiroteio, Zé Menino, com um rifle nos braços, quando a coisa fica preta de um lado, pedia que lhe puxassem o couro-de-boi e o colocassem em uma das “torneiras” da casa, e dali mandava fogo contra os Carvalhos (os Futuqué). Quando o negócio apertava do outro lado, puxavam Zé Menino outra vez, para nova “torneira”, e assim, sem fraquejar em momento algum, o herói paralítico lutou durante um dia e meio, sem dormir, sem comer nem urinar.

Zé Menino, cujo nome de batismo era José Pereira da Silva, foi casado com Virtuosa Pereira Nunes (Tiló), filha de Deodato Pereira da Silva e Filadélfia Pereira da Silva. Esta, viúva, faleceu na vila de Bom Nome em 24 de agosto de 1976, aos 89 anos de idade.

Valdir José Nogueira
Pesquisador - Conselheiro Cariri Cangaço
São José de Belmonte, PE

Aracaju Recebe Festa de Posse dos Membros da Academia Brasileira de Letras e Artes do Cangaço


Presidente da ABLAC, Archimedes Marques
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Aracaju, capital sergipana, acolhe na noite desta sexta-feira, dia 13 de Março de 2020, a posse oficial dos membros titulares, beneméritos e correspondentes, da ABLAC - Academia Brasileira de Letras e Artes do Cangaço. A ABLAC, foi criada e lançada oficialmente na noite do dia 25 de julho de 2019 no auditório do Hotel Lagoa Lazer, dentro da Programação Oficial do Cariri Cangaço 10 Anos na cidade de Juazeiro do Norte, no Ceará.
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O primeiro presidente do ilustre sodalício é o pesquisador e escritor sergipano, Archimedes Marques, também sócio da SBEC e Conselheiro do Cariri Cangaço. A ABLAC apresenta como acadêmicos fundadores representantes de oito estados da federação, sendo o estado de Pernambuco com 6 membros: Ana Lucia Granja de Souza, Luiz Ruben F. de A. Bonfim, Antônio Vilela de Souza, Euclides José de Almeida Junior, Geraldo Ferraz de Sá Torres Filho e Lourinaldo Teles Pereira Lima, Sergipe com 5 membros: Archimedes José Melo Marques, Elane Lima Marques, Raul Meneleu Vasconcelos, Osvaldo Abreu e Rangel Alves Costa. Seguem os estados do Ceará também com 5 componentes: Aderbal Simões Nogueira, Ângelo Osmiro Barreto, Juliana Pereira, Manoel Severo Gurgel Barbosa e Severino Neto de Souza, Bahia com 4 integrantes: Gilmar Teixeira Santos, João de Sousa Lima, José Bezerra Lima Irmão e Voldi Ribeiro, Paraíba com 3 - Bismarck Martins de Oliveira, Jorge Remígio e Narciso Aparecido Dias, o estado do Rio Grande do Norte com 2 membros: Ivanildo Alves da Silveira e Francisco Honório de Medeiros Filho, o estado de São Paulo com 1, José Sabino Bassetti como também o estado do Piauí com 1:Leandro Cardoso Fernandes.
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A solenidade de posse acontece no auditório Padre Melo da UNIT Universidade Tiradentes no campus Farolândia no bloco D, Rua Lagarto, 236 - Centro, Aracaju - Sergipe. 

Veja a Relação Completa dos Imortais da ABLAC


GECC Realiza Reunião em Fortaleza

Reunião do GECC em Fortaleza
Aconteceu na noite desta ultima terça-feira, dia 10 de março de 2020, mais uma concorrida reunião do GECC - Grupo de Estudos do Cangaço do Ceará, em Fortaleza. Tendo a frente seu presidente;  pesquisador e escritor Ângelo Osmiro, também Conselheiro do Cariri Cangaço, o encontro  contou com palestra sobre os últimos lançamentos sobre a temática e sobre alguns personagens dessa temática tão envolvente de nosso nordeste. O encontro aconteceu na residencia do professor Melquíades Pinto Paiva.
O GECC é um dos mais destacados e antigos grupos de estudo do cangaço  no Brasil, com atividades iniciadas ha mais de 20 anos, possui um legado marcado pelo aprofundamento das pesquisas de campo, apoio aos novos pesquisadores e escritores e o fomento ao estudo sério e responsável da temática cangaço e correlatos. 
Reunião GECC - Fortaleza, Ceara -10 de Março de 2020

Um Debate sobre Antropometria, à Sombra dos Buritis Por: Sérgio Dantas

Dr Sérgio Dantas

A História tem seus caprichos. Como se trata de um ramo no compartimento das ‘Ciências Humanas’, não se pode querer dela a precisão de um cálculo matemático. Em História, pode-se nunca atingir a verdade desejada em torno de um evento, mas, tão somente, a verossimilhança dos fatos vários que o geraram. Por tal, a presença de um mínimo de metodologia é necessária para narrar os fatos humanos da forma mais próxima ao real. Este seria o objetivo principal a perseguir.

No caso da reconstituição dos episódios ligados ao cangaço, claro, aplicam-se as mesmas regras utilizadas em História, já que aquele é um compartimento desta.Mas, voltando aos caprichos desta Ciência, vamos recuar um pouco no tempo. Na manha de 28 de julho de 1938, quando as cabeças de Lampião, ‘Maria Bonita’ e mais nove cangaceiros chegaram a Piranhas, em Alagoas, foi um alvoroço. Após esteticamente arrumadas na escadaria da Prefeitura daquela cidade, e expostas à curiosidade pública, todos queriam ver de perto aqueles estranhos ‘troféus’ – principalmente, a cabeça de Lampião. O homem que parecia invencível, que possuía – na crença e no imaginário popular – o ‘corpo fechado’ para balas, que tinha poderes divinatórios e que reinava absoluto no sertão havia quase vinte anos, teve decepada a sua cabeça. Era difícil acreditar que tal um dia acontecesse.

Assim, naquela manhã de julho, os incrédulos – e não eram poucos – tiveram a oportunidade de ver perto a cabeça do cangaceiro famoso. Alguns até foram mais ousados, e levantaram a pálpebra do olho direito daquele resto humano, para constatar a existência do leucoma, a ‘pinta branca do olho’, que era um dos sinais marcantes do rei-do-cangaço: -“a prova está aí!” – muitos teriam dito.

A maioria reconheceu, naquele momento, a cabeça de Lampião. Houve, claro, um ou outro recalcitrante.

Afinal, discordar é próprio da natureza humana. Assim foi na cidade de Piranhas, na atual Delmiro Gouveia, em Santana do Ipanema, e em todos os outros lugares por onde passou a procissão macabra.
Naquele dia, porém, ninguém teve acesso a película cinematográfica feita pelo sírio-libanês Jamil Ibrahim Botto (o Benjamim Abraão). Ninguém, pois, pode fazer uma comparação direta entre alguns ‘takes’ do filme feito em 1936, com a cabeça que ali estava à mostra. A película, de efeito, havia sido confiscada pela polícia política de Getúlio Vargas e não fora divulgada como pretendia o aventureiro.

Todavia, décadas mais tarde, quando da edição do Cariri Cangaço 2011, eis que são apresentados novos fragmentos inéditos – e devidamente restaurados - da importante película histórica. Em certo momento, pois, vemos Lampião se dirigir contra a lente da câmera e, lentamente, tirar o seu chapéu de couro. Ali, naquele instante, tem-se uma visão plena do rosto do cangaceiro em 1936. Eis o fotograma:


Este quadro, em particular, nos chama a atenção para alguns detalhes. Em primeiro lugar, a calvície já acentuada do cangaceiro, bem marcada por falha na margem centro-direita da testa (do ponto de vista do observador). Apesar da má qualidade da imagem, observa-se também, por trás da lente dos óculos, o leucoma do olho direito. Vê-se o direcionamento dos cabelos, além da formação craniana, esta nitidamente dolicocéfala (largura frontal medindo mais ou menos 4/5 da altura do rosto).
 A fim de instigarmos o debate, resolvemos lançar mão de ferramentas digitais de imagem para chegarmos a algumas comparações. Na imagem abaixo, através da aplicação da ferramenta de ‘contraste’, do programa ‘Corel Photo Paint’, conseguimos deixar mais evidente o leucoma, além de suprimir a parte inferior dos óculos, deixando o rosto mais livre para análise:

Em um passo além, elidimos praticamente toda a estrutura dos óculos, e demos realce à sobrancelha direita do cangaceiro. Com o número 01, marcamos o avivamento da referida sobrancelha:

Seguindo, marcamos no fotograma o número 03, para indicar a ausência de rugas de expressão neste ponto. Não há compressão da pele neste pedaço do rosto. Não a mínima evidência de sobrecenho carregado. E esta marcação servirá como comparativo em uma imagem mais abaixo. Vejamos:
A partir deste ponto, comecemos a fazer as comparações. Além do fotograma já aludido, vamos utilizar um detalhe da famosa foto das cabeças dispostas na escadaria da Prefeitura de Piranhas. O objetivo é comparar características contidas na cabeça do rosto do cangaceiro quando vivo, com outras existentes na cabeça exposta naquela manhã de julho de 1938.
As duas imagens estão postas lado a lado. De início, observem-se as numerações (a) e (b). Em comum entre as duas imagens, temos uma marca de calvície acentuada no terço médio esquerdo da cabeça, com marca incisiva em direção à parte posterior do crânio. Neste ponto, há um compasso simétrico entre as duas imagens, ao que nos parece.
 Com o sinal “\/”, marcamos a saliência do osso esfenóide direito, característica que também nos parece igual em ambas as imagens. A largura do rosto também não foi desconsiderada, de modo que a marcamos em uma escala 01_______02, a qual é rigorosamente igual nas duas fotos, como se vê na ‘régua’ colocada abaixo de ambas. Também se nota a INEXISTÊNCIA das rugas de expressão – ou enrugamento da pele -entre as sobrancelhas. O fato se verifica em ambas as imagens. 
Agora, em mais uma etapa, ‘importamos’ a imagem do rosto sem vida, e o aplicamos no fotograma de 1936, usando o sentido de A para B, como indicado pela seta. O encaixe da imagem, sem sombra de dúvida, parece perfeito. Não há sobras ou excessos pela inserção .

O único ponto que não mostrou simetria, seria a parte inferior do rosto; o ‘queixo’. Veja-se que as marcações 03 e 03A mostram esse descompasso. No entanto, neste particular havemos de nos valer da história. De efeito, ainda na Grota do Angico, um soldado (possivelmente José Panta Godoy) disparou um tiro de fuzil na cabeça do cangaceiro, quando este já se encontrava morto. A prova de tal fato está na imagem de número 05, lado direito, onde se percebe - ao lado esquerdo de quem olha -, grande quantidade de massa encefálica no orifício de saída do projétil.
Com o tiro disparado contra a cabeça, indubitavelmente, foram lesionados os ossos ‘temporal’, ‘esfenóide’ e ‘zigomático’, cedendo os ‘malares’, no sentido ‘de baixo para cima’, horas mais tarde, quando a cabeça foi colocada no batente da escadaria, em Piranhas. O rosto cedeu, sendo comprimido em função da quebra da estrutura óssea. Assim, o queixo um tanto proeminente outrora, deixa de existir e, em seu lugar, encontramos uma espécie de ‘dobra epitelial’, logo abaixo da boca. 

E em relação a esta (a boca), note-se que, em ambas as imagens, apesar de apresentar sentidos diferentes (côncavo em uma; convexo em outra), a medida da boca é rigorosamente a mesma. Na imagem abaixo, destacamos em um retângulo a boca na imagem do cangaceiro vivo (c), e, em seguida, a recortamos e a aplicamos embaixo da fotografia da cabeça já decapitada (d). A simetria é rigorosa; as medidas são literalmente iguais.


Repetindo a imagem - agora sem a marcação na imagem da esquerda - para que a comparação possa ser feita de forma livre.




Desta forma, como deixei claro no início deste modesto artigo, fica aberto o debate em torno da certeza – ou não – se a cabeça exposta na escadaria da Prefeitura de Piranhas seria realmente a de Lampião. Sabendo de histórias que recrudescem aqui e ali, dando conta de uma sobrevida do rei-do-cangaço – após 1938 - em Goiás, em Mato Grosso, em Minas e até na Paraíba, cabe, então, a pergunta:
“Teria Lampião sido substituído por um sósia rigorosamente igual? Um sósia perfeito? Fica lançada a questão!!
Saudações!
Sérgio Augusto de Souza Dantas, pesquisador - Natal, RN
Fonte: Lampião Aceso, de Kiko Monteiro

Virgulino Cartografado, de Guerhansberger Tayllow Por:Yuri Sousa


Existem diferentes concepções de História, dentre às quais muito me agrada a ideia de História como "a arte de inventar o passado", reflexão desenvolvida por Durval Muniz. Essa concepção nos distancia do ideal positivista, da construção de uma narrativa histórica objetiva, que reconstitua o passado tal como ele foi. Ao historiador, cabe a construção de uma narrativa; de um enredo erigido sob o diálogo de suas fontes documentais, com as mais variadas bases teóricas, como descreveu Durval: Nós, historiadores, podemos fazer disso a delimitação de nosso espaço, tomarmos a História como uma proto-arte próxima da Ciência e da Filosofia, podendo manter, com estas áreas do conhecimento, diálogo permanente, enfatizando, conforme as problemáticas e temáticas a serem estudadas em cada momento, um destes seus aspectos. 

Quanto a esta construção "artística", em diálogo principalmente com a Geografia e em certa medida com a Filosofia Foucaultiana e Deleuziana, Virgulino Cartografado se apresenta como um livro instigante, por sua beleza e por sua assertividade científica; com tal assertividade científica não quero me referir ao alcance de um conhecimento concluído e objetivo, e sim ao fato de que o aporte teórico da pesquisa, parece ter sido feito especialmente para embasar esta construção. 


Virgulino Cartografado, certamente causará um desafio aos seus leitores, considerando principalmente, aqueles que já possuem uma iniciação nos estudos do cangaço, ao acolher a recomendação que faz Durval Muniz logo no prefácio, a de que abandonemos nossa zona de conforto e nos disponhamos a colocar nossos pensamentos em movimento, principalmente nós, que estamos acostumados com toda a literatura referente ao cangaço(e possuímos certo apego a ela), em sua busca por construção de identidades, sejam elas de heróis ou de bandidos(dicotomia identitária que inclusive permeia livros como "A derradeira gesta", livro de cunho acadêmico e "O canto do acauã", livro de cunho memorialista), com sua vontade de verdade, buscando a perfeita reconstituição do passado, a tão famosa "verdade dos fatos ou verdade histórica"; sem falar em nosso apego a certos autores como Frederico Pernambucano e Gustavo Barroso; nos deparamos ao longo de boa parte do texto com críticas frontais às ideias esboçadas nos livros destes escritores, especialmente à ideia de isolamento, o que certamente causa um desconforto inicial nos leitores(grupo este, em que me incluo). 

A obra é também permeada por um espírito desconstrucionista, com ressonâncias de "A invenção do Nordeste e outras artes", que é uma ideia que não me agrada tanto(deixo claro que compreendo as intenções da tese do professor Durval, tendo em vista que nossa cultura em si e simultaneamente as representações que são construídas a seu respeito, sobretudo por e para aqueles que estão fora dos limites geográficos e ideológicos de nossa região, possui vários problemas, tais como a ideia de que vivemos em uma eterna seca e o da virilidade/masculinidade, que como percebemos na história do cangaço, causou destruição de vidas e de famílias, tendo como exemplo bem próximo, a da família de nosso protagonista. No entanto, acredito que esta identidade cultural, que não deve ser é claro, uma imposição ontológica, e desde que não corrobore com a violência e a vitimização, seja importante), o que tem influência direta na linguagem usada nas críticas, que não são agressivas, mas que em dados momentos soam pejorativas. Todavia, abro um parêntesis para ressaltar que o autor é um experiente estudante do tema, e em termos de publicação, este não se trata de seu primeiro trabalho, tendo estabelecido contato com uma grande bibliografia a seu respeito, conhecendo bem os problemas destes escritos; conhecendo sua qualidade ou falta de qualidade; tendo adquirido por este percurso, autoridade para nos oferecer seu julgamento, refletido na linguagem usada em suas considerações.

Guerhansberg Tayllow e Narciso Dias em dia de Cariri Cangaço

Quanto aos pontos específicos desenvolvidos por Guerhansberger, em parceria com o pensamento de Deleuze e Guatarri, destaco a ideia de máquina de guerra nômade, que parece ter sido feita especialmente para o bando de Lampião. Uma máquina que funciona paralelamente à máquina estatal e à margem de seu controle. Aos estudantes do tema, não raro se faz o questionamento maniqueísta: Lampião era herói ou bandido? Por conta do presente livro, em uma próxima oportunidade em que for questionado nestes termos, terei a resposta "na ponta da língua": Lampião era um guerrilheiro, porém, sem uma ideologia política; portanto, as suas "conquistas" serviam unicamente para alimentar a sua existência e a dos componentes de seu bando, se configurando em uma ação egoísta. A abordagem das táticas de guerra de Lampião, também é algo que chama atenção, tratando sobre sua ação "conservadora" e não, covarde, ao fugir de determinados combates; o seu uso do substrato material espacial; o fato de o bandoleiro não possuir um território sedentário para defender; entre outras considerações sobre sua guerrilha. 

Salta aos olhos também, neste estudo, a capacidade política(e micropolítica) de Lampião, que em termos de articulação e construção de alianças, pouco se diferencia de nossos políticos atuais(os do passado também), em suas incontáveis e sujas conexões em rede, se diferenciando apenas em um ponto, que seria no fato de que o Capitão não tinha nenhuma obrigação com a sociedade que o rodeava, uma vez que era um fora da lei, o que não acontece com nossos parlamentares, que sim, possuem tais obrigações, e por esse motivo, vez ou outra aparecem com mínimas benfeitorias. 

Uma vez mais, reitero a beleza teórica que migra pro estético, na obra ora resenhada. Todo o aporte teórico parece ter sido feito especialmente para a construção desta dissertação, tal é a precisão das urdiduras feitas em seu interior. Me recordo de Ariano Suassuna, que ao prefaciar o livro "Estrelas de Couro - a estética do cangaço" de Frederico Pernambucano, diz que fora da literatura, se pudesse ter escolhido uma obra para ter escrito, esta obra seria Estrelas de Couro, que cá entre nós, assim como outros escritos de Frederico, possui uma acentuada beleza literária. Parafraseando-o, eu digo que se pudesse escolher uma obra para ter escrito dentre tantas que li e conheço, esta seria "Virgulino Cartografado"(é claro, estou muito longe de ser um Ariano, mas vale a ideia que esta declaração encerra). 

Yuri Oliveira Sousa - Caxias - MA 
Acadêmico de Pedagogia

Comenda Patativa do Assaré 2020

Josenir Lacerda recebe Comenda Patativa do Assaré
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Assaré, no cariri cearense, testemunhou a extraordinária cerimônia de entrega da Comenda Patativa do Assaré. O evento comandado pela vice-governadora Isolda Cela e pelo secretário de cultura do Ceará, Fabiano Piúba, aconteceu nesta última quinta-feira, dia 5 de março de 2020, durante a festa de comemoração do nascimento de grande poeta cearense, Patativa do Assaré, que faz parte do Calendário Cultural Oficial do Estado do Ceará. O evento; aberto ao público; homenageia e reconhece o mérito de personalidades do universo da cultura e da arte no estado do Ceará.
Com indicações diretamente do público, através da rede mundial de computadores, com o acompanhamento e justificativa do mérito dos nomes sugeridos e os indicados avaliados por uma Comissão de Seleção composta por sete membros: três integrantes do Conselho Estadual de Política Cultural do Ceará (CEPC); dois integrantes da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará; um representante da Universidade Regional do Cariri (URCA); e um representante da Fundação Memorial Patativa do Assaré. 
"A condecoração visa promover o reconhecimento de pesquisadores, artistas, poetas e cantores populares e tradicionais que, assim como fez o grande poeta popular Patativa do Assaré, por meio de sua obra ou atuação, levam adiante os saberes e os fazeres da cultura popular."
Foram agraciados com a Comenda Patativa do Assaré 2020 o cineasta Rosemberg Cariry, o jornalista e pesquisador de cultura popular Gilmar de Carvalho, a cordelista cratense Josenir Lacerda, o cantor e compositor Raimundo Fagner e o jornalista e pesquisador de manifestações folclóricas Oswald Barroso.
"Dia de entrega da Comenda Patativa do Assaré! Dia memorável! Somos gratos por ter no enredo de nossa história a figura da poetisa Josenir Lacerda que muito nos honra a cada título recebido, ao ser citada,lembrada e homenageada. Estamos muito felizes com esse presente, ser agraciado pela comenda que leva o nome deste saudoso poeta popular que cantou tão bem o sertão, com sua genialidade, memória incrível e rimas perfeitas. Cantou o popular e o erudito. Vivia na poesia. Sua fala era poesia! Viva Patativa! Viva Assaré! " CordelEArte.
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 Gilmar de Carvalho, Oswald Barroso e Josenir Lacerda
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Para o curador do Cariri Cangaço, Manoel Severo, "a entrega da comenda Patativa do Assaré já é motivo de jubilo e festejo, e ainda por cima consolidar o reconhecimento a esta plêiade de homenageados da estatura de Gilmar de Carvalho, Oswald Barroso, Fagner, Rosemberg e da minha querida e estimada amiga do coração, cordelista Josenir Lacerda, é simplesmente sensacional, meu abraço fraterno e de reconhecimento a Miguel e a toda Academia  de Cordelista do Crato, Avante sempre ".
Antônio Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré, nasceu no dia 05 de março de 1909, na Serra de Santana, no município de Assaré. Foi cantador, repentista, compositor e um dos maiores poetas populares do Brasil. Por meio de sua poesia, foi intérprete e porta-voz das tradições e valores do sertão e do povo excluído de seu tempo. Nos seus 93 anos de vida (faleceu em 8 de julho de 2002), escreveu sobre amor, sobre o cotidiano e os dramas do sertanejo, sobre as dificuldades enfrentadas com a seca e sobre o desafio que as novas tecnologias representa às formas tradicionais de sociabilidade do sertão. Com a medida certa entre a emoção e a razão, nunca silenciou diante de censuras, nem mesmo durante o regime ditatorial. Colocou também sua poesia a serviço de lutas sociais, denunciando as desigualdades, a situação dos meninos de rua, reclamando por Reforma Agrária, reivindicando as eleições diretas e a renovação da política. Ganhou popularidade nacional e reconhecimento internacional como um dos maiores nomes da poesia brasileira por meio de diversas premiações, títulos e homenagens.
"Entre os agraciados com a Comenda Patativa do Assaré 2020, temos a poetisa Josenir Lacerda, que é destaque e referência entre poetas, cordelistas e simpatizantes.Sempre que penso e falo em Josenir Lacerda, me vem a palavra zelo, pois além de inspirada, Josenir Lacerda é cuidadosa e zelosa ao extremo com suas criações. Não foi por acaso que a poetisa recebeu do poeta e instrumentista Ulisses Germano o título de Dama dos versos encantados. De Josenir, eu ouvia inebriada os relatos de suas conversas com Patativa do Assaré, aquelas conversas com certeza foram sementinhas que vingaram e hoje a poetisa colhe os bons frutos. Nesse pequeno relato quero dizer da minha admiração pelo poetisa Josenir Lacerda, do quanto fico feliz com seu sucesso, com esse reconhecimento e como amiga quero reforçar que mesmo distante fico na torcida e aplaudindo de pé suas merecidas conquistas. As portas sempre se abrirão para quem tem a generosidade de abrir sua porta, acreditar e exercer a partilha. Josenir Lacerda, você tem, meu carinho, meu respeito e minha gratidão.Meu abraço," revela a cordelista Dalinha Catunda.
Entrega da Comenda Patativa do Assaré
Governo do Estado do Ceará
Assaré, cariri cearense - 05 de março de 2020

Dona Bárbara... Por:Valdir Nogueira

DONA BÁRBARA PEREIRA DE ALENCAR, A SERTANEJA “INIMIGA DO REI” QUE SE TORNOU A PRIMEIRA PRESA POLÍTICA DO BRASIL
Foram dias pendurada no lombo seco de um cavalo, com os braços acorrentados, até que Bárbara de Alencar percorresse quase 500 km entre o Crato e o Quartel da 1ª Linha em Fortaleza, onde seria encarcerada por oito meses por ter declarado a independência de uma pequena vila na capitania do Ceará de Portugal. Avó de José de Alencar, Dona Bárbara foi uma insurgente que confabulou pela independência e pela república, podendo ser considerada a primeira presa política do Brasil. Atuou no Crato, mas nasceu em Exu (PE).
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Dona Bárbara de Alencar foi um dos expoentes da Revolução Pernambucana de 1817, movimento de oposição à monarquia que fundou uma república em parte do Nordeste mais de 70 anos antes de o marechal Deodoro da Fonseca dar fim ao Segundo Reinado e transformar o Brasil independente em República.

Valdir Nogueira, pesquisador
Conselheiro Cariri Cangaço - São Jose de Belmonte-PE

A Ascensão Politica do Major Inácio do Barro Por:Jose Tavares de Araújo Neto

 José Ignácio de Sousa, conhecido por major Zé Ignácio do Barro, construiu o seu império à sombra do coronel Domingos Leite Furtado, o todo poderoso chefe político de Milagres, de quem, ainda jovem, se tornou amigo e seu braço armado. A própria fazenda Barro, que na prática passou a ser seu sobrenome, foi adquirida através de compra ao coronel Domingos Leite Furtado, que dispensou fiador quando próprio pai do comprador, o sr. Lino José Antonio, se negou a avalizar a negociação. Aliás, Zé Inácio sempre teve uma convivência muito conturbada com o pai, inclusive eles já haviam tido um romance com uma mesma mulher.  A apatia era tanta que mesmo após a ascensão social de Zé Inácio, sr. Lino, destacado proprietário de terras na região do povoado de Cuncas, tratava seu filho por “coronel de merda”.

Em uma sociedade em que a voz do bacamarte falava mais alto, o major Zé Inácio já havia adquirido visibilidade, prestígio e respeito a partir de 1908, desde quando comandou a invasão a Aurora com objetivo de destituir Antônio Leite Teixeira Neto (coronel Totonho Leite ou Totonho do Monte Alegre) do cargo de intendente (atualmente correspondente a prefeito). 

Em 17 de dezembro, o coronel Totonho havia mandado a polícia atacar a fazenda Taveira, propriedade do capitão José dos Santos, onde se encontrava de passagem a fazendeira e líder política Maria da Soledade Landim (dona Marica Macêdo do Tipi), ambos seus adversários políticos.  Neste episódio, que ficou conhecido como “O Fogo de Taveira”, foi baleado e morto o garoto José Antônio de Macêdo, filho de dona Marica Macêdo, com 13 anos de idade. 

Em represália, dona Marica foi buscar apoio junto ao coronel Domingos Furtado, chefe político da vizinha Milagres. Em 23 de dezembro, o major Zé Inácio, comandando um exército de 700 homens, invadiu a Vila de Aurora a fim de destituir o intendente. O coronel Totonho, que a esta altura já havia se evadido, foi de imediato exonerado, sendo dona Marica declarada a chefe política, que indicou o coronel Cândido Ribeiro Campos (Cândido do Pavão) para ocupar o cargo de Intendente.

José Tavares em dia de Cariri Cangaço

A fim de demonstrar sua força no sul cearense, em 4 de outubro de 1911, dia de sua posse como primeiro intendente do recém-emancipado município de Juazeiro, Padre Cicero reuniu os chefes políticos da região para propor um ambicioso pacto de paz. A proposta tinha o objetivo de selar um acordo entre os coronéis, com o compromisso de extinguirem por completo suas milícias, constituídas de jagunços cangaceiros, conforme mencionava o artigo sétimo do referido documento: “Cada chefe, a bem da ordem e da moral pública, terminará por completo a proteção de cangaceiros, não podendo protegê-los e nem consentir que os seus munícipes, seja sob que pretexto for, os proteja dando-lhes guarida e apoio”.

Este documento histórico, que ficou conhecido por “Pacto dos Coronéis”, foi subscrito por representantes de 17 municípios, dentre os quais a vila de Milagres, que a mando do chefe Domingos Furtado, se fez representada por seu primo coronel Manuel Furtado de Figueiredo e o emergente major Zé Inácio.  Como não poderia ser diferente, a iniciativa do Padre Cícero não obteve nenhum efeito prático. Os coronéis continuaram em pé de guerra, em infindáveis lutas pelo poder. Como evento histórico, serve com registro de uma boa iniciativa do Padre Cícero, como também registra um relevante capítulo na ascensão política do major Zé Inácio.

Jose Tavares de Araújo Neto 
Pesquisador, Pombal-PB
20/02/2020

Paulo Afonso, Onde o Brasil de Alma Nordestina se Encontra

Nossas fronteiras não são e nunca serão definidas pela geografia, mas pelo tamanho e a nobreza de nossos sonhos. Já estamos nos dedicando à agenda de nosso Espetacular Cariri Cangaço no iluminado 2020... Para todos vocês esperamos dá o nosso melhor...

Cariri Cangaço, onde o Brasil de alma nordestina se encontra

Cariri Cangaço Paulo Afonso
11 a 13 de Junho de 2020
Paulo Afonso - Bahia

GECC Festeja seu Programa Inaugural em Fortaleza


Fonte: You Tube Canal: Aderbal Nogueira - Cangaço

Um dos mais destacados e antigos grupos de estudo do cangaço  no Brasil, inaugurou seu mais novo programa na internet, explorando a temática. O GECC - Grupo de Estudos do Cangaço do Ceará, com mais de 20 anos de atuação inaugurou nesta última semana seu primeiro programa na rede mundial de computadores. Com a produção e expertise de Aderbal Nogueira em seu canal do You Tube, que ao lado de Ângelo Osmiro, presidente, e Manoel Severo; Curador do Cariri Cangaço protagonizaram o primeiro programa da série.

Para Aderbal Nogueira "o programa do GECC trará para os expectadores um conjunto qualificados de entrevistados, pesquisadores, escritores, estudiosos das temáticas do sertão". Já o presidente do GECC, Ângelo Osmiro, afirma:"Exploraremos não só o tema cangaço, mas todos os temas ligados ao estudo do sertão, como o messianismo, coronelismo, religiosidade, enfim, serão programas plurais". Manoel Severo, curador do Cariri Cangaço, lembra:"Os nossos amigos de todo o Brasil não perdem por esperar por essa nova empreitada do GECC, com certeza vem muita coisa boa por ai".

Programa do GECC
You Tube - Canal Aderbal Nogueira
22 de Fevereiro de 2020

Que venha o Cariri Cangaço Paulo Afonso Por:Antônio Galdino

Antônio Galdino e João de Sousa Lima

Tenho acompanhado pelas redes sociais a vinda - até que enfim - do Cariri Cangaço para Paulo Afonso. Em muitos anos, foram também muitas as tentativas para que isso acontecesse. Que bom que esse ano deu certo! Admiro o teu trabalho duro para resgatar valores preciosos, realmente grandes tesouros enterrados, elos importantes da cultura sertaneja, prédios, edificações de patrimônio histórico e cultural valiosíssimos, que viveram abandonados por anos, séculos e agora se mostram ao mundo, pela importância dos olhares que fazem o Cariri Cangaço, com a real importância que têm para que se compreenda, se estude melhor, as raízes sertanejas em muitos lugares.


O Cariri Cangaço, pelo elevado nível dos seus pesquisadores, que já resultou na criação de muitos livros, vídeos, publicações diversas, se transformou, desde aquele seu primeiro momento no Crato/Juazeiro/Barro, numa espécie de Universidade Aberta de Estudos do Sertão. Conte comigo, no site www.folhasertaneja.com.br e no jornal Folha Sertaneja que completa 16 anos neste mês de Fevereiro para divulgar o Cariri Cangaço como um todo e, de forma especial esta edição que acontecerá em Paulo Afonso nos idos de Junho deste ano, período junino, de festas tão marcantes no sertão e onde, certamente, o ritmo do xaxado, tida como a dança dos cangaceiros estará inserida no contexto da programação, nesta terra de Maria Bonita e também de beatos e coronéis. Sucesso, caro Severo!!! Abraço fraterno.

Antônio Galdino da Silva - presidente da Academia de Letras de Paulo Afonso
Diretor da Galcom Comunicaçõese Jornal Folha Sertaneja
16 de Fevereiro de 2020

O Dia que Nazaré Colocou Lampião para Correr Parte 2 Por:Luiz Ferraz Filho

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Como dito antes, em meio ao cerco da Coluna Prestes e do bando de Lampião, muitos acreditavam que Nazaré do Pico dessa vez iria ser incendiada. Porém, naquela madrugada de 20 de fevereiro de 1926, a fina flor dos nazarenos se reuniram no povoado para combater até a morte. Da Fazenda Ipueira, bem cedinho Lampião seguiu com destino ao povoado onde chegou tocando corneta e atirando para todos os lados. O primeiro tiro em defesa partiu de Aureliano de Souza Nogueira (Lero Conrado, depois casado com uma irmã do coronel Theophanes Ferraz Torres), que se encontrava na calçada de Antônio Freire. Entraram aí os defensores da terra em feroz luta. Em pleno fogo, Odilon Flor perguntou com quem estavam brigando, se era com os revoltosos da Coluna Prestes ou com Lampião. Respondeu o bandido que era com o bando dele, animando ainda mais o valente Odilon Flor. Então, saltaram no meio da rua para combater os cangaceiros e o cancão piou. 

Ricardo Ferraz passa às mãos de Luiz Ferraz Filho o Diploma do Cariri Cangaço

Euclides Flôr partiu para a casa dele pensando que estava fazia sem ninguém. Chegando lá, encontrou o sogro Antônio Gomes Jurubeba e o primo João Jurubeba defendendo a casa. Dos fundos das casas, David Jurubeba brigava animado dizendo: - Eu pensava que estava brigando com homem, mas estou perdendo meu tempo brigando com um ladrão de bode de Zé Saturnino. O bandido ouvindo isso deu total carga no combate. A casa de Abel Thomaz estava sendo defendida por ele próprio e por Lúcio de Souza Nogueira. Por ser uma casa bem próxima da igreja, foi a mais atingida, pois os cangaceiros usavam a traseira da igreja para atirar em direção a casa. 

Em pleno fogo, Antônio Ferreira (irmão de Lampião) passava ao redor da casa de Gomes Jurubeba dizendo: - Velho Gomes, agora você vai tomar leite no inferno , que matamos seu gado todo e daqui a pouco você vai morrer sangrado. Na retaguarda, Euclides Flôr e Odilon Flôr comandavam as ações. Chegaram depois para reforçar João Domingos Ferraz, Manoel Jurubeba, David Jurubeba, Pedro Gomes de Lira, Hercilio Nogueira e Manoel Gomes de Lira. Vendo que a resistência dos nazarenos era uma verdadeira fortaleza, Lampião tocou a corneta para recuar e os cangaceiros saíram correndo em plena caatinga. Antônio Ferreira correu tanto que perdeu as alpercatas de couro.


Lampião com raiva da carreira que deu dos nazarenos, foi tocar fogo nas fazendas de Euclides Flôr, João Flôr, Afonso Nogueira e Praxedes Capistrano. De lá rumou ele a Serra do Pico, onde se escondeu para planejar um novo dia que retornaria para tentar tocar fogo em Nazaré. Do alto da serra, Lampião avistou ele a força do povo nazareno e nunca mais teve a ousadia de tentar entrar em Nazaré do Pico. Foi o dia que o povoado colocou Lampião para correr. (FIM...)

(FONTE:LIRA, João Gomes de, - Memorias de Um Soldado de Volante, Pág. 259-278; NETO, José Malta de Sá, - David Jurubeba Um Heroi Nazareno, Pág. 143-151).

Luiz Ferraz Filho, pesquisador
Serra Talhada, Pernambuco